AS MTAMORFOSES DO MISTÉRIO

Os enigmas dos chamamentos

António da Cunha Duarte Justo

A natureza, a história e a cultura são a tela 
onde o divino nos chama a situar-nos

Vivemos suspensos entre o indizível e o visível. Tudo o que nos cerca, desde a seiva que sobe na árvore, o eco dos passos que marcam as eras, a palavra que insiste em nascer, tudo é lineamento de um apelo que não se deixa aprisionar em definições. Não somos donos do real, mas espectadores e actores a viver no palco do mistério. A realidade não se desvenda numa única chave, nem é um dado que se submete ao nosso domínio, mas um enigma que se oferece à nossa liberdade numa sinfonia de imensas tonalidades. Diante de nós, abrem-se três grandes “manuscritos” simultaneamente: o livro da Natureza, escrito em metamorfoses e ciclos; o livro da História, tecido de glórias e ruínas; e o livro da Cultura, povoado de símbolos e narrativas. Lê-los exige mais do que a razão instrumental; exige a humildade do aprendiz que aceita ser interpelado, que aceita ser questionado pela pergunta primordial: “Onde estás?”. Ao contemplarmos esta tríplice manifestação, percebemos que o efémero é porta para o eterno e que o sólido se dissolve em gasoso para nos lembrar do voo espiritual.

A natureza não é mero cenário passivo, mas metáfora viva da vida cultural e individual. Em cada biótopo, em cada ecossistema coexistente, pulsa um enigma que nos interpela. Tudo se torna sinal e imagem, um puzzle cósmico cuja solução não está dada, mas proposta como um chamamento misterioso dirigido à humanidade e à própria Terra. Investigar a natureza é, assim, um imperativo hermenêutico, porque a natureza tem algo essencial a dizer-nos, se nos dispusermos a escutá-la para além do ruído superficial da utilidade.

Tal como as pessoas, a natureza ostenta, à primeira vista, uma harmonia aparente. Mas essa harmonia, tal como a refinação do caráter humano, só se revela verdadeiramente na profundidade do tempo e da observação atenta que ultrapassa o imediato e o cronológico. O ser humano assume, então, o papel de observador, análogo ao amante da arte que contempla um quadro. Olha para ele, não para o possuir, mas para se deixar interpelar pelas camadas de sentido que ele esconde. Na natureza, descobrimos os mesmos enigmas que filósofos e artistas, de Oriente a Ocidente, tentaram desvendar. A natureza é, simultaneamente, sonho e realidade concretizada, véu e epifania.

Somos todos alunos do Todo. Ao observar a natureza, o ser humano procura organizá-la e abordá-la nos diferentes níveis, físico, biológico, estético, espiritual, sem excluir nenhum, se quiser que a sua leitura seja verdadeiramente integral. Nesse movimento, oscilamos entre o autorretrato (microcosmo que somos) e a visão do cosmos (macrocosmo). Como na teia de Indra (onde as filosofias hinduísta e budista procura ilustrar a interconexão de todo o universo), onde cada ser reflete todos os outros e o mistério do Todo pulsa em cada fração do mundo. Através de narrativas, filosóficas, científicas ou poéticas, tentamos encontrar-nos a nós próprios no âmbito do todo, desejando sempre seguir o caminho ideal (o Tao que se faz caminho na filosofia chinesa baseada na harmonia com o universo e  ensina a viver com naturalidade, aceitação e sem resistência, numa atitude de “não ação” ou da mera vivência do momento presente) e, ao participar nos sinais dos tempos, representá-los da forma mais plena possível. Na vertente do Ocidente o caminho ideal permanece no chamamento mais próximo do Humano na pessoa de Jesus Cristo, como protótipo para toda a humanidade e criação no “Eu sou o caminho a verdade a vida”!

A tradição católica, nesse ponto, oferece uma intuição luminosa, verdadeiramente católica, ao afirmar que a Revelação não se encerra num único livro pois ela transcende a palavra discurso. Ela desdobra-se em três grandes manifestações, ou seja, a Revelação contida na Escritura de que Jesus Cristo é o protótipo (mais que uma cultura, discurso ou livro), a Revelação presente na Natureza e a Revelação inscrita na História. Cada uma delas exige dedicação e humildade; caso contrário, seguimos a narrativa superficial que nos desvia do caminho, escravizada pelos líderes e pelos seus interesses míopes. Todas elas, porém, ecoam no fundo do Homem e da humanidade a mesma pergunta inicial e fundadora que é: «Adão, onde estás?» e a mesma resposta silenciosa que nos convoca a todos na intuição do «Estou mais além; segue-Me.» A natureza, a história e a cultura tornam-se, assim, o lugar teofânico onde Deus nos interpela e onde somos chamados a transcender-nos.

Infelizmente, a tentação da simplificação é enorme. Esquecemos toda a faixa de cores do arco-íris para seguirmos a redução maniqueísta do preto e branco de uma lógica meramente dialética dos opostos como em Marx. Destruímos, com isso, as complexas estruturas coloridas das ligações e perdemo-nos na máscara pura da realidade, contentando-nos com uma perceção primitiva. A «gravidade» do olhar naturalista prende-nos à crosta do imediato, impedindo-nos de ascender à leveza do espírito. Para tentar compreender o insondável, o mistério, é necessário captar, de forma puramente perspectivista, o caráter efémero do espaço e do tempo; de contrário, tornamo-nos vítimas dessa gravidade que nos afasta da harmonia do todo que é aperspectivo; aquela harmonia que se encontra em paralelo nas diversas revelações que a chamada realidade aplicada esconde, embora pretenda justamente conduzir-nos à Realidade última.

É precisamente nesse ponto que a natureza se nos oferece como símbolo dinâmico do apelo volátil, que corresponde à transformação do sólido em líquido e do líquido em gasoso; isto não é mero fenómeno físico, mas metáfora e indicação do percurso do material para o espiritual. Assim como as árvores florescem nas suas flores e frutos, também o corpo do ser humano floresce no espiritual. O nosso desenvolvimento não pode limitar-se a uma adaptação passiva aos gostos efémeros da época. Também a literatura é chamada a fazer mais do que apenas tornar-se a narrativa do espírito do tempo; ela deve ser profecia, memória e abertura ao transcendente.

Tudo isto deve, porém, acontecer num campo aberto, onde o ser humano, as ciências, os povos e as nações não se limitem ao primeiro impulso de se definirem a si próprios por oposição ao outro. Urge uma cultura de perceção diferente, alimentada por novas imagens profundas, para que não vivamos constantemente num clima de tempestade e para que ousemos criar, finalmente, uma cultura de paz. Estamos incompletos, tal como o mundo; a nossa vocação mostra-nos o caminho numa realidade que não é meramente circular, mas aberta ao novo, como formulou o cristianismo.

Somos, simultaneamente, observadores, actores e realização. “No princípio era o Verbo e o Verbo fez-se carne”, para que, pela carne, regressemos ao Espírito. Não podemos deixar-nos prender nem fascinar pelos fogos de artifício da cultura, mas sim tentar ver o que está por detrás deles: a chama eterna que os alimenta, o “sou o que sou, sou o tornar-se” que no Monte Horeb não quis receber nome para anunciar-se como processo no protótipo Jesus Cristo. O nosso caminho reside no mistério de uma terra obscurecida, mas não abandonada. Estamos todos na oficina do real, aprendizes humildes da realidade, num processo inacabado de busca da Verdade. A luz da inspiração não nos faltará, tal como o sol que, inexoravelmente, brilha sobre a Terra e sobre cada criatura que nela habita, convidando-nos a participar, com toda a criação, no desenvolvimento do mundo e da história, seguindo o apelo misterioso que nos chama para Além.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo Social
Pegadas do Tempo

CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA, AO PARLAMENTO E A TODAS AS INSTITUIÇÕES AINDA EMPENHADAS NA SUSTENTABILIDADE DA CULTURA MILENÁRIA PORTUGUESA

A memória dos antepassados não é um fardo do passado, mas a bússola do futuro. Integrar sem apagar, abrir sem se perder, construir com a sabedoria de quem nos precedeu, é o que move o desafio perene que vos traz esta carta. Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados e Instituições da Nação, é a vós que me dirijo, na certeza de que a integração plena do passado e do presente é o único caminho para edificarmos uma sociedade verdadeiramente humana e universal.

A verdadeira integração nunca se edifica sobre os escombros da cultura que pretende abraçar. Quando, em nome de uma pretensa abertura, se suprime a identidade que nos define, o que se obtém não é coesão, mas sim uma fratura silenciosa e profunda. É precisamente este o cerne da questão que opõe o Presidente da República, António José Seguro, ao decreto do Parlamento e que expõe, de forma crua, o embate entre a defesa do interesse coletivo e a imposição de agendas ideológicas fragmentárias.

Em junho, o Chefe de Estado vetou o diploma que visava proibir o hastear de bandeiras “de natureza ideológica, partidária ou associativa” nos edifícios públicos. Sob o argumento aparentemente plausível de que o texto encerra conceitos vagos e que as causas humanitárias ou ambientais gozam de acolhimento constitucional, o Presidente oferece, na verdade, um flanco perigoso: o da relativização do próprio símbolo máximo da Nação. Ao fazer tábua rasa da distinção entre o que é estruturante e o que é acessório, ele e as forças que o apoiam abrem caminho para que a bandeira nacional seja remetida para um plano secundário, enquanto os estandartes sectários ocupam o espaço público, sem resistência e sem pudor.

Ora, a bandeira de Portugal não é um mero pedaço de pano; é a condensação viva da nossa liberdade democrática, da autoconfiança do Estado de Direito social e da memória coletiva de um povo. Criticá-lo por, de forma velada, alinhar com um ideário globalista maçónico e contestável não é uma acusação leviana; é constatar que a contenção interior que é a base de qualquer estabilidade, se desvanece quando a totalidade é colocada ao mesmo nível da exceção. Quem detém a força da totalidade sabe integrar a diferença sem a exaltar de modo a humilhar a maioria silenciosa que se revê na tradição.

É certo que a afirmação identitária baseada apenas no ímpeto emocional, como a que se vê nos recintos desportivos, comove, mas fomenta um nacionalismo abstrato e estéril, desligado da vida real do povo. A verdadeira lealdade à Pátria não se esgota no grito, mas radica na continuidade de uma herança cultural que nos precede e nos ultrapassa. Nenhum esforço de integração triunfará se, em seu nome, se reprimir a cultura própria ou se menosprezar o pendão que nos congrega. Cabe perguntar, em que podem os cidadãos basear-se, se os seus valores mais caros forem sacrificados no altar da sensibilidade ativista? Não podemos, por respeito a minorias efémeras, abdicar da nossa matriz civilizacional, nem tão-pouco diluir todos os valores num relativismo que iguala o todo à particularidade de um dia.

O Presidente deve ao país uma explicação cabal sobre esta aparente submissão às correntes “woke”. Colocar as bandeiras ideológicas ao mesmo nível da bandeira nacional não é um gesto de pluralismo; é um ato de desrespeito pela coletividade e pela cultura portuguesa. Esse zelo desmesurado, longe de revelar tolerância, denuncia uma confusão estratégica que alimenta o caos simbólico, com o claro propósito de relativizar tudo o que nos é sagrado. Por detrás desta posição, adivinha-se a ação de forças que atuam contra a integridade da Nação, banalizando o seu génio histórico para o entregar, sem defesas, às voragens do globalismo mais raso. Para tal, recorrem ao desmantelamento sistemático dos símbolos e das tradições que floresceram na Europa e que constituem a nossa singularidade.

É profundamente desolador constatar que já não se distingue a regra da excepção. A excepção é legítima, mas quando é alçada à condição de regra, deixa de enriquecer o todo para passar a destruí-lo. Este é o cerne da tragédia que se anuncia: a inversão de valores, onde o acessório prevalece sobre o estruturante e o efémero se sobrepõe ao perene.

Em nome da Razão, que exige clareza e hierarquia; e em nome do Coração, que pulsa pela dignidade do nosso povo, urge que António José Seguro e os representantes do Parlamento reflitam sobre o legado que pretendem deixar. A integração que não respeita a alma de uma Nação está condenada ao fracasso, pois uma Pátria que se envergonha dos seus símbolos é uma Pátria que prepara, em silêncio, a sua própria dissolução.

Com os profundos votos de que a lucidez prevaleça sobre a moda ideológica,

António da Cunha Duarte Justo

PRESIDENTE SEGURO ABRE PORTAS SEGURAS PARA A VORAGEM DO GLOBALISMO WOKE

Um contra-ataque político do presidente António José Seguro ao serviço do movimento Woke

A verdadeira integração nunca se edifica sobre os escombros da cultura que pretende abraçar. Quando, em nome de uma pretensa abertura, se suprime a identidade que nos define, o que se obtém não é coesão, mas sim uma fratura silenciosa e profunda. É precisamente este o cerne da questão que opõe o Presidente da República, António José Seguro, ao decreto do Parlamento e que expõe, de forma crua, o embate entre a defesa do interesse coletivo e a imposição de agendas ideológicas fragmentárias.

Sem pudor, no dia 10 de junho de 2026, o Chefe de Estado vetou o diploma que visava proibir o hastear de bandeiras “de natureza ideológica, partidária ou associativa” nos edifícios públicos. Sob o argumento aparentemente plausível de que o texto encerra conceitos vagos e que as causas humanitárias ou ambientais gozam de acolhimento constitucional, o Presidente oferece, na verdade, um flanco perigoso: o da relativização do próprio símbolo máximo da Nação. Ao fazer tábua rasa da distinção entre o que é estruturante e o que é acessório, ele e as forças que estão por trás dele abrem caminho para que a bandeira nacional seja remetida para um plano secundário, enquanto os estandartes sectários ocupam o espaço público, sem resistência e sem pudor.

Ora, a bandeira de Portugal não é um mero pedaço de pano; é a condensação viva da nossa liberdade democrática, da autoconfiança do Estado de Direito social e da memória coletiva de um povo. Criticá-lo por, de forma velada, alinhar com um ideário globalista maçónico e contestável não é uma acusação leviana; é constatar que a contenção interior que é base de qualquer estabilidade, se desvanece quando a totalidade é colocada ao mesmo nível da exceção. Quem detém a força da totalidade deveria saber integrar a diferença sem a exaltar de modo a humilhar a maioria silenciosa que se revê na tradição.

É certo que a afirmação identitária baseada apenas no ímpeto emocional, como a que se vê nos recintos desportivos, comove, mas fomenta um nacionalismo abstrato e estéril, desligado da vida real do povo. A verdadeira lealdade à Pátria não se esgota no grito, mas radica na continuidade de uma herança cultural que nos precede e nos ultrapassa. Nenhum esforço de integração triunfará se, em seu nome, se reprimir a cultura própria ou se menosprezar o pendão que nos congrega. Cabe perguntar, em que podem os cidadãos basear-se, se os seus valores mais caros forem sacrificados no altar da sensibilidade ativista? Não podemos, por respeito a minorias efémeras, abdicar da nossa matriz civilizacional, nem tão-pouco diluir todos os valores num relativismo que iguala o todo à particularidade de um dia.

O Presidente deve ao país uma explicação cabal sobre esta aparente submissão às correntes “woke”. Colocar as bandeiras ideológicas ao mesmo nível da bandeira nacional não é um gesto de pluralismo, mas sim um acto de desrespeito pela coletividade e pela cultura portuguesa. Esse zelo desmesurado, longe de revelar tolerância, denuncia uma confusão estratégica que alimenta o caos simbólico, com o claro propósito de relativizar tudo o que nos é sagrado. Por detrás desta posição, adivinha-se a ação de forças que atuam contra a integridade da Nação, banalizando o seu génio histórico para o entregar, sem defesas, às voragens do globalismo mais raso. Para tal, recorrem ao desmantelamento sistemático dos símbolos e das tradições que floresceram na Europa e que constituem a nossa singularidade.

É profundamente desolador constatar que já não se distingue a regra da exceção. A exceção é legítima, mas quando é alçada à condição de regra, deixa de enriquecer o todo para passar a destruí-lo. Este é o cerne da tragédia que se vai anunciando e se encontra em franco progresso através da implementação de um globalismo woke e se anuncia na inversão de valores, onde o acessório prevalece sobre o estruturante e o efémero se sobrepõe ao perene.

Em nome da Razão, que exige clareza e hierarquia e em nome do Coração, que pulsa pela dignidade do nosso povo, urge que António José Seguro reflita sobre o legado que pretende deixar. A integração que não respeita a alma de uma Nação está condenada ao fracasso, pois uma Pátria que se envergonha dos seus símbolos é uma Pátria que prepara, em silêncio, a sua própria dissolução.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

PS: Não é por acaso que o movimento «woke» se interliga e se expande com a ajuda de órgãos governamentais e administrativos. Isso deve dar-nos que pensar e urge fazê-lo, mesmo que pensar nos custe e até cause dor!

A REDESCOBERTA DE CABO VERDE PELO FUTEBOL

A história tem destas coisas inteligentes que é nunca se deixar encerrar numa só narrativa, por vezes confinada pelos grandes. Para ser verdadeiramente fiel à cronologia e a uma consciência sempre reavivada, a História serve-se, também da FIFA para mostrar o mundo na perspectiva de um outro jogo. Foi assim com a Islândia, redescoberta no Europeu de 2016 e no Mundial de 2018, e depois compensada com uma vaga de turismo que transformou o país. Agora, chegou a hora de Cabo Verde.

No dia 13 de outubro de 2025, os “Tubarões Azuis” escreveram a página mais bonita da sua história desportiva. Ao vencer o Essuatíni por 3-0, no Estádio Nacional da Cidade da Praia, a seleção cabo-verdiana garantiu, pela primeira vez, um lugar no Campeonato do Mundo da FIFA. Com golos de Livramento, Semedo e Stopira, o país insular liderou o Grupo D das eliminatórias africanas, superando a favorita Camarões. Uma conquista ainda mais notável se considerarmos que Cabo Verde, com os seus cerca de 525 mil habitantes, se torna, depois da Islândia, o país menos populoso de sempre a marcar presença num Mundial. O governo local declarou até tolerância de ponto para que todo o país pudesse apoiar os seus heróis.

Este feito desportivo ecoa, de forma poética, a própria história do arquipélago. Cabo Verde foi descoberto em 1460 por Diogo Gomes e António da Noli, ao serviço do Infante D. Henrique. Quando chegaram, as ilhas estavam habitadas apenas por aves e vegetação selvagem, sem qualquer indício de presença humana anterior. A primeira ilha a ser descoberta foi a de Santiago, e em 1462 teve início o povoamento, com a fundação da Ribeira Grande, hoje Cidade Velha, a primeira cidade europeia nos trópicos. Durante séculos, o arquipélago foi um ponto estratégico nas rotas do Atlântico, mas permaneceu, durante muito tempo, uma realidade distante no imaginário global.

O paralelismo com a Islândia é inevitável. Tal como os islandeses, os cabo-verdianos provaram que a grandeza não se mede pelo tamanho do território ou pela população, mas pela força da vontade e pela união de um povo. A Islândia foi redescoberta no campeonato das nações e depois foi recompensada com muito turismo; o mesmo haverá de contar-se para Cabo Verde.

Agora que o futebol recolocou Cabo Verde no mapa do mundo, é tempo de olhar para os seus filhos que, tal como os navegadores de outrora, partiram à procura de um futuro melhor. A comunidade cabo-verdiana em Portugal é uma das mais expressivas e antigas, com cerca de 48 mil residentes legais só com nacionalidade cabo-verdiana, um número que ultrapassa largamente os 100 mil se contarmos os naturalizados e descendentes. A impressão que muitos têm dos cabo-verdianos em Portugal é que são pessoas ordeiras e religiosas, trabalhando elas como empregadas domésticas e nos lares de idosos, e eles nas obras. No entanto, a realidade que muitos enfrentam é dura pois as dificuldades no acesso à habitação, exploração laboral e a incerteza de viver em situação irregular.

Cabo Verde, no que toca à emigração, manifesta grandes semelhanças com Portugal. Como país também de imigrantes, que acolhe cada vez mais cidadãos da África Ocidental, Europa e Ásia, Portugal teria, em consciência, o dever de beneficiar e privilegiar os migrantes das antigas colónias/províncias ultramarinas, promovendo mais construções que lhes facilite o viver. Afinal, a língua e a história comum são pontes que não podem ser ignoradas e, a partir da multipolaridade da mesma língua, até poderia ser o incentivo para se formar dos países lusófonos um novo polo num mundo geopolítico que se está a orquestrar.

Portugal tem de mostrar inteligência nas prioridades que coloca, mesmo em relação à imigração e não se deixar levar por políticas meramente económicas de Bruxelas. Naturalmente, a acentuação da prioridade da imigração para migrantes que provenham de países lusófonos seria um passo lógico e humano. Parabéns aos cabo-verdianos que mostram o progresso em que se encontram empenhados, também no futebol. Que a redescoberta de Cabo Verde pelo desporto seja o prenúncio de uma redescoberta mais profunda, a descoberta de um povo que, tal como a sua seleção, merece um lugar de destaque no palco do mundo.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

O ÓLEO DA DISCÓRDIA ALIMENTADA

Para além das Trincheiras do Racismo

Há um cheiro pútrido no discurso público contemporâneo. Cheira a queimado, a achas lançadas para uma fogueira que já arde há séculos, mas que agora, sob o pretexto de a apagar, se aviva com redobrado furor. Vivemos numa sociedade que se diz cuidada, mas que se alimenta da discórdia como um moinho de vento que mói grãos vazios, com muito ruído, muita farinha, mas nenhum pão que nutra a pessoa ou a sociedade. O paradoxo é cruel pois quanto mais se fala em descriminação e tolerância, mais se cavam trincheiras; quanto mais ativistas combatem o racismo, mais se reforça a lógica maniqueísta que o sustenta em vez de se cuidar um discurso que analise as razões do fracasso humano e social que o envolve.

Ora, é preciso dizer o que a cortesia mediática e o ativismo de cheque em branco teimam em ocultar, dado que o racismo não é branco nem preto. Esta afirmação não é um eufemismo nem uma tentativa de branqueamento (ou enegrecimento) de responsabilidades. É uma constatação antropológica elementar o facto de que o bem e o mal não são propriedades de uma pele, mas qualidades inatas de cada pessoa. A diferença entre comportamentos justos e injustos reside na mobilização, por parte de cada indivíduo em circunstâncias específicas, das energias negativas ou positivas que todos, sem excepção, carregamos dentro de nós. Nenhum grupo étnico detém o monopólio da virtude, como nenhum grupo detém o da culpa original nem da inocência.

Contudo, o discurso dominante, alimentado por interesses políticos, jornalísticos e até bem-intencionados, impôs um discurso moral simplista preso nele mesmo: de um lado, os racistas (sempre os outros, sempre os que se podem carimbar) e do outro, os anti-racistas (sempre nós, sempre os puros de coração). Esta catalogização em gavetas onde não cabem pessoas reais é o próprio veneno que se diz combater. Racista é o stempel, o carimbo branco (ou preto) que surge do racismo e alimenta o racismo. É uma arma de distração para a política, um óleo que lubrifica a máquina da indignação seletiva. Vitimização e irritação caminham de mãos dadas e, cada qual, escolhe as suas referências como quem escolhe um uniforme.

O grande equívoco dos chamados “activistas anti-racistas” é confundirem, de uma maneira geral, a livre expressão das ideias com o insulto racista. Navegam águas rancorosas do ódio, ainda que se julguem anjos, e encontram nos meios de comunicação social amplificadores dóceis para o seu formato de pensamento. Ao fazerem isso, enquadram o discurso numa moral inquisitorial onde a divergência se torna crime, a nuance vira cumplicidade e o espírito crítico, esse sim, o maior adversário de qualquer totalitarismo e de cada racismo, é varrido para a fogueira dos “negacionistas” ou dos “insensíveis”.

A sociedade encontra-se, assim, num dilema perverso: de um lado, os racistas declarados ou latentes e do outro, os que se julgam chamados a combater o racismo com o mesmo ardor maligno que combatem nos racistas. E o resultado é que ambos chafurdam na agressão que brota do próprio coração. Em vez de contribuírem para uma sociedade mais tolerante e inclusiva, limitam-se a atirar achas para a fogueira da intolerância. O anti-racismo radical, quando se torna dogmático e censor, deixa de ser um remédio para se transformar numa doença gémea.

O pior cenário, porém, não é apenas o debate de opiniões degradado a insulto. É a instrumentalização das leis para punir discursos envenenados e perversos sob o manto da virtude. Quando o Estado e os seus braços mediáticos entram neste jogo, a censura ganha rosto de justiça e a sociedade perde a sua capacidade de se purificar pelo debate. Voltemos aos tempos em que tudo era mais real, não porque não houvesse racismo que é necessário desmascarar, mas porque os argumentos ainda tinham lugar antes das agressões anónimas que hoje surgem na nuvem, onde qualquer anónimo se arma em anjo da guarda e em juiz implacável.

Uma cultura de paz verdadeira, que não se limite a slogans, deveria preocupar-se mais com o autoconhecimento do que com a catalogação do outro. É o autoconhecimento que produz compreensão e é a compreensão que produz inclusão. Enquanto projetarmos nos outros o racismo que trazemos em nós, enquanto virmos no olhar alheio a trave que não queremos ver no nosso próprio olho, nenhuma lei, nenhuma campanha, nenhuma indignação transmitida em direto nos salvará da hipocrisia.

O discurso sobre a tolerância não deve ser uma disputa entre posições absolutas e dogmáticas. Deve centrar-se na análise concreta dos conteúdos e na qualidade dos argumentos. A estratégia da indignação, que favorece tantos interesses instalados, é degradante e despropositada. Ela transforma o sofrimento real dos outros em espetáculo e a luta contra a discriminação num mercado de virtudes.

É tabu menosprezar pessoas pelo que são ou fazem, e mais ainda pelo que dizem. Menosprezar alguém pela cor da pele (branca ou negra), pela idade, pelo género ou pela origem étnico-racial é uma violência primária que nenhuma sofisticação retórica pode justificar. No entanto, também é tabu, ou deveria ser, usar essa violência como moeda de troca para silenciar o dissenso, para rotular adversários, para construir carreiras políticas ou mediáticas sobre as costas dos que sofrem.

A saída deste impasse não está em escolher trincheiras, mas em abandoná-las. Está em reconhecer que cada ser humano é uma constelação de luz e sombra e que a diferença entre um comportamento racista e um comportamento fraterno não está na cor da pele, mas na decisão, que é sempre pessoal e sempre situada, de mobilizar as energias positivas em vez das negativas. Enquanto nos agarrarmos à ilusão de que o mal está sempre no outro, continuaremos a transportar água para moinhos que moem, mas não alimentam. E o pão da verdadeira inclusão que produz a paz social, continuará por amassar.

Ter uma cor, um sotaque ou uma história não é pedir uma gaveta, mas sim pedir um olhar. E a prova de que as diferenças não dividem é a experiência que fazem muitos emigrantes. Também eu, quando estou em Portugal, vejo com alegria o carácter racional e claro alemão; quando estou na Alemanha, sinto com saudade o jeito de ser e sentir mais poético de Portugal. O preconceito é a incapacidade de caber no mesmo peito duas pátrias.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo