A Revolução comunista em Portugal e a Contra-revolução partidária

O 25 de Abril é um Marco histórico que introduz uma Matriz de Pensamento de Esquerda

António Justo

O 25 de Abril é passível de muitas interpretações. Tal como afirma Josep Sánchez Cervelló, o objectivo do 25 de Abril (FMA) era a descolonização e a instauração de um regime socialista em Portugal.

Na madrugada do 25 de Abril de 74, Portugal sonhou e a 25 de Novembro de 75 acordou para uma discussão entre forças radicais e moderadas que impediu uma futura guerra civil entre as forças armadas divididas.

Fernando Rosas diz que a revolução portuguesa «foi a última revolução de esquerda da Europa do século xx». O mesmo povo que possibilitou o início da revolução impediu-a depois.

Do que observei, nos primeiros tempos da revolução poderia afirmar, que o que se passava nas ruas era a expressão de um povo dominado que saia à rua para cantar a liberdade.

Liberdade e libertinagem eram atitudes não claras tanto nos revolucionários como no povo que os aclamava. A festa foi mesmo boa e à maneira portuguesa; mas a liberdade e a desordem eram tão grandes que já assustavam os países vizinhos, numa época de caos e de inovação onde imperava a esquerda e a extrema-esquerda (Fase dos governos provisórios até ao fim do quinto governo de Vasco Gonçalves, 19 de setembro de 1975). Entretanto Mário Soares servindo-se também do cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros para os contactos com o estrangeiro, conseguiu, com o Grupo dos Nove, dar força à contrarrevolução que incluía também os interesses da burguesia. Durante o VI Governo provisório do 1° ministro Pinheiro de Azevedo e do Presidente Costa Gomes dá-se o golpe militar do 25 de Novembro de 1975 propriamente manejado pelas forças inerentes ao “Grupo dos Nove”, as forças moderadas da esquerda e da direita; aqui dá-se o fim dos sonhos da esquerda radical (prisões de militares e desautorização do gonçalvismo e do otelismo). O PCP, Vasco Gonçalves e as forças revolucionárias da esquerda, opta pela luta ideológica do domínio político. Têm uma função de catarse no discurso político. O maquiavelista Mário Soares “ambicioso sem princípios nem convicções” como desabafa Vasco Gonçalves, pôde fortalecer os interesses dos parceiros europeus. Com o apoio dos socialistas franceses, austríacos, do SPD alemão e da CIA americana, conseguiu endireitar a revolução da esquerda radical. A Constituição institucionaliza depois uma democracia partidária. Acaba-se a era dos líderes militares para se iniciar a dos líderes políticos.

Com o começo do 1° Governo Constitucional (sob a chefia de Mário Soares a 23 de setembro de 1976) inicia-se uma política no sentido da integração europeia, começando por devolver as terras e as casas ocupadas e as empresas nacionalizadas aos seus proprietários. A Europa respira fundo porque vê afastado o perigo de Portugal se tornar numa segunda Cuba.

Ainda me lembra de, na altura, haver expressões públicas contra a Europa, mas a autoridade indiscutível dos partidos conseguiu manter o povo nas suas fileiras, sem referendo tal como se fez com a integração de Portugal na zona euro (Na altura mais que discurso político reinava o discurso ideológico e a generalidade do povo não tinha ideia do que se estava verdadeiramente a passar).O povo teve, porém, papel muito importante, logo no início do 25 de Abril, porque com o seu acorrer às ruas impediu que os militares entrassem em conflito imediato entre eles. A força partidária esteve extremamente presente conseguindo domar à sua maneira, o caos “democrático” de um povo que então se sentia à solta, de ocupação em ocupação. Nesta altura ainda não havia verdadeiramente líderes onde o povo se pudesse alinhar, isso só veio a acontecer com a organização partidária que conseguiu alinhar e chamar a si um povo já de si desalinhado. Cantava-se, então, que o povo é quem mais ordena, o que em parte acontecia até ao 25 de Novembro; este mesmo povo que repetia a cantiga dos revolucionários cantava depois a cantiga dos Partidos organizados. Aqueles que queriam uma revolução à maneira russa, de Mao Tsé-Tung ou cubana perderam logo nas Eleições para a Constituinte, obtendo a maioria o PS com 37,8% e o PPD com26,3%). O povo optou pela democracia representativa. Depois manteve-se uma discussão extremista e muitas das palavras que se hoje ouvem contra o fascismo são saudades frustradas de um tempo em que a revolução de caracter totalitário foi de facto impedida por Mário Soares e pelas forças inerentes ao grupo dos nove.
Foi um golpe de estado feito pelos capitães e não pela hierarquia militar superior. Decisivo no sentido de impedir a divisão da instituição militar foi a acção dos intermediários António de Espínola e Francisco Costa Gomes, tornados chefes de estado até às eleições presidenciais de 1976. O que temos é fruto da democracia de manifestações de interesses muito embora numa democracia formal.

Muitos, que antes atribuíam todo o bem adquirido ao 25 de Abril, responsabilizam-no agora, fazendo dele um bode expiatório de todo o mal, tal como foi feito outrora com o regime de Salazar. Também houve uma hiperbolização do 25 de Abril como tudo se devesse a ele e não fosse possível desenvolvimento histórico sem ele e como se não houvesse outros Estados na altura em condições semelhantes às nossas e, apesar de não terem tido revolução, conseguiram acompanhar o desenvolvimento dos tempos.

Os que fizeram a revolução aproveitaram-se dela (vejam-se os partidos e seus membros relevantes que reservaram o amanhecer de Abril para eles e o anoitecer para a maioria); a falta de formação política e cívica que não se pode adquirir só na rua acentuou a dicotomia entre a História e o mito!

Instalou-se uma Partidocracia

A política, como “actividade nobre de servir os outros e governar o que é de todos”, tem um senão: é obra de pessoas habituais e votada e criticada por 90% de quem não entende de política nem de governação. Assim, em vez de uma democracia orientada para o povo, como é o caso da Suíça, instalou-se uma partidocracia todo-poderosa e incontrolável. Torna-se cínica a forma como os nossos democratas falam dos privilégios do clero e da nobreza na Idade Média e se reservam para si privilégios que a plebe democrática não tem. Seria lógico que ganhassem mais mas que estivessem sujeitos aos mesmos direitos e deveres que o normal do cidadão e de instituições sociais. Marinho Pinto, bastonário dos advogados, relata, entre muitos privilégios dos partidos, os seguintes: os partidos políticos estão isentos de IRC, IVA, IMI, imposto de selo, imposto de doações e sucessões, isentos de imposto sob património, de imposto de automóvel, de imposto municipal de transmissão de imóveis, de taxas de justiça e de custas judiciais. “Tudo privilégios adquiridos às escondidas”. Cada voto rende para os partidos 3,1 Euros por ano. O MRPP, devido aos votos recebe mais de 15 mil euros por mês; o PSD vencedor das eleições irá receber entre as últimas eleições e as próximas 38 milhões de euros; o PS vai receber mais de 28 milhões; O CDS/PP 13 milhões; PCP e o VERDE mais de 10 milhões; Bloco de Esquerda mais de 6 milhões; e não parlamentares como PCTP/MRPP mais de 777 mil euros e o Partido dos Animais e da Natureza recebe mais de 730 mil euros. Além disso os partidos parlamentares receberam mais de 8,3 milhões de euros para as despesas da última campanha eleitoral a dividir entre os partidos segundo os resultados obtidos. Cada grupo parlamentar também terá direito a uma subvenção anual para encargos de assessoria aos deputados no correspondente a cerca de 2.000 euros por cada deputado; a Assembleia da República paga as remunerações dos funcionários dos grupos parlamentares 2 milhões e 550 mil euros por ano; o PS recebe 2milhoes 104mil euros o CDS 1 milhão e 200 mil e o PCP 865 mil euros o bloco de esquerda 631 mil; e os Verde 244 mil euros. Além dos 24 milhões de Euros ainda há verbas de 18 milhões e 500 mil euros para apoiar as campanhas para a assembleia da república, assembleias legislativas dos Açores e da Madeira parlamento europeu e depois ainda há outra verba para as autárquicas.

Mudança de padrões de pensamento: da matriz de pensamento de direita passou-se para a matriz de pensamento de esquerda

Passaram-se já 40 anos depois do canto de Grândola Vila Morena na Rádio Renascença a 25 de Abril de 1974. Numa altura de crise e em que as conquistas de Abril e os valores da civilização cristã são sistematicamente destruídos por forças da esquerda e da direita, a comemoração da “revolução dos cravos „ pode tornar-se cínica. Canta-se hoje o 25 de Abril como outrora se cantavam as proezas da Constituição de Salazar em 1933. O processo revolucionário caótico interrompido por Mário Soares e pelas forças em torno do “Grupo dos nove” deu origem a outro processo que embora avançado, é escuro e muito mais corrupto que o anterior. O 25 de Abril deu-se na confusão de forças militares e partidárias continuando ambíguo.

O 25 trouxe-nos a paz e a democracia e direitos sociais e sindicais e criou a plataforma para o progresso em diversos campos contribuindo para o melhor bem-estar das pessoas, especialmente nos sectores da saúde, educação e comunicação mas não conseguiu a suficiente inclusão que entusiasticamente se propunha; pelo contrário fomentou a diferença dos mais ricos e dos mais pobres. Quanto aos pobres manteve-os no assistencialismo, que os mantem a pouco mais que a pão e água.

O alarido em torno da música de Abril conseguiu a grande adesão popular mas não envolveu depois o povo no processo cívico. Há deficiências que se devem à falta de formação política do povo mais configurado para a “res privada” do que para a “res publica”; isto explica-se pela falta de responsabilidade da classe política também ela demasiadamente condicionada por influências de grupos alérgicos à gerência do seu comportamento na praça pública.

A situação em que nos encontramos e o estado de corrupção estatal/partidária é tão grave que não seria responsável um discurso que pretende ajustar contas com a direita ou com a esquerda. Neste sentido, já há muito deveria haver coligações de maiorias governamentais de salvação nacional formadas pelos partidos mais fortes. A palavra de ordem só pode ser de reconciliação, responsabilização e metanoia.

A situação portuguesa não pode ser desintegrada da matriz económica da EU a que nos unimos e que vincula esquerda e direita, como a economia dos USA e da China que não nos deixa produzir artigos concorrentes em termos de preço. A globalização capitalista liberal com a falência dos bancos… e a má administração dos governos levaram Portugal à bancarrota, pondo-o nas mãos dos credores. A riqueza desenfreada de alguns provoca a dessolidarização social do Estado. A nível de infra-estruturas, apesar da crise económica, Portugal é um dos países mais avançados.

25 de Abril – O Despertar de uma Ilusão

O 25 de Abril foi um acenar de revolução que deixou no ar um aroma de cravos e liberdade. Seguiu depois a política dos embuçados que ocuparam a República sob a mão duma mafia de luvas brancas e invisível que contamina a vida do Estado e da Nação. Dá-se a repetição do que tinha acontecido na primeira república com a sua maneira de estar e fazer jacobina maçónica e ideológica aliada a um conservadorismo pedante de atitude medieval.

“Quem se deita com crianças acorda molhado!” O que se deu em Portugal ocorre também noutros países atendendo ao facto da política ser uma questão da “res pública”e 90% do povo não estar preparado para ser verdadeiramente “ser político” mais predisposto para a alienação do que para a realidade e a utopia.

O Golpe de Estado deu oportunidade à revolução cultural (movimento 68) em via nos USA, Alemanha, França, etc. O 25 de abril vulgarizou-a então por todas as camadas sociais do povo português. O 25 de Abril torna-se socialmente também no veículo político e social do Movimento 68. Despertou-nos da Bela Adormecida para um mundo fandango.

Passou-se de uma matriz de pensamento paternalista de direita para uma matriz de pensamento paternalista de esquerda. Um rigorismo paternalista deu lugar a um conformismo rígido de opinião de esquerda. Passou-se da proibição de opinião individual para a liberdade de pensar em bloco. O pensamento individual e verdadeiramente aberto continua a ser uma pedra de tropeço neste sistema democrático.

O golpe de Estado deu-se quando me encontrava a estudar teologia e pedagogia social na Alemanha. Tive então um sentimento de libertação, esperançado em novos tempos e numa nova humanidade.

Com o tempo notei que a liberdade, igualdade e fraternidade que os revolucionários apregoavam eram as liberdades dos seus grupos de interesses não a de todo o povo nem para todo o povo. Tratava-se de uma liberdade querida por certas ideologias de panorama limitado à própria mundivisão e justiça sem ter em conta a situação de cada pessoa. Vivia de encenações e proclamações duma liberdade sem corpo nem alma, duma liberdade internacional abstracta, visível em festas e comícios mas não na realidade. O atributo “facho” era na altura distribuído com proficuidade e até com carinho porque a palavra fascista além de agressiva era injusta. Em comícios, chegava-se a aguentar a liberdade de opinião reservando-se a decisão para horas tardias onde então se protocolavam opiniões dos restantes mais iguais. Quem não pensasse igual era julgado como “facho” e como tal de opinião manipulada pelo antigo regime. A nova “censura” (pensar politicamente correcto) marcava os seus pontos na sociedade. À conformidade dum sistema segue-se a conformidade com o outro. Da conformidade com o novo pensar surgia a oportunidade profissional.

O tempo de Salazar incorpora uma era da ordem rígida e de regras sociais intransigentes adversas à mudança. Antes havia o paternalismo da censura depois passou-se ao paternalismo das ideologias e do oportuno. Aos cães de guarda de regras do decoro e da moral perante o povo e a juventude sucedem-se os novos cães de guarda de ideologias. Os saneamentos efectuados nas instituições e a penteação mental operada nas escolas e universidades deram pouca margem ao surgimento de despenteados do pensamento: aqueles que promovem a mudança sem lhe determinarem a orientação para a esquerda ou para a direita! Dos acomodados tradicionalistas passou-se aos acomodados progressistas. Mudou-se o folclore, a atitude permanece a mesma. Antes seguíamos a ordem do orgulhosamente sós para depois seguirmos a ordem do valha tudo menos nós.

O discurso político faz mais parte do passatempo. Assim como só discutimos superficialmente os tempos da primeira república e de Salazar assim se branqueia o 25 de Abril. Cada época branqueia, irreflectidamente a sua, na procura de culpas passadas que distraiam das suas.

Vive-se de uma história do passado e do futuro sem olhar crítico para o presente. Os fracos e a demonização de um sistema chegaram para justificar medidas irreflectidas e a lavagem de cérebro aos portugueses.

Havia um congestionamento de reformas, é verdade. O espírito da geração 68 do ocidente empacotado no 25 de Abril a pretexto de saneamentos dos ” fachos” e como estratégia de infiltração partidária iniciou a sua marcha através das instituições. Este processo também se deu nas instituições europeias pelos arautos da geração 68. A revolução ocidental dos jovens de 68 conseguiu chegar à ribalta da história portuguesa e questionar hábitos e valores já com musgo. Uma época da História com um ambiente a solicitar o florir de pessoas e instituições continuava ainda manietada por regras e ordens desconformes ao espírito que flui do mundo ocidental.

Neste contexto, tornamo-nos todos abrilistas, consciente ou inconscientemente. Ao golpe de Estado de Abril junta-se uma revolução cultural. O projecto de mudança social desencadeou um processo de esperanças e ideais. À leviandade com que se operou o processo das independências junta-se o erro de mera aplicação de ideologias internacionais já em processo decadente da rebeldia e do preconceito vigente contra as instituições: contra Deus, pátria e família. Também isto levou a nova classe política a desobrigar-se também porque deixou de entender a diferença entre pecados sociais/culturais mortais e pecados socias/culturais veniais!

O sentido da liberdade esgotou-se no questionar a ordem antiga. A razão familiar, democrática e de opinião é despenteada a favor do liberalismo histérico da economia e do mercado. A revolução apodera-se da liberdade e do sexo que oferece a belo prazer sem apelar para a responsabilidade nem para as consequências dos próprios actos. Liberta-se o instinto do animal e reduz-se a pessoa ao indivíduo inocente sem roupa, nem cabeça na esperança de uma vida natural de necessidades realizadas numa sexualidade que restabelece a vida inocente de Adão e Eva antes da mordedura da maçã. Agora tudo corre à procura de auto-realização num novo Homem sem consciência nem moral. Depois das aldeias esvaziadas de sentido até à última aldeia das Cabras, passamos a sofrer de liberdade abstracta. De recordar que na altura em que a revolução andava à solta, a “juventude” da cidade, nas suas campanhas de esclarecimento popular se deslocava às aldeias para politizar o povo (facto este que se não tivesse sido ao serviço da ideologia seria uma boa iniciativa). (Neste contexto conheci um episódio em que se organizou a desfloração de virgens em grupo, sendo para o efeito escolhido democraticamente um jovem delicado para executar tão delicado trabalho Conheci, na altura, um jovem que o fez, era ligada aos grupos de Otelo e chegou a ter várias metralhadoras em casa). Tropeçamos na própria liberdade: Uma falsa compreensão de emancipação espera agora por vingança. Alimentada de valores e da fé numa democracia e numa liberdade elástica. A dança da liberdade leve ameaça tornar-se numa dança de mortos na preparação de um apocalipse que acontece ciclicamente no desenvolvimento da História. O caldeirão do consumo torna-se num buraco negro que engole tudo, engole a razão, a liberdade e equaciona a ética em termos de mercado e consumo, num mundo que se quer caótico sem sujeitos individuais, sem políticos responsáveis nem estado. Um niilismo nostálgico quer de sujeitos funcionários, só tipos numa realidade factual meramente económica. Agora é o tempo dos nostálgicos na procura da inocência perdida. Uns e outros com falta de realismo.

Socialismo espalhado com o aroma dos Cravos

A revolução tinha outras intenções com o seu golpe de estado. Os seus realizadores queriam, como se pode verificar nos governos provisórios, a mudança do regime autoritário para outro regime ainda mais autoritário mas de caracter popular. Encenavam-se como heróis tornando-se autoridades morais em nome duma consciência socialista internacional pronta a sacrificar a própria nação.

Dos livros de ensino começam a substituir-se textos de portugueses consagrados por textos da internacionalidade. A própria constituição deve ser a mais progressiva e mais internacional possível. Celebravam por toda a parte a salvação dum estado de sonho, dum povo liberto das heranças do passado. Um povo que esperava liberdade foi amarrado à manjedoura da ideologia por dançarinos do poder que de pacientes passaram a salvadores. Organizam-se programas de reeducação popular no sentido de ideários socialistas que queriam resgatar Portugal, expurgá-lo da pátria para o tornar internacional e popular. Apresentam-se como vítimas legitimadoras duma nova identidade a criar. Não chega lamentar e remediar o autoritarismo da ditadura anterior; precisa-se de um fascista grande para argumentar e para isso comparámos Salazar com Hitler. Com um Salazar monstro não precisamos de mudar a nossa conduta; apenas a ideologia. Por mais que os erros da nova classe se levantem, nunca chegarão àquela gravidade! E o povo acreditou nas promessas seguindo a voz do novo canto. Um povo de abelhas vai seguindo o cantar da cigarra. Queria em nome do marxismo criar uma nova sociedade com novas amarras. Os espíritos do velho regime instalam-se com mais convicção no novo. A vergonha dum antigo regime apressa a identificação com o socialismo internacional. Chega a cor para nos dar o sentimento de pertença.

O impasse em que vivemos hoje deve-se a uma liberdade gratuita, prometida e que se quer atingida sem o suor do próprio rosto. Uma libertação de tudo mas sem saber para quê. Um mundo de abrilistas torna-se pioneiro da liberdade prometendo felicidade. Em nome da liberdade dá-se oportunidade ao novo oportuno: novos senhores exploradores ocupam agora o lugar dos antigos. Dá-se também uma democratização da exploração, sendo agora possível um número maior de exploradores do que antes. O Golpe de Estado efectuado não se orientava pela realidade das pessoas e da nação mas seguia apenas ideologias mais ou menos internacionais de fardas engomadas.

Portugal passou a albergar, especialmente no Alentejo, muitos peregrinos e “refugiados” da civilização ocidental.

A revolução ao ser feita em nome da esquerda tornou-se sua propriedade; este foi o seu busílis ao esquecer que o Homem consta de uma parte esquerda e outra direita, uma parte inferior e outra superior. A revolução tinha boas intenções mas ao polarizar-se desrespeita a pessoa e a nação, tal como fez o regime anterior. Este foi um grande erro na estratégia de educação popular. Por isso hoje já não é o povo quem festeja, quem festeja é o partido ou os funcionários do Estado. A vivência da nova era sente-se no acto da compra no supermercado e no sexo. Cai-se no vício de uma liberdade sem vontade.

O “movimento 68” resume a sua doutrina na frase “depois de Ausschwitz não se pode acreditar mais num Deus bom e amoroso” quando a conclusão lógica a tirar seria: depois de Auschwitz não se pode acreditar mais na bondade natural do Homem. A primeira frase leva à desculpa e à ideologia, a segunda compromete e responsabiliza cada pessoa.

Tal como uma árvore precisa de estrume no seu solo assim uma cultura precisa do húmus da tradição para poder desenvolver-se e do sol da esperança que constrói o presente com uma panorâmica gratificante. A liberdade precisa de um horizonte e o húmus de que ele se alimenta é o cristianismo e o idealismo (idealismo pensado na alternativa de pensamento alemão ao iluminismo francês). Para o cristianismo cada pessoa é um ser singular único com uma consciência pessoal com uma dignidade humana que o torna responsável e transcendente.

Desencantar e dessacralizar o mito de Abril

Cada nação precisa dos seus ideais e dos seus mitos; de facto precisamos de utopia mas não da alienação. Em nome de uma superioridade moral vendemos o mito da revolução. Portugal perde a guerra do ultramar e vende-a como libertação de Portugal. A derrota de um ultramar entregado ao bloco soviético é empacotada na cor dos cravos de Abril. Uma descolonização que já há muito deveria ter sido feita, deu-se na confusão e na traição em nome da auto-estima. Todos nós sofremos do mito de Abril que nos levou para onde nos encontramos. Portugal ajoelhado não aos pés duma civilização, mas ajoelhado aos pés da troika que apesar de tudo, com o seu ditado, ajudou Portugal a sair da bancarrota (de que nos libertamos, esta semana, ao voltar aos mercado financeiros internacionais).

Agora seria óbvia a era da recuperação da dignidade individual assumindo responsabilidade pessoal. Primeiramente seria necessário desencantar os feitores da revolução. Antes deixávamos o negócio do Vinho do Porto nas mãos dos feitores portugueses a serviço das quintas inglesas. Com o 25 de Abril entregamos o negócio da nação, primeiramente, a feitores da ideologia, aos representantes soviéticos e à fé no movimento 68 para depois colocarmos o nosso destino na EU. Abandonamos a consciência lusófona e de portugueses para seguirmos a anónima internacional. Em nome da moral e contra a razão endinheiraram-se os novos-ricos produzidos pelo Abril à custa do esvaziamento cultural e da auto-estima da nação.

Para começarmos de novo teremos de deixar nas ruinas do “império” os seus “heróis”, aqueles que lhe fizeram o enterro. Temos que da ruina da nação enferma, agora ajoelhada erguer-nos de novo como noutros tempos contra os interesses daqueles portugueses traidores que arquitectavam o seu futuro na entrega de Portugal a Castela. 1640 é um dia do povo, agora que a liberdade individual e do povo se encontra mais que nunca ameaçada, há que o restaurar. Mandemos para o ferro-velho da história muitas das aquisições de Abril para readquirirmos Portugal readquirindo-nos a nós. Não queremos já ideais floridos nem a libertinagem enganadora; não precisamos da roupa velha mas duma vontade firme para cada um se erguer. Também o entusiasmo e valores do 25 de Abril nos poderão ajudar. Um estado que domina e mantem o povo á trela da ideologia e das dívidas perde a confiança.

Talvez fosse melhor dizer adeus a alguns direitos para recuperarmos a nossa dignidade ultrajada numa massa de ovelhas em que a perspectiva prometida era a erva e o traseiro da “ovelha” vizinha. Para nos tornarmos cidadãos adultos teremos de deixar de ser massa partidária, confessional ou nacional. Ter-se-á de sair de novo para a rua para aí se construir o nosso Abril, um Abril de liberdade para cada um. Uma rua trabalhada e enfeitada por todos mas sem ladrões das flores e dos frutos e sem os protagonistas da nação apresentados na imprensa e na televisão. Somos um povo a caminho à semelhança do de Israel a realizar-se em comunidade.

RUMINAR A REVOLUÇÃO

A revolução não pode ser analisada apenas sob o aspecto moral; precisa também de uma abordagem histórica séria que ainda não chegou à consciência pública. Na análise da ditadura e da revolução exigimos dos protagonistas que sejam heróis ou pelo menos pessoas admiráveis. Os que fizeram a revolução revelaram-se muito normais (excepto Ramalho Eanes) e a nível de liderança será difícil encontrar uma personalidade da craveira de Salazar. Seria hipocrisia continuar-se a apostar numa “vítima de lavradores” como dizem os Alemães para ilibarem os restantes, quando todos faziam parte do sistema. Karl Marx dizia “As pessoas fazem a própria história, mas, sob circunstâncias auto-selecionadas, não o fazem livremente”. Trata-se de viver uma cultura da memória com capacidade para se rever no positivo e no negativo sem passar tudo a ferro nem com heroizações.

É melhor uma controvérsia honesta que contribua para a construção de uma sociedade civil crítica na continuidade da paz civil. Entretanto o 25 de Abril tem-se tornado numa carga que transforma a mudança do nome da ponte Salazar para ponte 25 de Abril numa usurpação. O armazém da memória da comunidade democrática aguenta e deve ser resistente, na certeza de que não foi o 25 de Abril que inventou a liberdade, a igualdade e a fraternidade e na consciência que cada época tem os seus padrões e normas. Liberdade só o é se for ao mesmo tempo uma conquista individual e social.

O sociólogo Laurene Peter fala de um princípio que pode explicar parte da situação portuguesa. Fala de uma “sublimação sem barulho” e de um “cair pela escada acima” uma pseudo-promoção. Segundo o Princípio de Peter, cada funcionário tende a subir na carreira até atingir o seu grão de incompetência. Enquanto não se atinge o grau da incompetência ganha-se aplauso, reconhecimento e influência. Depois, uma vez atingido o último degrau, fica-se lá, em vez de se ter ficado no grau anterior onde se era criativo e competente.

As novas gerações (pós 25 de Abril) receberam, gratuitamente, uma herança que agora desemboca na crise e que é preciso ruminar. Acordamos num jardim zoológico muralhado quando sonhávamos a liberdade de passarinhos sem gaiola nem fronteiras. Julgávamos que o sonho era realidade e que a realidade era sonho. Julgávamos que era possível uma sociedade só de académicos e por isso acabamos coma as boas escolas comerciais e industriais de então. A revolução nascida mais da ideologia do que da realidade desprezava o trabalho manual. A discriminação do trabalho manual em relação ao intelectual levou-nos a onde nos encontramos.

O 25 de Abril envelheceu deixando os mais velhos desiludidos dos marxistas, maoistas, comunistas, anarquistas que queriam uma mudança radical. Constatou-se que o sonho era só para eles, como podemos verificar nas suas posições, remunerações e pensões. Tudo corria para o partido que dava mais.

Somos todos corresponsáveis. Quando um dedo da nossa mão aponta para a responsabilidade dos outros pelo menos outros três apontam também para nós. Sou crítico porque amo o meu país, procurando ver o porquê das coisas irem mal.

UM ESTADO ONTEM REFÉM DA NOBREZA E HOJE REFÉM DOS PARTIDOS

Portugal a partir do séc. XVII nunca foi reajustado encontrando-se ciclicamente em derrocada como constatavam já Alexandre de Gusmão, Antero de Quental: “a nutrir pançudos”. Faliu em 1892, e depois sob penhora durante a I República tendo como consequência o golpe de Estado de 1926, altura em que Portugal se encontrava de novo na falência.

A primeira república desqualificou os ideais liberais e democráticos a ponto de chegar a produzir o provérbio “isto é uma república” com o significado de desordem e actualmente a “Isto é uma república das bananas.” O regime de Salazar criou uma ditadura do “orgulhosamente sós”.

No tempo do “António Salazar” o pensamento era censurado, no regime do 25 de Abril é penteado pelo pensar politicamente correcto, propagado pelo espírito do tempo e laqueado pelos mass media.

O que se dá com as revoluções portuguesas é o mesmo que se tem dado com os governos: é uma alternância dos senhorios do Estado português; antes nas mãos da nobreza e depois nas mãos dos burgueses e novos-ricos. Transmitem-se os mesmos vícios num conluio de conservadores e progressistas. A Ditadura Nacional (1926-1933) termina em 1933 com a Constituição de 1933 e início da II República (Estado Novo) até ao golpe de estado do 25 de Abril de 1974. A Constituição de 1976 estabelece a democracia partidária. Nesta III República repetem-se os erros tradicionais e estende os seus tentáculos de polvo partidário e ideológico governa o país com leis e decretos ao sabor do tempo e das influências.

Antes para servir nobrezas e burgueses insaciáveis, depois para servir as bocas partidárias e de irmãos maçónicos boçais.

Um povo que não cresce organicamente vive dos golpes de Estado (revoluções) que além de ajustes de contas se revelam num acerto ao tempo. Vivem de uma lei fora de lei. Velhacos metem a mão à bolsa dos velhos e aos novos pede-se-lhes para emigrar.

À beira da falência em 83 salvou-o a EU mas a megalomania esbanjadora de querer viver à grande europeia mas com uma economia de terceiro mundo – uma economia de grandes para grandes – só que depois o desflorou com a Troika em 2011. Amoral encontra-se também ela em processo de emancipação, a consciência passa a ser opinião destilada nos alambiques dos interesses grupais.

O povo e a massa cinzenta ocupam-se, à maneira tradicional, da comparação e do maldizer dos novos velhos usurpadores, esquecendo que a situação é de tal desespero que conduziria, a ser tomada a sério às conclusões e trágico fim de um Antero de Quental. Do seu olimpo sob o sol do desespero a opinião elucidada (tuba canora) julga da justiça social. No Olimpo tudo é grande, nele a grandeza supera a corrupção, tudo passa a ser normal. Onde não há moral não há direito. Por vezes, parecemos povo, filho de pai incógnito continuamente a olhar para o governo, esperando reconhecer nele o pai. Diz-se o que não se pensa, pensa-se o que não se diz!
António da Cunha Duarte Justo
Formado em Ciências da Educação para Português e História
Conferência proferida na sede da ARCADIA a 4 de Abril de 2014

Faz parte do início da conferência o artigo antes publicado sob o título: 40° Aniversário do 25 de Abril
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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

12 comentários em “A Revolução comunista em Portugal e a Contra-revolução partidária”

  1. Muito interessante poder conhecer alguns detalhes que são difíceis de se encontrar em bibliotecas ou na vontade das pessoas em expô-los.

    Quanto à antiga Ponte Ditador Salazar, bem poderia chamar “Ponte dos Cravos”, sendo este o símbolo da democracia portuguesa.
    in Diálogos Lusófonos
    25.04.2014

  2. Bela síntese do que aconteceu em Portugal desde 1974.

    Para mim o problema principal reside nos portugueses não quererem pensar, nem agir, nem empreender e estarem sempre à espera que venha um governo que tudo faça e lhes “encha os bolsos”… Ora, como tal jamais sucederá, desatam a criticar, a criticar, mas não são capazes de ver que os políticos são o reflexo do povo…

    Ponte dos Cravos: também alinho nessae

    Um abraço

  3. Coloco aqui as perguntas do Tenente Coronel Brandão Ferreira, ao 25 de Abril,porque podem ser uma complementação ao artigo

    PERGUNTAS NUNCA RESPONDIDAS NOS 40 ANOS DE “ABRIL”

    “O inconseguimento de eu estar num centro de decisão fundamental a que possa corresponder uma espécie de nível social frustracional derivada da crise”
    Assunção Esteves,
    Presidente da Assembleia da República
    (TSF, em 7/1/2014)
    Passados 40 anos após a última grande esquina da História de Portugal, já deveria ter havido o discernimento, o bom senso e a vontade (que deles deriva), de fazer uma análise histórica – nas suas diferentes dimensões, nomeadamente política, estratégia, económica/financeira, social e cultural – de todo o período abrangido e que englobasse, para facilidade de entendimento e exposição, três períodos distintos:
    – O período da última fase do Estado Novo, por exemplo desde o início do consulado do Professor Marcello Caetano;
    • O período que começa com a acção militar no dia 25/4/74 – suas causas e execução – e por todo o período conturbado, conhecido por “PREC” e termina em 25/11/75;
    • O período posterior até aos dias de hoje, e suas consequências.
    Como tal não foi feito (e o que foi feito deixa muito a desejar) e não será feito a breve trecho, vamos cingir-nos a elaborar um conjunto de questões, que falam por si, independentemente do juízo que se intente fazer sobre elas.
    São também as respostas às perguntas formuladas, que ajudarão, um dia, a escrever a História que deve ficar para o futuro e não aquela que insistentemente nos têm vindo a inocular como se de uma lavagem ao cérebro se tratasse.

    Aqui fica uma mão cheia delas:
    1º- Quais as razões que justificam, à luz da Moral e do Direito, a queda pela força do regime deposto?
    2º- Se o regime deposto foi tão mau, como alegado por tantos, porque nunca se julgaram os responsáveis vivos, pela sua existência e práticas (nem sequer à revelia)?
    3º- Quais as principais razões, assumidas inicialmente pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), para a execução do golpe de estado? Foram razões corporativas (isto é, do foro das FA)? Foi concretamente o Decreto-Lei 373/73 que espoletou o golpe? Foram razões políticas? Estratégicas? Sociais? Económicas? Quais e baseadas em quê? Foi por estarem cansados de fazerem a guerra?
    4º- Que informação tinha o MFA sobre a “luz verde” dada (solicitada?) pelo “Grupo de Bildelberg” numa reunião ocorrida a 19/4/74, no Hotel D’Arbois, em Mégeve, nos Alpes Franceses, propriedade do Barão Edmond Rothschild, na qual, entre outros participou Joseph Luns – na altura, Secretário – Geral da NATO – não sendo por acaso que uma esquadra da Aliança fundeou na Barra de Lisboa no dia do golpe?
    5º- Desde quando e porquê, o PCP passou a tomar parte no golpe? Desde o “ensaio” ainda mal explicado, das Caldas, a 16 de Março? Ou antes?
    6º- O que fazia o General Costa Gomes enfiado com a mulher no Hospital Militar da Estrela, no dia 25/4/74?
    7º- Porque é que o Chefe de Governo, Marcello Caetano, nunca deu ordens para conter o golpe e, à revelia do que estava previsto nos planos de contingência da altura, em vez de se dirigir para Monsanto, foi meter-se na “boca do lobo” do Quartel do Carmo? Porque recusou a fuga do mesmo, que lhe foi oferecida e era viável? O que quis negociar com o General Spínola?
    8º- Porque é que 90% dos efectivos da PIDE/DGS (na área de Lisboa) decidiram, após o golpe, concentrar-se no local mais inverosímil para o fazerem, ou seja na própria sede?
    9º- Porque é que até hoje nenhum governo português intentou uma acção, lógica e pertinente, que é a de solicitar ao governo da Federação Russa, a devolução ou, no mínimo a cópia, de toda a documentação desviada dos arquivos nacionais, nomeadamente da DGS, como não parece haver qualquer dificuldade em provar?
    10º- Porque é que o MFA – autor do golpe – e a sua suposta cabeça dirigente, ou seja a, em cima-da-hora formada, Junta de Salvação Nacional (JSN), cometeu a imprudência de não terem declarado o “Estado de Sítio”, perdendo desse modo, e no próprio dia, o controlo da situação?
    11º- Ou terá sido de propósito?
    12º- Idem para a leviandade com que a nível militar se começaram a prender e a sanear uns aos outros, sem qualquer regra ou justiça, estilhaçando dessa forma a hierarquia, a disciplina e a organização das FA, sem as quais nada se podia levar a cabo? FA que, recorda-se, estavam em campanha em três frentes!
    13º- Ou também foi de propósito?
    14º- Como e porquê deixaram o Poder cair na rua, chegando-se ao ponto de colocar o país à beira da guerra civil, a qual se evitou “in extremis”, a 25/11/1975?
    15º- Porque se deixou entrar no país e libertou das prisões, uma quantidade de gente de mau porte que, recorde-se, não estava presa por delito de opinião, mas incorria em crimes do foro militar, de delito comum e, até, de traição à Pátria, sem que os mesmos ficassem a bom recato à espera de julgamento?
    16º- O “granel” desculpa e justifica tudo o que se possa passar?
    17º- Como se pode intentar um golpe de estado num país que, não estando oficialmente em guerra com ninguém, conduzia extensas operações militares das quais dependia a salvaguarda de grande parte do seu território e populações, sem pensar muito maduramente no impacto que tal golpe podia ter naquilo que estava em jogo e era de longe, a questão mais importante e delicada em que toda a Nação estava envolvida?
    18º- Porque é que os mentores do golpe (e seus seguidores) não conseguiram ou quiseram discernir e perceber, que a defesa do Ultramar era distinta – por nacional – da simples mudança de um regime ou sistema político?
    19º- Porque se permitiu que a obsessão política pela conquista do Poder se sobrepusesse a questões fundamentais para o País (e ainda hoje assim acontece…) e se fizesse tábua rasa dos meios para atingir os fins, muitos deles estranhos à matriz histórica, estratégica e cultural de todo um povo?
    20º- Como explicar, melhor dizendo, como compreender que o que foi pensado para o dia seguinte – que é a parte mais importante num golpe de estado, ou revolução – neste caso o que estava condensado no Programa do MFA e na Proclamação da JSN ao País – nunca se conseguiu pôr em prática?
    Finalmente:
    Como explicar que nenhum dos “3 Ds”, constantes do referido programa do MFA, a saber, “Descolonizar, Democratizar e Desenvolver” tenha sido cumprido, ou dito de outro modo, tenha seguido o seu curso, estando hoje o país que nos resta no perigeu do seu poder relativo, desde que Afonso Henriques individualizou o Condado e na iminência de desaparecer como entidade política autónoma e soberana, comunidade com identidade própria e até em vias de extinção como povo com características próprias (por via da demografia negativa, da emigração e imigração, só para citar estas)?
    Ou seja, e em síntese por demais sintética:
    1º- O “D” da descolonização resultou numa desgraça inominável e na maior vergonha histórica, desde 1128, cuja responsabilidade teremos que carregar como povo e sociedade organizada, para todo o sempre. Tendo, além dos que ficaram deste lado do mar, desgraçado sobretudo os portugueses dos territórios que abandonámos à sua sorte, os quais em vez de descolonizarmos – uma operação já de si aberrante, para a idiossincrasia da Nação Portuguesa, dadas as regras internacionais em vigor – entregámos nas mãos de forças marxistas, e só a essas.
    Perdemos “apenas” e em pouco mais de um ano, cerca de 60% da população e 95% do território…
    2º- O “D” da democratização está consubstanciado numa Constituição enorme, errada sob muitos pontos de vista, mal escrita, insensata e elaborada debaixo de condicionalismos vários. E, já agora, anti – democrática…
    De tudo resultou uma confusão doutrinária de se ter considerado a Democracia em si mesmo, que ela não é, em vez de um meio para se atingir as três aspirações “utópicas” do Estado, a saber, Segurança, a Justiça e o Bem-Estar (por esta ordem); na ditadura da partidocracia (com a agravante de o espectro político estar apenas representado do “centro até à extrema esquerda”- terminologia serôdia que já devia ter desaparecido há muito), baseada em partidos medíocres.
    Partidos donde emanam políticos cada vez mais impreparados, na sua maioria autênticos papagaios troca-tintas em que já ninguém acredita nem suporta. E que se blindaram no poder.
    Partidocracia que degenerou rapidamente em plutocracia, “corruptocracia” e “bandalheirocracia”!
    O fulcro da Democracia acaba por ser a representatividade. Pergunta-se, hoje em dia, quem se sente representado?
    3º- Finalmente o “D” do desenvolvimento.
    Portugal era um país que em 24/4/1974 tinha estabilidade económica, financeira, social, com uma administração financeira honesta e regrada; onde todas as instituições funcionavam; em que a economia crescia 7% ao ano (no Ultramar era mais); possuía a 6ª moeda mais forte do mundo, escorada e protegida por 850 toneladas de ouro e 50 milhões de contos; tinha acesso ao crédito que quisesse a juros baixos; gozava de pleno emprego.
    Conseguia tudo isto, note-se, ao mesmo tempo que tinha 230.000 homens em armas, em quatro continentes e quatro oceanos, dos quais 150.000 permanentemente empenhados em operações de contra-guerrilha, em três teatros de operações distintos a milhares de quilómetros da sua base logística principal, com muito limitado apoio aliado e apenas com generais e almirantes portugueses.
    Orgulhosamente só (frase por norma tirada do contexto).
    E sem dever nada a ninguém.
    Como explicar que um país nestas condições, 40 anos depois dos “amanhãs que cantam” e das mais floridas esperanças, esteja no actual estado de banca rota e muito “acompanhado” internacionalmente, por tantos países e instituições que nos desqualificam, publicamente, no concerto das Nações (até nos chamam “PIGS”)?
    Esteja, também, ocupado politica, económica e, sobretudo, financeiramente, por uma “Troika” (que ninguém sequer conhece bem, ou o que representa), depois de já ter passado por duas outras grandes “aflições” financeiras (em 1978 e 1983), que obrigaram à intervenção do FMI; e depois da adesão à CEE, em 1986, ter entrado dinheiro no país à média de dois milhões de contos/dia, de fundos comunitários?!
    E estamos hoje ainda a tentar evitar a banca rota à custa de sacrifícios de quem não é responsável maior por tudo o que se passou; deixando incólumes os responsáveis (que nem um pedido de desculpas se atrevem a dar), e da alienação contínua da soberania, das empresas, do património, da venda da própria terra e dando até início a um processo de prostituição colectiva, de que a outorga da nacionalidade a ricaços estranhos que queiram investir por cá algumas centenas de milhares é já exemplo eloquente!
    Já me esquecia, estamos a sair da bancarrota à custa de fazermos mais empréstimos, com os quais ganhamos tempo para tentar pagar uma dívida e os juros da mesma – que ninguém sabe quanto é – mas que seguramente não iremos pagar nos próximos 100 anos…
    Em que opróbrio de país nos tornámos?!
    Foi para isto que se quis a tão decantada Liberdade – um conceito absoluto, porém de aplicação relativa – entusiasticamente tida como a principal conquista de Abril?
    Ao fim de 40 anos celebra-se o quê?
    João José Brandão Ferreira
    Cidadão Português (nada, mesmo nada, satisfeito)
    (Beneficiário nº 11337317689 da CGA)

  4. O comentário do “anónimo” em que descreve os 3 D dá até medo de viver num mundo onde tanta gente ainda pensa assim. Segundo ele Portugal perdeu 95 % dos território e 60 % da população num dia. Não tinha mal nenhum estarmos num sistema imperialista de ocupação, expropriação e escravização de outros países e povos desde que o “nosso” tirasse vantagem e dividendos disso. Os troca tintas (expressão usada por ele) na verdade são as pessoas que escreveram estes textos e comentários. Choram-se porque lhes dói no conforto que estão a perder, na perda de qualidade de vida mas por eles qualquer sistema opressivo, nacionalista, imperialista seria bom desde que o país, e, acima de tudo, eles mesmos vivessem com todas as condições e regalias.

  5. Senhor Paulo,
    infelizmente diz-se muito e, apesar disso, não há uma opinião ou um único texto capaz de descrever a realidade vista de todas as perspectivas e interesses. Por isso é bom ouvir-se e ler-se a argumentação de uns e outros, para melhor se formar a própria. Às vezes mais que argumentação assiste-se à tomada de posição. Por isso seria sempre importante pegar-se numa afirmação e refutá-la com argumentos concretos.
    O que me agradou na postação anónima foi o facto de documentar a posição de uma pessoa envolvida directamente no 25 de Abril: o Tenente Coronel Brandão Ferreira; de resto, o importante é ter-se em conta o maior número possível de pontos de vista porque cada um representa um aspecto da realidade. Na realidade para uma pessoa estar bem informada tem de conhecer especialmente os pontos de vista do opositor.
    Quanto a regalias penso que ele terá tanto direito a defendê-las como os políticos e personalidades que enriqueceram à custa da revolução e apesar disso determinam os destinos da nação contra o espírito da revolução.

  6. Histórias minhas reais da guerra, com verdades politicamente incorrectas…

    Moçambique, Beira e o meu amigo Comandante Cara Alegra Tembe, da Frelimo

    Eu vivi por inteiro o processo dito “descolonizador” de Moçambique desde 14Fev74 a 20Jun75.

    Ali assisti e/ ou participei nos factos relevantes de todo esse processo, o 25Abr74, a cessação das actividades militares contra a Frelimo, o Acordo de Lusaca, o 7Set74 em Lourenço Marques (LM), o 21Out74 em LM e a entrada da Frelimo e dos seus guerrilheiros em Moçambique.

    Na Beira, o primeiro Comandante Militar da Frelimo foi Rufino Cara Alegre Tembe que, mesmo de rosto sério, parecia sorrir sempre, daí o nome.

    Por razões da cooperação militar que então se estabeleceu na Beira, entre Frelimos e Paraquedistas, tive reuniões várias com Cara Alegre Tembe.

    Era uma figura notável, não apenas pelo seu alegre rosto, mas também por um certo ritual e visual com que se fazia acompanhar.

    Vi-o pela 1ª vez na Praça do Município, ia eu a sair da livraria Lello e ele a entrar.

    Ainda não o tinha encontrado, jovem, porte altivo, uniformizado em caqui creme, botava chapéu amplo tipo Hoss do Bonanza, único por aquelas bandas, e fazia-se acompanhar por dois Frelimos fardados, ambos sempre à rectaguarda, um á direita com a sua Kalashnikov e o outro portador da sua mala, tipo James Bond, à esquerda.

    Havia alguma imponência de cariz africano no conjunto, e que transmitia autoridade, encenada claro, mas com algum impacto na opinião local.

    Dias depois tive a 1ª reunião com Cara Alegre Tembe, para partilharmos actividades militares conjuntas; fiquei bem impressionado com a moderação, a simplicidade e a forma cordata como fomos decidindo todas as questões; simpatizei com o Senhor.

    No fim da reunião, para surpresa minha, Cara Alegre chamou-me à parte e colocou-me uma questão impensável, traduzindo dúvidas e inseguranças suas: –

    “Capitão, diz-me porque é que Portugal decidiu entregar Moçambique à Frelimo?”

    Sem saber como lhe responder e, não entendendo bem o objectivo da questão, digo-lhe: – “Mas porque é que me pergunta isso, foi esse o sentido da luta da Frelimo.”

    Fiquei chocado, passe a expressão, quando me respondeu, claro e preciso, que: –

    “Sabe Capitão, a Frelimo já não podia continuar a luta armada, não aguentávamos mais; foram muitos anos no mato, os ataques sem parar das tropas portuguesas, os bombardeamentos com aviões, helicópteros, não podíamos continuar, andávamos a discutir como negociar com Portugal o fim da luta armada.”

    Assim, concreto, sem reticências, tal e qual.

    Olhei-o sem saber o que dizer; comentei apenas que foram ordens de Lisboa e decisões políticas, que eu próprio não compreendia.

    Admirei-lhe a franqueza e a humildade com que me falou das esgotadas capacidades e do moral vencido da Frelimo, que foi salva nos limites pelo 25Abril74 em Portugal; foi grande! E aqui lhe presto a minha homenagem, pela sua honestidade!

    Embora eu tenha feito poucas operações de contraguerrilha à Frelimo, não tinha ainda concluído tal facto; mas sentia em todas as que fiz, face â minha longa experiência de Angola, que algo não batia certo, entre a narrativa duma Frelimo aguerrida, e a realidade fugidia, sem resistência, que eu enfrentei nos matos.

    Nas actividades conjuntas com a Frelimo na Beira, tal como em Lourenço Marques, o meu intérprete para o efeito, foi o meu inestimável amigo Moçambicano e 1º Cabo Paraquedista Chidengo, que me disse logo: –

    “Meu Capitão, eu não compreendo estes Frelimos, não falam nenhum dialecto Moçambicano; não são Moçambicanos!”. (o mesmo que me tinha dito em Lourença Marques)

    O espantoso significado deste facto é que a FRELIMO não conseguiu recrutar moçambicanos suficientes para a guerrilha e, nem sequer, no início da “descolonização/ neocolonização já”, para aparecerem camuflados de Frelimos.

    Daqui se conclui, claramente, que a Frelimo não tinha consigo “a mente e o coração” dos povos moçambicanos, base e condição absolutamente necessária para se vencer uma guerrilha, como de facto não venceram.

    Em Angola, de onde eu tinha saído há menos de um ano e onde tinha feito mais de três anos seguidos de contraguerrilha, a absoluta e total derrota militar dos três movimentos era ainda mais flagrante e concreta.

    A UNITA colaborou militarmente com Portugal de 70 a 73; pessoalmente fiz operações de reabastecimento em munições e rações de combate à UNITA em 1972, na área do Luso, juntamente com uma companhia de Comandos.

    A FNLA não tinha expressão militar minimamente relevante; limitavam-se a umas emboscadas, raras, e flagelações isoladas à distância, e só no Norte de Angola; andei por lá 3 anos a combatê-los no terreno, sei do que falo, por experiência; eram simples bandoleiros e criminosos.

    O MPLA chegou a ter uma quadrícula de guerrilha organizada no Sul e Leste de Angola, ocasionalmente forte e combativa, mas que foi severamente reduzida entre 70 e 73, pelas intensivas e continuadas campanhas militares das Forças Armadas Portuguesas, pela mão do General Comandante da Zona Militar Leste.

    Em fins de 73, o dispositivo do MPLA estava totalmente desarticulado, o seu efectivo estava reduzido a 600 guerrilheiros concentrados na Mata do Maiombe em Cabinda e sob forte pressão militar de Portugal; em termos práticos, o MPLA estava neutralizado (derrotado) militarmente.

    O recrutamento de novos guerrilheiros pelo MPLA, Frelimo e pelos outros movimentos era feito por sequestro, nas aldeias mais expostas; chegavam a uma aldeia e raptavam todos os jovens em idade de combater, à força, de armas apontadas; alguns destes factos foram por mim confirmados in loco.

    Em Angola também nunca nenhum dos movimentos teve consigo as “mentes e corações dos povos angolanos”, a não ser pontualmente, daí a derrota das guerrilhas em Angola.

    Por exemplo, era prática operacional de rotina da Polícia de Segurança Pública em Angola e Moçambique (onde não havia GNR), ter apenas um ou dois PSP´s brancos, a enquadrarem dezenas de milícias africanas na protecção imediata de aldeamentos muito remotos, o que me deixava quase estarrecido e sem perceber, sempre que me deparava com tais situações.

    Mas raros foram os casos de mortos destes PSP´s pelos guerrilheiros, embora por ali isolados entre eles, anos seguidos, longe, muito longe das tropas; significando isto também, que as populações estavam com Portugal e não com as guerrilhas.

    Nos cinco anos que fiz nas contraguerrilhas a conviver com os povos moçambicanos e angolanos, nos confins mais isolados, dormindo até ocasionalmente nos aldeamentos, sozinho, contra todas as seguranças, nunca eu senti ou vi qualquer hostilidade contra a minha presença, antes o seu oposto.

    Foi, pois, neste contexto das guerrilhas de Angola e de Moçambique já resolvidas militarmente por Portugal, que apareceu o 25Abr74, com a sua prioritária política descolonizadora exclusivamente pró URSS, a impor-se ao notável sucesso militar das Forças Armadas, obrigando-as à rendição política sem condições, ao arrepio das situações militares no terreno.

    Todos os combatentes portugueses, os veteranos, que passaram por Angola e Moçambique de 1961 até 25Abr74, pela participação na sua indiscutível vitória militar na guerra do Ultramar, merecem, pois, Honra e Glória e devem orgulhar-se todos desse seu passado militar, pois foram ELES também, Honra e Glória de Portugal!

    A vergonha e a desonra da rendição política de Portugal em África é e foi, apenas e só, da Política e dos militares políticos de então.

    José Luiz da Costa e Sousa
    Capitão Paraquedista, á data dos factos aqui relatados.
    FB

  7. Parabéns e muito obrigado pela narração. É pena não haver mais testemunhos destes e mais pessoas a contar o que experimentaram. A História que aprendemos é a contada e interpretada pelos interesses dos governantes, no caso, a favorecer os que tomaram conta do poder. A história do 25 de Abril tem sido uma história mal contada para enobrecer os frevolucionários da ideologia socialista e para não envergonhar o povo português, que tem de viver na ilusão dos ideais do 25 de Abril!

  8. Quando ocorreu o 25abr74 era também eu capitão miliciano em Tete. Lamento contradizer este testemunho do “colega” da FA, duma alegada “guerra ganha” pelas NT, porque no distrito de Tete não era assim, apesar do mérito das nossas tropas e do seu enorme esforço e valor!… No princípio de 1974 a FRELIMO começou a atingir a nossa intervenção aérea, e algumas companhias nossas tiveram que recuar, uma vez que dependiam do apoio aéreo para todos os seus reabastecimentos. Se este capitão da FA tivesse estado no AB7 de Tete, por certo teria cnhecimento desses factos… Depois do Acordo de Lusaca fui designado para fazer a transição das nossas anteriores estruturas militares da cidade de Tete para a Frelimo, articulando com o comandante distrital José Moyane, militar também muto sensato e respeitador. Desde maio a agosto de 1973 também eu estivera na Beira (Dondo) e aí, é verdade, na altura era zona de 50%, ou seja, não havia FRELIMO ativa…
    José Pombo
    FB

  9. Concordo plenamente com a Narrativa do Capitão Paraquedista – José Luís da Costa e Sousa !. Eu nasci no UÍGE e vivi lá até 3 de Junho 1975. E verificava – se à época que a UNITA actuava no Leste mas já desde 72 com encontros com as Tropas Portuguesas e tinha um pacto com os Madeireiros para não os atacar. A sua força era muito reduzida. Depois tínhamos a FNLA no Norte d’ Angola mas, com uma expressão reduzida já, não fazendo uma Guerra aberta mas com Guerrilha. Constava – se que os Americanos e Chineses a tinham abandonado e não lhes fornecendo material de Guerra . Estavam transformados num grupo de bandoleiros sendo, a maior parte de Guerrilheiros Zairenses e muito poucos Angolanos. A sua força era contra as Fazendas e contras os Angolanos de Etnia – Bailunda. E, depois que salvo erro em 72 que foi formado o Grupo de Flechas infringiam – lhes pesadas baixas !. O MPLA estava reduzido a um grupo de guerrilheiros e estava muito enfrsquecido na Zona Leste pela facção Chipenda e tinha alguns guerrilheiros no Centro e no Norte. Mas era um grupo de guerrilheiros que estavam em ” fim de Vida ” pois a Rússia estava a começar a reduzir o fornecimento d’ armamento pois, não viam progresso agressivo contra as Tropas Portuguesas. Daqui depreende – se que todos os Grupos Guerrilheiros destes 3 Movimentos de Libertação estavam em fim de Vida. Havia a supremacia das tropas Portuguesas em ANGOLA !. Estavam na iminência de completa derrota !. Com o 25 de Abril foi – lhes oferecido o Poder mas com a anuência do Poder da Metrópole. Mário Soares e Almeida Santos e ” quejandos ” , antes de entrarem em Portugal já tudo tinham negociado com os Movimentos de Libertação em especial o MPLA !. Por ossos ANGOLA nunca perdeu a Guerra. Tinha – a ganho pois os Movimentos de Libertação completamente destroçados queriam a ” rendição ” com a paragem da guerrilha. E foi – lhes oferecido de ” mão beijada ” o Poder ” !. E, assim sendo chegaram aos ” Acordos d’ Alvor ” que foi uma farsa só para encobrir a derrota dos Movimentos de Libertação enaltecendo – os a nível Internacional. Foi então que a Rússia e Cuba ajudaram o MPLA, tornando – o no Movimento mais forte Politicamente e Militarmente em especial em Luanda – Capital e, na zona Leste e Centro. Até que chegado o dia da Independência cada Movimento a anunciou na sua Zona. O MPLA em Luanda – Capital, a FNLA no Norte d’ Angola – Uíge. A UNITA no Huambo. Eu não posso dizer que foi proclamada a Independência d’ ANGOLA porque não foi proclamada a Independência por o Movimento mais votado em Eleições conforme ” Acordos d ‘ Alvor ” !. E nunca a Independência poderia ser proclamada por três Movimentos de Libertação. E, esta proclamação deu origem a uma guerra fratricida provocada pelo MPLA que era o Movimento mais forte Militarmente porque como estávamos no Tempo da ” Guerra Fria ” a União Soviética e Cuba ajudaram o MPLA com tropas Cubanas que entraram com a conivência das Tropas Portuguesas nos Portos do Sul d’ ANGOLA. Assim como a entrega d ‘ armamento pesado das Tropas Portuguesas e tudo isto a passar – se ainda sob a Bandeira Portuguesa. E, o MPLA consegui com todas estas ajudas derrotar todos os outros dois Movimentos de Libertação. Por isso proclamou a Independência na Capital. Nota : foi vergonhoso para Portugal pois pela vergonha e desonra da rendição Política de Portugal em ANGOLA e dos traidores Políticos em especial Mário Soares e Almeida Santo. E focando a covardia dos Militares Graduados que eram quase todos Comunistas !!!….
    Manuel Silva Nelito
    FB

  10. Hoje, 25Nov18, faz 43 anos, que ocorreu o último episódio do processo revolucionário iniciado com o 25Abr74, a que se seguiram o 28Set74, o 11 Mar75 e finalmente o 25Nov75.

    Fui interveniente activo neste evento e integrei a Comissão Nacional de Investigação ao 25Nov75.

    O 25Nov75, o que foi, porque e como foram os paraquedistas manipulados (Esta é a realidade que eu vivi e como a entendi)

    Objectivos do 25Nov75: –

    1º Recuo estratégico do PCP/ URSS no controle que detinha sobre o Poder e passagem para os bastidores da revolução, para acalmar o Povo Português e a comunidade internacional, alarmados estes com os excessos comunistas em Portugal.

    2º Eliminação das extremas esquerdas anarco comunistas, inúteis e já incontroláveis politicamente pelo PCP.

    Descrição

    25Nov75; Portugal alvorece em pé guerra; o País sofre mais uma convulsão de epilepsia revolucionária.

    Capitão para-quedista, recém-chegado de Angola, sou acordado em Mangualde, com um telefonema que me diz: -” Vermelho 9”; tal código determina-me a apresentação imediata na Base Aérea da OTAN na Cortegaça, e assim fiz.

    Estava em curso a terceira e última golpada do processo revolucionário iniciado com o 25Abr74, acelerado com o 11Mar75 e desacelerado intencionalmente com o 25Nov75, por razões que adiante se compreenderão.

    Na noite de 24 para 25Nov75, sargentos e soldados para-quedistas ocuparam as bases aéreas, prenderam os respectivos Comandantes, e exigiram a demissão do Chefe de Estado-Maior da FAP, o General Morais e Silva.

    Os fuzileiros, a PM do Exército, o Ralis e a Escola de Administração Militar etc. solidarizaram-se com os paraquedistas; obedeciam todos às ordens do acéfalo herói de Abril, Major Otelo Saraiva de Carvalho, Comandante do COPCON, Comando Operacional do Continente.

    Aparentemente, o PCP e a extrema-esquerda faziam o assalto final ao Poder.

    Seguiram-se diversos desenvolvimentos militares e políticos para contenção dos revoltosos em pé de guerra; as forças de contenção eram lideradas militarmente, no terreno, pelo Tenente Coronel Ramalho Eanes e, politicamente, pelo Major Melo Antunes.

    Aquelas acções e, outras que se seguiram, saldaram-se por três militares mortos entre os Comandos e a Polícia Militar do Exército na Ajuda, e terminaram com o sucesso da facção oposta ao Major Otelo S. de Carvalho.

    O Major Otelo é derrubado, mais tarde é detido e bem, depois foi solto e mal; a revolução devorava mais um dos seus filhos, o mais dilecto, e paria novos heróis, como todas as outras.

    O TenCor Ramalho Eanes ascendeu à condição de “herói” circunstancial, é promovido a general e mais tarde eleito Presidente da República; foi o triunfo do seu carisma militar, honestidade pessoal, profissional e confiança política.

    No terreno, os mais activos heróis desta “guerra” do 25Nov75 foram, no entanto, o Coronel Jaime Neves e os seus Comandos, não desconsiderando as acções relevantíssimas dos 122 oficiais paraquedistas e mais dos aviões e Oficiais pilotos aviadores da FAP, concentrados na Base da OTAN na Cortegaça (onde estive activo na circunstância) e de terceiras figuras várias, como foi o General Pires Veloso, Comandante da Região Militar do Porto, dito Vice-Rei do Norte, etc…

    O folclórico esquerdista Major Otelo S. Carvalho e seus seguidores, a irracionalidade surrealista da extrema-esquerda, a falta de informação e manipulação política total dos sargentos e soldados paraquedistas, tudo isso foi usado neste golpe magistral do PCP, para este os mobilizar para a execução de acções militares irresponsáveis e que foram usadas, depois de contidas, como razão para eliminar da vida política aquelas forças e entidades de extrema esquerda.

    Forças de extrema esquerda aquelas, civis e militares, que tinham sido criadas e alimentadas, intencionalmente, para servirem propósitos revolucionários que se esgotaram com a independência de Angola a 11Nov75.

    Depois tiveram de ser neutralizadas, porque o PCP as considerava já inúteis, incontroláveis, contraproducentes e também para acalmar a Europa e os EUA, alarmados que estavam com a bandalheira anarco comunista em que Portugal se transformara.

    Antes do 25Nov75, Henry Kissinger, então Secretário de Estado dos EUA, afirmava que Portugal era já, e seria ainda mais, a vacina anticomunista da Europa.

    Em Espanha estava em perspectiva a legalização do Partido Comunista Espanhol; a França e a Itália, em vésperas de eleições, esperavam votações significativas nos seus Partidos Comunistas.

    Atingido o objectivo prioritário da URSS/PCP pós 25Abr74l, ou seja, a descolonização total pró URSS, o PCP tinha de sair da ribalta política em Portugal, para que os avanços europeus atrás previstos se concretizassem, e para que o comunismo português não se transformasse na tal vacina de que Kissinger falava, o que não interessava à URSS.

    E foi isso que a dupla PCP/URSS fez com o 25 Nov75, deu uns passos atrás em Portugal para acalmar e avançar na Europa, e sossegar os sentimentos anticomunistas em Portugal.

    Como é que o PCP organizou o 25Nov75?

    O 25Nov75 foi concebido, planeado e dirigido encobertamente pela URSS/PCP e alguns elementos do MFA, Movimento das Forças Armadas.

    Raimundo Narciso do PCP, que em 75 tratava dos “assuntos militares”, afirmou que de facto o PCP foi a cabeça da organização e da contenção do 25Nov75, e também quem orientou a esquerda militar, liderada por Otelo S. de Carvalho, na organização e lançamento do mesmo, seja, criou o incidente e controlou, sempre à rectaguarda, as duas facções em oposição.

    Desde o 25Abr75, que a URSS controlou o poder político e militar em Portugal através do PCP e seus sucedâneos, até nos conseguir “expropriar” todas as colónias, com o nosso acéfalo contentamento, empenhamento e crença convicta nos vigários contos das verdades deles, que fizemos nossas.

    A última colónia a ser entregue á URSS foi Angola, em 11Nov75; não foi por acaso que o 25Nov75 ocorreu logo 14 dias depois.

    O 25Nov75 estava a ser preparado desde agosto 75, pelo maquiavélico Major Melo Antunes, através do seu “Documento dos Nove” inspirado, encobertamente, pelos interesses do PCP.

    Andei, pessoalmente, a fazer sessões de esclarecimento sobre este documento em Angola, na qualidade de eleito na Comissão MFA do Batalhão de Paraquedistas, BCP21, convencido que era para conter o PCP e afins em Portugal; foi e não foi, tempos de enganos e desenganos!

    Este então célebre documento, pelo seu propositado conteúdo anti excessos políticos em curso no Verão de 75, serviu para captar todas as forças à direita do PCP e para as preparar mental e operacionalmente para uma acção normalizadora desses excessos, e que vieram a constituir as forças de contenção do 25Nov75.

    Para ultimação do 25Nov75, o Coronel Mankeiev da KGB/ URSS chegou a Portugal em 18Nov75 e partiu em 23Nov75, tendo estado no quartel general do COPCON, Forte do Alto Duque, com o Major Otelo e com uma célebre figura do PCP, Jaime Serra, responsável das acções clandestinas do partido.

    De 18Nov a 23Nov75 e no COPCON, estas entidades finalizarem os detalhes da componente operacional e ofensiva do 25Nov75, ou seja, o plano cumprido pelas forças militares que seguiram Otelo, em particular os Paraquedistas, a Polícia Militar, Fuzileiros e outros… ligados à extrema esquerda.

    Eu confirmei, pessoalmente, a vinda e estadia do Coronel Mankeiev no COPCON, exactamente no processo do Otelo/COPCON, quando mais tarde integrei oficialmente, a Comissão Nacional de Averiguações aos Acontecimentos do 25Nov75.

    O Expresso noticiou também na altura esta presença, assim como a sua chegada e partida ao aeroporto de Lisboa.

    Ambas as facções em confronto no terreno, os civis e militares do Major Otelo, aos quais o PCP esteve inicial associado, e os seus opositores liderados pelo TenCor Ramalho Eanes, todos foram telecomandados pelo PCP, uns mais e outros menos conscientes disso, mas a maioria ainda hoje está convicta de outra coisa qualquer.

    Da facção do TenCor Ramalho Eanes (onde me incluía entre os oficiais paraquedistas), só o Major Melo Antunes tinha pleno conhecimento de tudo, pois foi ele o seu principal planeador político militar, sob orientação do PCP.

    O Major Otelo ignorava que, para ele e toda a extrema-esquerda que o orbitava, estava reservado, desta vez, o papel de carneiros a serem sacrificados no altar da revolução e dos interesses da URSS, e foram eliminados nas suas próprias inocências úteis.

    A arte e a eficiência da dupla URSS/PCP na concepção, planeamento e execução de tais acções, autênticas obras-primas do golpismo político militar, de engenharia da opinião pública, de manipulação dos militares, do povo e da política, foram absolutamente notáveis, de tal modo que esta verdade ainda hoje não é compreendida.

    Ultrapassando este incidente do 25Nov75, importa considerar que houve uma inteligente, oportuna e eficaz lógica política golpista, sequencial e inexorável, de todos os eventos da revolução em Portugal, que não foi e não é acessível à opinião pública comum, intoxicada e lavada ao cérebro com correcções políticas.

    As versões oficiais dos eventos chave do processo revolucionário português, sejam o 25Abr74, o 28Set74, 11Mar75 e 25Nov75 estão manipuladas; só a cronologia dos factos conhecidos e os agentes activos à vista estão correctos, e pouco ou nada mais.

    Qual foi a lógica sequencial e os propósitos políticos subjacentes ao 25Abr74, 28Set74, 11Mar75 e 25Nov75?!

    Os objectivos imediatos do 25Abr74 foram: – 1º mudar o regímen, 2º terminar a guerra do Ultramar e 3º descolonizar, exclusivamente, em favor da URSS, conforme Pacto de Paris de 27Set73, inspirado pela URSS e acordado entre o PCP e o PS.

    Feito o 25Abr74, mudado o regímen, declarado o fim das acções ofensivas das FAP´s em África logo na 2ª semana de Maio, pelo General Costa Gomes (pró PCP), CEMGFA, havia, pois, que descolonizar em favor da URSS, conforme os acordos prévios políticos..

    Mas o General A. Spínola, Presidente da República, e porta Bandeira do 25Abr74, era contra a descolonização sumária, imediata e pró URSS.

    Spínola defendia um processo de descentralização e autonomia das províncias que, ao longo de um período alargado de tempo lhes permitiria o acesso às independências, com salvaguarda dos interesses de todas as partes envolvidas, no contexto duma Federação de Estados sob a Bandeira de Portugal. (era também o pensamento da CIA/EUA)

    Por este facto, as entidades comprometidas com a descolonização pró URSS, (Pacto de Paris de 27St73), o PCP e a esquerda em geral, tiveram que neutralizar politicamente o General Spínola.

    Para o efeito, conceberam e realizaram a chamada marcha da “Maioria Silenciosa” em 28Set74, fazendo constar e parecer ter sido inspirada pelo General A. Spínola, a quem acusaram (via intensa propaganda dos média, controlados pela esquerda) de querer usar tal “Maioria Silenciosa” para reverter as conquistas de Abril e forçaram o General a resignar da Presidência.

    Mas, o General Spínola, embora resignado de funções oficiais, polarizava em torno de si muitos militares e civis dotados de elevada consciência dos interesses nacionais, e que discordavam das descolonizações imediatas pró URSS, sem consultas prévias e ou eleições,

    Identificado o General Spínola e os seus “seguidores” pelo PCP e afins, como obstáculo à descolonização pró URSS, e à sua aceleração, houve que os neutralizar política e fisicamente, o que o PCP e satélites políticos efectivaram com a golpada do 11Mar75, enfiando nas enxovias de Caxias todos os civis e militares listados como opositores a tal desiderato; só os libertaram, sem julgamento, depois da independência de Angola.

    Com o General Spínola a monte e fugido do País depois do 11Mar75 e os potenciais opositores à descolonização pró URSS todos enjaulados em Caxias, sendo o Presidente da República Costa Gomes e o PM Vasco Gonçalves, dois convictos pró PCP´s e pró URSS, Portugal avançou rapidamente e em força com a entrega de todas as colónias à URSS, na pessoa dos seus movimentos armados naquelas províncias, através das hipocrisias das independências neocoloniais.

    Simultaneamente, a sovietização do País ia de vento em popa, de que resultaram graves inquietações políticas internacionais dos EUA e Europa e mais ainda nacionais, face à intensiva comunização do País.

    Tendo a URSS atingido todos os seus objectivos em Portugal em 11Nov75, com a independência neocolonial de Angola em seu favor…. a URSS decidiu então avançar com o 25Nov75, usando para o efeito o seu PCP e sucedâneos.

    Conforme já atrás exposto o 25Nov75 foi, pois, planeado e levado à execução pelo PCP para eliminar a já inútil e incontrolável extrema-esquerda, e para recuar na sovietização do País, camuflando-se nos bastidores do poder e, acalmar assim a Europa e os EUA, e o próprio povo português, que já andava a incendiar as sedes comunistas pelo País fora, de Rio Maior para Norte.

    O Major Melo Antunes salvou o PCP de ser perseguido e afectado pelo 25Nov75, ao fazer uma intervenção urgente e convincente na RTP, garantindo aos portugueses ser o PCP essencial e necessário à democracia.

    Neste processo histórico, iniciado com o 25Abr74, os políticos e o povo em geral foram manipulados por modernos catecismos políticos, com ideias novas e ou reformatadas e variados “ismos”, mas, os seus objectivos reais foram e são sempre os mesmos: –

    O saque do Homem pelo Homem, ou neste caso, dum Estado (Portugal) por outros Estados (URSS), tudo mascarado sempre, com as mais nobres ideologias, utopias e valores humanos em alegado proveito dos povos deles vítimas.

    José Luiz da Costa Sousa
    (Participante no 25Nov75 como Capitão Paraquedista)
    FB

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