Urgência de uma Cultura de Paz versus Neocolonialismo mental
Quando a guerra deixa de ser excepção
A Europa atravessa um momento histórico de particular gravidade. Não apenas pelos conflitos armados nas suas fronteiras alargadas, mas sobretudo pela transformação silenciosa da guerra em horizonte normal da política. O rearmamento acelerado, o discurso da inevitabilidade do conflito e a aceitação quase acrítica de exigências como a da NATO para investir 5% do PIB na militarização indicam que estamos perante uma mudança civilizacional, não meramente estratégica, mas cultural e moral de consequências trágicas.
Neste contexto, a Nota Pastoral da Conferência Episcopal Italiana (CEI), de 5 de dezembro de 2025, com o título: “Educar para uma paz desarmada e desarmante”, apresenta-se como um raro contraponto ético. Não propõe ingenuidades pacifistas, mas uma crítica estrutural à cultura da guerra que se reinstala no continente europeu com assustadora naturalidade.
A irresponsabilidade alemã: memória perdida e repetição histórica
O papel da Alemanha nesta espiral armamentista é particularmente inquietante. Depois de décadas em que a contenção militar se justificava pela memória do horror do século XX, o país surge agora como motor central do rearmamento europeu. Esta mudança é apresentada como pragmatismo geopolítico, mas contém um grave erro histórico: a amnésia estratégica.
A Alemanha esquece que a sua segurança nunca foi garantida pelo militarismo, mas precisamente pela integração económica, pelo diálogo, pela cooperação continental e por uma ordem europeia baseada na superação dos antagonismos armados. Ao investir massivamente em armamento e ao aceitar o enquadramento estratégico imposto pela NATO e pelo eixo anglo-atlântico, Berlim abdica de pensar a Europa como sujeito autónomo para pensá-la com objcto. E o que desautoriza a Europa é o facto de toda ela dançar em torno da elite europeia EU-3 (Alemanha, França e Reino Unido) que com sua encenação desvia as atenções da Europa para os seus interesses nacionalistas de elite. Os belicistas europeus na política e no jornalismo transmitem uma imagem de companheirismo agitado como se a ameaça viesse toda de fora. «Quem cava uma cova para os outros, cai nela», diz um provérbio.
Mais grave ainda: a Alemanha assume uma lógica de confrontação com a Rússia sem refletir seriamente sobre as consequências geopolíticas malévolas de longo prazo para o próprio continente europeu.
NATO e Reino Unido: a geopolítica da divisão permanente
A NATO, enquanto aliança militar, cumpre a função para a qual foi criada. O problema surge quando ela se transforma num ator normativo e cultural, ditando prioridades económicas, políticas e até educativas aos Estados membros.
A proposta, explícita ou implícita, de destinar 5% do PIB à defesa não visa apenas garantir segurança, mas militarizar a sociedade: a linguagem, os valores, o imaginário coletivo. A guerra torna-se aceitável antes mesmo de começar.
O Reino Unido, por sua vez, desempenha um papel particularmente ambíguo e irresponsável. Após o Brexit, Londres procura reafirmar relevância geopolítica através de uma postura agressiva, promovendo uma visão de confronto permanente com o espaço euroasiático. A sua influência sobre a política externa europeia, embora indireta, continua a alimentar uma estratégia de fragmentação do continente, historicamente vantajosa para potências marítimas, mas profundamente nociva para a estabilidade europeia.
A leviandade da União Europeia: economia sem geoestratégia
Talvez o elemento mais preocupante seja a ausência de pensamento geoestratégico próprio da União Europeia. A UE reage, mas não age; segue, mas não propõe; administra crises, mas não constrói visões.
A Europa parece incapaz de refletir sobre um dado fundamental: geograficamente, é uma península do grande continente asiático. A sua segurança de longo prazo não pode ser pensada contra a Rússia, mas com a Rússia. A história mostra que sempre que a Europa tentou excluir, cercar ou humilhar o espaço russo, acabou por gerar conflitos devastadores, primeiro para si própria.
Elaborar um tratado de paz duradouro com a Rússia, fundado na segurança comum, na cooperação económica e no respeito mútuo, não seria sinal de fraqueza, mas de maturidade civilizacional. A CEI aponta precisamente nessa direção ao rejeitar a lógica da dissuasão armada como fundamento da paz.
Do colonialismo clássico ao neocolonialismo mental
O rearmamento europeu não é apenas uma questão militar. Ele insere-se numa continuidade histórica mais profunda: a transição do colonialismo esclavagista clássico para um neocolonialismo mental.
Se outrora o domínio se exercia pela força física, pela ocupação territorial e pela exploração direta dos corpos, hoje exerce-se pela manipulação da consciência. A centralização da informação, a homogeneização do discurso mediático, a redução do debate público a narrativas simplistas e polarizadas produzem cidadãos incapazes de pensar fora das categorias impostas.
Este neocolonialismo é, paradoxalmente, mais radical que o anterior: escraviza a consciência desde a infância, moldando perceções, medos e lealdades antes mesmo que o pensamento crítico possa emergir. A guerra, neste contexto, não precisa de ser declarada porque passa a ser interiorizada.
O sangue dos filhos do povo e os interesses das elites
A Nota Pastoral da CEI recupera uma verdade antiga e sempre atual: as guerras são decididas por elites e pagas pelo povo. Os filhos das classes populares continuam a ser a matéria-prima dos conflitos, enquanto os benefícios económicos, políticos e estratégicos se concentram em círculos restritos.
A indústria do armamento, os complexos financeiros e os aparelhos políticos alimentam-se de medo e divisão. A paz, pelo contrário, ameaça esses interesses porque exige redistribuição, transparência, cooperação e justiça social.
Uma cultura da paz como investimento estratégico
A grande inversão proposta, implicitamente pela CEI e explicitamente necessária é esta: substituir o investimento na guerra por um investimento estrutural na paz.
Aplicar 5% do PIB europeu numa cultura da paz significaria: educação para o pensamento crítico e plural; diplomacia preventiva e contínua; mediação internacional independente; justiça social como política de segurança; comunicação descentralizada e diversidade informativa; reconstrução do sentido comunitário e da fraternidade civil e universal procurando neste sentido também levar as máquinas e as indústrias de produção para países carenciados em vez de os obrigar a abandonar os seus biótopos naturais fugindo da pobreza para a Europa.
Isto não é utopia, seria estratégia de sobrevivência.
Europa armada ou Europa consciente?
A Europa encontra-se perante uma escolha histórica. Pode continuar a seguir as políticas tradicionais da guerra, travestidas de realismo, ou pode ousar uma rutura cultural profunda.
A Nota Pastoral da Conferência Episcopal Italiana recorda algo essencial: a paz não é fraqueza, é força civilizacional. Não nasce das armas, mas da justiça; não se impõe, constrói-se; não serve elites, protege povos.
Sem uma conversão ética, cultural e estratégica, a Europa arrisca tornar-se apenas um espaço militarizado, dividido, subalterno, rico em armas, mas pobre em consciência.
Uma Europa que não pensa, apenas reage. Uma Europa que esquece que a verdadeira segurança começa quando a guerra deixa de ser imaginável.
A pergunta que a Europa e particularmente a E-3 precisa de enfrentar não é apenas quanto gastar em defesa, mas que tipo de humanidade deseja promover. Financiar a guerra é fácil, rápido e politicamente rentável no curto prazo. Financiar a paz exige paciência, coragem e visão histórica.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo:
Semos uma luz para o mundo será a escolha certa.
O futuro só Deus sabe,
Pois o mundo é incapaz.
Queremos que a guerra acabe,
Que todos vivam em paz.
Aurora Madaleno
Aurora Martins Madaleno, o seu belíssimo comentário, é como que uma prece em forma de poema, chama-nos para a realidade. Nele, capta a essência do anseio que deveria unir todos os povos: o desejo de paz, a luz da esperança e a humilde consciência de que o futuro ultrapassa os nossos desígnios.
Tem toda a razão. O coração dos povos, aquele que bate nas ruas, nas praças e nas famílias, clama pelo fim da guerra e pelo direito a uma vida serena. É esse sentimento universal e bom que nos consola e nos guia e não o que os altifalantes dos poderosos nos ditam para nos confundirem.
O meu artigo procurou precisamente refletir sobre o abismo que, por vezes, parece separar esse clamor terreno dos cálculos e das estratégias que se desenham nos gabinetes. Quando me referi à necessidade de passarmos de uma “Europa armada” para uma “Europa pensante”, era a essa dissonância que aludia: a vontade popular, sábia no seu desejo de paz, versus a complexa arquitetura de poder que, de facto, parece habitar um “Olimpo” distante em Bruxelas. Um Olimpo onde as decisões, por vezes, se assemelham mais a jogos de xadrez geopolítico do que à resposta simples e humana que o povo quereria.
É por isso que a sua última frase nos consola duplamente. Se a certeza do amanhã pertence apenas a Deus, e se Ele anda sempre com o povo, então a última palavra – aquela que verdadeiramente conta – nunca estará nos palácios de cristal, mas na força quieta, na luz e na resiliência de quem, como tão bem poetiza, apenas quer viver em paz.
Agradeço-lhe também o modo de abordar o tema com subtileza e fé. São vozes como a sua que mantêm a luz acesa.
Maravilhoso Artigo ! Sempre ouvi dizer mal da Rússia. Sempre eu caladinha, achava esquesito, dizerem tão mal de um País , tão longe eu aqui num pais , que mal conhecia .. apenas via tanta coisa mal !!! Havia uns folhetinhos, que a igreja distribuia uma oração para que, rezasse pela conversão, da Rússia … Eu aqui sem me converter !! ! Começaram a dizer-, que -Nossa Senhora de Fátima apareceu e pediu a conversão da Rússia, eu não me converti…. afinal era a Rússia que precisava, e não o meu País… Tudo para distrair…. o que se passa cá dentro do meu coração no meu entender pobre de um povo cheio do não “saber” nada”… mas acreditar tudo o que nos diziam que os outros— faziam, para tudo acreditar –. Tenho aqui a sua resposta onde escreve , Tentar isolar ou humilhar a Rússia é como tentar separar o quarto da casa em que se vive., a verdadeira segurança só pode ser constuida com o vizinho , nunca contra ele , nem contra ninguém. Quem cava uma cova para os outros , cai nela diz um provérbio Um bem haja e obrigada.
Conceição Azevedo, seu comentário é, por si só, um exemplo e uma lição de como a experiência pessoal, quando reflectida com o coração aberto, vê além das narrativas dominantes que no dia a dia nos querem impor. Agradeço-lhe as palavras sobre o artigo e o facto de ter partilhado este raciocínio tão íntimo e verdadeiro.
A sua perplexidade diante do que “sempre se ouvia dizer” e ouve dizer sobre um país tão distante é a reacção mais humana e sensata que se pode ter. A sua observação sobre os folhetinhos e o foco na “conversão da Rússia” é de uma ironia profundamente sagaz: mostra como, por vezes, instrumentos de fé podem ser instrumentalizados para criar um “outro” distante, um bode expiatório, enquanto se desvia o olhar “do que se passa cá dentro”, tanto no coração de cada um como nos problemas do próprio país. (Não entro aqui no tema da ideologia marxista que é o lado oposto da fé cristã no que respeita ao seu materialismo!)
Essa é a distracção de que fala, e que é tão real. Enquanto nos concentrarmos num suposto mal exterior, abstracto e amplificado, deixamos de questionar, de cuidar e de transformar o que está perto. O seu “entender pobre de um povo cheio do não ‘saber’ nada… mas acreditar tudo” descreve com brilho poético o mecanismo da manipulação.
Por isso, a metáfora que citou, a de que isolar a Rússia é como tentar separar um quarto da nossa própria casa, ganha uma nova dimensão com o seu testemunho. Se essa “casa” é a nossa humanidade partilhada ou a nossa própria consciência, a tentativa de declarar uma parte como totalmente alheia e má é, de facto, uma violência contra a integridade do todo e contra o sentido geográfico da Europa. E, como bem lembra o provérbio, quem cava covas para o vizinho acaba por cair nelas, porque no fundo todos habitamos o mesmo terreno.
A sua voz, que primeiro se manteve “caladinha” por achar “esquisito”, e que depois foi encontrando a sua própria verdade, é a luz de que precisamos. É essa coragem de desconfiar das histórias demasiado simples, de questionar informações prontas que nos entregam empacotadas com papel de enfeite, que constrói uma consciência verdadeiramente livre e uma paz firme.
Retribuo o seu “bem-haja” com gratidão por esta partilha que enriquece a reflexão sobre política, fé e humanidade.
O apelo de Jesus para “não deixar a luz debaixo do alqueire” recomenda a lucidez e o testemunho que se torne farol. Trata-se de sermos nós mesmos num mundo em que outros querem que sejamos eles!
Li com muito interesse o artigo .
Este texto está muito bem orquestrado e alerta para a Europa dos 3 (E-3) – Alemanha, Inglaterra e França, que parece querer tornar a guerra como “doença crónica” na Europa.
Com o rearmamento acelerado e a narrativa de guerra, a Europa está a trocar o seu projeto de Paz por um confronto sem fim com a Rússia.
Recordemos que a verdadeira segurança da Alemanha veio da cooperação e não das armas.
O Reino Unido age como um sismógrafo do caos.
Para se manter relevante, semeia a divisão no continente, uma estratégia antiga das potências marítimas que deixam a Europa mais frágil e instável.
A UE movida pela UE – 3
tenta isolar a Rússia e
esquece que a Europa é uma península da Ásia.
A verdadeira segurança só pode ser contar com o vizinho.
Não olha para o provérbio “Quem cava uma cova
para os outros, cai nela.”
Querem-nos fazer aceitar a guerra como normal. “Quem paga a Conta, é o Povo. Quem lucra são as Elites e Potências
Que tipo de Humanidade queremos?
Trocar o projeto de união
por um pesadelo de militarização, onde as Elites lucram e o Povo
paga?
Ou uma “Cultura de Paz” financiada com a mesma verba que se destina às armas.
António Justo conclui:
“A escolha é entre sermos um Forte Militar ou uma Luz para o Mundo”.
Complemento:
Com a guerra na Ucrânia em 2025 as empresas de armamentos atingiram um nível recorde, o valor maior alguma vez alcançado:
13,4% na Europa.
A maior pontuação foi para a Eslováquia que aumentou em 193% o lucro.
Na França o lucro subiu 12%, na Itália 9,1%,
M.Manuela agradeço muito o Feedback e em especial os dados :Com a guerra na Ucrânia em 2025 as empresas de armamentos atingiram um nível recorde, o valor maior alguma vez alcançado: 13,4% na Europa. A maior pontuação foi para a Eslováquia que aumentou em 193% o lucro. Na França o lucro subiu 12%, na Itália 9,1%,