DISCURSO DO PROFETA NINGUÉM À TRIPULACAO NO DIA DE SÃO SILVESTRE

Escutai, humanos inquietos,
pois nada do que vivestes este ano passou despercebido aos olhos do tempo.

Vi-vos caminhar entre o cansaço e a esperança,
com a memória ferida e o coração pressionado
pela espada invisível de uma crise que não é apenas política,
mas espiritual, cultural e humana.
Perguntais: Acabou a celebração?
Não. O rito terminou, mas a responsabilidade começou.

Viestes girar em círculos,
como uma dança que perdeu a música,
uma política enamorada do próprio baloiço,
incapaz de escutar o ritmo profundo do povo,
falando até da sua democracia versus democracia do povo.
Mas sabei: o verdadeiro espírito dançante
não gira sobre si mesmo,
ele cria impulso, liga uns aos outros
e transforma o movimento em sentido.

Neste ano que passou, muitos souberam mais do que nunca
e compreenderam menos do que precisavam.
A inteligência artificial abriu bibliotecas infinitas,
mas a caixa da reflexão e da ressonância ficou silenciosa.
Confundistes informação com verdade,
velocidade com sabedoria,
e deixastes de distinguir o essencial do acessório.
Assim se fragiliza a vida:
quando tudo parece igualmente importante,
nada é verdadeiramente vital.

Vi o medo infiltrar-se nos sistemas de poder,
e vi-os reagir com manipulação,
como desejam os autocratas e populistas.
Quando a confiança humana depende do dinheiro
e de circunstâncias opacas,
a alma coletiva adoece.

Por isso vos digo:
é urgente fundar uma cultura de decência.
Não apenas para salvar a biodiversidade que se esvai,
nem só para travar o progresso cego,
mas para impedir a ruína silenciosa
da vossa civilização cultural.

A Europa, ferida pelas guerras do século passado,
flerta perigosamente com um cansaço suicida,
que a leva a seguir ideologias mortíferas.
Lembrai-vos:
a única alternativa ao otimismo é a morte,
e ela começa sempre pela morte da alma.
O pessimismo não questiona o abismo;
apenas alisa o caminho até ele.

O mundo não se salva com grandes proclamações,
mas com boas ações quotidianas.
Um dia pode renascer com um gesto simples,
se houver atmosfera,
se houver mãos dispostas,
se houver corações abertos.
O otimismo não é ingenuidade:
é coragem activa que liberta do medo
dos poderes anónimos.

Não espereis perfeição nem milagres súbitos.
As grandes mudanças avançam em passos pequenos,
pessoais, imperfeitos, mas reais.
Os governantes olham para números e superfícies;
o desenvolvimento humano, porém, cresce na profundidade.
Daí o eterno desfasamento entre poder e povo.

Erguei, pois, um concerto de pessoas bem-intencionadas.
Fazei-vos ouvir contra a máquina da guerra.
Não imploreis paz com gritos armados,
mas praticai uma paz gratuita,
viva, encarnada.
Sonhai com um novo concílio do humano,
onde política, espiritualidade e cultura
voltem a dançar juntas
para que a vida seja sentida,
não apenas administrada.

Lembrai-vos das estrelas.
Elas brilham por luz própria.
Não vivem dos refletores dos outros.
A escuridão lá fora é grande,
mas a verdadeira luz nasce dentro.
Sem ela, cada pessoa e cada sociedade
torna-se um planeta morto,
dependente de luz alheia.

Voltai às vossas raízes.
Reconectai-vos à cultura europeia
nascida da Grécia que pensou,
de Roma que estruturou
e da espiritualidade judaico-cristã que deu sentido.
Não como museu,
mas como fonte viva.

E assim vos digo, à entrada do novo ano:
não temais o futuro.
Criem-no.
Com confiança.
Com decência.
Com optimismo activo.
Pois enquanto houver alma desperta,
a história ainda pode mudar de rumo.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

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