VIOLÊNCIA CONTRA PROFISSIONAIS DE SAÚDE ATINGE NÍVEIS ALARMANTES NA ALEMANHA

A violência física e verbal contra médicos e enfermeiros está a aumentar de forma preocupante na Alemanha. De acordo com um recente inquérito do Jornal Médico Alemão, dois terços dos médicos inquiridos reportaram já ter sido vítimas ou assistido a violência física ou verbal, no local de trabalho. Os episódios são particularmente frequentes em serviços de urgência e consultórios, tornando-se um risco ocupacional crescente. A crise no sistema de saúde e degradação do tecido social são apontadas como causas.

Especialistas vinculam este surto de agressividade a frustrações profundas no sistema de saúde. Pacientes enfrentam dificuldades para marcar consultas, seja com médicos gerais ou especialistas como ortopedistas e cardiologistas, sendo a situação mais crítica nas urgências. A percepção de que utentes particulares têm acesso facilitado agrava a sensação de desigualdade e desamparo entre a população geral.

O problema, no entanto, parece refletir uma erosão mais ampla do respeito na sociedade. Num país que faz propaganda da guerra, procurando tornar pessoas ‘aptas para a guerra’, o aumento significativo da disponibilidade para usar violência é uma consequência visível. O clima de agressão aumenta especialmente em relação a empregados do serviço público. O assassinato de um revisor de comboios perto de Kaiserslautern é um exemplo extremo desta tendência.

A mentalidade do “é meu direito”, aliada a uma crescente impaciência e a uma resistência diminuída em procurar ajuda de forma civilizada, está a colocar em risco os profissionais na linha da frente. Numa sociedade em que as pessoas são vistas mais como objetos funcionais, o respeito diminui e a violência aumenta, também como efeitos negativos de certas políticas se fazem sentir na base da sociedade.

A combinação fatal de um sistema de saúde sob pressão, com longas esperas e escassez de profissionais e um clima social onde a coesão se degrada, está a criar um ambiente perigoso para quem trabalha no setor e em outros sectores públicos. As associações médicas alertam para a necessidade urgente de medidas que protejam os seus profissionais e que ataquem as causas de fundo desta crise, que é tanto de saúde pública como social.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo

O DIABO ANDA À SOLTA

A Altitude da Corrupção: As Elites, Epstein e a Derrocada Moral do Ocidente

Vivemos numa era de desnivelamento ético. Enquanto a maioria luta com as realidades terrenas, uma elite global habita uma estratosfera de impunidade, um espaço “acima das nuvens” onde as regras que governam o povo não têm validade. Este distanciamento não é geográfico, mas moral. A condição sine qua non para esta existência etérea é a cogovernação com os oligarcas do poder, do capital, dos media e da cultura, uma simbiose que corrói os alicerces da civilização ocidental e que insista em continuar assim. O caso Epstein não é um desvio; é o sintoma terminal desta derrocada. Ele testemunha o fracasso abissal de uma casta que, sem um povo vigilante que a incomode, se permite tudo, investindo vorazmente na manipulação de consciências e Estados.

Deus é Povo e o Povo está adormecido

Há uma divindade secular negligenciada que se chama povo. Não apenas a sua representação política, falível e frequentemente incorporada, mas também a sua essência coletiva, crítica e moral. Enquanto ações humanas depravadas bradam aos céus, parece que Deus continua a dormir no povo, uma força potencial, mas anestesiada. A moralidade vigente “lá em baixo” não se aplica “lá em cima”, onde a depravação é normalizada sob o verniz do privilégio e um povo despido de si mesmo sempre a olhar para o céu à procura de estrelas. A dimensão do escândalo Epstein é tal que reduz as teorias da conspiração mais audazes a meros eufemismos. As suspeitas são a fumarada inegável de um incêndio moral de proporções civilizacionais.

O Furacão Epstein varre os Telhados e deixa ver o Círculo vicioso do Poder e do Brilho

A partir do momento em que figuras como Donald Trump ascenderam ao poder, uma tempestade de transparência forçada e de reação começou a varrer os altos escalões. O caso Epstein é o tsunami resultante. O seu mundo era o santuário da nata global: ex-presidentes (Clinton, Trump), magnatas (Gates, Musk), estrelas de Hollywood (Woody Allen) e membros da realeza (o Príncipe Andrew, Mette-Marit) e muitos outros da classe. Esta não era uma rede de promiscuidade banal, mas uma economia sombria que fundia altas finanças, política de alto nível e abuso institucionalizado. O mais revelador não é a mera associação, mas a continuidade dos laços mesmo após a condenação de Epstein em 2008. A luz cintilante do glamour servia de cortina de fumo para a mais profunda escuridão. São referidas acusações de pedofilia e tráfico de mulheres mas as evidências são fracas…

A Guerra das Narrativas entre Satânicos e Conspiradores

Neste vácuo ético, proliferam narrativas convenientes. A Rússia, sentindo-se visada pelas origens de algumas vítimas (muitas delas vinham também da Ucrânia!), aponta o dedo às “elites liberais satânicas”, retratando o complexo de Epstein como a falência moral das democracias ocidentais. Do outro lado, a grande imprensa europeia frequentemente minimiza o escândalo, enquadrando-o como uma mera “armadilha” conspiratória para semear desconfiança nas democracias liberais. Ambas as narrativas são úteis: desviam o foco da perversidade sistémica e da responsabilidade individual. Os papéis invertem-se, e os deuses mensageiros da nossa era, os media, como Hermes (o deus Mercúrio), guiam as almas do público num vaivém entre o Olimpo do poder e o submundo do escândalo, sem nunca permitir um julgamento final.

A Psicopatologia do Poder revela a Ponta do Iceberg

Está documentado: uma pequena elite global detém riqueza descomunal, e esse poder molda a psique, corroendo a compreensão das regras comuns. O caso Epstein é apenas a ponta visível de um icebergue de impunidade. Numa época de hiperinformarão e desinformação, cada um escolhe a parte da lógica que lhe convém, e o escândalo arrisca-se a ser soterrado no ruído. As elites protegem os seus interesses; sectores do povo agarram-se a moralidades selectivas; e o mecanismo perverso de entretenimento com escândalos distrai-nos a todos de olhar para o chão que pisamos.

A Guerra de Valores e a Porta para uma nova Era

Esta revelação é também uma arma na guerra de valores entre globalismo e patriotismo. A visão que a apresenta como foco em Trump não é inocente. Vivemos um conflito entre hemisférios cerebrais civilizacionais: um supostamente racionalista e global (esquerdo) e outro identitário e nacional (direito), em vez de uma perspetiva integrada. A pandemia e a guerra na Ucrânia funcionaram como portais para esta nova era de transformação mental e geopolítica. Em Bruxelas, Berlim, Londres ou outras capitais, os detentores do poder comportam-se com uma distância olímpica similar à dos associados de Epstein. Há que esconder a nova vertente do imperialismo que é a vertente do colonialismo mental.

Para onde vais, Humanidade?

A pergunta final é inevitável. Estamos a construir uma sociedade irrefletida, onde a perversidade se torna normalidade na ausência de ética. É o triunfo do ego desvinculado do “nós”. Curiosamente, as elites globalistas conseguem o feito perverso de reunir, nas suas fileiras, o pior do socialismo clientelar e do turbo-capitalismo predatório. Quando a imbecilidade anónima e a gestão técnica substituem a governação ética, os governantes transformam-se em meros administradores da decadência. Nada parece estranho, nada dá que pensar.

O Silêncio Português

E em Portugal? O silêncio da grande Media tradicional é ensurdecedor (1). A discussão vive nas redes sociais, enquanto a imprensa institucional parece adormecida. O caso Casa Pia, mencionado de passagem, nunca foi verdadeiramente esgotado. Este mutismo só pode significar uma coisa: o assunto interessa ou incomoda pessoas com poder também no ecossistema mediático português (o facto de o ser também no regimento de Bruxelas não desculpa!). Neste microcosmo, impera a mesma lei do silêncio que protege os deuses do Olimpo global. Entretanto, Deus continua a dormir no povo embora, de vez em quando, apareça algum anjo com insónias a querer acordá-lo. A questão que não se poderá colocar será “quando despertará”?!!!

António da Cunha Duarte

Pegadas do Tempo

(1) Quando o jornalismo (o Público) em ambiente de eleições tem o despropósito de fazer reclame com o “Não há volta a dar. O jornalismo é essencial nas escolhas” constata-se a atitude descarada que ele mesmo reconhece ao reconhecer o poder da manipulação que tem.

Para documentação detalhada sobre EPSTEIN, ver: https://contra-cultura.com/2026/02/03/horror-repulsa-e-revolta-parte-2-o-que-dizem-os-ficheiros-epstein-sobre-a-civilizacao-em-que-vivemos/

DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO E REFLEXÃO CONTRA O TRÁFICO DE SERES HUMANOS

27 milhões de vítimas à espera de resposta

 

Este dia Mundial foi instituído pelo Papa Francisco na festa de Santa Josefina Bakhita, a escrava sudanesa que se tornou símbolo universal da liberdade e da dignidade resgatada. Este dia serve como apelo global contra uma das chagas mais brutais da modernidade.

A história de Bakhita é uma estrela que ilumina esta jornada. Raptada e escravizada ainda criança, percorreu os horrores da desumanização. No entanto, como ela própria testemunhou, encontrou no final da sua provação não apenas a liberdade física, mas a liberdade plena do encontro com Cristo, tornando-se religiosa. A sua vida é um grande testemunho de como a dignidade humana, por mais pisada que seja, é indestrutível e pode resplandecer.

Contudo, a realidade atual mostra que o pesadelo que Bakhita viveu está longe de ser um capítulo fechado da história. Segundo os mais recentes dados das Nações Unidas, cerca de 27 milhões de pessoas em todo o mundo são vítimas do tráfico para exploração sexual, trabalho forçado, mendicidade ou tráfico de órgãos. As principais vítimas continuam a ser mulheres, crianças, migrantes e populações deslocadas, os mais vulneráveis entre os vulneráveis.

Neste contexto, ressoa com atualidade a exortação do Papa Leão XIII, neste dia: “A verdadeira paz começa com o reconhecimento e a proteção da dignidade que Deus deu a cada pessoa”. Não haverá paz social nem justiça autêntica enquanto seres humanos forem reduzidos a mercadoria, números num negócio lucrativo e ilegal.

A pergunta final, aflitiva, permanece: “Quando deixará o homem de ser lobo do homem?” Este dia é ao mesmo tempo uma lembrança de que a resposta começa em cada um de nós, na recusa a ser cúmplice pelo silêncio e na coragem de defender, com fervor, a sacralidade inviolável de cada vida humana.

António da Cunha Duarte Justo

Pegada do Tempo

FOTOGRAFIA DA FERIDA

Há um número que me ocupa:
Dois milhões de carentes em terra lusa
a viver sob o fio da navalha.
Isto não é estatística, é um grito de ausências,
uma planta de barracas na alma da cidade.
Sinto, em ondas sucessivas,
o grande mar da pobreza invadir-me o espírito,
salgar de impotência cada respiração.

Dizem que existe um peso de ouro
que traça a fronteira final
entre a pessoa e a coisa (1).
Aquém dele, o mundo desaba em objecto.
E há um outro peso, menor (2),
que se renova com cada lua:
é a medida mensal do humano,
o limiar abaixo do qual
a vida perde o seu nome
e só a sombra gatinha.

Eu leio os relatórios frios,
os gráficos que sobem como paredes de sepultura,
e em mim cresce um verme,
um verme existencial que rói o alicerce
da fé na democracia.

Pergunto ao vento, que a todos toca por igual:
Como esperar brandura de uma balança
Onde um prato, leve como uma pena (3),
Pesa mais que o suspiro de milhões?
Onde mãos tão poucas seguram a espiga inteira,
onde o trabalho já não liberta,
mas condena à miséria disfarçada?

Vejo a política, esquerda e direita (4),
a discutir a margem do rio
enquanto milhões de seres humanos
se afogam no centro da corrente.

Sinto a solidão da criança, na barraca dos números,
a reforma que não chega ao fim do mês,
a mulher em que a dor coletiva mais toca.
E pergunto, na minha cela de homem confortável e atormentado:
Somos, de facto, lobos uns dos outros?
Fomos nós que desenhámos esta linha,
esta grande fronteira que divide os povos em dois:
os que têm, e os que são o terço ausente da própria vida?

Há uma inércia nos sistemas, um peso morto,
que faz da compaixão um discurso vazio
da misericórdia um luxo teórico
e do bem-comum um negócio político.
E eu, aqui, com as ondas deste mar dentro de mim,
não consigo mais distinguir
a minha tristeza da tristeza do mundo.

Que fazer com este fogo que não aquece,
com esta consciência que não levanta paredes,
mas as derruba sobre o próprio peito?
Escrevo então e grito em versos a náusea geral.
Faço da poesia a trincheira frágil
onde planto a pergunta que não cala:

Quando declararemos, juntos,
a única guerra santa digna do nome,
não contra um povo, não por uma visão de mundo,
mas contra a fria, persistente, intolerável
normalização da falta?

Talvez o verme que me corrói
seja a semente de algo que ainda não nasceu.
Talvez a dor que partilho neste papel
seja com a tua uma pedra de uma ponte.
Uma ponte feita não de cimento, mas de olhares,
não de decretos, mas de braços por fim arregaçados.

Se estas palavras te tocam,
é porque a ferida é uma só.
E a cura, se é que há cura,
começa no reconhecimento
silencioso e devastador
de que nenhum de nós é livre
enquanto um de nós viver
na sombra da injustiça.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo ©:

(1) As despesas médias familiares em Portugal rondam os 2.900, mas milhões sobrevivem com entre 1.200 e 2.000 euros, dependendo do lugar do país onde calhou nascer.  O limite para se poder viver seriam 1.378€

(2) Cerca de 1,76 milhões de pessoas vivem com menos de 632€ por mês.

(3) A nível mundial a tragédia ainda é pior! Cerca de 1,6% da população mundial possui quase 48% da riqueza global, enquanto mais de 40% da população detém apenas 0,6%. Os 10% mais ricos possuem cerca de 76-85% da riqueza. A maior parte da humanidade (quase 70%) possui menos de 8.400 a 8.500 euros (10 000 dólares americanos). Os 10% mais ricos possuem cerca de 76% da riqueza total. A maior parte da população mundial (quase 70%) possui menos de 8.400 euros.

(4) O risco de pobreza ou exclusão social em Portugal atingiu 19,7% em 2024, abrangendo cerca de 2,1 milhões de pessoas com destaque para a pobreza infantil e idosos, além de 49,3% dos adultos pobres estarem empregados pelo que o trabalho não garante rendimento digno.
Pobreza Infantil ainda se herda: 40% das crianças pobres vivem em agregados com rendimentos extremamente baixos (inferiores a 422€/mês), concentrando-se nas grandes áreas metropolitanas. Pobreza Monetária: Cerca de 1,76 milhões de pessoas vivem com menos de 632€ por mês.
As mulheres são as mais afectadas, isto é,56% em situação de pobreza são mulheres.
O salário mínimo nacional em Portugal em 2026, é 920€ brutos mensais ou seja 818,80€ depois de  11% de desconto para a Segurança Social .

PRESIDENCIAIS EM ALTA TENSÃO: ANÁLISE DO CENÁRIO POLÍTICO

Esquerda defensora do poder adquirido e Direita dividida

A candidatura presidencial de André Ventura, pelo partido CHEGA, coloca em evidência questões estruturais sobre o funcionamento da democracia portuguesa e a qualidade do debate político contemporâneo. O seu discurso, centrado no combate à corrupção, no reforço da autoridade do Estado e na crítica ao sistema partidário dominante, procura canalizar o descontentamento popular resultante de falhas governativas e de sucessivos casos que fragilizaram a confiança nas instituições. Também na União Europeia, durante campanhas se faziam acusações semelhantes a Meloni; Giorgia Meloni foi repetidamente rotulada como antieuropeia, neofascista e nacionalista, entre outros epítetos marcados pelo preconceito e pela retórica do poder. No exercício do governo, porém, Meloni desmentiu essas narrativas, revelando-se uma líder ponderada e uma defensora consistente dos interesses europeus.

Importa enquadrar esta candidatura num debate democrático verdadeiramente aberto, evitando tanto a normalização acrítica como a demonização apriorística de atores políticos. O debate público até agora conduzido tem sido indigno de uma democracia adulta, independente da opção por um candidato ou por outro. A tendência para classificar candidatos como “antidemocráticos” apenas por se oporem ao bloco político dominante empobrece o espaço público e contradiz o princípio fundamental da soberania popular. Num regime democrático, a crítica ao poder instituído e a possibilidade de alternância política não constituem ameaças à democracia; pelo contrário, são, expressões do seu funcionamento regular.

O peso da história e a hegemonia discursiva

A história política portuguesa revela dificuldades persistentes na construção de um debate verdadeiramente plural. Desde a repressão ideológica pré-1974 até à hegemonia discursiva consolidada no período democrático, verificam-se continuidades que merecem reflexão crítica. Neste contexto, a emergência de candidaturas disruptivas (que rompem com o status quo e o tom político socialista) pode ser interpretada menos como perigo sistémico e mais como sintoma das tensões entre o poder institucionalizado e setores da sociedade que se sentem excluídos do processo político.

O debate contemporâneo é profundamente influenciado pelas formas de comunicação e pelo enquadramento dos discursos que moldam a interpretação da realidade social. Tanto em Portugal como noutros contextos europeus, observa-se a utilização sistemática de estratégias comunicacionais baseadas na seleção e hierarquização de conceitos, na ênfase atribuída a determinadas expressões e na sua inserção em narrativas específicas. Este fenómeno condiciona a perceção pública e contribui para a consolidação de um clima de desconfiança generalizada, com impactos negativos na qualidade do diálogo democrático.

Exigências institucionais e fragmentação política

A eleição presidencial decorre num momento de elevada exigência institucional. O próximo Presidente da República enfrentará um contexto complexo, marcado por fragmentação parlamentar e desafios internacionais significativos. Questões como o alinhamento militar de Portugal no quadro europeu, as relações com os países de língua portuguesa e o posicionamento numa geopolítica crescentemente multipolar exigem reflexão estratégica aprofundada (a sua ausência do discurso político revela que Portugal perdeu a consciência histórica europeia e a sua vocação marítima que deveria pressupor maior empenho  nas relações com as antigas colónias e na perspetiva geopolítica o envolvimento mediador  nos interesses do Ocidente e dos BRICS).

Neste enquadramento, é legítimo defender que o cargo requer experiência política, sentido de Estado e capacidade de mediação,  atributos tradicionalmente associados a uma conceção moderadora da função presidencial. Contudo, a delimitação do campo democrático à presença socialista levanta questões relevantes quanto aos critérios que se têm usado contra a legitimidade da candidatura de Ventura.

Os limites do discurso de exclusão

A oposição estabelecida entre “democracia moderada” e “extremismo” pressupõe uma definição normativa de democracia que tende a excluir, à partida, candidaturas posicionadas fora do eixo político dominante. Classificar determinados candidatos como intrinsecamente antidemocráticos, sem que tenham efetivamente violado mecanismos constitucionais, contribui para um empobrecimento do debate público e para a transformação da democracia num sistema de legitimação restrita, mais centrado na preservação do poder instituído do que na soberania popular.

É reconhecido o consenso histórico em torno da alternância entre PS e PSD e os ganhos substanciais alcançados desde o 25 de Abril em termos de liberdade política e desenvolvimento económico. Esses progressos são inegáveis e devem ser preservados. No entanto, a associação quase exclusiva desses avanços a dois partidos tende a desvalorizar dinâmicas sociais mais amplas e a ignorar que a legitimidade democrática não é permanente, devendo ser continuamente renovada através da confiança dos eleitores.

O argumento de que “os mesmos governam porque são eleitos” é formalmente correto, mas não elimina a possibilidade de desgaste político, falhas estruturais ou défices de representação. Uma democracia saudável exige autocrítica permanente e abertura à renovação.

Corrupção: entre demagogia e exigência legítima

A rejeição da centralidade do tema da corrupção no debate político merece enquadramento equilibrado. Embora seja excessivo reduzir cinquenta anos de democracia a práticas corruptas, a recorrência de casos mediáticos e a perceção pública de impunidade não podem ser descartadas como meramente demagógicas. A exigência de maior eficácia do sistema judicial e de reforço da transparência institucional não implica, por si só, um ataque ao regime democrático, pelo contrário, constitui uma tentativa de o aprofundar.

Para além do fantasma autoritário

A evocação do passado autoritário como horizonte implícito de qualquer rutura política constitui um argumento de forte carga simbólica, mas discutível do ponto de vista analítico. A crítica ao funcionamento do sistema democrático não equivale à rejeição da democracia enquanto regime, nem implica um desejo de regressão histórica. Uma sociedade democraticamente madura deve ser capaz de integrar discursos críticos sem os reduzir automaticamente a ameaças existenciais.

Assentar o discurso exclusivamente na estabilidade institucional e na moderação como valores centrais corre o risco de confundir a defesa da democracia com a defesa de um determinado equilíbrio partidário. Um debate democrático aberto exige distinguir entre riscos reais ao regime constitucional e a legítima contestação política num contexto de pluralismo e soberania popular.

A democracia portuguesa não está em perigo pela existência de vozes críticas e de rupuras de padrões que rompem com o status quo. O verdadeiro risco reside na incapacidade de promover um debate plural, rigoroso e respeitador da dignidade de todos os intervenientes, condição essencial para a vitalidade de qualquer regime verdadeiramente democrático.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo