O TEMPO APRENDEU O MEU NOME

O tempo não mora nos relógios.
Habita em me-mim-migo

Chega sem bater,
senta-se no coração
e aprende devagar
o ritmo do meu sangue
a suster a ânsia de viver.

Há dias que passam por mim
como água sem sede,
e outros que ficam
como ferro quente na memória.
Não é a duração que decide,
mas sim o sentido.

O tempo ama-me quando o escuto.
Fala na brisa que inclina as árvores,
no mar que pensa em voz alta,
na noite que me despe do ruído
para me devolver inteiro.

Quando amo,
o tempo adensa.
Não mais corre, enlaça.
Faz-se carne, no abraço,
pausa em que o instante
desperta eterno.

Os que passaram por mim
não foram embora,
mudaram apenas de morada.
Vivem agora no espaço interior
onde a saudade não é ferida,
mas profundidade.

Escrever é recolher esse tempo
antes que se perca.
Não para o fixar,
mas para o deixar respirar
no papel como respira em mim.

Sou argila deste tempo
que me modela e trespassa.
Sou seu curso e sua margem.
Até que, inesperado,
seu sopro em meu ouvido
soletra a sílaba primeira.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

A DOM BOSCO PAI MESTRE DA JUVENTUDE E AMIGO

Hoje é dia de memória viva,
De um sonho que se fez pátio e jubilação.
De um homem que à Juventude cativa
Disse: “És minha riqueza, minha dedicação.”
“Dá-me as almas”, era toda a sua ânsia,
O resto? Folhas ao vento a voar.
Era a liturgia do amor na infância,
A santa missão de fazer brotar.

O seu sistema? Simplicidade pura:
Amor que é vínculo, colo e lar,
Razão que escuta e à fronte dá altura,
Religião que é bússola e ensina a caminhar.
Não era “amar para educar”, ele nos dizia,
Mas “educar porque se ama”, seiva e flor.
E eram os recreios uma sinfonia,
Sem a qual a escola é casa sem calor.

Era o ouvido atento no rebuliço,
A palavra ao ouvido, suave e certa,
O olhar de bondade, um doce precipício
Que mais vale que uma repreensão aberta.
“Que saibam que são amados!” Este o alicerce.
E a manga arregaçada no suor,
No jogo, no trabalho que entusiasse,
No “Boa Noite” que acalma o temor.

Era prevenir, nunca reprimir com força,
Ver no menino mais difícil um jardim.
Acreditar que a semente boa torça
E rompa o cimento que há em todo o limo.
“Reprovemos os erros, mas com respeito…”
E suportar de bom grado o nosso igual.
Esta era a sua pedagogia, o seu feito:
Um oratório aberto a todo o mal.

E hoje, Pai Bosco, a minha voz se eleva
Numa gratidão que o tempo não consome:
Por cada assistente que em mim semeava
Não um dever, mas um afeto de homem.
Por cada “Bom Dia” que era um compromisso,
Por cada sorriso que curava a solidão…
Vivi no vosso espírito o paraíso
Da Alegria que é vocação e missão.

Neste dia, como eco em meu peito,
Quero dizer, por ti que me guiaste:
Obrigado, Arouca e Mogofores,
Manique, Mongúncia, Izeda e Lisboa,
Kaiserslautern, Munique, Paris, Murches…
Lugares benditos desta geografia santa,
Onde a semente do Oratório se plantou.
Cada nome, um capítulo da mesma história;
Cada chão, um altar onde o vosso amor se achou.

Obrigado pelo pátio, pelo canto,
Pela família que me deste em herança.
O carisma salesiano, em todo o canto,
É a vossa eterna, jovem, confiança.
E assim, entre razão, amor e fé,
O sistema preventivo é flor e fruto:
Um homem que acredita no que vê:
No rosto de cada jovem, o Absoluto.

Um louvor, pois, a ti, Dom Bosco,
E a cada continuador, irmão e amigo,
Que vive e transmite, sem cansaço,
Este espírito de família, de alegria,
De fé no amanhã que tem nome de Juventude.
Um feliz e eterno dia de Dom Bosco

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Artigos que escrevi relativos a Dom Bosco:

Sistema Preventivo na Educação dos Jovens: https://antonio-justo.eu/?p=1305

DOM BOSCO E A PEDAGOGIA DA ALEGRIA: https://antonio-justo.eu/?p=2675

PORTUGAL EM VOZ BAIXA

Falaram-nos de pátria, de abril e de estado
como quem ensina um hino
sem nunca explicar a letra.
Exigiram-nos credo, não pensamento,
um verso decorado, não um poema.
Exigiram cartão, não consciência,
um retrato sem rosto, uma assinatura sem nome.
Exigiram modos em fila, não perguntas
uma geometria de ombros curvados,
um caminho que não se bifurca.

Assim cresceu um país de vozes baixas,
onde pensar dói e discordar cansa.
Um povo treinado para escolher lados
para a cor da divisa, mas não rumos,
bom para defender cores
mesmo quando a tela apodrece.

O poder aprendeu cedo
que não precisava de censura,
bastava hábito.
Bastava chamar lealdade à obediência,
responsabilidade ao silêncio
segurança ao medo de mudar.

E o país foi-se habituando.

E nós, cansados,
aceitámos o roubo pequeno
como defesa do roubo grande,
a esperteza como virtude,
o, “paciência, que remédio”
como filosofia nacional.
Ladrão que rouba a ladrão
descansa melhor à noite
disseram-nos sempre
e o país foi-se deitando.

Nos corredores onde o tempo não entra
circulam os mesmos nomes,
as mesmas caras recicladas,
os mesmos discursos com gravata nova.
Mudam de lugar, não de intenção.
Temem o intruso não porque grite,
mas porque não deve favores
nem aprende o jeito certo de calar.

Chamam democracia
a um consenso viciado,
pluralismo a um coro afinado,
debate a um teatro onde o final
da peça já foi ensaiado e escrito.

E o povo foi treinado na espera!
O povo espera porque trabalha,
O povo espera porque envelhece,
O povo espera porque lhe disseram
que pensar é perigoso e mudar é radical.

Mas há um cansaço novo no ar.
Um silêncio diferente a crescer.
Não o da resignação,
mas o da pergunta que amadurece.

Talvez a rutura não venha
como grito, mas como recusa.
Recusa em fingir,
Recusa em alinhar,
Recusa em perdoar tudo
em nome do medo e da paz podre.

Talvez o primeiro gesto livre
seja olhar este país sem slogans
e perguntar, com voz inteira:
quem somos nós, para além daquilo
que nos ensinaram a repetir?

Porque um povo não se perde
quando erra ou falha.
Perde-se, sim,
quando deixa de pensar.

E pensar, hoje, faz doer
mas é o ato mais revolucionário
que ainda nos resta.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

SOU LIVRE DENTRO DA PRISÃO

A semente original habita o vaso das circunstâncias;
não sou totalmente livre, nem apenas prisão

Sou livre dentro de mim.
Não sei ao certo, por vezes,
onde começa o vento que em mim trago
e onde terminam os que me empurram.

Cuidado com a liberdade que se vende
na praça pública, essa moeda falsa
onde negociam máscaras sem rosto
e trocam almas por um punhado de sons.

Sou feito de raízes que descem
ao fundo da floresta virgem:
ali habita o “eu-tu-nós”,
árvore divina, antiga e sem nome.

Mas sopram ventos da polis,
secam a terra, trazem fogo sem água,
gritam ofertas de liberdade
enquanto roubam a minha voz.

Há muitos na praça
transformados em negociantes de vidas,
carregando chaves que nunca abriram
seus próprios cadeados.

E há carrascos vestidos de inocência
que sacrificam o mundo
por uma vidinha estreita e aplaudida.

No centro de mim,
às vezes longe, às vezes perto
escuto o mar.

É um mar que não está nos programas,
um abanador de brasas adormecidas,
um salitre que me lembra:

A verdadeira liberdade
não se compra, não se grita,
não se deixa prender pelos contextos,
pois até nas grades respira,
até no silêncio dança,
até na escuridão se faz aurora.

Sou livre dentro da prisão
porque trago o oceano em mim
e as estrelas que não cabem
em nenhuma bandeira.

O meu reino não tem fronteiras,
a minha lei é o pulsar contínuo
daquela floresta e daquele mar,
e a minha pátria
é este lugar sagrado
onde o “eu” e o “tu”
ainda se reconhecem
antes que o mundo os separe
e lhes dê nomes de inimigos.

Trago em mim um sol de ser original
No berço das roupas que herdei.
Desenho, na mão que é meu abrigo,
O voo que as grades não prendem.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

HUMANISMO EM FALSETE DA REPÚBLICA

Não chega a luta socialista,
nem a capitalista de gravata bem passada.
Esquerda, direita, duas muletas a discutir
qual delas manca com mais dignidade.

O povo? Esse está ocupado!
Tem contas para pagar, sopas para aquecer
e uma democracia embrulhada em jornal
que serve mais para tapar vidros partidos
do que para informar.

O povo queria uma luta maior:
a luta humanista.
Mas isso não rende cartazes,
não cabe em gravações
nem dá emprego a comentadores residentes.
Humanismo não tem patrocinador.
E misericórdia não passa em horário nobre.

As elites, essas, lutam com fervor,
pelos seus interesses, como é seu natural.
Chamam-lhe ideologia
para não dizer ambição com ressaca.
Quando falham, fundam um painel de especialistas
para explicar por que o povo
não percebe a sua genialidade.

O povo simples continua na primeira classe,
sentado direitinho,
à espera que o professor chegue.
Mas o professor foi para a política,
o quadro está ocupado por siglas
e a lição do dia chama-se
“aprenda a desenrascar-se”.

Fala-se pouco de humanidade
porque humanidade não dá likes.
Fala-se muito de filtros,
filtros democráticos, filtros editoriais,
filtros morais com dentes à mostra.
Censura sorridente:
“Não é mordaça, é curadoria.”

Queríamos um Portugal real,
mas deram-nos figurantes.
Vedetas que se passeiam a si mesmas,
máscaras de interesses organizados,
selfies com causas descartáveis
e humanidade fora de enquadramento.

Há cristos abandonados nas esquinas,
com reformas de vergonha,
corpos cansados depois de décadas de trabalho.
Mas a política veste casacos grossos:
o frio da indiferença
é o seu melhor agasalho.

Saúde, justiça, escola,
assuntos menores, dizem.
Não dão guerra suficiente.
E sem guerra,
como justificar trincheiras partidárias
num país já em ruínas?

Chegam as eleições
e vale tudo:
rótulos voam como confettis,
fascista, populista, estalinista,
extremo isto, extremo aquilo.
O problema não é o nome da coleira,
é termos criado tantos cães de guarda
e tão poucos cidadãos.

Abril prometeu liberdade,
mas especializou-se em dependência.
Formou partidários, não cidadãos.
E quando alguém cheira a povo,
esse perfume perigoso,
soa o alarme nas redações respeitáveis.

Difama-se por prevenção.
Nunca se sabe:
um desmancha-prazeres
podia entrar nos corredores do poder
e perguntar coisas inconvenientes.
Como: “E o humanismo, ficou onde?”

No fim do espetáculo,
o povo bate palmas devagar.
Não por entusiasmo. Mas por hábito.
E sai para o frio,
enquanto os artistas discutem nos bastidores
quem ganhou a luta.

A luta continua, dizem.
Mas talvez, porventura, esteja na hora
de parar de lutar e começar a tratar
uns dos outros como gente.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo