Que língua falar em casa?
António Justo
Numa Europa cada vez mais inter-cultural, por razões económicas, políticas e demográficas, habituámo-nos a viver nas mais diversas situações de comunicação. Os grupos étnicos de menor relevância numérica encontram-se, muitas vezes, sujeitos às leis da inércia ou abandonados à lei do mais forte, deixando-se assimilar totalmente pela cultura dominante, enquanto que outros (turcos), por razões históricas, de religião e de cultura, reagem alergicamente a uma integração mesmo comedida, fechando-se por vezes em guetos impermeáveis.
Esta problemática é bastante crassa na Alemanha pelo facto da questão migrante não ser objecto da discussão intelectual e política sendo apenas mencionada à margem, no âmbito da assistência social ou nas cervejarias. Uma relação descomplexada e consciente, entre a cultura da maioria e as culturas minoritárias, traria mais proveito para todos.
Os portugueses terão que fazer esforços no sentido duma acção coordenada a nível de instituições, de associações e de multiplicadores para se afirmarem, sem se imporem, conscientes dum património cultural e vivencial rico que, a perder-se, constituiria um empobrecimento geral da sociedade de que fazem parte.
Seria de desejar que as crianças com raízes portuguesas continuassem a crescer num ambiente bilingue e, portanto, aprendessem a língua portuguesa e a língua alemã, francesa etc, conforme o país em que se encontrem. O mesmo se diga para o caso dos casamentos mistos. Destes é de esperar maior consciência da importância da transmissão de duas culturas, isto é, de uma maneira diferente de estar no mundo. A formação bilingue deve ser introduzida a partir do nascimento da criança, pelo facto da capacidade de aprendizagem duma língua ser inversa à idade.
É verdade que a criança, até aos dois anos reproduz palavras, misturando as duas línguas; com o tempo porém surge a diferenciação e a partir dos dois anos já separa os dois códigos e a partir dos três anos e meio passa a distinguir os dois mundos.
A aquisição das línguas acontece em diferentes situações, seja ela movida pela necessidade de comunicar com os companheiros de jogo ou com as famílias, obedecendo sempre a diferentes regras e pressupostos. Esta aprendizagem situacional variada é muito proveitosa para a aquisição de outras línguas.
A aprendizagem posterior duma língua (na escola) dá-se segundo o filtro inicial das primeiras línguas. O bebé aprende já no primeiro ano de vida a variedade de sons que facilitará a expressão futura. Facto é que quanto mais complexa for a língua mais possibilidades abre, mesmo até cerebralmente.
Personalidade enriquecida, aberta e reflectida: uma outra forma de ser e de estar
Para nos darmos conta da importância do assunto torna-se necessário reconhecer a dependência e a correlação que há entre pensamento, linguagem e estrutura social.
A personalidade do bilingue é diferente da do monolingue. Enquanto que as referências e estruturação do monolingue se processam duma forma mais estática e modelar, no bilingue é mais processual, mais dinâmica e diferenciada. O bilingue, mais que ter ou estar, ele acontece em relação.
Ser bilingue é ser-se processo, processo na mudança, não é ter duas línguas mas viver em duas línguas, em dois mundos, navegar noutros espaços; é ter vistas mais rasgadas, outras perspectivas do mundo, é participação mais livre, conhecimentos dinâmicos; é viver amando, aceitando o outro como ele é, aberto para comunicar, dar e receber… comunicar-se como forma de vida; é uma nova mundivisão onde não há modelos fixos em que instituições e valores passam a ser referenciados e portanto relativizados para mais se poder ser; é viver em mais que uma existência. Numa palavra, o bilingue tem uma personalidade multi-dialogal cuja forma de ver e sentir é multi-referencial, referencial, processual – dinâmica, já não é tão estática e “subordinada”como a do monolingue mais local.
O bilingue encontra-se, mais cedo que o monolingue, na necessidade duma relação de se tornar mais sujeito e menos objecto das tradições e sistemas que o vão forjando. De facto tem de superar a tensão sociedade da sociedade de envio e da sociedade de acolhimento. Uma sociedade de acolhimento que já é capaz de integrar e aceitar lésbicas e homossexuais tem que ser capaz de integrar o diferente, o estranho… Para isso, temos de nos tornar conscientes que a diferença é a lei mais verificada na natureza.
Problematização
Os cientistas têm escrito muito sobre a questão do bilinguismo, chegando por vezes a resultados contraditórios. Há cientistas que recomendam que se fale com a criança a língua que se domina; significando isto que nos casos de casamentos mistos (português – alemão) um cônjuge fale o português e o outro o alemão. Outros chegam mais além desproblematizando o processo de aprendizagem, defendendo mesmo a mistura segundo as situações.
Ao contrário os puristas/nacionalistas, principalmente no passado, apontavam para o problema de se originar uma língua mistura, chegando mesmo a falar de analfabetismo nas duas línguas ou da falta duma identidade étnica ou mesmo do perigo duma dupla personalidade da criança. Facto é que esta opinião nunca foi comprovada científicamente. Muitas vezes esta visão tem um carácter ideológico e remonta aos constructos nacionalistas do século dezanove.
Importância da aprendizagem da língua dos pais/avós nos primeiros anos
Nas famílias em que a língua falada é puramente portuguesa ou mesmo de mistura, a criança terá esta língua como materna e falá-la-á em casa até aos três anos. Com a entrada no Jardim Infantil o alemão passará a dominar e a acentuar-se cada vez mais socialmente, mesmo que os pais falem só português em casa.
Nos primeiros anos da infância a criança tem grande capacidade de absorção das duas ou mais línguas sem dificuldade.Com o desenvolver dos anos a dificuldade aumenta. Dadas as capacidades das crianças na primeira infância para aquisição de várias línguas (até aos 6 anos), seria um roubo à criança se esta fosse privada duma das línguas. É natural que a vida nem sempre permite fazer o que seria melhor; se pessoalmente nem sempre se tem a disposição para falar o português, as duas línguas, podemos socorrer-nos de estratégias supletivas, ligando mais os avós nas relações com a criança, criando mais encontros com famílias portuguesas, frequentando mais os centos portugueses, interferindo mais na programação das suas actividades e planeando mais férias em Portugal.
No caso de casamentos mistos penso ser de muita importância que cada um dos pais fale a sua língua materna deixando a oportunidade e liberdade à criança de se expressar na língua que quiser. O facto de um cônjuge falar sempre o português leva a criança a interiorizar o português, embora o não use no dia a dia como língua de expressão.
O português transmitido nos primeiros anos de vida, embora limitado a relações gregárias, tem imensa importância no desenvolvimento; é muito relevante para o desenvolvimento psicológico, intelectual e social da mesma. Constitui um capital cultural e uma herança muito rica com imensas consequências gratificantes para o futuro e para a personalidade da criança.
Ensino da Língua “materna”
A inscrição das crianças nos cursos de Língua e Cultura Portuguesas é essencial para o alargamento da competência comunicativa. Esta deve ser aprofundada e reflectida nos seus aspectos de competência sociolinguística, sócio-cultural, de competência estratégica, discursiva e de competência empática.
Conscientes da importância da língua e da cultura dos pais para as crianças, os Estados federados alemães instituíram, desde 1968, o Ensino da Língua Materna no seu currículo escolar com uma componente lectiva de 3 – 5 horas lectivas semanais. É reconhecida grande importância à aquisição da língua dos antepassados, por razões socio-pedagógicas, psicológicas e económicas.
Todos os bilingues deveriam ter a oportunidade de ter uma formação bilingue. Uma educação inter-cultural deveria ser possível em todas as escolas e para todos os alunos. Os bilingues serão os mais preparados para manter a relação e estabelecer pontes entre gerações e culturas. É preciso incentivar-se a motivação. É compreensível a relutância que muitas crianças apresentam perante a aprendizagem do português, atendendo à sobrecarga que significa e a concorrer com actividades imediatamente gratificantes.
A língua portuguesa, tal como outras línguas de culturas minoritárias em diáspora, está sujeita a preconceitos criados pela cultura dominante sendo, além disso, uma língua falada reduzida ao ambiente familiar o que contribui para preconceitos que poderiam ser desfeitos através da frequência da língua materna.
Por vezes os pais deixam-se impressionar pela pressão de professores alemães, que, em alguns casos, aconselham os alunos a não frequentarem o Ensino da Língua “Materna”, ou porque os pais não querem sobrecarregar os filhos com as aulas de português, ou ainda porque os filhos preferem ter a tarde livre tal como os colegas alemães.
Se é verdade que, muitas vezes, a criança não tem a mesma competência linguística nas duas línguas, apresentando problemas numa delas, isso não quer dizer que deva abandonar o português seja este a língua forte ou a língua fraca.
Pais desinformados não inscrevem os filhos na escola logo na primeira ou segunda classe tornando-se depois cada vez mais difícil inscrevê-los. Se é verdade que a criança no primeiro ano deve ser alfabetizada no alemão, também é verdade que ela, ao frequentar, simultaneamente, a escola portuguesa, começa logo a ter a experiência duma aprendizagem estruturada da língua, se bem que a princípio, apenas oralmente e através de jogos, imagens e de desenhos. Possibilita-se-lhe assim a experiência duma diferente forma de estar no mundo, ao comunicar e brincar com os companheiros da “escola portuguesa”, sendo isto muito importante para a socialização e aquisição de hábitos nos verdes anos.
Enquanto as elites estrangeiras, conscientes da importância da formação inter-cultural, (por exemplo: os japoneses) criam escolas privadas pagando bem para que a sua língua e cultura sejam transmitidas aos seus filhos, observam-se pais distraídos que, embora com ensino gratuito, não se preocupam com a escolarização dos filhos no português.
Para todos aqueles que podendo, sem grande esforço, usufruir do ensino do português gratuito não recorrem a ele, a não inscrição dos filhos na escola constitui um atestado de pobreza de espírito. Não se trata de elevar o português aos cornos da lua pelo facto dele ocupar o quinto lugar das línguas mais faladas do mundo mas de se cultivar, organizar e planear indirectamente o futuro proporcionando perspectivas à vida dos filhos.
Devo dizer que, nas zonas onde ensino o português, tenho deparado com grande interesse. Quase a totalidade dos pais portugueses envia os seus filhos às aulas de Língua Materna, ficando embora a escola, para muitos a 20 quilómetros de distância. Isto prova o interesse e consciência dos encarregados de educação em perfeito contraste com políticas de ensino tendentes a acabar com o ensino da Língua materna para o tornarem apenas acessível a alunos liceais (do Gymnasium) onde a concentração populacional escolar e a procura no respectivo liceu o permitir. (Esta é uma política ilusória desconhecedora da realidade alemã, tendente a acabar com o português pela raiz e abandonando infra estruturas que precisariam sim de revitalização).
Situação a evitar
É fatal adiar a inscrição das crianças nos Cursos de Português. A inscrição deve ser feita o mais cedo possível.
Há crianças cujo contacto com o português se processa pela negativa. Isto dá-se nos casos em que alguns pais, falando habitualmente o alemão em casa com os filhos, em casos conflituosos usam o português apenas para ralhar ou castigar. A criança passa assim a ter uma experiência muito parcial do português, associando-o à negatividade além de o não experimentar como veículo normal de comunicação. Nestas condições a criança não pode ter nenhuma motivação para aprender o português.
Há encarregados de educação que para aprenderem o alemão deixam de falar o português optando por um alemão macarrónico, habituando a criança a estruturas de língua não correctas.
Vantagens do bilinguismo
Uma plurilingualidade viva constitui um enriquecimento para a personalidade aos mais diversos níveis. De facto dá-se uma relação enriquecedora e mútua entre funções da língua e funções cerebrais. Uma pessoa, que desde a primeira infância fale várias línguas, activa, de maneira particular, os centros da língua no cérebro e interliga várias funções cerebrais, dado as acções da língua se armazenarem nos dois globos do cérebro.
O domínio de línguas facilita também a aquisição dos outros idiomas; além de alargar a riqueza fonética específica e a melodia das línguas, capacita a pessoa para novas visões da realidade, para a diferenciação e reconhecimento da diferença. Também se potencializa o aproveitamento escolar da criança.
Crianças bilingues orientam-se de maneira diferente das crianças monolingues. As bilingues aprendem cedo a diferenciar situações e a posicionar-se situacionalmente. Elas têm de desenvolver mais estratégias de expressão adquirindo assim competências contextuais, de conexão bem como competências meta-línguísticas (que vão mais longe do que a língua, como aspectos neuro-psicológicos etc.). A bilingualidade promove, além do mais, o desenvolvimento de competências de interacção cultural
Os pais não podem abdicar da sua missão caindo num laissez faire irreflectido. Para o desenvolvimento posterior da língua é responsável a escola. A semente tem porém de ser lançada pelos pais/avós. É urgente capacitar os jovens a poderem viver e expressar-se nos dois mundos. Deste modo capacitamos os nossos educandos a maior reflexão e o refúgio em vários mundos. O bilinguismo, o trilinguismo serão realidade numa Europa do futuro. Numa Europa multi-étnica, o domínio de línguas abre muitas chances culturais e económicas.
É preciso criar-se o espaço da Língua Portuguesa como o espaço de existência de formas e experiências vitais diferentes com muito espaço para a liberdade e criatividade onde se aprende o afecto na relação autêntica e verdadeira. Neste sentido têm que se empenhar pais, associações, estado, multiplicadores, RTPi etc. A RTPi tem que repensar os seus programas que normalmente “espantam” a criança bem como pessoas de espírito jovem ao serem confrontadas com programas de conversa ou melo-saudosistas /futebolísticos voltados apenas para um tipo especial de emigrantes.
António Justo
(Professor de Língua e Cultura Portuguesas na zona de Kassel e docente de Português na Universidade de Kassel), Maio de 2001