DANÇA NA FEIRA / TANZ AUF DEM MARKT

O dia canta um som de feira e árvores,

Der Tag klingt nach Markt und Bäumen,

e no rumor, um apelo, um regresso a ti.

und im Raunen, ein Ruf, zurück zu dir.

O silêncio é um copo tão fundo e liso

Die Stille ist ein Glas, so tief, so eben,

que bebo o eco da capela dentro de mim.

darin trinke ich das Echo der Kapelle in mir.

 

 

E sem pensar, levado por esse canto,

Unbedacht, geführt von diesem Gesang,

abraço a sombra que dança ao meu lado.

umarm’ ich den Schatten, der an meiner Seite tanzt.

Gesto que foi colheita, não quebranto,

Eine Geste der Ernte, kein Zwang,

um passo de um baile já há muito ensaiado.

ein Schritt aus einem längst geprobten Tanz.

 

 

O sol delira. E nos óculos escuros

Die Sonne taumelt. In den dunklen Gläsern

da donzela, um sorriso doce e leve, acende.

des Mädchens zündet ein süßes, leichtes Lächeln.

E o brilho das suas formas, puras,

Und das Leuchten ihrer klaren Formen

numa onda de luz, a mim chega e entende.

erreicht mich in einer Welle von Licht, versteht mich.

 

 

A gravidade dos óculos da donzela

Die Schwere der Brille des Mädchens

foge de um sorriso meu, largo e solar,

entweicht meinem weiten, sonnigen Lachen,

que lhe fala de fibras fortes, e nela

das von starken Fasern spricht und in ihr

faz brotar um desejo de se deixar levar.

erblüht das Verlangen, sich tragen zu lassen.

 

 

E então a troca, o passo súbito, o absurdo,

Dann der Tausch, der plötzliche Schritt, das Absurde,

o riso que é um lance, um jogo igualitário.

das Lachen – ein Wurf, ein Spiel unter Gleichen.

Fica um brilho no ar, um ritmo surdo,

Ein Glanz bleibt in der Luft, ein leiser Rhythmus,

o compasso partido de um só itinerário.

der gebrochene Takt eines einzigen Weges.

 

 

Dois corações, agora sócios no mesmo verso,

Zwei Herzen nun Partner im selben Vers,

numa dança que o Eros tece, fina e sem par,

in einem Tanz, den Eros spinnt – fein, unvergleichlich,

onde o que é dela em mim encontra o inverso,

wo ihres in mir sein Gegenteil findet,

e o que é meu nela se faz dançar.

und meines in ihr sich zum Tanz entfaltet.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Elegia dos Muros

(Lágrimas do tempo entre Gaza e Jerusalém)

Entre muralhas arde o sol ferido,
no pó da história o sangue se derrama;
Gaza e Israel, dois rios divididos,
se buscam sempre, mas no meio a mesma chama.

Mãos são raízes presas na penumbra,
olhos, espelhos de uma dor partida;
o tempo curva o peso da lembrança,
mas não detém a marcha desta vida.

Israel cerca o fogo da negação,
Gaza ressoa em gritos sem perdão;
o povo, sempre o povo, se consome,
prisioneiro de mapas e de nome.

Se a voz nascesse pura e sem barreira,
se o olhar fosse ponte verdadeira,
flores murchariam no concreto frio,
e a história seria apenas o rio.

Mas o destino é férreo, colonial,
forja alianças no silêncio hostil,
traça nos céus constelações de exílio,
marca na carne o peso desleal.

E no entanto, no meio de pó e chama,
surge um fio de luz que nunca inflama:
vida que insiste em dançar no abismo,
chama que arde contra o fatalismo.

Talvez um dia os povos, não os mapas,
ergam seus cantos contra as frias capas;
talvez com lágrimas, mãos e memórias
reergam vivos o destino e as histórias.

Por fim a dor grávida de dois povos,
em tempos de respiração mais livre,
rasgada na racha cruel da dor,
trará à luz o amor que sempre vive.

E então o ódio murchará, cansado,
como flor que resiste ao duro concreto;
e a história, por um instante suspensa,
será apenas o sopro de quem ama.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

COM O FADO NA ARAGEM DO MAR

Minha terra, meu eu, já não canta,

voz roubada pelo sal dos adeuses

absorta na marcha lenta das sombras

que se desfazem em névoa e silêncio.

 

Perde-se na onda de um amanhecer pálido,

onde o sol, doente de exílio,

se dissolve em pranto sobre as águas.

Olha para um céu feito de espelhos quebrados,

cada fragmento, um mapa de um porto perdido,

canto de sereia afogado no tempo.

 

Meu eu, tecido de mar e vento,

véu de luto sobre o peito do mundo

esvai-se na espuma da onda,

leito frio onde a memória se deita

e sonha com o fogo que outrora a aquecia.

 

Tanta procura! Chama extinta na brisa,

farol apagado pelo ruir do mar,

que canta, em segredo, a litania das marés:

Vem, sente o abraço da solidão,

este sal que cicatriza a alma,

este infinito estelar que nos veste de eternidade.

 

E eu, náufrago de mim mesmo,

alongo a mão na voz do mar,

frágil barco de palavras à deriva

enquanto o fado, na aragem,

me ensina a morrer e renascer.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

HUMANIDADE MINHA PÁTRIA

 

O vento traz folhas que o tempo despe,

como cartas sem destino a flutuar.

Cai a tarde em tons de barro e orvalho,

que a terra, em segredo, aprende a guardar.

 

O outono chega, desnuda o encanto,

e as árvores, tristes, confessam ao vento:

Somos raízes do mesmo desterro,

somos silêncio onde canta o lamento.

 

Sou um só, sem estar sozinho:

em mim acenam os que o outono apagou.

Os sem nome, os de mãos calejadas,

os que a história, em silêncio, negou.

 

Eis o chão que não escolhe sapatos,

o rio que bebe o pranto e o suor.

A pátria é esta voz que não tem dono,

é o canto que nasce da mesma dor.

 

Mas vejam comigo! Das ruínas do frio,

Se ergue um lustre de vozes no ar.

Não são reis, não são heróis de mármore,

são as mãos que sabem semear.

 

O povo de baixo, tecelão da aurora,

tece a luz que os palácios não veem.

Cada passo seu é um verso no chão,

cada pranto, um rio que flui para além.

 

Moderam o mundo com melodia,

não com espadas, mas com pão.

Harmonia é a lei que não se escreve,

é o abraço que cura a divisão.

 

Humanidade, minha pátria sem fronteiras,

o teu nome é plural, o teu cheiro é mar.

Em ti, o exílio vira lar,

e o lar é onde todos podem ficar.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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LIDERANÇA ENTRE EGOISMO E ALTRUÍSMO

Liderar é caminhar na Corda bamba entre o Eu que se afirma e o Nós que se constrói

Do eterno diálogo entre o “eu” e o “nós”  (entre o eu e as circunstâncias) nasce a tensão que marca toda a vida em sociedade: a relação entre quem dirige e quem segue, entre o indivíduo que se afirma e a comunidade que procura dar consistência ao caminho. É dessa tensão que surgem os líderes, chamados a representar o coletivo perante cada pessoa, e a oferecer uma visão orientadora que tanto pode abrir horizontes como impor limites.

A liderança nunca é neutra. Implica sempre um certo sofrimento, individual e comunitário, porque o líder (a instituição) canaliza as energias dispersas dos indivíduos para metas comuns, muitas vezes mais elevadas, como se fossem etapas de uma peregrinação. Mas esse movimento traz também uma sensação de falta original expressa entre o tudo que o inconsciente comporta e a inevitável limitação da sua concretização nos passos individuais.

É nesse espaço de tensão, entre liberdade pessoal e pertença coletiva, que se treina a arte de liderar.

A vida não é um destino fixo. É um processo em curso, um diálogo contínuo entre o eu que somos e as circunstâncias que nos moldam. Desde que o ser humano tomou consciência de si – como expresso no relato bíblico de Adão e Eva – nasceu uma tensão inevitável: afirmar-se sem perder o vínculo ao coletivo (a Deus). Daí brotam a comunidade, a história e as instituições que tanto nos apoiam como nos condicionam.

É esse movimento que nos arranca da fusão com a mãe ao cortar o cordão umbilical. Primeiro, descobrimos o eu. Depois, reconhecemos o tu. Só então nasce o nós, que dá origem à comunidade e à história. Esse desenvolvimento podemos observá-lo resumido nas fases de desenvolvimento da criança que ao tornar-se pessoa se revela o cosmos em miniatura e resumo da história humana.

A história não é dos Neutros nem é dos Tímidos

A História raramente recorda o povo anónimo e os hesitantes. Exalta a memória da ousadia dos vencedores e o arrojo dos que avançam. Daí a tentação de acreditar que egoísmo e temeridade são virtudes sustentáveis. Mas a própria natureza desmente essa leitura simplista pois regista duas forças complementares: a afirmação dos mais fortes e a colaboração entre os mais fracos que se unem em grupo e colaboram, para conseguirem equilibrar o poder dos mais fortes.

O olhar humano procura sempre uma luz exterior. Por isso deixamo-nos guiar, com frequência, por aqueles que conseguem a dianteira e assumem o papel de líderes. Aquele que tem um objectivo na vida consegue mais facilmente arranjar o caminho para chegar lá.

A Coragem e a Escuta

Liderar exige coragem para romper barreiras e ousadia para inovar. Mas um verdadeiro líder sabe também parar, escutar e deixar que a mudança respire. Liderança não é apenas avanço, é também discernimento: o egoísta teme perder, o altruísta teme não servir, mas só o sábio reconhece que nenhum deles pode liderar sozinho.

Hannah Arendt lembrava: “O poder só é efetivo enquanto os homens se mantêm unidos.” O equilíbrio entre afirmação pessoal e serviço ao coletivo é o que transforma autoridade em liderança genuína.

Liderar não é desconstruir

O mundo não se divide em preto e branco. Liderar não é apenas derrubar o que já não serve. Muitas vezes é adaptar, reformular, preservar valores que resistem ao tempo. O líder, que seja uma personalidade, sabe quando quebrar e quando construir; sabe que a dúvida criativa ou até o fracasso fazem parte do processo e não o invalidam.

Egoísmo saudável – Altruísmo sustentável

Não é bom demonizar o egoísmo, pintado-o como vício absoluto. Há um “egoísmo saudável” que nasce do autoconhecimento e da autopreservação e torna o altruísmo sustentável. Quem se sacrifica sem limites acaba por se esgotar. Liderar é encontrar o ponto de equilíbrio onde o cuidado de si não anula o cuidado dos outros.

A Poesia nos Intervalos

Mudar exige coragem e desapego. Mas não se trata de saltar para o vazio, é preciso também encontrar uma base de apoio. Sem isso, a ruptura transforma-se em queda.

Talvez a grandeza da liderança esteja justamente aqui: na consciência de que a poesia da vida não acontece nas ordens nem nas revoluções, mas nos intervalos entre elas. É nesses espaços de pausa que se amadurece a visão, que se cultiva a escuta e que se prepara o próximo passo.

O verdadeiro líder sabe que não é no grito da revolução, mas no silêncio entre os passos, que nasce a mudança duradoura.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo