SINCRETISMO CHINÊS ANIMA O NEGÓCIO NÃO SÓ EM PORTUGAL

A Civilização mais compatível com o Globalismo

Por António Justo

Ainda a respeito do texto sobre (“Presidente chinês faz negócio em Portugal”), um leitor questionou o facto de eu  ter aludido aos direitos humanos para a China (país dos cem nomes) porque é um povo com uma cultura totalmente diferente, e que encara a vida numa perspectiva pragmática em que o ideal cristão da dignidade da pessoa só estorvaria.

De facto, como se nota já na especificidade da língua mandarim, depreende-se dela uma outra estrutura mental que se expressa em outras maneiras de pensar e numa mundivisão totalmente diferente da europeia. Na impressão que se tem com chineses, à primeira vista, nota-se que são pessoas que têm uma maneira mais objectiva e utilitária na maneira de ver, de viver e de se relacionar.

A cultura chinesa é polivalente, e manifesta um génio sincrético que consegue colocar em funcionamento utilitário tradição, deuses, comunismo e capitalismo no sentido de tudo se mover ao serviço dos próprios desejos: daqui se pode depreenderá também uma inclinação especial para o negócio.

É uma civilização que desde o século passado se encontra em mudança total e como tal torna-se imprevisível o futuro desenvolvimento de uma civilização tão antiga e tão rica. No contexto de civilizações e sob a pressão de um globalismo nivelador, a civilização ocidental deveria estar consciente do que tem de específico a guardar para a humanidade, isto é, a dignidade da pessoa humana, mas sem transformar esta consciência adquirida para legitimar ou fomentar guerras, como tem feito sob o argumento da defesa de valores/direitos humanos. Cada povo, cada cultura, cada civilização tem uma coerência interna a ser respeitada mutuamente.

Num mundo cada vez mais ditado pelo negócio e numa competição, que não deveria perder de vista a complementaridade e a inclusão, seria um grande empobrecimento para a humanidade se as relações de futuro só fossem determinadas por um utilitarismo chinês que valorize mais o negócio e a instituição do que o indivíduo, tal como se dá na cultura árabe, no neocapitalismo e no comunismo. Daí também a necessidade da China se abrir ao humanismo cristão e do Ocidente redescobrir em alguns de seus princípios doutrinais tradicionais, uma imanência também característica dos chineses.

Dos chineses podemos aprender a sua relação familiar como base das relações sociais em harmonia com a natureza. A sua relação especial na expressão família, vida e morte, foi certamente transmitida através do culto aos antepassados em sintonia com a natureza e com o universo.  Uma mundivisão em que deuses, pessoas vivas e mortas coexistam em relação, sustem um caracter que lhe dá sustentabilidade. Esta mundivisão faz-me lembrar (embora de forma mais abstracta mas também mística) a realidade do mistério da trindade no Cristianismo que possibilita a unidade na diversidade mas que, infelizmente, é pouco comentada na sociedade ocidental.

 

A sociedade ocidental, tal como a sociedade tradicional chinesa, encontra-se em perigo, devido ao capitalismo liberal do deus Mamon (dinheiro, eficiência material e lucro) que tudo nivela para tornar a pessoa, isto é, transformar o indivíduo em mero cliente para que, deste modo, este se torne mundialmente, massa maleável e compatível e então tornar possível uma plutocracia económica e ideológica de um governo mundial que através de ONGs especiais supera países, regiões, regiões etc.

O confucionismo conseguiu guardar o legado do passado chinês e presenciá-lo de forma orgânica. Sistematizou toda a vida chinesa numa espécie de organigrama que possibilitou uma filosofia de vida social que deu forma e consistência à vida do chinês no seu dia a dia, de forma a fomentar uma corresponsabilidade natural criando sintonia entre vida humana e natureza.

O budismo assimilado pela cultura chinesa assumiu toda essa riqueza de comunhão com a natureza dando-lhe uma perspectiva transcendental também no que respeita à questão da vida depois da morte na complementação do taoismo.

A tradição do culto do imperador e uma visão funcionalista da pessoa facilitaram a assimilação da doutrina comunista ocidental. Esta provocou a questionação de todo o sistema confuciano. Agora o globalismo liberal completa a obra abusando de muitas características da tradição e da antropologia chinesa; aqui a avalanche do globalismo provoca mais facilmente a nivelação geral do que no ocidente onde o travão civilizacional oferece mais consistência. Daí a ferocidade implícita em agendas bastante combativas no ocidente. A revolução cultural em via contra a cultura ocidental é especialmente agressiva contra o catolicismo, tal como o comunismo maoista fora contra o confucionismo.

Os novos regentes em Pequim, para darem consistência ao sistema comunista procuram apresentar Mao Zedong como a nova autoridade conectora do ideal chinês, servindo-se, agora para isso de Confúcio em segundo plano; este não tinha deixado de ser em parte venerado durante a revolução cultural; agora colocado num segundo plano ao lado de Mao revela-se como boa fonte de regras bem apuradas para disciplinar a massa crítica popular e servir de instância contra a corrupção de funcionários. A arte deve substituir a religião no intuito de orientar as pessoas e lhes possibilitar mudança…

Na Europa, a tradição da dignidade humana e dos direitos humanos ainda constitui um certo empecilho ao globalismo liberal (imposição dos interesses globais aos interesses individuais, nacionais e civilizacionais, mediante desconstrução cultural, conexões e agendas), para isso seve-se do relativismo de leis e valores para favorecer a estratégia do seu domínio global através de ONGs que ganhem mais poder de influência que as nações.

Atendendo aos prossupostos do ideário cultural, a China é certamente a civilização mais apta para dar resposta e até para gerir o globalismo como intentona anticivilizacional. Daí a necessidade da Europa se tornar consciente disto e saber defender-se contra a proletarização cultural em via.

A globalização aproveita-se na China de uma mentalidade comunitária (tipo nacionalismo que prescinde do indivíduo) que é, neste sentido, semelhante à islâmica e ao comunismo proletário, em que o indivíduo é considerado apenas um meio, um instrumento a operar em função da sociedade que é superior a ele, pelo facto de este não ser acompanhado da dignidade inviolável humana (caracter divino da pessoa); isto é, para eles, o indivíduo só vale em função do grupo, o que impede uma criação da relação de valores fundamentais da pessoa como soberana, o que é próprio da mundivisão da civilização cristã ocidental (isto é, o que a Civilização cristã tem a transmitir ao mundo: a compatibilidade do humano com o divino, do grupo com a pessoa numa unidade profunda que diria quase natural e, em termos cristãos, de incarnação-ressurreição). O respeito mútuo das civilizações deve ser palavra de ordem porque cada uma corresponde a um corpo orgânico próprio que só pode ser ordenado num superorganismo na qualidade de órgão dele e não instrumentalizada ou até declarada como campo de batalha dos pseudoprogressistas da onda em voga.

Ao falar da necessidade da China se abrir aos valores da pessoa e sua dignidade queria apontar para um aspecto fundamental de um humanismo que daria mais sustentabilidade à China. Estou convencido que este é o caminho que também corresponde a uma verdadeira  visão global de Teilhard de Chardin e ao aprofundamento da fórmula trinitária que revela muito de comum (compatível) e de enriquecimento mútuo no diálogo das civilizações.

O bom senso comum reconhece que ninguém é tão rico que não tenha algo para receber e ninguém é tão pobre que não tenha nada para dar! Para isso as civilizações terão de abandonar a sua legitimação da guerra que provém do sentimento de superioridade.

© António da Cunha Duarte Justo

In Pegadas do Tempo

CONTROVERSO PACTO DA MIGRAÇÃO AO SERVIÇO DO MARXISMO CULTURAL E DO ISLÃO?

Pacto aclamado em Marraquexepor Interesses de Elites contra Povo?

Por António Justo

Dos 192 Estados envolvidos na negociação do Pacto de migração da ONU, 164 países aprovam-no por aclamação em Marraquexe; o documento será formalmente aprovado em janeiro 2019 pela Assembleia Geral da ONU.

Entre outros, negaram-se a assinar o pacto, a Suécia, os USA, China, Coreia do Sul, Austrália, Japão, Hungria, Áustria, Polónia, República Tcheca, Bulgária, Eslováquia e Israel.

Porque é que o primeiro ministro belga sacrifica a coligação de um governo estável e coloca em perigo as instituições do país, pelo simples desejo, de, contra o parceiro maioritário, decidir assinar um pacto que pelos vistos não é vinculativo?

Serão populistas e nacionalistas todos os países que não assinaram o pacto, como quer a esquerda militante?

Não será este um pacto para domesticar a cultura ocidental e, por isso, ter seguido uma estratégia rápida numa acção toda ela de nevoeiro e “pouco antes das 12 horas” (como dizem os alemães)? Não será que este Pacto de migração controverso foi conseguido às escondidas do povo por ser um pacto de certas elites contra o povo?

Embora defendesse, mais tempo, no discurso público, para se discutir à base de argumentação sobre o documento e mudar alguns pontos do Pacto de Migração, não deixo de insurgir-me contra um discurso manipulador, próprio  do pensar politicamente correcto, que, à sombra de agendas preparadas, pretende levar as águas do povo ao seu moinho, como se o mainstream fosse o mar que alimenta todas as águas!

A pressa com que o assunto se tratou na opinião pública e em parlamentos, faz-me lembrar algo déjà vu, isto é, a técnica que extremistas de esquerda usavam na discussão de assuntos em assembleias ou comícios em Portugal na fase quente do 25 de Abril. Pude observar isso em algumas reuniões que duravam até altas horas da noite e em que os presentes menos militantes saiam da reunião (devido às desoras) e depois os militantes jacobinos aproveitavam-se da circunstância para tomarem, entre eles, decisões naturalmente “democráticas”.

De resto, em democracia, querem-se decisões fruto do compromisso (embora se possa pontualmente não estar de acordo); num povo que se quer de cidadãos adultos as decisões deveriam ser tomadas depois de verdadeira e atempada controvérsia pública, doutro modo arruma-se com o povo e com ele arruma-se também com a democracia.

Sendo eu contra a política de Mao Zedong, tenho simpatia, apesar dele, por uma revolução cultural que assente no discurso da controvérsia e num humanismo em que primeiramente estejam a ser defendidos os interesses da pessoa de modo a não ser transformada em objecto nem mero instrumento. Quer-se um humanismo inclusivo e digno que não jogue humano contra humano, ou lhe roube a dignidade! Na sociedade não chega que grupos se afirmem contra grupos; é preciso cidadãos dispostos a defender, à sua maneira, o desacautelado povo, do superpoder de grupos ou corporativismos ligados a agendas elaboradas à margem do cidadão em geral.

António da Cunha Duarte Justo

In Pegadas do Tempo

O PRESENTE DE DESPEDIDA DA CDU PARA A CHANCELER MERKEL É ANNEGRET KRAMP-KARRENBAUER COMO CHEFE DO PARTIDO

Ainda três anos para preparar o Fim da Era Merkel

Por António Justo

Na primeira volta ao lugar de presidente do partido havia três concorrentes  que, dos 999 votantes, obtiveram  os seguintes resultados: Annegret Kramp-Karrenbauer recebeu 450 votos, com 45,0% de aprovação; Friedrich Merz ficou com 392 votos a 39,2 %; Jens Spahn obtve 157 votos (15,7%).

Na segunda e decisiva votação, Annegret Kramp-Karrenbauer foi eleita chefe da CDU com 51,7% dos votos (517 dos 500 votos exigidos), tendo Merz recebido 48,2 % (482 votos), o que significa que o partido se encontra dividido.

Merz oferecia ao partido a oportunidade de não deixar eleitores emigrarem para a AfD; por outro lado Annegret Kramp-Karrenbauer pode trazer para a CDU votantes do SPD descontentes com a sua política cultural!

“AKK” com a experiência política e de governos que tem tido, seguirá uma política integrativa das duas alas, chamando, para isso, todos a assumir responsabilidade. A CDU, embora reconhecesse o erro de Merkel de 2015 manifestou-se fiel a Merkel que conseguiu fortalecer a Alemanha e alcançar muito respeito a nível internacional. Atualmente as receitas dos impostos e das contribuições são exuberantes.

No próximo ano haverá muitas eleições estaduais e aí sim é que “AKK se terá de afirmar; daí dependerá certamente a sua candidatura como chanceler em 2021. A Chanceler DR. Merkel servirá como garante de uma transição regular de poderes…

Merkel constitui a diferença na maneira de governar, um pouco feminina, de fazer política e que consistia mais em administrar mas sabendo bem o que queria. Ela é de tal modo inteligente que conseguiu libertar-se do seu fomentador Kohl opondo-se a ele e conseguindo retirar Merz a tempo da esfera política. Conseguiu ocupar muitos dos temas do SPD e dos Verdes e deste modo levar a CDU ainda mais para o centro da sociedade.

Ao apoiar Annegret Kramp-Karrenbauer conseguiu que esta fosse eleita presidente do partido e deste modo arrumar também com Schäuble que tinha apoiado Merz.

Merkel continuará certamente como Chanceler até às Eleições federais de 2021 e deste modo dará tempo a Annegret Kramp-Karrenbauer para conseguir a união das alas do partido e conseguir que a sua predileta AKK seja a próxima candidata para chanceler nas eleições daqui a três anos.

A distância que vai da parte conservadora do partido (Merz) em relação à mais liberal não é grande por isso será mais urgente a colaboração entre Annegret Kramp-Karrenbauer e Merz. Os alemães conseguem isso; em política mantêm a cabeça fresca deixando-se orientar pela razão e pelos resultados a produzir; aprenderam, em momentos decisivos a manter a cabeça fira e não dar asas a demasiadas emoções ideológicas.

Pode-se observar na Chanceler também o animal político forte e inteligente que, como boa administradora (também das misérias) soube ganhar a esquerda para parte da sua política e até comprometer os europeus na sua política problemática de refugiados para a EU, embora, ele mesma tivesse desrespeitado o tratado de Dublin.

O congresso da CDU em Hamburgo traz também ele o carimbo de Ângela Merkel! Os candidatos, durante o período de propaganda eleitoral, conseguiram uma discussão na base de argumentos sem referências pessoais, o que impressionou muito positivamente a opinião pública alemã; a imprensa dava a impressão de preferir Merz, atendendo à sua vertente económica e cultural, mas o congresso deu a sua última palavra, mostrando que prefere seguir a linha humanista e reformista da Chanceler ao eleger AKK como presidente do Partido.

Interessante: na Alemanha as mulheres marcam posição na condução da república e na direcção da CDU e do SPD. Como consequência desta eleição em que ganhou a ala esquerda da CDU, o SPD terá de se mover mais para a esquerda e um dos mais prováveis efeitos será, com o tempo, a despedida de Andrea Nahles do cargo de presidente do partido, para dar lugar a um da ala esquerda do SPD!

A Doutora Ângela Merkel, filha de um pastor protestante, é uma cristã com ideais a que se mantem fiel; isto na medida em que a arena política o proporciona porque, nela, a palavra de ordem é compromisso e, nesse sentido, Merkel recusa polarismos; Merkel (“die Mutti” = “a mãezinha”) usava a arma do silêncio em vez da agressão contra o adversário político, chegava a atirar-lhes com flores em vez de usar pedras. No que respeita à própria pessoa mostra superioridade e autoironia, usando em relação a ela os termos que os adversários usavam contra ela: “Típico Merkel”, “seca como o osso”.

Toda a Alemanha, por qualquer razão, se encontra agradecida a Merkel, independentemente do espaço necessário para a preservação do rosto das diferentes facções políticas.

© António da Cunha Duarte Justo

In “Pegadas do Tempo”,

LIVROS ESCOLARES GRATUITOS

DISCUSSÃO SOBRE OS LIVROS ESCOLARES GRATUITOS EM PORTUGAL

 

Não seria necessário cairmos numa discussão dominada pela inveja (como se observa na discussão pública portuguesa) se o Estado, como é comum em outros países, pagasse os livros escolares sem discriminação, isto é, que eles fossem escolhidos pelos professores e pagos pelo ME e ficassem como propriedade da esola durante 5 anos; deste modo não haveria discrminação de pessoas nem de crianças.

O PSD tinha feito a proposta de todos os alunos, cujo agregado familiar tenha rendimentos brutos anuais inferiores a 40 mil euros, tivessem direito a livros gratuitos, independentemente de se enconatrarem no público estatal ou no público privado.

Os livros deveriam ser para todos os alunos indiscriminadamente gratuitos.

O debate sobre justiça ou injustiça deveria acontecer numa outra secção e que seria a do pagamento dos impostos!

António da Cunha Duarte Justo

 

DO PORQUÊ DAS REVOLTAS EM FRANÇA E NÃO NA ALEMANHA

Política preventiva e convergente alemã e Política reagente francesa

Por António Justo

A luta já dura há três semanas; os “coletes amarelos” começaram a protestar contra altos preços da gasolina, o programado imposto ecológico sobre o gasóleo e contra a política reformista de Macron. No princípio foi conseguiram mobilizar 282.000 pessoas em toda a França, há uma semana, segundo o ministro do interior protestaram 106.000 e agora 75.000; neste fim de semana 133 pessoas ficaram feridas, incluindo 23 policiais.

 Le Figaro considera 77% das protestas como “justificadas”. Facto é que por toda a parte se nota que a Europa atingiu o clímax no favorecimento da plutocracia.

Em Paris, continuam os grandes tumultos nos protestos; certamente com muitos extremistas infiltrados que em tais ocasiões se aproveitam de manifestações pacíficas para criarem violência.

A favor dos manifestantes está o facto de governos possibilitarem a construção de mundos tão diferentes no seu meio: o extremo da riqueza e o extremo da pobreza e revela-se contra os manifestantes a infiltração de profissionais da violência. Triste é o facto de um presidente que parece viver numa torre de marfim só ouvir o clamor popular depois de alguns usarem o instrumento da violência (Deste modo a política revela dar mais valor ao instrumento do uso da violência).

Não interessa aqui distinguir entre violência boa e violência má: o que é facto é que os estados quando pretendem afirmar a sua posição económica a nível internacional tiram à boca do povo para fortalecerem as grandes empresas que são aquelas que vão concorrer com outras grandes empresas a nível internacional; isto foi o que fez o Chanceler Helmut Kohl e o que fez o chanceler Schröder e é o que pretende agora fazer Macron.

O que está a acontecer com Macron aconteceria com um outro governo que desejasse assumir responsabilidade numa União Europeia que quizesse continuar a ser como é. Macron quer que a França recupere para se afirmar com a Alemanha como eixo da EU e, para isso, tenta afinar a política social interna francesa com a alemã e, por seu lado, a Alemanha tenta recuperar no armamento para que a Europa possa concorrer com os USA no mundo!

Macron está a tentar fazer agora na França o que os alemães já fizeram no princípio do século! Na Alemanha, durante muitos anos todos os empregados, incluídos também os do Estado, tiveram de ver contidos os seus ordenados e até direitos reduzidos, e de assistir a aumentos de salários que não cobriam a inflação. Foi principalmente devido à política nacional de Schröder – “Agenda 2010” elaborada e começada a aplicar no governo da coligação SPD e Verdes de 2003 a 2005 – o que proporcionou à Alemanha adiantar-se na concorrência com os outros parceiros europeus com as multinacionais internacionais (o que tirou à generalidade dos cidadãos beneficiou-a na concorrência internacional)! Hoje, que a Alemanha se encontra numa posição forte, já se pensa em pôr na ordem do dia o agendamento de direitos sociais então perdidos pelos trabalhadores e desempregados. (Isto nunca se daria em Portugal, pelas mãos de um governo de esquerda, como aconteceu na Alemanha, porque a esquerda portuguesa não entende de assuntos de economia nacional, contenta-se com uma política de subserviência e de subsistência popular, de que tira créditos a nível de eleições). Porém, neste emaranhado e diferenciamento de situações, o factor válido de avaliação e comparação será os níveis de vida nacionais, incluindo o dos mais pobres.

Hoje os problemas adquirem maior insuflação e tornam-se socialmente mais graves porque a geração facebookiana cada vez está mais informada apesar das campanhas, que as forças estabelecidas ou bem servidas, fazem contra ela; isto enquanto a não controlarem também! O escândalo da plutocracia é cada vez maior com a anuência da família política europeia, o que constitui um real rastilho de incêndio!

Os motivos que levaram o povo a expressar-se toscamente em Paris não provocariam tal numa Alemanha, embora esta se veja, cada vez mais complexa na sua população.

A política alemã é preventiva: daí o Comportamento político e social Alemão ser diferente do Francês.

Pelo que depreendo das relações institucionais do aparelho estatal alemão e do corporativismo liberal alemão posso estar confiante que a política alemã continuará no sentido estabilizador e fortalecedor do Estado alemão e da EU. (A discussão da política neoliberal fica para um capítulo à parte!).

Na Alemanha a relação do Governo para com a Nação e o povo é de caracter preventivo e como tal convergente enquanto que a política da França (dos povos latinos) é de caracter reactivo.

Os partidos alemães têm uma relação mais cooperativa com o Estado e com o povo; isto, ao contrário do que acontece com os partidos e sindicatos dos povos latinos, que não conseguiram ainda libertar-se da influência jacobina francesa nem de um certo espírito antigo de senhorio e de coutadas. Enquanto o alemão, para dar um passo em frente, têm de ver um quilómetro à sua frente, o latino arrisca dar o passo sem se preocupar com o possível abismo (basta-lhe olhar para o parceiro da frente como se ele fosse o criador do caminho). Por isso o Governo em conjunto com as corporações procura assumir responsabilidade de modo a o seu povo viver de estômago bem cheio prevendo já o que vai acontecer nas próximas décadas.

O método preventivo é próprio de quem domina e quer dominar a situação no sentido do bem-estar de todos. A elite tem uma consciência elevada de nação e embora com interesses próprios, quando há perigo juntam-se todos, abdicando cada qual algo da sua banha para a pôr ao serviço do bem maior que é a sociedade alemã no seu conjunto.  Esta é a diferença e a grande chance dos alemães! Na Alemanha moderna não é possível formas de combate e reivindicações do tipo jacobino francês na base de capelinhas e lojas (1). Em vez disso exercem-se ritualmente ensaios de manifestações locais que vão acompanhando as conservações a alto nível onde o Estado combina, simultaneamente, consensos com as instituições; muitas vezes são escolhidos antigos políticos como conciliadores entre as partes.

Na Alemanha a relação mútua entre Estado e corporações é respeitosa e respeitável; há como que uma cumplicidade natural! Isso ajuda a Alemanha a ser verdadeiramente grande e a ser invejada por muitos que preferem dedicar mais tempo ao canto da cigarra do que ao trabalho da formiga!

No Estado alemão dá-se uma interacção sã e produtiva com as instituições sejam elas a nível de governo, administração, partido, igreja, sindicato e organizações culturais e estrangeiras. Os partidos tradicionais, com assento no poder, consideram-se primeiramente como corporações aliadas ao interesse do Estado e do povo, assumindo o Estado um caracter mediador e só em segundo plano defenderem os interesses partidários (corporativos). Sindicatos e partidos com capacidade para responsabilidade (aqueles que até agora têm participado na governação) só desafiam o Estado até ao ponto em que este não seja humilhado nem tenha de empobrecer.

Na Alemanha as manifestações sindicais são de caracter mais social do que partidário; de resto há muitas manifestações de caracter ideológico entre partidos de extremos polares; também é uso fazerem-se certos manifestos radicais em bairros sociais ou em manifestações de implicações internacionais que envolvem participação de grupos vindos do Estrangeiro como tem acontecido em Berlim e em Hamburgo!

Para os alemães e suas instituições, um Estado pobre significaria um povo pobre e disso estão conscientes os partidos, a religião e os sindicatos que em vez de rivais se consideram como agentes complementares; por isso não atuam tão irresponsavelmente como em países latinos onde talvez o desconforto é maior e por isso também se tornam naturais tais extremismos! Em questões de previdência e de previsão os Estados latinos têm de aprender alguma coisa com os nórdicos.

Do Feitio português

 

Nos meios de comunicação social portuguesa, que ainda não acordou para o que se passa em economia, e pouco se dá conta do que acontece realmente em Portugal, muitos comentadores portugueses relatam os exageros do Champs d’ Eysées, com um espírito que deixa antever algo nostálgico de alguns ressentimentos que os revolucionários portugueses, depois do golpe do 25 de Novembro reservam para o Bloco de Esquerda.

Em Portugal urge uma opinião publicada que se articule em termos de racionalidade e responsabilidade cívica, económica e nacional.

Comungamos muito do jeito francês embora tragamos nos nossos genes galaico-portugueses muito da herança germânica goda.

Temos de nos aproximar, da estratégia, do jeito europeu nórdico para não continuarmos presos ao estilo de articulação afrancesada, como se ainda não tivéssemos passado além do século XIX e princípios do século XX.  Portugal sofre aqui de uma pesada carga de que são responsáveis as nossas elites (principalmente políticas) que se têm contentado em ser administradores de um Portugal tornado fazenda de interesses estrangeiros (principalmente a partir das invasões francesas). Chega-se a ter a impressão de que os nossos políticos se contentam em viver bem à custa do povo à imagem dos gerentes de outrora de vinhas e vinhateiros do Douro ao serviço dos ingleses. Portugal precisa de se repensar e as suas elites começarem em parte como os alemães a adoptar uma política preventiva para que o povo alcance o brilho de quando era grande.

(1) Embora, em tempos de globalização, surgirão grupos violentos que operarão ao modo dos jihadistas que tratarão de se apropriar-se das reivindicações das manifestações populares para fazerem o seu jogo de desconstrução da sociedade, servindo-se do apoio dos seus irmãos “revolucionários mercenários” de vários países!

© António da Cunha Duarte Justo

In “Pegadas do Tempo”