DA EUROPA ARMADA À EUROPA PENSANTE

Urgência de uma Cultura de Paz versus Neocolonialismo mental

Quando a guerra deixa de ser excepção

A Europa atravessa um momento histórico de particular gravidade. Não apenas pelos conflitos armados nas suas fronteiras alargadas, mas sobretudo pela transformação silenciosa da guerra em horizonte normal da política. O rearmamento acelerado, o discurso da inevitabilidade do conflito e a aceitação quase acrítica de exigências como a da NATO para investir 5% do PIB na militarização indicam que estamos perante uma mudança civilizacional, não meramente estratégica, mas cultural e moral de consequências trágicas.

Neste contexto, a Nota Pastoral da Conferência Episcopal Italiana (CEI), de 5 de dezembro de 2025, com o título: “Educar para uma paz desarmada e desarmante”, apresenta-se como um raro contraponto ético. Não propõe ingenuidades pacifistas, mas uma crítica estrutural à cultura da guerra que se reinstala no continente europeu com assustadora naturalidade.

A irresponsabilidade alemã: memória perdida e repetição histórica

O papel da Alemanha nesta espiral armamentista é particularmente inquietante. Depois de décadas em que a contenção militar se justificava pela memória do horror do século XX, o país surge agora como motor central do rearmamento europeu. Esta mudança é apresentada como pragmatismo geopolítico, mas contém um grave erro histórico: a amnésia estratégica.

A Alemanha esquece que a sua segurança nunca foi garantida pelo militarismo, mas precisamente pela integração económica, pelo diálogo, pela cooperação continental e por uma ordem europeia baseada na superação dos antagonismos armados. Ao investir massivamente em armamento e ao aceitar o enquadramento estratégico imposto pela NATO e pelo eixo anglo-atlântico, Berlim abdica de pensar a Europa como sujeito autónomo para pensá-la com objcto. E o que desautoriza a Europa é o facto de toda ela dançar em torno da elite europeia EU-3 (Alemanha, França e Reino Unido) que com sua encenação desvia as atenções da Europa para os seus interesses nacionalistas de elite. Os belicistas europeus na política e no jornalismo transmitem uma imagem de companheirismo agitado como se a ameaça viesse toda de fora. «Quem cava uma cova para os outros, cai nela», diz um provérbio.

Mais grave ainda: a Alemanha assume uma lógica de confrontação com a Rússia sem refletir seriamente sobre as consequências geopolíticas malévolas de longo prazo para o próprio continente europeu.

NATO e Reino Unido: a geopolítica da divisão permanente

A NATO, enquanto aliança militar, cumpre a função para a qual foi criada. O problema surge quando ela se transforma num ator normativo e cultural, ditando prioridades económicas, políticas e até educativas aos Estados membros.

A proposta, explícita ou implícita, de destinar 5% do PIB à defesa não visa apenas garantir segurança, mas militarizar a sociedade: a linguagem, os valores, o imaginário coletivo. A guerra torna-se aceitável antes mesmo de começar.

O Reino Unido, por sua vez, desempenha um papel particularmente ambíguo e irresponsável. Após o Brexit, Londres procura reafirmar relevância geopolítica através de uma postura agressiva, promovendo uma visão de confronto permanente com o espaço euroasiático. A sua influência sobre a política externa europeia, embora indireta, continua a alimentar uma estratégia de fragmentação do continente, historicamente vantajosa para potências marítimas, mas profundamente nociva para a estabilidade europeia.

A leviandade da União Europeia: economia sem geoestratégia

Talvez o elemento mais preocupante seja a ausência de pensamento geoestratégico próprio da União Europeia. A UE reage, mas não age; segue, mas não propõe; administra crises, mas não constrói visões.

A Europa parece incapaz de refletir sobre um dado fundamental: geograficamente, é uma península do grande continente asiático. A sua segurança de longo prazo não pode ser pensada contra a Rússia, mas com a Rússia. A história mostra que sempre que a Europa tentou excluir, cercar ou humilhar o espaço russo, acabou por gerar conflitos devastadores,  primeiro para si própria.

Elaborar um tratado de paz duradouro com a Rússia, fundado na segurança comum, na cooperação económica e no respeito mútuo, não seria sinal de fraqueza, mas de maturidade civilizacional. A CEI aponta precisamente nessa direção ao rejeitar a lógica da dissuasão armada como fundamento da paz.

Do colonialismo clássico ao neocolonialismo mental

O rearmamento europeu não é apenas uma questão militar. Ele insere-se numa continuidade histórica mais profunda: a transição do colonialismo esclavagista clássico para um neocolonialismo mental.

Se outrora o domínio se exercia pela força física, pela ocupação territorial e pela exploração direta dos corpos, hoje exerce-se pela manipulação da consciência. A centralização da informação, a homogeneização do discurso mediático, a redução do debate público a narrativas simplistas e polarizadas produzem cidadãos incapazes de pensar fora das categorias impostas.

Este neocolonialismo é, paradoxalmente, mais radical que o anterior: escraviza a consciência desde a infância, moldando perceções, medos e lealdades antes mesmo que o pensamento crítico possa emergir. A guerra, neste contexto, não precisa de ser declarada porque  passa a ser interiorizada.

O sangue dos filhos do povo e os interesses das elites

A Nota Pastoral da CEI recupera uma verdade antiga e sempre atual: as guerras são decididas por elites e pagas pelo povo. Os filhos das classes populares continuam a ser a matéria-prima dos conflitos, enquanto os benefícios económicos, políticos e estratégicos se concentram em círculos restritos.

A indústria do armamento, os complexos financeiros e os aparelhos políticos alimentam-se de medo e divisão. A paz, pelo contrário, ameaça esses interesses porque exige redistribuição, transparência, cooperação e justiça social.

Uma cultura da paz como investimento estratégico

A grande inversão proposta, implicitamente pela CEI e explicitamente necessária é esta: substituir o investimento na guerra por um investimento estrutural na paz.

Aplicar 5% do PIB europeu numa cultura da paz significaria: educação para o pensamento crítico e plural; diplomacia preventiva e contínua; mediação internacional independente; justiça social como política de segurança; comunicação descentralizada e diversidade informativa; reconstrução do sentido comunitário e da fraternidade civil e universal procurando neste sentido também levar as máquinas e as indústrias de produção para países carenciados em vez de os obrigar a abandonar os seus biótopos naturais fugindo da pobreza para a Europa.

Isto não é utopia, seria estratégia de sobrevivência.

Europa armada ou Europa consciente?

A Europa encontra-se perante uma escolha histórica. Pode continuar a seguir as políticas tradicionais da guerra, travestidas de realismo, ou pode ousar uma rutura cultural profunda.

A Nota Pastoral da Conferência Episcopal Italiana recorda algo essencial: a paz não é fraqueza, é força civilizacional. Não nasce das armas, mas da justiça; não se impõe, constrói-se; não serve elites, protege povos.

Sem uma conversão ética, cultural e estratégica, a Europa arrisca tornar-se apenas um espaço militarizado, dividido, subalterno, rico em armas, mas pobre em consciência.

Uma Europa que não pensa, apenas reage. Uma Europa que esquece que a verdadeira segurança começa quando a guerra deixa de ser imaginável.

A pergunta que a Europa e particularmente a E-3 precisa de enfrentar não é apenas quanto gastar em defesa, mas que tipo de humanidade deseja promover. Financiar a guerra é fácil, rápido e politicamente rentável no curto prazo. Financiar a paz exige paciência, coragem e visão histórica.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo:

 

A CASA QUE A DOR CONSTRÓI

Não me peças canções de alva harmonia
nem versos que adormeçam como a névoa branda.
Trago na voz um grito de ironia,
ferrugem de esperança já roída e borrifada.

Sofro ao ver o rebanho, denso e crente,
gritar convicções alheias, em uníssono aberto,
defendendo, com ardor de inconsciente,
o jugo que lhe pesa, o mesmo laço certo.
São ecos, não são vozes. Sombras de uma ideia
que o sistema, tal ourives, forjou no seu segredo.
E cada qual repete, na arena que rodeia,
o dogma que o domina, pensando-o seu credo.

Oh, leve opinião de sofá e ecrã,
feita de vento e de espasmo passageiro!
És galo a desafiar outro galo, vã
disputa onde o tom sobe, irreal e altaneiro.
A casa da ipseidade não se ergue
com tijolos alheios, nessa areia movediça.
É grão a grão, na solidão que insurge,
que a rocha própria à mente edifica e talha.

Levo comigo o peso dos meus séculos,
a desconfiança antiga, herdada e visceral:
o Estado, a oficina, os jornais, os oráculos
a moldar o consenso, a tecer o cabresto geral.
Minha alma chora, ao ver a multidão dominada
gritar, ufana, as ordens do seu dono,
numa paixão pós-fática, deslumbrada,
que serve, sem o saber, o seu próprio abandono.

Não sigo a maré do consenso raso,
essa corrente que tudo anula e amontoa.
Busco a falha, a pedra áspera e diferente,
a ruptura com quem forja o molde e o caso.
Somos feitos de pele e de persuasão,
mas o nós perde-se no dilúvio dos canais.
Toda a mensagem é estratagema e arma,
e só acende, se a temos, a nossa própria brasa.

Por isso levanto, lenta, a minha casa,
pedra sobre pedra, com as mãos gretadas.
É trabalho áspero que nunca sossega,
esta construção de ideias, estas paredes erigidas.
Suporto o incómodo da opinião ligeira,
do já se sabe fácil, da certeza rápida.
A minha pedra custa, fere e alteia,
mas a casa é só minha, conquistada mas íntima.

É melhor o cansaço de pensar,
a fadiga da pedra mal cortada,
do que a leveza letal de me deixar
pensar por outrem na minha própria estada.
A opinião alheia é jugo e frio.
A própria, só conquistada em luta, é libertação.
Mesmo que reste apenas o desvio,
e um humor seco como minha última oração.

Assim construo, entre o grito e o sorriso,
numa resignação ativa e irónica.
Não mudo o mundo, mas defino o piso
do meu próprio quintal, nesta era frénica.
E talvez, se muitos levantarem a sua pedra,
se cansarem de ser voz e buscarem ser verbo,
a cultura da paz, que a guerra impede,
desabroche não por decreto, mas do nosso próprio corpo.

O trabalho é longo e a noite é densa.
Mas a casa cresce. Ela é minha e é imensa,                                                                    Contra a maré alheia, pedra sobre pedra.

Pois o ego, alheio a si, perde-se nas roupagens
que a sociedade veste sobre o seu esqueleto nu.
Ao não pensar por si, segue nas multidões,
e acaba por odiar o mundo que em si meteu.
Leva-o a engodo de ideias fabricadas,
tão longe da raiz, da seiva natural,
que constrói, à sombra de vontades alheias,
uma consciência à venda, corrompida e formal.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(Escrito no auge do Regime COVID-19)

MARIA E A EMERGÊNCIA DE UMA NOVA VISAO DO REAL

Teologia, Filosofia e Ciência em Diálogo

A celebração da Imaculada Conceição, a 8 de dezembro, confronta o pensamento contemporâneo com uma questão decisiva: que tipo de realidade admitimos como real? Num mundo moldado pelo paradigma científico-técnico, e da velha Física, tende-se a reconhecer como verdadeiro apenas o que é mensurável, repetível e empiricamente verificável. Contudo, tanto a filosofia moderna como a ciência contemporânea mostram que esta redução é epistemologicamente insustentável.

O símbolo como acesso ao real

A filosofia hermenêutica e fenomenológica (Husserl, Ricoeur) recorda que o símbolo “dá que pensar”: ele não explica, mas revela uma profundidade de sentido inacessível à mera descrição factual. Assim, quando a fé cristã afirma que Maria concebeu sem intervenção sexual, não pretende competir com a biologia, mas introduzir uma afirmação ontológica: a origem última do humano não se esgota na causalidade material.

Do mesmo modo que a ciência utiliza modelos e metáforas, ou seja, campo, onda, big bang, matéria escura, para falar do que não é diretamente observável, também a teologia recorre ao mito e ao dogma como linguagens simbólicas de uma verdade experiencial que se mantém válida para além do tempo histórico (mantendo a tensão entre o tempo Cronos e o tempo Cairos).

Conhecimento, consciência e limites da objetividade

Desde Kant sabemos que o conhecimento não é mero reflexo da realidade em si, mas resultado de uma interação entre sujeito e objeto. “A coisa em si” permanece sempre além da plena apreensão. A ciência contemporânea confirmou essa intuição filosófica: na física quântica, constatando que o observador não é neutro. Segundo Niels Bohr, não há fenómeno sem observação; em Heisenberg, a realidade observada depende do modo como é interrogada.

Esta constatação aproxima surpreendentemente ciência e teologia: ambas reconhecem que o real é mais vasto do que o real medido. A concepção virginal inscreve-se precisamente nesta intuição: fala de um acontecimento que não pode ser explicado por causalidade linear, mas que emerge de uma dimensão mais profunda da realidade.

Virgindade e novo paradigma ontológico

A virgindade de Maria aponta simbolicamente para um novo paradigma ontológico: o ser não é apenas efeito de causas anteriores, mas emergência, dom, novidade radical. As ciências da complexidade e da emergência (Prigogine, Morin) mostram que sistemas vivos produzem novidades não redutíveis às suas condições iniciais. O todo é mais do que a soma das partes.

Neste horizonte, o dogma da Imaculada Conceição afirma que a humanidade conhece, em Maria, uma origem não determinada pelo peso do passado, mas aberta ao futuro. Trata-se de uma antropologia da esperança, profundamente atual num tempo marcado por determinismos biológicos, sociais e tecnológicos.

Encarnação e superação da dualidade

A modernidade herdou uma visão dualista: espírito versus matéria, sujeito versus objeto, fé versus razão. Ora, tanto a teologia cristã como a física contemporânea caminham no sentido inverso: a realidade é relacional. A Trindade cristã pode ser lida como a forma simbólica mais radical dessa intuição: ser é ser-em-relação.

Em Jesus Cristo, concebido no seio de Maria, não há rejeição da matéria, mas a sua reabilitação plena. Deus não se opõe ao mundo, mas participa nele. Heidegger afirmava que a verdade acontece (Ereignis); não é posse, mas desvelamento. Neste sentido, a encarnação é o desvelamento máximo do sentido do real.

Maria, feminino simbólico e crítica à modernidade

Num contexto cultural dominado pela racionalidade instrumental e pela funcionalização do corpo, Maria surge como figura crítica. A sua virgindade não é negação da sexualidade, mas protesto simbólico contra a absolutização do desejo e a redução da pessoa a objeto. Leonard Boff lembra que nela emergem os traços maternais de Deus, silenciados por uma tradição excessivamente patriarcal e racionalista.

A figura de Maria restitui à linguagem religiosa o seu caráter poético e relacional, mais próximo da arte e da mística do que da engenharia social (de matriz masculina). A poesia, como a física moderna, aceita o paradoxo; sabe que há verdades que só podem ser ditas por aproximação.

Uma verdade em processo

A Imaculada Conceição não pertence apenas a uma mera ordem do “facto verificável”, mas da verdade existencial e transcendente. É uma verdade que acontece continuamente, sempre que o humano se abre ao dom, ao futuro e à transcendência. Assim como a ciência abandonou a ilusão da objetividade absoluta, também a teologia é chamada a libertar-se de leituras literalistas e defensivas.

Maria permanece como sinal de que a realidade é mais ampla do que aquilo que medimos, e de que o humano é, em última instância, um ser espiritual em devir, chamado a dar à luz o divino no coração do mundo.

“A verdade não é algo que possuímos, mas uma realidade que nos envolve e transforma.” (K. Rahner)

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo

EDUCAR PARA UMA PAZ DESARMADA E DESARMANTE

Voz da Igreja Católica Italiana: Uma voz no Deserto?

 Na recente “Nota Pastoral” da Conferência Episcopal Italiana (CEI), publicada em 5 de dezembro de 2025 sob o título: “Educar para uma paz desarmada e desarmante”, os bispos italianos tornam-se na consciência crítica à onda de armamento na Europa apresentando um contraponto moral e cultural  à espiral de rearmamento. Já no Jubileu do Mundo Educativo o Papa Leão XIV afirmado que “uma educação desarmante e desarmada cria igualdade e crescimento para todos”.

O objetivo central da nota dos bispos reunidos em Assisi é “redescobrir a centralidade de Cristo como fundamento da paz „ e chamar comunidades, fiéis e sociedade a adotarem uma “cultura de paz” e “não de violência”.

Diagnósticos que fundamentam a exigência de um apelo à paz

A Escalada de conflitos e risco nuclear

– O documento da CEI assinala um crescimento do “nível de conflitualidade entre as grandes potências”, com a possibilidade, por vezes real, de “escalação nuclear”, o que gera angústia e “erosão da esperança”, especialmente nas novas gerações.

– A guerra, com suas “inúteis carnificinas”, muitas vezes de civis e crianças e a lógica da “dissuasão armada” são vistas como moral e socialmente insustentáveis.

Crescente investimento militar e mercado de armas

A nota denuncia o crescimento acelerado dos gastos militares: segundo o documento, o gasto militar mundial em 2024 ultrapassou 2,7 trilhões de dólares. Esse montante, observa a CEI, desvia recursos necessários para construir um mundo habitável: combater fome, pobreza, crises ambientais e promover um desenvolvimento humano.

A CEI chama atenção para quem lucra com o comércio e a produção de armas, inclusive bancos e investidores e convida para o desinvestimento (objeção financeira) dessas indústrias.

Desconfiança da lógica do “rearmar para defender”

A argumentação central é que a necessidade de defesa não pode ser usada como pretexto para uma corrida aos armamentos. A CEI considera “contraditórias” as políticas de pesados investimentos bélicos adotadas desde a invasão da Ucrânia pela Rússia.

A nota convoca a União Europeia a retomar o caminho da paz, construído no pós-Segunda Guerra Mundial, ao invés de transformar a segurança num negócio de armas e poder militar.

Propostas e orientações da CEI

A CEI não se fica só pelo diagnóstico, ela sugere uma série de caminhos práticos e culturais para enfrentar a crise da paz:

– Educar consciências: as comunidades cristãs (paróquias, dioceses), famílias, escolas — todos devem promover “a cultura da paz, do diálogo, da misericórdia, da fraternidade e do respeito mútuo”.

– Serviço civil obrigatório em vez de serviço militar obrigatório: como alternativa à militarização, a nota propõe a instituição de um serviço civil obrigatório para os jovens, como  forma de investir em paz, solidariedade e cuidado social.

– Rever a presença religiosa nas forças armadas: a CEI questiona o papel dos “cappellani militari” integrados ao aparato militar, sugerindo formas de assistência espiritual não vinculadas diretamente às forças armadas.

– Objeção financeira: incentivar indivíduos e instituições a desinvestirem de empresas e indústrias armamentistas.

– Construção de “casas de paz”: cada comunidade cristã é convidada a tornar-se “uma casa de paz e de não-violência”, cultivando justiça, perdão, diálogo, acolhimento e solidariedade.

– Aposta na justiça restaurativa e cuidado da Criação: a paz — para a CEI — não é apenas ausência de guerra, mas justiça social, reconciliação, cuidado com o meio ambiente e com o humano.

Tom teológico e ético: paz como chamamento existencial e comunitário

– A CEI reafirma que a paz não é uma abstração ou opção política neutra, mas um compromisso radical inspirado no Evangelho. A “regra da paz” exige um “exercício global e cotidiano” de misericórdia, fraternidade, cuidado pelo outro em oposição à lógica da força.

-A nota retoma o ensinamento de Papa Francisco (e de Fratelli tutti) de que a paz exige conversão cultural e ética: não basta evitar guerras, é preciso construir comunidades que pratiquem justiça, reconciliação e solidariedade.

– Para a CEI a paz não é passiva: é um esforço ativo, “desarmado e desarmante”, que rejeita a lógica da detenção do poder militar como condição de segurança.

Relevância para o contexto atual da Europa e implicações para a Alemanha

Considerando a crescente militarização e os debates sobre defesa na Europa (incluindo países como a Alemanha), a nota da CEI destaca-se como um contraponto moral e cultural à espiral de rearmamento. Algumas implicações que podem fomentar uma atitude crítica:

– Crítica à “segurança pela arma”: ao questionar investimentos massivos em armamento e afirmar que a defesa não justifica o rearmamento global, a CEI sugere que a lógica da segurança militar permanente é autodestrutiva, especialmente num continente com tensões históricas e memória de guerras.

– Alternativas concretas de paz e segurança: propostas como serviço civil obrigatório, desinvestimento da indústria bélica, justiça restaurativa, acolhimento, solidariedade, oferecem alternativas à militarização, valorizando coesão social, bem-estar, dignidade humana e ecologia.

– Apelo à Europa como agente de paz e de integração: a CEI entende que a União Europeia não deve tornar-se um bloco de “poder militar”, mas um espaço de cooperação, diálogo e convivência, visão esta que desafia nacionalismos e retóricas securitárias.

– Dimensão ética e espiritual: num momento de crise de valores, desemprego, polarização social, crises de refugiados e xenofobia, a nota oferece um referencial ético profundo de reconciliação, acolhimento, cuidado com a fragilidade humana como alternativa à escalada armamentista.

– Prevenção de lógicas de guerra como cultura dominante: a CEI adverte que o apego à “ameaça” e à produção/negócio de armas pode normalizar a guerra como meio de resolução de conflitos, é algo perigoso para a paz duradoura e para a promoção dos direitos humanos.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A PROFUNDIDADE DO ADVENTO

Espera que arde e Esperança que encarna

A Arte de esperar acordado

O Advento não é simplesmente um tempo de preparação para o Natal. É, antes de tudo, uma escola da existência, um ritmo espiritual que nos confronta com a condição humana mais fundamental: a de seres em espera. Como escreveu Simone Weil, “a espera é a mais alta forma de atenção” e o Advento é justamente o exercício dessa atenção radical. O mundo, na sua brutalidade e beleza, escapa ao nosso controlo. De facto, não podemos salvar o mundo, nem proteger as pessoas do mal e do erro.

Esta impotência, porém, nunca pode justificar uma resignação bovina, uma vida reduzida à erva rasteira ao nível do chão. Tal atitude seria uma traição à nossa própria natureza. A vida, com toda a sua majestade e mistério, é muito maior e mais expansiva do que os estreitos limites da nossa compreensão. Santo Agostinho recorda-nos: “Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”

É precisamente esta consciência da nossa finitude e falibilidade que nos torna dependentes da graça e da misericórdia. Contudo, paradoxalmente, essa dependência não anula a vontade; pelo contrário, ilumina-a. Não apaga a vontade de sermos esperançosos buscadores. Pelo contrário, é a partir deste reconhecimento humilde que a busca verdadeiramente pode começar. O Advento é o apelo solene a essa busca esperançosa a esta inquietação luminosa que nos empurra para o alto.

Deus dispõe… através das nossas Mãos

Já Séneca dizia: “Não é porque as coisas são difíceis que não ousamos; é porque não ousamos que elas são difíceis.”

O homem propõe e Deus dispõe. Este antigo adágio não nos condena à passividade, mas revela a colaboração sagrada da história. Deus dispõe, mas fá-lo através das mãos humanas que aceitam realizar a Sua mensagem. Nós somos, de facto, as mãos de Deus. Como escreveu Teresa de Ávila: “Cristo não tem agora outro corpo senão o teu.” O Advento ou se realiza em nós ou não se realiza.

Este é o cerne da responsabilidade espiritual: mesmo quando o mundo parece destinado à decadência, à ruína ou à repetição horrível de ciclos de violência, a nós é deixada a iniciativa de, no nosso pequeno espaço, germinar o novo. O Verbo fez-se carne, mas continua a precisar de corpos que O encarnem no tempo. O nosso “devir” é este contínuo processo de gestação, que só termina com o último suspiro.

E nesse respirar há uma saudade da paz que é o sopro divino dentro de nós. Contudo, essa paz não é fuga; não pode esconder-se em recantos interiores, recusando-se a encarar a fealdade que a ameaça de fora e de dentro. “A paz não é a ausência de conflito, mas a presença de justiça,” recordava Martin Luther King Jr.

A fealdade é vasta e a vida aponta muitas vezes para os infernos da impotência, da insegurança e da barbárie que tantos são forçados a habitar. Aponta para o purgatório da indiferença sarcástica que nos permite viver ao lado desses sofrimentos, anestesiados pela enxurrada de notícias que nos informam sem nos transformar.

O Incenso e o Fogo interior

Como manter a esperança diante deste abismo?

A esperança é como o incenso da nossa vida. Procuramos nele resiliência, coragem e paz. Mas esquecemo-nos: para respirarmos o seu aroma, algo tem de arder. A verdadeira esperança adventícia não é um sentimento confortável; é um fogo que purifica. Exige que algo em nós seja consumido: a indiferença, o comodismo, as ilusões de autossuficiência.

Vivemos no entremeio, no território tenso entre a contemplação e a ação, entre a paz interior e a luta contra a fealdade exterior. Só nesse entremeio nasce o discernimento. Para isto aponta Bonhoeffer quando dizia: “A ação nasce do pensamento responsável; mas só quem espera pode realmente agir.”

A Luz que já veio e ainda espera por nós

É nesta tensão que o paradoxo central do Advento resplandece: esperar pelo que já chegou e se encontra soterrado nas cinzas de cada um de nós. A Luz já veio ao mundo; o Reino já irrompeu em Cristo. Mas, como uma semente ou uma brasa sob cinzas, aguarda a nossa cooperação para se reacender e crescer.

A esperança, portanto, não é a expectativa vaga de um futuro melhor. É a expectativa de que algo aconteça em nós. É a força ativa de quem, sabendo que a vitória final é certa, luta no presente para que ela se manifeste. É a força da onda que avança contra a que a envolve e faz retroceder.

Neste caminho surgem aqueles que mantêm uma atenção especial: os profetas do nosso tempo. São os que percebem a inquietação antes dos outros, os que expressam a perturbação silenciosa que nos sacode do torpor. Neles, algo da orientação divina pode revelar-se. Eles são os arautos do Advento, lembrando-nos que a espera não é vazia, mas grávida de Deus.

O Advento convida-nos a uma espera ativa. É um tempo para deixar arder, como o incenso, os nossos medos e egoísmos. Um tempo para escavar as cinzas do nosso cansaço e cinismo e reencontrar a brasa da promessa divina. Um tempo para, com as mãos de Deus que somos, trabalhar para aliviar os infernos e purgatórios à nossa volta, por pequena que seja a nossa ação.

E é, sobretudo, um tempo para reafirmar, com uma fé que é confiança radical no que virá, que enquanto houver um coração humano em espera, a Luz não se apagou. A onda do Espírito continuará a avançar, até que a espera se dissolva no encontro e a esperança dê lugar à visão preanunciada no presépio.

A Título de Conclusão

Conta-se que, numa aldeia perdida entre montanhas, havia uma sentinela que todas as noites subia ao alto da colina para vigiar. Muitos riam dela, pois o horizonte estava sempre escuro e nada acontecia.
Uma noite de inverno, um jovem da aldeia perguntou-lhe: “Porque sobes tu, se nunca vês nada?”
A sentinela respondeu: “Eu não subo para ver. Subo para que, quando a luz vier, não a encontre sozinho a dormir.

O jovem ficou silencioso, e a sentinela acrescentou: “E quando o frio me vence, faço o que posso: sopro a minha pequena brasa. Se ela se apagar, como aquecerei quem vier pedir-me calor?”

Na primavera seguinte, uma tempestade devastou a aldeia. Muitos procuraram abrigo na colina. Lá encontraram a sentinela, e ao seu lado, humilde, mas viva, a pequena brasa que aquecia as mãos de todos.

E foi então que compreenderam: a sentinela não esperava porque via a luz, esperava para que a luz tivesse quem a visse.
E a brasa, pequena como era, não salvou o mundo; mas salvou aqueles que lhe ficaram próximos.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo