AUTO DO DEMOS EM GUERRA

Junto ao Muro das lamentações!

De Bruxelas, em auto de agonia,
Vai o Demos à feira da ilusão.
Eça e Vicente (1) na ponta da ironia,
Veem o voto ungir boys sem razão.

Mal os elege, a plateia desatina,
Chora a burrice que ela mesma criou.
Mas eis que a astúcia, de casaca e gravata,
Cavalga o medo que a guerra gerou.

Nós, resignados, no panteão da asnice,
Vemos o mundo em chamas a arder.
Enquanto o E3, em comissões felizes,
Cinzela o vazio que nos faz tremer.

Mas deste hospício, eis o paradoxo santo:
É o menos reles dos regimes, enfim.
Pois só a farsa, com seu nobre encanto,
Converte a burrice em soberania assim.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

(1) Se a sociedade persiste na mesma subserviência perante as autoridades e se a atitude do poder político teima em não se renovar, impõe-se regressar à tradição literária crítica, especialmente a de Fernão Lopes e a de Eça de Queirós, para dar voz a esta poesia. No século XIV, Fernão Lopes, cronista de espírito livre, investiu contra a adulação à nobreza, denunciou as parcialidades da corte e elevou o povo a sujeito ativo da História. No século XIX, Eça de Queirós, com a sua ironia cortante, desmontou a burguesia, as suas instituições e o provincianismo que asfixiava o país. A permanência dos vícios que ambos retrataram confere-lhes uma inquietante atualidade, justificando plenamente esta incursão poética.

 

NÃO ESTAMOS PREPARADOS PARA AS MUDANÇAS TURBULENTAS QUE A IA TRAZ

Will Gates, otimista de sempre, mostra-se preocupado. Para ele, a IA não é só inovação, é uma “transição turbulentíssima” que vai deixar rastos indeléveis na história.

O principal aviso é que “não estamos preparados”. Enquanto o mundo acelera por interesses geopolíticos e económicos, os mais frágeis vão pagar a factura porque os jovens ficarão sem vagas de entrada e os trabalhadores substituídos por robôs mais baratos.

A solução que ele propõe é polémica e direta: taxar os robôs e os tokens de IA, porque o sistema atual incentiva as empresas a despedir pessoas para deduzir máquinas nos impostos.

Isto vai mudar tudo. Ou será “o maior equalizador” ou “a pior fonte de injustiça”. O que é certo é que não podemos ficar indiferentes.

Aqui, as palavras diretas de Bill Gates sem filtros:

“Raramente deixo de pensar na IA, não porque tenha todas as respostas, mas porque as questões que ela levanta são demasiado importantes para serem deixadas apenas a um pequeno grupo de tecnólogos.”

“A transição para a Inteligência Artificial vai ser um dos períodos mais turbulentos da história da humanidade.”

“Neste momento, não nos estamos a preparar adequadamente para essa transição.”

“As pessoas que mais precisam de tempo são as que menos têm – o contabilista que é substituído por um robot ou o trabalhador que ganha 20 dólares por hora e perde o emprego para um robot que ganha 10 dólares por hora.”

“Estou particularmente preocupado com os jovens, que entrarão num mercado de trabalho com menos vagas para principiantes.”

“Os incentivos geopolíticos e económicos são muito fortes para que se avance a toda a velocidade.”

“Acredito que deveríamos tributar os tokens de IA e os robots. […] O sistema fiscal incentiva a substituição de pessoas por máquinas.”

“Será o maior equalizador alguma vez inventado ou a pior fonte de injustiça.”

Diz também: “Fiquei fascinado pela encíclica do Papa Leão XIV sobre a IA, “Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial”. Estabelece uma base sólida para o trabalho que precisa de ser feito”

Encontramo-nos, na verdade,  numa “época axial” da História termo usado pelo filósofo Karl Jaspers em 1949 referindo-se ao período de grande transformação cultural e espiritual na história humana.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

(1) Ontem (26.08.2026), a Tek Notícias (Sapo) trouxe este alerta sério de Bill Gates (1) citando um ensaio de Bill Gates onde O bilionário e co-fundador da Microsoft acaba de publicar um ensaio onde avisa que é preciso um plano para a utilização da Inteligência Artificial que possa garantir que “o bem ultrapassa o mal”. https://tek.sapo.pt/noticias/computadores/artigos/bill-gates-faz-soar-o-alarme-em-relacao-a-inteligencia-artificial-e-diz-que-nao-nos-estamos-a-preparar-para-as-mudancas/

FÁBULA DA ERVA DO PRADO

Havia, numa várzea fértil, um prado verde onde cresciam ervas tenras, regadas pelas chuvas e aquecidas pelo sol. Ali viviam também dois elefantes enormes e poderosos (1).

Um dia, os dois elefantes zangaram-se por causa de território e travaram uma luta feroz. Pisaram o prado de um lado ao outro, arrancaram raízes, partiram caules, e onde antes havia verde, ficou lama e destruição.

Passado algum tempo, os mesmos elefantes fizeram as pazes, e sentindo-se atraídos um pelo outro, aproximaram-se para se acasalarem. E de novo, no seu jogo pesado e no seu abraço descomunal, voltaram a calcar o mesmo chão, esmagando o que a erva tinha conseguido, entretanto, renascer.

A pequena erva, que nada tinha a ver com as brigas nem com os amores dos gigantes, olhou para o céu e perguntou baixinho:

“Porque sofro eu, Senhor, sempre que eles se movem, seja em guerra ou em amor?”

E uma voz suave, como a brisa entre as folhas, respondeu-lhe:

“Não é por seres culpada, pequena erva. É porque és humilde e estás sob os pés dos grandes. Mas não temas porque onde eles passam, tu renasces sempre. A tua força não está no tamanho, está na tua capacidade de recomeçar, verde, depois de cada pisadela”.

E acrescentou ainda:

“Mas ouve bem, ervinha, mesmo que sejas pisada, não te vergues por completo, nem penses que a culpa é tua. Este solo não pertence só aos elefantes, é de todos os que nele vivem, grandes e pequenos. A maldade não está em ti, que apenas queres crescer em paz; está naqueles que caminham sobre a terra sem cuidado, sem olhar por onde pisam nem por quem esmagam. Ergue-te sempre que puderes, ervinha minha, porque também tu tens direito a este solo. E que os grandes aprendam, um dia, a caminhar com mais respeito por aqueles que , em silêncio, sustentam toda a vida do prado.”

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

(1) Um dito popular lusitano diz: “quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão” e um dito esloveno lamenta: “Não importa se os elefantes lutam entre si ou se se acasalam, é sempre a relva que sofre”

A INSTRUMENTALIZAÇÃO DA POBREZA E A CEGUEIRA SELECTIVA

A Pobreza não é Moeda política dos de Ontem nem dos de Hoje

Observa-se, no debate público português a tendência preocupante da utilização da pobreza do passado como arma de arremesso político. Fotografias de miséria de outrora são ciclicamente recuperadas para, por contraste, glorificar o presente ou desacreditar o regime anterior. Esta estratégia, no entanto, peca por uma omissão gritante que é o esquecimento dos pobres de hoje.

A lógica é perversa. Ao fixar o olhar na fome de antigamente, desvia-se a atenção da fome que ainda existe, dos sem-abrigo que pernoitam nas nossas cidades, das famílias que recorrem aos bancos alimentares. Será que a crítica ao passado mata a fome do presente? Certamente que não porque os que fazem uso disso não são os pobres, mas sim os que se aproveitam do atual sistema. Trata-se, pura e simplesmente, de instrumentalização política. Falar mal do ontem serve para branquear as máculas do hoje e justificar os beneficiários do sistema atual, criando uma cortina de fumaça que impede a análise crítica da realidade contemporânea.

Esta abordagem revela uma pobreza intelectual e moral. Ao reduzir a História a um jogo de “nós contra eles”, esquece-se que tanto ontem como hoje o mundo serve as elites. A diferença reside na forma, não na essência da exploração ou do esquecimento. Enquanto os partidários de um regime apontam o dedo ao adversário, os verdadeiros problemas estruturais, como seja a precariedade laboral, o custo de vida, a emigração qualificada, permanecem na sombra. É necessário um exercício de honestidade que consta em reconhecer as luzes e as sombras de todos os ciclos políticos, sem cair na armadilha de discutir quem foi pior, mas sim como podemos melhorar a vida de todos hoje.

A Armadilha da Memória e a Necessidade de Espírito crítico

A repetição exaustiva das mazelas do passado que se observa em narrativas partidárias tem um objetivo claro: criar uma narrativa binária que divide o país entre “bons” e “maus”, servindo interesses partidários legítimos, mas não o povo. Ao transformar a pobreza num cartão de visita político, distrai-se a população do naco de pão que recebe dos senhores de ontem e de hoje. A intenção subjacente a estas fotos e discursos é fazer com que nos distraiamos do mal presente, aquele que deveria realmente importar-nos e de que seria oportuno falar.

Custa ver tantas referências aos pobres de antigamente e tão poucas referências aos pobres de hoje. A realidade mostra que, apesar do crescimento económico, a pobreza persistiu e adaptou-se. Os bairros de barracas de Lisboa ou Almada são a prova viva de que a fotografia social só difere nas pessoas, não na exclusão. No entanto, a energia necessária para observar a própria situação e procurar mudá-la é desviada para debates estéreis sobre a terra de cada um ou a qualidade de vida no Alentejo de 1960 ou imagens da emigração.

É importantíssimo que as pessoas acordem para esta manipulação. Comparações críticas são positivas se servirem o povo, mas são nefastas se estiverem ao serviço de uma opção partidária. Precisamos de mais espíritos críticos em serviço de toda a nação e menos soldados de causas alheias, que marcham ao som de interesses que não são os seus. A pobreza mental, que nos torna repetidores de slogans, é o maior obstáculo à mudança.

Precisa-se de valentia, como se pôde observar nos emigrantes que para o serem tiveram a coragem de quererem melhorar a vida; também para melhorar o país, é preciso ter a coragem de ver para além da propaganda e exigir políticas para os pobres de hoje, não apenas lamentos pelos pobres de ontem.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

O CETICISMO SEM DOGMA NEM CONSPIRAÇÃO COMO FILTRO DA LIBERDADE

Desconfiar dos poderosos sem deixar de questionar as nossas próprias conclusões

Vivemos tempos de desconfiança generalizada, nas redes sociais, nas conversas de café e até nos debates parlamentares, a pergunta que ecoa é quase sempre a mesma: “Quem manda verdadeiramente?”.

É uma questão legítima. A liberdade de pensamento exige, de facto, que desconfiemos do poder estatal, económico, tecnológico e mediático. Mas, se queremos que o ceticismo seja um instrumento de liberdade e não uma nova camisa de forças ideológica, temos de ir mais longe, porque o ceticismo desintereceiro  exige também que desconfiemos das nossas próprias conclusões quando as provas ainda não chegam para as sustentar.

Este é o equilíbrio difícil que a democracia contemporânea nos impõe. Por um lado, seria ingénuo acreditar que a acumulação de riqueza privada é politicamente neutra. Por outro, cair na tese automática de que todos os bilionários formam um bloco coordenado que manipula os Estados à distância de um clique é alimentar teorias da conspiração que mais atrapalham do que esclarecem (muito embora, teorias da conspiração como as de Epstein se confirmaram).

O fenómeno decisivo que cidadãos e Estados enfrentam hoje não é tanto a vontade explícita de um “super-órgão” mundial, mas sim a concentração de poder estrutural. Um bilionário torna-se politicamente relevante não apenas pelo número de zeros na sua conta bancária, mas quando passa a controlar ou influenciar as infraestruturas das quais sociedades inteiras se tornam reféns: plataformas digitais, sistemas de comunicação, inteligência artificial, satélites, computação em nuvem, sistemas de pagamento, energia, logística e cadeias de abastecimento. É nesse momento que a riqueza económica se converte em capacidade política sem mandato eleitoral.

O crivo das cinco perguntas

Para navegarmos neste terreno pantanoso sem cair nem na ingenuidade nem no delírio conspirativo, sugiro que cada cidadão e sobretudo cada jornalista e decisor político, aplique um crivo mental estratégico. Sempre que nos deparamos com uma grande fortuna ou uma gigante tecnológica, devemos perguntar:

– Dependência: De que empresas ou plataformas privadas depende o funcionamento do Estado? Quanto mais difícil for substituí-las, maior é o poder do fornecedor.

– Informação: Quem controla os canais por onde milhões recebem notícias e pesquisam informação? Não é preciso “controlar o pensamento” de forma orwelliana porque os algoritmos de recomendação e os critérios de moderação já moldam significativamente a perceção coletiva.

– Proximidade ao poder: Que laços unem as grandes fortunas aos governos? Falamos de contratos públicos, financiamento de campanhas, cobertura política lobbying, fundações, fábricas de pensamento e a famosa porta giratória entre instituições públicas e privadas.
-Capacidade de condicionamento: O que aconteceria se um determinado proprietário retirasse um serviço essencial, alterasse unilateralmente as regras ou recusasse colaboração ao Estado? Uma coisa é ser muito rico e outra, bem diferente, é possuir poder estratégico.
– Contrapoder: Existem concorrentes à altura, legislação antimonopólio eficaz, tribunais independentes, parlamentos fiscalizadores e alternativas tecnológicas? O problema democrático agrava-se exponencialmente quando uma infraestrutura essencial não tem substituto real ou quando as já existentes se encontrem demasiadamente dominadas pelo arco do poder.

A homogeneização silenciosa na Europa

A aplicação prática deste crivo revela factos inquietantes. Observando a formação da União Europeia, nota-se que as populações dos diferentes Estados-membros pensam cada vez de forma mais homogénea em matérias de geopolítica. Basta ligar os telejornais de países distintos para se verifica que nos temas internos, há ainda diferenciação e debate, mas quando o assunto são as relações internacionais ou as grandes narrativas globais, as informações, os enquadramentos e até as imagens se repetem, como se proviessem de uma única agência centralizada.

Isto não significa que exista uma direção maquiavélica a programar as nossas mentes. As populações continuam heterogéneas, as plataformas competem entre si e os próprios bilionários têm interesses e ideologias frequentemente incompatíveis. Porém, a crescente interdependência entre o poder político, financeiro e tecnológico é um sintoma claro de que algo se alterou.

A ameaça real e o fingimento da crise

É aqui que importa separar o trigo do joio. Nota-se, de forma justa, uma profunda insatisfação popular em relação aos representantes partidários. Contudo, esta insatisfação, por si só, não configura ainda uma ameaça real à democracia. O que muitos rotulam de “crise democrática” é, muitas vezes, uma crise do regime partidário, que os próprios partidos, receosos de perderem privilégios, confundem propositadamente com uma ameaça à democracia.

A verdadeira ameaça democrática surge quando as três esferas, política, financeira e tecnológica, ficam tão interligadas que o poder aumenta enquanto a responsabilidade diminui. As oligarquias modernas, sejam elas económicas ou burocráticas (como certas instâncias da ONU ou da Comissão Europeia), tendem a evitar consultas diretas ao povo. Preferem elaborar agendas em cúpulas fechadas, que depois são implementadas nos países sem uma discussão interna que brote da base. As medidas são propagadas como sendo de “interesse comum”, mas raramente são validadas pela opinião pública adulta e informada.

A responsabilidade do ceticismo

Perante este cenário, o remédio não é acreditar em profecias apocalípticas nem refugiar-se em opiniões dogmáticas, por mais legítimas que pareçam. A solução passa por fomentar a crítica com rigor. É preciso desconfiar, sim, mas é igualmente necessário verificar, comparar e questionar as nossas próprias certezas.

O ceticismo só é verdadeiramente libertador quando nos obriga a olhar para o poder em toda a sua complexidade, sem medo, mas também sem atalhos conspirativos nem no espírito de puxar a brasa à sua sardinha. Para que a sociedade avance qualitativamente, precisamos de cidadãos que saibam perguntar “quem depende de quê?” e “quem pode impor custos a quem?”, em vez de se limitarem a gritar „quem manda?”.

Manter o equilíbrio entre a desconfiança ativa e a verificabilidade meticulosa é o único caminho para agirmos com responsabilidade a todos os níveis. É esse o desafio do nosso tempo: ser crítico sem ser refém da própria descrença e vigilante sem ser conspirativo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578