Fé civil e Fé religiosa na Construção da Paz
Quando a Consciência se torna o último Bastião da Liberdade
Vivemos numa época de paradoxos desconcertantes. Nunca se falou tanto de democracia, inclusão e direitos humanos e contudo, nunca a consciência individual pareceu tão sitiada. As sociedades contemporâneas, munidas de tecnologias de persuasão cada vez mais sofisticadas, descobriram que o controlo não precisa de correntes, basta moldar convicções, direcionar emoções, fabricar consensos. A liberdade exterior pode subsistir enquanto a interior se dissolve, quase sem resistência, nas ondas algorítmicas e mediáticas que nos dizem o que pensar antes mesmo de o pensarmos.
É neste contexto que se impõe uma reflexão urgente: pode a fé civil, essa adesão aos valores da polis, ao contrato social, à identidade coletiva, caminhar lado a lado com a fé religiosa, essa luz interior que nenhum poder decreta? Ou estamos condenados a assistir ao eterno confronto entre o público e o privado, entre o Estado e a alma, entre a multidão e o silêncio?
A Sedução Silenciosa do Poder Democrático
A tradição política moderna ensinou-nos, com razão, a desconfiar dos tiranos. Mas talvez não nos tenha preparado suficientemente para desconfiar das tiranias suaves, aquelas que se apresentam com a face amável da maioria, do progresso, do “bem comum”, dos “valores europeus”. Todo o poder, mesmo quando nasce do voto livre, carrega em si uma tendência totalitária: deseja não apenas a obediência exterior, mas a adesão interior. Quer não só que cumpramos a lei, mas que a amemos; não só que aceitemos as decisões coletivas, mas que as interiorizemos como verdades inquestionáveis.
Esta mutação do poder democrático em pedagogia obrigatória do pensar tornou-se particularmente evidente nos últimos anos. A pandemia de COVID-19 funcionou como um catalisador, revelando até que ponto os Estados contemporâneos estão dispostos a penetrar no santuário da consciência. Não se tratou apenas de impor medidas sanitárias, legítimas ou não, mas de exigir uma adesão emocional, moral, quase religiosa a narrativas oficiais, sob pena de exclusão social, estigmatização pública ou censura.
A filosofia antiga já conhecia este perigo. Platão, na sua “República”, sonhou com um Estado onde os guardiões seriam educados através de mitos cuidadosamente selecionados para moldar as suas almas. Mas foi precisamente contra essa tentação que se ergueram os grandes defensores da consciência individual, de Sócrates a Agostinho, Kant, etc (1). A verdadeira liberdade, insistiram, não está na possibilidade de escolher entre opções pré-determinadas, mas na capacidade de discernir, no silêncio da interioridade, o que é verdadeiro e o que é justo, mesmo quando todo o mundo diz o contrário. O despertar da consciência individual leva ao processo de ampliar a percepção sobre si mesmo, sobre a vida e sobre a realidade.
O Santuário interior: Onde nenhum Poder pode entrar
“A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser.” Esta definição do Concílio Vaticano II não é apenas uma formulação teológica; é uma declaração de independência antropológica. Há em cada pessoa um espaço inviolável, uma cidadela interior onde nenhum decreto pode penetrar, nenhuma maioria pode legislar, nenhuma propaganda pode semear.
É precisamente aqui que a fé pessoal se distingue radicalmente da fé civil. A fé civil, por mais nobre que seja, permanece ligada à contingência histórica, às ideologias, às formas de governo, aos consensos temporários. Ela pertence ao domínio do que Hegel chamava “espírito objetivo”: as instituições, as leis, os costumes partilhados. Mas a fé pessoal, a consciência iluminada, pertence a outra ordem: a do “espírito absoluto”, que transcende as circunstâncias e se enraíza numa verdade que não se constrói, mas se acolhe.
Esta distinção não significa antagonismo. Pelo contrário, uma sociedade verdadeiramente livre necessita de ambas: precisa de fé civil para garantir a coesão, a solidariedade, o sentido de pertença; mas precisa igualmente de consciências individuais fortes, capazes de resistir quando a própria comunidade se extravia, quando a maioria se torna multidão, quando o consenso se transforma em conformismo.
Santa Luzia e a Visão que resiste
Não é por acaso que a tradição cristã celebra, nesta época do Advento, Santa Luzia, (2) a que preferiu perder os olhos a perder a visão interior. O seu martírio, mais do que um facto histórico distante, funciona como parábola permanente da condição humana. A verdadeira cegueira, ensina-nos Luzia, não está na ausência de visão física, mas na rendição da consciência. Pode-se arrancar os olhos a uma pessoa, mas não se pode apagar a luz que habita o seu interior, a menos que ela própria, por medo ou sedução, consinta em extingui-la.
Esta metáfora da luz interior atravessa toda a história da espiritualidade humana. Das cavernas platónicas ao “lumen naturale” de Descartes, da “luz interior” dos quakers à “chama da consciência” de que fala Martin Luther King, a humanidade sempre soube, intuitivamente, que há uma luminosidade própria da pessoa que nenhum poder exterior pode fabricar ou confiscar. É esta luz que permite a Gandhi jejuar até que um império se dobra, a Mandela sobreviver décadas de prisão sem perder a dignidade e a Dietrich Bonhoeffer escrever, da sua cela nazi, que “não são as experiências boas ou más que dão sentido à vida, mas o sentido que damos às experiências”.
A Ilusão da Bolha e o Perigo das Indignações fabricadas
Vivemos tempos em que as multidões se formam e dissolvem com uma velocidade vertiginosa. As redes sociais criaram o que poderíamos chamar “comunidades de indignação instantânea”: grupos de pessoas que se agregam em torno de uma causa, de uma revolta, de uma denúncia, mas que, muitas vezes, não partilham verdadeira reflexão, apenas reflexos emocionais sincronizados.
Esta dinâmica é profundamente perigosa para a consciência. Quando a comoção pública substitui o discernimento pessoal, quando as ondas de indignação varrem a capacidade de pensar, a pessoa deixa de ser sujeito para se tornar instrumento. E instrumentos, mesmo quando acreditam lutar pela justiça, podem ser facilmente manipulados por interesses obscuros e partidários que nada têm a ver com o bem comum.
A filosofia política clássica sempre soube distinguir entre povo e multidão. O povo é um corpo organizado de cidadãos conscientes, capazes de deliberação racional; a multidão é um agregado emocional, movido por impulsos, facilmente manipulável. Nas democracias contemporâneas, assistimos frequentemente à transformação do povo em multidão; isto acontece não pela força, mas pela saturação emocional, pela sobrecarga informativa, pela polarização artificial de debates.
É contra esta dissolução que a fé pessoal, entendida como cultivo da interioridade consciente, se torna resistência silenciosa, mas eficaz. Quem possui uma bússola interior, orientada por princípios que transcendem as flutuações da opinião pública, não se deixa arrastar pelas correntes. Não se trata de recusar o diálogo com a sociedade, mas de entrar nesse diálogo como pessoa íntegra, não como eco das últimas tendências.
Fé Civil e Fé Religiosa devem ser dois Polos complementares não concorrentes
O grande erro das ideologias modernas, sejam elas laicas ou religiosas, foi pensar a relação entre fé civil e fé religiosa em termos de concorrência. Os jacobinos quiseram eliminar Deus para instaurar a religião da Razão; os fundamentalistas querem eliminar o Estado laico para instaurar teocracias. Ambos partem do mesmo pressuposto falso: que só pode haver uma fonte de autoridade moral, um único horizonte de sentido.
A verdade é mais subtil e mais fecunda. A fé civil e a fé religiosa não são adversárias, mas complementares, desde que cada uma reconheça os seus próprios limites e respeite o espaço da outra. A fé civil fornece o quadro de convivência, as regras do jogo comum, o mínimo ético partilhável; a fé religiosa oferece a profundidade, a transcendência, a reserva de sentido que impede a vida humana de se esgotar no pragmatismo e no materialismo.
Mais ainda: ambas se necessitam mutuamente como corretivo. Uma fé civil sem abertura à transcendência corre o risco de se fechar num imanentismo sufocante, onde tudo se reduz ao cálculo de utilidades e às estatísticas de maiorias. Uma fé religiosa sem responsabilidade civil corre o risco de se perder em abstração desencarnada, esquecendo que a verdade só é verdadeiramente humana quando se faz justiça, compaixão, caritas concreta.
O desenvolvimento humano autêntico, não o mero crescimento económico ou tecnológico, mas o amadurecimento integral das pessoas e das sociedades, exige esta dialética permanente: o reconhecimento dos erros para os superar, a humildade para aprender com as múltiplas tradições de sabedoria, a coragem para não absolutizar nenhuma forma histórica de organização social.
A Função da Palavra: Despertar
Há uma tentação, particularmente forte em épocas de polarização, de usar a palavra como arma de persuasão, como instrumento de convencimento, quase como forma de dominação intelectual. Escreve-se para provar que se tem razão, para derrotar o adversário, para conquistar adeptos.
Mas existe outra forma de escrever e de ler: aquela que serve não para convencer, mas para despertar. Não para impor verdades prontas, mas para acender interrogações fecundas. Não para fechar debates, mas para manter viva a chama que impede a consciência de adormecer.
Esta escrita, poderíamos chamá-la “escrita socrática”, não oferece sistemas completos nem respostas definitivas. Ela propõe, sugere, interroga, convida. Confia na capacidade de cada leitor de descobrir, no silêncio da sua própria interioridade, a luz que já lá estava, à espera de ser reconhecida.
É por isto que a verdadeira cultura de paz não se constrói através de doutrinação, mas através de educação no sentido mais profundo: “educare”, conduzir para fora, ajudar a pessoa a emergir da caverna das opiniões legadas, dos preconceitos não examinados, das certezas fabricadas. Uma cultura de paz pressupõe cidadãos interiormente livres, capazes de pensar por si mesmos, de resistir às manipulações, de discernir entre verdade e propaganda.
Pressupostos para uma Cultura de Paz
Se quisermos genuinamente construir uma cultura de paz, precisamos de começar por reconhecer algumas verdades desconfortáveis:
Primeiro: A paz não é ausência de conflito, mas capacidade de gerir conflitos sem violência. Isto exige pessoas com maturidade interior, capazes de suportar a tensão da divergência sem precisar de aniquilar o outro.
Segundo: Não pode haver paz duradoura sem justiça, e não pode haver justiça sem verdade. Mas a verdade não é fabricável por consenso ou decreto; ela exige uma busca honesta, humilde, permanente, que respeite a dignidade da consciência individual.
Terceiro: Uma sociedade verdadeiramente pacífica não é aquela onde todos pensam o mesmo, mas aquela onde diferentes visões do bem podem coexistir, desde que partilhem um compromisso comum com o respeito pela dignidade humana e pela liberdade de consciência.
Quarto: A cultura de paz requer o cultivo da vida interior. Sociedades compostas por pessoas esvaziadas interiormente, reduzidas a consumidores e espectadores, são manipuláveis e, portanto, potencialmente violentas. A paz verdadeira nasce de pessoas que possuem um centro, uma bússola, uma luz própria.
Quinto: É preciso reabilitar o silêncio. Numa cultura saturada de ruído, onde a informação corre mais depressa do que a capacidade de a processar, o silêncio não é vazio mas plenitude, é o espaço onde a consciência pode finalmente ouvir-se a si própria e, ouvindo-se, discernir.
O Advento interior é sempre que a Humanidade espera a Luz
O Advento cristão, esse tempo de espera e preparação antes do Natal, funciona como metáfora de uma condição humana permanente: somos seres que aguardam a luz, que anseiam por ela, que não se resignam à escuridão. Mas esta luz que esperamos não vem apenas de fora, como presente caído do céu; ela também precisa de ser cultivada dentro de nós, como chama que se protege do vento.
Santa Luzia, no seu testemunho, ensina-nos que a verdadeira iluminação não é passiva. Não basta aguardar que alguém nos ilumine; é preciso decidir, ativamente, manter acesa a luz interior, mesmo quando tudo conspira para a apagar. Esta decisão, ética, espiritual, existencial, é o ato fundador da liberdade humana.
Numa época em que tantas forças querem retirar às pessoas a fé e a liberdade interior para melhor as dominar, é preciso lembrar uma verdade antiga mas sempre nova: a fé autêntica, aquela que nasce da luz interior e não da imposição exterior, é a força mais revolucionária que existe. Ela rompe com a injustiça não através de violência, mas através da recusa silenciosa, mas firme de colaborar com a mentira. Ela transforma sociedades não através de decretos, mas através do testemunho de vidas íntegras que, sem alarde, mostram que é possível viver de outro modo.
Conclusão: A Liberdade que sustenta todas as Outras
Há uma hierarquia nas liberdades. A liberdade de movimento, de expressão, de associação, todas elas são preciosas e devem ser defendidas. Mas há uma liberdade mais fundamental, da qual todas as outras dependem: a liberdade interior, a capacidade de pensar por si próprio, de discernir, de manter a consciência acordada.
Esta é a liberdade mais difícil de conquistar porque exige trabalho interior constante: leitura, reflexão, confronto honesto com as próprias contradições, cultivo do silêncio. Mas é também a liberdade mais impossível de confiscar, porque reside num lugar onde nenhum poder pode entrar sem consentimento.
Quando fé civil e fé religiosa caminham lado a lado, reconhecendo-se mutuamente, respeitando os seus limites, fertilizando-se reciprocamente, criam-se as condições para uma sociedade verdadeiramente humana: livre sem ser caótica, ordenada sem ser opressiva, plural sem ser fragmentada, justa sem ser uniformizadora (a sábia palavra de Jesus “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, de Mt 22,21, é um convite a viver plenamente tanto no mundo material (cumprindo deveres) como no espiritual (vivendo a fé e os valores divinos), reconhecendo que ambos têm seus lugares e exigem o devido respeito e dedicação, sem que um se sobreponha ou se confunda com o outro).
A luz que ninguém decreta, essa luz da consciência iluminada, da fé pessoal autêntica, da interioridade cultivada é, no fim de contas, a única garantia real de que a humanidade não se perderá nas trevas, por mais sofisticadas que sejam as formas de dominação que o futuro nos reserve. Porque onde houver uma única consciência livre, lúcida, firme nos seus princípios, mas aberta ao diálogo, aí a esperança permanece viva, e com ela a possibilidade de um mundo mais pacífico, mais justo, mais verdadeiramente humano.
Talvez seja este, afinal, o sentido mais profundo de escrever e ler: não para encerrar o pensamento em fórmulas definitivas, mas para manter acesa, geração após geração, a chama que impede a consciência de adormecer. Porque enquanto houver quem leia, quem pense, quem se recuse a entregar a sua luz interior, haverá resistência contra toda a forma de opressão, e haverá esperança de que a paz, não como silêncio imposto, mas como harmonia livremente construída, seja possível.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
(1) Há várias encíclicas em que a consciência é tema central como em “Veritatis Splendor” (João Paulo II, 1993), que discute a lei moral e a formação da consciência, e a encíclicas como “Pacem in Terris” (João XXIII, 1963) sobre direitos e deveres, e a última encíclica do Papa Francisco, “Dilexit nos” (Francisco, 2024), que trata a consciência, e a necessidade de formar uma consciência reta com base na verdade e na lei divina, não em subjetivismos, sendo um tribunal interno que julga nossas ações.
(2) Artigo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10491
Segue-se a versão resumida para eitores mais apressados:
A LUZ QUE NINGUÉM DECRETA
Fé civil e Fé religiosa de Mãos dadas
Vivemos tempos paradoxais. Nunca se falou tanto de liberdade, mas nunca a consciência individual pareceu tão sitiada. As sociedades contemporâneas descobriram que o controlo não precisa de correntes, basta moldar convicções, fabricar consensos, direcionar emoções. A pandemia de COVID-19 revelou até que ponto os Estados estão dispostos a penetrar no santuário da consciência, exigindo não apenas obediência exterior, mas adesão emocional a narrativas oficiais.
É neste contexto que se impõe uma pergunta urgente: pode a fé civil, essa adesão aos valores da polis, caminhar lado a lado com a fé religiosa, essa luz interior que nenhum poder decreta?
A Sedução silenciosa do Poder democrático
A tradição política moderna ensinou-nos, com razão, a desconfiar dos tiranos. Mas talvez não nos tenha preparado suficientemente para desconfiar das tiranias suaves, aquelas que se apresentam com a face amável da maioria, do progresso, do “bem comum”, dos “valores europeus”. Todo o poder, mesmo quando nasce do voto livre, carrega em si uma tendência totalitária: deseja não apenas a obediência exterior, mas a adesão interior. Quer não só que cumpramos a lei, mas que a amemos; não só que aceitemos as decisões coletivas, mas que as interiorizemos como verdades inquestionáveis.
O Santuário Interior
“A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem”, ensina o Concílio Vaticano II. Há em cada pessoa um espaço inviolável onde nenhum decreto pode penetrar, nenhuma maioria pode legislar. É aqui que a fé pessoal se distingue da fé civil: esta pertence à contingência histórica, às ideologias, às formas de governo; aquela enraíza-se numa verdade que não se constrói, mas se acolhe.
Esta distinção não significa antagonismo. Uma sociedade verdadeiramente livre necessita de ambas: precisa de fé civil para garantir coesão e solidariedade, mas precisa igualmente de consciências individuais fortes, capazes de resistir quando a própria comunidade se extravia, quando o consenso se transforma em conformismo.
Santa Luzia: A Visão que Resiste
Nesta época do Advento, Santa Luzia (1) surge como símbolo luminoso: a que preferiu perder os olhos a perder a visão interior. O seu martírio ensina-nos que a verdadeira cegueira não está na ausência de visão física, mas na rendição da consciência. Pode-se arrancar os olhos a uma pessoa, mas não se pode apagar a luz que habita o seu interior, a menos que ela própria consinta em extingui-la.
Esta luz interior é a que permite pessoas críticas como Luther King a resistir contra a injustiça social nos EUA, a Gandhi resistir a um império, a Mandela sobreviver décadas de prisão e a Bonhoeffer escrever da sua cela nazi que “não são as experiências que dão sentido à vida, mas o sentido que damos às experiências.”
O Perigo das Indignações Fabricadas
As redes sociais criaram “comunidades de indignação instantânea” onde a comoção pública substitui o discernimento pessoal. Quando as ondas de indignação varrem a capacidade de pensar, a pessoa deixa de ser sujeito para se tornar instrumento facilmente manipulável por interesses obscuros.
A filosofia política sempre soube distinguir entre povo e multidão. O povo é um corpo organizado de cidadãos conscientes; a multidão é um agregado emocional, facilmente manipulável. É contra esta dissolução que a fé pessoal, entendida como cultivo da interioridade consciente, se torna resistência silenciosa, mas eficaz.
Polos complementares e não concorrentes
O grande erro das ideologias modernas foi pensar a relação entre fé civil e fé religiosa em termos de concorrência (esse erro ainda hoje doutrina foi espalhado pelo marxismo materialista como verdade científica fundada na velha física e na estratégia do divide para imperar). A verdade é mais fecunda: ambas são complementares. A fé civil fornece o quadro de convivência, as regras do jogo comum; a fé religiosa oferece a profundidade, a transcendência, a reserva de sentido que impede a vida humana de se esgotar no pragmatismo ou na visão do mensurável.
Mais ainda: ambas se necessitam mutuamente como corretivo. Uma fé civil sem abertura à transcendência corre o risco de se fechar num imanentismo sufocante. Uma fé religiosa sem responsabilidade civil corre o risco de se perder em abstração desencarnada, esquecendo que a verdade só é verdadeiramente humana quando se faz justiça, compaixão, cuidado concreto.
A Liberdade que sustenta todas as Outras
Há uma hierarquia nas liberdades. A liberdade de movimento, de expressão, de associação e todas elas são preciosas. Mas há uma liberdade mais fundamental: a liberdade interior, a capacidade de pensar por si próprio, de discernir, de manter a consciência acordada.
Esta é a liberdade mais difícil de conquistar porque exige trabalho interior constante: leitura, reflexão, cultivo do silêncio. Mas é também a liberdade mais impossível de confiscar, porque reside num lugar onde nenhum poder pode entrar sem consentimento.
Quando fé civil e fé religiosa caminham lado a lado, reconhecendo-se mutuamente, respeitando os seus limites, fertilizando-se reciprocamente, criam-se as condições para uma sociedade verdadeiramente humana: livre sem ser caótica, ordenada sem ser opressiva, plural sem ser fragmentada, justa sem ser uniformizadora (a sábia palavra de Jesus “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, de Mt 22,21, é um convite a viver plenamente tanto no mundo material (cumprindo deveres) como no espiritual (vivendo a fé e os valores divinos), reconhecendo que ambos têm seus lugares e exigem o devido respeito e dedicação, sem que um se sobreponha ou se confunda com o outro)
A luz que ninguém decreta, essa luz da consciência iluminada, é a única garantia real de que a humanidade não se perderá nas trevas. Porque onde houver uma única consciência livre, lúcida, firme nos seus princípios, mas aberta ao diálogo, aí a esperança permanece viva, e com ela a possibilidade de um mundo mais pacífico, mais justo, mais verdadeiramente humano.
Talvez escrever e ler sirvam precisamente para isto: não para convencer, mas para despertar. Não para dar respostas fechadas, mas para manter viva a chama que impede a consciência de adormecer.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
(1) Artigo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10491
Li com algum prazer o texto do amigo António Justo. Para lá da valia estilística do seu recorte literário e de alguma consistência baseada na sua fé católica e respectiva teologia, ele avança no seu texto com base numa dialéctica coxa ou manca, em contrários (tese versus antítese), mas a que falta a superação ou Aufhebung pela síntese. É um texto idealista que critica ou arranha à superfície o materialismo marxista, o qual é histórico e dialéctico, e não se despede, a não ser em versões pseudo-marxistas e dogmáticas, da intimidade do indivíduo, da espiritualidade cultural e religiosa, da super-estrutura ideológica, na pessoa e nos colectivos, contrariando-se a célebre frase de H. HEINE segundo a qual ‘”a religião é o ópio dos pobres” (há mais versões desta frase, por exemplo: “a religião é ópio para os pobres”) implicando cada versão uma hermenêutica diferenciada. Marx, parente de Heine, utilizou a frase por ver nela a tradução de um factor de ‘alienação’ (Entfremdung) das massas o que, aliás, é verdade e se verifica todos os dias em situações muito diversas nas mais variadas religiões e concepções do mundo (Weltanschauungen). Essa alienação em termos católicos pode ser traduzida pela expressão popular de ‘beatice’. O marxismo fundamental visa o fim da exploração do homem pelo homem, da sociedade sem classes antagónicas, o avanço da ciência, do conhecimento panepistémico, do desenvolvimento sócio-económico e aqui aproxima-se do ensinamento de Jesus – o amor ao próximo -, mas este amor é dificilmente realizável inteiramente enquanto houver nas nossas sociedades capitalistas uma apropriação das mais-valias da produção (criadas por milhões de trabalhadores), por parte dos relativamente poucos donos dos meios de produção (empresas, máquinas, terras agrícolas…), as centenas ou até milhares dos donos disto tudo ou DDT em confronto com milhões de camponeses, de operários, de empregados no comércio e nos serviços, enfim, no tecido social. Respeito as ideias de A. JUSTO, pese embora o facto de a sua narrativa se apartar da minha em vários pontos da nossa viagem no planeta Terra. O saudoso Papa Francisco com formação na Universidade de Buenos Aires (licenciatura em Química) antes de estudar Teologia, Filosofia e Literatura, dizia que “esta economia mata” referindo-se, claro, à exploração capitalista à escala planetária. Um abraço ao António.
Luciano Caetano da Rosa ,agradeço a partilha desta tua interessante tomada de posição numa troca de ideias. Caro amigo, a crítica que apresentas ao meu artigo revela uma posição bem fundamentada no marxismo dialético, mas levanta alguns pontos que merecem reflexão bem ponderada e a que não fugirei e logo à noite responderei. Grande abraço.
UM BEM HAJA ! SR. ANTÓNIO JUSTO. OBRIGADA . QUE A LUZ ILUME OS NOSSOS GOVERNANTES. AS SUAS PALAVRAS, AQUI – ESTOU NÃO CAIRÃO, EM SACO ROTO– COSTUMA-SE DIZER !! A LUZ DE DEUS NUNCA SE HÁ-DE APAGAR EM NOSSAS CONSCIÊNCIAS . DEUS, NÃO DORME ! E OS AMIGOS DELE — ELE OS TEM– NÃO DEIXARÃO APAGAR A LUZ QUE VEM DELE, NÃO TER MEDO DAR TESTEMUNHO,QUE TODOS SOMOS IRMÃOS NÃO PARA DAR RESPOSTAS FECHADAS, MAS PARA MANTER VIVA A CHAMA VIVA A CHAMA QUE IMPEDE DE ADORMECER , –BELAS AS SUAS PALAVRAS ! SÓ DEUS LHE PAGARÁ . TERÁ A RECOMPENSA ELE SEMPRE PAGA BEM MELHOR QUE NINGUÉM–PAGA SEMPRE A MAIS DE SEM POR CENTO ! VAI ALÈM Á ETERNIDADE . O RECOMPENSARÁ NÃO DUVIDE . O SEU ENCINO NÃO TEM PREÇO ! BOA NOITE UM MUITO OBRIGADA .
Autor
António Cunha Duarte Justo
Conceição Azevedo, o seu agradecimento comove-me pela ressonância que manifesta. Quando um texto ressoa em nós, é porque a luz já habitava o nosso interior. As minhas palavras foram apenas espelho da verdade que já vivia em si. Não sou eu quem ilumina, sou apenas testemunha dessa Luz que não se decreta, que não se apaga, que nos precede e nos ultrapassa. A chama que reconhece nas minhas palavras é a mesma que arde na sua consciência desperta.
Obrigado por manter viva essa vigília, por não adormecer, por ser também testemunha dessa Luz que nos faz irmãos. Não há recompensa que eu procure, basta-me saber que a palavra encontrou eco em quem já carregava a mesma busca. Que essa Luz continue a iluminar o seu caminho e o de todos os que recusam as respostas fechadas e preferem manter acesa a chama da pergunta honesta.
Um abraço fraterno
Caro amigo Luciano, tu advertes-me pelo facto de o meu texto apresentar tese e antítese sem síntese (Aufhebung hegeliana). Contudo, esta crítica pode ser ela própria questionada: nem todo o diálogo precisa de se resolver numa síntese imediata, até porque uma síntese leva a uma nova teste, etc.. Por vezes, manter a tensão criativa entre posições é mais honesto intelectualmente do que forçar uma síntese prematura. O meu apelo é um convite à profundidade, não necessariamente à resolução dialética.
É verdade que o marxismo não se resume à célebre frase sobre a religião como “ópio do povo” (penso que a citação correta é de Marx, não Heine). Não chega para teres razão mostrar que versões mais sofisticadas do marxismo não negam totalmente a dimensão espiritual. O facto é que a questão permanece: pode o materialismo histórico realmente acolher a transcendência sem a reduzir a epifenómeno da infraestrutura económica? Esta é uma tensão genuína, não uma “crítica superficial” e uma bota que o marxismo deveria descalçar para se tornar mais factual e abrangente.
Também identificas corretamente pontos de convergência como a luta contra a exploração, o amor ao próximo, a dignidade humana. Mas parece esqueceres uma questão fundamental: são os meios propostos pelo marxismo (abolição da propriedade privada dos meios de produção, ditadura do proletariado) compatíveis com a antropologia cristã que reconhece a liberdade individual, a subsidiariedade e a natureza falível do ser humano?
Curiosamente, invocas o Papa Francisco para apoiar a tua posição. De facto, Francisco critica duramente o capitalismo selvagem e com toda a razão, porque a ferocidade dele aliada ao que chamo colonialismo mental europeu são dois grandes espinhos (aliados ao militarismo) que abrem mais a chaga da nossa cultura. Mas, verdade é que a Doutrina Social da Igreja, que Francisco subscreve, também rejeita o coletivismo marxista, defendendo a propriedade privada com função social, a economia social de mercado e a iniciativa pessoal. A crítica papal ao capitalismo não equivale a um endosso do marxismo.
O meu artigo original manifesta a necessidade de transcender tanto o materialismo redutor como o espiritualismo alienante, procurando um diálogo que não force sínteses artificiais (só legitimadoras da luta) mas que reconheça legitimamente tanto a dimensão material da existência como a sua abertura ao transcendente.
Quanto à tua alusão relativamente ao “idealismo” no meu texto penso que ela merece ser invertida: não será também “idealista” acreditar que a transformação das estruturas económicas resolve automaticamente a questão do sentido, da morte, da transcendência, questões que permanecem mesmo nas sociedades sem classes?
Penso que o diálogo respeitoso em que tu e eu nos envolvemos já demonstram por si mesmos revelar-se mais valioso do que qualquer síntese forçada. De facto seria também uma ilusão pretender que o diálogo possa resolver tudo, o importante é que, como aqui entre nós, mantenha viva a busca honesta pela verdade.
Luciano, para ti um abraço cordial.
Caríssimo António
Só agora reparei que escrevi ópio dos pobres ou para os pobres. Lapsus linguae, ou melhor, lapsus calami, pois, o próprio “p” inicial me levou para “pobres” em vez de povo. A expressão é de Heinrich Heine e foi retomada por Marx, Lenine, eventualmente muitos outros.
O marxismo é uma teoria holística, pretende mover-se no quadro de uma antropologia que não deixe nada de fora. Não se reduz à imanência, à luta de classes, à reivindicação por melhores condições de vida, de trabalho, de habitação, de saúde, de justiça social e por aí adiante.
Na vida social concreta com dinâmicas económicas, políticas, culturais, ambientais, comunicacionais, etc., as sínteses não são artificiais, produzem-se nas interacções mais ou menos dialécticas entre os diversos factores em presença.
Não se nega a transcendência a ninguém, algo do foro privado, pois cada um tem direito às suas convicções filosóficas, teológicas, religiosas. A metafísica acompanha a humanidade num caminho longuíssimo que passa pelo pensamento mágico, pelo politeísmo, pelo monoteísmo, pelo teísmo, pelo deísmo, pelo ateísmo, pelo agnosticismo, pelas centenas (ou milhares?) de religiões, entre as quais as três religiões ditas do Livro (Judaísmo, Cristianismo, lslamismo), as grandes religiões ou concepções asiáticas (Budddhismo, Hinduísmo…) ou de outras latitudes.
A própria propriedade privada desde a escova de dentes, à roupa, ao calçado, aos livros, ao carro, à habitação, etc., etc. é grande preocupação em qualquer sistema socialista influenciado pelo marxismo.
O problema situa-se apenas na propriedade privada dos meios de produção, na exploração económica e na incapacidade de o sistema capitalista erradicar a pobreza por mais evoluído e desenvolvido que seja. Em cerca de 9 mil milhões de seres humanos à face da terra, calcula-se que cerca de 900 a 1000 milhões de pessoas sofram de fome aguda e/ ou crónica. Isto é inaceitável à luz de qualquer doutrina social, laica ou de igreja ou de qualquer humanismo sério e sincero.
Vou ficar de momento por aqui. Talvez tenhamos ensejo de trocar mais pontos de vista nalgum encontro pessoal.
Aproveito para desejar ao António, família e amigos Boas Festas, Feliz Natal e um Ano Novo muito próspero com saúde e felicidade.
Um abraço. Luciano
Caríssimo Luciano,
obrigado pela tua resposta ponderada e cordial, que muito aprecio, bem como pelos votos que retribuo com amizade. Gosto de dialogar contigo também porque seguimos o estilo da controvérsia como método de descobrir a verdade (Cf. Metodo da Controvérsia… que escrevi em 2015).
Permite-me apenas clarificar o meu ponto de vista, não num espírito de contraposição, mas de diálogo sincero. No meu modo de ver, o marxismo-socialismo pode ser entendido, em certos aspetos, como uma espécie de “filho pródigo” do cristianismo: herda dele uma profunda preocupação com os pobres, com a justiça, com a dignidade humana e com a crítica a formas de exploração que desumanizam. Essas valências são inegáveis e fazem parte do melhor da tradição humanista moderna.
Dito isto, parece-me que o socialismo marxista, em algumas das suas formulações históricas e práticas, tende a assumir uma pretensão totalizante, quase religiosa, apresentando-se como chave última de interpretação da realidade e como verdade única para a humanidade. É aqui que vejo um ponto de tensão: quando uma teoria social se aproxima de um horizonte de salvação imanente, corre o risco de substituir uma fé por outra, ainda que se afirme laica ou científica.
Quanto à transcendência, compreendo e respeito a distinção entre foro privado e espaço público. Contudo, para muitos crentes, o religioso não é apenas um adereço íntimo, mas uma fonte estruturante da visão do humano, da ética e da responsabilidade social. Nesse sentido, não o vejo como algo facilmente confinável à esfera privada sem empobrecimento do debate antropológico.
Relativamente à propriedade privada, concordo que o marxismo não pretende abolir a posse de bens pessoais. Ainda assim, considero que a propriedade privada, quando bem regulada e eticamente orientada, corresponde a uma necessidade humana natural, já desde a sua dimensão mais elementar e física: ocupar um lugar, habitar, cuidar, criar raízes. O problema, a meu ver, não é a propriedade em si, mas a sua absolutização, desligada do bem comum e da responsabilidade social — algo que também a doutrina social cristã critica de forma consistente.
Partilho plenamente a tua indignação perante a persistência da fome e da miséria num mundo com meios mais do que suficientes para as erradicar. Isso é, de facto, inaceitável à luz de qualquer humanismo sério, seja ele laico ou religioso. Talvez o nosso desacordo esteja menos nos fins, que são largamente comuns e mais nos fundamentos últimos e nos caminhos históricos escolhidos para lá chegar.
Fico igualmente disponível para continuar esta conversa num encontro pessoal, que certamente será enriquecedor para ambos.
Um abraço amigo, com votos de um Santo Natal e de um Ano Novo cheio de saúde, paz e esperança para ti e para os teus.
António
António Cunha Duarte Justo Prezado amigo António Justo! Olha que nome, Justo, que exigências te colocaram logo no baptismo e que, creio, tu te esforças para lhe corresponder e lhe fazer jus.
Concordo de algum modo com a aproximação que fazes entre algum Cristianismo e algum Socialismo, descartando eu as perversões que ambos sofreram historicamente: o comunismo cristão de que dão testemunho os Actos dos Apóstolos em que os cristãos punham tudo em comum, mas logo surgiu a mentira de Ananias após uma venda que efectuou e pela qual pagou com o castigo da morte. Mais tarde, a “Santa” Inquisição foi uma espécie de Escola para os Nazis em matéria de violência e tortura.
O Socialismo, por outro lado, honrou-se com a vitória sangrenta sobre o nazi-fascismo perdendo nessa batalha milhões de pessoas, mas nem tudo foi correcto havendo a registar igualmente as perversões estalinistas contra o próprio sistema que defendia.
Também na epístola de São Tiago lemos sobre o clamor de bradar aos céus dos trabalhadores da terra, que eram vítimas da opressão e da exploração dos donos da terra, não lhes podendo fazer frente.
Em ambas as concepções há momentos altos e baixos. Mas ambas enxergam longe e sonham com novos céus e nova terra, uma espécie de transcendência imanente (aceite-se o oxímoro paradoxal) de felicidade permanente sem sofrimento, nem dor, nem morte.
Não me é fácil escrever com meus dedos grossos neste teclado minúsculo, devendo constantemente voltar atrás para corrigir os erros de “tecla vizinha”, digamos assim. Vou, portanto, parar aqui. Um grande abraço e…até qualquer dia. Sempre amigo
Luciano
Caro amigo Luciano,
agradeço-te muito as tuas palavras generosas e a reflexão serena que fazes, sem maniqueísmos nem complacências. Tocaste num ponto que me é caro e que tentarei exprimir recorrendo a uma velha expressão da tradição cristã: a felix culpa, a “feliz culpa”. Não no sentido de justificar o mal, mas no de reconhecer que o erro, a queda e até o sofrimento podem tornar-se ocasião de aprendizagem, de amadurecimento e de desenvolvimento humano e institucional.
Quando falamos do passado, seja do Cristianismo, do Socialismo ou de qualquer outra grande narrativa histórica, convém ter sempre presente aquilo a que os historiadores chamam a “cor local” dos acontecimentos. Julgar épocas pretéritas apenas com os critérios morais e jurídicos de hoje empobrece a compreensão histórica (De facto, geralmente quando pessoas recorrem a acontecimentos históricos passados fazem uso deles para reforçar a sua opinião já feita). Há males reais, inegáveis, que também acabaram por gerar bens inesperados. A própria Inquisição, que não defendo nem desculpo na sua violência e intolerância, acabou por contribuir para o desenvolvimento do direito europeu, nomeadamente ao afirmar que o réu (ou mesmo o considerado réu) tinha direito à defesa, algo que hoje nos parece óbvio, mas que então não o era.
O mesmo se poderia dizer de outros processos históricos: o Cristianismo primitivo, com o seu ideal de comunhão radical, e o Socialismo, com o seu sonho de justiça e libertação dos oprimidos, conheceram momentos luminosos e quedas trágicas. Mas essas quedas não anulam a força ética e profética das intuições originais. Antes nos obrigam a uma leitura mais humilde e mais responsável da história.
Talvez seja isso que nos une nestas reflexões: a recusa tanto da idealização ingénua como da condenação sumária. Entre o céu sonhado e a terra concreta, entre a utopia e a realidade, vai-se construindo, aos tropeções, o humano. E mesmo os tropeções, sem deixarem de doer, podem ensinar-nos a caminhar melhor.
Um grande abraço, com amizade e estima,
António Justo