REFLEXÃO SOBRE INFORMAÇÃO-GUERRA E HIPOCRISIA

A guerra é suja e suja quem se envolve nela seja directamete seja a nível de discurso! É com profunda tristeza que verifico como os média oficiais na Europa estão mais virados para a formatação da opinião pública do que para a criação de espíritos livres e críticos. A informação é confecionada de maneira a que o público desenvolva uma mente preconceituosa, incapaz de ver a realidade para além dos rótulos pré-estabelecidos, fixando-a apenas em categorias emocionais como se os povos não fossem capazes de mais.

A Estratégia da “Trégua Limitada”

Observemos o momento atual: fala-se agora em conversações para uma “trégua limitada” de paz, em vez de se procurar um verdadeiro acordo de paz duradouro. Quando Putin recusa, a narrativa dominante é simples afirmar que “o mau do Putin não quer”. Mas será esta a leitura correta? Não. Ele não quer porque percebe que uma trégua limitada, neste contexto, apenas serviria para dar à UE e ao Reino Unido tempo e espaço para se rearmarem e se prepararem para uma guerra mais efetiva no período pós trégua.

Bruxelas e Londres mantêm o mesmo espírito de autojustificação moral: a crença inabalável de que são os “bons e honestos” e o outro lado é invariavelmente o agressor. Esta tática e postura impedem qualquer progresso real e tem sido fundamentada sistematicamente numa narrativa pós-fática.

O Interesse Camuflado da UE na Ucrânia

A verdade, que raramente é contada, é que a União Europeia sempre teve interesse em apossar-se da Ucrânia, seja economicamente, seja geopoliticamente. E tem feito tudo para que não se chegue a acordos sérios que possam estabilizar a região sem a sua hegemonia. O mais lamentável de tudo é que, devido a uma estratégia contínua de informação pós-fática, onde os factos são moldados para servir narrativas, o povo europeu foi de tal maneira emocionalizado que em geral perdeu a capacidade de discernimento.

Hoje, o cidadão comum pensa, de forma simplista, que o mal está do lado da Rússia e o bem do lado da Europa. No entanto, se formos ver as coisas com isenção, a Europa tem vivido melhor do que outros povos não apenas pelo seu trabalho e engenho, mas também e em grande medida, devido à sua hipocrisia nas relações internacionais.

A Hipocrisia e a Miopia coletiva

Há uma máxima que se aplica bem a esta realidade que assenta na lógica de certas ideologias dominantes, mesmo a mentira, se servir os propósitos do poder, passa a ser tratada como verdade (islão). A Europa, que tantas vezes critica o outro, adota esta prática de forma sistemática nas suas relações externas.

Sei que, ao expor esta visão, serei apelidado de ingénuo ou de “putinista” por aqueles que estão formatados numa única versão dos factos. Quanto a mim estou consciente da brutalidade russa, ocidental e ucraniana não podendo uma justificar a outra. Mas sinto que é um dever de consciência chamar a atenção para a necessidade de maior independência e dignidade de opinião. Não se trata de defender um lado contra o outro, mas sim de recusar a manipulação para que cada cidadão baseado em factos e não em interpretação unilateral deles possa formar uma opinião qualificada e não reduzida a uma gota da enxurrada.

A Necessidade de Memória Histórica

Para percebermos os interesses camuflados do Ocidente, bastaria recordar a guerra na antiga Jugoslávia. Ali, países da NATO intervieram com bombardeamentos que violaram tratados internacionais e o direito internacional, tudo em nome de uma intervenção “humanitária” que, na prática, serviu para reconfigurar a região de acordo com os interesses geopolíticos de quem bombardeava.

Acompanhei atentamente o desenvolvimento das relações internacionais antes da Reunificação da Alemanha. Cheguei a visitar a região como integrante de uma delegação de cidades-gémeas da RDA e da RFA, verificando o interesse acautelado de ambos os lados, numa altura em que a relação era entre o comunismo e o capitalismo.

Lembro-me bem da conferência de Putin  no Bundestag, que ilustra essa complexidade omitida e da vontade russa de ser integrada no bloco ocidental.

Com a queda da União Soviética, a União Europeia e os Estados Unidos agiram de forma a sabotar a Ucrânia.

Em vez de buscarem acordos diplomáticos, os EUA e a EU tinham como objetivo a expansão da NATO para Leste (através da “incardinação” da Ucrânia).

O comportamento foi sempre arrogante, a ponto de o Reino Unido e a UE terem sabotado os Acordos de Minsk e as tentativas de negociação na Turquia.

Sei que, numa lógica dominada por interesses ferozes e por defensores acérrimos desses mesmos interesses, tudo o que observei e aqui descrevo é imediatamente rotulado como “apologia da Rússia” mas respeito porque estou consciente de que cada um de nós, na sua opinião se encontra refém da informação que tem. Não defendo a Rússia nem a NATO porque sei que todos jogam com a miséria e a brutalidade na defesa de interesses. É um apelo ao pensamento crítico, à recusa da manipulação e à redescoberta de uma informação que sirva a verdade e não os interesses mesquinhos de quem nos governa e de oligarquias globais.

Após observar tudo isto, sou forçado a concluir que já não existe verdade nem interesse genuíno por ela. O que impera é a baixeza e os interesses mesquinhos, independentemente das barbaridades cometidas por todos os lados envolvidos: Rússia, EUA, União Europeia e NATO. No meio dos interesses envolvidos não há hipótese de se sair da situação de maneira honrada. Estamos todos enlameados e salpicados com sangue alheio!

Manipulação Pós-Fática e a Morte do Pensamento Crítico

A informação pós-fática é hoje tão contínua e envolvente que os espectadores ficam sujeitos a um condicionamento permanente. O resultado é o reinado absoluto do preconceito: a certeza de que “o nosso lado” tem sempre razão, sem que reste qualquer espaço para a análise ou a reflexão.

Quando ouvimos a opinião da grande maioria, não estamos perante pareceres próprios, mas sim opiniões meramente apropriadas, interiorizadas sem consciência do real. As pessoas reagem emocionalmente, como que a vomitar aquilo que engoliram sem digerir, repetindo slogans e narrativas pré-fabricadas como se fossem convicções profundas.

Já não há pensamento, há apenas regurgitação. Já não há debate, há apenas afirmação automática de verdades inconscientemente impostas. Esta é a tragédia da nossa era: uma sociedade que se julga informada, mas que apenas repete, como um eco, aquilo que lhe foi soprado.

Quem quer proteger a Europa tem de pôr fim a esta política de escalada e apostar finalmente na diplomacia bem-intencionada, na proteção das fronteiras e na responsabilidade nacional.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo

 

AVALIAÇÃO DO RESULTADO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS EM PORTUGAL 2026  

António Seguro vence Presidenciais e PS recupera Fôlego – Ventura cresce e fragmenta o Bipartidarismo

A segunda volta das eleições presidenciais de 2026, realizada no passado domingo, confirmou a vitória de António Seguro com uma expressiva maioria de 66,81% dos votos expressos. O candidato apoiado pelas principais forças políticas e pela esmagadora maioria dos media alcançou 3.482.481 votos, contra 1.729.371 do adversário André Ventura (33,18%).

Apesar do resultado folgado, os dados da participação eleitoral trazem sinais inquietantes para o sistema partidário português. A abstenção fixou-se nos 49,91% e revelou-se como o valor mais elevado de sempre numa segunda volta de presidenciais. Dos 10.951.081 eleitores inscritos, 5.466.212 não compareceram às urnas.

O “Silêncio ruidoso” de quem votou contra ambos

Entre os 5.484.869 votantes, 271.520 eleitores (4,95% do total) optaram por não escolher nenhum dos dois finalistas. Foram registados 97.724 votos nulos (1,78%) e 173.823 votos em branco (3,17%). Os números traduzem aquilo a que se poderia chamar de “terceira via do silêncio ruidoso”, ou seja, um protesto activo de quem foi às urnas para rejeitar ambas as candidaturas.

Ventura rompe o Sistema bipolar partidário e consolida Espaço próprio

Candidato único na segunda volta, André Ventura conseguiu mobilizar mais de 1,7 milhões de eleitores, o que representa um crescimento significativo face aos resultados do CHEGA nas últimas legislativas. O feito repõe a geometria do sistema partidário português: PS, CHEGA e PSD que se posicionam agora como as três forças com maior expressão eleitoral no país.

Para Ventura, o resultado representa a rutura definitiva com o tradicional duo-partidarismo. Apesar da derrota, a sua votação expressiva valida a estratégia de afirmação autónoma e consolida-o como líder de um polo político com capacidade de influenciar o equilíbrio de forças nos próximos ciclos eleitorais.

O “Balão de Oxigénio” de Seguro e a Armadilha da Governação

A vitória de António Seguro é lida internamente como “o balão de oxigénio de que o PS precisava”, num momento de desgaste partidário e de indefinição estratégica. No entanto, o novo Presidente da República encontra-se numa posição delicada. Eleito com o apoio de todo o arco da governação e dos grandes grupos de comunicação social, Seguro enfrenta agora a difícil equação entre dar continuidade ao status quo e responder à evidente necessidade de renovação política.

A ambivalência promete marcar o seu mandato. Se a vitória expressiva lhe confere legitimidade, o contexto que a rodeia, abstenção recorde, divisionismo partidário e uma fatia significativa de eleitores a recusar os dois campos, mostra que o descontentamento não foi desarmado, sendo apenas transferido.

A Ausência de Metade do País é um Pesadelo que não passa

O dado mais estrutural da noite eleitoral é, porém, a abstenção. Cinco milhões e meio de portugueses ficaram em casa. É o maior acto de questionamento silencioso ao regime democrático português desde 1974. O resultado deveria causar pesadelo ao sistema partidário e à forma como as elites, especialmente os Media, conduzem o povo.

Mais do que a vitória de um ou de outro, foi a ausência coletiva que deu a verdadeira dimensão do descontentamento. E o problema não promete ficar por estas duas voltas porque é sistémico.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

VIOLÊNCIA CONTRA PROFISSIONAIS DE SAÚDE ATINGE NÍVEIS ALARMANTES NA ALEMANHA

A violência física e verbal contra médicos e enfermeiros está a aumentar de forma preocupante na Alemanha. De acordo com um recente inquérito do Jornal Médico Alemão, dois terços dos médicos inquiridos reportaram já ter sido vítimas ou assistido a violência física ou verbal, no local de trabalho. Os episódios são particularmente frequentes em serviços de urgência e consultórios, tornando-se um risco ocupacional crescente. A crise no sistema de saúde e degradação do tecido social são apontadas como causas.

Especialistas vinculam este surto de agressividade a frustrações profundas no sistema de saúde. Pacientes enfrentam dificuldades para marcar consultas, seja com médicos gerais ou especialistas como ortopedistas e cardiologistas, sendo a situação mais crítica nas urgências. A percepção de que utentes particulares têm acesso facilitado agrava a sensação de desigualdade e desamparo entre a população geral.

O problema, no entanto, parece refletir uma erosão mais ampla do respeito na sociedade. Num país que faz propaganda da guerra, procurando tornar pessoas ‘aptas para a guerra’, o aumento significativo da disponibilidade para usar violência é uma consequência visível. O clima de agressão aumenta especialmente em relação a empregados do serviço público. O assassinato de um revisor de comboios perto de Kaiserslautern é um exemplo extremo desta tendência.

A mentalidade do “é meu direito”, aliada a uma crescente impaciência e a uma resistência diminuída em procurar ajuda de forma civilizada, está a colocar em risco os profissionais na linha da frente. Numa sociedade em que as pessoas são vistas mais como objetos funcionais, o respeito diminui e a violência aumenta, também como efeitos negativos de certas políticas se fazem sentir na base da sociedade.

A combinação fatal de um sistema de saúde sob pressão, com longas esperas e escassez de profissionais e um clima social onde a coesão se degrada, está a criar um ambiente perigoso para quem trabalha no setor e em outros sectores públicos. As associações médicas alertam para a necessidade urgente de medidas que protejam os seus profissionais e que ataquem as causas de fundo desta crise, que é tanto de saúde pública como social.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo

O DIABO ANDA À SOLTA

A Altitude da Corrupção: As Elites, Epstein e a Derrocada Moral do Ocidente

Vivemos numa era de desnivelamento ético. Enquanto a maioria luta com as realidades terrenas, uma elite global habita uma estratosfera de impunidade, um espaço “acima das nuvens” onde as regras que governam o povo não têm validade. Este distanciamento não é geográfico, mas moral. A condição sine qua non para esta existência etérea é a cogovernação com os oligarcas do poder, do capital, dos media e da cultura, uma simbiose que corrói os alicerces da civilização ocidental e que insista em continuar assim. O caso Epstein não é um desvio; é o sintoma terminal desta derrocada. Ele testemunha o fracasso abissal de uma casta que, sem um povo vigilante que a incomode, se permite tudo, investindo vorazmente na manipulação de consciências e Estados.

Deus é Povo e o Povo está adormecido

Há uma divindade secular negligenciada que se chama povo. Não apenas a sua representação política, falível e frequentemente incorporada, mas também a sua essência coletiva, crítica e moral. Enquanto ações humanas depravadas bradam aos céus, parece que Deus continua a dormir no povo, uma força potencial, mas anestesiada. A moralidade vigente “lá em baixo” não se aplica “lá em cima”, onde a depravação é normalizada sob o verniz do privilégio e um povo despido de si mesmo sempre a olhar para o céu à procura de estrelas. A dimensão do escândalo Epstein é tal que reduz as teorias da conspiração mais audazes a meros eufemismos. As suspeitas são a fumarada inegável de um incêndio moral de proporções civilizacionais.

O Furacão Epstein varre os Telhados e deixa ver o Círculo vicioso do Poder e do Brilho

A partir do momento em que figuras como Donald Trump ascenderam ao poder, uma tempestade de transparência forçada e de reação começou a varrer os altos escalões. O caso Epstein é o tsunami resultante. O seu mundo era o santuário da nata global: ex-presidentes (Clinton, Trump), magnatas (Gates, Musk), estrelas de Hollywood (Woody Allen) e membros da realeza (o Príncipe Andrew, Mette-Marit) e muitos outros da classe. Esta não era uma rede de promiscuidade banal, mas uma economia sombria que fundia altas finanças, política de alto nível e abuso institucionalizado. O mais revelador não é a mera associação, mas a continuidade dos laços mesmo após a condenação de Epstein em 2008. A luz cintilante do glamour servia de cortina de fumo para a mais profunda escuridão. São referidas acusações de pedofilia e tráfico de mulheres mas as evidências são fracas…

A Guerra das Narrativas entre Satânicos e Conspiradores

Neste vácuo ético, proliferam narrativas convenientes. A Rússia, sentindo-se visada pelas origens de algumas vítimas (muitas delas vinham também da Ucrânia!), aponta o dedo às “elites liberais satânicas”, retratando o complexo de Epstein como a falência moral das democracias ocidentais. Do outro lado, a grande imprensa europeia frequentemente minimiza o escândalo, enquadrando-o como uma mera “armadilha” conspiratória para semear desconfiança nas democracias liberais. Ambas as narrativas são úteis: desviam o foco da perversidade sistémica e da responsabilidade individual. Os papéis invertem-se, e os deuses mensageiros da nossa era, os media, como Hermes (o deus Mercúrio), guiam as almas do público num vaivém entre o Olimpo do poder e o submundo do escândalo, sem nunca permitir um julgamento final.

A Psicopatologia do Poder revela a Ponta do Iceberg

Está documentado: uma pequena elite global detém riqueza descomunal, e esse poder molda a psique, corroendo a compreensão das regras comuns. O caso Epstein é apenas a ponta visível de um icebergue de impunidade. Numa época de hiperinformarão e desinformação, cada um escolhe a parte da lógica que lhe convém, e o escândalo arrisca-se a ser soterrado no ruído. As elites protegem os seus interesses; sectores do povo agarram-se a moralidades selectivas; e o mecanismo perverso de entretenimento com escândalos distrai-nos a todos de olhar para o chão que pisamos.

A Guerra de Valores e a Porta para uma nova Era

Esta revelação é também uma arma na guerra de valores entre globalismo e patriotismo. A visão que a apresenta como foco em Trump não é inocente. Vivemos um conflito entre hemisférios cerebrais civilizacionais: um supostamente racionalista e global (esquerdo) e outro identitário e nacional (direito), em vez de uma perspetiva integrada. A pandemia e a guerra na Ucrânia funcionaram como portais para esta nova era de transformação mental e geopolítica. Em Bruxelas, Berlim, Londres ou outras capitais, os detentores do poder comportam-se com uma distância olímpica similar à dos associados de Epstein. Há que esconder a nova vertente do imperialismo que é a vertente do colonialismo mental.

Para onde vais, Humanidade?

A pergunta final é inevitável. Estamos a construir uma sociedade irrefletida, onde a perversidade se torna normalidade na ausência de ética. É o triunfo do ego desvinculado do “nós”. Curiosamente, as elites globalistas conseguem o feito perverso de reunir, nas suas fileiras, o pior do socialismo clientelar e do turbo-capitalismo predatório. Quando a imbecilidade anónima e a gestão técnica substituem a governação ética, os governantes transformam-se em meros administradores da decadência. Nada parece estranho, nada dá que pensar.

O Silêncio Português

E em Portugal? O silêncio da grande Media tradicional é ensurdecedor (1). A discussão vive nas redes sociais, enquanto a imprensa institucional parece adormecida. O caso Casa Pia, mencionado de passagem, nunca foi verdadeiramente esgotado. Este mutismo só pode significar uma coisa: o assunto interessa ou incomoda pessoas com poder também no ecossistema mediático português (o facto de o ser também no regimento de Bruxelas não desculpa!). Neste microcosmo, impera a mesma lei do silêncio que protege os deuses do Olimpo global. Entretanto, Deus continua a dormir no povo embora, de vez em quando, apareça algum anjo com insónias a querer acordá-lo. A questão que não se poderá colocar será “quando despertará”?!!!

António da Cunha Duarte

Pegadas do Tempo

(1) Quando o jornalismo (o Público) em ambiente de eleições tem o despropósito de fazer reclame com o “Não há volta a dar. O jornalismo é essencial nas escolhas” constata-se a atitude descarada que ele mesmo reconhece ao reconhecer o poder da manipulação que tem.

Para documentação detalhada sobre EPSTEIN, ver: https://contra-cultura.com/2026/02/03/horror-repulsa-e-revolta-parte-2-o-que-dizem-os-ficheiros-epstein-sobre-a-civilizacao-em-que-vivemos/

QUANDO SE JUNTA A ESQUERDA E A DIREITA EM LUTA CONTRA A POBREZA?

No coração da sociedade lateja a úlcera de uma pobreza que contesta a democracia portuguesa

A pobreza em Portugal não é uma estatística passageira. É uma chaga persistente, uma fronteira invisível que divide o país ao meio e corrói, dia após dia, o coração da nossa democracia. Em 2025, cerca de 1,995 milhões de portugueses encontravam-se em risco de pobreza ou exclusão social, o que corresponde a 18,6% da população, menos 1,1 pontos percentuais do que no ano anterior. A taxa de privação material e social desceu para 10,2%, embora quase três em cada dez pessoas continuem sem capacidade para suportar uma despesa inesperada, enfrentando a angústia diária de não conseguir viver com dignidade.

Os rostos desta emergência expressam-se sobretudo nas crianças que crescem em agregados familiares onde por vezes menos de 422 euros têm de chegar para um mês inteiro; são os idosos, com 23,8% dos maiores de 65 anos em risco; são as mulheres, que representam 56% das pessoas em situação de pobreza. São, ainda, os trabalhadores pobres, um dado que desmonta um dos pilares da nossa convicção social: quase metade (49,3%) dos adultos pobres estão empregados, mas o trabalho, afinal, já não garante, por si só, a libertação da miséria. O limiar de Pobreza (2025) é quem vive com menos de 632€/mês (ou cerca de 700€ segundo outras fontes baseadas em 2025).

A Prosperidade Ilusória e a Conta no Fim do Mês

Portugal ocupa o 26.º lugar em prosperidade na Europa. Para se viver com tranquilidade, estima-se que seja necessário um salário entre 2.500 e 3.000 euros líquidos. A realidade, porém, pinta um quadro diferente: as despesas médias familiares rondam os 2.900 euros, mas milhões sobrevivem com entre 1.200 e 2.000 euros, dependendo do lugar do país onde calhou nascer. É uma matemática do aperto, onde qualquer imprevisto se transforma em crise. (Naturalmente nas médias têm muito peso tanto os ordenados como os gastos das populações com estatuto económico mais relevante).

A taxa de pobreza entre os desempregados é de 42,6%, um número que fala por si. Mas o que verdadeiramente deve alarmar-nos é a normalização da precariedade entre quem trabalha e a solidão económica na velhice, após uma vida de descontos.

A Paralisia Perante um Problema Solucionável

Enquanto isto, a política parece navegar à superfície, incapaz de travar o aprofundamento do abismo que separa ricos e pobres, não só em Portugal, mas globalmente. A distribuição de riqueza mundial é uma fotografia da injustiça: 1,6% da população detém quase 48% da riqueza global, enquanto os 40% mais pobres partilham 0,6%. Esta desigualdade, que condena milhares de milhões à insegurança alimentar, não é um fenómeno distante. É o sistema económico no qual estamos todos inseridos e do qual Portugal não está imune.

Há, pois, uma contradição democrática gritante. Proclama-se que a terra e os seus frutos são para todos, mas constrói-se uma sociedade onde a escadaria social tem degraus partidos. Chega-se a ter a impressão que em política cada um trata apenas da “sua vidinha”, preso a ciclos eleitorais curtos e a debates estéreis? Não se pede uma equalização forçada e irrealista de todas as condições. Pede-se honra, coerência e coragem de Portugal longe das contendas entre as potências deixar de contribuir para guerras geopolíticas resultantes da ganância das potências. Pede-se uma política que coloque no centro a dignidade humana inegociável e crie, como prioridade absoluta, uma plataforma mínima de vida digna para todos: em habitação, em alimentação, em saúde, em educação.

O Apelo da “Guerra Santa”: Unir o que a Pobreza Divide

Por isso, a pergunta que se impõe não é partidária, é civilizacional: Quando é que a esquerda e a direita se juntam numa verdadeira “guerra santa” contra a pobreza? Uma guerra que não seja de palavras, mas de ações concretas; que mobilize recursos com a mesma determinação com que se mobilizam para outras crises; que una o país em torno do único objetivo que verdadeiramente o pode nobilitar: erradicar a humilhação da necessidade.

Esta não é uma guerra de ideologias, é uma guerra de humanidade. Enquanto houver uma criança a crescer privada do essencial, um reformado a escolher entre comida e medicamentos, ou um trabalhador a ver o seu ordenado evaporar-se antes do fim do mês, o projeto democrático estará inacabado. A pobreza é o inimigo comum. Estará a nossa política à altura de declarar-lhe guerra, finalmente?

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1)    https://ffms.pt/pt-pt/estudos/pobreza-e-desigualdade-estao-diminuir

https://pessoas2030.gov.pt/2026/01/16/risco-de-pobreza-em-portugal-atinge-em-2024-o-valor-mais-baixo-dos-ultimos-20-anos/

https://on.eapn.pt/produtos/relatorios/

O salário mínimo nacional em Portugal em 2026, é 920€ brutos mensais ou seja 818,80€ depois de  11% de desconto para a Segurança Social .

Limiar de Pobreza: Em 2024, este limiar fixou-se em 723 euros mensais por adulto. : Cerca de 9% da população empregada continua em situação de pobreza, .Açores, Alentejo e Oeste/Vale do Tejo registam taxas de pobreza superiores a 17%

Taxa de Risco de Pobreza: Atingiu 15,4% da população em 2024 (dados revelados no final de 2025), indicando uma redução.