O OCEANO EM NÓS

O Panenteísmo cristão e a Trindade como Fórmula da Realidade

A questão sobre a relação entre Deus e o mundo atravessa séculos da filosofia e da teologia. O panteísmo propõe uma resposta radical: “Deus é tudo e tudo é Deus”. Mas essa solução apresenta dificuldades: se tudo é Deus, até o mal e a injustiça não teriam realidade própria, seriam apenas expressões do divino. Também a singularidade humana seria dissolvida, reduzindo-se a uma gota indiferente de um oceano infinito, o que contraria a experiência cristã do pecado e da redenção.

O panenteísmo cristão oferece uma via alternativa sustentando que “tudo está em Deus, mas Deus é maior que tudo”. Assim, a criação participa de Deus, mas não o esgota, o mal é reconhecido como real sendo divinizado, e a pessoa humana conserva a sua identidade e liberdade. O cristianismo dá a esse princípio uma expressão única ao interpretá-lo à luz do mistério da Trindade.

Cristo e o Espírito: mediações da presença divina

O cristianismo não afirma apenas que o mundo está em Deus, mas que Deus entrou no mundo: o Filho (Cristo) encarnou, unindo humanidade e divindade “sem confusão nem separação” (Concílio de Calcedónia, 451). Ele é o Logos eterno por quem tudo foi criado e que, na encarnação, religa criação e Criador. Essa união indica que a criação pode ser elevada à comunhão divina sem perder a sua integridade.

O Espírito Santo, por sua vez, habita a criação, “renova a face da Terra” (Salmo 104,30) e conduz todas as coisas ao seu cumprimento. Moltmann lembra: “Deus não anula o ser humano na sua liberdade, mas confirma-o na comunhão com Ele” (Moltmann, Deus na Criação). Ele é a presença de Deus que sofre com o mundo e transforma-o por dentro.

O Pai, fonte e horizonte de tudo, mantém a transcendência e garante que o mundo não se confunda com o Criador. Assim, a criação não é absorvida, mas chamada à comunhão.

Ecos panenteístas na tradição cristã

Vários pensadores cristãos, em épocas diferentes, desenvolveram uma visão próxima do panenteísmo:

Máximo, o Confessor (séc. VII) via cada criatura como portadora de um logos enraizado no Logos eterno (Cristo). Para ele, a história culmina na recapitulação de todas as coisas em Cristo, uma deificação (theosis) que preserva e plenifica a criação.

Teilhard de Chardin interpretou a evolução como movimento cósmico em direção ao “Ponto Ómega”, Cristo, no qual tudo se integra sem perder identidade.”

Jürgen Moltmann descreveu em Deus na Criação, a criação como “morada da Shekinah”, o espaço em que Deus habita e sofre com o mundo, prometendo a sua renovação.

Raimon Panikkar formulou a visão cosmoteândrica, onde Deus, cosmos e homem existem em relação inseparável. Para ele, Cristo é o arquétipo dessa união não-dual, em que nada se dissolve, mas tudo se integra.

Todos, à sua maneira, convergem para a intuição central: Deus envolve o mundo, mas não se confunde com ele.

A Trindade como fórmula da realidade

O mistério da Trindade oferece a chave interpretativa mais profunda. Deus não é solidão indiferenciada, mas comunhão eterna: o Pai gera o Filho, e ambos dão origem ao Espírito. O ser divino é relacional por essência.

É justamente isso que distingue o panenteísmo cristão do panteísmo. No panteísmo, a gota perde-se no oceano. No panenteísmo trinitário, a gota permanece gota, mas vive em comunhão com o oceano. Cada pessoa é preservada na sua dignidade, chamada ao amor e à responsabilidade.

Esta visão tem implicações éticas e espirituais:

A pessoa humana não é ilusão, mas portadora de valor absoluto (dignidade soberana); a criação não é descartável em mera aparência, mas espaço da habitação divina e o mal não é ignorado, mas realidade a ser vencida na história.

Assim, a Trindade aparece como a chave de leitura da existência: a “fórmula da realidade” que sustenta o mundo, valoriza a pessoa e uma comunhão que tudo explica e integra, orientando a história para a plenitude em Cristo, sem dualismos maniqueus e sem dissolução panteísta.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

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