EDUCAÇÃO SEXUAL SÓ COM O CONSENTIMENTO DOS PAIS

A batalha pelo poder trava-se, antes de tudo, no campo da sexualidade e da informação

Nas escolas italianas, a educação sexual só poderá ser ministrada no futuro com o consentimento expresso dos pais. A nova legislação reflete uma crescente resistência à ingerência do Estado em matérias consideradas da responsabilidade primária das famílias.

Nos jardins de infância e nas escolas primárias, a educação sexual fica mesmo proibida. A lei entrará em vigor durante as férias de verão e tem suscitado um amplo debate público.

Os defensores da medida argumentam que os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos e que questões relacionadas com a sexualidade, os valores morais e a identidade pessoal não devem ser impostos por programas estatais sem o conhecimento e a concordância das famílias. Segundo esta perspetiva, a escola deve complementar, e não substituir, a missão educativa dos pais.

Os críticos, por sua vez, receiam que a restrição possa limitar o acesso dos jovens a informações importantes para o seu desenvolvimento e para a prevenção de comportamentos de risco.

O debate entre conservadores e progressistas centra-se assim, em grande medida, na questão de saber a quem cabe a responsabilidade primordial pela educação e formação dos jovens: o direito dos pais a orientar a educação dos filhos ou ceder a responsabilidade ao Estado.

Enquanto os setores mais conservadores tendem a defender a primazia dos direitos da pessoa, da família e das instituições da sociedade civil, os setores progressistas atribuem ao Estado o papel da promoção de valores, direitos e políticas educativas.

Quem molda a compreensão da sexualidade e orienta o fluxo da informação dispõe das duas alavancas mais profundas do poder político-social. Isto porque a sexualidade regula a vida privada e a informação regula a vida pública: o poder procura ter ambas na sua mão.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

O GLOBALISMO ESTÁ A INVERTER O CRESCIMENTO

Globalismo é o poder que, dissolvendo o orgânico, desconstrói a pessoa e as sociedades na exacta medida da sua inversão.

Há uma patologia oculta no coração do globalismo contemporâneo: a inversão da direção natural do crescimento humano. Toda a civilização que floresceu organicamente construiu-se de baixo para cima, da aldeia à pólis, da família à nação, do indivíduo à humanidade. O que hoje nos é proposto não é crescimento, é engenharia, desconstrução e desnaturação.

O globalismo vigente, na sua expressão mais acabada, pressupõe que o mundo possa ser administrado como um mercado. Não é uma tese nova, é o velho sonho da gestão total, o pesadelo que Tocqueville antecipou como “despotismo suave”: um poder imenso e tutelar que não destrói radicalmente, mas que impede. Impede que nasçam coisas novas. Impede que os povos se reconheçam a si mesmos, impede que o indivíduo se torne pessoa soberana e consciente. Os governantes são transformados em meros administradores, aplicadores de agendas e directrizes e os parlamentos reduzidos a instrumentos do “sim, senhor”!

O corpo social orgânico não nasce de cima; germina nas raízes. Quando se inverte esta ordem, não se obtém uma comunidade, obtém-se uma clientela.

A aliança estranha que governa este projeto é a do capitalismo liberalista com o dirigismo socialista: dois absolutismos que partilham, no fundo, o mesmo desprezo pelo particular, pelo local, pelo irredutível da pessoa humana. Um vende; o outro formata. Juntos, produzem o consumidor ideal: dependente, vigiado, e convencido de que escolhe livremente.

O instrumento invisível desta nova governação é o algoritmo. É orwelliano não por ser brutal até porque a brutalidade seria reconhecível, resistível, mas por ser amável, personalizado, inconsciente de si mesmo, torna-se estratégico na metodologia de produzir “cidadãos” serviçais. O algoritmo não censura com decreto, mas silencia por omissão e pela intervenção de instituições políticas nele para que as redes sociais não questionem o arco do poder. Não proíbe, mas também não mostra. Assim se constrói a ortodoxia prepotente: não pela força, mas pela curvatura do espaço em que o pensamento se pode mover.

A questão demográfica expõe a contradição mais crua do sistema. A queda da natalidade, fenómeno profundamente ligado à precariedade existencial, ao adiamento do sentido, à mercantilização das relações, é respondida com importação humana. Como se uma pessoa descontextualizada, arrancada à sua terra por necessidade e não por vocação, pudesse substituir a continuidade cultural de um povo. Não se trata aqui de xenofobia, trata-se de reconhecer que nenhum ser humano é produto substituível.

A resposta que as populações têm dado e que a nomenclatura europeia classifica precipitadamente de “extremismo”, é, na sua essência, um grito de reconhecimento. O extremismo não nasce do nada; nasce sempre como resposta a outro extremismo, o de uma governação que deixou de reconhecer o seu povo como sujeito e o trata como objeto de gestão. Os partidos que hoje assustam as elites são o espelho incómodo do que essas elites criaram.

A saída não está na condenação da realidade, mas sim na sua compreensão. Compreender exige o que os Gregos chamavam gnóthi seautón: conhece-te a ti mesmo. Cada nação, cada cultura, cada pessoa que sente este mal-estar difuso tem de reconhecer em si mesma a origem de todo o mal e de todo o bem. Não para se absolver, mas para se tornar capaz de agir.

A alternativa ao globalismo que desumaniza não é o fechamento que empobrece, é a construção de uma ordem verdadeiramente subsidiária, onde o universal se edifica a partir do particular, e não contra ele. Onde se constroem fábricas nos países de origem em vez de explorar a pobreza alheia. Onde a democracia não é formato, mas sim substância viva.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

ALEMANHA PERDE PARA  PORTUGAL A CORRIDA AO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU

Parabéns a Portugal e a Paulo Rangel pelo sucesso da eleição

A Alemanha perdeu o seu lugar no Conselho de Segurança da ONU, que ocupava há oito anos. A Áustria e Portugal candidataram-se a uma das duas vagas no grupo dos Estados da Europa Ocidental e Outros Estados, tendo a Alemanha de ceder o seu lugar. A candidatura de Portugal era para um mandato de dois anos. Recentemente, a Alemanha não tem contribuído para a prevenção de conflitos, mediação e acção humanitária, como exige o Conselho de Segurança.

O Conselho de Segurança é composto por 15 Estados-membros, sendo as suas decisões vinculativas para todos os Estados-membros da ONU. Este órgão máximo da ONU pode impor sanções, enviar missões de manutenção da paz e autorizar o uso da força militar.

Os cinco membros permanentes, EUA, Reino Unido, França, China e Rússia; são potências nucleares e têm poder de veto.

A posição da Alemanha no conflito do Médio Oriente e o seu excessivo envolvimento na guerra na Ucrânia foram certamente factores determinantes na eleição. A Alemanha não reconhece um Estado palestiniano.

A vaga no Conselho de Segurança é para o período de 2027-2028 e parece encontrar-se em boas mãos. Será de esperar que Portugal não se alinhe atrás de nenhum dos actores geopolíticos para poder manter a sua capacidade diplomática.

O ministro Paulo Rangel teve a iniciativa de organizar a candidatura de Portugal. Portugal ao lado de tantas nações revela-se mestre em diplomacia. Tinha como rival a forte Alemanha que foi deposta…

Portugal foi eleito como membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU, para o biénio 2027/2028.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A UE À MARGEM DA “PAZ” QUE FINANCIOU!

Bruxelas reclama lugar nas negociações, mas Moscovo recusa-a como mediadora e Washington já não a consulta

A nação que teme os seus inimigos busca amigos. A nação que confia nos seus amigos perde-se a si mesma. A Ucrânia fez as duas coisas ao esquecer que o que move Bruxelas são interesses alheios.

A União Europeia encontra-se hoje perante uma contradição diplomática de difícil resolução: após a escalada do conflito em 2022, os aliados ocidentais de Kiev romperam laços com Moscovo e adoptaram uma estratégia de isolamento total da Rússia, e agora vê-se excluída das negociações de paz que se desenvolvem sem a sua presença efectiva.

Estão em curso negociações trilaterais com os Estados Unidos, a Federação Russa e a Ucrânia nos Emirados Árabes Unidos, o que coloca em evidência o papel marginal da UE nos esforços diplomáticos para pôr termo à guerra que decorre no seu próprio continente. O Parlamento Europeu reconheceu formalmente que a marginalização da UE destas conversações é uma consequência directa da sua incapacidade de seguir uma estratégia diplomática autónoma, caracterizada pela ausência de iniciativa própria e por uma dependência excessiva de abordagens militarizadas, alinhadas pelos EUA e pela NATO.

Perante este impasse, a Alta Representante da UE, Kaja Kallas, admitiu abertamente que a Europa nunca será um mediador neutro entre a Rússia e a Ucrânia, porque está do lado da Ucrânia e defende os seus próprios interesses de segurança fundamentais. A declaração, ao reconhecer publicamente a perda de neutralidade, terá agravado as perspectivas de Bruxelas participar nas negociações. Moscovo, pela voz do ministro Lavrov, classificou as condições impostas pela UE como “idióticas”, e acusou a União Europeia de praticar “diplomacia de megafone”, emitindo ultimatos públicos em vez de procurar negociações substantivas.

Internamente, a UE debate-se com a questão de quem a poderia representar junto de Moscovo. Kallas alertou que não se deve cair na “armadilha” russa de discutir quem deverá representar a Europa em eventuais negociações, sublinhando que qualquer processo negocial deve ser conduzido como um esforço colectivo. Mas a posição não convence todos os Estados-membros: inteligentemente, o primeiro-ministro português Luís Montenegro voltou a defender que é preciso dialogar com a Rússia para alcançar “uma paz justa e duradoura na Ucrânia” e incentivou a Europa a “tomar a iniciativa” de um processo de paz bilateral (1).

Entretanto, a factura continua a crescer. A população europeia não beneficia em nada desta estratégia e, pior ainda, terá de pagar a conta da guerra, como se vê no apelo de Von der Leyen de 135 mil milhões de euros aos Estados-membros para 2026-27. Sob a administração Trump, os Estados Unidos abandonaram a estratégia de isolamento da Rússia e reposicionaram-se como mediadores do processo de paz, deixando Bruxelas a reivindicar um papel central numa mesa onde, por ora, não tem assento.

A nação que teme os seus inimigos busca amigos. A nação que confia nos seus amigos perde-se a si mesma. A Ucrânia fez as duas coisas ao esquecer que o que move Bruxelas são interesses alheios.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10980

(1) Bruxelas, em questões de geopolítica tem agido contra a Europa, sem conceito próprio, contra a sua posição geográfica, ignorou as intenções dos EUA contra interesses europeus e contra a Rússia depois da quedo da União Soviética. Tem castigado em vão os seus cidadãos, mas o pior ainda é que devido à conivência da sua narrativa com os Media sobre a Ucrânia e a Rússia, tem tirado  a capacidade crítica à generalidade dos seus cidadãos que se comporta como rebanho de um pastor que os leva para a sua venda!  Bruxelas revela-se como tendo abandonado o humanismo cultural europeu e a capacidade diplomática em favor do confronto e do globalismo liberalista, que, no seu dogmatismo, revela ter uma atitude de imperialismo mental!

 

O DESARMAMAENTO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Um Chamamento de Orientação para a Humanidade

Desarmar a inteligência artificial é mais urgente do que desarmar um míssil: o míssil mata o corpo; o algoritmo, sem freio, mata a alma da liberdade e destrói o humanismo integral.

E se a maior ameaça à nossa liberdade não viesse de um exército invasor, mas de um algoritmo? Esta questão incómoda atravessa a primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas (1), um documento que surpreende não apenas pela sua profundidade teológica, mas pela coragem de colocar a ciência e a fé frente a frente com o monstro silencioso do nosso tempo que caracterizará uma nova época: a inteligência artificial.

O que torna este texto verdadeiramente único é o facto de não ter sido escrito num gabinete eclesiástico isolado. Ao lado do Papa, na sua apresentação, estavam cientistas de renome, como Christopher Olah (2), cofundador da Anthropic, numa demonstração clara de que o diálogo entre a razão técnica e a sabedoria humanista é não só possível, mas urgente. Leão XIV não condena a tecnologia; quer «desarmá-la». E desarmar a IA, como explica a encíclica, «significa retirá-la da lógica da competição armada». Tal como a energia nuclear, a inteligência artificial não pode ser refém de uma corrida insana pelo algoritmo mais potente ou pela base de dados mais gigantesca, movida por vantagens geopolíticas ou lucros obscuros.

Desarmar não é renunciar. É, antes, impedir que a tecnologia domine o ser humano. É humanizá-la, torná-la acessível a todos e aberta ao debate. Neste ponto, o Papa é incisivo: a transformação digital, com as suas promessas de eficiência e inovação, não pode servir de desculpa para «uma cadeia de exploração que é deliberadamente mantida na obscuridade». Quantos trabalhadores, quantos pobres e marginalizados, aqueles que «não têm voz», são silenciados por algoritmos que discriminam na saúde, no emprego ou na segurança? Quantos países do Sul Global vêem os seus dados saqueados num novo «colonialismo digital»?

Mas Leão XIV vai mais longe. Aborda o uso militar autónomo da IA e declara que não é «admissível deixar decisões mortíferas» a cargo da tecnologia. Sistemas de armas praticamente fora do controlo humano são uma linha vermelha que a fé e a razão não podem cruzar. E com igual veemência, critica o transhumanismo e o pós-humanismo, essas ideologias que sonham com um ser humano aumentado, esquecendo que a dignidade da pessoa reside precisamente na sua fragilidade, no seu corpo, na sua consciência, no seu sentido moral, coisas que «as máquinas nunca possuirão».

Este posicionamento tem um destinatário claro. O Pontífice responde, sem os nomear diretamente, aos que como o presidente dos EUA, Trump, lhe querem negar o direito de se pronunciar sobre assuntos políticos. E, internamente, Leão XIV põe fim a discussões excessivamente centradas em questões internas da Igreja, afirmando que «há coisas mais importantes do que a moral sexual». Com esta encíclica, ele redefine prioridades: a proteção da pessoa humana na era digital é a grande causa comum.

Assinada simbolicamente a 15 de maio, aniversário da histórica Rerum Novarum, Magnifica Humanitas é um grito de alerta e um abraço ao mesmo tempo. O Papa Leao XIV, declara-se «chamado a contemplar outra grande transformação com os olhos da fé, com a clareza da razão, com a abertura ao mistério e com os clamores dos pobres e da terra que ressoam no meu coração». Não se trata apenas de evitar o mal. Trata-se de construir um futuro «para toda a família humana», onde os países ricos e pobres, as instituições e os indivíduos, os centros de poder e as periferias colaborem.

E no meio deste apelo apaixonado, surge uma advertência final que ecoa como um conselho antigo, mas sempre atual: «Se estivermos tão cheios das nossas próprias opiniões e ideias, será impossível descobrirmos o imenso valor que a história tem (e terá) e os tesouros escondidos que nela se encontram.» Lembra-nos, assim, que a humildade é a chave. Perante a avalanche da novidade tecnológica, talvez o mais revolucionário seja parar, ouvir e recordar o que nunca muda: a dignidade de cada ser humano, imagem de um Deus que não se deixa capturar por nenhum algoritmo.

A IA precisa de ser desarmada. Mas, primeiro, precisamos de desarmar os nossos corações da arrogância de acreditar que a tecnologia pode substituir a fé e a ética. Porque, no fundo, a questão não é se as máquinas pensarão como nós, mas se nós continuaremos a agir como humanos.

Resumindo o conteúdo da encíclica: Leão XIV manifesta-se a favor dos pobres e marginalizados (aqueles que “não têm voz”); pelo bem comum e toda a família humana; é pelo diálogo entre a Igreja, a ciência, os governos e as empresas; pelo uso da IA para aliviar o sofrimento; pela dignidade da pessoa humana; pela colaboração entre países ricos e pobres e pelos trabalhadores deslocados pela IA! 

A Encíclica manifesta-se contra o uso militar autónomo da IA (“sistemas de armas praticamente fora do controlo humano”); é contra  o transhumanismo e o pós-humanismo; contra o colonialismo digital (apropriação de dados do Sul Global); contra Algoritmos que discriminam na saúde, no emprego e na segurança; contra a concentração do poder tecnológico nas mãos de poucos; contra a “libido dominandi” (desejo de dominar) disfarçada de progresso e contra a substituição da fé e da ética pela confiança cega na tecnologia.

A técnica sem humildade é um espelho que só reflete o nosso desejo de dominar. Só quando nos esvaziamos das nossas próprias opiniões conseguimos ver, no rosto do outro, o que nenhuma máquina jamais decifrará.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) Vale a pena uma leitura integral da  encíclica “Humanidade Magnífica” ( https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/encyclicals/documents/20260515-magnifica-humanitas.html ) pela sua profundidade e caracter enciclopédico, pela presença de cientistas na sua apresentação e pelo humanismo nela afirmado e ancorado no protótipo de homem e da humanidade Jesus, Cristo.

(2) Christopher Olah, cofundador da Anthropic e diretor de investigação sobre a interpretabilidade da IA, defendeu a necessidade de  alguém como a Igreja, “uma voz capaz de resistir a incentivos, de proferir palavras desconfortáveis, de recordar o que as máquinas nunca possuirão: corpo, consciência, sentido moral”. E acrescentou: “Continuamos a encontrar coisas misteriosas, até mesmo perturbadoras. Detetámos estruturas que refletem as descobertas da neurociência humana. Encontrámos provas de introspeção. Não sei o que isso significa, mas acho que requer um discernimento constante.”