DIREITOS DE LIBERDADE RELIGIOSA E DIREITOS LGBT

Entre o Direito à Dignidade humana e o Direito de se organizar em Grupos

A questão será, como compatibilizar direitos individuais (LGBT) com direitos de grupos ou confissões numa sociedade que respeite ao mesmo tempo o indivíduo e a comunidade?  Neste contexto, como coordenar a política de inclusão, apesar de tanta propaganda Arco-Íris e de tanta confusão propagada?

O Direito individual à Dignidade humana é o fundamento de uma vida civilizada; no conflito entre identidades individuais e identidades comunitárias seria da essência da instituição servir o indivíduo, tal como a dos órgãos servirem o corpo. É próprio de uma certa dialética e irracionalidade humana considerarem-se antagónicas grandezas que na sua essência são complementares. No humano torna-se tudo mais complicado dado individuo e comunidade terem a sua individualidade interceptada mas que pretendem ver respeitada numa tendência natural de autodefinição (o problema é a finação de algo parte de um todo que não reconhece a condição de limitado!).

“LGBT” significa lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros. A ideologia ou movimento LGBT tornar-se-ia supérflua se os direitos de toda a pessoa assentassem no reconhecimento da sua dignidade individual independentemente da sua ideologia ou inclinação e se as instituições ou comunidades reconhecem de forma transversal tal direito humano e se o indivíduo respeitasse a diversidade de instituições necessárias.

No exercício de papéis ou funções sociais haverá sempre contradições dado haver dois campos de intervenção (identidades), por vezes, concorrentes e intrínsecos à humanidade: o indivíduo e a organização ou comunidade.  Numa sociedade em que a personalidade individual se quer cada vez mais reduzida ao ego acentua-se o conflito que em termos epocais pode ser considerado fatal. O conflito manifesta-se quando os objetivos do Estado, por exemplo querer fomentar a procriação para manter a sua sustentabilidade (a comunidade) chocam com objectivos de caracter individual. (Os governantes não o fazem porque limitam o seu exercício ao poder e o cuido do poder só se torna visivelmente eficiente em termos do imediato e por isso se adapta às necessidades primárias da população, menosprezando os factores mais abrangentes fomentadores de comunidade). Neste caso um tratamento eventualmente desigual, não seria discriminatório dado beneficiar o todo e especialmente quem participe nessa missão comum. O que dificulta a questão é o facto de se viver numa sociedade mais feita de amontoados inconscientes no que toca à individualidade e à comunidade e, como tal actuar de maneira disfuncional ao não reconhecer as relações e condicionamentos intrínsecos comuns à definição de indivíduo e de comunidade (afirma-se a polaridade quando a vida acontece entre os polos!).

No 53º Conselho de Direitos Humanos da ONU o lobby pró-LGBT quer a aplicação de padrões LGBT em contextos religiosos, o que legitimaria uma ingerência directa dos governos em questões de liberdade religiosa. O Estado não pode ser transformado em ministério da verdade e como pessoa jurídica deve ser isento relativamente a visões conservadoras ou progressistas. A tentativa de condicionar comunidades religiosas ao seguimento dos direitos LGBT é redutora porque aposta numa sociedade (pessoas separadas umas das outras) legalista de caracter meramente funcional estéril sem comunidades de vida (pessoas conectadas) com crenças religiosas e culturais, expressões ou estilos de vida natural vivida. Neste aspecto há ainda que ter em conta a diferença essencial que há entre sociedade e comunidade. Uma sociedade (organização legal) só garantirá sobrevivência se aceitar a tendência natural humana de aspirar à liberdade (individualidade) e se organizar em comunidades livres (semelhante tendência observa-se também na natureza a nível da diferença de tipos e de biótopos).

Daí a tarefa não fácil da aceitação e respeito de direitos individuais e por outro lado proteger os direitos de comunidades laicas e religiosas de modo a poderem afirmar as suas posições e convicções num enquadramento comunitário.

O direito legítimo e necessário de cada indivíduo se organizar em grupos ou comunidades implica uma tensão entre o princípio da individualidade e o princípio do grupo ou comunidade. Assim torna-se difícil encontrar um equilíbrio entre a política de inclusão e o direito de se organizar em grupo ou comunidades. O respeito à diversidade não pode passar por cima da identidade de diferentes grupos e menos ainda em termos de maiorias (há casos de necessidade de se favorecerem minorias). A diversidade só é valor na medida em que faz parte de um todo. Se se argumenta com o direito à igualdade tem que se ter em conta também o direito à não discriminação de grupos ou instituições com convicções próprias. Características como raça, etnia, género, religião, orientação sexual exigem diálogo compreensão e a tolerância entre elas, mas embora constituam riquezas permanecerá sempre um certo dualismo entre indivíduo e instituição. A própria definição (individualização) identidade pessoal e identidade institucional podem impossibilitar o indivíduo a ter acesso aos mesmos direitos e oportunidades.

Daí a política de inclusão ter um caracter mais preventivo de proteção do indivíduo e de proteção das instituições ou grupos sem confundir os pés com as mãos. Difícil é a tarefa da defesa do direito de expressão individual que, por vezes por razões de interesses pessoais ou grupais agride ou ataca outros grupos como se encontrassem em campos de batalha. Dado o indivíduo e a sociedade se encontrarem em constante processo dinâmico isso pressupõe um contínuo aferimento na coexistência pacífica de indivíduo e comunidade para o bem-estar de todos. A diversidade individual e grupal está em função da pessoa numa relação de complementaridade devido à interdependência natural: bem-estar individual e coletivo pressupõem compreensão e tolerância recíprocas. O facto de se querer dar universalidade aos valores, isso não deve passar por cima da realidade. O problema será conseguir encontrar nas circunstâncias que envolvem uma realidade a justeza do trato.  A política europeia de proteção de minorias preocupa-se com a inclusão devido à vulnerabilidade, mas não se justifica por si, porque inclusão implica para as partes a perca de algo, doutro modo a parte inclusa pode favorecer a explosão do corpo. Uma inclusão total pressupõe dar e receber e abertura das partes de modo a reconhecerem limites e obrigações. A política de inclusão europeia, no que respeita à religião muçulmana é ingénua e, a longo prazo, prejudicial para as partes, dado o islão ser uma política de poder sob a forma de religião e aqui mais que a inclusão de indivíduos se trata da inclusão de uma sociedade que se afirma como paralela. Incontestável é o direito de cada muçulmano ser respeitado também na sua crença).

Por sua vez, uma sociedade de crença no progresso como algo evidente em que se pretende fazer do contexto o factor determinante da doutrina/realidade revela-se contra a inclusão de visões ou crenças tradicionais ao querer impor a crença contemporânea cega estabelecendo o preconceito de avaliação de uma crença sobre a outra. Em nome do mero contexto cai-se num relativismo absoluto legitimador do que será só relativo, mas que não permite um escrutínio crítico e fundamentado em evidências. A política de inclusão na sociedade peca pelo facto de assumir uma atitude combativa já de si testemunho de anti inclusão quando uma verdadeira dinâmica da inclusão na sociedade envolveria uma reflexão sobre limites e obrigações (esta reflexão seria urgente nas duas partes).

Pretender criar uma sociedade inclusiva e justa pressupõe uma atividade inclusiva nos dois sentidos:  no sentido do indivíduo e no sentido da comunidade como elementos de um todo.  A política de inclusão não será séria se não respeitar o contencioso entre grupo e indivíduo e entre os diferentes grupos e assim poder melhor organizar as relações entre o direito de se organizar em grupo ou comunidade com convicções grupais próprias e o direito à convicção individual de maneira transversal a todos os grupos. A diversidade das pessoas e a diversidade das comunidades são patentes, mas a diversidade em si não pode negar o direito de uma nem da outra.

No cristianismo há a postura institucional em questão de doutrina e por outro lado é reconhecido o direito do crente a seguir a sua opinião sem necessidade de renegar a sua fé (aceitação da tensão entre crença e fé), dado os valores principais serem o respeito pela vida e o respeito pela dignidade humana de cada pessoa. (Existem pessoas LGBT+ que conciliam sua orientação sexual ou identidade de gênero com sua fé cristã). É tarefa difícil manter-seo convívio pacífico  entre ideologia de Estados, religiões, grupos e indivíduos. Daí ser contraproducente grupos LGBT e grupos religiosos quererem ter o direito de afirmarem os valores que defendem como atitude exclusiva: uma coisa é a confissão (vivência própria) e outra a afirmação.

Nesta lógica teríamos instituições contra instituições, grupos contra grupos e indivíduos contra instituições por não verem a sua crença ou o espírito do tempo afirmado por todo o indivíduo ou instituição. A diversidade pretendida pressupõe a diversidade de posições institucionais e individuais. Indivíduo e grupo/instituição encontram-se em processo contínuo; o facto de hoje acontecer tudo em grande velocidade complica mais o assunto porque há o perigo de se perder no accionismo imediato o que um pouco de reflexão resolveria. O desafio é permanente, mas não podemos fixar-nos só nele.

No cristianismo enfatiza-se o ministério de Jesus Cristo que prestou atenção especial aos marginalizados da sociedade e encorajou as pessoas a se amarem incondicionalmente (a mensagem cristã de amor, compaixão, tolerância e justiça implementa o respeito e a aceitação incondicional de todas as pessoas); aqui trata-se de uma atitude e não de uma ideologia.

O facto de haver pessoas cristãs que rejeitam as identidades transgénero é um direito de opinião como tantos outros e não justifica o fomento do preconceito contra pessoas conservadoras.

O facto de uma pessoa ou grupo afirmar as entidades transgénicas não implica que o que as rejeita e vice-versa   tenham de ser considerados à margem da lei. Os dois podem apesar de isso reconhecer a dignidade humana devida a cada pessoa.  A quem é justificado para afirmar uma convicção própria negar a outra e vice-versa? Muitas discussões desenvolvidas pretendem mais direcionar a sociedade do que aperfeiçoá-la.

A tarefa humana de manter a humanidade em paz é prioritária e nesse sentido devem colaborar todas as instituições e mundivisões. Os direitos individuais humanos não legitimam, porém que uma cultura suborne a outra através de uma política ou mundivisão que identifica o direito individual com o direito da comunidade (caso do islão).  Esta tática política embrulhada de religião, defende a própria comunidade, mas cria, com o passar de algumas gerações, problemas em culturas mais abertas (caso que deu origem ao Kosovo)!

Nas sociedades abertas ninguém deve sofrer penalidades ou restrições por defender os seus pontos de vista, crenças ou opiniões, mas também a defesa desses direitos não podem ser motivo para interferir noutras sociedades; tal argumento não legitima a defesa do ocidente no Afeganistão, Ucrânia, África, etc. (método usado hoje por grandes potências.  

Também colocar o direito de minorias em termos de igualdade das maiorias ignora o processo interino de lutas entre grupos e cria situações caricatas e atitudes hipócritas quando razões meramente económicas desvalorizam em seu serviço as razões culturais em jogo; isso leva à confusão e ao autoengano! Quando a atmosfera é guerreira não há deuses que defendam a paz! Também a ideia globalista em voga não se revela como séria quando o activismo geral em jogo se dá sobretudo na e contra a cultura ocidental. Incontestável deveria permanecer de maneira transversal a todas as culturas a preservação dos direitos humanos de cada indivíduo. Quanto à regulação dos grupos entre eles deveria haver o princípio do reconhecimento recíproco

O direito à dignidade humana é o fundamento de todos os direitos, que segundo a interpretação cristã assentam na filiação divina do humano. Porém, a dinâmica interpessoal não pode ser cem por cento aplicada na relação entre grupos.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

MORREU O MAGO DA LINGUAGEM MARTIN WALSER

Martin Walser não andou comigo na doutrina nem foi comigo à comunhão, mas, quando leio obras dele, sempre me impressiona pela riqueza da sua linguagem e pelo facto de não se alinhar no oportuno pensar politicamente correcto e de ser uma personalidade rara numa sociedade demasiadamente igual a si mesma!

Estudou literatura e filosofia e em acto não conforme com os EUA nem com a opinião generalizada (mainstream) tomou partido contra a Guerra do Vietnam (sendo por isso apelidado de “comunista”);  também ergueu bem cedo a voz contra a divisão da Alemanha (o que lhe valeu o atributo de “nacionalista” a nível do pensar politicamente correcto); fez também campanha por Willy Brandt na sua candidatura para chanceler e manifestou-se contra a entrega de armas pesadas à Ucrânia.

Manteve a sua personalidade por vezes polémica ou polemizada como foi o caso da crítica aos Media que todos os dias lematizavam o Holocausto: “Nenhuma pessoa séria nega Auschwitz; ninguém que ainda esteja são trai o horror de Auschwitz; mas quando esse passado me é mostrado todos os dias nos Media… Auschwitz não serve para se tornar uma ameaça rotineira, um meio de intimidação que pode ser usado a qualquer momento, ou um porrete moral”. Walter abordou este assunto no romance “Morte de um Crítico”.

Foi crítico de uma cena cultural muitas vezes desonesta, mas a sua grandeza é demonstrada nos lugares altos da literatura e não nos lugares baixos da política. Dele satisfaz-me a frase: „Escreve-se para tornar a vida suportável”! E o escrever é “uma declaração de amor à vida”. Importante é atuar-se a partir de um lugar seguro.

Com 96 anos morreu (28. 07.2023) uma importante estrela da geração alemã pós-guerra. Desde 1955 publicou cerca de 70 contos e romances. Com seus livros e ensaios, Walser abriu os olhos de muita gente. Ergueu a sua voz contra condições sociais criadas que impedem o desenvolvimento humano e o arruína. Os seus heróis e anti-heróis refletem as lutas competitivas da vida cotidiana.

Como poeta, sensibilizou-me ficando na memória a sua frase: „Sou as cinzas de uma glória que nunca existiu”.

Para ele “a mais clara superação da morte e do morrer é a escrita “! “A morte não existe para nós. O que nos espera é o morrer”. O último livro que escreveu foi “Trovador” em 2023.

Para terminar cito uma frase de ouro do mágico da linguagem no livro “O que falta quando falta Deus” da Editora Herder: “Ocorre-me o que me falta: essa é a base da escrita. Essa é também a base da religião, essa é a base da nossa língua: porque não temos algo, temos a linguagem. Se tivéssemos Deus, não teríamos uma palavra para ele. É apenas por falta que precisamos das palavras”(1).

António CD Justo

Pegadas do Tempo

(1) Martin Walser  in https://download.e-bookshelf.de/download/0007/8185/06/L-G-0007818506-0041009913.pdf

UMA FOTO QUE DIZ TUDO!

Num momento da história em que deveríamos andar todos de olhos bem abertos porque o mundo que preparamos é de grandes exigências, tapamos os olhos para não nos tornamos conscientes das catástrofes que estamos a preparar. Encontrámo-nos numa fase difícil e por isso precisamos de uma esperança individual inabalável, já que, a sociedade que nos tenta dirigir não busca a paz e baseia o seu progresso em processos injustos.

António Justo

Pode ser uma imagem de 2 pessoas e texto que diz "Le photographe qui a réalisé ce montage devrait recevoir l'Oscar de la lucidité et de la synthèse, le prix Nobel de la vérité TOUT est dit, dans cette photographie! Un type de civilisation avance à visage masqué... Et l'autre, les yeux cachés, ne voit rien venir. OCCIDENT ORIENT"

IGREJA EM DERROCADA NA ALEMANHA

A politização do Discurso religioso falsifica os seus Conteúdos e viola a Fé

Na Alemanha, 522.821 fiéis abandonaram a Igreja Católica, em 2022, conforme relatado da Conferência Episcopal Alemã (DBK) e no mesmo ano abandonaram a Igreja Evangélica 380.000 protestantes. De notar que em 1979 49% dos alemães eram evangélicos, hoje são 21%. A declaração de abandono da igreja não ocorre na própria igreja; é declarada à cidade ou município de residência (por causa do imposto) sem precisar de fundamentação.

Actualmente a Igreja Católica conta com 21,6 milhões de membros registados e a Evangélica com 19,73 milhões, numa população alemã de 83,1 milhões em 2022. Do total de 83,1 milhões, 59,278 milhões são sem histórico migratório (1) e 23,825 milhões com histórico de migração (2), o que corresponde a uma parcela de 28,7% da população total.

A Igreja Católica e a Igreja Protestante empregam cerca de 1,8 milhão de pessoas e cerca de 1,3 milhão delas trabalham nas duas instituições de caridade: Diaconia e Caritas!

Entre os factores que contribuem para a diminuição dos cristãos na Alemanha contam-se: a obrigação dos membros da igreja pagarem imposto (entre 8 e 9%) para a igreja (3) , a politização do discurso religioso, o escândalo dado por padres pedófilos; a secularização, o individualismo e a luta cultural contra o cristianismo propagada por ideologias,  agendas, ONGs e por forças globalistas interessadas em criar uma nova ordem mundial que vê no cultivo do humanismo e dos biótopos culturais um obstáculo à centralização do poder que aspira à criação de um humano de caracter meramente funcional para poder ser mais facilmente governável e entretido por valores em torno da subsistência no dia-a-dia.

Segundo a Igreja Católica em Fulda as razões da desvinculação devem-se sobretudo ao ” fenómeno social geral que está diminuindo as forças vinculantes de grupos, forças e iniciativas relevantes”, isso afeta tanto as igrejas, como partidos e associações. “Além disso, há uma crescente secularização da sociedade, bem como conflitos internos da igreja e uma contínua perda de confiança em conexão com o processamento de abuso de poder e violência sexualizada”. Depois de uma propagação anti cultura e anti instituições precisamos de “uma nova cultura de união… rumo a uma igreja inclusiva em diálogo com a diversidade de seus membros e da sociedade secular”. Como consequência concomitante, também é preciso adaptar as estruturas da igreja nacional ao menor número de membros e dinheiros.

A diminuição dos membros das confissões católica e protestante e correspondente diminuição das receitas dos impostos implica consequências muito graves para a sociedade alemã. A rede especial de pontos de contacto e de serviço das igrejas, desde o trabalho comunitário com todas as gerações até ofertas de trabalho social diaconal e hospitais, escolas, ajuda a refugiados e creches, é insubstituível. Com a perda das igrejas, perde-se um importante pilar humano da nossa sociedade. A jornalista Katja Rudolph adverte que a “nossa sociedade continuará a precisar de uma posição ética equilibrada em muitos debates no futuro. Apenas uma igreja que tenha uma base significativa ainda será ouvida aqui”. Merece nota de registo constatar-se que mesmo aqueles que não estão ligados a igrejas frequentemente manifestam grandes exigências com respeito a eles. Segundo os resultados do inquérito da NDR sobre os motivos de saída, cerca de 62% dos entrevistados disseram ter diferenças ideias dos da igreja e 51% referiram os casos de abuso na igreja como razão para deixar a igreja.

Especialmente na Alemanha observa-se uma luta na Igreja Católica entre bispos conservadores e bispos progressistas na discussão sobre a renovação da Igreja e também entre leigos e bispos no Caminho Sinodal, onde a discussão é muito cerebral e política. O fator demográfico também desempenha um papel relevante e o espírito alemão mais inclinado para as teorias cerebrais (crenças) do que para as questões do coração (fé) sente-se estimulado mais a dividir que a unir! Assim uma sociedade totalmente dominada pelo discurso político-secular faz com que as igrejas percam sua importância. Por isso os esforços de reforma pouco ajudarão. Não são apenas as demissões ativas que desempenham um papel, mas também os casos de eutanásia. Por outro lado, há batismos e reentradas pelo lado positivo.

Andamos todos comprometidos na procura das melhores e mais acertadas ideias para resolver os grandes desafios sociopolíticos. Isto pressupõe maior abertura a pluralismo de ideias e métodos e a prontidão para uma atitude de inclusão e abertura à interdisciplinaridade e ter a coragem de dizer não à unilateralidade de equacionar a sociedade só em termos políticos e de sistemas lógicos, mas unilaterais.

Apesar de tudo não há razões para desesperar! A razão acompanha as pessoas de fé. A nossa cultura que agora se encontra em perigo devido às ideologias e guerras dos dois últimos séculos reconhecerá um dia que para subsistir terá que redescobrir o seu tecto metafísico judaico cristão e os seus alicerces greco-romanos da filosofa do direito e da administração sempre numa atitude de sociedade peregrina, tal como a Igreja. Só a virtude envolve o agir integral da pessoa humana; o resto são ideologias acompanhantes ao serviço do tempo e dos que se aproveitam dele.

 

António CD Justo

Pegadas do Tempo

(1) Em 20 de abril de 2023:  https://www.destatis.de/DE/Themen/Gesellschaft-Umwelt/Bevoelkerung/Migration-Integration/Tabellen/migrationshintergrund-geschlecht-insgesamt.html

Com fundo migratório em 2005 eram 14,421 milhões e 23,825 milhões em 2022. A população estrangeira na Alemanha de 2015 a 2022 foi de 13,4 milhões. O número de “estrangeiros” – ou seja, residentes sem cidadania alemã em 2021 situava-se entre 10,6 e 11,8 milhões.

(2) https://www.destatis.de/DE/Themen/Gesellschaft-Umwelt/Bevoelkerung/Migration-Integration/Tabellen/auslaendische-bevoelkerung-staatsangehoerigkeit-jahre.html

(3) Muitos imigrantes não acham muito católico terem de pagar imposto para a Igreja: https://antonio-justo.eu/?p=3105

O PROBLEMA DO ABORTO COMO FENÓMENO DE MASSAS

Quero aqui referir-me ao aborto como fenómeno de massas fomentado pelo Estado e não como caso individual voluntário. A nível individual, apesar de tudo, temos a instância da própria consciência. Este assunto, para mais numa sociedade com tantos métodos anticonceptivos, não deveria ser tratado de ânimo leve até pelas consequências psicológicas que muitas vezes acarreta só a mulher que aborta. Por outro lado, o respeito pela dignidade humana não dá o direito a ninguém de desacreditar quem praticou o aborto. Doutro modo não se discute nem elucida a questão por medo de ferir ou ser ferido.

De acordo com o Departamento Federal de Estatística, foram realizados 27.600 abortos na Alemanha no primeiro trimestre de 2023.

Segundo a PORDATA , em 2021 houve 12.159 abortos efectuados em hospitais portugueses.

Nas últimas décadas na Alemanha foram mortas por aborto 8 milhões. Isso excede o número atual de habitantes das megacidades Berlim, Hamburgo, Munique e Colónia juntas.

A partir das revoltas estudantis de 1968 e com o movimento 68 foi erguida a voz contra a moral sexual cristã e a luta contra a família e contra a sociedade burguesa em nome da “libertação” do indivíduo e sua autorrealização sob o manto político do “progresso social”.  A “modernidade” reivindicava o progresso como moralidade superior. Isto é, porém, um engano porque não há progresso ético-moral; o que há é progresso tecnológico. A moral diferencia entre bem e mal, certo e errado e apela à responsabilidade. Como é que nós, a quem foi permitido viver nos permitamos o direito de negar aos outros o mesmo direito?

A morte parece cada vez ter mais adeptos através do aborto em massa e da eutanásia. O zeitgeist de do movimento 1968 criou um direito que considera superior, o direito da “sexualidade liberta” à custa do direito à vida e da dignidade humana inviolável. O nosso direito comporta-se de maneira contraditória ao proibir oficialmente a pena de morte e por outro lado os governos promovem o morticínio. O tabu cristão de matar foi eliminado e deste modo uma injustiça afirmada. Em nome da liberdade, do progresso e da autodeterminação legalizou-se o mal no meio da sociedade. O deputado e jurista alemão Martin Hohmann adverte para a possibilidade de os parlamentos poderem deliberar arbitrariamente sobre qualquer valor da área da vida humana já que o maior valor que é a vida foi tornado secundário: “De que é que os governos e legisladores devem ter medo de fazer agora? Não há mais limites para a mania da viabilidade: vimos, por exemplo, com as restrições da Corona. O facto de novos tabus, tabus substitutos, por assim dizer, terem sido estabelecidos sob as palavras-chave politicamente correto, generismo e wokismo serve para distrair e encobrir a quebra central do tabu”. Uma vez quebrado o tabu da morte outros tabus mais pequenos deixam de ter relevância e a política pode assim actuar de livre vontade sem qualquer problema moral em outras áreas.  As dívidas do Estado aumentam em medida catastrófica. O egoísmo da geração actual mostra-se fragrantemente no endividamento das próximas gerações para satisfazer o egoísmo da geração actual. Os políticos de hoje empregam o dinheiro de amanhã, o dinheiro dos nossos filhos e netos para hoje melhorarem as chances de serem eleitos. “Alguns são mortos, os outros – apenas – roubados por obtenção de crédito”. O exemplo do aborto favorece uma solução condenável: se algo atrapalhar, há que livrar-se disso, há que eliminar radicalmente os obstáculos em vez de se aguentar um momento para ponderar. Por um lado, afirma-se a violência do aborto e por outro lado exige-se não violência no trato com as pessoas e com o ambiente! Isso é pura hipocrisia e duplo padrão. Cito o que o deputado afirma: “O aborto produziu uma brutalidade institucionalizada e patrocinada pelo Estado”, o Papa João Paulo II chamou isso de “cultura da morte”.  A relevância do que está em jogo com o direito a matar tem a ver com o seu significado civilizacional e que se resume na ruptura da cultura ocidental e seus valores.

A decadência moral com tantos milhões de abortos na europa produz a falta de profissionais e o declínio da economia. O respeito pela vida seria o caminho da razão. A fé vivida é, em última análise, a razão aplicada. A geração 68 que tanto barulho fez e tantos estragos morais causou para a sociedade irá certamente desaparecer da cena tal como o marxismo que implodiu depois do exercício do seu poder e a morte de tantos milhões. A vontade de autoafirmação chegará à conclusão: “Ou abolimos o aborto, ou ele nos abole a nós”. Já vemos a dica nos problemas que a comunidade de migração islâmica na Europa. O caminho será o da inversão e então as sendas do Senhor conduzirão a bom fim. A vida humana é sagrada.

A força do mainstream, o medo do futuro, inseguranças e múltiplas causas diminuem a vontade de ter filhos.

A família faz parte do inventário cristão e os filhos são a expressão externa da participação na obra da criação.

António CD Justo

Pegadas do Tempo