APESAR DE NÃO HAVER RAÇAS HUMANAS HÁ E HAVERÁ RACISMO 

 Racismo-discriminação-exploração andam de mãos dadas

António Justo

A divisão dos humanos em raças é refutada pela genética moderna, como declaram zoólogos, investigadores da evolução e geneticistas na Declaração de Jena de 2019 (1). Aí se constata: “O conceito de raça é o resultado do racismo e não a sua condição prévia”. De facto, “não há raças humanas… Nos seres humanos em particular, as maiores diferenças genéticas são encontradas dentro de uma população e não entre populações” … “A cor clara da pele das pessoas no norte da Europa tem menos de 5000 anos “.

Ernst Haeckel (“o Darwin alemão”), fundador da investigação da história tribal contribuiu fatalmente para o “racismo científico” do darwinismo social, através do seu arranjo alegadamente científico de “raças” humanas numa “árvore genealógica”.

Implementou-se uma ideologia que fazia uma leitura da sociedade organizada em grupos de pessoas biologicamente superiores e inferiores.

A aplicação do termo raça aos humanos é enganadora. Isto não significa que não possa haver diferenciação genética ao longo de uma zona geográfica, mas a avaliação taxonómica desta diferenciação (como raça ou subespécie) é arbitrária.

No caso de cães e de macacos, dada a sua diversidade de espécies e características distintivas, aí sim, seria apropriado falar-se de raças.

Quanto aos humanos, não é este o caso porque existe apenas um tipo de humano que povoa a terra desde há muitos milhares de anos.

 A Universidade Friedrich Schiller descobriu que dos 3,2 mil milhões de pares de base do genoma humano, não se encontrou um único par que constitua uma diferença racial. Assim, o conceito de raça, em ligação com a espécie humana, não deveria continuar a ser utilizado futuramente na linguagem exata ou científica.

Racismo, discriminação, exploração e preconceito andam de mãos dadas.

A hierarquização de grupos ou pessoas é um fenómeno que se observa de maneira mais ou menos explícita em cada pessoa. A Declaração de Jena conclui que “a simples eliminação da palavra ‘raça’ da nossa língua não impedirá a intolerância e o racismo”.

A Declaração de Jena de 2019 pretende, certamente, desencorajar explicações raciais para diferenciações coletivas em relação a traços físicos e/ou comportamentais!

Somos todos da mesma espécie. A palavra raça pode ter diferentes interpretações.

Na Alemanha houve e há a proposta de se excluir da Constituição a palavra raça. Penso que, por vezes, a semântica nos continua a preocupar demasiado correndo-se o perigo de ela nos desviar as atenções! O Racismo não é um específico de uma cultura ou civilização. É um vício comum ao humano a ser sanado com o esforço de todos.

Socialmente, racismo continuará a ser a discriminação de indivíduos ou grupos por causa de sua etnia ou cor.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

  • (1) Declaração de Jena em alemão:

https://www.shh.mpg.de/1464864/jenaer-erklaerung

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

2 comentários em “APESAR DE NÃO HAVER RAÇAS HUMANAS HÁ E HAVERÁ RACISMO ”

  1. André Fratelli A biologia (e, consequentemente, a ciência) e a identidade social nem sempre andam de mãos dadas, e os conceitos de “identidade racial” e, por exemplo, “identidade de género”, são exemplos primordiais desse facto. Por isso é importante distinguir raça social de raça biológica. Mas antes de elaborar sobre isso, permitam-me uma pequena divagação.

    Durante a Idade Média, como sabem, a verdade era ditada pela Igreja. A Igreja Católica era vista como a representação de Deus na Terra, e portanto tudo o que a Igreja dizia era verdade, sendo até considerado heresia questionar qualquer posição oficial. Se a Igreja diz que a Terra é plana, então a Terra é plana e pouca letra. Isto foi verdade até ao Renascimento. O Renascimento defendeu a restauração dos valores Clássicos (daí o nome “renascimento”), que ditaram uma profunda reestruturação social e cultural que mudou mentalidades, a estrutura social, as artes e, mais importante para esta discussão, disseminou o método científico.

    É importante perceber isto porque é importante perceber a origem da ciência. Muita gente defende que a Ciência é, hoje, a dona da verdade. No entanto, com o declínio do domínio católico na Europa e o fim da Idade Média, as mentalidades Europeias não se limitaram a trocar um “ditador da verdade” por outro. A mudança foi mais profunda do que isso e, até hoje, a ciência funciona sobre a mesma pedra basilar: ninguém é dono da verdade, nem mesmo a ciência. Ou seja, a ciência foi criada mediante a observação de que nem ela pode ser dona da verdade. E, ao criar um contraste com a mentalidade anterior, isso mudou tudo.

    É daí que vem uma famosa citação de Galileu: “Nas questões da ciência, a autoridade de mil não vale o raciocínio humilde de um único indivíduo”. É isto que, na minha opinião, torna Galileu revolucionário, mais até do que as suas restantes descobertas, como normalmente lhe é favoravelmente creditado. Esta é a pedra basilar do Renascimento e do método científico, e é isto que é importante entender quando a ciência é chamada a resolver questões de verdade.

    Também Nietzsche disse: “Toda a credibilidade, toda a boa consciência, toda a evidência de verdade, vem apenas dos sentidos”. Reparem que a definição de Nietzsche é ainda mais abrangente, englobando não só a racionalidade, mas também os restantes sentidos humanos. Ou seja, mais do que Galileu, Nietzsche acreditava que a verdade pode ser percecionada, o que a torna relativa. Também Maniqueu (séc. III, ou por aí) defendeu que a verdade e os valores humanos fossem binários, como o bem e o mal, o certo e o errado, o verdadeiro e o falso. Esta posição ignora qualquer possibilidade de áreas cinzentas ou a possibilidade de “meias verdades”. Assim, concluímos que “verdade” não é um conceito estático, mas sim algo mutável e ajustável ao longo dos tempos. Isto não deveria ser surpreendente, já que o conceito de “verdade” já era debatido até antes do período clássico.

    Esta divagação prende-se com o argumento nuclear da tese apresentada no post original: se a ciência diz, é porque é, e eu discordo. Ora, eu não quero com isto dizer que discordo dos especialistas, até porque a minha área de estudo está tão longe da biologia que não me atreveria. Acredito, de facto, que a zoologia e a antropologia tenham olhado para o assunto de forma séria e concluído que, do ponto de vista biológico, a segregação racial não faça sentido, e eu fico contente com isso. Discordo que seja uma verdade inabalável, porque tal não existe na ciência, mas não discordo da observação em si.

    O problema é que a ciência é boa para entendermos o funcionamento do universo, para fazermos microchips e para levarmos a Humanidade à Lua, mas é terrível e implacável a fazer juízos de valor. Ou seja, o método científico não preza pela natureza Humana, mas sim pela análise lógica e imparcial de fenómenos naturais. O sexo e a raça biológica, são, mais uma vez, exemplos primordiais disso, e sem dúvida nenhuma que esses são debates para ser deixados ao método científico para resolver.

    A questão primordial é que isto não resolve os problemas sociais de identidade. As pessoas, enquanto indivíduos, aderem a todo o tipo de “verdades identitárias”, que são valores a serem discutidos num contexto social, e não científico. Quando falamos em “raça negra”, não queremos, de nenhuma forma séria, insinuar que estes indivíduos não pertençam à Raça Humana, mas sim que se identificam de uma forma diferente, que lhes é única e característica. Isto tem imensas implicações a nível cultural e identitário, embora nenhumas do ponto de vista biológico.

    Em conclusão, é importante dizer que não podia concordar mais que somos todos da mesma raça, a raça humana, mas fico contente se a ciência se mantiver fora do assunto. A declaração de Jena, como outras que lhe são semelhantes, é uma declaração científica e não social, o que implica que ignora os valores sociais e se foca (como aliás é alegado) exclusivamente na análise genética. Eu acho extraordinário que isto seja conhecido, mas talvez daqui a umas décadas. E porquê? Porque inclusivamente abre azo a argumentos discriminatórios a serem feitos com base na verdade científica, no seguimento de “eu não sou racista porque preto não é raça”. Esta é uma linha argumentativa que não pode ter lugar. A discriminação é real—acho que nisso concordamos—, e portanto não pode ser amenizada com factos científicos, mas sim com discriminação positiva. Na questão de raça, eu acredito piamente que temos que nos dividir antes de nos podermos unir.

    Apesar desta linha argumentativa, note-se que eu prefiro, largamente, os termos “minorias”, “minorias étnicas”, “comunidades despriveligiadas”, entre outros, às expressões relacionadas com raça. Mas também argumento que as duas não estão em contradição. Ou seja, acredito que a identidade racial existe e que deve ser respeitada—mesmo acima da própria biologia—, mas, ao mesmo tempo, que o problema não é restrito às minorias negras, mas sim às várias minorias étnicas desfavorecidas no ocidente e no mundo. Por isso, sintam-se à vontade para abandonar a terminologia racial, mas entendam que essa também tem um lugar—mesmo que debatível—reservado nestas questões.
    André Fratelli

  2. Gostei muito de tão fundada argumentação, coisa rara nos meios de informação em que nos encontramos envolvidos! Segui com satisfação a argumentação que expôs e que possibilita o alargamento de perspectivas individuais. Passo, num ponto ou outro que apresentou, a abordá-lo sob uma outra possível perspetivo.
    Também acho oportuno distinguir o conceito de raça em contexto de discurso social e do conceito de raça em contexto biológico; outrora a política serviu-se do darwinismo social (da biologia) para legitimar o seu intuito político e assim melhor espalhar o seu preconceito. Tratava-se então de tentar basear a crença ideológica política através da fé científica, para um público acrítico; este fenómeno (crença indiferenciada na ciência) continua a ser hoje usado pela política e na praça pública por opinantes em geral, tal como se deu especialmente no século passado!
    O discurso do pensar politicamente correto de hoje enquadra-se no mesmo fenómeno da mundivisão medieval em que o (repetidamente) presente se procura afirmar à custa da minoração ou negação do passado. Cada época tem a sua crença correspondente ao Zeitgeist (mero fenómeno de identificação ou definição); por uma questão identitária e processual cada tempo tem necessidade de uma crença própria: o ponto fraco dela será não se dar conta que usa uma crença que tenta justificar como base na crítica a outra crença, que não poderá compreender por se encontrar deslocado no espaço e no tempo, também ideológico e psicológico.
    A interpretação literal dos textos sagrados (tal como ainda hoje acontece em grande parte no Islão e nalgumas seitas como Testemunhas de Jeová) era usada pelo poder eclesiástico como forma de implementação de uma cultura (autoafirmação) no meio de uma sociedade extremamente dividida. Durante a Idade Média amadureceram as ideias inatas à sociedade religiosa e civil que preparam a mudança de mentalidade no renascimento; de uma maneira geral a crítica surgiu do âmago dessa sociedade.
    Movimentos místicos (doutrina do eu: individualidade) já rivalizavam antes, em termos de verdade com o poder estabelecido da Igreja (doutrina do nós: da comunidade sobre o indivíduo).
    O método científico, destacado no renascimento, ao basear-se já não no princípio da autoridade ou na pura abstração (platonismo) mas no princípio da observação dos fenómenos naturais e de sua comprovação através da experiência chega a novas conclusões que provocam uma nova mundivisão; passa-se em questões científicas naturais a partir já não da fé e de doutrinas, mas de hipóteses e de teorias (o método indutivo ou empírico). Na procura da verdade passa-se do método dedutivo para o indutivo (técnicas quantitativas). A dinâmica passa a ser uma outra: Tese-antítese e verificação experimental, empregando-se o raciocínio dedutivo nas hipóteses que se pretendem comprovar, de maneira a chegar-se aos factos através de leis.
    O método científico pretende a verdade fática (e lógica, uma aprendizagem à posteriori) enquanto a religião procura através de conceitos e de hipóteses gerais (também através da introspeção aprendizagem à priori – acção de conhecer) encontrar a verdade do sentido da vida. (O problema surge no momento em que o método empírico indutivo (de caracter materialista) se arroga o direito de se pronunciar sobre o sentido que é objecto da teologia e da filosofia. Tornar-se-ia alienador querer-se usar o metro padrão para medir realidades metafísicas; o mesmo se diga do vice-versa. São de respeitar os vários métodos ou estratégias de tentativas de abordagem da realidade/verdade.
    A meta do método científico – na sua maneira de investigação e de tomar decisões é diferente da meta da religião. Uma baseia-se em leis e a outra em postulados de fé. Os vários tipos de métodos (indutivo, dedutivo, analítico, sintético, comparativo, dialético, etc.) são coesos em si, mas passíveis de ser usados de manira complementar na abordagem da realidade/verdade por cada disciplina.
    É verdade que o método da ciência ao fundamentar-se na “objetividade” pôs-se em contradição com os clássicos, tal como hoje a física tradicional (macro física) é em certos sectores questionada pela física quântica (microfísica). É um facto que o investigador ao recolher os dados já os influencia, devido ao envolvimento com o objeto de observação.
    Numa sociedade (medieval) em que a afirmação do nós (comunidade) sobre o indivíduo (tal como hoje no Islão e por vezes em instituições e agremiações políticas, religiosas, científicas e sociais) exagerava no sentido de fazer valer a instituição sobre o indivíduo também hoje se pratica o outro extremo em que domina um individualismo e um igualitismo cegos. De notar que nesses tempos se tratava de construir uma identidade europeia!
    A crítica de que a instituição é passível não é legítima em relação à filosofia nem à vivência cristã; de facto em cristianismo a soberania pertence à pessoa (consciência individual) e não à estrutura ou instituição. Já no sec. IX, mesmo na perspectiva institucional, o papa advertia que no caso de conflito entre a moral prescrita pela instituição e a percecionada pela pessoa, seria mais cristão seguir a própria consciência e não a da Instituição (recurso ao subterfúgio da consciência errónea em termos identitários culturais).
    A doutrina revolucionária de que em questões de fé o soberano é a consciência humana, era e é um princípio fundamental da doutrina cristã (Dignidade humana partilhada na filiação divina de cada pessoa que frutificou na dignidade humana hoje também laicamente defendida); os interesses do poder institucional deturpou muitas vezes essa doutrina que por vezes se abrigava nos conventos.
    A famosa citação de Galileu: “Nas questões da ciência, a autoridade de mil não vale o raciocínio humilde de um único indivíduo” tinha a ver com essa doutrina e com uma sociedade que tentava abafar com o argumento de autoridade o que pessoas criativas descobriam na experiência mística ou na análise directa do seu dia a dia. Se os círculos institucionais do poder tivessem em conta a espiritualidade cristã de que em questões de fé o soberano é o indivíduo com a sua consciência que está até sobre os arrazoamentos oficiais eclesiais não teríamos chegado a muitos extremos do poder petrino. O aspecto revolucionário de Galileu também se deve ao facto de surgir num tempo axial em que a flor do indivíduo se afirmava sobre o folhame da sociedade. Acabava-se então a idade do comunitarismo para se iniciar a era do individualismo, em cujos finais nos encontramos.
    O A Afirmação de Nietzsche “Toda a credibilidade, toda a boa consciência, toda a evidência de verdade, vem apenas dos sentidos”, comete um erro ao subjugar a própria racionalidade aos sentidos e deste modo a um materialismo prático de que só vale o saber que é medido pelos sentidos (o fenomenológico) o que tem como consequência um relativismo absoluto que só seria de aceitar, na ordem das coisas, se fosse compreendido no contexto de sentido religioso-místico e da física quântica.
    A verdade é processo, kairos, e como tal de definição provisória. Já Moisés tinha constatado que para a definição da Verdade e do dar um nome a algo se torna necessário entrar numa esfera do mistério (do não meramente objectivável) e por isso à pergunta de uma definição de Deus ou da Verdade (que o povo exigia), Deus no monte Oreb respondeu a Moisés que não pode haver uma resposta objectiva ao dizer que não há nada estável, que tudo é processo: Por isso ao ser solicitado para se definir e assim poder ser apresentado objectivamente ao povo, Deus respondeu “Eu sou o que sou, sou o tornar-se”. O mesmo podemos verificá-lo na procura de dar uma definição por João com a afirmação “no princípio era a palavra, a informação e ela tornou-se carne”…! Já Platão no mito da caverna procura explicar a ilusão de se possuir/definir a realidade/ verdade, ao mostrar-nos que os nossos sentidos só podem ter uma perceção (mundivisão) sombra da realidade. No sentido popular e do discurso do dia a dia as pessoas partem do princípio da realidade/verdade como conceito estático e mecanicista. Que tudo é mutável e a realidade é diferente do que a percecionámos convidando para isso Pedro a aprender a andar sobre as águas. De facto, nem a ciência, nem a filosofia nem a religião podem afirmar que algo “é porque é”. A realidade é uma mistura de mistério e de matéria aparentemente bruta.
    Como procurei apresentar, na plataforma onde nos encontramos, também afirmo que não há verdades inalienáveis porque tudo é processo (isso também pode ser visto no artigo) e se a ciência se ocupa do funcionamento do processo fenomenológico é muito natural que outras ciências se ocupem do sentido desse processo e do sentido da vida individual e social e isto não pode ser descartado pelas ciências naturais. Umas e outras são complementares numa realidade a-perspectiva mas que só pode ser abordada perspectivamente.
    A verdade científica é também eu processo e por isso mesmo, na qualidade de verdadeira ciência só se pronuncia no âmbito do seu campo experimental.
    O pressuposto “eu não sou racista porque preto não é raça” seria curto porque implicaria uma autodefinição consequente de um atributo redutor. Em relação ao racismo, como disse no artigo, ele deve ser reconhecido como característica de cada pessoa e numa situação carente de definição ou de pertença identitária surgem aberrações indignas do definidor e do definido.
    Há movimentos racistas e antirracistas que também fazem uso da vã ideia do darwinismo social julgando-se superiores aos que eles combatem.

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