APESAR DE NÃO HAVER RAÇAS HUMANAS HÁ E HAVERÁ RACISMO 

 Racismo-discriminação-exploração andam de mãos dadas

António Justo

A divisão dos humanos em raças é refutada pela genética moderna, como declaram zoólogos, investigadores da evolução e geneticistas na Declaração de Jena de 2019 (1). Aí se constata: “O conceito de raça é o resultado do racismo e não a sua condição prévia”. De facto, “não há raças humanas… Nos seres humanos em particular, as maiores diferenças genéticas são encontradas dentro de uma população e não entre populações” … “A cor clara da pele das pessoas no norte da Europa tem menos de 5000 anos “.

Ernst Haeckel (“o Darwin alemão”), fundador da investigação da história tribal contribuiu fatalmente para o “racismo científico” do darwinismo social, através do seu arranjo alegadamente científico de “raças” humanas numa “árvore genealógica”.

Implementou-se uma ideologia que fazia uma leitura da sociedade organizada em grupos de pessoas biologicamente superiores e inferiores.

A aplicação do termo raça aos humanos é enganadora. Isto não significa que não possa haver diferenciação genética ao longo de uma zona geográfica, mas a avaliação taxonómica desta diferenciação (como raça ou subespécie) é arbitrária.

No caso de cães e de macacos, dada a sua diversidade de espécies e características distintivas, aí sim, seria apropriado falar-se de raças.

Quanto aos humanos, não é este o caso porque existe apenas um tipo de humano que povoa a terra desde há muitos milhares de anos.

 A Universidade Friedrich Schiller descobriu que dos 3,2 mil milhões de pares de base do genoma humano, não se encontrou um único par que constitua uma diferença racial. Assim, o conceito de raça, em ligação com a espécie humana, não deveria continuar a ser utilizado futuramente na linguagem exata ou científica.

Racismo, discriminação, exploração e preconceito andam de mãos dadas.

A hierarquização de grupos ou pessoas é um fenómeno que se observa de maneira mais ou menos explícita em cada pessoa. A Declaração de Jena conclui que “a simples eliminação da palavra ‘raça’ da nossa língua não impedirá a intolerância e o racismo”.

A Declaração de Jena de 2019 pretende, certamente, desencorajar explicações raciais para diferenciações coletivas em relação a traços físicos e/ou comportamentais!

Somos todos da mesma espécie. A palavra raça pode ter diferentes interpretações.

Na Alemanha houve e há a proposta de se excluir da Constituição a palavra raça. Penso que, por vezes, a semântica nos continua a preocupar demasiado correndo-se o perigo de ela nos desviar as atenções! O Racismo não é um específico de uma cultura ou civilização. É um vício comum ao humano a ser sanado com o esforço de todos.

Socialmente, racismo continuará a ser a discriminação de indivíduos ou grupos por causa de sua etnia ou cor.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

  • (1) Declaração de Jena em alemão:

https://www.shh.mpg.de/1464864/jenaer-erklaerung

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

8 comentários em “APESAR DE NÃO HAVER RAÇAS HUMANAS HÁ E HAVERÁ RACISMO ”

  1. André Fratelli A biologia (e, consequentemente, a ciência) e a identidade social nem sempre andam de mãos dadas, e os conceitos de “identidade racial” e, por exemplo, “identidade de género”, são exemplos primordiais desse facto. Por isso é importante distinguir raça social de raça biológica. Mas antes de elaborar sobre isso, permitam-me uma pequena divagação.

    Durante a Idade Média, como sabem, a verdade era ditada pela Igreja. A Igreja Católica era vista como a representação de Deus na Terra, e portanto tudo o que a Igreja dizia era verdade, sendo até considerado heresia questionar qualquer posição oficial. Se a Igreja diz que a Terra é plana, então a Terra é plana e pouca letra. Isto foi verdade até ao Renascimento. O Renascimento defendeu a restauração dos valores Clássicos (daí o nome “renascimento”), que ditaram uma profunda reestruturação social e cultural que mudou mentalidades, a estrutura social, as artes e, mais importante para esta discussão, disseminou o método científico.

    É importante perceber isto porque é importante perceber a origem da ciência. Muita gente defende que a Ciência é, hoje, a dona da verdade. No entanto, com o declínio do domínio católico na Europa e o fim da Idade Média, as mentalidades Europeias não se limitaram a trocar um “ditador da verdade” por outro. A mudança foi mais profunda do que isso e, até hoje, a ciência funciona sobre a mesma pedra basilar: ninguém é dono da verdade, nem mesmo a ciência. Ou seja, a ciência foi criada mediante a observação de que nem ela pode ser dona da verdade. E, ao criar um contraste com a mentalidade anterior, isso mudou tudo.

    É daí que vem uma famosa citação de Galileu: “Nas questões da ciência, a autoridade de mil não vale o raciocínio humilde de um único indivíduo”. É isto que, na minha opinião, torna Galileu revolucionário, mais até do que as suas restantes descobertas, como normalmente lhe é favoravelmente creditado. Esta é a pedra basilar do Renascimento e do método científico, e é isto que é importante entender quando a ciência é chamada a resolver questões de verdade.

    Também Nietzsche disse: “Toda a credibilidade, toda a boa consciência, toda a evidência de verdade, vem apenas dos sentidos”. Reparem que a definição de Nietzsche é ainda mais abrangente, englobando não só a racionalidade, mas também os restantes sentidos humanos. Ou seja, mais do que Galileu, Nietzsche acreditava que a verdade pode ser percecionada, o que a torna relativa. Também Maniqueu (séc. III, ou por aí) defendeu que a verdade e os valores humanos fossem binários, como o bem e o mal, o certo e o errado, o verdadeiro e o falso. Esta posição ignora qualquer possibilidade de áreas cinzentas ou a possibilidade de “meias verdades”. Assim, concluímos que “verdade” não é um conceito estático, mas sim algo mutável e ajustável ao longo dos tempos. Isto não deveria ser surpreendente, já que o conceito de “verdade” já era debatido até antes do período clássico.

    Esta divagação prende-se com o argumento nuclear da tese apresentada no post original: se a ciência diz, é porque é, e eu discordo. Ora, eu não quero com isto dizer que discordo dos especialistas, até porque a minha área de estudo está tão longe da biologia que não me atreveria. Acredito, de facto, que a zoologia e a antropologia tenham olhado para o assunto de forma séria e concluído que, do ponto de vista biológico, a segregação racial não faça sentido, e eu fico contente com isso. Discordo que seja uma verdade inabalável, porque tal não existe na ciência, mas não discordo da observação em si.

    O problema é que a ciência é boa para entendermos o funcionamento do universo, para fazermos microchips e para levarmos a Humanidade à Lua, mas é terrível e implacável a fazer juízos de valor. Ou seja, o método científico não preza pela natureza Humana, mas sim pela análise lógica e imparcial de fenómenos naturais. O sexo e a raça biológica, são, mais uma vez, exemplos primordiais disso, e sem dúvida nenhuma que esses são debates para ser deixados ao método científico para resolver.

    A questão primordial é que isto não resolve os problemas sociais de identidade. As pessoas, enquanto indivíduos, aderem a todo o tipo de “verdades identitárias”, que são valores a serem discutidos num contexto social, e não científico. Quando falamos em “raça negra”, não queremos, de nenhuma forma séria, insinuar que estes indivíduos não pertençam à Raça Humana, mas sim que se identificam de uma forma diferente, que lhes é única e característica. Isto tem imensas implicações a nível cultural e identitário, embora nenhumas do ponto de vista biológico.

    Em conclusão, é importante dizer que não podia concordar mais que somos todos da mesma raça, a raça humana, mas fico contente se a ciência se mantiver fora do assunto. A declaração de Jena, como outras que lhe são semelhantes, é uma declaração científica e não social, o que implica que ignora os valores sociais e se foca (como aliás é alegado) exclusivamente na análise genética. Eu acho extraordinário que isto seja conhecido, mas talvez daqui a umas décadas. E porquê? Porque inclusivamente abre azo a argumentos discriminatórios a serem feitos com base na verdade científica, no seguimento de “eu não sou racista porque preto não é raça”. Esta é uma linha argumentativa que não pode ter lugar. A discriminação é real—acho que nisso concordamos—, e portanto não pode ser amenizada com factos científicos, mas sim com discriminação positiva. Na questão de raça, eu acredito piamente que temos que nos dividir antes de nos podermos unir.

    Apesar desta linha argumentativa, note-se que eu prefiro, largamente, os termos “minorias”, “minorias étnicas”, “comunidades despriveligiadas”, entre outros, às expressões relacionadas com raça. Mas também argumento que as duas não estão em contradição. Ou seja, acredito que a identidade racial existe e que deve ser respeitada—mesmo acima da própria biologia—, mas, ao mesmo tempo, que o problema não é restrito às minorias negras, mas sim às várias minorias étnicas desfavorecidas no ocidente e no mundo. Por isso, sintam-se à vontade para abandonar a terminologia racial, mas entendam que essa também tem um lugar—mesmo que debatível—reservado nestas questões.
    André Fratelli

  2. Gostei muito de tão fundada argumentação, coisa rara nos meios de informação em que nos encontramos envolvidos! Segui com satisfação a argumentação que expôs e que possibilita o alargamento de perspectivas individuais. Passo, num ponto ou outro que apresentou, a abordá-lo sob uma outra possível perspetivo.
    Também acho oportuno distinguir o conceito de raça em contexto de discurso social e do conceito de raça em contexto biológico; outrora a política serviu-se do darwinismo social (da biologia) para legitimar o seu intuito político e assim melhor espalhar o seu preconceito. Tratava-se então de tentar basear a crença ideológica política através da fé científica, para um público acrítico; este fenómeno (crença indiferenciada na ciência) continua a ser hoje usado pela política e na praça pública por opinantes em geral, tal como se deu especialmente no século passado!
    O discurso do pensar politicamente correto de hoje enquadra-se no mesmo fenómeno da mundivisão medieval em que o (repetidamente) presente se procura afirmar à custa da minoração ou negação do passado. Cada época tem a sua crença correspondente ao Zeitgeist (mero fenómeno de identificação ou definição); por uma questão identitária e processual cada tempo tem necessidade de uma crença própria: o ponto fraco dela será não se dar conta que usa uma crença que tenta justificar como base na crítica a outra crença, que não poderá compreender por se encontrar deslocado no espaço e no tempo, também ideológico e psicológico.
    A interpretação literal dos textos sagrados (tal como ainda hoje acontece em grande parte no Islão e nalgumas seitas como Testemunhas de Jeová) era usada pelo poder eclesiástico como forma de implementação de uma cultura (autoafirmação) no meio de uma sociedade extremamente dividida. Durante a Idade Média amadureceram as ideias inatas à sociedade religiosa e civil que preparam a mudança de mentalidade no renascimento; de uma maneira geral a crítica surgiu do âmago dessa sociedade.
    Movimentos místicos (doutrina do eu: individualidade) já rivalizavam antes, em termos de verdade com o poder estabelecido da Igreja (doutrina do nós: da comunidade sobre o indivíduo).
    O método científico, destacado no renascimento, ao basear-se já não no princípio da autoridade ou na pura abstração (platonismo) mas no princípio da observação dos fenómenos naturais e de sua comprovação através da experiência chega a novas conclusões que provocam uma nova mundivisão; passa-se em questões científicas naturais a partir já não da fé e de doutrinas, mas de hipóteses e de teorias (o método indutivo ou empírico). Na procura da verdade passa-se do método dedutivo para o indutivo (técnicas quantitativas). A dinâmica passa a ser uma outra: Tese-antítese e verificação experimental, empregando-se o raciocínio dedutivo nas hipóteses que se pretendem comprovar, de maneira a chegar-se aos factos através de leis.
    O método científico pretende a verdade fática (e lógica, uma aprendizagem à posteriori) enquanto a religião procura através de conceitos e de hipóteses gerais (também através da introspeção aprendizagem à priori – acção de conhecer) encontrar a verdade do sentido da vida. (O problema surge no momento em que o método empírico indutivo (de caracter materialista) se arroga o direito de se pronunciar sobre o sentido que é objecto da teologia e da filosofia. Tornar-se-ia alienador querer-se usar o metro padrão para medir realidades metafísicas; o mesmo se diga do vice-versa. São de respeitar os vários métodos ou estratégias de tentativas de abordagem da realidade/verdade.
    A meta do método científico – na sua maneira de investigação e de tomar decisões é diferente da meta da religião. Uma baseia-se em leis e a outra em postulados de fé. Os vários tipos de métodos (indutivo, dedutivo, analítico, sintético, comparativo, dialético, etc.) são coesos em si, mas passíveis de ser usados de manira complementar na abordagem da realidade/verdade por cada disciplina.
    É verdade que o método da ciência ao fundamentar-se na “objetividade” pôs-se em contradição com os clássicos, tal como hoje a física tradicional (macro física) é em certos sectores questionada pela física quântica (microfísica). É um facto que o investigador ao recolher os dados já os influencia, devido ao envolvimento com o objeto de observação.
    Numa sociedade (medieval) em que a afirmação do nós (comunidade) sobre o indivíduo (tal como hoje no Islão e por vezes em instituições e agremiações políticas, religiosas, científicas e sociais) exagerava no sentido de fazer valer a instituição sobre o indivíduo também hoje se pratica o outro extremo em que domina um individualismo e um igualitismo cegos. De notar que nesses tempos se tratava de construir uma identidade europeia!
    A crítica de que a instituição é passível não é legítima em relação à filosofia nem à vivência cristã; de facto em cristianismo a soberania pertence à pessoa (consciência individual) e não à estrutura ou instituição. Já no sec. IX, mesmo na perspectiva institucional, o papa advertia que no caso de conflito entre a moral prescrita pela instituição e a percecionada pela pessoa, seria mais cristão seguir a própria consciência e não a da Instituição (recurso ao subterfúgio da consciência errónea em termos identitários culturais).
    A doutrina revolucionária de que em questões de fé o soberano é a consciência humana, era e é um princípio fundamental da doutrina cristã (Dignidade humana partilhada na filiação divina de cada pessoa que frutificou na dignidade humana hoje também laicamente defendida); os interesses do poder institucional deturpou muitas vezes essa doutrina que por vezes se abrigava nos conventos.
    A famosa citação de Galileu: “Nas questões da ciência, a autoridade de mil não vale o raciocínio humilde de um único indivíduo” tinha a ver com essa doutrina e com uma sociedade que tentava abafar com o argumento de autoridade o que pessoas criativas descobriam na experiência mística ou na análise directa do seu dia a dia. Se os círculos institucionais do poder tivessem em conta a espiritualidade cristã de que em questões de fé o soberano é o indivíduo com a sua consciência que está até sobre os arrazoamentos oficiais eclesiais não teríamos chegado a muitos extremos do poder petrino. O aspecto revolucionário de Galileu também se deve ao facto de surgir num tempo axial em que a flor do indivíduo se afirmava sobre o folhame da sociedade. Acabava-se então a idade do comunitarismo para se iniciar a era do individualismo, em cujos finais nos encontramos.
    O A Afirmação de Nietzsche “Toda a credibilidade, toda a boa consciência, toda a evidência de verdade, vem apenas dos sentidos”, comete um erro ao subjugar a própria racionalidade aos sentidos e deste modo a um materialismo prático de que só vale o saber que é medido pelos sentidos (o fenomenológico) o que tem como consequência um relativismo absoluto que só seria de aceitar, na ordem das coisas, se fosse compreendido no contexto de sentido religioso-místico e da física quântica.
    A verdade é processo, kairos, e como tal de definição provisória. Já Moisés tinha constatado que para a definição da Verdade e do dar um nome a algo se torna necessário entrar numa esfera do mistério (do não meramente objectivável) e por isso à pergunta de uma definição de Deus ou da Verdade (que o povo exigia), Deus no monte Oreb respondeu a Moisés que não pode haver uma resposta objectiva ao dizer que não há nada estável, que tudo é processo: Por isso ao ser solicitado para se definir e assim poder ser apresentado objectivamente ao povo, Deus respondeu “Eu sou o que sou, sou o tornar-se”. O mesmo podemos verificá-lo na procura de dar uma definição por João com a afirmação “no princípio era a palavra, a informação e ela tornou-se carne”…! Já Platão no mito da caverna procura explicar a ilusão de se possuir/definir a realidade/ verdade, ao mostrar-nos que os nossos sentidos só podem ter uma perceção (mundivisão) sombra da realidade. No sentido popular e do discurso do dia a dia as pessoas partem do princípio da realidade/verdade como conceito estático e mecanicista. Que tudo é mutável e a realidade é diferente do que a percecionámos convidando para isso Pedro a aprender a andar sobre as águas. De facto, nem a ciência, nem a filosofia nem a religião podem afirmar que algo “é porque é”. A realidade é uma mistura de mistério e de matéria aparentemente bruta.
    Como procurei apresentar, na plataforma onde nos encontramos, também afirmo que não há verdades inalienáveis porque tudo é processo (isso também pode ser visto no artigo) e se a ciência se ocupa do funcionamento do processo fenomenológico é muito natural que outras ciências se ocupem do sentido desse processo e do sentido da vida individual e social e isto não pode ser descartado pelas ciências naturais. Umas e outras são complementares numa realidade a-perspectiva mas que só pode ser abordada perspectivamente.
    A verdade científica é também eu processo e por isso mesmo, na qualidade de verdadeira ciência só se pronuncia no âmbito do seu campo experimental.
    O pressuposto “eu não sou racista porque preto não é raça” seria curto porque implicaria uma autodefinição consequente de um atributo redutor. Em relação ao racismo, como disse no artigo, ele deve ser reconhecido como característica de cada pessoa e numa situação carente de definição ou de pertença identitária surgem aberrações indignas do definidor e do definido.
    Há movimentos racistas e antirracistas que também fazem uso da vã ideia do darwinismo social julgando-se superiores aos que eles combatem.

  3. André Fratelli n\ao acho que o António Cunha Duarte Justo tenha tirado o tempo. Conhecendo-o como conheço, acho que ele se está a divertir com a forma como os vossos argumentos se desencontram (e por vezes se encontram). A questão que me fica, é saber quantas pessoas serão capazes de ler os vossos comentários pelo menos uma vez com atenção, ou duas de forma descontraída. Um e outro, são desafios à inteligência e capacidade de pensar e argumentar. É muito dificil encontrar duas mentes que sem se conhecerem mostrem opiniões tão sérias e objectivas sustentadas no conhecimento que vocês têm e que me delicia. Vocês dois têm Formação e idades diferentes e ao mesmo tempo uma elegância rara de encontrar na discussão de argumentos nem sempre alinhados, nem sempre contrários mas sempre elegantes, educados e sustentados. É meu privilégio conhecer ambos e poder promover a vossa discussão sobre um assunto tão controverso e ao mesmo tempo tão velho e actual. Parabéns a ambos e por favor não se afastem de mim. Gente como eu precisa de gente como vocês. Obrigado a ambos.
    Alcino Francisco

  4. Alcino Francisco Não se trata de argumentos se encontrarem ou afastarem (desencontrarem), o interessante é que podem levar a um entroncamento ou cruzamento em que os dois se abraçam e se mantêm da mesma maneira contentes quer sigam o mesmo caminho quer cada um escolha o outro! O que conta é o percurso feito juntos! Na vida real e na vida concebida a percepção e a definição é determinada pela perspectiva. Além disso como a razão é superior à logica individual escolhida, (mesmo em caso extremo) pressupõe-se que até diferentes lógicas não implicariam que alguém estivesse fora da razão. Disseste bem: trata-se de desafios à inteligência e isso é que importa porque a praça já abdicou de qualquer desafio e a Razão tornou-se num termo desconhecido e a grande arte do discurso contoverso fazia parte de épocas de que a rapaziada do bairro desdenha e já desconhece; hoje na praça pública parece preferir-se seguir-se a lei da inércia na avalanche da emoção; tudo segue como bom rebanho o opensar de algum outro até porque pensar pela própria cabeça chega a fazer doer muito porque pressupõe ter de se prescindir do conforto do calor e do odor do rebanho!

  5. António Cunha Duarte Justo Gostava de concordar que o que interessa é o percurso feito juntos, e, talvez, para grande parte do que aqui foi dito isso seja verdade, mas não nos podemos esquecer da temática subjacente. O racismo não é só filosofia, é real. E, por ser real, tem um impacto social que não pode ser ignorado nem marginalizado, o que torna a conclusão mais relevante do que o discurso.

    Julgo que já estamos em condições de ultrapassar o debate sobre a ciência e as várias manifestações da procura da verdade. Estamos de acordo nessas. Podemos é não estar de acordo quanto à condição em que as mesmas surgem. Comecemos por aí.

    A Idade Média é largamente caracterizada pela supressão do indivíduo em prol do colectivo—o todo—, acho que nisso estamos de acordo. Dado o domínio cristão da Europa nesse período, não consigo fazer a distinção entre a cristandade ter fomentado o coletivismo e a soberania da consciência humana. Santo Agostinho, até hoje uma das pedras basilares da teologia Cristã, defendeu ideias que persistiram pelos tempos: o Homem nasce degenerado, Deus deu ao homem o livre arbítrio para escolher entre o bem e o mal, além da religião só existe o erro e, mais relevante para a discussão, que o ser humano é social por natureza e individual por corrupção. As suas ideias enraizaram-se profundamente na Idade Média e no cristianismo, e muitas delas persistem até hoje. Ele defendeu que, o Homem sendo degenerado, a penitência só seja possível através do sofrimento. E assim se explica grande parte do arcaísmo medieval. Veio mais tarde encontrar oposição com Descartes, Católico, com este a fomentar a dúvida metódica. O problema (para o seu argumento) é que Descartes surge já no final do período medieval, e portanto não serve para suportar a doutrina da época.

    Acho, portanto, interessante que refira tão taxativamente que “os interesses do poder institucional deturparam muitas vezes essa doutrina (a da soberania da consciência humana) que por vezes se abrigava nos conventos”. Julgo que discordamos fundamentalmente daquilo que fosse a doutrina cristã da altura, em primeiro lugar, e, em segundo, do papel institucional da mesma. A doutrina era, por um lado, um reflexo da sua época, como aliás sempre é (como disse, e bem, Zeitgeist), e portanto indissociável da Igreja. A doutrina cristã não revolucionou isso, não foi diferente do seu tempo, não fosse, aliás, a mesma que a definiu e impôs, como já vimos com Santo Agostinho. Por outro lado, não considero a ideologia separada da instituição. A instituição é Homem mesmo quando o homem não é instituição; ou seja, as instituições são as pessoas que a compõe, e as pessoas são ideologia. Só o oposto não se verifica necessariamente; sendo o Homem indivíduo, pode ou não representar a ideologia das instituições que compõe. A Guerra Fria foi rica em exemplos disso, com espiões dupla-face a jogar pelos dois lados, muitas vezes em traição dos seus próprios valores.

    Precisamos concordar nisto, porque o que se segue é de última importância. Das duas uma: ou a instituição e a ideologia são dissociáveis ou não são, e, nisso, temos que ser coerentes. A ideologia e acção Cristã são tão dissociáveis da Igreja como o nazismo do partido Nazi, o PCP maoísta da Revolução Cultural e o vandalismo de estátuas do BLM. Eu acredito que são indissociáveis em todas as instâncias, e que estas instituições (nesta fase adicione-se “movimento” à terminologia) são, mais do que fomentadoras, responsáveis. João Paulo II pediu desculpa pela Inquisição, pelas Cruzadas, e todos os que tenham sofrido às mãos da Igreja Católica, aceitando, assim, o papel e a responsabilidade da Igreja, num caso raro de claridade de associação da instituição à ideologia. Entre Santo Agostinho e João Paulo II, os princípios básicos daquilo que constitui “instituição” não mudaram, e portanto se concluiu que a Igreja suprimiu o individualismo. Portanto, não podia discordar mais que Galileu se tenha inspirado na doutrina cristã, mas sim que se tenha insurgido contra ela (não fosse, aliás, a própria igreja a ter alegado precisamente isso).

    Desvio rápido: Descarte discordaria da sua afirmação relativamente a Nietzsche, sendo que ambos defenderam que os sentidos são a origem da razão. Já eu concordo consigo.

    Já em fase de conclusão, você referiu que o racismo é uma característica individual, e é aqui que eu acho que está o busílis da questão. Se o racismo é individual, então não é institucional, e portanto a discriminação social não existe. Ou seja, não interessa que o Constâncio seja racista, já que a sua opinião não tem, nem pode ter, impacto de largo espectro. Alternativamente, pode ser endémico, e, portanto, é individual mas largamente disseminado. Guardem-se as hipóteses: se a discriminação social existe, então o racismo é endémico, institucional, ou ambos.
    André Fratelli

  6. Obrigado pela sua posição e a que procuro responder. O racismo se não fosse real certamente não se tornaria objecto da nossa ocupação; se usamos do discurso para o abordar é porque pretendemos contribuir pelo menos para o definir e domesticar já que ele com a exploração do humano pelo humano é sistémico.
    O primeiro passo a dar-se no sentido de resolver um problema é naturalmente equacioná-lo primeiro. Parto do princípio de que à ideia se segue a acção.
    Penso que não nos encontramos em condições de ultrapassar o debate sobre a ciência e as várias manifestações da procura da verdade (diferentes ideologias) porque tanto a consciência humana como a consciência social se definem por si mesmas e pelas suas circunstâncias não podendo a realidade ser separada da sua ideia nem a ideia da sua realidade e ser formatada de maneira monolítica. Portanto teremos que viver sempre também com a sombra da ideologia como parte da realidade, seja ela de orientação discriminatória pela positiva ou pela negativa! Quanto à Idade Média, de que também fazemos parte no nosso processo sociológico “evolutivo”, não vejo dicotomia entre o processo de individuação (pessoal) e o processo de individuação coletiva (institucional). Os dois são fatores dinâmicos e interrelacionados num processo histórico de identificação entre um eu e um nós dinâmico e variável. Creio que o Homem não nasce degenerado (também no sentido cristão) mas é feito de bem e mal numa natureza que não deixa de ser ela mesma (como é) independentemente dos atributos culturais morais que lhe possamos atribuir. O problema só surge no momento em que se tente defini-la segundo a perspectiva e circunstância aqui e agora que leve a percecioná-la de maneira petrificada, seja mesmo num conceito.
    A verdade e o erro são momentos num processo tentativa de evolução. Mesmo a questão do livre arbítrio é processual (“Eu sou o que sou, eu sou o tornar-se”) numa dinâmica que transpõe os extremos polares numa mediação entre o imóvel e o móvel, entre o componente e o todo, o finito e o infinito! O ser humano não se pode definir como indivíduo em contraposição ao social (ele e a comunidade são condicionados e condicionantes recíprocos) por isso, também no sentido cristão (definição de individuo-comunidade não numa perspectiva polar binária nem meramente causal mas sim como relação como bem expressa a fórmula trinitária do “mistério da santíssima trindade”: não há apenas um eu e um tu (o indivíduo e a comunidade separados) há também um nós que faz parte do tu e do eu que se expressam no nós (tudo é relação e equacionado numa relação)! Portanto aqui será importante não se cair nem num existencialismo materialista nem num espiritualismo desencarnado! Continuo a afirmar que a cristandade (e não o cristianismo) reprimiu a sua nobilitação da pessoa num momento da sua afirmação institucional social (na fase de formação da consciência europeia) mantendo muito embora a sua filosofia da dignidade da pessoa humana, identificada não tanto numa doutrina, mas numa pessoa, a pessoa de Jesus Cristo como protótipo (filosofia ou mística trinitária e da “incarnação-ressurreição humana”) é um facto verificável. Com o Deus de Jesus Cristo acabou-se com o primado total do coletivismo sobre a pessoa (acabou com um Deus para um povo para o trazer para toda a humanidade e para o indivíduo – um Deus pessoal e já não institucional).
    No livro “As confissões „Agostinho testemunha que “Deus é mais íntimo a nós do que nós em nós mesmos” e ele mesmo testemunha que Deus estava “dentro de mim, e eu lá fora a procurar-te”. Para ele a verdade encontra-se no interior do homem onde habita Cristo! A consciência humana é por isso mesmo soberana mesmo em relação à autoridade institucional (isto não agrada também ao comunismo chinês que quereria um parceiro institucional quando se depara com um cristianismo em que a consciência individual é soberana, constitutiva e por isso questionadora de toda a instituição porque superior a ela (quer essa mesma instituição se chame mesmo ela Igreja Católica!), coisa que o marxismo e o socialismo não toleram porque para eles o que se pretende é um sujeito-objeto, proletário. Devido a este pormenor, apesar das minhas propensões, nunca me pude identificar muito com o socialismo porque ao fazê-lo teria de renunciar à minha personalidade e passar a ser integrado num construto social que não tem nada a ver com comunidade!
    Como para o Cristianismo a revelação se expressa também no desenvolvimento da História também nela se observam no seu desenrolar várias teologias com diferentes teólogos que expressam e refletem nas suas análises também o espírito da época (Platonismo de Agostinho). A discussão sobre o livre arbítrio também tem os seus momentos fortes como resposta a filosofias que queriam reduzir a liberdade humana a um determinismo cego. No sentido cristão não se pode pôr a dicotomia entre a religião de um lado e o erro do outro (essas interpretações devem-se ao dualismo platónico seguido também em algumas teologias cristãs e a um marxismo que queria ver a “religião” apenas como ópio do povo e não como uma das necessidades inatas ao ser humana! Religião é apenas a tentativa de ligar (religar) a coisa divina à coisa humana, a procura de Deus (Verdade/Realidade) que não pode ser identificada com a religião (que uma se considere como caminho verdadeiro na sua procura/caminhar para Deus é um outro assunto compreensível e legítimo). O ser humano é social e individual (altruísta e individualista) ao mesmo tempo. A socialidade que lhe vem por natureza é apenas o outro polo da sua necessidade ou circunstância de não se poder definir simplesmente como um eu sem um tu (num nós). Quanto ao bem e ao mal eu diria: somos feitos de terra e de Céu e parece sentirmos necessidade de nos definirmos olhando apenas para a realidade das asas! Não seria correcto querer-se definir como teologia católica a visão de uma corrente teológica de um tempo em que havia outras e sem considerar que umas e outras se condicionam num discurso que pretende ser sempre adequado à perceção do tempo. A penitência pode ser observada na tradição cristã sob diversas espiritualidades podendo também ser vista como sofrimento numa perspetiva de autopurgação ou de transfiguração e de reconhecimento ou de unio mística. O sofrimento poderá aqui ser visto como um momento do reconhecimento da própria limitação. O arcaísmo medieval percecionado hoje faz parte do arcaísmo que os de amanhã reconhecerão em relação aos de hoje. O problema do entendimento vem da petrificação do pensamento/doutrinas quando estes são partes de um todo. No meu ver a dúvida metódica de Descartes não é outra coisa que a continuação da dúvida real de São Tomé no episódio em que lhe contaram que Jesus tinha ressuscitado e ele disse que para acreditar teria que ver! Cada época faz uma outra configuração da sua doutrina no sentido de que ela só será compreensível com as circunstâncias que a envolve e, portanto, ajudam a defini-la.
    O problema hodierno é que queremos fazer do Zeitgeist, da nossa visão o suporte da doutrina como se o nosso não fosse apenas um suporte entre outros de outras épocas e porque não nos damos conta de uma nossa necessidade de autodefinição em ação e que nos poderá levar a menosprezar as outras e deste modo a absolutizar a nossa como se ela fosse a peneira por que se faz passar toda a realidade!
    Não, tudo é processo, tudo é complementar numa realidade a-perspectiva em que cada ponto de vista dela tomada por uma cultura ou opinião pessoal não mais é que uma palavra numa grande frase que fará parte de um texto em que seu substrato é mistério. Mais que uma doutrina cristã ou uma filosofia, ideologia ou política de uma certa altura observa-se a interpretação que o correr dos tempos vai fazendo dos textos, mitos ou acontecimentos (Daí as diferentes filosofias, teologias, teorias científicas próprias de cada tempo). Quanto às instituições estas são supraestruturas necessárias, mas que se servem do que roubam ao indivíduo para o voltar a dar à sua maneira à sociedade! São um bem-mal necessário na consequência da consciência humana e sua necessidade intrínseca de só poder sobreviver em sociedade!
    A ideologia é como que o tecto em que se abriga a instituição e como tal faz parte dela: uma maneira de manter a memória e assim perspetivar o momento seguinte!
    A instituição só o é em função de uma realidade numa relação indivíduo-comunidade através de um tu que lhe proporciona a autodefinição. Não acho legítimo identificar o ser do homem com a sua função e nem a ideologia com a instituição nem tão-pouco com a sua função embora se correlacionem: uma outra coisa seria falarmos de pessoa-comunidade que se definem em relação e suas supraestruturas mais numa perspetiva de função. No momento em que as pessoas se tornam ideologia ou que as instituições procuram manipular a sociedade (comunidade aqui não existe!) passa a haver entre elas uma relação de objecto com objecto acabando-se com a subjetividade soberana que seria aquela que faria parte também do seu ser de comunidade. Os partidários e os beatos renunciam à sua qualidade de sujeitos soberanos para se tornarem instrumentos (meros cães de guarda de instituições estáticas).
    Hoje, na segunda fase da guerra fria temos como ontem os oportunistas de dupla face; São os instrumentalizados e instrumentalizadores do sistema operando em exercício funcional a que falta a relação a nível de sujeito. Creio que só vistos de fora são considerados traidores porque examinados por uma moral que não era a sua por se encontrarem numa dinâmica de objecto com objecto, numa ética utilitarista de que bom é aquilo que me serve! Os valores adquirem, por vezes, um valor metafísico e como tais passíveis de ambivalências em diferentes contextos sociais.
    Penso que a instituição e a ideologia são indissociáveis mas não no sentido estático mas sim enquanto processo e por isso serão consideradas coerentes ou incoerentes conforme a perspectiva de expressão e a perspectiva de percepcao (avaliação).De novo nos encontramos no seu processo de definição (identitário) que vai ganhando o mimetismo do ambiente (a igreja católica, a nível exterior sociológico recorria ao processo de aculturação-inculturação e deste modo ser adequada (inclusiva) ao espaço e ao tempo). Uma outra coisa são as ideologias e suas concretizações quer a nível individual quer a nível grupal (cultural); facto é que primeiro está a ideia e depois vem a ação. Querer, porém, meter uma em detrimento da outra seria estranho ao mecanismo que está na base da nossa perceção. Daí o princípio de Jesus “não julgues e não serás julgado” o importante é a tua ação. Os indivíduos na sua aspiração de se tornarem pessoas muitas vezes correm o equívoco de se identificarem com as instituições ou com ideologias externas na procura de um superego que as sustentem e lhes deem substrato e as ideologias conscientes destas necessidades dos membros através das suas elites usam e abusam das necessidades primárias deles. Em parte, é o que está a acontecer neste movimento iconoclasta a que assistimos por todo o mundo ocidental no seguimento de agendas certamente bem perpetradas. Também estou de acordo que João Paulo II tenha pedido perdão pelo que aconteceu na inquisição; o mesmo não poderia ser feito em relação às cruzadas; uma coisa é o que a comunidade cristã cometeu a nível de doutrina (contra a própria doutrina de desrespeito da consciência individual) e outra coisa foram as cruzadas como resposta política já não do cristianismo, mas da cristandade às invasões muçulmanas. Hoje não seríamos Europa com os valores da dignidade humana, seríamos um império muçulmano certamente mundialmente sob o jugo do Corão e da Sharia. Será de preferir biótopos culturais a monoculturas! No sentido cristão acho bem o que o papa Francisco faca muito no sentido de implementar o islão na Europa (amor ao próximo) mas no sentido político acho isso errado porque a religião muçulmana é sobretudo política e como consciente do poder grupal (hegemonia) sem considerar o outro como próximo tem em si as melhores estruturas para se impor na Europa e pouco a pouco alcançar a hegemonia universal que pretende.
    Numa necessidade de reflectir e sintetizar a vida do seu tempo, Santo Agostinho no intuito de conciliar a fé com a razão humana (“é preciso compreender para crer, e crer para compreender” e de que “a fé precede a razão” ) escreveu as suas apologias na sua célebre obra “A cidade de Deus” (numa altura da História em que várias filosofias dividiam o império romano) em que descreve todo o problema do ser humano dividido entre o mundano (cidade do mundo: Roma com seus deuses e filosofias) e o espiritual (cidade de Deus) seguindo a filosofia do dualismo platónico.
    Um princípio para mim é claro: uma coisa é a regra e outra é a exceção e não há regra sem exceção, mas na ordem normal das coisas não é bom que se faça da exempção regra como querem muitos com a sua política de desconstrução da cultura ocidental. É bom que haja maiorias e minorias numa relação de colaboração e complementaridade mas nunca se invertam os termos como quer o pensamento politicamente correcto de um certo marxismo/maoismo que faz a guerra ao cristianismo usando para isso a defesa do islão que corresponde mais à sua visão de uma troica “soviética” a governar um proletariado cultural mundial.
    Para mim o facto de o racismo ser inerente ao humano, ele é naturalmente individual, social e institucional. Ele na qualidade de “mal” faz parte da essência humana e como tal da sociedade/instituição (é o mal não físico, o “não ser” como dizia Agostinho referindo-se ao mal); queria acentuar que este se expressa individual e socialmente independentemente da raça ou da cor e correspondentemente representado nas instituições na sua tentativa de se definirem como identidades e na consequência faz parte da instituição como fazem parte os atuais movimentos e ONGs que para criarem uma outra identidade social lutam pela desconstrução da cultura ocidental.
    É importante que se evite que o “Constâncio” seja racista começando ele por reconhecer dentro de si o racismo próprio para, ao empenhar-se em desmontar o racismo social, não o reconhecer apenas como um problema dos outros mas que ele se pode encontrar de maneira sub-reptícia também no próprio combate ao racismo dos outros. Quando todos nós reconhecermos o que nos move e o que condenamos fora, poderemos melhor contribuir para um mundo em que racismo perca todo o seu caracter discriminador e de violência física ou mental contra o outro, independentemente dos mecanismos inerentes à necessidade que cada um e cada grupo tem de se definir (delimitar em relação ao outro) o “racismo” é sistémico e também está presente na maneira como o indivíduo e as instituições sociais tratam o outro. No sentido cristão o outro seria o “samaritano”, aquele que não é pior que eu, que o meu grupo, pelo contrário!
    Já São Paulo reconhecia e admoestava: “Não há judeus, nem grego, nem escravo, nem homem livre, nem homem, nem mulher: todos sois um no Cristo Jesus”. Este discurso religioso será de entender em sentido profano que a realidade da pessoa humana une em si o divino e o humano tal como o seu protótipo Jesus Cristo.
    Desculpe o meu discurso feito a correr e sem correção devido à falta de tempo para melhor alinhar as ideias que me vieram em relação ao seu texto e que muito agradeço.

  7. Em Londres, 30% da comunidade negra de origem africana vive com rendimentos abaixo da linha da pobreza, e é só a terceira minoria da lista (Bangladesh 60%, Paquistão 40%), contra 10-15% que são britânicos brancos ou outros. Ou outros!, envolvendo várias etnias na mesma rubrica. 70% dos rendimentos abaixo da linha da pobreza em Londres são de minorias étnicas, comparando com 50% na periferia. Num outro relatório da JRF (https://www.jrf.org.uk/report/poverty-and-ethnicity-uk), conclui-se a mesma desproporção. Ou seja, as minorias étnicas são mais pobres, e isto é transversal a praticamente todos os países desenvolvidos, incluindo EUA, UK, França, Itália, Portugal, etc. Se estes não são países racistas, como é que a minorias étnicas têm proporções largamente maiores de pobreza? Porque é que não é equilibrado? É genético? Não pode, caso contrário a tese do post inicial tinha que estar errada.

    As pessoas tendem a focar-se no tipo errado de racismo. Dentro dos movimentos anti-racistas, por exemplo, a consciencialização é tida como o passo necessário para erradicar o racismo do mundo, e eu não podia discordar mais. Considere-se o Darnell, um menino de 11 anos, de um qualquer bairro social, dentro das minorias que abordamos, a viver em Londres. O Darnell tem três irmãos, um mais velho e dois mais novos, sendo que um deles é ainda bebé. O primogénito, adolescente, tem asma, e o terceiro é imunocomprometido. O pai está em parte incerta, presume-se que morto, e portanto as crianças crescem sem figura paternal. Neste bairro o tráfico de droga é assunto corrente e a violência considerada “normal” no dia a dia. A mãe de Darnell trabalha três turnos, em empregos diferentes, e por isso passa a maior parte do tempo fora de casa, sem grande margem para passar tempo com os filhos, tendo fundos para uma babysitter apenas em raras ocasiões. Darnell está a ter os primeiros contactos com a violência em grupo (aquilo que nos EUA se poderia chamar de “gang”, mas que na Europa normalmente se associa de forma diferente), levando a que dê os primeiros passos no mundo da criminalidade. Dentro de alguns meses, poderão estar a usá-lo como passador. A segurança social contribui com 300€ por criança, que chega para a alimentação e alguma roupa, mas não chega para os estudos nem para a medicação. Esse esforço vem dos míseros ordenados da mãe, com o 6º ano de escolaridade, embora gaste a maioria na medicação das crianças e na avó doente. A polícia só entra no bairro para apreensões de droga.

    Pergunto-lhe, quão realista lhe parece este retrato? Se não parece de todo, vá removendo elementos até parecer, e, quando acabar, diga-me de que forma essa realidade se compara com a sua. Mais, o que se espera do Darnell daqui a 20 anos? Que seja um cidadão exemplar? E dos seus filhos que, tendo um pai com provável baixo nível de educação, poderão ter que suportar condições semelhantes? Repare que não há nada na descrição que implique algo que o Darnell tenha feito, o que significa que nada na sua condição social se explica por “más decisões”, ou “falhas de carácter”. Tudo se resume ao seu meio envolvente: um bairro pobre. Só isso justifica a proeminência das doenças, os níveis baixos de educação, a alta criminalidade, a baixa responsabilidade parental, etc. Repare que as opiniões do Constâncio em nada tiveram impacto na realidade do Darnell, e portanto se conclui que a consciencialização não é eficaz.

    Por outras palavras, de que forma é que a consciencialização social melhora as hipóteses de o Darnell entrar na faculdade?

    Note-se que 70% das pessoas que enfrentam este tipo de realidade, em Londres, são das 3 minorias étnicas que eu mencionei, e só essas. 70%… É absolutamente desproporcional. Se o problema não é genético, nem individual, tem que ser coletivo. Se não vem do indivíduo vem de fora, não é inato, e portanto é social e institucional. Ora, como tínhamos visto antes, se a descriminação social existe então o racismo não pode ser individual, o que refuta a sua tese. Eu não quero com isto dizer que o racismo individual não existe, apenas que não é esse que é endémico ou social. É mais grave do que isso. Portugal não é um país racista porque os Portugueses sejam racistas (embora sejam), mas sim porque empurra as minorias étnicas para a pobreza de forma desproporcional. Isto é darwinismo social tácito.

    Por isso as pessoas têm que parar de associar o racismo aos actos isolados deste ou daquele. Se o fizerem, vão entender o porquê de “também vejo racismo contra brancos” não ser válido. Toda a gente sabe que existe racismo (individual) de todas as cores, mas não é esse que é endémico, não é esse que pagamos com os nossos impostos. O racismo que está em discussão é endémico e institucional, e é esse que o BLM quer derrubar.

    Estes bairros sociais (só perto de minha casa, no Porto, existem 3) são fábricas de criminosos, no sentido em que as crianças que lá crescem crescem em ambientes tóxicos que os empurram para a criminalidade. Solução? Usa-se a polícia, prendem-se os criminosos, mas a fábrica continua a produzir. E se em vez disso destruirmos as fábricas? E se em vez disso erradicarmos as diferenças sociais? Ao provirem de ambientes mais saudáveis, talvez as minorias étnicas comecem a ser vistas com outros olhos, com maiores indices de riqueza e menores taxas de criminalidade.

    É contra isto que o BLM luta, não é contra o seu racismo ou o meu, não fosse esse o movimento que destrói os símbolos sociais da opressão das minorias. O argumento de que o racismo é pior nos EUA não é um bom argumento porque isto é uma realidade muito tangível cá também. O racismo começa em cada um de nós, sim, mas a verdadeira mudança, aquela que é fundamental, é estrutural. Precisamos de discriminação positiva para tirar miúdos e graúdos destes ambientes, destruindo-os, para que os seus elementos sejam absorvidos na totalidade. A pobreza e a criminalidade não deixará de existir dentro dessas minorias, mas pelo menos há-de ser proporcional. Repare que todos ganhamos com isto, já que índices de criminalidade mais baixos são melhores para a sociedade como um todo.

  8. O problema de Londres como de muitas outras metrópeles também se deverá ao facto de populações migrantes virem de zonas pobres doutros países e de países sem um sistema social acomodativo! A transversalidade precária comum que se encontra em imigrantes a viverem em diferentes países também se encontra nas camadas sociais autóctones, só que não são diferenciados em termos de origem, religiao ou de cor. Um sistema feroz não poupa ninguém que seja fraco. Observo que na Alemanha, por exemplo muitos turcos que viviam em zonas degradadas das cidades são hoje donos de negócios e de casas enquanto que muitas mulheres e crianças continuam a viver dependentes da assistência social. Não quero defender nada. Apenas estabelecer paralelos para não se discriminar um grupo discriminado fazendo-o à custa de outros grupos que se passam a descriminar. Assim penso ser impróprio o uso da palavra racismo para descrever situações precárias próprias do sistema e da natureza individual aliada à oferta ou falta de oferta de oportunidades. Naturalmente nao podemos também deixar de parte a natureza condicionada e condicionante não nos podendo reservar para nós o lugar de pretendermos ser um melhor Criador, pensando que seria possível separar o trigo da inocência do “joio” da violência do poder ou dos poderosos! O recurso à consciencialização ajuda muito mas não resolve dado não haver uma consciência pura e esta estar sempre condicionada; de facto até os próprios valores se relativizam uns aos outros. O problema com que o Darnell se depara é o mesmo com que se deparavam os pais nas sociedades donde provêem. (Que deveríamos criar uma outra matriz social é um assunto para um outro capítulo e que não se pode tratar aqui também não se trata de branquear o sistema actual). Os 70% das pessoas que enfrentam a realidade do Darnell, nas 3 minorias étnicas têm certamente o mesmo problema que tinham antes de emigrar (estado social, hábitos, tradições, ambiente); naturalmente a sociedade receptora tem grande responsabilidade no assunto mas seria abusivo explicar o estado de vítima de uma pessoa ou grupo apenas com a injustica da sociedade acolhedora que para isso poderá receber o atributo de racista quando na sociedade de envio a situação era aceite como uma questão de “destino”! O problema tem a ver com tudo o que o amigo refere e não apenas com o colectivo e tem também a ver com a dicotomia liberdade-educa-exploracao (A experiência da sociedade de Esparta não deu nem daria bom resultado, embora a educação seja um factor importante em todo o processo de desenvolvimento e de emancipação). Certamente que o darwinismo social é tácito e inerente a todo o processo evolutivo. Onde não há justiça não há paz e no final de contas em nome da paz justifica-se a guerra. É muito triste mas as diferenças sociais existentes devem ser diminuídas mas existirão sempre: essa é a dinâmica evolutiva e também do progressismo. Uma sociedade que quer sempre mais terá de o adquirir à custa de alguém e infelizmente à custa da humanidade ou “humanismo”. É triste mas a natureza que temos e a sociedade que nela decalcamos afirma-se pela diferenca em nome do pluralidade e da evolução, a diferenca por si já fomenta a mudança a que nos deveríamos obrigar; a mudança pela positiva.
    Afinal estamos todos de acordo: acabar com a exploração do homem pelo homem e procurar criar uma sociedade que não se deve reger só pela justiça mas sobretudo pelo amor. O movimento BLM é muito legítimo e necessário para a defesa de certos interesses, como todos os movimentos que se empenham na paz e na defesa dos direitos humanos; o importante é que para se criar um estado justo não se tenha de empregar violência (o que em si já implica também uma contradição); neste caso quem emprega a violência justifica a atitude do sistema que combate e enquanto for menos forte terá de aguentar com a injustica que ao combater também cria. Uma coisa porém é certa, as pessoas individualmente estão condenadas a desaparecerem sem deixarem rasto; só quem se organiza em grupo pode ter oportunidade de se expressar e fazer valer os seus interesses com uma certa sustentabilidade (O rebanho tem de acordar!). Só assim se pode minorar a violência sistémica do Estado e dependentes instituições. Para conseguirmos uma sociedade verdadeiramente mais justa teríamos de criara uma nova matriz mental-político-social-económica…
    Combater o racismo estrutural e o domar o “racismo” inato ao ser humano é uma tarefa de que se ocuparão todas as gerações.
    Um grande abraço

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