RECEITA PARA ESTRESSADOS DO AUTOAPERFEIÇOAMENTO

A arte de também nos deixarmos em paz

Vivemos numa época em que já não basta viver. É preciso melhorar a vida, melhorar o corpo, melhorar a mente, melhorar as relações e, se sobrar algum tempo, melhorar também a maneira como melhoramos. Imaginemos que até já chegamos a ponto de o descanso ter de ser produtivo.

Meditamos para ficar mais serenos, fazemos exercício para viver mais, lemos para crescer interiormente e, ao fim do dia, caímos exaustos na cama com a desagradável sensação de ainda não sermos a pessoa que deveríamos ser. Estamos a exagerar um pouco neste ponto.

A pressão do autoaperfeiçoamento é particularmente traiçoeira porque se apresenta sempre com boas maneiras. Não nos diz: «Não prestas.» mas sugere-nos delicadamente que podíamos ser ainda melhores e nós, habituados à obediência, lá metemos mais uma obrigação na mochila.

Por isso gosto da meditação e da oração, não como técnicas para me tornar melhor, mas como lugares onde posso, por momentos, deixar de ter de me tornar seja o que for para ser simplesmente com o divino e expressar como é boa a ressonância. Há uma sabedoria e um silêncio que não exigem currículo.

No silêncio posso escutar-me e tentar reconciliar o ego com o eu, o eu com o tu e ambos com esse difícil e maravilhoso «nós». Para isso, cada pessoa traz consigo uma sabedoria que não vem necessariamente nos diplomas. Há coisas que a alma sabe antes de nós sabermos explicá-las e quanto mais simples são as pessoas mais visível tornam a explicação.

Também quem procura ajudar os outros conhece outra armadilha! Esquecermo-nos de nós próprios, até a ponto de nos esquecermos da sede.

Na vida religiosa e pastoral isso acontece facilmente. Queremos estar presentes, compreender, consolar, servir. Tudo é muito cristão até ao dia em que a alma, depois de passar tanto tempo a dar água aos outros, percebe que também ela tem sede.

É algo que é preciso aprender pois também eu sou alguém de quem devo cuidar, o problema é que a força do hábito nos leva na enxurrada.

Temos por vezes uma estranha generosidade ao reservarmos para os outros a compreensão e deixarmos para nós a severidade. Ao amigo cansado dizemos: «Descansa, fizeste o que podias.» A nós próprios dizemos: «Podias ter feito mais.» É uma injustiça na própria casa talvez a compensar a atitude daqueles que organizam a vida a desviar a água para o seu moinho. (Não se trata aqui de moralismo porque a vida é como o fluxo do rio e não se fixa numa ou noutra margem ela é margem e corrente doutro modo não seria vida).

Durante a minha atividade pastoral encontrei uma maneira muito pessoal de fazer as pazes com os meus limites. Quando queria ajudar alguém e sentia sobre mim o peso da responsabilidade, dizia a Deus: «Tu sabes que quero fazer o bem e que procuro estar ao Teu serviço. Se fizer alguma coisa errada, lembra-Te de que também tenho as minhas limitações e eu faço o que posso e à minha maneira, de resto, o problema é. Teu.»

Talvez fosse uma oração desabitual, mas aliviava-me a alma, pois sempre pensei que Deus compreenderia. Afinal, se nos criou limitados, não poderá ficar demasiado surpreendido quando damos com a cabeça nos limites.

Hoje, na atividade jornalística, continuo a viver um pouco desta confiança. Escrevo procurando fazê-lo com boa intenção, embora conheça o aviso popular de que «de boas intenções está o inferno cheio».

Escrevo, portanto, aquilo que analiso, penso e sinto. Se errar, haverá quem me corrija e há sempre algo a aprender.

Talvez seja esta a minha receita para os estressados do autoaperfeiçoamento: tratar-nos a nós mesmos como tratamos alguém de quem gostamos e estarmos atentos ao que o espírito do tempo nos dita.

Melhorar, sim, mas sem viver descontentes com aquilo que somos. Por isso trata-se de ajudar os outros sem nos abandonarmos pelo caminho e rezar sem querer impressionar Deus, deixando também Deus falar e quando meditamos trata-se de o fazer sem transformar o silêncio noutra disciplina olímpica.

Trata-se de aprender a dizer ao fim de certos dias: «Fiz o que pude e amanhã veremos.»

Não está escrito nos «livros» da vida que tenhamos de ser permanentemente a nossa melhor versão. A vida seria demasiado injusta se reservasse o seu palco apenas para os melhores. Há lugar também para os hesitantes, os cansados, os que tropeçam e continuam o caminho. Chegaria sermos, na medida do possível, a nossa versão mais humana, aquela que conhece os próprios limites, sabe sorrir das suas imperfeições e, ao fim do dia, se permite sentar um pouco com a vida, sem a obrigação de se aperfeiçoar, deixando que ela siga o seu curso e nós com ela.

Do Direito ao Desgoverno e à Rebeldia!!!

Como exercício de desabituação e em espírito de contradição à propaganda do perfecionismo que nos quer atafegar, segue uma receita

Quero entrar na vida sem passaporte e sair dela sem porteiro.

O oposto do controle não é o caos, mas sim a trégua!

É permitido chorar e não extrair lição alguma do choro.

É permitido levantar-se sem rumo e gastar o dia em órbita.

É permitido ter medo das lembranças e não ter forças para encará-las.

É permitido não rir dos problemas, levá-los a sério, e deixá-los pesar.

É permitido não lutar, recuar e descobrir que a fronteira também é um lugar.

É permitido abandonar tudo por medo porque às vezes o medo é a única voz sensata.

É permitido não transformar sonhos em realidade e deixá-los onde estão, na qualidade de sonhos.

É permitido não demonstrar amor e mesmo assim tê-lo guardado onde ninguém vê.

É permitido que as tuas dúvidas e mau-humor respinguem nos outros, desde que, depois, os limpemos juntos.

É permitido deixar os amigos e, mais tarde, reencontrá-los no silêncio.

É permitido não seres tu mesmo diante das pessoas, porque tu tens vários eus e todos merecem vez.

É permitido fingir que as pessoas não te importam, se a intimidade doer naquele dia.

É permitido ser gentil por puro acaso e não por cálculo de lembrança.

É permitido esquecer aqueles que gostam de ti porque a memória tem os seus esquecimentos justos.

É permitido sentir saudade e não se alegrar, apenas senti-la até que ela passe.

É permitido esquecer os olhos, o sorriso e lembrar-se apenas do que doeu.

É permitido recusar-se a embelezar a dor e assim não transformar a tristeza em currículo.

É permitido não ser herói porque os heróis morrem no final e os habitantes ficam para testemunhar o cotidiano

É permitido não pagar o passado porque o passado já foi pago com o tempo que passou.

É permitido descansar, hesitar, errar e repetir o erro porque são actos políticos de resistência ao produtivismo.

Quero entrar na vida sem passaporte e sair dela sem porteiro.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

CONSCIENCIALIZAÇÃO ENTRE ORDEM DA NATUREZA E ORDEM CULTURAL

Da Convivência cultural e ecológica num Mundo multipolar

Num mundo contemporâneo que se afirma, cada vez mais, pela rigidez dos opostos, a humanidade enfrenta o desafio urgente de redescobrir o diálogo. Vivemos divididos por fronteiras invisíveis, onde o “nós” e o “eles” sufocam a riqueza da convivência.

Para superar este impasse e cultivar um humanismo autêntico entre os nossos biótopos culturais, precisamos também de olhar para a maior das mestras que nos se depara de modo imediato e se revela na própria natureza. Longe de se contradizerem, a ordem natural e a ordem cultural são duas formas de vida em evolução contínua que se podem e devem ajudar a melhorar.

A Ordem humana e o Fluxo da Natureza

A nossa noção tradicional de ordem é, por essência, uma redução histórica. Associamos o conceito de ordem à simetria perfeita, à linha reta e ao controlo absoluto. Trata-se de um mecanismo de defesa porque diminuímos a realidade para nos conseguirmos definir a nós próprios. Tentamos estabelecer limites rígidos para que a nossa visão e o nosso entendimento limitado possam processar a complexidade do mundo.

A natureza, contudo, ignora as nossas réguas. Ela não apresenta linhas claras nem limites exatos. No seu seio, o grande convive harmoniosamente com o pequeno, sem qualquer preocupação com classificações ou gavetas conceituais. O veneno e o remédio coexistem lado a lado, na mesma floresta. Na ordem orgânica da Terra, nada é direito, mas nada está desalinhado; tudo cumpre uma função no ecossistema global.

A Ambivalência do Ser humano e o Medo do Ilimitado

O equívoco da nossa civilização não está em criar instrumentos de medida, mas em confundir a riqueza da vida com as próprias ferramentas que usamos para a medir. Na nossa necessidade incessante de definir, torna-se visível a profunda ambivalência do ser. Etimologicamente, a palavra “definir” tem a sua raiz no latim finire, que significa delimitar, erguer muros, estabelecer o fim de algo. Sendo criaturas biologicamente limitadas, sentimo-nos instintivamente mais confortáveis dentro de cercas mentais; mas a natureza, essa, serve-se também da osmose como possibilidade, dissolvendo as fronteiras que teimamos em traçar.

A ideia abstrata precisa de cálculo e de um ordenador para existir enquanto a vida real apenas precisa de espaço para pulsar. A ideia limita e estagna, enquanto a vida cresce, passa, muda e evolui livremente. Contudo, esta oposição aparente esconde uma complementaridade essencial: a régua dá forma ao ilimitado, assim como o ilimitado dá perspetiva à régua. O acto de finire não é, por si só, um erro porque é a resposta humana à nossa condição finita, um refúgio que nos orienta no caos.

A ordem Humana está focada na redução e na uniformidade, na simetria rigorosa e nas ideias fixas. A ordem da Natureza está focada na expansão e na integração, na diversidade aberta, na coexistência de opostos e no sentido prático da vida. Mas estas duas ordens não se anulam nem se repelem, completam-se. O limite que o Homem impõe com o definir (o finire) oferece contorno e identidade à imensidão natural, evitando que esta se dissipe em vazio. E a osmose natural que é a permeabilidade entre opostos, numa troca constante que ignora muros, oferece movimento e renovação à rigidez humana, avisando que as nossas definições não se devem cristalizar em dogmas que asfixiem. Se a definição dá segurança a osmose dá vitalidade e uma não sobrevive sem a outra. Isto transportado para a sociologia, ensina que o verdadeiro desenvolvimento é a interculturalidade e não a multiculturalidade.

O verdadeiro medo do ilimitado não é, portanto, o receio do que é vasto, mas sim o pânico de reconhecer que a nossa própria finitude só ganha sentido quando abraça a infinitude que a rodeia. Civilizar-se não é domesticar a natureza nem render-se a ela, mas sim aprender a viver com ambas as forças, usando a medida como bússola, a liberdade como motor e a consciência humana como regulador. Definir é necessário para não nos perdermos, mas viver exige, acima de tudo, a coragem de deixar que os muros que erguemos sejam, de vez em quando, atravessados pela seiva do que não cabe em nenhuma lei, porque é exatamente nesse atravessar que o finito e o infinito, o humano e o natural, se reconciliam e se completam.

Os Biótopos culturais precisam da Diversidade como Elã vital

A ordem da natureza nunca foi caótica, mas a sua estabilidade não nasce da uniformidade, mas sim da diversidade aberta. Na ecologia, existem biótopos, comunidades de seres vivos que partilham o mesmo teto ambiental. Da mesma forma, as culturas humanas funcionam como biótopos sociais. São famílias de pessoas, de pensamento, tradições e linguagens que coabitam no globo humano.

Mais ainda: cada flor, tal como cada ser humano, é em si mesma um habitat diversificado e único. Os recentes e devastadores incêndios florestais funcionaram como um aviso severo gravado diante dos nossos olhos: tentar planear a natureza de acordo com o nosso entendimento estrito traz sempre consigo a tragédia da exceção. Na relva, diferentes seres vivos encontram abrigo sob a mesma folha; cada flor atrai insetos distintos, gerando uma interação harmoniosa onde a diferença é o motor da sobrevivência; na cultura o espírito dá perspetiva transcendente  ao elã da diversidade, muito embora forças das ideologias petrificadas embora fomentem um desenvolvimento quantitativo contrariam porem o desenvolvimento qualitativo.

O Óbvio do Humanismo e da Interligação

O óbvio reside em formar consciências permeáveis e abertas, que nem formatam nem se deixam formatar. A criação, no seu conjunto, é a maior metáfora da existência: não se orienta por ideologias secas, mas pelo sentido intrínseco da vida. Ela revela uma força criadora que ama a diversidade e viabiliza a comunhão. Mesmo o que rotulamos de “desordenado” encontra espaço nessa comunhão, não para justificar a destruição das regras sociais, mas para nos lembrar que a vida flui secretamente dentro de cada manifestação cultural.

Não fomos criados para viver em trincheiras ideológicas, como observamos na resposta que os partidos e governantes, muitas vezes, não dão, ao apostarem na desconstrução do adversário ou na guerra contra biótopos culturais distintos. Somos chamados a respeitar diferentes ordens e a aprender também com a ecologia que a cultura não se edifica pela desmontagem, pelo cancelamento ou pela destruição do outro, mas sim pela interligação, pelo diálogo e pela humildade de reconhecer que nenhum biótopo humano é absoluto. Ao abdicarmos da ilusão do controlo total, podemos finalmente florescer juntos no grande jardim da humanidade e possibilitar uma cultura da paz.

Como lembra Edgar Morin: “O tesouro da humanidade está na diversidade criadora, mas a fonte da sua criatividade está na sua unidade geradora.” Contudo, temos cabeças tão repletas de saberes compartimentados que a necessária interligação entre eles fica comprometida, cerceando a expansão do pensamento. Precisamos de um pensamento menos binário, que se liberte do molde redutor de tese e antítese e mais aberto à lógica trinitária, que aplica a parte no todo e o todo na parte. Relegada para o domínio do mistério, essa lógica é, no entanto, profundamente real, pois ajuda a superar moralismos e erros de pensamento. Além disso, num tempo de multipolaridade e interdependência planetária, ela transcende a linearidade da causa e efeito, possibilitando uma visão contextual, global e estrategicamente inteligente.

Por fim, uma ontologia coisificada gerou um racionalismo reduzido, que se esgota em sistemas lógicos fechados, sistemas que se desconhecem a si mesmos, não se tocam e excluem o mistério e o sagrado, por não os comportarem. Superar essa limitação é o passo decisivo para que o humanismo e a interligação deixem de ser meras abstrações e se tornem práticas concretas de coexistência.

Essa coexistência cultural e ecológica exige uma ética da espécie humana alicerçada na virtude. Os direitos humanos e a igualdade universal do indivíduo permanecem, ainda hoje, subjugados às lógicas culturais dominantes, que tendem a impor uma uniformidade redutora em vez de acolher diferenças. Falta-lhes, precisamente, o processo de osmose, a interferência fecunda entre culturas, que possibilite uma verdadeira reforma do pensamento, condição indispensável para transformar a educação e responder aos desafios da atual era multipolar.

Hoje, seguindo o conselho de Edgar Morin, o caminho passa por assumir o compromisso de ampliar a nossa consciência, isto é, praticar uma ciência com consciência e promover uma educação que não formate, mas que capacite cada ser humano a realizar a sua vocação de homo complexus num mundo permanentemente complexo.

Contudo, basta olhar para as nossas elites e para o cidadão comum para constatar como nos encontramos focados no quantitativo mensurável da física antiga (base da ontologia, antropologia e sociologia vigentes) sem se ter em conta o desenvolvimento humano qualitativo. Assim estamos a afundar-nos em novas formas de extremismo, em guerras fratricidas, na artificialização do pensamento e na naturalização da barbárie. Urge, por isso, que a ética e a osmose deixem o plano teórico e se imponham como práticas do quotidiano, sob pena de a complexidade humana se dissolver na simplificação brutal das ideologias fixas e doutrinas e de perdermos, definitivamente, a oportunidade de florescer juntos no jardim comum que teimosamente recusamos cultivar.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11263
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

A NATUREZA DO DESAFIO – POLÍTICA CAMUFLADA DE RELIGIÃO

O debate sobre a diversidade nas sociedades europeias tem sido dominado por um discurso predominantemente emocional, onde qualquer análise estrutural sobre as diferentes matrizes culturais é rapidamente rotulada de intolerância. Ora, a defesa de um ecumenismo genuíno e da rica diversidade humana é um bem inestimável; contudo, a abertura desmedida, quando desprovida de consciência histórica, pode transformar-se numa perigosa abdicação do biótopo civilizacional europeu.

É imperativo reconhecer uma diferença ontológica: o Islão não é apenas uma religião no sentido ocidental do termo, ou seja, como um espaço privado de crença separado da esfera política. O Islão é, sobretudo, um projeto político e jurídico completo, camuflado de religiosidade, cujo grande mérito histórico foi unificar tribos árabes díspares sob uma identidade cultural coesa. Esse feito notável, no entanto, constitui uma provocação silenciosa para culturas mais abertas e individualistas, como a europeia.

A fragilidade do Ocidente reside na sua tendência para enfraquecer as suas próprias bases identitárias em nome de uma diversidade abstrata. Esta postura ingénua favorece a afirmação hegemónica de um Islão que define a dignidade da pessoa não pela sua individualidade, mas exclusivamente pela pertença ao grupo. Esta é uma antropologia de gueto, que cria laços de solidariedade interna fortíssimos, mas que se revela impermeável à sociedade civil envolvente.

Há ainda uma convergência trágica: o socialismo ideológico abre-lhe as portas porque vê no indivíduo uma função abstrata, o proletariado, uma visão que coincide com a redução da pessoa a mero membro da umma (comunidade islâmica). Esta aliança tácita entre o internacionalismo progressista e a estratégia identitária islâmica serve uma agenda comum fatal. A finalidade dessa agenda comum é decompor as comunidades tradicionais europeias para as substituir por estruturas de poder maleáveis. A civilização islâmica não é, por si só, um “inimigo”, mas torna-se um perigo real para a civilização ocidental e para o catolicismo quando encontra no socialismo um aliado mais interessado em corroer do que em edificar.

A ilusão de que o Islão é “domesticável” ou de que se adequará, passivamente, ao secularismo europeu é uma crença frágil, que não tem em conta a sua origem desértica. Uma cultura treinada ao longo de séculos a afirmar as forças de sobrevivência, onde a geografia árida apenas permitia miragens, desenvolveu uma esperteza adaptativa que as culturas dos vales férteis, habituadas à abundância, raramente conseguem igualar. A Europa, que se debate internamente com o verme da decadência, exalta a diversidade pela diversidade, abrindo assim as gretas por onde a cunha identitária alheia se introduz. (continua em “Os Sinais de Unidade).

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

A NATUREZA NÃO ENGANA NEM REJEITA O HUMANO

Humanidade acima de Gritos de Guerra e de  Lutas culturais

A cidade de Berlim, marcada pelo sangue e pelo medo após o atentado islamista contra as pessoas no CSD (Christopher Street Day), não clama apenas por justiça, mas também por um exame de consciência. O sangue que corre é um eco doloroso que expõe a ferida de civilizações que desaprendem a comungar com a essência humana. Assistimos à triste e vergonhosa metamorfose de termos como “diversos”, “trans” e “homossexuais” em autênticos gritos de guerra. Em vez de designarem a riqueza da biografia humana, estas palavras são hoje instrumentalizadas por instituições que utilizam vidas individuais como meros peões para atingir fins de ordenamento social. Reduzem o Homem a objeto, onde o ser humano é despido da sua dignidade tanto por defensores como por opositores, num jogo de forças que ignora a pureza da natureza inerente a cada indivíduo e a soberania da consciência individual como defende o cristianismo leal.

A sociedade não tem donos. Ninguém é senhor do tecido social. Quando casais homossexuais ou indivíduos diversos são empurrados para as margens, ou quando grupos tentam estabelecer “zonas privadas” de aceitação e exclusão na praça pública, quebra-se o respeito pelo humano, pelo Todo criado. É legítimo que cada instituição crie as suas normas internas, mas há um limite sagrado e este pressupõe que deve permanecer sempre um espaço reservado onde a humanidade geral tenha lugar independentemente da regra e da excepção. A existência não pode ser regulada pela exclusão.

Diante do terror de Berlim, onde a natureza humana básica foi barbaramente aniquilada, impõe-se uma pergunta que é essencial: porque é que alguém culpa o outro por aquilo que a natureza, criada por Deus, planeou? A criação não comete erros; a sua assinatura é a pluralidade que mostra a sua tinta na diversidade. Se olhássemos para a biosfera sem as lentes do preconceito, veríamos que a natureza não discrimina a folha que nasce torta nem a flor que exibe uma cor singular. Ela acolhe todas as manifestações da vida na sua harmonia vasta. O preconceito não é uma lei natural; é uma projeção humana. É o esgoto interior dos indivíduos que transborda, invadindo o discurso público com comentários desdenhosos e violência física, destilando um ódio cego que tenta apagar o rosto que a natureza preservou em cada ser. Também a gritaria social de um lado ou do outro não serve o “diferente” e até o compromete quando é usado por forças ideológicas que tendem criar o caos numa sociedade ordeira que querem destruir.

As pessoas “diversas” ou diferentes partilham da mesma vulnerabilidade que une toda a espécie humana; conhecem o cárcere do medo, mas não precisam e não devem implorar por serem aceites. O direito à existência e à busca da felicidade é intrínseco, inalienável e universal. As ideologias gémeas, que tentam impor o silêncio e o esquecimento às minorias, falham porque tentam lutar contra a própria Criação. Actos de agressão e terrorismo urbano não geram a verdadeira visibilidade que edifica; pelo contrário, camuflam os problemas reais e estruturais da sociedade, funcionando como uma cortina de fumo para a nossa incapacidade coletiva de promover a paz.

O caminho para a cura exige uma viagem interior. Se cada cidadão prestasse mais atenção à sua própria hostilidade interna, purificando os seus ressentimentos e dogmas, o contágio do ódio exterior perderia a sua força motriz. Uma sociedade que tolera em demasia o espírito negativo e a barbárie acaba, inevitavelmente, por castigar o bom e o justo. Urge, por isso, resgatar um mundo que tenha a natureza como espelho, garantindo um lugar seguro para todos e para cada um, onde a única lei universal seja o respeito absoluto pela dignidade humana.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

USO E ABUSO DA LINGUAGEM E REESCRITA DO PASSADO

Já não bastava reescrever as palavras, mas até se começa a querer reescrever a memória

Há alguns anos escrevi sobre o uso e sobretudo sobre o abuso da linguagem. Chamava a atenção para uma tendência que, entretanto, se tornou ainda mais visível: a necessidade de substituir palavras simples e diretas por expressões mais sofisticadas, aparentemente respeitadoras, mas muitas vezes destinadas apenas a tornar menos visível aquilo que continua a existir.

A criada passou a empregada doméstica; a empregada doméstica passou a auxiliar de apoio domiciliário; o contínuo transformou-se em auxiliar de ação educativa; o vendedor de medicamentos tornou-se delegado de informação médica; o operário passou a colaborador. Mudavam-se os nomes e, por vezes, parecia acreditar-se que também se tinha mudado a realidade. Era uma espécie de maquilhagem sem terapia.

Hoje, porém, parece-me que a questão ainda é mais grave porque ultrapassou a linguagem. Já não se trata apenas de mudar o nome às coisas. Começamos a querer mudar também a maneira como devemos olhar para aquilo que aconteceu antes de nós. Já não bastava reescrever as palavras e começa a querer-se reescrever a memória.

Vivemos numa época que se considera, justamente ou não, mais esclarecida do que muitas das anteriores. Conhecemos melhor inúmeras injustiças do passado e desenvolvemos uma sensibilidade mais atenta a formas de discriminação que anteriormente eram ignoradas ou aceites. Isto representa, em muitos aspetos, um progresso.

Mas existe uma tentação nesse progresso: a de olhar para trás e imaginar que todas as épocas anteriores foram apenas versões imperfeitas da nossa.

É aqui que aparece o anacronismo. Sentamo-nos confortavelmente no século XXI, munidos dos valores, conceitos e sensibilidades do nosso tempo e julgamos homens e mulheres que viveram há séculos como se tivessem recebido o mesmo manual moral que hoje temos à nossa disposição.

Depois admiramo-nos de descobrir que os gregos não eram modernos, que os romanos não pensavam como nós, que a Idade Média não conhecia as nossas categorias políticas e sociais e que Shakespeare e Camões não escreviam segundo os códigos culturais do nosso tempo.

Descobrimos, afinal, que o passado era passado e que por detrás dele há uma linha de verdade mítica a descobrir.

Estudar História, porém, não significa perguntar apenas se aquilo que aconteceu seria aceitável hoje. Significa também perguntar: como pensavam aquelas pessoas? Em que sociedade viviam? Que valores possuíam? Que conhecimentos tinham? Que alternativas conheciam?

Só depois poderemos formar um juízo.

Não se trata de suspender a moral, mas de não a confundir com a História. Podemos condenar a escravatura e estudar as sociedades escravistas; rejeitar a violência de uma guerra e procurar compreender por que aconteceu; defender hoje a igualdade entre homens e mulheres sem fingir que as sociedades antigas já funcionavam segundo os princípios que consideramos justos.

Podemos criticar o passado sem o falsificar nem abusar dele para fins de mero poder ideológico ou partidário. Esta distinção torna-se particularmente importante quando entramos no território da literatura, do cinema e das adaptações dos clássicos.

Pensemos em “A Odisseia”, que regressa agora ao grande cinema através de Christopher Nolan. Podemos fazer várias leituras dele e uma delas tem a ver com a crítica que aqui apresento e a que ele não resiste. Mas a própria obra de Homero permite colocar uma questão essencial: o que fazemos hoje com uma criação que nasceu num mundo tão distante do nosso? Na generalidade permanece o erro de obrigá-la a falar como nós. Ou podemos procurar descobrir o que ela ainda tem para nos dizer precisamente por não ser como nós.

O mundo de Homero não é o nosso. A sua concepção da honra, da guerra, da família, da hospitalidade, da vingança, do poder, dos deuses e do destino pertence a uma ordem cultural muito diferente.

Ulisses não é um cidadão europeu de 2026 perdido no Mediterrâneo. E, no entanto, reconhecemo-nos nele. Porquê? Porque por detrás da distância histórica existe aquilo a que poderíamos chamar o fundo mítico da experiência humana.

Em Homero além do mito que descreve a passagem axial de um mundo matriarcal para o patriarcal, na sua narrativa o homem regressa, perde-se, deseja,  combate na tentativa de procurar a sua casa. Porém o poder corrompe, a vaidade cega, a vingança destrói e a fidelidade é posta à prova.

O facto é que mudam as épocas e as instituições, mas certas estruturas profundas da condição humana reaparecem no espírito do tempo de cada época. É por isso que os mitos sobrevivem e por vezes transmitem uma verdade mais profunda do que as verdades históricas.

E é  aqui que uma cultura verdadeiramente moderna deveria ser mais criativa: em vez de adaptar o mito antigo aos preconceitos do presente, utilizá-lo para interrogar o presente.

Em vez de transformar Ulisses num homem contemporâneo, perguntar o que há de Ulisses no homem contemporâneo. Em vez de corrigir Penélope segundo as categorias atuais, perguntar o que continuam a significar a espera, a fidelidade e a resistência. Em vez de tornar Aquiles moralmente aceitável para nós, perguntar por que razão a sua cólera continua a ser reconhecível na actualidade. Isto seria uma verdadeira modernização.

Não modernizar o passado, mas modernizar o nosso olhar sobre nós próprios. Os clássicos não sobrevivem porque repetem o presente. Sobrevivem porque o transcendem.

Cada geração tem, naturalmente, o direito de os reinterpretar. A cultura só permanece viva porque é continuamente relida. O problema começa quando reinterpretar passa a significar corrigir e quando a interpretação de uma obra deixa de ser uma possibilidade para se transformar na única leitura moralmente autorizada.

A censura contemporânea nem sempre precisa de proibir. Pode simplesmente dizer: “Podes ler, mas deves compreender isto da maneira correta.” Uma cultura livre precisa, porém, de preservar não apenas a circulação das obras, mas também a liberdade de as interpretar, sem ter dre as difamar para fazer passar bem na fotografia o politicamente correcto actual.

É chegada a hora em que nos deveríamos desconfiar de uma cultura que se considera aberta à diferença, mas tem dificuldade em aceitar a diferença das épocas. Há ainda um paradoxo adicional. Nunca tivemos tanta informação e talvez nunca tenha sido tão fácil confundir informação com conhecimento. Uma frase, um vídeo de poucos segundos, uma imagem, uma opinião e uma indignação sucedem-se numa avalanche permanente. E o busílis da questão é que temos  apenas fragmentos e formamos certezas.

Vivemos numa época que exige muita atenção e espírito crítico porque a informação substitui o estudo, a opinião substitui a reflexão, a indignação substitui o argumento. Talvez este seja um dos novos analfabetismos do nosso tempo: não o de quem não sabe ler, mas o de quem lê incessantemente sem saber distinguir, contextualizar, comparar e pensar.

E assim o passado transforma-se facilmente num tribunal ou em instrumento de formatização à medida do momento ou da ideologia que se quer fazer passar. E então em vez de perguntarmos “Como foi possível que isto acontecesse?”, perguntamos apenas “Como puderam eles fazer isto, quando hoje sabemos que estava errado?”

A primeira pergunta procura compreender. A segunda procura confirmar a nossa superioridade. Maior prudência pressuporia mais sabedoria porque o passado não teve o nosso manual de instruções!

Todas as épocas acreditaram, em maior ou menor grau, que tinham finalmente compreendido o mundo. Também nós acreditamos. Também nós temos os nossos preconceitos, as nossas cegueiras e as nossas verdades que parecem tão evidentes precisamente porque pertencem ao nosso tempo e à formatação que inconscientemente nos obriga. Esquecemos que por detrás da distância histórica existe aquilo a que poderíamos chamar o fundo mítico da experiência humana.

Daqui a cem ou quinhentos anos, outros poderão olhar para as nossas certezas com o mesmo espanto com que hoje olhamos para as certezas dos outros. É essa possibilidade que deveria tornar-nos humildes perante a História, perante religiões, culturas e pessoas passadas. Não precisamos de absolver o passado. Mas também não precisamos de o reescrever. Não precisamos de transformar Homero, Shakespeare ou Cervantes em nossos contemporâneos. Precisamos de compreendê-los como diferentes e, depois, perguntar o que essa diferença revela sobre nós.

Porque o mito é também um espelho. De facto, o tirano muda de nome e o herói muda de roupa e a multidão muda de praça para rede social. A propaganda deixa o pergaminho e entra no algoritmo. Mas a ambição continua ambição, a vaidade continua vaidade, o medo continua medo, o amor continua amor e a traição não precisou de ser modernizada.

Talvez seja por isso que os clássicos continuam a incomodar-nos. Não porque estejam ultrapassados, mas porque não estão suficientemente ultrapassados. Continuam a reconhecer-nos. E um espelho que reconhece o nosso rosto pode ser mais perturbador do que aquele que apenas confirma a imagem que gostaríamos de ter.

Comecei por falar da mudança das palavras. Hoje parece-me que a questão é maior, porque primeiro mudámos os nomes das coisas, depois começámos a mudar o significado das coisas e agora corremos o risco de mudar a maneira como recordamos aquilo que aconteceu.

É aqui que o eufemismo pode transformar-se em algo mais perigoso, porque uma coisa é tornar a linguagem mais civilizada e outra é tornar a memória mais conveniente.

Talvez a verdadeira atitude moderna não seja obrigar o passado a usar as roupas do presente. Talvez seja ter imaginação suficiente para olhar para o presente através dos olhos do passado e descobrir que, apesar de todas as nossas máquinas, teorias e certezas, continuamos a representar muitos dos velhos dramas humanos.

Em vez de perguntarmos apenas o que há de errado com os clássicos à luz dos nossos valores, seria de  perguntar: O que é que eles conseguem revelar sobre os nossos próprios limites?

Essa pergunta exige mais conhecimento, mais imaginação, mais criatividade e, sobretudo, mais humildade, porque o passado não é um aluno atrasado que espera pela nossa correção.

Somos nós que, inevitavelmente, acabaremos por ser passado. O nosso paradoxo contemporâneo é sermos muito tolerantes com a diferença, mas só enquanto a diferença pensar como nós.

Penso que por trás de um discurso moderno e por vezes snobe se esconde uma modernidade que tem medo dos clássicos. Que modernidade é esta que pretende corrigir Homero para se sentir moralmente superior a Homero. Que modernidade é esta que transforma Shakespeare num acusado e Cervantes num suspeito!

O que falta no nosso tempo é uma modernidade suficientemente segura de si para escutar o passado sem o domesticar e que talvez seja capaz de dizer :“Não penso como tu. Mas quero compreender por que pensavas assim e deixa-me descobrir o que em ti continua a existir em mim.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578