“POVO – ARRAIA MIÚDA”!  PROVOCAÇÃO OU ELOGIO?

Marcelo Rebelo de Sousa deu origem a críticas ao dizer “Sem o povo, arraia miúda, não haverá Portugal”

Se considerarmos a frase, “sem povo, arraia miúda, não haverá Portugal”, ao lado da frase “eles comem tudo e não deixam nada”, a afirmação torna-se muito elucidativa e atemporal! A realidade permanece! Só a interpretação dos factos varia!

Esta frase de Fernão Lopes e tão bem retratada na personalidade de Fernão Mendes Pinto e tão bem descrita na sua obra “Peregrinação” continua a ser actual; em Peregrinação ele descreve-se (como expressão de um da arraia miúda) e descreve a realidade da vida asiática e europeia criticando também o colonialismo que se servia da religião para expandir, tal como faz hoje, já não em nome da religião, mas em nome da democracia e dos valores europeus!

De admirar é que tais frases sejam repetidas por políticos do sistema como se eles fossem inocentes ou cínicos e não fossem eles os actores responsáveis de um país, com muita pobreza envergonhada, que económica e socialmente continua na cauda da Europa.

Vivemos em tempos em que se procura embelezar a realidade factual com eufemismos linguísticos que nos ajudam a olhar para o lado da situação em que se encontra o mesmo grupo populacional que através dos tempos constitui a base da sociedade!

Pena e sintomático é que as expressões “povo”, “arraia miúda” sejam conotadas negativamente! Depreciativamente poderiam ser vistas as elites que constroem a sua aura social à base daquilo que se tira ao povo: a sua honra!

Os dançarinos do poder sabem que o pobre honrado se não tem uma casa farta engana a sua carência olhando para alguns enfeites artificiais da pátria. O olhar para cima, já eleva e até parece que descansa (1)!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo, https://antonio-justo.eu/?p=7616

(1)  Veja-se como tantos ministros e secretários de Estado passeiam pelo mundo gastando milhões fazendo do dia de Portugal um arraial público onde eles se festejam. Em que país se viu tal? Não chegam as embaixadas?

 

LIBERDADE A SER SUBORNADA NAS DEMOCRACIAS LIBERAIS

A Sociedade europeia aberta autossacrifica-se por negar os Padrões éticos que causaram a sua Evolução e Abertura

A democracia liberal deixa de oferecer garantias de humanidade e de sustentabilidade ao produzir uma crescente atitude político-social autoritária e uma postura de autodefesa autocrata que se serve de medidas legislativas e burocráticas limitadas a corrigir as desfigurações do sistema. Uma sociedade vital não pode limitar-se a ser aberta para o exterior e, ao mesmo tempo, destruir os padrões que a definem e lhe dão coerência a nível interior.  

No início da era digital reconhecíamos nas novas tecnologias de comunicação e informação uma grande potencialidade para democratizar a sociedade e víamos nela a possibilidade de dar também voz aos que não têm voz e, ao mesmo tempo, a possibilidade de moderar e contrabalançar a demasiada influência de elites politico-económicas, regimes políticos, hierarquias estatais e privadas na formação da opinião pública e no desenvolvimento da consciência dos povos. As instituições, porém, conseguiram ganhar a dianteira domando essas potencialidades, na consciência de que quem domina a informação tem o cidadão na mão e naturalmente o poder sobre a ordem estabelecida!

Em particular, não há proteção suficiente contra máquinas de filtragem e de censura arbitrária de plataformas de monopólio como Google, Facebook, etc. Além disso, os direitos civis digitais são relegados para segundo plano no que diz respeito aos interesses da indústria e do governo.

A liberdade de expressão e a liberdade de receber e transmitir informações e ideias sem interferência da autoridade pública e privada é cada vez mais condicionada a interesses de instituições. Mesmo a posição parlamentar sobre o #DigitalServicesAct (DAS) da EU não satisfaz os direitos fundamentais na rede e transmite parte da decisão sobre a liberdade de imprensa e de opinião à direcção do Facebook & Co. A liberdade de expressão como direito fundamental de importância elementar só poderia ser restringida pelo legislador e não deixada aos critérios de uma empresa.

A esperança de que, com a queda da União Soviética, a democracia liberal seria o sistema para o futuro, como anunciava o cientista político Francis Fukuyaman, não se confirma e cada vez deixa mais a desejar.

Entretanto observa-se um maior controlo do Estado com medidas de intervenção na rede a pretexto da defesa de moral pública. Naturalmente terá de haver regulação para se impedir a criminalidade, mas sem que o Estado se promiscue, doutro modo aumenta o processo de entropia da nossa civilização e  amplia a desconfiança num regime que, cada vez mais, põe em perigo a liberdade social e a democracia ao pretender construir um monstro com pés de barro.

Liberdade é o âmago do desenvolvimento humano e da democracia liberal, mas, numa sociedade aberta de valores meramente abstratos, a elite política reconhece-se incapaz de manter socialmente a sua liberalidade e por isso já procura comprometer empresas privadas globais na tarefa política de controlar a sociedade. Bruxelas tem trabalhado em textos tendentes não só a desconstruir a cultura europeia, mas também a permitir uma maior promiscuidade entre estado e privado no intento de diminuir a liberdade do cidadão para mais facilmente mecanizar e burocratizar a sociedade (a burocratização e a administração devem, ao mesmo tempo, substituir a espiritualidade da sociedade) a sociedade. Os nossos tecnocratas decretam já hoje medidas controladoras da personalidade humana que, pouco a pouco, legitimam instalar entre nós o modelo chinês que concebe o cidadão apenas em termos de funcionalidade dentro da máquina estatal! Nesse sentido a máquina de Bruxelas serve-se de agendas devotadas à desestabilização e desconstrução dos fundamentos da cultura europeia minando assim os princípios mais elementares da dita democracia (valores vitais como o da vida e da liberdade começam a ser subjugados aos princípios da funcionalidade, dado o sistema pretender ser a premissa ordenadora dos valores).

A política ao ver-se confrontada com grandes problemas sociais criados pela própria sociedade liberal, reconhece a própria incapacidade de regular uma sociedade humana orgânica, e, para se desviar do problema, aposta no centralismo total implementando para tal o controlo digital da população não tendo sequer escrúpulos em delegar competências de controlo de caracter público às grandes empresas privadas de comunicação social, como Facebook, Google, etc ….

Atualmente o baralho (de realidade, opinião e ilusão) é tal que a liberdade social parece oscilar, como o pêndulo de um velho relógio de sala, movido por forças sociais já indetermináveis porque a rosa dos ventos perdeu a orientação …

Embora todos nós tenhamos direito às nossas opiniões e a decidir do que é importante na nossa vida e do que é nosso, não estamos isentos do enquadramento limitativo do direito do Estado e da sociedade em que se vive. A lógica não tem a última palavra a dizer numa sociedade plural e multifacetada, (porque exige muitas diferenciações), tendo, por isso de ser supervisionada pela Razão de caracter mais abrangente do que a ordenação de factos ou ideias numa linha lógica linear de conclusões inequívocas. O facto de uma democracia liberal – como a sociedade europeia aberta – ter vantagens, por tentar dar resposta à questão da diversidade, a liberalidade não a iliba dos problemas sociais internos que ela mesmo cria e em muitos casos a deslegitimam (imigração desregrada consequência do poder político-económico imperialista transforma-se em cavalo troiano dentro da cultura europeia).

Observa-se na sociedade ocidental a tendência para se insistir na liberdade da heteronomia e por outro lado numa intervenção cada vez mais directa do Estado contra a autonomia e contra a liberdade do cidadão assumir responsabilidade pessoal. Muitos deixaram-se levar na onda contra o presidente dos EUA Trump, o que veio a possibilitar aos administradores das redes sociais expulsá-lo; aqui o que é grave é o facto de se constituir um precedente perigoso e o transfer de poderes do Estado para empresas particulares (este reconhece assim a sua incompetência própria de regulador isento da sociedade) pondo em perigo o cidadão e o sistema democrático.

Assim se cria o pretexto de se poder proibir informação enganosa sem a necessidade de definir o que é enganoso e que parâmetros são usados para chegar a tal. De facto, a pergunta a ser primeiramente resolvida seria: assunto enganoso porquê; enganoso de quem e para quem? Considera-se como factual a informação mais conforme no sentido do regime ou da população e como fack o que as questione ou que seja realmente notícia falsa com objectivos escuros? E quem deve decidir sobre o caminho pré-determinado a seguir? O problema reside na circunstância de muitos factos serem susceptíveis de diferentes interpretações e de serem ordenados para determinados fins que alguns poderão querer que o povo siga. Naturalmente também há notícias construídas, fotos manipuladas, etc. e tudo isso vem complicar a situação, mas há que estar atento a uma paulatina chinesação dos aparelhos do Estado.

Muitos acusam a liberdade de ser  o princípio de muitos problemas (ou de parte dos problemas) mas aí reside um equívoco porque só a liberdade pode dar resposta aos problemas que a sociedade vai apresentando: só a liberdade humana aliada à identidade comunitária chamada a realizar-se e a servir toda a humanidade no respeito mútuo de cada um pode dar resposta aos problemas do nosso tempo e não o erro globalizado do liberalismo arbitrário avassalador deixado às leis do mais fortes numa sociedade considerada mercado de grupos e instituições que tem criado problemas incalculáveis à construção de um futuro mais humano.  veja-se o poder que empresas digitais e empresas globais já têm de determinar disposições e preços sem que os atingidos tenham possibilidade de intervir porque o estado que os devia defender também é sócio na defesa de interesses e na sua especulação porque vê alguns dos problemas resolvidos e também recebe os seus dividendos através dos impostos (quanto maior o custo do produto mais o Estado ganha).

Embora condicionados à morte somos chamados à liberdade! Querer reduzir a liberdade à mera materialidade ou a um mecanicismo de caracter funcional e pragmatista corresponde a uma atitude desumana porque faria da pessoa uma peça; a liberdade e o espírito são o sol que tudo vivifica e estes pertencem à pessoa e não às instituições; estas só têm relevância pelo serviço que prestam e pela memória que possibilitam no andar da história.

Nos últimos anos, a liberdade de expressão tem sido cada vez mais ameaçada, não só por um Estado faminto de impostos e cada vez mais controlador e colecionador de dados, mas também por actores privados, como bancos e corporações tecnológicas ao serviço dos gigantes da economia; por este andar chegaremos a um tempo em que o cartão do banco inutilizará o cartão do cidadão. O controlo generalizado em via e a censura são males, venham eles donde vierem.

Não é de confiar num Estado zeloso que determine a medida do discurso político a ser admissível. As grandes plataformas tecnológicas Google, Face Book, etc., não têm legitimidade para controlar o cidadão e o Estado, ao conceder-lhe competência para tal, está a demonstrar a sua incompetência para governar a sociedade que criou e parece estar a tornar-se ingovernável com meios democráticos; as empresas têm a sua lealdade para com os seus accionistas porque foram criadas com a finalidade  de ganharem dinheiro para eles.

 

Uma limitação de liberdade pelo governo só seria justificável se ocasionalmente limitada no tempo, mas tem de estar sempre sob a pressão crítica de ter de se justificar perante o cidadão. O cidadão crítico desempenha uma função importante na defesa das massas de uma censura indiretamente institucionalizada para reduzir a liberdade de expressão e de opinião. Mas também é de compreender a atitude de muito cidadão que, resignado, cada vez se refugia mais na sua vida privada, como já é de observar em camadas da juventude. A gravidade da situação em que nos encontramos (medidas Corona e propaganda em relação à Rússia-Ucrânia, etc.) conduz a posições extremistas e motiva conservadores a defenderem medidas estatais drásticas e move também os progressistas a defenderem a limitação da liberdade individual e civil como preço a ser pago para se conseguir progresso ou uma reconstrução social no sentido socialista.

Na fase do regimento Corona, a liberdade foi simplesmente subordinada ao valor da saúde e agora que temos o regimento da guerra na Europa tudo passou a ser condicionado à segurança (o comportamento assumido por governantes e média e a maneira indiferenciada como é acatado pela generalidade do povo faz duvidar da capacidade social para defender a liberdade). Isto é também sinal da falta de critério e de maturidade da classe dirigente que se comporta de maneira cínica como dominadora da consciência social e olha só para o momento sem considerar o futuro. A política ao valorizar apenas valias individualizadas falha contra o critério que pressupõe o equilíbrio e a referência integral de todos os valores humanos e sociais a preservar.

Não é suficiente ir-se vivendo nem chegam as ondas sucessivas criadas na sociedade para dar sustentabilidade a um povo e menos ainda a consequente atitude relativista de uma democracia liberal limitada a fazer caminho sem missão nem metas; embora se tenha a impressão que a democracia  liberal seria o sistema político capaz de dar resposta à questão da diversidade nas sociedades europeias, a EU na sua ideologia de sociedade liberalista está a conduzir-nos a grandes problemas porque não chegam o valores abstratos liberais que os nossos tecnocratas nos querem impor como mundivisão  aberta (valores europeus); estes revelam-se incapazes, de darem resposta a uma vida orgânica existencial de cidadãos e de sociedade já despojados num globalismo impulsionador de (e servido por) sociedades anónimas e secretas que, para se afirmarem no Ocidente, se tornam demolidoras da família, da pátria e de um tecto espiritual comum.  O seu radicalismo contra o regionalismo e contra a província desqualificam as suas pretensas boas intenções de criarem uma humanidade sob um só tecto universal materialista e sem metafísica.

A liberdade pela liberdade torna-se insustentável porque levaria a um estado caótico da existência de indivíduos sem instituições nem órgãos ordenadores. A liberdade manifesta-se como factor dinâmico competidor entre o indivíduo e as suas organizações institucionais; esta tensão tem de ser mantida em equilíbrio muito embora pendular.

Creio que o liberalismo democrático, que na qualidade de ocidentais tanto afirmamos, poderá ter a sua lógica linear como método de resposta à diversidade de problemas e exigências criadas depois da segunda guerra mundial, mas, numa ordem globalizante, não resolve os próprios problemas sociais por ele criados e menos ainda outros problemas existenciais e de sentido que este liberalismo mercantilista aberto e sem fronteiras cria. Creio que o problema da razão, nas suas tentativas de alinhamentos lógicos se torna num pau de dois bicos ao apostar numa narrativa de perspectiva unilateral que subordina a vida do cidadão ao aspecto utilitário sociológico-político. Sem abandonarmos a polis teremos de reconhecer a natureza (família, aldeia e regionalismo), como lugar de vida autêntica e de orientação, doutro modo o globalismo servido por democracias liberais terá como consequência lógica a criação de governos autoritários servidos por oligarcas.

©  António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo

 

VIVER COM OU CONTRA A RÚSSIA DEPENDENTES DOS USA OU CONVIVER COM TODOS?

Europa por fazer entre Imperialismo americano e russo

A Ucrânia e a Rússia fazem parte da cultura europeia e da Europa. Independentemente do que tem acontecido na Ucrânia, sobretudo desde 2013 e apesar do acto brutal russo de 24 de fevereiro de 2022, nada justifica as campanhas de ódio encenadas pelos Media contra a Rússia. Por um lado, os Media não falam dos antecedentes dos acontecimentos na Ucrânia e nem sequer mencionam as promessas feitas em 1990 à Rússia e nem sequer alinhavam a forma de sujeição da Europa à “potência protectora” América. E a Europa deixa-se instrumentalizar pela ordem política global da América, que se preocupa apenas com a expansão dos próprios interesses políticos e de poder. Quando irá a UE finalmente acordar e desenvolver uma política independente centrada na liberdade, na paz e na compreensão internacional? Que fazemos para superar o ódio e a desconfiança? Esquecemos que uma boa medida de desconfiança em relação às instituições estatais e suas ajudantes é a característica necessária que impulsiona a responsabilidade necessária para o bem comum e para uma sociedade criteriosa e equilibrada!

Quem assiste à demonização de Putin e à divinização de  Zelenskyj e seguiu o desenrolar da política interna ucraniana, encontra uma semelhança crassa de modelos de propaganda usados na Europa e na Ucrânia que fazem lembrar a Série “Servidor do Povo” que fez de Zelenskyj presidente da Ucrânia (1); este candidatou-se depois à presidência, à frente do partido com o mesmo nome: “Servidor do Povo”; nessa série que vi, Zelenskyj é apresentado como presidente inigualável e salvador da Ucrânia. O efeito viral e manipulador que os estrategas de Zelenskyj conseguiram com a elaboração da série televisiva “Servidor do Povo” para ser eleito presidente da Ucrânia, conseguem-no também agora teatralmente na cena política internacional.

 “A quem interessa dividir a Europa?” (2), é a pergunta que se põe desde a guerra militar russa na Ucrânia e desde a guerra política e económica do Ocidente contra a Rússia e que levam ao empobrecimento do povo em geral…. A responsabilidade pode considerar-se dividida devido à luta entre os dois imperialismos que sacrificam a Europa, mas o fulcro da resposta será de encontrar na luta do imperialismo dos USA institucionalizado militarmente depois da segunda grande guerra com a criação da OTAN e na declarada intenção dos USA não permitirem que a Europa se irmanasse com a Rússia. Em 1949 a criação da união militar (OTAN) era óbvia, atendendo à existência simultânea do imperialismo soviético (Pacto de Varsóvia) e à incapacidade da Europa para se defender, tendo, por isso mesmo, de recorrer ao patrocínio dos EUA. O imperialismo soviético (socialismo) e o imperialismo americano (capitalismo) tinham grande parte do mundo sob a sua alçada.

Uma vez desfeita a organização imperialista do Pacto de Varsóvia seria natural, numa perspectiva europeia e de paz, que se desfizesse também o pacto da OTAN. Isso não se deu devido à estratégia americana de se afirmar como imperialismo mundial ímpar, unipolar e, nesse sentido, impedir que a Europa ocidental se unisse à Europa oriental! Numa perspectiva europeia, a Europa está a errar na medida que em vez de se tornar parte da solução tornou-se parte do problema! A argumentação de que a Europa foi ingénua em relação à Rússia é muito relativizada com a correspondente ingenuidade da Europa perante os USA, também eles com interesses próprios, em rivalidade  com os interesses europeus que implicavam maior inter-relacionamento económico, cultural e político com a Rússia e tendo em conta que o Ocidente se comportava mais contra a Rússia, o que a ajudou a tornar-se ainda mais autoritária.

Por outro lado, o imperialismo socialista da União Soviética e o imperialismo capitalista dos USA continuaram activos principalmente em países de África e da América latina através do apoio directo ou indirecto das correspondentes forças rivais dentro desses países: assim dá-se continuidade à guerra fria com medidas de suborno e de desestabilização de grupos rivais dentro de países insuficientemente estáveis (como aconteceu também no caso da Ucrânia); se o imperialismo socialista se afirma nos países usando uma estratégia ideológica divisionista e anti cultura, o imperialismo ocidental afirmava-se numa luta de manipulação económica de subjugação  e com o pretexto da defesa dos valores da democracia liberal.

A campanha generalizada nos meios da comunicação ocidentais contra o Patriarca Cirilo (salvaguarde-se aqui o erro a ele inerentes) é hipócrita porque tende a destruir a identidade cultural russa exigindo-se uma separação entre valores de Estado e valores religiosos numa sociedade em que escasseiam os grandes centros urbanos e simplesmente pelo facto de no ocidente só quererem valer em política os valores sob a perspectiva secular.(https://antonio-justo.eu/?p=7509).

Aquela disputa que se prolongava e prossegue na América latina e em África concretizou-se de forma mais exacerbada na Ucrânia, dado esta ser um estado considerado fronteira de interesses ideológicos, militares e económicos entre o Ocidente e o Oriente. A sociedade ucraniana, atendendo à sua composição populacional e à sua posição geográfica, que poderia ser um estado-federal-ponte privilegiado entre os dois blocos rivais, tornou-se em lugar de confronto entre os dois imperialismos, sendo ao mesmo tempo vítima e cúmplice de imperialismos antagónicos.

Se o apaziguamento (uma política de concessões recíprocas) não tem sido desejado e as duas partes não se respeitarem mutuamente, torna-se impossível a realização de negociações e na consequência dar-se-á o prolongamento indefinido da crueldade. Após a queda do presidente eleito Yanukovych, as regiões do sul e leste da Ucrânia não quiseram alinhar-se com o derrube do governo (derrube apoiado pelos USA) e acentuaram a vontade de conquistar a sua independência com o apoio da Rússia (3).  O regime de Kiev enviou os militares, e como estes não disparavam contra os seus próprios cidadãos, Kiev enviou então unidades voluntárias (4). Durante 8 anos, a Ucrânia ocidental disparou, à sombra do mundo informativo, contra os seus próprios cidadãos no Leste onde 17.000 pessoas foram mortas. Durante 8 anos, o governo de Kiev não implementou o acordo de Minsk (com a tolerância da França e da Alemanha), por interesses óbvios também nos grandes latifúndios ucranianos. Antes, a guerra civil era apoiada pela Rússia e USA e agora os ucranianos orientais estão a disparar contra a Ucrânia ocidental com o apoio directo dos russos.

Exemplo da escalação:  A Rússia intervém militarmente na Ucrânia e a OTAN apoia militarmente a Ucrânia. A EU/OTAN inicia a guerra económica contra a Rússia embora as exportações russas de carvão, petróleo e gás sejam os lubrificantes da economia europeia e deste modo o Ocidente assiste a um encarecimento de vida de que já não há memória; o Ocidente bloqueia as transações bancárias com a banca russa e a Rússia impõe o pagamento das suas matérias primas em rublos, o que originará novos fluxos de dinheiros; a Alemanha interditou a emissora russa em Berlim e a Rússia reagiu interditando a Voz da Alemanha na Rússia; o Ocidente declara políticos russos como pessoas non gratas e a Rússia reage do mesmo modo em reação aos países considerados inimigos!

Na guerra económica a Rússia usa agora os alimentos e os fertilizantes como armas de fundo. A Ucrânia e a Rússia, em conjunto, abasteciam um terço mundial com cereais (trigo, milho, cevada e soja). Agora a Rússia está a responder bloqueando a rota de exportação de cereais e fertilizantes para o norte de África e para o Próximo Oriente, bloqueando os portos no mar negro; nestes países não se farão esperar grandes fomes. Bloqueios económicos, usados como armas de guerra, são abusos ilícitos porque próprios das grandes potências e atingem os fracos e a população e não impedem as guerras.

A natureza é inteligente e por isso mostra-nos que a verdadeira evolução se realiza no viver com. A Rússia faz parte da casa comum Europa como já afirmava Gorbatchov e no princípio também era aspiração de Putin. Querer construir a casa comum sem a Rússia revela-se em miopia política e fanatismo do momento de parte a parte. Um desejo de unidade europeia é hoje também contrariado pela União Europeia que prefere a posição cómoda de se encostar à OTAN; a União Europeia prefere assim ser reduzida ao estilo e interesses anglo-saxónicos.

A derrota   político-económica da União soviética, em termos de guerra fria não justifica a atitude dos EUA, da EU nem da Nato contra a Rússia e contra a inicial boa vontade de Putin. É de constatar que, perante a afirmação do imperialismo ocidental às portas da Rússia, o nacionalismo exacerbado de Putin tenha fomentado nele a velha nostalgia imperial. O comportamento do Ocidente revela querer uma guerra total. Em nome da defesa dos valores ocidentais a Nato assume a estratégia das guerras da religião, próprias da guerra dos 30 anos (1618-1648) entre católicos e protestantes, servindo-se também ela agora, em termos de ideologias, contra a posição do Patriarca Cirilo I (5). Procura-se mover na política e na opinião pública tudo o que possa favorecer uma guerra total .

Os dois blocos em conflito perderam a razão e os políticos desqualificaram-se na qualidade de servidores do bem do povo. Legitimar a guerra ou medidas bélicas com a razão de defesa de valores europeus ou de próprios interesses a defender num país terceiro é tão válido como o argumento da Rússia de lutar contra o nazismo na Ucrânia.

A Europa, se acordar do grande sonambulismo em que entrou depois da segunda guerra mundial, terá de arredar caminho na descoberta dela própria e como tal viver com a Rússia sem viver contra os USA. Um dia, o desenvolvimento histórico levará, um dia, as potências de cunho cristão a unirem-se para melhor subsistirem no concerto de um mundo multipolar (6)!

Num conflito em que nos encontramos todos implicados (Rússia, EUA, EU, Ucrânia e OTAN) não é suficiente limitar-se a andar à caça de um culpado e, ao mesmo tempo, pretender-se ignorar os erros de todos no passado e o facto de nos encontrarmos enredados neles. Também sinal de esperteza, mas não de inteligência, é reduzir todas as falhas de um lado a um só acontecimento (24 de fevereiro) para que ele seja retratado como o único culpado e assim esconder os próprios malefícios…. Encontramo-nos numa situação em que todas as partes se comportam mal pelo que seria irracional que uma das partes determinasse, só ela e por ela sobre a rectidão e verdade da sua posição. Precisam-se conversações embora as partes nao estejam interessadas nelas porque o seu objectivo é só vencer o adversário e ostentar razão para isso.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo

  • (1) Título original: Sluha narodu, ucraniano Слуга народу, russo Слуга народа Sluga naroda) é uma série de comédia política produzida na Ucrânia pelo estúdio Qwartal 95 de Volodymyr Selenskyj sobre uma história fictícia da eleição do Presidente da Ucrânia. Vi a longa série e constatei que os promotores de Zelenskyj conseguiram manipular o povo divinizando Zemenskyj de tal modo que o povo tinha de o eleger; os mesmos métodos de encenação usam os Media ocidentais para demonizar o macabro Putin! O resultado é o mesmo. Por aqui se pode concluir como é fácil trabalhar o povo de maneira a ele pensar como elites querem que pense! Por aqui se vê como é fácil o controlo do povo seja ele de que sistema for!
  • (2) Perguntas: https://antonio-justo.eu/?p=7543; https://antonio-justo.eu/?p=7472
  • (3) “As regiões leste e sul, as mais povoadas do país, possuíam muitos habitantes russos que se opuseram às manifestações a favor da União Europeia. Dentre essas regiões, a Crimeia foi a que vivenciou os maiores níveis de tensão política. O parlamento da Crimeia foi tomado por um comando pró-Rússia, o qual aprovou a autonomia da península e posterior anexação à Rússia. No dia 16 de março de 2014, apesar de forte oposição da Organização das Nações Unidas (ONU), foi votado um referendo popular na Crimeia que decidiu sua separação da Ucrânia e anexação à Rússia, opção que venceu com mais de 95% dos votos. A população ucraniana é muito heterogénea embora de cultura comum!
  • (4) Batalhão Azov: https://antonio-justo.eu/?p=7488
  • (5) Nacionalizações da Ortodoxia: https://antonio-justo.eu/?p=7509
  • (6) Para aqueles que pensam que o meu artigo pode ser considerado pró-russo chamo a atenção que o escrevo sob uma perspectiva europeia que a nossa imprensa não contempla e para mitigar a atmosfera de guerra de informação sobretudo anti russa, uma imprensa que carece da apresentação de outras perspectivas que enriqueceriam a controvérsia.

A PRINCESA PORTUGUESA QUE FEZ FRENTE A HÍTLER

Um Exemplo de Equilíbrio das Energias Masculinidade e Feminilidade

Dona Maria Adelaide de Bragança é uma desconhecida heroína portuguesa.

Trabalhou como Enfermeira e assistente social na Áustria.

Foi durante muito tempo a mais idosa princesa de Portugal. Tia de SAR Dom Duarte Pio, atual Duque de Bragança, era a última neta do rei D. Miguel. Nasceu em 1912.

Durante a Segunda Guerra Mundial foi condenada à morte duas vezes.

A primeira condenação deveu-se por chefiar uma rede que tinha por missão fazer fugir pessoas procuradas, perseguidas ou condenadas pelos Nazis: paraquedistas aliados, espiões, judeus e outros.

A Infanta fazia parte do movimento de resistência nazi, e foi apanhada pelas SS e condenada à morte pela Gestapo.

Salazar ao saber da notícia interveio imediatamente, afirmando que ela era cidadã portuguesa e após muita luta diplomática, conseguiu salvá-la. Foi então deportada para a Suíça, onde vivia o seu irmão Dom Duarte Nuno, Duque de Bragança.

A segunda condenação será ainda mais “heroica”. Novamente agente da resistência, tem por nome de código “Mafalda”, fazia a ligação entre os Ingleses e o Conde Claus von Stauffenberg, líder do atentado falhado contra Hitler, a chamada operação Valquíria. É apanhada, condenada à morte pela segunda vez, mas desta feita é salva pelos soviéticos, após a vitória destes em Viena

Em 1949, Dona Maria Adelaide estabeleceu-se em Portugal (1). Trabalhou como assistente social no bairro pobre do Monte da Caparica dedicando-se sobretudo à protecção de órfãos e recém-nascidos pobres.

Faleceu em 2012

Desta heroína não se fala talvez por desinteressar à República!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo,

(1) A Infanta Maria Adelaide começou a trabalhar como assistente social em algumas iniciativas, pois a área da Trafaria no Monte da Caparica era muito pobre. Ela desenvolveu uma intensa carreira, especialmente na área da recolha de recém-nascidos pobres ou órfãos e depois levou-os para a Fundação D. Nunes Alvares Pereira, da qual foi presidente.(1) https://de.wikibrief.org/wiki/Infanta_Maria_Adelaide_of_Portugal

 

https://pt.wikipedia.org/…/Maria_Adelaide_de_Bragan%C3%A7a

CONFORMISMO VERSUS ESPÍRITO CRÍTICO

O Poder político-económico instrumentaliza a Ciência e os Media

O mundo que temos não merece que nos adaptemos a ele, pelo que urge procurar novos caminhos! Por um lado, os bons espíritos abandonaram as nossas elites, por isso elas se servem da pressão criada nas massas e do Zeitgeist que as encandeia. Por outro lado, a corrida dos acontecimentos é de tal ordem que fomenta criadores da opinião pública sem remorsos, produzidos por elites sem vergonha que abusam cada vez mais de tudo e de todos (1).

A Ciência tem uma função crítica na sociedade e deveria abrir o horizonte dos problemas e das pessoas, não devendo ser usada para os controlar, nem tão-pouco convertida em meio de implementação do conformismo e do pensar “politicamente correcto”, como é de observar na maioria dos programas das nossas TVs. De facto, se observarmos a opinião publicada e reportagens televisivas nota-se nelas uma monotonia de pontos de vista e falta de pluralidade de abordagens e de controvérsia (2) nos seus resultados.

A formação da consciência do cidadão assumida pelas agências dos Media (transformados em amplificadoras dos interesses do sistema) obedece, na generalidade, a uma pesquisa ou escolha controlada de actores a aparecerem em programas de TV ou de entrevistados na imprensa, chegou a um ponto de confundir ciência e peritos com apoiantes de informações fornecidas. Especialistas seleccionados são convidados repetidamente (sempre os mesmos para confirmar os seus objetivos e se algum começa a urinar fora do penico logo o/a jornalista o interrompe ou o abana com perguntas tendenciosas que o pobre é obrigado a conter-se!), os peritos são ouvidos, não tanto por respeito à ciência e à diversidade mas por poderem transmitir uma aura da ciência que ainda consegue enganar povo.

Na praça pública assiste-se a um alastrar de protagonistas da ideologia do lado certo. Assim leva-se o povo a confundir objectividade ou ciência com as informações transmitidas.  Em nome da crise atual, assiste-se a uma proibição inerente ao que fomente pluralidade de opinião e controvérsia saudável.

As instituições públicas renunciam, no essencial, à busca do conhecimento e o estado de direito está a ser usado indevidamente para fomentar proselitismos ou um estado de espírito conformista. A ciência e os meios de comunicação social, mais que mobilizados ao serviço da liberdade, funcionam ao serviço da justificação de agendas políticas.

A ciência é aberta e sujeita a interpretações controversas, mas nunca poderá ser enfileirada numa só linha ou sentido. É ilegítimo, a nível científico, exigir-se juízos de valor com a finalidade de formar uma vontade política e correspondentes decisões.

A verdadeira ciência serve a democracia, mas não segue princípios democráticos previamente determinados porque se sente comprometida com a razão; as ciências humanas procuram muitas vezes orientar os fatos no sentido de uma decisão ou de formar opinião; estas contribuem para a razão pública, mas prendem-se em debates acalorados, dado, especialmente estas ciências não guardarem suficiente espaço entre opinião individual e observação pretensamente objectiva!

A ciência passa a ser utilizada abusivamente e afastada de seu propósito essencial: orientação livre e independente para o ideal de descobrir a “verdade/realidade”; a ciência quer-se senhora e não escrava ao serviço de algum senhor.

Também as universidades estão cada vez mais sujeitas ao assalto por forças que lhe deveriam ser estranhas e, assim, muitos cientistas transformam-se em almeidas da estrada da política e economia, outros em cães de guarda do rebanho que não deve demarcar-se da estrada e dos desígnios de uma política ávida de conformismo.

De facto, é de observar que até já as universidades perdem, cada vez mais, a universalidade de visão e a liberdade de espírito, uma vez que a sua investigação está sobretudo dependente das vontades política e económica! Por outro lado, toda a disciplina científica tem os seus limites de conhecimento; exigir de um departamento do saber, uma confissão de caracter genérico torna-se enganosa (especialmente para pessoas que não entendam a complexidade das questões nem entendem a relatividade do que o especialista sabe ou diz).  Problemas ou sistemas complexos requerem diferentes modelos causais e diferentes explicações. Toda a priorização ou preferência de medidas encurta a realidade!

Todos estamos submetidos a uma necessidade natural de nos definirmos (identificação) procurando reconhecimento que nos dê a sensação de sucesso, mas, de uma maneira geral, ao seguir o ritmo de marcha dos que ditam os acontecimentos, só podemos tornar-nos cada vez mais na mesma (reduzidos a rebanho)! Ao seguirmos o culto do conformismo, aceitaremos também o que é imoral e indecente. Embora tenhamos herdado de Pilatos a opinião de seguir a disposição da multidão não podemos esquecer que estamos chamados à liberdade (luta contra a inércia da entropia) a uma realidade superior se não nos reduzimos a sermos formatações de programas que outros elaboram.

Não se trata aqui de defender a rebelião ou a revolta, mas sim de uma continuada e firme resistência não violenta

Precisamos de não conformistas que anseiam por paz e justiça em atitude humilde e não arrogante. Se observamos o desenvolvimento da política e da igreja encontramos sempre não conformistas a desbravar-lhe o caminho. A opinião maioritária pode ser perigosa porque impede a fuga, anseia pelo hábito, pondo-nos a caminho da entropia. Paulo aos Romanos 12,2” Não sejais como o mundo, em vez disso transformai-vos pela renovação da vossa mente.” A mudança não é fácil porque é processo à imagem do fermento na massa.

Ingenuidade e credulidade levam-nos a deixar o espírito crítico e a vivermos de meias-verdades para não termos de questionar o que nos parece oferecer segurança. Hitler já dizia cinicamente em “Mein Kampf”: “Uso o entusiasmo para as massas e reservo a convicção lógica para os poucos”. O preconceito costuma ir à frente dos factos……

É natural que em todos os regimes, os media do sistema procurem criar um clima imune à crítica porque pretendem cidadãos de cérebro penteado ao gosto do regime. O cidadão consciente deveria estar ciente disto!

Na crise contemporânea a que assistimos, seja ela a do Corona Vírus seja a da crise geoestratégica em jogo na Ucrânia, as elites políticas conseguiram imunidade contra a crítica; facto este que é observável na opinião indiferenciada e generalizada nas massas; o que me parece mais grave é o facto de se observar que grande parte dos académicos não vislumbrarem mais  que a massa do mainstream! Há falta de potencial crítico às ideologias e de interesse no diálogo às partes em discussão.

Nem a ciência nem a religião devem ser instrumentalizadas em serviço das guerras! A ciência investiga movimentando-se no âmbito do saber que é poder, a religião interpreta à luz da sabedoria; as duas são complementares movimentando-se na compreensão de matéria e espírito.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo,

(1) “A IDADE DIGITAL INICIA A ERA PÓS-FÁTICA”: https://antonio-justo.eu/?p=3932

(2) MÉTODO DA CONTROVÉRSIA: https://antonio-justo.eu/?p=3336