Puseram-te um selo na testa,
disseram: “Tu és o que arde”.
E tu, com a mão direita em festa,
cuspiste na outra face da tarde.
Mas o óleo que escorre da língua
não apaga o fogo interior.
Cada trincheira é uma míngua
que prende o mais sábio ao pior.
Não há cruzada sem cruz,
nem herói sem sombra no chão.
Despe a armadura de luz,
reconhece o teu próprio vulcão.
Pois o bem e o mal são gémeos
no ventre de cada existir.
E ser tolerante é não ter medo
de no outro o mesmo sentir.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo