A EUROPA ENTRE O ESQUECIMENTO DO SER E A SACRALIZAÇÃO DA GUERRA

Institucionalização de um poder sem rosto

Vivemos um tempo que não é apenas de mudança histórica, mas de mutação ontológica. Aquilo a que se chama “nova era” ou “nova ordem” não se anuncia apenas por rearranjos geopolíticos, mas por uma transformação radical da forma como o homem se compreende a si próprio, ao poder, à técnica e à guerra. Como diria Martin Heidegger, não estamos perante uma simples crise política, mas perante o “esquecimento do Ser”, em que tudo passa a valer apenas enquanto recurso disponível, incluindo o homem, os povos e a própria paz.

A União Europeia apresenta-se como um projeto moral, herdeiro do humanismo cristão e da razão iluminista, mas tornou-se, na prática, um espaço dominado pelo que Romano Guardini já pressentia como o advento de um “poder sem rosto”, tecnicamente eficiente e espiritualmente vazio. O discurso oficial invoca valores universais, direitos e progresso; contudo, nos bastidores decisórios, o critério último é económico-financeiro e estratégico. A linguagem ética funciona como véu, não como fundamento e o povo é tratado de forma cínica.

Esta dissociação entre palavra e realidade constitui uma das formas mais sofisticadas de niilismo contemporâneo. Joseph Ratzinger, um dos maiores intelectuais europeu contemporâneo, alertou:  quando a razão se separa da verdade e se reduz a racionalidade instrumental, ela deixa de libertar e passa a dominar. O bem torna-se aquilo que é funcional; o mal, aquilo que resiste. Assim, a guerra pode ser progressivamente encenada como meio legítimo, necessário e até “humanitário”, desde que integrada numa narrativa moralmente aceitável.

Eric Voegelin descreveu este processo como a “imanentização do eschaton”, isto é, a tentativa de realizar, por meios políticos e técnicos, uma redenção que pertence à ordem espiritual. Quando a política assume funções salvíficas, ela exige inimigos absolutos e conflitos permanentes. A guerra deixa então de ser uma tragédia a evitar e passa a ser apresentada como instrumento pedagógico da História, como mecanismo de purificação ou de avanço civilizacional.

É neste contexto que devemos compreender a crescente normalização do discurso bélico no espaço europeu. A guerra não é apenas preparada nos arsenais, mas sobretudo nas consciências. Os meios de comunicação, os centros de produção académica, os discursos institucionais e até certas aplicações da inteligência artificial contribuem para moldar uma perceção da realidade em que o conflito aparece como inevitável, ou pior, como desejável. A técnica, que deveria servir o homem, passa a formatar o seu horizonte moral.

Também a inteligência artificial, enquanto espelho ampliado da racionalidade dominante, está naturalmente dependente dos bastidores ideológicos: ela reproduz padrões, narrativas e prioridades inscritas nos sistemas de poder que a alimentam. Não cria o mal, mas acelera e torna mais eficaz aquilo que já está decidido a montante. O perigo não está na máquina, mas na visão do homem que a orienta, um homem reduzido a consumidor, produtor ou dano colateral.

Paralelamente, assiste-se à erosão deliberada da cultura humanista europeia. Não se trata de abertura ao outro, mas de desintegração do próprio. Tradições espirituais, religiosas e culturais são relativizadas ou instrumentalizadas conforme conveniências geopolíticas. Religiões deixam de ser compreendidas como caminhos espirituais e passam a ser tratadas como forças políticas ou demográficas, peças num tabuleiro de poder global. O problema não é a fé, mas a sua captura pela lógica imperial, seja ela religiosa, tecnocrática ou financeira.

A Europa, ao renegar as suas raízes espirituais em nome de uma neutralidade impossível, torna-se incapaz de verdadeiro diálogo e vulnerável a todas as formas de colonização ideológica. Sem uma metafísica do limite, resta apenas a expansão indefinida do poder. Sem transcendência, tudo se torna negociável, inclusive a vida humana, por isso fomentam a agressividade e a incompreensão relativamente ao cristianismo e defendem o Islão para não terem um espelho metafísico que os reflita nem quem esteja do lado do povo e expresse a sua voz.

Talvez por isso a verdadeira resistência, hoje, já não possa ser militar nem ideológica. Essas linguagens pertencem ao mesmo horizonte que pretendemos questionar. A resistência terá de ser cultural, ética e espiritual, uma recusa silenciosa mas firme de aceitar a mentira como norma e a guerra como destino. Resistir será preservar a memória, a consciência e a pergunta pelo sentido, num mundo que prefere respostas rápidas e funcionais.

Como advertia Romano Guardini, o futuro não pertence aos sistemas mais poderosos, mas aos homens interiormente livres. E, como lembrava Joseph Ratzinger, uma Europa que perde a sua alma perde inevitavelmente também a capacidade de gerar paz. Se ainda existir uma saída para este tempo sombrio, ela não nascerá dos centros de poder nem das engenharias institucionais, mas da fidelidade à verdade do ser humano, esse mistério irredutível que nenhuma técnica, nenhuma ideologia e nenhuma guerra conseguem esgotar.

Essa fidelidade exige um despertar da consciência coletiva, a redescoberta de que o homem não está só nem abandonado à lógica da força, mas permanece situado numa ordem mais alta de sentido. Dito de outro modo: só um povo que reconhece que Deus caminha com ele pode resistir à absolutização do poder terreno. Recordo, a este propósito, a voz do meu pai ao repetir o antigo adágio “a voz do povo é a voz de Deus”. Mas importa acrescentar: essa identificação só permanece verdadeira enquanto a voz do povo não se deixa capturar, manipular ou substituir pelas narrativas de um poder que, precisamente por isso, se arroga cada vez mais uma pretensão de omnipresença e omnipotência.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo social

Pegadas do Tempo

 

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TRIBALIZAÇÃO CONTEMPORÂNEA E PERDA DA IDENTIDADE PESSOAL

Será possível uma matriz de orientação onde alguém poderá falar ao ser humano na qualidade de humano sem o reduzir a função, massa ou rebanho?

Na continuação do que escrevi no artigo DA GEOPOLÍTICA À METAFÍSICA DO PODER não estamos apenas perante uma regressão histórica, mas perante uma mutação antropológica regressiva.

A tribalização do nosso tempo não guarda a essência da tribo arcaica. É fenômeno mais grave ainda, ao ponto de consciências atentas e sensíveis se sentirem como viajantes numa estação cultural derradeira. Esta nova agregação tribal carece de cosmologia integrada, não brota da observação paciente do mundo natural, chegando, em seu desvio, a negá-lo, como atesta a sua marcante ausência de feminilidade. E, sobretudo, é estéril: não gera a seiva profunda da sabedoria simbólica, como em teologias, filosofias e literaturas passadas; deste modo reduz a pessoa ao nível do ovino de rosto virado para a relva.

A sociedade tribal que estamos a forjar não é feita de clãs orgânicos, mas de arquipélagos funcionais, artificiais, regidos por algoritmos frios. Tome-se como exemplo certas expressões do fenómeno woke: erguem uma identidade que é pura superfície, sem interioridade colectiva autêntica. É uma militância sem comunhão, uma bandeira sem transcendência, uma tribo de código reducionista, não de sangue, terra ou mito.

Os indivíduos ganham visibilidade em grupos, mas perdem a sua ipseidade (1) e isto é decisivo. Sem singularidade e essência individual própria não há responsabilidade, não há consciência moral e não há liberdade verdadeira.

Historicamente, a antropologia cristã foi o antídoto, afirmando cada pessoa como irrepetível e portadora do divino, anterior a qualquer grupo. E quando este eixo se perde, regressamos não à tribo natural, mas à horda administrada.

 

Modernidades múltiplas de pluralidade sem fundamento

A ideia de “modernidades múltiplas ou de interculturalismos” poderia ser fecunda se assentasse numa verdade comum (Logos), isto é, numa referência à natureza, e à tradição, numa ética do real e numa conceção do humano como medida (à imagem do protótipo Jesus Cristo).

Em vez disto observamos pluralidade sem verdade, diversidade sem critério e diferença sem orientação. Nesta perspectiva já não há ligação às leis da natureza nem à observação do real.
A cultura deixa de ser cultivo e passa a ser construção arbitrária.

Neste quadro, o cientista Samuel P. Huntington em “O choque de civilizações” apenas descreveu fricções de superfície. O verdadeiro “choque” não é entre civilizações, mas entre visões do humano como ser-com-sentido versus  entidade moldável (concepção esta observável nas narrativas dos media na EU em que não interessa apresentar factos mas enquadrá-los numa interpretação funcional pós fática destinada a moldar consciências em função do regime-sistema coisa que já se observa há mais tempo em estados socialistas).

O papel do poder expressa-se em decompor para governar

A decomposição em via especialmente na civilização ocidental não é ingénua ao ser mais agressiva no ocidente onde a consciência da dignidade humana e dos direitos humanos nasceu; a decomposição não é acidental; ela é estrutural e intencional porque o poder contemporâneo não quer indivíduos conscientes, não quer comunidades enraizadas (por isso vem-lhe a jeito a infiltração de guetos muçulmanos) nem quer transcendência operativa na civilização ocidental. O poder contemporâneo fomenta fragmentação, grupos reativos e espiritualidades neutralizadas, pervertendo o espiritual como pedagogia de submissão em vez de libertação. (veja-se o cultivo de práticas budistas, que bem doseadas poderiam servir para o bem-estar dos corpos mas não como alternativas).

Aqui entra a perversão do espiritual como pedagogia de submissão: não para libertar, mas para pacificar.

A questão decisiva: a Igreja católica percebeu o tempo?

É uma questão séria, mas justa: parece que o catolicismo não está a compreender o momento histórico que realmente está a acontecer, ao tratar a crise apenas como uma questão social. Historicamente, a Igreja foi a primeira instituição verdadeiramente global; foi a primeira a afirmar a dignidade universal da pessoa e foi a primeira a colocar limites éticos ao poder.

Hoje a Igreja católica vive uma tensão interna profunda que se poderia explicar com o seu  desvio excessivamente pedagógico (oportuno para a época de civilizar os povos bárbaros na europa) mas  com a negligência da missão mística e ontológica (explicável para a altura em que com a coroação do imperador Carlos Magno se tratava de colocar os fundamentos para a formação da civilização  europeia, começada na era medieval).

De facto, nessa era pedagógica a Igreja empenhou-se sobretudo na sua missão pedagógica estabelecendo-se como educadora moral, mediadora social e como agente humanitário. Tudo isso foi legítimo e oportuno no passado da história europeia, mas tornou-se insuficiente.

A sua missão mais profunda não é ensinar comportamentos, mas defender a estrutura do ser humano enquanto lugar de integração do divino (naturalmente sem perder de vista os biótopos culturais em que está inserida).

Quando a Igreja abdica de falar do ser e se limita ao agir, não responde aos sinais dos tempos que sopram especialmente na Europa e apontam para uma espiritualidade de caracter mais mística. O ponto chave da missão hodierna será complementar o ser com o estar.

O mundo atual absolutiza o estar centrando-se no contexto e na situação; absolutiza o ter com posse e acesso à riqueza e redu-lo a performance no mero funcionar.
A missão própria do cristianismo não é negar isso, mas integrá-lo no ser. Porque para o cristianismo o humano não é meio para a economia, não é meio para a ideologia nem meio para a estabilidade do sistema.

O ser humano é fim em si em estado processual. Não é um fim fechado, mas um ser em caminho, aberto à divinização.
Isto é radicalmente incompatível com qualquer forma de poder totalizante.

Pode o catolicismo oferecer uma matriz globalizante alternativa?

Sim, em potência tem tudo o que é preciso desde que não seja teocrática como é o caso do islão, mas que acentue a ralação humano-divina como se encontra expressa no protótipo Jesus Cristo. Não deve ser moralista nem disciplinadora. A nova era exige dela que acentue mais o aspecto antropológico e ontológico na perspectiva espiritual.

O catolicismo poderia oferecer uma matriz globalizante não opressiva baseada em: Centralidade da pessoa (não do grupo ou função), (acentuando a relação eu-tu-nós, fórmula trinitária na perspetiva inter-relacional e não funcional); consciência como soberania, dado a verdadeira soberania não ser territorial, mas interior; uma transcendência não instrumentalizada porque o espiritual não serve para governar, mas para libertar; pressupõe comunhão sem dissolução da individualidade e que a Verdade surja como horizonte e experiência, não como arma, sem contudo cair no relativismo e no dogmatismo.

Uma tal matriz é profundamente cristã, mas, tal como Jesus Cristo, não confessional no sentido estreito da palavra. Assim seria oferecível à humanidade sem submissão.

O risco e a oportunidade

Aqui, atendendo à estruturas sociais e também de pensamento seria de se meditar sobre a frase de Paulo quando constata “Oh felix culpa” … que implicaria uma abordagem teológica além de antropológica e sociológica.

O risco é claro porque a Igreja poderia tornar-se irrelevante ou cúmplice por omissão.

A oportunidade da Igreja neste tempo histórico é ser a última garante da consciência humana num mundo funcionalizado. Não como poder concorrente, mas como instância de sentido que o poder secular deveria sustentar e implementar.

Conclusão

O que aqui proponho é mais uma reflexão que implica não o regresso ao passado nem tão-pouco uma restauração. Tratar-se-ia de uma transfiguração do papel do catolicismo, menos gestor de moral, menos pedagogo social, mais guardião do humano como lugar do divino num confronto entre antropologia cristã e antropologia tecnopolítica.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
© Pegadas do Tempo

(1) Ipseidade refere-se à qualidade do que é “ele mesmo” ou “em si mesmo”, a singularidade e identidade própria de um ser, a sua característica única que o diferencia dos outros e a consciência dessa individualidade ao longo do tempo. É a percepção de continuidade e pertencimento de si mesmo, fundamental para o senso de identidade pessoal, sendo um conceito central na fenomenologia, explorado por filósofos como Paul Ricoeur e Martin Heidegger. Este conceito baseia-se na visão cristã do ser humano ao mesmo tempo como corpo e alma, como matéria e divino (filho). Daí o conceito de pessoa com o ser soberano a nível de consciência e de agente social e institucional.

 

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CANTO DA GERAÇÃO AUSENTE

Cantemos.
Não por glória,
mas por justiça.

Cantemos os que partiram
com a mala pequena
e o coração excessivo.
Os que deixaram a terra
não por desprezo,
mas porque a terra já não os segurava.

Cantemos a geração empurrada
para fora do mapa,
como se o futuro tivesse fronteiras
e o pão escolhesse passaporte.

Partimos.
Partimos jovens,
com diplomas inúteis e mãos dispostas,
com a voz ainda cheia de aldeia,
com a esperança ferida, mas viva.

Partimos porque ficar
era morrer devagar.

E no estrangeiro
fomos pedra,
fomos braço,
fomos silêncio.

Erguemos casas onde não dormimos,
pontes que não atravessámos,
riquezas que não nos pertenceram.
Aprendemos outras línguas
sem nunca perder a nossa dor.

Cantemos os que aceitaram ser “estrangeiros”
todos os dias,
mesmo quando pagavam impostos,
mesmo quando salvavam economias,
mesmo quando faziam funcionar
o que outros não quiseram fazer.

E enquanto o corpo trabalhava fora,
o coração ficava.

Ficava nas mães envelhecidas,
nos pais que esperavam chamadas,
nos filhos criados por fotografias.
Ficava no país que ardia no verão
e chorava no inverno.

E todos os meses,
como um ritual antigo,
enviávamos dinheiro.
Não como gesto de riqueza,
mas como prova de pertença.

Remessas de sacrifício.
Notas manchadas de saudade.
Economia sustentada
por ausentes.

Cantemos agora a ingratidão.

A palavra fria.
O olhar que desconfia.
A frase que fere:
“Vocês já não estão cá.”

Como se a distância apagasse o sangue.
Como se o exílio anulasse a cidadania.
Como se duas semanas de regresso
fossem turismo
e não sobrevivência da alma.

Cantemos a ferida maior:
quando o país que não nos segurou
nos quer agora calados.

Quer-nos úteis,
mas não participantes.
Quer-nos remetentes,
mas não votantes.
Quer-nos portugueses só até ao limite
do incómodo.

Mas nós respondemos,
em uníssono,
em português:

Não deixámos de sofrer.
Não deixámos de pensar.
Não deixámos de pertencer.

Chorámos incêndios à distância
como quem perde a casa duas vezes.
Vivemos crises como quem observa
o próprio coração a ser governado
sem voz.

Somos a geração sacrificada.
A que pagou o preço da permanência alheia.
A que saiu para que outros ficassem.
A que envelhece entre países
sem nunca deixar de ser inteira.

Cantemos, então,
não como lamento estéril,
mas como memória viva.

Porque um país que esquece os seus emigrantes
não perde população,
perde consciência.

E nós, dispersos pelo mundo,
continuamos a cantar.

Com voz firme.
Com dignidade intacta.
Com Portugal inteiro
dentro do peito.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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O VOTO DA DIÁSPORA – DIREITO OU PRIVILÉGIO?

Do “Portugal ingrato” ao debate sobre quem merece representação

O debate sobre o direito de voto dos emigrantes portugueses regressa ciclicamente ao espaço público, quase sempre envolto em simplificações e ressentimentos. O presente artigo nasce como resposta a um comentário deixado por um leitor ao meu texto “O Papel da Diáspora rumo a uma Democracia Participativa”(1), onde ele defendia que o direito de voto deveria ser exclusivo dos residentes em Portugal. Cito o que ele escreveu:“Quem foi para fora devia votar onde está. Incomoda-me que quem vem passar férias duas semanas possa escolher os nossos representantes”.

A afirmação, embora frequente, revela uma visão redutora da emigração portuguesa e levanta uma questão mais profunda: de onde vem esta resistência ao voto da diáspora? Será mera inveja popular, alimentada pela ideia, muitas vezes falsa, de sucesso fácil no estrangeiro? Ou será antes a expressão de uma má consciência colectiva, particularmente da classe política, que, incapaz de criar condições dignas para fixar os seus cidadãos, prefere afastar da decisão democrática aqueles cuja saída expõe esse fracasso estrutural?

A diáspora portuguesa não é um corpo estranho à nação. Pelo contrário, é parte integrante dela. Mantém laços familiares, culturais, afectivos e económicos profundos com Portugal. O seu voto não é um capricho nem um “turismo eleitoral”: é a afirmação de um direito cívico de cidadãos que, muitas vezes forçados a emigrar, continuam a contribuir para o país e a ser diretamente afectados pelas suas políticas. Ignorar este facto é perpetuar um ciclo de ingratidão e desresponsabilização.

Desde logo, importa esclarecer um equívoco que se afigura no imaginário popular: sim, porque emigrantes não são turistas. A comparação é ofensiva e falsa. Um turista visita um país por lazer, sem vínculos duradouros. Um emigrante português constrói a sua vida noutro país por necessidade económica, profissional ou social, mas raramente rompe com Portugal. Mantém família no território nacional, acompanha a vida política, investe, paga impostos, envia remessas, planeia regressar ou envelhecer no país de origem. Reduzir esta relação vital a “duas semanas de férias” é desconhecer a realidade e ignorar o contributo efectivo da emigração para o desenvolvimento nacional.

As políticas públicas decididas em Lisboa têm impacto direto na vida dos emigrantes. Afetam os seus familiares que vivem em Portugal, influenciam o valor e a fiscalidade das suas propriedades, condicionam investimentos, reformas futuras e direitos de cidadania consagrados na lei. A sua nacionalidade portuguesa e tudo o que dela decorre, do acesso consular ao passaporte, é definida por leis votadas na Assembleia da República. Como sustentar, então, que não devem ter voz na escolha dos representantes que produzem essas leis?  Estima-se que existam quase 2,1 milhões de portugueses a viver no estrangeiro, mas o número de lusodescendentes (incluindo nascidos em Portugal e seus descendentes) ultrapassa os 5 milhões, distribuídos pelos maiores contingentes na Europa (França, Suíça, Reino Unido, Alemanha) e Américas (Brasil, EUA, Canadá, Venezuela).

A democracia moderna funda-se na cidadania, não na residência circunstancial. A Constituição da República Portuguesa é clara ao garantir o direito de voto a todos os cidadãos portugueses. A residência serve apenas para definir círculos eleitorais, território nacional ou emigração e não para criar cidadãos de primeira e de segunda categoria. Se aceitássemos que só “quem está cá” pode votar, abrimos a porta a uma perigosa erosão dos direitos fundamentais.

Também não corresponde à verdade a ideia de que os emigrantes votam de forma desinformada. Num mundo globalizado, com acesso permanente à imprensa, à rádio, à televisão e ao debate online, muitos acompanham a actualidade política portuguesa com atenção redobrada. Participam em associações, promovem debates, discutem programas e mantêm um interesse visceral no futuro do país. A distância geográfica não equivale a afastamento cívico.

Reconhecer o voto da emigração é também reconhecer a sua importância nacional. A diáspora portuguesa tem sido, ao longo de muitíssimas gerações, um verdadeiro pilar da economia portuguesa. Só em 2024, as remessas enviadas por emigrantes atingiram 4,3 mil milhões de euros, um valor largamente superior às remessas enviadas por imigrantes em Portugal para os seus países de origem, que rondaram os 845,7 milhões. Para além do impacto económico, os emigrantes são embaixadores da língua e da cultura portuguesas no mundo. Negar-lhes o voto é negar essa pertença e transformar a nacionalidade num estatuto condicional.

Importa ainda desmontar o argumento logístico tantas vezes invocado para deslegitimar o voto da diáspora. O sistema eleitoral português já distingue, de forma clara, entre cidadãos residentes no estrangeiro e cidadãos temporariamente ausentes do território nacional. O voto digital resolveria todo o problema! Eventuais abusos, lacunas imperfeições operativas não constituem fundamento legítimo para a supressão de direitos fundamentais a milhões de cidadãos; exigem, isso sim, correções administrativas, reforço da transparência e vontade política.

Mais grave é quando essas fragilidades são instrumentalizadas ou acompanhadas por opções governativas que, em conivência com interesses estrangeiros, acabam por penalizar os próprios emigrantes. O caso do acordo entre Portugal e a Suíça é paradigmático: em nome de interesses económicos alheios, o Estado português aceitou soluções que prejudicaram os seus cidadãos no estrangeiro. O mesmo padrão se verificou durante décadas com o imposto extraordinário aplicado aos emigrantes que pretendiam importar o seu próprio automóvel, situação em que Portugal preferiu pagar avultadas multas à União Europeia por incumprimento da lei comunitária a pôr termo a uma prática claramente lesiva dos seus nacionais. Só após décadas de exploração esta legislação viria a ser corrigida, num silêncio quase total dos meios de comunicação social, demasiadas vezes comprometidos com o regime e alheios à realidade da emigração e também do povo português em geral.

A hostilidade ao voto da diáspora assenta, muitas vezes, em estereótipos e preconceitos alimentados por desinformação e por uma comunicação social que raramente dá voz aos emigrantes. Essa invisibilidade contribui para a fraca formação política do público e para a persistência de ideias retrógradas. Não é irrelevante notar que, na presente legislatura, a maioria dos candidatos à Presidência da República praticamente ignora a emigração, com raras exceções. Essa distância revela um afastamento mais vasto entre representantes e representados.

Uma leitora emigrante sintetizou, de forma particularmente lúcida e comovente, o sentimento de muitos portugueses no estrangeiro: “Eu, cidadã portuguesa emigrante, falo, sinto, informo-me, rio, penso, sofro em português. Choro quando há incêndios, quando há apagões, quando outros cidadãos choram; rio quando os outros cidadãos riem. Pago os meus impostos, informo-me, debato, leio a imprensa nacional, ouço rádio nacional. O que faz de mim alguém com menos direito de voto?” A sua indignação vai mais longe: denuncia como xenófoba a ideia de que a emigração diminui a pertença nacional e lembra que viver fora pode, paradoxalmente, ampliar a abertura de espírito, a tolerância e a humanidade, valores essenciais numa democracia madura.

Portugal não é apenas um território delimitado por fronteiras. É uma comunidade humana, histórica e cultural que se estende muito para além do mapa. Os emigrantes fazem parte dessa comunidade. Retirar-lhes o direito de voto seria uma amputação democrática e uma injustiça histórica para com quem, muitas vezes contra a sua vontade, teve de partir, mas nunca deixou de ser português nem de contribuir para o país.

Defender o voto da diáspora não é defender um privilégio. É defender uma democracia mais inclusiva, mais consciente da sua realidade e mais fiel aos seus próprios princípios. No sistema eleitoral não deveria continuar a prevalecer os interesses partidários e um meio de começar a reduzi-los seria o voto digital. Mas há medo político porque então a participação nas eleições aumentaria muito e legitimaria mais deputados para a emigração.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

(1) Artigo Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10554

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O JARDIM DOS DOIS OLHOS

Havia, nos arredores de uma cidade antiga, um jardim murado que poucos conheciam por inteiro. Chamavam-lhe O Jardim dos Dois Olhos, porque dizia-se que quem entrasse por um portão via uma coisa, e quem entrasse pelo outro via outra completamente diferente, embora fosse o mesmo jardim.

Nesse jardim viviam dois guardiões.

Ela chamava-se Líria. Ele chamava-se Aureliano.

Líria tinha o dom da imagem. Via o mundo como uma tapeçaria viva, feita de histórias, rostos, gestos, intenções ocultas. Para ela, nada era apenas o que parecia ser. Cada acontecimento vinha carregado de sentidos, memórias e feridas antigas. Quando algo se partia no presente, sentia ecoar quebras muito antigas, como se o tempo não fosse uma linha, mas um círculo sensível.

Desde cedo aprendera que o amor podia ser belo e cruel ao mesmo tempo. Crescera num ambiente onde era vista mais como ornamento do que como pessoa, e por isso desenvolvera um olhar atento, quase vigilante: precisava de perceber rapidamente quando o afeto estava a ser retirado. Isso tornara-a profunda, criativa, mas também vulnerável. Quando se sentia contrariada, não discutia apenas um facto, defendia a sua própria existência.

Aureliano, por sua vez, tinha o dom da estrutura. Via o jardim como um sistema vivo que precisava de equilíbrio para não se destruir. Observava padrões, consequências, encadeamentos. Onde Líria via dramas singulares, ele via leis gerais. Onde ela sentia, ele pensava. Não por frieza, mas por necessidade de ordem interior. Sabia, talvez sem o saber, que se mergulhasse demasiado no turbilhão emocional, se perderia.

Ambos eram bons guardiões. Ambos amavam o jardim. E ambos acreditavam, sinceramente, que estavam a protegê-lo.

Mas havia um problema: cada um acreditava que o outro via mal.

Quando Líria falava, falava com a alma descoberta. Esperava que Aureliano entrasse na história com ela, que sentisse o peso do que estava em jogo, mesmo quando parecia pequeno. Porém, Aureliano, ao ouvi-la, imediatamente procurava evitar danos futuros, guerras invisíveis, desastres em cadeia. Respondia com conselhos, estratégias, mediações.

E então Líria sentia-se invisível.

E Aureliano sentia-se acusado de algo que não pretendia.

Certo dia, surgiu no jardim um conflito entre visitantes: um casal que se separava queria dividir as obras de arte que ali haviam deixado como oferenda. Líria trouxe a história a Aureliano carregada de inquietação. Não era apenas sobre quadros, era sobre justiça, reconhecimento, memória, generosidade ferida.

Aureliano ouviu e respondeu como sempre fizera: falou de consequências, de evitar lados, de soluções diplomáticas.

Nesse momento, o jardim tremeu.

“Tu falas como se eu não soubesse sentir”, disse Líria.

“E tu falas como se eu não soubesse amar”, respondeu Aureliano, cansado.

Separaram-se nesse dia, cada um refugiando-se no seu lado do jardim. As plantas começaram a definhar, não por falta de cuidado, mas por excesso de unilateralidade. As flores de Líria cresciam exuberantes, mas frágeis; as árvores de Aureliano eram fortes, mas secas.

Foi então que apareceu um velho jardineiro, que ninguém recordava ter visto entrar.

Ele observou Líria e Aureliano  longamente e disse apenas isto:

“Cada um de vós olha com um só olho.”

Líria e Aureliano protestaram. Cada um acreditava ver melhor que o outro.

O ancião continuou voltando-se para Líria:

“Tu olhas com o olho do significado. Tudo para ti é pessoal, porque foste ferida onde o mundo devia ter sido abrigo. Mas quando tudo é pessoal, o outro deixa de ter espaço para ser diferente.

Depois, voltando-se para Aureliano, disse:

“E tu olhas com o olho da ordem. Tudo para ti precisa de coerência, porque aprendeste que o caos dói. Mas quando tudo é geral, o outro deixa de ser visto na sua singularidade.”

Os dois ficaram atónitos em silêncio.

“O jardim só florescerá quando aprenderem a olhar com os dois olhos”, concluiu o ancião. “O olho que sente e o olho que compreende. O coração que vive e a mente que prevê.”

E acrescentou, com um sorriso bondoso, antes de se ir embora:

“Não tentem corrigir-se um ao outro. Tentem hospedar o olhar do outro dentro de vós. Isso chama-se individuação num processo de relação eu-tu-nós.”

Desde esse dia, nada se tornou perfeito. Eles ainda discutiam. Ainda se feriam, como que em reflexos de automatismos. Mas algo mudara.

Quando Líria falava, Aureliano perguntava-se primeiro: “O que é que isto significa para ela?”

Quando Aureliano respondia, Líria perguntava-se: “O que é que ele está a tentar proteger?”

O jardim não se tornou isento de conflitos. Tornou-se vivo!

Mas os conflitos começaram a mudar de forma, como nuvens que já não descarregam sempre tempestade.

Ou foi por sugestão silenciosa do velho jardineiro, ou talvez por cansaço da repetição, que Líria e Aureliano decidiram caminhar para além do muro mais antigo do jardim, aquele que separava o cultivado do selvagem. Ali vivia um homem de poucas palavras e muitos silêncios. Diziam que ele não dava conselhos, ordenava sentimentos. Limitava-se a escutar os sonhos. Não perguntava o que lhes acontecia, mas como lhes acontecia por dentro.

O homem chamava-se Elias.

Elias pedira-lhes que se sentassem frente a frente, não para se convencerem, mas para se verem refletidos um no outro. Líria e Aureliano sentaram-se diante dele como duas margens de um mesmo rio. Depois de longos momentos Elias falou com voz calma, como quem nomeia algo antigo, parecendo recordar algo que ambos tinham esquecido:

“O que vos divide não é a falta de amor, mas a unilateralidade da alma.”

Líria sentiu-se inquieta. Aureliano franziu o sobrolho.

Elias, voltando-se para Aureliano, disse:

“Em ti vive uma imagem feminina ferida, a tua anima. Ela anseia por sentido, por reconhecimento emocional e abrigo, mas foi empurrada para o silêncio em nome da razão e do controlo. Quando a tua mulher fala a partir da emoção, essa tua parte sente-se ameaçada e respondes com o pensamento, como defesa.

Depois voltou-se para Líria:

“E em ti vive uma imagem masculina exigente, que exige coerência absoluta, o teu animus. Ele fala em verdades absolutas, em julgamentos, em histórias fechadas. Quando o teu marido tenta organizar ou relativizar o que sentes, esse animus interpreta isso como desvalorização, e transforma a dor em acusação e quando sente dúvida transforma-se em juiz.”

Líria e Aureliano entreolharam-se. Algo fazia sentido, embora doesse.

“Aquilo que não reconhecemos em nós,” continuou Elias, “vemo-lo no outro como defeito. Chamamos a isso projeção. E quanto maior for o trauma, mais intensa é a projeção. Aquilo que cada um combate no outro, é aquilo que ainda não aprendeu a hospedar em si. Por isso o encontro dói. Não porque falte amor, mas porque há passado a mais nos dois.”

Líria sentiu um aperto antigo no peito e um nó na garganta que parecia impedir o desejo de engolir.

Aureliano baixou os olhos sentindo como que um calafrio que atravessada todo o seu corpo.

“Os vossos conflitos não começam no presente”, disse Elias. “Começam na sombra, essa parte de vós que foi forçada a adaptar-se cedo demais, na verdura da infância. Tu, Líria, aprendeste que o amor podia retirar-se sem aviso. E tu, Aureliano, aprendeste que sentir demais podia desorganizar tudo.”

Fez uma pausa, como que a digerir toda uma vida de sentimentos e pensamentos  em ressonância e acrescentou:

“Por isso, quando uma fala, o outro não ouve apenas o que está a ser dito. Ouve ecos antigos. E feridas não cicatrizadas exigem algo especial: não perfeição, mas mãos dadas.

“E o que fazemos quando dói?” perguntou Líria, quase num suspiro.

Elias sorriu com bondade:

“Quando dói, não se corrige  nem se interpreta o outro. Sustenta-se a tensão. Aprende-se a dizer: “Isto é meu, mas preciso de ti aqui.”

Aureliano respirou fundo e disse:

“Então não se trata de mudar o outro no sentido de se fazer um caminho comum?”

Elias depois de respirar abdominalmente respondeu:

“Não! Trata-se de integrar em si aquilo que se exige do outro. Pensamento e sentimento. Feminino e masculino. Narrativa e estrutura. O casal é apenas o campo onde essa integração se torna visível. Um dá alma às coisas. O outro dá-lhes forma. Separados, empobrecem e juntos, assustam-se.

Naquele dia, ao regressarem ao jardim, algo era diferente. Não houve promessas, nem resoluções. Mas algo se deslocara impercetivelmente. Quando discutiam, nem sempre conseguiam evitar a queda. Mas às vezes, apenas às vezes, conseguiam olhar para o outro e reconhecer nele não um inimigo, mas um espelho imperfeito. Quando surgia uma discussão, perguntavam-se, embora, por vezes, tardiamente:

“Isto é o presente ou é a sombra?”

“Estou a falar com o outro ou com a minha projeção?”

Nem sempre conseguiam parar a tempo. Mas, por vezes, conseguiam voltar atrás. E isso bastava para que o jardim respirasse. Nele as flores tornaram-se menos exuberantes, mas mais duráveis. As árvores continuaram firmes, mas começaram a dar sombra. De facto, a maturidade não consiste em vencer o outro, mas em não reduzir o outro àquilo que em nós ainda dói.

Líria e Aureliano aprenderam, lentamente, que amar e viver não é eliminar o conflito, mas não deixar que o conflito destrua a possibilidade de ver o outro com benevolência, como alguém em transformação.

E compreenderam que a verdadeira união não acontece quando dois se fundem, mas quando dois indivíduos caminham lado a lado, conscientes das suas sombras, sem deixarem de dar as mãos.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
Pegadas do Tempo ©

Nota do autor

Escrevi este conto não para falar de ti, de mim, de vós,
mas para escutar melhor aquilo que em mim se repete
quando observo o mundo e descubro a minha ipseidade
na relação do eu-tu que vive na atmosfera do nós.

A sombra que reconheço nos outros
brota da mesma fonte que me atravessa.
Quando ela me inquieta fora,
é porque já passou, ou ainda passa, dentro de mim.

Aprendi com a vida e escrevendo,
que o orgulho nasce muitas vezes da recusa em ver
que partilhamos a mesma noite interior.
E que o único remédio que não humilha
é a humildade escolhida e bem cuidada,
aquela que não nega a própria luz,
mas aceita a sombra como parte do caminho.

Se estas minhas palavras servirem para algo,
que seja apenas para lembrar
que ninguém caminha inteiro sozinho
e que compreender o outro
é, talvez, uma das formas mais discretas
de nos reconciliarmos connosco.

A porta cerrada pelo problema
tem a mesma face para os dois lados:
a chave perdida é única,
e quem está dentro ou fora
busca no mesmo escuro.
Numa mesma porta
duas solidões se espelham

Ninguém é apenas vítima,
ninguém é apenas causa
somos coautores do caminho
e também da prisão.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo©

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