A TRINDADE COMO RELAÇÃO DAS RELAÇÕES NO CONTEXTO DA FÍSICA QUÂNTICA

 

O conceito trinitário de Deus como relação pura (relação das relações) pode, perfeitamente, funcionar como uma matriz teórica e arquetípica para fundamentar a transdisciplinaridade, unificando os diferentes modos humanos de acesso ao real, sejam eles científicos, teológicos ou artísticos.

A trindade como a relação das relações

No debate teológico, o conceito chave aqui é a pericorese (a interpenetração mútua das três Pessoas divinas) somada à definição tomista de que na Trindade as pessoas são relações subsistentes. Se o Transcedente (Deus) e o Encarnado (o Cosmos/Cristo) são pura relação, a realidade deixa de ser um conjunto de “coisas” estáticas e passa a ser descrita como um tecido de conexões.

Quando se define a realidade desta forma, a transdisciplinaridade torna-se obrigatória. Se tudo é relação, nenhum método isolado consegue capturar o todo. A teologia, a filosofia e a física quântica tornam-se simplesmente diferentes comprimentos de onda ou perspetivas para observar a mesma rede relacional.

O ponto de encontro dos modelos e das imagens

A nova física não pode prescindir de teorias (símbolos) e, de facto, todo o instrumento de abordagem da realidade se serve de imagens é, a partir do ponto de vista do conhecimento (epistemologicamente) irrefutável.

No que toca a Modelos e Metáforas, nem a física quântica vê o eletrão em si, nem a teologia vê Deus em si. A física serve-se de construtos matemáticos e imagens (como “ondas”, “partículas”, “spin” ou “campos”) para esquematizar o comportamento da matéria. A teologia serve-se de imagens e mitos (como “Pai”, “Filho”, “Sopro-Espírito”) para delinear o mistério do Ser. (1)

No que se refere à ilusão do Método Puro, o grande erro do cientificismo clássico foi o dogmatismo metodológico, ou seja, acreditar que o método científico era a própria realidade e não apenas uma ferramenta de tradução. Quando nos libertamos dessa fixação cega, percebemos que tanto o físico como o teólogo estão a criar modelos representativos para decifrar as relações constituintes do universo.

Onde reside o problema e qual a razão de ele existir?

Se esta convergência é tão lógica, porque é que ela encontra tanta resistência? O problema não é de ordem do ser (ontológica), mas sim do estar (existencial), institucional e cultural! O busílis da questão vem:
a) do apego ao Poder Epistémico (teoria do conhecimento) onde historicamente, as disciplinas defendem as suas fronteiras para manter a sua autoridade. O cientificismo rejeita a teologia por medo do regresso ao dogmatismo religioso; a teologia, por vezes, isola-se por medo de ver os seus mistérios reduzidos a meros fenómenos psicológicos ou físicos;
b) da confusão de Níveis de Realidade. O físico Basarab Nicolescu, um dos pais da transdisciplinaridade, explica que a realidade é composta por diferentes níveis. O erro acontece quando se tenta aplicar as leis de um nível (como as equações matemáticas da física) diretamente noutro nível (como a experiência existencial do sagrado), gerando uma tradução literal e grosseira em vez de um diálogo transdisciplinar simbólico. (2).

Ao assumir a “relação das relações” como a base de tudo, valida-se que a ciência capta a dimensão mensurável dessa relação, enquanto a teologia e a mítica captam a sua dimensão de sentido profundo, sem que uma precise de anular a outra.

A física quântica ao resgatar o papel de observador (e da imagem) na construção da realidade está precisamente a seguir o modelo místico de acesso à realidade presente na teologia. O busílis mais revolucionário da epistemologia contemporânea situa-se precisamente no facto que é o colapso da separação absoluta entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. Ao colocar o observador no centro da constituição do real, a física quântica rompe com o ideal mecanicista de Newton e Galileu e aproxima-se, estruturalmente, do modelo místico e teológico de acesso à realidade.

O observador na física e na mística

Na física clássica, o cientista era um espectador neutro a olhar através de uma janela para um mundo mecânico preexistente. Na física quântica, o observador torna-se participante:

O Efeito do Observador: No nível subatómico, as partículas existem numa sobreposição de possibilidades (onda). É o acto de medição, a interferência do observador, que colapsa essa onda numa realidade concreta (partícula). O real não está “lá fora” à espera de ser descoberto; ele coemerge com a observação. (3)

A Experiência Mística: Na teologia mística (como na tradição de Mestre Eckhart ou no Pseudo-Dionísio), o conhecimento de Deus não acontece por via de uma análise exterior e distante. O mistério só se revela através da participação e da união. O místico sabe que o seu próprio olhar e o seu estado de consciência alteram e moldam a perceção do Divino. O sujeito e o objeto fundem-se na experiência.

O resgate da imagem e do símbolo

A física quântica, ao lidar com uma realidade que não pode ser vista diretamente (como os quarks ou as cordas) é forçada a abandonar o literalismo e a abraçar a linguagem simbólica, tal como a teologia:

A Imagem como Ponte: Como o ser humano não consegue conceber algo que seja onda e partícula ao mesmo tempo, a física usa estas “imagens” como metáforas matemáticas para aproximar a nossa mente de uma realidade irrepresentável.

O Ícone Teológico: Na teologia, a imagem (o ícone, o mito, o dogma) nunca é a realidade última (Deus), mas sim o veículo necessário que permite ao observador humano relacionar-se com o Transcendente. Ambos os campos compreendem que a imagem não é a coisa em si, mas a única forma de o observador interagir com o invisível.

A realidade como coocorrência

Penso que é possível criar linhas de pensamento em que a realidade, seja ela a matéria quântica ou a transcendência encarnada, funciona sob um princípio de coocorrência. Não há uma realidade objetiva pura sem uma consciência que a testemunhe, nem há uma consciência sem uma realidade para se manifestar.

O “problema” metodológico desaparece quando compreendemos que a mística usa a intuição, a contemplação e o símbolo para aceder ao Todo, enquanto a física quântica usa o formalismo matemático e a experimentação laboratorial para aceder à textura relacional da matéria. O essencial em tudo isto é que tanto a Teologia cristã (fórmula trinitária da realidade) como a nova física (física Quântica) chegam à mesma conclusão de que a separação é uma ilusão e que o fundamento do ser é a interação. (A física quântica provou que o mundo não é sólido, fixo ou objectivo, mas sim um campo dinâmico de possibilidades).

O físico e filósofo Bernard d’Espagnat, com o seu conceito de “Realismo Velado“ propõe o princípio que a realidade última está escondida e só se mostra através das nossas estruturas conceituais. Por seu lado Alfred North Whitehead com a Teologia do Processo reformulou a ideia de Deus a partir deste dinamismo e interdependência quântica.

A Teologia do Processo, a Teologia da Libertação e o pensamento cosmoteândrico de Raimon Panikkar convergem para equacionar a realidade de forma complementar através de um paradigma relacional e participativo. Em vez de excluírem a física, estas três correntes integram-na como a descrição material e estrutural dessa mesma rede de relações.

Teologia do Processo: a dinâmica e o vir-a-ser da matéria

Inspirada na filosofia de Alfred North Whitehead, a Teologia do Processo abandona a ideia de um Deus estático que governa um universo mecânico. (4)

O nexo quântico: A realidade não é feita de “coisas” duradouras, mas de eventos e processos em constante atualização. Deus não opera por coerção, mas por atração e persuasão, oferecendo possibilidades a cada instante do real.

Integração com a física: Esta teologia encaixa-se na física quântica. Nela, o eletrão não é uma esfera sólida numa posição fixa, mas um evento dinâmico que colapsa e se atualiza a cada instante na sua relação com o ambiente. A matéria e o espírito pertencem ao mesmo fluxo contínuo de vir-a-ser. (5)

Teologia da Libertação: a relação encarnada na história e na práxis

A Teologia da Libertação foca-se na história concreta, nas estruturas sociais e na urgência da justiça. À primeira vista ligada apenas à política e à sociologia, ela conecta-se com este tecido universal por vias profundas. (6)

A práxis como observação: Tal como a física quântica provou que o observador altera o sistema ao intervir nele, a Teologia da Libertação defende que o conhecimento teológico não é neutro. Conhecer a realidade exige engajamento e transformação (práxis).

Integração com a física: Através da ecologia integral (como o trabalho de Leonardo Boff), esta corrente compreende que a opressão social e a destruição ambiental derivam do mesmo erro: o atomismo mecanicista clássico, que isola os seres humanos uns dos outros e da natureza. A libertação histórica é a restauração das relações justas em todas as escalas da matéria (7).

A Trindade Radical de Panikkar: a intuição cosmoteândrica

O teólogo Raimon Panikkar formulou o princípio cosmoteândrico, que propõe que toda a realidade se estrutura numa “Trindade Radical” indissociável composta por três dimensões (8).

O Divino (Teandrico): A profundidade infinita, o mistério e a abertura para o novo.

O Humano (Antrópico): A consciência, o olhar do observador que dá sentido e testemunha o real.

O Cósmico (Material): O tecido físico do universo, a exterioridade corporizada.

Integração com a física: Para Panikkar, Deus, o Homem e o Cosmos não são substâncias separadas. Eles estão numa relação de interpenetração mútua (pericorese ou advaita). A física não é excluída; ela é o rastreamento rigoroso da dimensão cósmica desta trindade estrutural (9). Sem a matéria (física), o mistério divino permaneceria desincorporado e a consciência humana não teria onde manifestar-se (10).

A síntese complementar e transdisciplinar

Estas três abordagens dividem o trabalho de decifrar o real sem anular o laboratório do físico:

A teologia do processo foca-se na metafísica do vir-a-ser e nela o tempo e a matéria são fluxos de eventos interligados num todo relacional e deste modo entra no diálogo com a Nova Física ao validar a natureza indeterminada e flutuante do vácuo quântico.

A teologia da libertação encara o processo da práxis histórica e social onde a relação exige compromisso ético e transformação sistémica. Deste modo supera o mito do observador neutro; o cientista molda o mundo em diálogo com a Nova Física.

A teologia de Panikkar foca a ontologia cosmoteândrica. O seu contributo relacional vê toda a realidade como constitutivamente divina, humana e cósmica. Por seu lado entra em diálogo com a Nova Física onde a física descreve a dimensão material da teia de relações.

O problema metodológico desfaz-se se adotarmos a transdisciplinaridade. A física quântica descreve a sintaxe da realidade (as regras matemáticas de como os campos e partículas se correlacionam). A Teologia do Processo descreve a sua dinâmica existencial. A Teologia da Libertação exige a sua ética relacional concreta. Panikkar oferece a semântica mística definitiva: tudo o que existe é uma relação das relações. Nenhuma delas anula a outra, pois são modos complementares de sintonizar a mesma sinfonia.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

(1) https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/16662_4.PDF

(2) O manifesto: https://sites.usp.br/revistabalburdia/um-manifesto-pelo-fim-da-disciplinaridade/

(3) https://www.instagram.com/reel/DWmuighDkVI/

(4) Teologia do Processo: file:///C:/Users/Antonio/Downloads/barroca,+A+teologia+do+processo+de+Whitehead.pdf

(5) Mecânica quântica e teologia: 2https://unusmundus.academiaabc2.org.br/mecanica-quantica-e-teologia/

(6) https://www.textoaureo.com.br/2023/3%C2%BA-trimestre-de-2023-adultos/li%C3%A7%C3%A3o-2-a-deturpa%C3%A7%C3%A3o-da-doutrina-b%C3%ADblica-do-pecado-din%C3%A2micas-e-slides

(7) Leonardo Boff: https://pt.wikipedia.org/wiki/Leonardo_Boff

(8) A Racionalidade: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/40915

(9) Trindade Radical: file:///C:/Users/Antonio/Downloads/admin,+Art+247+BJD.pdf

(10) Vida cosmoteândrica: https://ihu.unisinos.br/categorias/656498-semana-panikkariana-2025-raimon-panikkar-uma-vida-cosmoteandrica

BRUXELAS EMPENHADA EM REDUZIR A CULTURA EUROPEIA A INSTRUMENTO DE GUERRA

A ameaça pairou sobre os canais de Veneza como uma névoa salobra, indiferente à beleza dos palácios e ao murmúrio das gondolas remadas. Dois milhões de euros, ninharia para os cofres opulentos de Bruxelas, mas cifra vital para a alma de uma Bienal que sempre se quis universal, ficaram suspensos por um capricho geopolítico. A senhora comissária, Henna Virknen, brande o seu telemóvel como outrora se brandia uma espada, anunciando na efémera praça digital que a cultura deve pagar o preço da desobediência. Eis o primeiro sintoma da bílis de que fala o povo: a razão turva-se quando o poder resolve vestir a farda do moralismo.

Ora, independentemente do xadrez económico e político que se joga na Ucrânia, essa pobre terra transformada em cavalo de Troia dos grandes estrategas globais, uma coisa se nos afigura cristalina. A Europa, velha de séculos mas surpreendentemente imatura na sua gerontocracia, julga rejuvenescer apostando apenas nas suas qualidades guerreiras. É um equívoco trágico e profundamente irónico: um continente que inventou a universidade, a sinfonia e a declaração dos direitos do homem reduz-se agora à retórica do bombardeiro e ao gesto do diplomata que só conhece a provocação como forma de diálogo. O poder, nessa Bruxelas asfixiante, parece ter esquecido todas as línguas, excepto a do dinheiro e a da sanção. Impõem-se “valores subversivos” contra “valores sagrados”, mas ninguém se dá ao trabalho de definir quais são uns e outros, porque, neste conflito surdo contra o povo europeu e contra o povo russo, parece reger o argumento cínico do tudo vale.

Escutemos, com atenção, os hinos do fanatismo contemporâneo. Lá longe, do outro lado do Atlântico, ouvimos o eco gutural de “América acima de tudo”. Aqui, no velho continente, respondemos com o timbre melífluo, mas igualmente vazio de “Valores democráticos da Europa acima de tudo”. É a mesma moeda, cunhada em lados diferentes, servindo o mesmo espírito do globalismo que sopra das torres de marfim financeiras para as planícies do sofrimento real. Cada vez se tem mais a impressão, e o senso comum, esse bem raro, teima em confirmá-lo, de que a grandeza das potências tem como condição necessária a humilhação metódica do cidadão comum. A dissidência, nessa Europa embriagada de si mesma, é simplesmente pensar de forma diferente; a heresia, hoje, é querer a paz sem submeter a alma ao dogma.

É preciso, pois, que o povo desperte. Não o povo abstracto dos discursos oficiais, mas a carne e o osso que pagam impostos e criam os filhos. Bruxelas estende-se como um polvo de braços tecnocráticos, avassalando até os sagrados espaços da cultura, transformando a arte num campo de batalha rasteiro. A Bienal de Veneza, que devia ser um oásis de contemplação, arrisca-se a tornar-se um museu da censura. E esta é a maior tragédia: quando os burocratas se arrogam o direito de definir o que é ou não “democrático” na paleta de um pintor ou na música de um compositor, estamos a trocar a utopia pela polícia.

O humanismo, esse velho amigo esquecido, dita que a cultura não é instrumento de guerra, mas trégua. A cultura não é arma de arremesso, mas ponte. Se a Europa quer verdadeiramente rejuvenescer, que olhe para os seus filhos, não para os seus generais; que se inspire nos seus filósofos e teólogos, não nos seus comissários. Que guarde o cinismo para a política, que é, afinal, a sua matéria-prima e a generosidade para a arte. Caso contrário, a Bienal de Veneza não será a única a afogar-se nas suas águas turvas; afogar-se-á a própria ideia de Europa, vítima da sua própria bílis, sufocada pelo polvo que criou para a defender.

E quando isso acontecer, não digam que o povo não avisou.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

O NEGÓCIO DO ROSTO

Leviandade, a dos que gritam «é livre»
quando o punho do clã lhe cerra a nuca.
Leviandade, a dos que bramam «é estrangeira»
quando o que odeiam é a fêmea em si.

Ambos a usam como bandeira de conveniência,
nenhum lhe pergunta se o véu pesa mais
que o peso da alma que lhe calaram.

Ela é o negócio da religião,
a moeda de troca entre o céu e a terra,
a prova de que o homem é senhor
quando a mulher é só silêncio andante.

Não conseguem ver?
A pressão é mais fina que a seda,
entranha-se-lhe nos ossos
como prece íntima:

«Cobre-te,
que a tua face é pecado;
descobre-te,
que a tua face é escândalo;
sê nenhuma (ninguém),
que assim serás de todos.»

Mas quem defenderá o direito
de ela ser
a autora do seu próprio eclipse
ou da sua própria aurora?

Quem lhe devolverá a tinta do rosto
para que ela pinte o dia
conforme o seu próprio gosto?

Ah, deixai-a rasgar a cortina do templo,
não para ofender deuses,
porque esses são mudos,
mas para que a mulher, enfim,
seja perigo apenas pela sua inteligência,
e não pela covardia do homem
que a esconde.

Que a praça a receba
como rio que ela é:
sem margens,
sem dono,
sem burca.

António da Cunha Duarte Justo
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A ENCENAÇÃO DO ESPÍRITO MASCULINO NA NOSSA MATRIZ ANTROPOLÓGICA

O rosto masculino da agressão: 94% da população reclusa

O rosto masculino da agressão revela-se de forma gritante nas estatísticas: os homens dominam as tabelas do abismo, representando 94% da população reclusa e concentrando os mais alarmantes índices de violência. Perante este cenário, impõe-se uma conclusão inadiável: precisamos de uma mudança de paradigma. Não se trata de substituir o masculino pelo feminino, mas de transcender a lógica vigente, rumo a um novo modelo, feminino-masculino, que reconheça a complementaridade como alicerce do desenvolvimento humano e social.

A coexistência harmoniosa entre a feminilidade e a masculinidade, tanto nos homens como nas mulheres e na própria organização da sociedade, é hoje inviabilizada por uma matriz profundamente enraizada que molda o nosso pensamento e a nossa existência. Esta matriz, de feição exclusivamente masculina, confinou o elemento feminino aos domínios do natural e do religioso, despojando-o do seu legítimo lugar na esfera pública e intelectual. Paralelamente, ao impor uma mentalidade materialista e práticas orientadas unicamente para o progresso funcional, a eficiência e o lucro, esta estrutura reprime a dimensão espiritual e emocional do ser humano (vive-se no âmbito das teorias – masculinidade – sem encarnação em virtudes). As mulheres, para ocuparem espaços de decisão, são muitas vezes coagidas a atuar contra o seu próprio princípio feminino, integrando-se apenas ao nível do funcionamento mecânico da sociedade, um mecanismo cujo leme permanece firmemente nas mãos do masculino. O homem age, assim, quase exclusivamente sobre os sintomas da desumanização, mas nunca sobre as causas profundas que alimentam a brutalidade, a beligerância e a indiferença perante o sofrimento.

Observa-se, por todo o lado, uma escalada preocupante da agressão, quer nas instituições quer nas relações interpessoais. Numa era em que o princípio masculino é exacerbado por belicistas, por potentados sedentos de poder e por personalidades controladoras, a teimosia unilateral é não apenas tolerada, mas ativamente incentivada. Os números, particularmente os que emergem das estatísticas alemãs, são inequívocos: a agressão tem rosto masculino. Como documenta Boris von Hessen na sua obra “O que os homens custam”, os homens são responsáveis pelo dobro dos acidentes rodoviários, pela maioria esmagadora dos crimes e por 94% da população prisional. São eles os protagonistas de 75% das mortes relacionadas com o álcool e de mais de 80% dos casos de violência doméstica. Para além do sofrimento humano incalculável, estes dados traduzem-se em custos sociais astronómicos, que ascendem a mais de 60 mil milhões de euros anuais. Estamos perante uma realidade que clama por uma reflexão radical.

Face a esta realidade sombria e à aptidão bélica de uma sociedade que privilegia uma cultura de guerra em detrimento de uma cultura de paz, impõe-se uma pergunta incómoda e urgente: o que é que correu mal connosco, homens? Porque razão nos agarramos, com tamanha obstinação, a esta matriz masculina, sem a questionar, e nos apegamos a papéis que sistematicamente recompensam a dureza, a dominância e a exagerada propensão para o risco? Se não rompermos com este padrão arcaico, todas as estratégias de prevenção e as reformas institucionais se tornarão letra morta, servindo apenas para paliar os estragos ou, pior ainda, para consolidar e perpetuar a própria matriz que gera o problema.

Urge, por conseguinte, forjar uma nova compreensão, uma consciência renovada no âmbito da sociologia e da antropologia. Necessitamos de um modelo que integre, em plena igualdade, os princípios da feminilidade e da masculinidade na ordem do indivíduo e da sociedade, sem que um se sobreponha ao outro. A crise civilizacional que assola a Europa é, no fundo, a crise de uma ênfase tradicional excessiva no masculino, herdeira de um patriarcado que nos conduz, irremediavelmente, para o precipício. Para superar este atavismo, é imperativo reformar profundamente a antropologia vigente. Proponho, assim, uma nova abordagem, a que chamo antropoginelogia (ou antropoginaikologia), um modelo em que o masculino (Antropos) e o feminino (Gyne) sejam representados em pé de igualdade, como energias vivas, complementares e indissociáveis, que habitam e se expressam em cada homem e em cada mulher. Desta simbiose, emergirá um novo padrão de orientação ética e existencial, uma verdadeira logia do ser humano completo, capaz de reequilibrar o nosso destino coletivo e de devolver à vida a sua plenitude reflexiva e compassiva.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

Alguns artigos relativos ao tema:

Para além da matriz masculina: https://www.gentedeopiniao.com.br/opiniao/para-alem-da-matriz-masculina

Outros artigos: https://bomdia.lu/dia-da-mulher-vale-a-pena-lutar/

A necessária transição : https://antonio-justo.eu/?p=10828

Mulheres em sociedade: https://www.gentedeopiniao.com.br/opiniao/artigo/das-mulheres-na-sociedade-e-na-igreja-e-dos-usos-e-costumes-que-as-oprimem

O poder normativo: https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/actividade-politica-e-consciencia-1412458

Humanismo e ética: https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/humanismo-e-etica-para-a-construcao-de-uma-cultura-de-paz-global/

O dia internacional da mulher: https://antonio-justo.eu/?p=2206

Burca uma acusação ao patriarcado e ao homem: https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/a-burca-1227532

Was Männer Kosten: https://www.amazon.de/dp/3453606248?ref=cm_sw_r_ffobk_cso_wa_apan_dp_VVVAQ71QM0K2SSDPCZ1Z&social_share=cm_sw_r_ffobk_cso_wa_apan_dp_VVVAQ71QM0K2SSDPCZ1Z&bestFormat=true

 

O ECLIPSE DAS COISAS NUMA LINGUAGEM ALHEADORA DA EXPERIÊNCIA

Quem muda o vocabulário muda a própria forma de ser e de estar no mundo

Ao observarmos a evolução da linguagem nas sociedades europeias, sobretudo a partir das últimas décadas do século XX, torna-se evidente que muitas palavras perderam parte da sua densidade semântica e da sua capacidade de remeter diretamente para a experiência concreta da realidade. Não se trata apenas da natural evolução das línguas, um fenómeno inevitável e estudado pela Linguística, mas também da crescente tendência para simplificar, uniformizar e abstrair o vocabulário utilizado no ensino, na comunicação pública e nos meios digitais. Este fenómeno além de plurifacetado revela-se atrevido ao querer reduzir a gramática a uma questão de discussão de emancipação, de género ou de wokismo cego.

Um exemplo que parece inocente e foi efetivado em Portugal  é a alteração da terminologia gramatical que levou à substituição da designação tradicional “substantivo” pela categoria mais genérica de “nome” em diversos documentos pedagógicos. A alteração começou com a introdução da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), aprovada pela Portaria n.º 1488/2004, de 24 de dezembro, consolidada depois no Dicionário Terminológico. Embora esta mudança tenha sido justificada por razões de simplificação didática e para aproximar a terminologia escolar aos modelos linguísticos contemporâneos, ela revela-se como demasiadamente “inocente” ao seguir agendas globais sem ter em consideração a preocupação expressa por George Orwell!  Contudo ela suscita uma questão mais ampla: até que ponto a simplificação da linguagem pode contribuir para um enfraquecimento da relação entre as palavras e a realidade que elas designam? E até que ponto com a linguagem se muda o substrato do humano, ao termos em conta a preocupação expressa por George Orwell?

As palavras não são meros sinais convencionais. Desde Aristóteles, para quem o ser humano é um animal dotado de logos, até Martin Heidegger, que afirmava que “a linguagem é a casa do Ser”, numerosos pensadores entenderam que é através da linguagem que vivemos e habitamos o mundo. Quando uma palavra conserva a sua ligação à experiência concreta, ela transporta memória, cultura e formas de perceber a realidade. Quando essa ligação se enfraquece, corre-se o risco de substituir a riqueza da experiência por categorias cada vez mais abstratas.

É precisamente este perigo que George Orwell denunciou no célebre ensaio Politics and the English Language. A degradação da linguagem não é apenas um sintoma porque pode ser usado como instrumento de empobrecimento do pensamento. Como escreveu: “Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento.” A simplificação excessiva ou a manipulação das palavras acaba por limitar a própria capacidade de pensar criticamente.

Este processo favorece um progressivo desenraizamento da pessoa. Simone Weil também adverte para a perda da ligação às coisas concretas ao falar de enraizamento (L’Enracinement, 1949), ao escrever que “o enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana”.  O indivíduo deixa de encontrar na linguagem uma mediação entre si e o mundo vivido para se mover predominantemente no universo das ideias abstratas, dos conceitos funcionais e das classificações convencionais. A realidade ou objeto torna-se menos algo que se experimenta e mais algo que se interpreta através de sistemas previamente construídos.

Esta tendência é reforçada pela crescente mediação tecnológica. As crianças que descobrem o mundo sobretudo através dos ecrãs adquirem vastas competências digitais, mas veem reduzidas as oportunidades de contacto direto com a realidade física: tocar, cheirar, explorar, subir, cair, observar lentamente os ritmos da natureza. Diversos estudos em Psicologia do Desenvolvimento confirmam que a experiência sensório-motora constitui uma base essencial da aprendizagem.

Já nos anos 80, Neil Postman advertia que toda a tecnologia altera a ecologia da cultura. Em Amusing Ourselves to Death mostrou como uma sociedade dominada pelos meios audiovisuais tende a privilegiar o entretenimento sobre a reflexão, fazendo com que a imagem substitua progressivamente a experiência e a argumentação. O problema não reside na tecnologia em si, mas na forma como esta redefine silenciosamente os nossos hábitos de pensar.

Por seu lado, Marshall McLuhan sintetizou esta transformação na célebre fórmula: “O meio é a mensagem.” O meio através do qual conhecemos o mundo não é neutro porque modifica a própria estrutura da perceção e da consciência. Quando a experiência passa a ser predominantemente mediada pelos ecrãs, também o modo de compreender a realidade acaba por se transformar.

Poder-se-ia dizer, metaforicamente, que os antigos caminhos vivos, ladeados pela diversidade da vegetação e pela imprevisibilidade da natureza, vão sendo substituídos pelo asfalto das vias cuidadosamente projetadas. Nestas estradas prevalecem sinais convencionais definidos por arquitetos dos sistemas sociais, económicos e tecnológicos. Pouco a pouco, habituamo-nos mais a interpretar símbolos do que a observar diretamente as coisas. Deste modo o acesso à vida “real” decai ao construir a máscara da realidade já não a partir da experiência e da observação do objecto para se tornar na máscara da máscara.

Forma-se assim aquilo que poderíamos designar por um “eclipse das coisas”. As realidades concretas cedem lugar às suas representações; a experiência é substituída pela mediação; o objeto pela imagem; a presença pelo fluxo contínuo de informação. Ora, quando as coisas desaparecem do horizonte da experiência, também a memória tende a enfraquecer-se, pois a memória humana alimenta-se da vivência concreta, dos lugares, dos gestos e dos encontros.

Esta preocupação que aqui apresento aproxima-se da reflexão de Hannah Arendt sobre a perda do “mundo comum” e que muito me impressionou aquando de estudante. Em The Human Condition, Arendt lembra que a realidade humana nasce de um mundo partilhado de coisas, obras e experiências concretas. Quando esse mundo é substituído por construções abstratas ou por realidades inteiramente mediadas, enfraquecem-se igualmente os vínculos que sustentam a vida política, a memória histórica e a responsabilidade comum.

As consequências deste fenómeno ultrapassam, por isso, o domínio da linguagem. Afetam a própria compreensão do ser humano e da sociedade. Uma transformação profunda da relação entre linguagem, experiência e memória conduz inevitavelmente ao aparecimento de uma nova antropologia e de uma nova sociologia, nas quais a identidade pessoal se constrói cada vez mais através das redes simbólicas, dos algoritmos e das mediações digitais, e cada vez menos através da experiência direta da realidade vivida e deste modo devasta certamente o humanismo.

O que observamos no mundo que nos circunda é preocupante contudo, importa evitar leituras simplistas. A abstração constitui igualmente uma das grandes conquistas da inteligência humana e permitiu o extraordinário desenvolvimento das ciências, da filosofia e da técnica. O desafio consiste em preservar o equilíbrio entre a capacidade de abstrair e a permanência da ligação às coisas concretas. Uma linguagem que perde completamente as suas raízes na experiência empobrece o pensamento e uma experiência sem linguagem perde a possibilidade de ser compreendida e transmitida.

Talvez uma das tarefas culturais mais importantes do nosso tempo seja precisamente restaurar esse equilíbrio: devolver às palavras a sua espessura humana e reencontrar, através delas, a presença das coisas, da memória e da realidade que lhes dá sentido. Porque, em última análise, não é apenas o vocabulário que muda, o que muda é a própria forma de existir e de estar no mundo.

António da Cunha Duarte Justo
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