Na encruzilhada: o poder do mundo ou a essência do Homem?
O que se costuma chamar-se “Nova Ordem Mundial” não é, em rigor, nova. É uma mutação de forma, não de essência. O poder nunca deixou de se organizar em torno de três eixos: território, recursos e narrativa. O que muda é o grau de abstração com que esses eixos se apresentam. A grande disputa da nossa era é a definição do próprio ser humano, não apenas o domínio geopolítico.
Da soberania política à soberania geográfica
Estamos a assistir ao regresso do determinismo espacial, agora tecnocratizado. A soberania já não se funda na vontade dos povos (o que continua a constituir um mito moderno), mas na utilidade estratégica dos territórios. A geografia volta a ser destino, mas um destino gerido por algoritmos económicos, cadeias logísticas e zonas de influência militar.
A política torna-se administração de mapas e aplicação de agendas e diretrizes.
A democracia torna-se um discurso ornamental, uma forma formal de legitimar poder.
O direito internacional torna-se uma liturgia sem força sacramental.
Neste contexto, a soberania deixa de ser ética ou cultural para ser apenas logística.
O fim da era das nações: o humano como variável secundária
A passagem da “era das nações” para a “era das potências geopolíticas” implica algo mais profundo que está a acarretar o colapso do sujeito político moderno.
O cidadão é substituído pelo agente funcional passando a ser reduzido às funções de produtor, consumidor, deslocável e descartável.
O que verdadeiramente marca a nossa época com um carácter fatídico é o trabalho conjugado, tão eficiente quanto insidioso, do capitalismo liberal e das ideologias progressistas na desconstrução do humano, da cultura e das instituições.. Juntou-se assim a ideologia pretendente a substituir a religião e a economia como sustentáculo das necessidades terrenas, num conluio desastroso que desestabiliza tudo e arrasta consigo como remoinho os fundamentos da velha ordem e do indivíduo.
Assim, a nação, enquanto comunidade histórica de sentido é declarada inconveniente; a cultura, enquanto memória viva, é considerada ruído; a identidade, enquanto raiz, é um obstáculo à mobilidade do capital e do poder (por isso o primeiro obstáculo que pretendem destruir é a religião cristã, primordialmente o catolicismo, instituição global paralela que teria possibilidade de defender o humanismo e a dignidade humana independentemente da sua funcionalidade) e a família na qualidade de base primordial da sociedade e de toda a ordem (uma vez destruída a família impede-se qualquer crescimento orgânico ficando uma supraestrutura secundária que ordena os elementos de forma mecanicista).
O paradoxo central do nosso tempo tem a sua origem no facto de quanto mais se fala de direitos individuais, menos o indivíduo conta. A pessoa é definida pela sua funcionalidade, pelo que poderá ser útil e não pelo que é.
A Ucrânia está a funcionar como arquétipo sacrificial
A Ucrânia está a ser sacrificada não apenas como cálculo geopolítico, mas como ritual arcaico do poder pelo que “deve ser sacrificada”!
Se observamos a História e o desenvolver do poder desde a ordem tribal à ordem imperial constata-se que toda a grande ordem imperial nasce de um sacrifício periférico.
Toda a estabilidade das potências centrais exige uma zona de sofrimento administrado.
A Ucrânia não é uma exceção da realidade geopolítica que temos, mas mais um símbolo da irrelevância do direito, da hierarquia real entre vidas e da subordinação do humano à área do poder funcional e imediato.
Aqui, a “teologia” política torna-se clara: o deus da nova ordem é a estabilidade do sistema, e os seus holocaustos são povos inteiros.
ONG, gangues e a tribalização do mundo
Estamos a entrar numa fase neotribal, mas sem transcendência.
As ONG transnacionais, financiadas por Estados e ideologias, funcionam como braços morais do poder, como instrumentos de pressão sem responsabilidade democrática e como substitutos da política clássica.
Já é de prever que o conflito deixa de ser entre Estados soberanos e passa a ser entre redes, lobbies, causas fragmentadas. Também o indivíduo, desenraizado de família e pátria para ganhar rosto social terá de se organizar em grupos. E assim teremos a guerra civil global em versão suave.
Em última análise a crise não é política, é antropológica
No fundo, o que se decide não é quem domina o mundo, mas o que é o ser humano. E o novo sistema quer reduzi-lo a mera função, só número e flexível.
A consequência é que para o indivíduo a única hipótese de visibilidade passa pela formação de grupos. E isto tem consequências desastrosas para o humano e para a humanidade. Pois, quando o indivíduo só existe como parte de um grupo, a consciência dissolve-se.
E sem consciência individual não há ética; sem ética, só resta técnica e sem técnica orientada por sentido, resta barbárie eficiente.
Para além deste alerta resta a tarefa da consciência
A Nova Ordem Mundial é inevitável como estrutura, mas não é inevitável como destino espiritual.
A verdadeira resistência já fora da nossa matriz máscula não será militar nem ideológica, mas cultural, ética e espiritual.
Resta-nos a consolação do espírito e que a história mostra que os impérios caem, as potências mudam, mas a consciência humana evolui aos solavancos, através de minorias lúcidas.
Antes que o humano definhe urge implementar uma cultura da paz que leve a uma nova matriz político-social! Fortalecer a tradição que cuida não de quem quer vencer, mas de quem quer despertar.
A jeito de conclusão
Estamos numa encruzilhada, mas não apenas geopolítica. É uma encruzilhada civilizacional e espiritual.
Ou o mundo aceita a soberania da geografia acompanhada pela ditadura da economia e reduz o ser humano a mero meio ou reencontra a centralidade da pessoa, a políticao como ética aplicada e a consciência humana como verdadeiro poder!
A Nova Ordem Mundial não será decidida apenas em Washington, Moscovo ou Pequim. Será decidida na capacidade dos indivíduos pensarem para além do medo e da pertença tribal.
A questão seguinte será sobre quem ainda poderá falar ao humano enquanto humano, sem o reduzir a função, massa ou rebanho.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
Pegadas do Tempo
A antropologia trouxe teorias terríveis os estruturalistas.os da supremacia genética como Gobineau por isso não é uma coisa muito fiável.e quando se chama o homem antropológico temos que ter presente que esse animal é o primata que come tudo.
Vítor Lopes, confundir a antropologia com teorias racistas ultrapassadas é um erro histórico. É natural que toda a ciência seja ela antropológica, sociológica, filosófica, teológica ou física não pode ser definida nem reduzida a um só autor porque consta de muitas vetentes e autores em disputa. O racismo científico de Gobineau não representa a antropologia contemporânea. O estruturalismo também é apenas uma escola entre muitas, com limites reconhecidos. Mas a ciência conseguiu desmontar essas ideias. Se o homem fosse apenas um primata omnívoro, não precisaríamos de antropologia, nem de história, nem de sociologia.
Quanto ao “homem antropológico”, reduzi-lo apenas a um primata omnívoro ignora precisamente aquilo que a antropologia estuda melhor: cultura, linguagem, organização social, religião e capacidade simbólica, que são centrais para compreender o Homem. A disciplina moderna nasceu, em grande parte, para desmontar essas ideias. E se o homem fosse apenas um primata omnívoro, não precisaríamos de antropologia — nem de história, nem de sociologia.
O meu artigo ao apresentar a dicotomia em que o Homem moderno se encontra aponta precisamente para a necessidade de o Homem reencontrar a centralidade da pessoa, na política como ética aplicada e a consciência humana como verdadeiro poder!… Se não houver uma instância soberana capaz de defender Dado a sociedade estar a o reduzir o Homem a função, massa ou rebanho equacionando-o apenas como ser funcional urge mais a necessidade de haver quem fale do Homem na qualidade de humano e ser soberano e aqui deveria assumir mais essa missão apostando numa antropologia de caracter místico e terreno ao mesmo tempo.
Estou em crer que estamos claramente no dealbar de um novo mundo, de uma nova era, de uma nova ordem, em que tudo está a ser posto em equação. Todavia, perante o desenrolar infausto dos acontecimentos podemos estar muito próximos de uma guerra fatal para a humanidade.Sublinho, reiterando o que escreveu: “a verdadeira resistência já fora da nossa matriz máscula não será militar nem ideológica, mas cultural, ética e espiritual…” Não nos resta outra via perante a nossa irrelevância política, militar, financeira e económica.
Francisco Henriques da Silva , muito obrigado, senhor embaixador, pelo seu sábio comentário. De facto vivemos um momento liminar da História, em que os pressupostos políticos, institucionais e civilizacionais que tomámos como adquiridos estão a ser postos em causa de forma simultânea e acelerada. Mais do que uma mera transição geopolítica, trata-se de uma crise de sentido, em que o poder se autonomizou das comunidades, das culturas e até da própria ideia de responsabilidade histórica.
A sua advertência quanto à proximidade de um conflito potencialmente fatal para a humanidade não me parece excessiva. Pelo contrário: o que inquieta é precisamente a normalização da linguagem da guerra, da exceção permanente e da erosão progressiva das instituições a partir do seu interior, fenómeno particularmente visível no espaço europeu e, especialmente em contexto alemão pós-reunificação, sob crescente tutela tecnocrática de Bruxelas que procura impor a toda a Europa o espírito anglo-saxónico contra o espírito latino.
De facto, a verdadeira resistência já não poderá ser militar nem ideológica, mas cultural, ética e espiritual. As grandes estruturas de poder tornaram-se impermeáveis à contestação clássica; resta, portanto, preservar aquilo que ainda não pode ser totalmente capturado: a consciência, a memória histórica, a densidade cultural e a dignidade moral dos povos.
Talvez a nossa “irrelevância” política, militar ou económica, longe de ser apenas uma fraqueza, possa também ser uma forma de liberdade. É nesse espaço marginal, fora do ruído do poder, que ainda é possível pensar, testemunhar e transmitir valores que não se medem em indicadores nem se impõem por decreto. Se houver uma saída para este impasse civilizacional, ela nascerá menos da força e mais da fidelidade a princípios que antecedem e sobrevivem a qualquer ordem mundial.
Muito agradecido também me ter possibilitado esta reflexão.
Muitos culpabilizam Putin e Trump por starem a apressar a a mudança geopolítica em via. Ninguém trava Trump; mas os mesmos que dizem ninguém trava Trump pelo contrário seguiram a sua recomendação apetrechando-se para a guerra e com propaganda manipoladora do povo que o leva a aceitar os dispéndios do PIB em 5% para fomento da guerra e contra a paz! Em tempos de guerra tudo dança no monte de esterco ou em torno dele e o povo habitua-se ao fedor e com o tempo toma-o como perfume!.
Simplesmente quem o elegeu, o povo americano!!!
Manuel Carneiro da Silva , exactamente. Então seria melhor deixar a palavra ao povo americano e falarmos do que nós europeus fazemos ousando criticá-lo e por outro lado obedecendo-lhe cegamente! A EU tem falado muito dele para não ter de falar de si! O povo americano elegeu-o e nós estamos a segui-lo talvez no que ele tem de pior!
Gostei sobretudo do parágrafo:
“A igreja católica foia primeira instituição verdadeiramente global,
foi a primeira a afirmar a dignidade universal da pessoa.”
Portugal contribuiu muito para isso.
Espero que continuemos fiéis à nossa missão!
M. Manuela, muito obrigado pelo teu feedback. Portugal a nível de estado e em grande parte partidário atraiçoou e atraiçoa a missão e propaga o contrário dela. A única esperança fica reduzida à vida individual como a tua e como a de grupos como o teu.
Eu não conto com os políticos.
Refiro-me a esses grupos e tb aos Brasileiros que agora estão sempre presentes em Fátima. Mas Nossa Senhora lá acolhe gente de todo o mundo!
Em 13/5/1917 a nossa Mãe do Céu veio dar uma mensagem que é um restauro da missão dos Portugueses.
M. Manuela, sim, no que respeita à qualidade de profeta, Lúcia apontou para o principal problema social que então começou a destruir os povos, personalizo-o no socialismo cuja base é o materialismo.