ACREDITAR EM DEUS SIGNIFICA ACREDITAR EM MIM E NO PRÓXIMO

Confiança primordial cria alegria de viver e benevolência

Quem acredita em Deus nunca está sozinho e não pode cair mais profundamente do que nas mãos de Deus.

A educação cristã é uma educação para a dignidade humana em que cada  pessoa, independentemente de religião, sexo, idade ou posição, é imagem de Deus.

Daí ser lógico que uma pessoa que tente viver essa consciência  não poderá perseguir a imagem de Deus que se encontra no outro que é também irmão quer ele seja crente ou ateu, homossexual ou heterosxual, comunista ou capitalista.

A filiação divina e, por vezes, o reconhecer em mim ou no próximo o momento do “Jesus abandonado” não me conduz a um estado de distanciamento ou de abandono total porque esse não será mais que um momento da vida de Jesus..

Quando eu era criança notei cedo que os adultos também tinham alguém acima deles; de facto, também eles, como eu, rezavam e encontravam apoio em Deus. O sentimento, de que no planeta não há nenhum poder legítimo sobre nós e que só Deus é o pai/mãe de todos nós, é muito gratificante e torna-se na maior orientação de uma vida em liberdade e humildade.

Quem experimenta Deus e o tem como orientação não se perde, mesmos em momentos de buracos negros quando não sabe onde pôr os pés!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

25 DE ABRIL “A BEM DA NAÇÃO”

Viva tudo e todos e os outros 25 também

António Justo

A revolução de abril tem sido uma História mal contada (1). A celebração não é para consagrar nenhum enterro, sirva ele a quem servir, nem tão pouco para oferecer novos coveiros ou mesmo consagrar um novo sacerdócio por muito bem aparamentado que este esteja em torno da mesa do Estado e com o novo ritual do pensamento politicamente correto.

Se há algo a enterrar é a prepotência e o poder totalitário antigo e novo, direito e torto, independentemente de se tratar da ditadura de uma minoria ou de uma ditadura de maioria por mais louvada que esta seja pela piedosa vontade de votantes. Já seria chegada a hora de abandonarmos aquela pieguice lusa bem cuidada pelos homens do avental na república ou pelos nobres da corte real. Nem a aventura fanática nem as aspersões da água benta do poder político nos tiram da posição económica em que nos encontramos no mercado do Euro. Se a nossa elite portuguesa passasse a ser menos ideológica e mais pragmática; se fomentasse o respeito pelo trabalho, por patrões, trabalhadores e empregados certamente que hoje poderíamos ser um país ao nível da Suiça ou de países nórdicos e não na cauda da Europa, economicamente, tal como o éramos no tempo de Salazar. A sangria a que assistimos dos nossos emigrantes para o Estrangeiro no velho e no novo regime continuam a ser um testemunho da nossa ineficiência política a nível de produção e distribuição de riqueza. Defender um regime ou outro torna-se comprometedor. O que importa superar são os erros de um e do outro.

Heróis do povo são os que se sacrificam ou são sacrificados por defenderem os direitos humanos. Vítimas há-as nos dois regimes!  Os lutadores por poderes não merecem tal epíteto porque o poder ou se constrói à custa do povo ou à custa do mais fraco. A revolução tem estado para os aquistastes do poder político como o capital para os capitalistas. Tudo passa a ser simbólico/metafórico e como tal só a ser percebido por iniciados, os tais que o poder cultiva. Não seria útil para o povo continuar a apostar tudo em orgasmos do momento sejam eles sexuais ou intelectuais.

Um testemunho do tempo

Nós os mais velhos fomos os construtores da sociedade portuguesa de hoje. Fomos nós que assistimos ao regime de Salazar e que ajudamos a construir a democracia em via; sentíamos correr em nossas veias aquela esperança que tanto num regime como no outro corria nas veias de um Francisco Sã Carneiro e noutros do género.

Sentimo-nos todos empenhados em desenvolver um “25” de Abril digno e temos  a vantagem de não necessitarmos de amarrar a História de Portugal a uma só época,  nem tão pouco de nos fixarmos num ou noutro regime, num ou noutro período, como pretendem alguns dançarinos do poder; sim,  até porque na realidade, assistimos ao bem e ao mal de um e do outro regime político, o que nos poderá possibilitar maior capacidade de discernimento e a certeza de que não há carne sem espinhas! Como tais somos livres e reconhecemos com tolerância que haverá espaço para todos; espaço também para amigos e adversários, para o povo rogado a festejar e para os festejados ou que se festejam! Também em democracia isto é natural pois também ela usa e abusa do palco e já a existência deste pressupõe teatro para a assistência, como a história confirma na sua constante existencial dos de baixo e dos de cima!

Estou convencido que tal como se não pode justificar o regime de abril atirando pedras contra a bandeira do Estado Novo também não se constrói a democracia atual atirando pedras contra a bandeira que a revolução foi possibilitando.  Uma coisa boa, no sentido da poesia, seria juntarmos as pedras de um lado e do outro e com elas construirmos o prédio da democracia. Condição para isso seria considerarmo-nos povo!

Uma coisa de que poderemos estar certos é que a qualidade de vida que temos hoje não é tão reluzente como parece. Uma coisa é certa: em toda a Europa, a geração dos nossos filhos não tem o futuro que nós temos e terá mais dificuldades que nós tivemos em organizar e administrar a sua vida; se o nosso futuro  era esperançoso, o que lhe deixaremos já se encontra empenhado.

Seria arriscado partir-se do princípio que tudo o que a História Portuguesa teve de bom, depois da demissão do Governo de Marcelo Caetano, se deve ao 25 ou a um grupo político; isto pressuporia partir-se do princípio que o desenvolvimento da História de Portugal e da Europa tivesse acabado em Marcelo Caetano e apenas começado com o golpe de Estado do 25 de Abril; uma tal argumentação em via na sociedade portuguesa, só poderia ter como fim estupidificar o povo português, como se a revolução de Abril não tivesse sido o fruto do desenrolar de todo um processo de desenvolvimento de todas as forças vivas de Portugal e das influências da Europa, entre elas o Concílio Vaticano II,  a revolução cultural 68 (que a nossa geração seguiu com tanto entusiasmo!) e de forma especial também os interesses estratégicos ideológicos e económicas de forças internacionais nas colónias portuguesas.

Os heróis de um regime não são os que levantam a bandeira nem os que a calcam aos pés! Herói é o povo que tudo suporta com o seu trabalho humildade e sofrimento; aquele que deste modo tem possibilitado a vanglória e o triunfo dos que se encontram na ribalta da sociedade. Se neste momento de pandemia há algo a celebrar seria o povo que possibilita aos dançarinos do poder o palco das suas costas!

Por mal dos nossos pecados, hoje como ontem eles fazem tudo “a bem da nação”!

Liberdade e Responsabilidade Sim, mas só 25 de Abril Não

O 25 de abril de 74 queria instituir um regime ditatorial socialista em Portugal: um regime do tipo da União Soviética com a força militar como íman e doutrinador do sistema político e do povo, pretendendo a nacionalização (PREC) dos bens de produção. O 25 de Novembro de 75 possibilitou o regime democrático pluripartidário que temos e uma economia não coletivista!

Sob o conceito 25 de abril e sua comemoração juntam-se posições contraditórias e interesses que não morreram com o PREC. Ativistas políticos não estão interessados em explicar o verdadeiro significado do 25 de Abril para assim manterem o povo num engodo de palavras que se querem confusas escondendo sob o seu manto estratégias duvidosas.

Quem fala do 25 de abril que tinha como programa a instauração da ditadura socialista sem falar da evolução política até ao 25 de novembro certamente faz uso dos palcos do Estado para a defesa de uma ditadura que com eufemismos poderão querer encobrir. Daí a necessidade de diferenciação!

Uma análise independente da História da “revolução dos cravos vermelhos” em Portugal um dia mostrará como os beneficiados do regime conseguem manipular o povo através do equívoco! A encenação de personalidades de abril que tinham a intenção de implantar a ditadura comunista em Portugal tira muita da inocência à celebração. Muitos deles, que se infiltraram em muitas instituições do Estado e de organismos civis, pretendem celebrar um outro abril que não o democrático! Daí a sua insistência em colocá-lo sobre tudo e sobre todos nesta época de pandemia deixam de lado o bom senso comum. Com os seus festejos vão mantendo no inconsciente do povo o seu verdadeiro intento revolucionário. O povo parece andar equivocado ao querer festejar o seu abril quando muitos da festa querem implantar um outro (não notaram ainda que muitos dos beneficiados do sistema partem do princípio que o festejo pertence à esquerda)!

O 25 de Abril de 1974 foi democratizado pela sociedade portuguesa no 25 de novembro de 1975.

Se é verdade que o 25 Abril de 74 deu início ao processo da democratização, também é preciso não esquecer que ele pretendia instaurar uma ditadura comunista em Portugal; o 25 de novembro possibilitou uma democracia do tipo ocidental (democracia pluripartidária).

Por vezes tem-se a impressão que em tempo de Coronavírus 19 o que estará no programa será a China!

Em tempos de pandemia viral e ideológica, haverá que prestar atenção às nossas certezas e aos créditos que elas nos querem garantir! Isto porque aquela parte da razão que as fundamenta só é possível devido à parte do conhecimento que temos e à outra parte que é o desconhecimento que nos domina; a não ser que seja de interesse servir o preconceito. Assim, uma atitude de honestidade sobre certezas lógicas ou percetuais terá de ser sempre acompanhada pela dúvida (humildade intelectual!).  Isso tornará o brilho da festa mais repartido, menos partidarizado e mais democrático (2).

Viva o genuino 25 de abril!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo, 25.04.2020

 

Repensar a Revolução – Recriar Portugal : https://triplov.com/letras/Antonio-Justo/2014/abril.htm

Falta um novo “25 de Abril”: https://www.jornaldeoleiros.com/2012/04/30/comunidades/falta-um-novo-25-de-abril-por-antonio-justo.html

25 de Abril uma Estação na Via popular: https://antonio-justo.eu/?p=1826

Aniversário do 25 de Abril: do abuso da ideologia: https://bomdia.eu/aniversario-do-25-de-abril-do-abuso-da-ideologia/ ; https://bomdia.lu/author/antoniojusto/

25 de Abril – O Despertar duma Ilusão (1): https://docs.google.com/document/d/1AgmPalAgzFyuxFtgWmWOn-zLTDEsVWu9TbdCx83VQ-8/edit

 

Falta um novo “25 de Abril”: https://luis-eg.blogspot.com/2012/04/

 

O 25 DE ABRIL DE BAIXO CONTINUA POR FAZER: http://poramaisb.blogspot.com/2015/04/paginas-inesqueciveis-de-antonio-da.html

 

COMEMORAÇÃO DO 46° ANIVERSÁRIO DO 25 DE ABRIL

Do Abuso do Orçamento da Ideologia

Por António Justo

A comemoração do dia 10 de Junho – dia de Portugal – foi cancelada por razões de lógica e a comemoração do 25 de Abril – dia da revolução – será celebrada por razão ideológica!

O uso de dois pesos e de duas medidas na aplicação das regras adotadas na luta contra o Covid-19 parece ganhar foros de legitimação ao criar exceções para celebrações da classe política.

Diz-se que o Coronavírus 19 é democrático e não distingue classes nem ideologias. Um tal vírus também não respeita o 25 de Abril, o 1° de Maio, o 13 de Maio nem o 10 de Junho. Ou será que o vírus da ideologia política é mais forte?

É cinismo e abuso de poder proibir-se a uns o direito de enterrar os seus mortos e facilitar-se a outros o festejo da sua posse do poder, confinando para tal a democracia ao Palácio de São Bento!

Em questões de democracia, que não de democratura, o bom senso suporia, como é prática noutros países europeus, igualdade de trato nas celebrações culturais, políticas e religiosos durante o governo do Corona 19!

Dentro da Assembleia da República não há distâncias que impeçam a festa para os beneficiados do regime e o povo, esse para manter as distâncias, nem sequer pode juntar-se à porta do Parlamento. Imagine-se que o povo desalinhado, num desejo de festa e em protesto contra esta diabrura partidária, se reunisse em frente da Assembleia da República no dia 25 de Abril para celebrar a Festa da Liberdade inclusiva, num abril dos de baixo! Então da festa dos cravos vermelhos passaríamos à festa nacional de todos os cravos! Então o demo passaria da pandemia ao pandemónio da pancracia!

Em pleno reinado do Covid 19 seria altura de se fazer uma avaliação sobre regentes e regidos na democracia portuguesa questionada pelo decreto de Estado de Emergência. Ou será que o governo do Covid 19 só terá sido um pretexto, ou um evento para benefício de alguns? O povo não pode festejar convenientemente a Páscoa, mas os iluminados do poder podem celebrar a sua festa. O problema não está em celebrarmos a festa. A questão surge nos critérios usados para se proibirem umas e se justificarem outras.

O “25 de abril”- um ponto alto para a democracia portuguesa –  tal como a sua comemoração, não é pertença de um partido ou ideologia, como alguns pretendem, mas sim aquisição de todos os portugueses quer estes se afirmem mais sobre o pé esquerdo ou se apoiem mais no pé direito (com o 25 de abril pretendia instalar-se uma ditadura e a democracia só foi estabelecida depois do golpe de estado!). Queremos uma sociedade unida toda ela feita de irmãos e não de inimigos, em que não haja o “ai dos vencidos” nem a arrogância triunfal dos vencedores. As liberdades, garantias, direitos políticos, económicos, sociais e culturais são da posse de todo o povo e não propriedade só de alguns; não são tão-pouco de um grupo de iluminados/espertos que procuram fazer o seu negócio em termos de guerra, numa estratégia de dividir uma parte do povo contra a outra. Acabou-se com a guerra nas colónias, mas continuou-se com ela politicamente dentro da sociedade portuguesa. O que urge é uma solução pacífica dos conflitos partidários, para que não se abuse dos instintos cinicamente fomentados no meio do povo.  Se há uma luta legítima é a luta pacífica de todos contra a pobreza, a injustiça, a xenofobia, o racismo e contra a prepotência do poder. As diferentes estratégias dessa luta não legitimam uma guerra ganha sempre só por alguns e a acontecer sempre à custa do povo que se pretende reduzido a mero soldado de trincheiras. As armas e as lutas servem só senhores. Para o povo não são as armas nem as lutas que traçam o caminho, mas sim o amor que vem do coração iluminado pela luz da inteligência.

No espírito das igualdades e liberdades civis, as regalias para a classe política não deveriam contrastar com regras só para o povo cumprir. Doutro modo, os senhores da reserva do Olimpo da democracia parecem seguir a regra do” Olhem para o que eu digo e não para o que eu faço”. Precisará a nossa democracia do fanatismo engravatado como ícone das liberdades democráticas? A comemoração do 25 de abril não é a comemoração de um dia só, mas de um período em que todo o Portugal construiu a democracia; ela não é um evento de e para prosélitos em que de um lado há a clique dos “respeitáveis” e do outro a massa dos energúmenos, como dá a entender a classe política.

Dá a impressão que querem encurralar a liberdade do 25 de Abril só para alguns dentro das paredes da Assembleia da República se pavonearem, uma espécie de Olimpo onde os de dentro, são quem manda e pode e os de fora obedecem! Esta é uma maneira de ensanguentar a República só com a cor vermelha como se o povo tivesse de ter o papel de cordeiro!

A democracia portuguesa encontra-se em cuidados intensivos devido ao Estado extremo de Emergência em que foi colocada; ela não morre, mas coloca o povo fora dos seus muros e, como é sabido, cracia sem demo não existe!

Será de compreender que também a democracia terá as suas diabruras, mas esta de a classe política permitir um ajuntamento de 130 pessoas na Assembleia da República e não permitir ajuntamentos com mais de quatro a dez pessoas em funerais brada aos céus porque privilegia um dos funerais. O espaço político torna-se arbitrário em relação aos espaços cultuais e religiosos.

É natural que o 46° aniversário do 25 de Abril seja recordado, mas dentro das mesmas regras para todos. Precisava-se de maior criatividade e tino por parte da política na concretização do evento da celebração da revolução.

Na política grega antiga também já se sabia: Aí do Prometeu que pretenda levar para o povo o fogo (as regalias) com que se aquecem os “deuses”!

Cá na nossa terra os deuses do oportuno apoderaram-se do Olimpo e lá vão fazendo as suas leis para os terráqueos. Na sua assembleia falta-nos um Prometeu que traga o fogo dos deuses cá para baixo, para que o povo seja libertado e então possa libertar-se.

A História é um livro com inúmeras folhas, com títulos e capítulos a que se arrancam algumas páginas para se levarem os inocentes e os incautos a fixarem-se apenas nalgum título.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

COVID-19: À SEMANA SANTA SEGUE-SE A PÁSCOA

Tocam as Sirenes a lembrar o Tempo de voltar para Casa

António Justo

Na natureza nada é tão mau que não seja também para algo bom. Isto segreda-nos a voz da natureza através da razão num momento em que os nossos sentimentos ao rubro bradam aos céus.

Fizemos da ilusão realidade e agora a realidade natural ou criada desilude-nos porque nos julgamos ou julgávamos ser senhores dela. Um facto é que se não fosse a morte estaríamos condenados a viver na e da ilusão.

Vivemos numa pausa obrigatória em que o homem respira pior e a natureza respira melhor. Os rios são mais claros, o ar mais puro, nós temos mais tempo porque o relógio deixou de ter poder sobre nós.

É tempo de voltarmos para casa e resta saber o que fazer com o tempo. Agora temos a oportunidade de ouvir e sentir a revelação da natureza e a revelação cultural que se encontra especialmente explicita no Novo Testamento. Nele encontramos sentido, força, esperança, consolo e reconhecimento.

À Semana Santa segue-se a Páscoa. Com a ressurreição a morte perdeu e o mundo ganhou sentido ficando virado de cabeça para baixo.

O respeito pelo coronavírus, o medo pelo nosso futuro económico e social, as informações e contra informações e as infrações, possivelmente justificadas na nossa democracia pelo decreto do estado de emergência, criam em nós um sentimento de insegurança e de impotência.

Chegou o tempo de estarmos alerta e é tempo da sintonia e não de imagens inimigas estimuladas ou propagadas. É chegado o tempo de nos unirmos e de juntarmos forças, na consciência que todos fazemos falta para alguém. É verdade que não será fácil, na vontade de sermos solidários com alguém, não sermos levados na avalanche de algum tipo de vírus que circula. A falta de humildade leva-nos a ordenar rigidamente as coisas e até a condenar sem termos tempo para socorrer-nos do discernimento.

Agora, que ouvimos também toda a natureza a sofrer, sofremos por ela sofrer e sentimo-nos mais chamados a levarmos um estilo de vida mais humilde e em sintonia com todos em vez de corrermos atrás de possíveis culpados ou de explicações que levam a nossa mente a marcar passo para não nos mudarmos e assim continuarmos a ser levados na corrente de hábitos adquiridos ou difundidos. Num tempo propício para prepararmos mudança seria fatal ficarmos fixados em nós mesmos, numa maneira estática de ver e de pensar.

 

De facto, num tempo em que a reflexão, a solidariedade e a ciência nos devem iluminar não fazem sentido meros discursos políticos ou de perspetiva individual: o Homem no seu ser de pessoa é que é o centro da questão.

Em tempos de crise, tudo vem à mente e não será também de esquecer a frase que Nicolau Maquiavel escreveu: “Mas a ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela. “

O momento da Páscoa está a chegar; aquele momento, aquele dia em que o mau humor dá lugar à bonomia, o modus do aborrecimento e da desconfiança deixarão de estar em Standby, em cada um de nós.

Muitas vezes deixávamos correr o dia e o dia corria connosco entretendo-nos com decisões aparentes. Vamos aproveitar todos para fazer de toda a semana Domingo, o dia em que não há medos e em que realmente somos livres.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo

A EXORTAÇÃO PÓS-SINODAL “QUERIDA AMAZÓNIA” QUER UMA IGREJA MAIS FEMININA E MENOS CLERICAL

Nem Sacerdotes casados nem Diaconisas

Por António Justo

A carta de Roma travou as expectativas dos reformadores que punham as esperanças de renovação da igreja apenas na reforma de funções clericais (celibato frouxo e ordenação de diaconisas).  O Papa com a sua Exortação “Querida Amazónia” advoga, contrariamente aos reformistas, uma reforma a partir da base. Para o papa, certamente que não se trata aqui de masculinizar as funções da mulher, mas de feminizar a praxis eclesial. Neste sentido o apelo dirige-se às igrejas locais para que criem mais espaço para as mulheres e deem resposta aos problemas das pessoas. Quer menos clericalismo e mais leigos em missões de responsabilidade.

Depois do susto provocado pelo documento final do Sínodo Amazónico que tinha, por um lado entusiasmado os progressistas e por outro colocado em estado de alarme os mais conservadores, chega agora a posição magisterial do Papa no sentido moderado mas aberto; facto é que a exortação, ao não se referir direitamente aos temas do documento final do sínodo amazónico, relega-os para uma questão longínqua de moral local. A reação natural dos apologistas das conclusões do sínodo amazónico será tentar colocar novamente, ao nível central de Roma, a questão do celibato e da ordenação de diaconisas.

Num tempo de confusão social em que os sentimentos epidérmicos e um progresso social forçado têm travado a capacidade de análise e de reflexão, talvez não venha a despropósito o facto da Igreja Católica se contrapor ao mainstream da moda e do Zeitgeist que pretende levar tudo na enxurrada. O atuar da Igreja também não pode ser reduzido a um estado de consciência europeia temporal. E como bem diz a sabedoria popular portuguesa: “devagar se vai ao longe”!

Nesta exortação sobre o sínodo dos bispos das amazonas, o Papa Francisco manifesta-se muito mais reservado que em exortações anteriores; na exortação “Querida Amazónia” verifica-se que as ondas mais centradas na acentuação da pastoral (numa igreja de cunho nórdico e da teologia da libertação) são enfraquecidas em favor da doutrina tradicional (de cunho mais latino). Também Francisco deixa a entender que a atual consciência eclesial não quer uma igreja católica protestantizada. Os progressistas que advogam o fim do celibato e defendem a ordenação de mulheres têm de recuar nas suas pretensões.

O melhor sinal disso pode ser verificado na decisão do Cardeal Marx, um dia antes da Exortação ser publicada.  O atual presidente da Comissão Episcopal da Alemanha, Cardeal Reinhard Marx, que se encontrava à frente dos reformadores na Alemanha, anunciou a renúncia à sua recandidatura para presidir à Conferência episcopal; a eleição está prevista para março. Para os reformistas foi um desengano; na Alemanha o movimento “caminho sinodal” (“Synodale Weg“) do processo de reforma que tinha como objetivo o relaxe do celibato e a ordenação de diaconisas perdeu o seu sentido.

Antes da apresentação da Exortação “Querida amazónia” o Papa já tinha indiretamente manifestado que não queria a clericalização das mulheres, explicando: „Na minha opinião, lemos a questão feminina e a questão do sacerdócio em termos funcionais, esquecendo que, em termos de importância, Maria tem um papel e uma dignidade superior à dos apóstolos” e que “o celibato é uma graça decisiva que caracteriza a Igreja Católica Latina”.

Além disso, o voto de castidade também é comum em personalidades com funções noutras religiões, por exemplo no budismo. O celibato é sinal e expressão do chamamento que o candidato sente. Abolir o celibato não seria certamente uma solução como se pode constatar nas igrejas evangélicas onde há falta de pastores, embora os pastores e as pastoras sejam casados. Importante seria que o celibato fosse apenas a forma exterior de uma entrega especial a Deus e ao seu povo.  Texto completo de “Querida Amazónia”, que se dirige “ao povo de Deus e a todos os homens de boa vontade “, em nota (1).

O pontífice apela à proteção ambiental e a um novo impulso missionário e a uma maior responsabilidade para os leigos nas comunidades eclesiais: adverte que a conservação da natureza não deve preocupar-se apenas com o meio ambiente, mas também com as pessoas da região. Francisco denuncia “injustiça e crime” (9-14), ou seja, a destruição ambiental e a ação impiedosa contra o povo da Amazónia por “interesses colonizadores” e solicita que se deixem “os pobres terem uma palavra a dizer”. A “colonização pós-moderna” deve ser combatida, as “raízes” (33-35) devem ser protegidas; condena “a visão consumista do homem” que tende a “uniformizar as culturas”. Cita poetas entre eles Pablo Neruda: „eles ajudam-nos a libertar-nos do paradigma tecnocrático e consumista que sufoca a natureza e nos rouba uma existência verdadeiramente digna”.

Rejeita a internacionalização política da amazónia, vendo a solução apenas na crescente responsabilidade dos governos nacionais. De facto, na amazónia há muitas ONGS que trabalham no sentido de interesses de potências que desejariam para si o poder sobre a Amazónia.

No último capítulo adverte que não se deve desligar a “mensagem social” da missão espiritual e que os povos da amazónia têm “direito ao anúncio do evangelho”, doutro modo “toda a estrutura eclesial se tornaria apenas em mais uma ONG”.

Apela à inculturação da espiritualidade cristã nas culturas dos povos indígenas que se devem refletir também na celebração do serviço litúrgico: “Isto nos permite retomar na liturgia muitos elementos da intensa experiência da natureza dos povos indígenas e estimular suas próprias expressões nos cantos, danças, ritos, gestos e símbolos”.

Defende a criação de novos serviços eclesiais para as mulheres, que devem ser reconhecidos publicamente pelos Bispos e que envolvam a participação no poder de decisão nas comunidades (criação de novos “serviços e carismas femininos”). Não faz referência ao documento conclusivo sinodal editado em outubro 2019, mas convida a que o documento seja lido na íntegra (isto poderá ser um sinal de que a discussão poderá continuar a nível regional). Francisco segue a linha dos papas anteriores limitando-se a convidar à valorização do ministério diaconal e do serviço das religiosas, leigos e leigas, pedindo novas formas de liderança e mais missionários.  

© António da Cunha Duarte Justo

Teólogo

In Pegadas do tempo