O MERGULHO

Nas pausas mora o que não cabe no dia,
aquele branco entre palavras onde a mente,
desatada do peso da aparência,
sobe, como ave ou fumo, levemente.

A casca é sempre mais ruidosa que a seiva.
O mar que se exibe à superfície guarda
nos seus porões de luz oblíqua e fria
o coral que nenhuma tormenta abala.

Quem só conhece o vento conhece o medo,
esse pânico gentil de ser levado
para longe de si, como folha ou vela
que ignora o que é ter raiz e ter calado.

Mas o mergulhador aprende cedo
o paradoxo limpo das profundezas.
Quanto mais desce, menos o mundo pesa
e ele, mais consciente, enfim, começa.

Não é valentia esta descida,
é apenas a recusa de flutuar
entre aparências que o rumor anima
e ventos que nos chamam pelo nome errado.

Suspender a corrida, parar. Só isso.
Deixar que a tua sombra te preceda
e reconhecê-la, afinal, como tua,
essa é a única maré que te liberta.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo ©

O CAMINHO DA CONSCIÊNCIA

(versão condensada)
O ser humano sofre, não tanto pela realidade em si, mas pela imagem que cria dela e pelas ideias que o aprisionam.
No seu caminho, Jesus revela-se não apenas como mediador entre o humano e o divino, mas como o próprio caminho, verdade e vida. A sua via crucis propõe uma revolução silenciosa: vencer a dor sem a transmitir, quebrar o ciclo da violência sem recorrer a vítimas ou culpados. Com ele nasce a possibilidade de uma nova humanidade, uma idade da paz tantas vezes esquecida sob o peso da história e das estruturas de poder.
Jesus desmonta a imagem de um Deus violento e vingativo. Deus não exige sacrifícios. Ao assumir a condição de vítima, Jesus expõe a lógica da violência e torna-a inútil. Mostra que a transformação não nasce da lei nem da moral, mas da relação, uma relação viva, interior, que conduz à liberdade, à graça e ao amor.
A cruz não é castigo, mas consciência. Nela não há vencedores e vencidos: há reconciliação. O caminho do Calvário dissolve a lógica do crime e do castigo, substituindo-a por uma visão inclusiva da realidade. O mal não se vence com pior, mas com uma força mais profunda: a misericórdia.
A via-sacra torna-se, assim, um itinerário espiritual. Não convida ao sofrimento pelo sofrimento, mas à descoberta de um sentido novo, uma solidariedade radical que integra tudo e todos. O sofrimento assumido transforma-se em caminho de libertação, não apenas do mundo, mas das próprias ilusões.
No silêncio diante do julgamento, Jesus revela a inutilidade de discutir com uma mentalidade fechada na dualidade. A verdade não é um conceito, é relação. Por isso, cala-se.
Ao carregar a cruz, assume não uma culpa, mas o peso da condição humana. Rejeitado pelos poderes e incompreendido pelo povo, caminha sem devolver violência. Cai, como todos caem, mas levanta-se sempre na fidelidade a uma consciência maior.
No encontro com sua mãe, não há palavras: apenas um olhar onde a dor se transforma em compreensão. Na ajuda inesperada de um estrangeiro, na compaixão espontânea de uma mulher, revela-se que a humanidade permanece capaz de bem, mesmo sem compreender plenamente.
Jesus recusa o jogo das aparências, da moral rígida e das estruturas que aprisionam. Propõe uma mudança interior, uma metanoia, onde a vida deixa de ser regida pelo medo e pela norma, e passa a ser vivida na liberdade do amor.
Crucificado, não responde com revolta. Morre como viveu: livre, entregue, fiel ao amor. E é precisamente aí que a morte perde o seu poder.
A ressurreição não é apenas um acontecimento, mas um horizonte: Deus não está entre os mortos, mas entre os vivos. A cruz não é o fim — é passagem. Um convite a abandonar as imagens que nos prendem e a descobrir uma vida mais ampla, mais verdadeira.
A via crucis é, afinal, o caminho de uma consciência nova: aquela que não julga, não exclui, não agride, mas integra, transforma e ama.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo da via-sacra em https://antonio-justo.eu/?p=3531

O CORDEIRO DE DEUS

O Cordeiro desceu às imperfeições,
às fendas da matéria e da memória,
e teceu, de fragmentos e ilusões,
o fio luminoso de outra história.

Não com lã intacta, mas com o quebrado,
cada nó, cada falha, cada ferida,
tece o que nunca foi, nem foi sonhado:
a ponte sobre a noite da descida.

E quando o fio rompe, no mesmo instante
o Cordeiro reúne os cacos dispersos;
a luz não vem de fora, vem do antes
que se fez frágil para abrir universos.

Assim o fio desce, sobe, e ensina
que a tecelagem é comunhão de estrada:
quem tece com o outro não termina,
porque a mão que dá nó fica entrelaçada.

António da Cunha Duarte Justo

A LUZ QUE ROMPE O ESCURO

No peso do silêncio, irrompe a luz,
nem suave, nem tímida, nem rogada,
espada que desfaz o véu da noite e o reduz
ao clarão da aurora inaugurada.

O Cordeiro desceu às imperfeições,
às fendas da matéria e da memória,
e teceu de fragmentos e ilusões
o fio luminoso de outra história.

As mulheres andavam sob o pranto,
e ao buscar entre as pedras o sepulcro,
encontraram o vazio, o aberto espanto,
o silêncio em flor, não o lúgubre.

O que procuravam não estava lá.
E nesse nada ergueu-se o Tudo eterno,
o Aleluia que dorme no amanhã
despertou como pássaro do inverno.

A cruz, pelo que consta, é peso que cansa,
Mas o crente conhece o seu segredo,
Ela é sorriso oferecido à ofensa
é braços abertos onde havia o medo.

É raio de sol em feridas estranhas,
é caminho onde os muros se desfazem,
são raízes que florescem nas entranhas,
do solo onde as dores se refazem.

Cruz minha não carregues o peso dos avós,
não herdes a culpa que não semeaste
és livre, foste livre, és entre nós
o ser que no Amor libertaste.

Do teu gesto, apenas corresponsável,
colhes teu fruto, limpas tua fonte.
O passado já não pesa, é uma aresta
que o vento da Páscoa leva ao horizonte.

E a Boa Nova, Evangelho, ressoa
para o crente que inclina a fronte à fé,
e para o peregrino que não ouve
credo algum, mas sente o que os olhos veem:

que a vida dada por sepultada
volta como flor depois da neve,
que a esperança não morre asfixiada,
que o Amor, quando é Amor, jamais se deve.

Não estamos sozinhos nesta viagem.
O anseio mais fundo do peito humano
encontrou no vazio a sua imagem,
o Homem novo, protótipo soberano.

Cultura da paz, aurora de outra era,
onde a bondade é lei e a graça é norma,
Jesus Cristo, a grande primavera
é o talho do Homem na sua melhor forma.

A todo o humano de boa vontade,
cristão ou não, crente ou caminhante,
que esta luz te encontre com suavidade
e faça de ti alguém sempre ressurgente.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A VIVER COM O FADO

O Companheiro inseparável de Sombra e Luz que o Destino nos deu

Se olharmos para a natureza com olhos atentos, descobrimos que nela tudo tende para a luz. Uma semente não germina antes de a terra estar pronta. Um rio não rompe a rocha pela força brusca, mas pela persistência silenciosa de um fluxo que encontra o seu caminho. O inverno não se apressa para que a primavera chegue mais cedo. Cada estação carrega o seu tempo, e o que não amadureceu no outono permanece como folha seca, não como falha, mas como matéria que a nova estação transformará em adubo.

Há, porém, plantas e pessoas, que foram geradas nos primeiros anos de vida em lugares sombrios. O seu desenvolvimento parece ficar condicionado à sombra originária durante toda a existência, por muito sol exterior que tardiamente apareça. Até parece que cada um de nós paga tributo pelo agir dos artífices que nos formaram.  Isso não é culpa, não é desculpa, nem é dívida, é apenas a circunstância. Tentar compreender a diferença entre culpa e circunstância é já o primeiro passo de um caminho mais consciente.

Na vida, há padrões de sofrimento que parecem querer acompanhar-nos sob roupagens diferentes. O mesmo conflito relacional repete-se em pessoas distintas, em contextos distintos, com uma persistência que desconcerta. Numa autoanálise purgativa, surge inevitavelmente a pergunta: pode este bloqueio existencial ser superado? Pode o fado ser vencido?

Carl Jung dizia que aquilo que não é conscientizado tende a ser vivido como destino. Outros psicólogos acrescentam que enquanto não compreendermos o chamamento contido naquela situação, enquanto não lhe dermos um sentido que nos transforme, a vida repeti-lo-á, com a paciência de quem espera que um filho aprenda uma lição não pela punição, mas pela maturação. O chamamento não se impõe, apenas aguarda. Tem uma paciência que ultrapassa largamente a nossa.

É a mesma pergunta que ressoa desde os tempos primordiais: Adão, onde estás? Não um julgamento, mas um convite a situar-se, à relação, à presença, ao enraizamento. Um chamamento à inteireza que, como na natureza, se manifesta através da inter-relação de tudo com todos.

O sintoma, seja ele uma dificuldade externa ou um sofrimento interno, não é um inimigo a eliminar, mas um mensageiro a interrogar. O incómodo que se repete é muitas vezes o sinal da nossa própria surdez, da nossa pressa, do ainda não termos ouvido o chamamento, o que há muito nos chama. As situações que persistem meses ou anos são, com frequência, aquelas que contêm o material do nosso próprio amadurecimento. A pergunta produtiva não é “de quem é a culpa?”, mas sim: O que é que esta situação persistente me está a pedir que eu veja em mim mesmo? Que parte de mim ainda não escutei? Que crescimento está à espera?

Seria erro culpar-se ou culpar alguém pelo sofrimento que se traz. A sombra que nos acompanha vem do facto de sermos seres situados num mundo feito de situações interligadas. Por vezes, ela tem origem numa ferida antiga, o mau olhado em criança por quem, em vez de amar, criticou e deste modo ensinou a pessoa a fugir de si mesma, a não se sentir em casa no seu próprio ser, porque quando dela precisava, outros a invadiram. Esta fuga de si, disfarçada de combate ao exterior, é o que tantos escritos políticos e críticos escondem: o combate às próprias sombras projetadas lá fora, onde é mais fácil reconhecê-las do que acolhê-las dentro.

No fado português encontra-se algo desta tensão: no queixume lamenta-se um chamamento e a dor de ainda o não ter integrado. Mas a dificuldade do fado e de qualquer forma de lamentação que se fecha sobre si mesma é que não distingue entre uma dor repetida porque não integrada, uma estrutura externa que precisa de ser abandonada, ou uma ferida que precisa de cura antes de poder ser compreendida. As mágoas que se levam ao lavadouro público, aos amigos que confirmam a queixa ou aos autores que tudo justificam, acabam por ser apenas espelhos que devolvem a mesma imagem sem a transformar. Confirmam o fado em vez de apontar para o chamamento.

A natureza oferece-nos o critério: quando estamos verdadeiramente a escutar o chamamento, há uma sensação de alinhamento, mesmo que dolorosa. Quando estamos apenas a repetir o mesmo padrão sem crescimento, há exaustão sem fruto. As flores que a árvore produz, se se mantiverem na sombra das negatividades, aguardam o tempo propício para dar fruto. A árvore não acelera o seu crescimento porque o agricultor tem pressa. Há uma altura para plantar, uma altura para lavrar, uma altura para deixar o solo em pousio.

Num desenvolvimento humano orientado para a paz e nem toda a repetição é chamamento, importa dizê-lo com clareza, a autorreflexão não é um exercício de autocastigo, mas de escuta. Na tradição cristã, este apelo vai além da relação dialética eu-tu, porque nos convida a entrar na lógica relacional do nós, da compaixão e da sintonia, onde já não há castigo nem autocastigo, mas a vivência de um mundo inteiro a sofrer em nós e do sofrimento da germinação da flor a emergir o fruto, a ressurreição.

Os problemas não são fracassos. São chamamentos a ver o que ainda temos para compreender em nós, para que os outros deixem de ser superfícies de projeção das nossas sombras.

Talvez a tenacidade exasperante dos nossos bloqueios seja apenas o inverno que insiste até que finalmente preparemos a terra para a primavera. Uma primavera que não podemos apressar, mas que também não podemos eternamente adiar.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo Social
©Pegadas do Tempo