BOAS FESTAS ALELUIA! ALELUIA! ALEGRIA-PAZ E BEM!

A Cruz Sinal do Universo e da Salvação une os Extremos e resolve-os

“Boas festas, aleluia! Aleluia! Cristo ressuscitou, aleluia!”, costumam saudar-se os cristãos uns aos outros no Domingo de Páscoa. Nesta atmosfera saúdo cristãos e não cristãos também!

A tristeza e a alegria andam juntas e complementam-se. O paleontólogo e teólogo Teilhard de Chardin convida-nos à reflexão constatando que, tal como no cristianismo das origens,  “A cruz não é apenas um símbolo do lado obscuro e regressivo…, mas sobretudo do lado sublime e luminoso do universo em formação”.

De facto, a cruz une os polos, as forças opostas e as contradições contidas nela congregam e libertam as mais altas potencialidades e possibilidades da e para a vida.  Na cruz está resumida a cruz da humanidade e a cruz da realidade (do mundo físico). De facto, poderíamos considerar a cruz como a grande fórmula da Realidade imanente e transcendente no cadinho da vida em efervescência. Segundo Alfons Rosenberg não se trata de imitar a cruz, mas de se “tornar a cruz”. Na cruz o encontro da polaridade refuta a visão dualista da vida (maniqueísmo) de nos fixarmos no bem ou no mal. Na cruz e na pessoa de Jesus Cristo podemos ver juntas as polaridades do mundo e da humanidade numa dinâmica semelhante ao símbolo de Yin-Yang do oriente. Na existência fazemos a experiência de que muito dela é cruzada ou riscada com a consequente experiência do fracasso, mas ao mesmo tempo lá está o eixo vertical a apontar para a transcendência. Espiritualidade e corporalidade precisam de equilíbrio. A linha transcendental da vida cruza a linha horizontal da mesma para que nossa existência seja correta e equilibradamente elevada. A nossa forma humana revela-nos como sendo portadores da estrutura da cruz. Em termos de simbologia, o eixo transversal da cruz mostra a conexão com a terra e com o corpo acentuando o eixo feminino (vida existencial, irmandade solidariedade), o aspecto biológico da vida, enquanto a acentuação do vertical, o eixo masculino (vida abstraída) acentua a verticalidade. A demasiada acentuação de um ou outro eixo (ou de um dos quatro braços) pode criar desequilíbrios críticos na vida humana. Assim a demasiada acentuação do eixo vertical pode corresponder a uma análoga dessensualização do pensamento e pode conduzir à falta de relacionamento na área humana (Jesus é o exemplo ou protótipo humano do equilíbrio das diferentes forças). Na sociedade humana corre-se o perigo de se acentuar demasiadamente o factor racional/abstracto em desfavor de o humano. Alfons Rosenberg (judeu convertido ao catolicismo) na sua meditação da cruz, ao descrever o significado da acentuação dos quatro braços dela, diz que a cruz latina, ao contrário de outras cruzes, acentua o masculino-patriarcal através do eixo vertical prolongado. Revela uma certa discrepância entre o aspecto místico da cruz e o aspecto da igreja institucionalizada. Importante é estar-se consciente da dinâmica e tensão criada na acentuação de um dos braços na existência real e na vida pessoal.

A cruz de braços estendidos envia o fluxo de vida para o mundo numa espécie de ciclo vital que tudo envolve incluindo o fluxo de vida dos seres humanos.

A cruz une o espírito e a matéria, o humano e a natureza tal como Jesus Cristo reúne e une nele a divindade, a humanidade, o espírito e a matéria.

Romano Guardini (1885-1968) grande teólogo e filósofo diz que o sinal da cruz “É o sinal do universo e é o sinal da salvação”. De facto, no cristianismo dos princípios, a cruz representava o “sinal do filho do homem „ que aparecerá nas nuvens do céu para a renovação do mundo. A fixação do significado da cruz na cruz da gólgota (Cristo crucificado), tão importante na piedade popular, não deve ser reduzido a tal e deixar esquecida a extensão cósmica da cruz que tem um significado que envolve toda a natureza  (até a física quântica). Neste sentido é de recordar a teologia do “Cristo Cósmico” de Teilhard de Chardin!

 Fazer o sinal da cruz (persignar-se e benzer)  é um gesto importantíssimo da fé e muito efectivo, se for realizado com interioridade (presença vivencial de Deus, da humanidade e do universo), para ser-se abençoado e abençoar; abençoar o próximo, animais e a natureza com o sinal da cruz é um gesto salutar para o próprio e para os outros (pode ser efectuado de forma reservada!) Naturalmente, como sinal do universo pode ser usado por cristãos e não cristãos!  

O sinal da cruz expressa resumidamente a fé cristã no Deus Triúno e é símbolo de salvação por meio da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Fazer o sinal da cruz não é apenas um gesto externo, mas expressa uma atitude interior do coração. É uma expressão de humildade e vontade de carregar e seguir a cruz de Jesus Cristo. Nesse sentido, o sinal da cruz é um símbolo de devoção e confiança em Deus.

Na cruz temos a perspectiva de Deus, do humano e do mundo; nela está consagrada também a corporalidade do homem e de todas as coisas.

Também o orar de braços abertos afirma a corporalidade aberta em cruz que poderíamos sentir como ressonância de Deus e do universo em nós e de nós em Deus e no universo. Como disse são gestos que podem também ser feitos por pessoas não cristãs e ao fazê-lo sentirão o aspecto benéfico no espírito e no corpo. Para quem nunca o fez pode experimentar fazê-lo, por exemplo, ao pôr do sol, ao levantar do sol, numa noite de céu estrelado, junto ao mar ou ao ouvir uma música envolvente que passa a habitar em nós.  Importante será criar em nós um espaço recolhido para entrar numa atitude de admiração, apreço e respeito e ao mesmo tempo fazer o exercício de inspirar o amor que tudo une e expirar-se algo que nos fere ou preocupa. Nesse inspirar e expirar pode ser que se tenha a dita de se sentir interiormente a morte e ressurreição (uma espécie de osmose espiritual entre o divino e o humano provocadora de uma vivência da unidade do todo que envolve a paixão e a ressurreição num aleluia exuberante que poderia até expressar-se como orgasmo da alma).

António CD Justo

Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo

 

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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

6 comentários em “BOAS FESTAS ALELUIA! ALELUIA! ALEGRIA-PAZ E BEM!”

  1. Sem dúvida uma visão muito mais abrangente do que a tradicional regressiva (e punitiva acrescentaria eu). Para mim a páscoa é a celebração do equinócio da primavera que já existe na humanidade há milhares de anos. Por uma questão de liberdade religiosa não tenho nada a opor a que os cristãos a vejam de outra maneira. Reconheço contudo que esta visão ampla do significado da cruz é nova para mim e agradeço a sua reflexão.

  2. João Paz , de acordo! Encontrámo-nos todos no alto mar e cada qual no seu barco com o desejo de encontrar rumo e deixar rasto. O problema é que a realidade é tão multifacetada e complexa como o horizonte, as estrelas e a água do mar. A questão mais que da orientação e do caminho que cada um escolhe virá do desejo de querer determinar a direcção da própria estrela como o caminho a seguir! A questão dos equinócios tal como as abordagens culturais dependerão da localização geográfica e da perspectiva cultural onde nos encontramos. Uma visão integral pressuporia a inclusão de todas as perspectivas; por isso o mais importante sob este ponto de vista será cada qual no respeito da integralidade procurar alargar sempre a própria perspectiva considerando-a como oferta complementar e não como imposição para o próprio nem para outros. Também é importante que cada um procure assumir a vivência da própria mundivisão com autenticidade e de perspectiva aberta na procura solidária do bem, da verdade e do belo!

  3. Gostei, muito, deste teu texto sobre o símbolo da Cruz. Nunca me tinha pensado no carácter universal deste sinal e nos seus diversos significados; não é, afinal, exclusivo do pensamento cristão- e ainda bem – nem tem um carácter tão vincado do sofrimento e, quase, de “falhanço” que, tantas vezes, parece nos ser transmitido.
    O chamar à liça o multifacetado Teilhard de Chardin veio muito a propósito; já o afirmei aqui, desde os meus tempos de “filósofo”, em Manique, sempre tive uma apreciação muito especial por este eminente pensador, talvez por o seu pensamento ser “jovem”, irrequieto, abrangente, e não poder ser comprimido pelos rígidos “cânones”, quer da filosofia, ou da teologia, até da religião, quer da própria ciência – poderia ser bem mais estudado e, sobretudo, compreendido pelos pensadores actuais. O Papa Francisco cita textos seus na “Laudato si”, sinal de que o seu pensamento (o de Teilhard) continua vivo e actual.
    Obrigado por estas tuas preciosas linhas.

  4. Gostei muito da tua reacção ao meu texto e em base a ela procuro reflectir um pouco sobre o assunto; também para mim o Padre Teilhard de Chardin foi sempre um dos meus favoritos, pelo facto de ele unir a mística à racionalidade, a ciência à espiritualidade; naturalmente Teilhard de Chardin ao acentuar o papel da espiritualidade mística e ao aceitar certos aspectos da teoria da evolução causou medos nalguns meios institucionais da Igreja (Para ele a evolução do universo e da vida era um caminho para a união com Deus, e que culminaria no “Cristo-Ómega”. Como o que referi sobre a cruz tem muito a ver com a espiritualidade da igreja primitiva de caracter místico e com um certo misticismo de Teilhard de Chardin aproveito para recordar que ele via a via mística como uma fonte de inspiração e conexão com o divino. Chegou mesmo a referir-se à experiência de uma “chama interior” ou “núcleo interior” que “conecta o homem ao divino e o inspira a buscar uma espiritualidade mais profunda” e de se conectar com o cosmos.
    Creio que cada pessoa terá uma inclinação ou maneira própria de abordar Deus e a realidade e que se pode expressar numa tendência mais virada para a mística ou mais centrada na análise racional e empírica (no esoterismo ou no exoterismo). A “tendência mística” tende a abordar a realidade por meio de experiências espirituais interiores ou transcendentes (acentua a subjectividade, a experiência directa e a intuição). A “tendência racional “, faz uma abordagem da realidade por meio do raciocínio lógico e métodos científicos procurando valorizar evidências, fatos e raciocínios para apoiar a sua compreensão do mundo. Importante é que as duas tendências não se contradigam e se complementem. Teilhard de Chardin considerava o misticismo como parte importante da busca espiritual. A combinação de pesquisa científica com a busca espiritual pode ajudar-nos a alcançar uma visão mais alargada do universo e da pessoa humana.
    Karl Rahner parece ter muita razão ao dizer que se deveria acentuar mais a mística. De facto, pela procura que se observa nos diferentes meios esotéricos (procura da meditação, do saber interior e que muitas vezes anda à deriva em práticas fomentadoras do ego), as igrejas terão de procurar meios ou formas de dar resposta a essas necessidades de espiritualidade.
    Estou bem consciente que há pessoas com consciência (ou espírito) mais esotérica e outras com consciência mais exotérica o que torna difícil o entendimento recíproco entre elas mas o importante é estarmos conscientes disso e no respeito entrar-se numa reciprocidade de aceitação. Infelizmente a profanidade tem conseguido impor nos espíritos de todos nós uma mentalidade política interessada em dividir e em estabelecer uma forma de discurso a preto e branco.
    Obrigado pelo teu Feedback!

  5. “A Cruz Sinal do Universo e da Salvação une os Extremos e resolve-os”. “A tristeza e a alegria andam juntas e complementam-se. ” Obrigada pela partilha do seu belo texto. Boas Festas!

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