OS NAUFRAGADOS DA FESTA

Houve festa de cravo e madrugada,
estandartes rasgando o azul da idade,
disseram que o vento novo era a liberdade
e a história, enfim, estava inaugurada.

Mas em docas cegas, longe da alvorada,
outro barco dobrava a enseada torta,
não trazia ouro, trazia uma porta
fechada sobre o sol, e uma despedida.

Na memória, não vinham mapas, só a ferida:
fotografias a apodrecer no sal de outros céus,
o sotaque de Luanda enterrado entre os dentes e os adeuses
como moeda posta sob a língua dos que partem para não voltar.

A pátria não é terra, é cicatriz mal fechada,
nó de carne e silêncio que a chuva de Lisboa reabre,
cosidos às pressas por mãos que não sabiam
que estavam a coser um sujeito ao vazio.

E o exílio, ninguém o disse pelo nome.
Retornados trouxemos as mãos e deixámos a sombra.
E foi a sombra que ficou do outro lado do mar
a fazer os gestos que já não sabemos fazer.

Os da festa apontavam estrelas com dedos de ideologia,
cantavam: o futuro é um clarão sem sombra!
Enquanto Moscovo e Washington, na sua liturgia,
traçavam continentes a giz sobre a mesa fria,
traçavam continentes a giz sobre a mesa fria,

Os da festa apontavam estrelas com dedos de ideologia,
cantavam: o futuro é um clarão sem sombra!
Enquanto Moscovo e Washington, na sua liturgia,
traçavam continentes a giz sobre a mesa fria,
traçavam continentes a giz sobre a mesa fria,
como pão e distribuem guerra e fome.

Nós éramos o estilhaço que sobrou do banquete,
o espelho devolvido à sala depois da festa:
nele, a face que não querem ver,
a descolonização a sangrar no reverso da conquista,
o império dissolvido como sal na maré,
a madrugada devorando o que restava de nós.

Chamaram-nos sombras,
o estorvo na paisagem que queriam limpa,
a testemunha incómoda da pressa com que se apagou
tudo o que havia, mal ou bem plantado,
nas mãos de outros, noutra margem,
noutra imagem turva ou límpida, mas alheia.

Éramos Ícaro depois da queda,
nem o sol nos pertencia, nem o mar nos queria.
Retornados, palavra de gelo na boca quente de Abril.

E o Fado, esse não fez a revolução.
Apenas sangrou na guitarra como velho profeta,
não é revolta, é mágoa que atravessa o segredo,
rio subterrâneo que nunca seca, nunca grita,
apenas corre fundo, fundo, até ao mar.

Portugal por que lhes cortas o coração?

Pergunta sem resposta, pedra atirada ao poço,
voz que o eco devolve mais funda e mais sozinha.

Somos os náufragos da festa que não nos convidou,
filhos do império que o império renegou,
e carregamos, como Sísifo carrega a pedra,
a memória de uma terra que o mar não apagou.

António da Cunha Duarte Justo

© Pegadas do Tempo

Nota:

As ideias que fluem nesta poesia vivi-as também na altura do PREC  ao observar  que começavam a chegar os “Retornados” a Portugal cerca de 500 a 700 mil cidadãos portugueses vindos das ex-colónias africanas 1974 e 1976, no período do PREC, em consequência de uma descolonização atabalhoada porque marcada pela ideologia. O fim do império em 1975 provoca dores de identidade nos que estão e nos que chegam (de Angola, Moçambique e Guiné).

Os retornados foram a memória que o regime queria esquecer; eram o rosto incómodo de um império que a ideologia apressada dissolveu sem olhar a quem ficava pelo caminho. Assim tanto os retornados tal como os cidadãos residentes sofreram um embate de diferentes mentalidades e ideários, o que deixava questões importantes à identidade e à memória coletiva nacionais.

As narrativas sobre o colonialismo português diferirão segundo a perspetiva de uma esquerda leviana e apressada e a perspetiva conservadora lenta. A verdadeira visão certamente se terá de colocar criticamente entre as duas tentativas de narrativa.

De notar, apesar de tudo o mérito e o esforço de um país pequeno com 10 milhos de habitantes para receber tanto retornado. A amargura para muito português era a de verificar que os Africanos deixavam de sofrer sob o colonialismo português para passarem a sofrer sob o colonialismo soviético e estadunidense. Uma ideologia que dividia o país no sentido da geopolítica servia as grandes potências contra os interesses das pequenas nações…

©  António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A Necessária Transição da Matriz Social Masculina para uma Matriz Masculino-Feminina

Para Além da Flor de Jardim e do Punho agressivo

Uma reflexão analítica sobre o Dia Internacional da Mulher e o paradoxo da luta feminina num mundo estruturalmente masculino

O Colonialismo Mental da Matriz Masculina

Entre a flor simbólica oferecida à mulher e o punho cerrado que expressa a lógica da força, desenha-se uma das contradições mais profundas da sociedade contemporânea. Apesar das conquistas alcançadas na igualdade de direitos, continuamos a viver dentro de uma estrutura social marcada por uma matriz predominantemente masculina. A verdadeira emancipação feminina não poderá limitar-se à integração das mulheres nesse sistema.  Uma verdadeira evolução social exige uma transformação mais profunda que significaria a passagem para uma matriz social capaz de integrar, em equilíbrio, as qualidades do feminino e do masculino. Neste sentido urge uma reflexão crítica sobre o “colonialismo mental” da matriz masculina e a pergunta se estaremos verdadeiramente a honrar o que a mulher é e representa, ou limitamo-nos a prestar vassalagem a uma data que a própria estrutura social dominante transformou em formalismo inocente?

A questão que proponho é mais profunda e, para muitos, desconfortável: a sociedade contemporânea encontra-se enredada num paradoxo fundamental. Enquanto se proclama a igualdade de género e se celebram conquistas no campo dos direitos das mulheres, a estrutura profunda que organiza o pensamento, o poder e a economia permanece fundamentalmente masculina na sua essência. Este “colonialismo mental”, como o designei em reflexões anteriores publicadas em jornais e no blog “Pegadas do Tempo”, não poupa homens nem mulheres, condicionando o desenvolvimento humano e social a padrões determinados por uma lógica de afirmação, competição e domínio.

O presente artigo propõe-se analisar criticamente esta matriz antropológica e sociopolítica, argumentando que a verdadeira emancipação feminina e, por extensão, a verdadeira evolução humana, não passará pela integração das mulheres nas estruturas existentes nos termos masculinos, mas sim pela transformação radical dessas mesmas estruturas rumo a um equilíbrio dinâmico entre os princípios da feminilidade e da masculinidade.

1. A Matriz Masculina é uma Arquitetura Invisível da Desigualdade

1.1. As Raízes Evolutivas e Históricas

Quando analisamos a organização social contemporânea, dificilmente escapamos à constatação de que ela assenta sobre aquilo a que podemos chamar uma “matriz masculina”. Esta matriz não é um complô ou uma conspiração deliberada de homens contra mulheres, mas antes o produto de uma longa evolução histórica que remonta aos primórdios da humanidade.

Nos primórdios, a divisão de tarefas entre caça e recolha estabeleceu padrões de especialização cognitiva e social. O homem caçador desenvolveu capacidades de visão estratégica, pensamento abstrato, capacidade de risco calculado e ação decisiva, características que associamos ao princípio masculino. A mulher recolectora especializou-se na atenção ao próximo e ao concreto, na gestão do espaço doméstico, na nutrição e no cuidado, características do princípio feminino.

Esta diferenciação inicial, produto de necessidades adaptativas, não era hierárquica, mas complementar. Duas leis evolutivas operavam em equilíbrio: a lei da afirmação seletiva (competição, domínio) e a lei da colaboração (cooperação, inclusão, interdependência). Ambas eram necessárias à sobrevivência do grupo.

O período neolítico, com o culto da deusa-mãe, testemunhou talvez o último momento histórico de equilíbrio real entre os princípios feminino e masculino nas estruturas simbólicas e de poder. Foi com o desenvolvimento da metalurgia, da guerra organizada e das primeiras estruturas estatais complexas que se iniciou a progressiva masculinização das estruturas de poder.

1.2. A Economia como Motor da Masculinização Social

A Revolução Industrial marcou um ponto de viragem crucial. A transição dos modelos agrícola e artesanal para a produção industrial em larga escala exigia mão-de-obra, e as mulheres constituíam uma reserva estratégica. Contudo, para serem integradas no mundo industrial, tiveram de se adaptar à lógica masculina da produção que se resumem em  competição, eficiência, hierarquia rígida, separação entre trabalho e vida.

A pílula anticoncepcional, significativamente criada para as mulheres, não para os homens, simboliza esta instrumentalização: permitia às mulheres entrarem no mercado de trabalho nos termos masculinos, controlando a reprodução para não interromper a produção. A maternidade, princípio feminino por excelência, tornava-se um “problema” a gerir sob o signo da masculinidade.

Paradoxalmente, enquanto as estruturas se masculinizavam, o marketing descobria na sensibilidade feminina um filão a explorar. As mulheres, mais orientadas para a dimensão relacional e para o consumo, tornaram-se alvos privilegiados da indústria. Mas esta “valorização” da feminilidade era, na verdade, mais uma forma da sua instrumentalização ao serviço do princípio masculino: o lucro, a expansão, o crescimento pelo crescimento.

2. O Paradoxo da Luta feminina é combater o Masculino com Armas masculinas

2.1. A Falsa Dialética da Luta de Géneros

Eis o cerne da questão que tenho vindo a desenvolver nos meus artigos para o BOM DIA Luxemburgo, ContraCultura, na Revista Triplov e em muitos outros media: a própria luta feminina pelo equilíbrio entre feminilidade e masculinidade é, contraditoriamente, conduzida geralmente por princípios masculinos, sem que a ordem social seja transformada e a feminilidade seja tratada com equidade.

O antigo princípio político e militar “divide para reinar” (divide et impera) encontra na questão do género uma aplicação particularmente insidiosa. Tal como na luta entre ricos e pobres, a dialética entre homens e mulheres é frequentemente enquadrada em termos de conflito, competição e conquista de poder, numa palavra, em termos masculinos de carácter meramente sociológico .

Grande parte do ativismo feminista contemporâneo, embora animado por legítimas reivindicações de justiça, adota estratégias de luta de carácter extremamente masculino: afirmação agressiva, confrontação, conquista de territórios de poder. Esta contradição performativa de lutar pela valorização da feminilidade com armas masculinas, revela até que ponto a matriz masculina colonizou até os movimentos que pretensamente a contestam. (Talvez aqui se trate também de contrariar a ideia de que contra a força não há resistência com energias da própria força).

2.2. A Naturalização do Paradigma Militar

A naturalidade com que se discute hoje a introdução do serviço militar obrigatório também para mulheres constitui um sintoma revelador. O modelo militar, hierarquia rígida, obediência, violência organizada, sacrifício individual ao coletivo abstrato, representa a quintessência do princípio masculino. Que a “igualdade de género” se afirme através da integração das mulheres neste modelo, em vez de questionar o próprio modelo, demonstra o grau de internalização da matriz masculina.

Observamos hoje mulheres em cargos de liderança que tendem frequentemente a ser mais agressivas, mais “masculinas” na sua gestão do que muitos homens. Este fenómeno não é acidental: numa estrutura masculina, as mulheres sentem necessidade de “provar” o seu valor adotando e exacerbando os códigos masculinos. É uma forma de compensação que, tragicamente, perpetua o sistema que as limita.

A verdadeira igualdade não virá de mulheres que se tornam “homens honorários”, mas da transformação das estruturas para que possam acolher genuinamente o princípio feminino.

3. O Machismo Estrutural como Problema Inconsciente e Coletivo

3.1. Para Além da Intenção Individual

Um dos equívocos mais persistentes no debate sobre a igualdade de género é a personalização do problema. Tendemos a identificar o machismo com comportamentos individuais grosseiros, com a figura do “macho” arcaico e ostensivamente discriminador. Esta abordagem, além de redutora, é profundamente enganadora.

Para evitar esta estratégia do machismo sistémico se desculpar no machismo individual o O machismo intrínseco à nossa matriz social deve ser decomposto e encarado como um problema inconsciente e coletivo. Não se trata apenas de más intenções individuais, mas de estruturas de pensamento, sistemas de valor e modelos organizacionais que, independentemente da vontade dos atores, perpetuam a dominância do princípio masculino que impede tanto o desenvolvimento integral do homem como da mulher.

As mulheres que ascendem a posições de poder e adotam comportamentos tipicamente masculinos não o fazem por traição à sua natureza, mas porque o sistema as obriga a isso. Os homens que gostariam de desenvolver a sua dimensão feminina (emocionalidade, cuidado, expressividade) frequentemente veem-se constrangidos por expectativas sociais que os aprisionam. Homens e mulheres são, assim, igualmente vítimas desta matriz que a todos coloniza.

3.2. A Mutilação contemporânea cria Homens efeminados e Mulheres masculinizadas

Observamos hoje homens aparentemente mais “efeminados”, o que é frequentemente interpretado como sinal de feminização da sociedade. Esta leitura é duplamente equivocada. Primeiro, porque confunde efeminação (caricatura da feminilidade) com feminilidade genuína (princípio de integração, cuidado, relação). Segundo, porque estes homens não são agentes de uma mudança estrutural, mas sintomas e vítimas do ‘zeitgeist’, manifestações de uma crise de identidade masculina que não altera a dominância da matriz masculina nas estruturas de poder.

Paralelamente, observamos mulheres que se masculinizam para sobreviver em ambientes profissionais hostis. Este duplo movimento, homens que perdem a sua masculinidade autêntica sem verdadeiramente ganharem feminilidade, mulheres que sacrificam a sua feminilidade sem verdadeiramente ganharem poder é o trágico resultado de uma sociedade que, proclamando a igualdade, aprofunda a confusão identitária e fomenta doenças sociais próprias.

4. A Mulher para Além da Aparência: As Qualidades Femininas como Valor Estruturante

4.1. A Redução Estética da Mulher

Numa altura em que os homens levantam os punhos e mostram os músculos em gestos guerreiros, até a feminilidade tende a ser definida em termos másculos de guerra. A mulher não pode ser encarada apenas como beleza admirável ou como jarro de enfeite ou de mera inspiração, porque as suas qualidades vão muito além da aparência física.

A redução da mulher à sua dimensão estética é uma das formas mais sutis e eficazes de a desqualificar como agente social pleno. Quando a mulher é celebrada apenas pela sua beleza, pelo seu poder de inspirar artistas ou pelo seu papel decorativo, está a ser-lhe negada a participação na construção ativa do mundo.

4.2. A Inteligência Emocional como “Superpoder” Feminino

Estudos contemporâneos confirmam o que a sabedoria ancestral já intuía: o verdadeiro “superpoder” feminino é o coeficiente de inteligência emocional, que tem como pilares a autoconsciência, a autorregulação e a autodireção. Apesar de homens e mulheres terem igualmente potencial emocional, as mulheres demonstram maior empatia quando em posições de gestão e apoiam mais o bem-estar dos colaboradores.

Esta inteligência emocional não é um “defeito” a corrigir para ter sucesso num mundo masculino, mas uma competência superior que o mundo necessita urgentemente. A capacidade de reconhecer, compreender e gerir as próprias emoções e as dos outros, é uma competência estratégica para enfrentar os desafios complexos do nosso tempo.

4.3. Para Além da Funcionalidade

A mulher não é apenas funcionalidade, não é apenas “recursos humanos” ou “capital” a ser otimizado. A visão puramente economicista da participação feminina na sociedade, de quantas mulheres nos conselhos de administração, quantas em cargos de liderança, qual o seu contributo para o PIB, embora importante, segue o risco de reproduzir a lógica masculina da quantificação e da eficiência.

O que está em causa não é apenas a presença física de mulheres em determinados espaços, mas a transformação qualitativa desses espaços pela presença feminina genuína. Não se trata de “gerir melhor” o existente, mas de criar um novo paradigma de gestão, de relação e de organização social.

5. A Necessária Transição para uma Matriz Masculino-Feminina 

5.1. O Reconhecimento da Bivalência de Cada Pessoa

O primeiro passo para  mudança estrutural é reconhecer que cada pessoa, independentemente do sexo biológico, é portadora de características masculinas e femininas. A masculinidade (afirmação, análise, abstração, competição) e a feminilidade (integração, síntese, materialidade, colaboração) não são propriedades exclusivas de homens e mulheres, mas dimensões da psique humana (Animus e Anima) e princípios organizadores da sociedade.

Esta perspetiva, que tenho vindo a desenvolver em diferentes artigos e diversos meios, permite superar a visão essencialista que prende as pessoas a papéis predeterminados e abre caminho para uma compreensão mais rica e complexa da identidade humana.

5.2. A Crise da Visão Masculina do Mundo

O modelo masculino dominante, focado na afirmação imediata e na conquista de objetivos a curto prazo, mostra-se crescentemente inadequado face aos desafios contemporâneos e ao desenvolvimento integral humano. As crises ecológica, climática e de sustentabilidade exigem precisamente as qualidades do princípio feminino: cuidado com o longo prazo, atenção aos efeitos sobre o todo, responsabilidade relacional, prudência e repensar o princípio progressista.

A incapacidade das nossas estruturas políticas e económicas de responderem adequadamente a estes desafios não é acidental, é estrutural e como tal produto da dominância da matriz masculina. A transição para uma matriz masculino-feminina não é, portanto, apenas uma questão de justiça para com as mulheres, mas uma condição de sobrevivência para a humanidade.

5.3. Da Cultura da Guerra à Cultura da Paz

A consequência mais profunda e promissora desta transição seria a substituição de uma cultura da guerra por uma cultura da paz. A matriz masculina, na sua expressão desequilibrada, tende para a resolução de conflitos pela força, para a afirmação pela dominação, para a expansão pela conquista. A matriz feminina, pelo contrário, tende para a negociação, para a inclusão, para a resolução pacífica de tensões, numa lógica de afirmação e adaptacao.

A Europa enfrenta hoje, de novo, o fantasma da guerra. Assistimos a um preocupante rearmamento e a um discurso belicista que se pretende apresentar como “bom senso “. Este regresso a uma cultura de guerra é a expressão máxima do desequilíbrio da matriz masculina. Se as qualidades femininas de negociação, prudência e cuidado tivessem peso equivalente nas decisões geopolíticas, o mundo seria seguramente diferente.

6.Propostas para uma Nova Abordagem

6.1. A Desconstrução da Matriz como Tarefa Coletiva

Se o problema é estrutural e inconsciente, a solução não pode ser apenas individual. A desconstrução do machismo estrutural exige um esforço coletivo de tomada de consciência e de transformação das instituições. Não basta “empoderar” mulheres nos termos existentes; é preciso transformar os termos em que o poder é exercido.

Esta desconstrução passa pela educação, pela socialização das novas gerações, pela revisão dos modelos de liderança, pela reavaliação do que consideramos “sucesso” e “realização”. Passa, sobretudo, por questionar a naturalidade com que aceitamos que o mundo funcione segundo princípios de competição, hierarquia e dominação.

6.2. Valorização do Feminino sem Essencialismos

Importa aqui um cuidado: valorizar o princípio feminino não significa cair em essencialismos que aprisionam as mulheres num destino biológico. O que está em causa não é uma suposta “natureza feminina” imutável, mas um conjunto de qualidades e perspetivas que foram historicamente associadas às mulheres e que o desenvolvimento da civilização relegou para segundo plano.

A inteligência emocional, a capacidade de cuidado, a orientação para a relação e para a comunidade, a visão de longo prazo, a preferência pela negociação sobre o confronto, são qualidades que o mundo necessita, independentemente de quem as exerça. A sua valorização não é uma “concessão” às mulheres, mas uma necessidade civilizacional.

6.3. O Papel dos Homens nesta Transição

A construção de uma matriz masculino-feminina não é tarefa exclusiva das mulheres. Os homens têm um papel crucial a desempenhar, tanto na desconstrução da sua própria socialização masculina como na abertura a dimensões da sua personalidade que a cultura dominante os levou a reprimir.

Homens que choram, que cuidam, que exprimem as suas emoções, que recusam a competição como único modo de relação, que valorizam a qualidade de vida sobre a acumulação de poder,  estes homens não são “efeminados”, são humanos completos a reconquistar a totalidade da sua humanidade.

7. O Verdadeiro Significado do Dia da Mulher

O melhor caminho para celebrar o Dia Internacional da Mulher seria introduzir na matriz masculina que todos seguimos características mais femininas, no intuito de construir uma matriz social equilibrada entre as qualidades em torno dos princípios da feminilidade e da masculinidade. Uma verdadeira abordagem no sentido da mulher implica a necessidade de superar a matriz masculina na sociedade.

Sem combater a matriz masculina que homens e mulheres seguem, o Dia da Mulher torna-se apenas uma formalidade,  um dia de flores e discursos que não altera a estrutura profunda da desigualdade. Apesar de tudo, “vale a pena lutar” por uma sociedade mais justa e inclusiva, mas numa perspetiva e estratégia de carácter feminino, não seguindo a estratégia masculina de confronto e dominação.

A luta pela igualdade requer uma desconstrução do machismo estrutural e a valorização da inteligência emocional feminina. A verdadeira evolução social depende de uma mudança na mentalidade coletiva. Não se trata de “dar lugar às mulheres” num mundo construído por homens, mas de construir, juntos, um mundo novo onde masculino e feminino possam finalmente dançar em equilíbrio.

Talvez então, quando homens e mulheres se libertarem da matriz que a ambos aprisiona, possamos verdadeiramente celebrar não apenas um dia, mas uma nova forma de estar no mundo, isto é,  uma forma onde a paz não seja a exceção, mas a regra; onde a competição não seja o único motor, mas um entre muitos; onde o cuidado não seja desvalorizado, mas reconhecido como a mais alta forma de inteligência.

É essa a reflexão que deixo, não apenas neste Dia da Mulher, mas para todos os dias em que ousarmos imaginar um mundo diferente.

António da Cunha Duarte Justo

© Pegadas do Tempo

Nota: Desenvolvi este artigo a partir de reflexões que expus em múltiplos ensaios e publicações ao longo dos anos, procurando sintetizar e aprofundar uma perspetiva crítica sobre a matriz social dominante e o lugar da mulher na contemporaneidade. A luta da mulher pela sua integração no sistema patriarcal tem tido efeitos a nível meramente funcional, mas uma transformação substancial da matriz masculina terá de partir de outros pressupostos que não seja apenas os da integração, prespectiva esta demasiadamente masculina que nos pauta e a criação de uma matriz masculina-feminina não se pode alcançar apenas a nível de sintomas; trata-se de uma visão integral de homem e mulher e de passar da estratégia da funcionalidade para a relacional.

LOBO ANTUNES MORREU, MAS VIVE NO ESPELHO DO PAÍS QUE DEIXOU

Neste ensaio procuro desenredar o legado de Lobo Antunes à luz da sua psicanálise à alma portuguesa

A Morte de Lobo Antunes e a Sombra no Fado

António Lobo Antunes morreu esta quinta-feira, 5 de março de 2026, aos 83 anos. Mas a frase, assim, despida e objetiva, soa a engano, tal como mentira soa a calmaria depois de uma batalha. De facto, foi-se um homem, um médico, um escritor, mas ficou o vendaval. Ficou a obra, essa “casa dos móveis que estalam à noite”, como ele próprio descreveria a solidão. Dele ficou, sobretudo, o retrato de um país que ele anatomizou como poucos: Portugal, esse paciente eterno deitado no divã da psiquiatria, com as suas memórias mal resolvidas a pulsarem sob a pele do presente.

Nascido em Lisboa em 1942, numa família da burguesia, cedo percebeu que a literatura era uma insónia, a “insónia dos bons livros “. Mas antes das letras, veio a medicina e a guerra. Chamaram-lhe “herdeiro de Faulkner e Céline”, mas a sua verdadeira genealogia literária forjou-se no limbo, no “cu de Judas” onde esteve destacado como médico durante a Guerra Colonial em Angola, entre 1971 e 1973. Foi lá que aprendeu que a morte não tem épica e que a coragem é, muitas vezes, apenas o medo que se verga. Foi em Angola que o jovem psiquiatra começou a acumular o material clínico para a longa análise a que submeteria a nação.

O Cirurgião das Almas e a Ferida da Guerra

Lobo Antunes mais que escrever livros, escrevia autópsias. A sua experiência em Angola não é um tema literário, é o motor de toda a sua inspiração. Em “Os Cus de Judas” (1979), o seu segundo romance, o alferes-médico que regressa a Lisboa não encontra uma pátria acolhedora, mas sim um país de paredes caiadas que finge que a guerra não existiu. O diálogo com a mulher anónima, numa noite de copos, é uma catarse falhada. É o desabafo de quem percebe que “viver é como escrever sem corrigir “e que o que lá está, de dor e de sangue, não pode ser apagado.

Foi essa a grande fratura que Lobo Antunes denunciou: Portugal, após o 25 de Abril, tratou a descolonização como um assunto administrativo, mas nunca como um trauma coletivo (Havia politicamente muito a esconder que impedia ser-se autêntico!). Os soldados voltaram, mas vieram de boca calada. Os retornados chegaram, mas foram recebidos com a vergonha alheia de quem vê um espelho partido e por isso foram tão maltratados. O país preferiu o esquecimento à purificação, e essa memória recalcada, como nos ensina Lobo Antunes, é a matéria de que são feitos os fantasmas.

As Naus e o Regresso dos Mortos como Desconstrução do Mito

Se há livro que funcione como chave para entender esta tese, é “As Naus” (1988). Neste romance desassossegado, Lobo Antunes faz o que melhor sabia na qualidade de psiquiatra: pega nos heróis canonizados de “Os Lusíadas” e devolve-os a um Portugal pós-colonial, pequenino e irrelevante. Vasco da Gama, Camões, os navegadores, regressam a Lisboa como retornados pobres, perdidos, bêbados e deslocados. O passado glorioso desembarca no cais mas já não cabe no novo cenário, empenhado em fabricar novos fantasmas e heróis de craveira histórica, os tais ‘históricos’ do novo regime, que tomem o lugar dos velhos espectros e garantam a continuidade dessa epopeia político-cultural que mantém Portugal em permanente sessão no divã da psicanálise.

O que o escritor fez foi uma cirurgia ao imaginário nacional. Durante séculos, Portugal alimentou-se da nostalgia do império, do mito sebástico do “Encoberto” que um dia há de voltar para nos salvar. Mas Lobo Antunes mostra-nos D. Sebastião não como um salvador, mas como uma figura grotesca, um rei menino perdido num país que já não tem trono nem altar. Aqui Lobo Antunes faz a crítica mais feroz ao Sebastianismo que se resume na esperança irracional de que algo de exterior nos venha resgatar da mediocridade, essa crença de que o passado pode funcionar como salvação para o presente.

Assim, Portugal de Lobo Antunes é um país desorientado. Vive na “sombra da antiga grandeza”, como aponta o seu pensamento, mas sem saber o que fazer dessa sombra. É essa dualidade que nos torna, aos olhos dele, uma nação de melancólicos a viver da consciência da decadência agudizada pela memória do esplendor. O viver nessa melancolia, sombra enraiada já na alma portuguesa, continua a viver no espírito do Encoberto que se encontra agora em Bruxelas.

“Portugal é um país que vive mais do que foi do que do que é”

Esta frase, que lhe é atribuída, condensa toda a sua visão. Para Lobo Antunes, a identidade portuguesa constrói-se sobre um silêncio espesso. É feita de orgulho, pela gesta dos descobrimentos; de culpa, pela violência colonial; de nostalgia, pelo império perdido; e de silêncio, pela incapacidade de discutir abertamente a guerra e a descolonização e também por de forma desalmada, continuar a afirmar-se ou a distrair-se na narrativa do desassossego de esquerda e de direita.

Esse silêncio, contudo, não é um vazio, mas sim uma presença barulhenta, como ele tão magistralmente descreveu ao constatar “Tanto ruído no interior deste silêncio: são as vozes dos outros a falar em mim “. E esses outros são os que ficaram para trás em África, os que regressaram sem chão, os que morreram na guerra, os que viveram a opressão da República e do Estado Novo. O Salazarismo, com a sua cartilha do “Deus, Pátria e Família”, não criou apenas obediência, mas também contenção emocional que perdura. Hoje como ontem, continua-se o hábito do medo de falar, da hipocrisia social, de uma vida interior que se esconde atrás da fachada da ordem.

A ironia e o humor negro surgem, na sua obra, como a única arma possível contra essa tragédia muda. É o riso de quem já viu o pior e sabe que as palavras são frágeis. Quando perguntado sobre o Nobel, a resposta clara como seca foi “Quero que o Nobel se f*da”; esta reação não era apenas desdém; era a defesa da soberania do escritor contra as glorificações oficiais, a recusa em deixar que a literatura fosse engolida pelo mesmo sistema que ele denunciava, tal como o foi Saramago ao ser usado como arma de um polo contra o outro.

O Fantasma do Império e a Decomposição na Europa

Na última fase do seu pensamento, que as suas notas tão bem captam, Lobo Antunes antecipou o debate contemporâneo sobre o pós-colonialismo e a identidade europeia. No meu entender, se o 25 de Abril matou o império, a entrada na União Europeia, nos anos 80, funcionou como uma espécie de segunda morte.

Compensados economicamente pelos fundos comunitários, os portugueses viram-se confrontados com uma nova forma de perda de soberania. Desta vez, não perdíamos colónias; perdíamos a ilusão de sermos o centro do mundo e nação intacta. Passámos a ser a periferia da Europa, um país encostado à boleia de Berlim e Bruxelas. Esta integração, se por um lado trouxe desenvolvimento, por outro aprofundou o sentimento de insignificância e de decomposição cultural que o escritor já diagnosticava.

Deste modo o fantasma do império permanece, já não como projeto político, mas como assombração. Vive na nostalgia cultural, nos manuais escolares, nas comemorações oficiais de dançarinos do poder. Vive também na culpa dos que olham para a história e veem o horror da guerra. Vive, sobretudo, na dificuldade que Portugal tem em se definir a si mesmo fora da matriz imperial e por isso se encosta à nova forma de imperialismo que é o imperialismo mental de Bruxelas.

A Técnica Literária como Espelho da Alma Coletiva

Não se pode falar de Lobo Antunes sem falar do seu estilo. A sua técnica narrativa, essa prosa que parece um rio de vozes, onde passado e presente se misturam, onde várias personagens falam ao mesmo tempo sem aviso prévio, é a expressão formal da sua visão do mundo e em especial de Portugal e da Europa.

Não há enredo linear porque não há identidade linear. Portugal é, para ele, um país de camadas geológicas expressas no substrato romano, na camada medieval, no basalto do império e no cimento bruto da modernidade europeia. Tudo se encontra misturado e fraturado. Os seus romances funcionam como consciências coletivas confusas, assombradas por fantasmas históricos que irrompem no discurso sem serem convidados.

Ao dar voz aos ‘vencidos da vida’, aos retornados do seu livro “O Esplendor de Portugal”, aos soldados de “Os Cus de Judas”, aos loucos e marginais que povoam os seus livros, Lobo Antunes fez uma operação de justiça poética ao dar expressão e corpo àqueles que a história oficial preferiu esquecer.

O Fim de uma Era

Com a morte de António Lobo Antunes, Portugal perde mais do que um escritor. Portugal perde o seu mais arguto intérprete. Num tempo em que a Europa debate o racismo estrutural, a revisão da história e o lugar dos antigos impérios, a sua obra permanece como um aviso: a memória não se apaga e recalcamento não é solução.

Os móveis continuarão a estalar à noite. As vozes continuarão a sussurrar no interior do silêncio. E nós, portugueses, continuaremos confrontados com essa pergunta incómoda que ele deixou a ecoar na consciência: quem somos nós, agora que o império se dissipou e a Europa já não é a miragem que fomos um dia?

Lobo Antunes não nos deu a resposta, mas deixou-nos o espelho. E, como nos seus livros, olhar para ele é sempre um acto de coragem, iminentemente necessário. Fica a obra e com ela a insónia. Fica a certeza de que, como ele dizia, “os maus romances contam histórias; os bons romances mostram-nos a nós mesmos”. Mas o fado, esse canto tão belo e inebriante que tolda a alma lusa, não é senão a carpideira velada de um Portugal que chora e carpe, sem o saber, o desencanto de si próprio e de todos os outros.

Lobo Antunes deixou-nos um “bom romance“, uma grande obra que nos espelha Portugal.

António da Cunha Duarte Justo

©  Pegadas do Tempo

O TEMPO DE DESINTOXICAÇÃO DE CORPO-MENTE E ALMA

A caminho de nós mesmos

Somos feitos da mistura de céu e terra. Caminhamos sobre o solo instável do tempo e do espaço, levando connosco aquilo que fomos e aquilo que ainda não somos, na saudade de algo já experimentado.

Chamamos futuro à direção que nos atrai. Mas o futuro não existe senão como perspetiva. O tempo é um fio invisível que não corre fora da vida. O tempo é uma propriedade do existir, e só se manifesta onde há corpo, relação, presença. O tempo acontece no espaço da experiência.

A Quaresma surge, assim, como um tempo de dádiva. Um tempo oferecido. Um intervalo sagrado no calendário da pressa, não como coisa a gerir, mas como dádiva a habitar.

Vivemos entre o amanhecer e o pôr do sol. Entre o nascer e o declinar da luz. E, ao longo desse ciclo quotidiano, acendemos pequenas claridades no caminho, não para brilhar, mas para ver melhor o caminho. A verdadeira grandeza raramente faz ruído porque é discreta e orienta por dentro.

No entanto, o mundo em que vivemos parece dominado pelo estrondo. Em público, o tom é de combate permanente. As palavras tornaram-se armas, e a autodefesa verbal ocupa o lugar do diálogo. A comunicação social move-se muitas vezes ao ritmo da catástrofe e da indignação, como um coração acelerado que já não sabe repousar; faz lembrar ondas rítmicas que se repetem e nos arrastam..

Certamente por isso será urgente reaprender o silêncio. Talvez seja tempo de um desarmamento verbal consciente a nível individual e público. Doutro modo muitos fecham-se porque por haver coisas que ultrapassam o seu raciocínio e experiência e já terem demasiados quebra-cabeças têm de se fechar para não sofrer, cientes de que o que não se sabe não existe. A abstinência de notícias e de Telejornal durante um certo tempo certamente daria oportunidade a ter sensações salutares.

Durante quarenta dias, poderíamos exercitar um jejum da agressividade, da opinião imediata, da reação instintiva. Um jejum da linguagem inflamada, não como fuga do mundo, mas como resistência à barbárie próxima e distante, na política como nas relações quotidianas.

A necessidade humana de fazer pausa

Há tantos caminhos para a abstinência como são os das pessoas. Desde sempre, as culturas e as religiões inscreveram no calendário pausas obrigatórias. Interrupções no fluxo da vida produtiva (o conhecido sabat). Esses tempos de renúncia não empobrecem, pelo contrário, abrem a mente e ajudam-nos a reaprender o essencial e atingirmos a autoconsciência.

O ser humano precisa de rituais e festas para se aventurar, para sair de si e regressar transformado. Sem esses marcos, a vida torna-se um movimento repetitivo, como alguém que tenta nadar sozinho numa piscina vazia fazendo um esforço sem horizonte. O Carnaval, paradoxalmente, também anuncia isso: depois do excesso, nasce a necessidade de recolhimento.

Os cristãos conhecem quarenta dias de jejum. Os muçulmanos vivem quatro semanas de Ramadão. Outros seguem apenas o ritmo imposto pelo calendário civil e muitos outros criam as suas próprias pausas: jejuns pessoais, silêncios escolhidos, retiradas breves do excesso para auto-desintoxicação .

Para uns, trata-se de bem-estar físico e para outros, do cuidado integral, corpo, mente e alma no seguimento da velha fórmula de Junius Juvenal que no século I d.C.  recomendava “mente sã em corpo são”, um aviso sempre atual, pois não há nada mais importante do que ter uma mente equilibrada e um corpo saudável.

Há quem abdique de álcool ou de café e há quem abdique do ruído, e crie um tempo de silêncio no seu dia.

De facto, a vida não se reduz à sucessão de tendências, estímulos e notícias de última hora. Viver exige prática. Exige também espaço para errar, para experimentar ideias improváveis, para finalmente reconhecermos que ainda temos muito a aprender com a própria vida.

O corpo também precisa de rejeitar

O corpo não está apenas cansado, encontra-se por vezes saturado porque demasiadamente ocupado na digestão do consumo diário.

Saturado de consumo, de estímulos, de digestões contínuas, não só alimentares, mas emocionais e simbólicas. Também o corpo precisa de rejeição, de limpeza, de intervalo.

Jejuar é permitir que algo saia, é criar espaço. Trata-se de uma desintoxicação que não é apenas física, mas existencial. Um gesto de disciplina e autocontrolo que não visa a perfeição, mas o reequilíbrio.

Na tradição cristã, a Quaresma é sobretudo um tempo de autorreflexão. O ritual, quando vivido conscientemente, transforma-se em prática interior. E aquilo que parecia apenas repetição torna-se caminho.

Antes da Páscoa, experimenta-se o quotidiano de outra forma. A atenção torna-se mais fina. O olhar mais sensível. A consciência social mais desperta.

As comunidades religiosas recordam-nos que a rudeza não é inevitável, nem na linguagem, nem na política, nem nas relações humanas.

Quem se atreve a descer ao interior, a mergulhar no seu interior e a confrontar o próprio comportamento, experimenta o Todo, o que chamamos Deus, sentido ou mistério. E dessa experiência nasce algo que se expressa e transmite em abertura, bondade, atenção plena, compaixão.

A mudança deixa então de ser abstrata e entra na vida de forma a sentirmo-nos reaalizados.

Entre o limite e a liberdade

Durante este tempo, vive-se entre a intenção e a abstinência. E é precisamente o limite que torna tudo mais concreto.

Caminhar pelo Jardim do Getsémani é aprender a olhar o fracasso sem desespero e a reconhecer a vulnerabilidade como parte da condição humana, pois também a derrota faz parte da travessia humana. Na realidade há que aceitar que nem toda a fidelidade é triunfante.

Então pode viver-se com mais consciência e aprender-se a lidar melhor consigo próprio e com os outros.

O jejum revela-se, assim, uma prática de responsabilidade por si e pelo mundo. É uma verdadeira pedagogia da liberdade.

O que inspira profundamente no cristianismo é o reconhecimento da soberania do indivíduo, não isolado, mas em tensão criadora com a comunidade. A fé não anula a singularidade; pelo contrário apenas a chama à maturidade.

Jejuar é, por isso, um gesto pessoal e comunitário. Um tempo de reflexão partilhada. Um espaço onde o “eu” e o “tu” não se fecham sobre si mesmos, mas se abrem a uma terceira realidade que se expressa naquilo que liga, cria horizonte e dá sentido à vida em comum.

Um tempo para regressar

A Quaresma, no fundo, não é fuga nem moralismo, mas sim um tempo para regressar a si mesmo, ao todo integral, pois é tempo de regresso ao essencial, ao corpo que sente, à mente que pensa e à alma que escuta.

Durante ela desintoxica-se o corpo, desanuvia-se a mente e purifica-se a alma, para caminhar, mais levemente, na senda de nós mesmos e do nós, possivelmente na sombra de Deus.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

EM CADA ONZE SEGUNDOS HÁ UMA MUTILAÇÃO GENITAL FEMININA

O Martírio silencioso e a Urgência de ver e actuar

Um relógio humano marca, a cada onze segundos, uma mutilação genital feminina no mundo. Este não é um dado estatístico distante mas sim o ritmo de um sofrimento profundo que tece silêncios em pleno século XXI. Quanta mulher destruída e quantos traumas como marcas da vida. Imagine-se a barbaridade que os outros animais na qualidade de irracionais  não fazem? Enquanto Estados se concentram em indicadores económicos e conflitos geopolíticos, uma violação íntima e brutal contra milhões de mulheres e meninas persiste, muitas vezes à sombra de tradições ou da indiferença. Quando chegará o dia em que o Homem e a política se concentrem em curar as feridas humanas?

Em sociedades de matriz predominantemente masculina, os problemas existenciais das mulheres são frequentemente relegados para as franjas da discussão pública. A mutilação genital feminina (MGF) é talvez o exemplo mais cristalino desta cegueira seletiva. É imperativo que este tema saia da zona do tabu e entre na esfera da ação coletiva e da consciência emocional. Tabus silenciados endurecem as vidas.

A Anatomia de um Sofrimento oculto

O que significa, na realidade, este martírio? Na Somália, as mulheres nascidas há três décadas são, em regra, mutiladas. A prática continua hoje. Na Guiné, persiste o “fanado”, um ritual de iniciação que viriliza a violência muito embora praticada por mulheres. As meninas, muitas vezes antes dos cinco anos, têm os seus órgãos genitais externos amputados, sem amnestesia, em condições precárias. A escala da violência varia: do corte do clítoris à extração total dos órgãos e à subsequente costura da abertura vaginal (infibulação), um procedimento com consequências devastadoras para toda a vida.

Este crime não conhece fronteiras. Na Alemanha, onde me encontro de momento e escrevo este artigo relatos documentados por Steffi Burmester, da Mädchenhaus Kassel, revelam um drama transnacional: famílias que viajam de férias para a Somália, Eritreia ou Djibuti e regressam com as suas filhas mutiladas. Em 2022, estimava-se que 15.000 meninas na Alemanha estavam sob ameaça iminente de sofrer esta violência.

Ver a Pessoa para além do Número

Isto deveria falar também à nossa inteligência emocional coletiva que significaria a capacidade de transcender a fria estatística e conectar-nos com a realidade humana que ela representa. Não se trata apenas de “15.000 casos”; trata-se de 15.000 infâncias roubadas, 15.000 futuros marcados por dor crónica, infeções, traumas psicológicos profundos e complicações em partos.
Um pouco de humanismo  exige que ouçamos os detalhes que os números silenciam, como testemunhou Ibrahim Ishaq Hussein em Kassel: em família,  os rapazes crescem a normalizar o sofrimento das mulheres, pois acham normal que mães, irmãs e avós demorem tempos intermináveis na casa de banho e vivam com dores constantes. Exige que reconheçamos o controlo social exercido através de chamadas telefónicas de familiares, onde avós e tias perguntam, veladamente, pela “visita” da criança, um eufemismo para a mutilação.

Entre a Tradição e a Lei é necessário o Caminho para a Proteção

A aceitação da MGF como “tradição” é um muro difícil de derrubar, sustentado por gerações de lavagem cerebral. Contudo, o respeito cultural não pode ser uma capa para a barbárie. A educação sexual e a informação são armas fundamentais. Se uma menina de cinco anos com mutilação genital chegar a um hospital, o silêncio dos profissionais não pode ser uma opção.
Felizmente, há luz na escuridão. Em Kassel, centros como a Mädchenhaus e o departamento de saúde da cidade trabalham há anos contra este ritual, oferecendo proteção e aconselhamento especializado. A lei alemã deu um passo crucial: desde 2013, o §226a do Código Penal pune a mutilação genital feminina com, no mínimo, um ano de prisão, classificando-a juridicamente como agressão física grave. É um reconhecimento de que o corpo das meninas não é propriedade cultural, mas um inviolável direito humano.

O Desafio para Portugal e para a Europa é não fechar os Olhos

A pergunta que se impõe é: As autoridades portuguesas, e europeias em geral, estarão preparadas para lidar com esta questão? Fazer vista grossa é cumplicidade. Fechar os olhos na Europa é fomentar a barbárie dentro das nossas fronteiras, sob o falso pretexto do relativismo cultural.

Proteger os mais fracos, as crianças,  é um imperativo civilizacional universal que exige:
– Legislação clara e aplicada, seguindo o exemplo alemão.
– Formação especializada para profissionais de saúde, educação e serviços sociais para identificar e agir perante riscos.
– Apoio e proteção às meninas em risco e às suas famílias, através de centros de aconselhamento e casas-abrigo.
– Campanhas de sensibilização dentro das comunidades, promovendo uma nova “tradição”: a da integridade corporal e do respeito pelos direitos das meninas.

De onze em onze segundos, o relógio avança. Mas a cada segundo que passa, temos a escolha de sermos cúmplices do silêncio ou agentes de mudança. Mover a inteligência emocional já não significa sentir apenas indignação perante oque aqui se escreve, mas permitir que essa indignação se transforme em voz, em pressão social, em apoio a quem luta no terreno.

O martírio pode ser silencioso, mas a nossa recusa em aceitá-lo não deve ser. Urge que este tema saia da sombra e entre na luz da ação política, do debate público e da proteção humana. A verdadeira tradição que devemos honrar é a da compaixão e da defesa intransigente dos indefesos. O tempo de fechar os olhos acabou.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo