BENTO XVI – O HOMEM CORAJOSO DA EUROPA

“O sangue não agrada a Deus”

A lição universitária pronunciada na universidade de Ratisbona (Regensburg) sob o tema “relação entre razão e fé” ficará na história e iniciará um período de maior coragem e transparência no diálogo intercultural.
O mundo precisa urgentemente duma resposta à questão: qual é a posição do Islão em relação à paz? O Papa está interessado num diálogo sério que aposte na conciliação de razão e religião, na complementaridade de ciências humanas e de ciências naturais. Também não chega que a Europa se limite a viver duma indústria de opiniões que abusa da liberdade de opinião. Por isso coloca a sua argumentação a um nível histórico-teológico na tentativa duma discussão clarificadora das diferenças e do que é comum às religiões e às culturas. Ele pretende com isto provocar um repúdio geral duma motivação religiosa da violência por parte de todos os dignitários de todas as religiões. Para isso necessita-se dum instrumento válido comum a todos, a razão, o logos.
O mundo e a Europa cada vez se tornam mais reféns dum terrorismo que se legitima religiosamente. Por outro lado os representantes religiosos não tomam posição contra a violência. À sombra desta vive muita gente poderosa sem escrúpulos sem se preocuparem com destinos individuais e de povos nem com o desenvolvimento histórico. Para a construção duma sociedade do futuro não é suficiente apostar só na lei natural e na estratégia do silêncio sobre a guerra santa e a violência. Através da história, a violência tem sido encarada como meio legítimo para se afirmar e dominar! Dos bons não reza a história…
O mundo islâmico radical sente-se provocado por um modernismo demasiado grego que o contradiz na essência e o paralisa. Assim, na sua acção prefere continuar a estratégia de expansão para o exterior através da aquisição de direitos e de sabotagem e de bloqueio interior. Segundo ele o modernismo seguido nos países de cultura cristã tornou-se no exemplo de como uma cultura se autodestrói. Preferem o homem açaimado à cultura fechada passando ao repúdio incondicional do individualismo diletante da cultura aberta ocidental e do seu materialismo. Aqui enfrentam-se dois parâmetros imperfeitos e auto-suficientes sem perspectivas de encontro. Por outro lado o mundo ocidental encontra-se em crise, sem saber o que quer nem para onde vai. O problema demográfico europeu leva-nos à situação do império romano entre o século III e V.
Em momentos de crise o Papado revelou-se como defensor da Europa no seu todo. Se antigamente eram as rivalidades senhoriais e de nações que punham em perigo a Europa hoje são as rivalidades ideológicas fechadas nelas mesmas, os egoismos e a consequente crise de identidade. A Europa, inconsciente e esbanjadora dos seus recursos culturais vive já dos rendimentos e não tem energia nem autoridade para dar resposta às questões e aos problemas colocados pela sociedade islâmica com uma grande espiritualidade e vitalidade.
A reacção do mundo ocidental ao mundo muçulmano tem-se situado entre perplexidade, ignorância e descrédito. Este expande no meio daquele e impõe-lhe os seus costumes. Em contrapartida na Turquia e no mundo islâmico as outras culturas são totalmente discriminadas segundo a divisa: em casa assimilamos e no estrangeiro construímos gettos. Sabem o que querem e não se deixam comprar, na consciência de que o futuro está do seu lado. Vivem com Deus na consciência de que quem O respeita se respeita a si próprio porque Este no idiário cultural é o próprio reflexo, o alter-ego de pessoas e culturas… No Ocidente a indiferença e o egoísmo pôs tudo à disposição em troca do Mamon; estamos de volta aos tempos bárbaros… Se o Ocidente tem dominado com a força económica e militar o Islão dominará com a sua força religiosa e com a consciência de “povo”. Ambos terão um denominador comum, não o respeito mas o medo. O Islão sabe que não é respeitado, que a sua presença se torna constante no medo que já reina em toda a Europa. Se outrora a sua melhor arma eram os cavalos hoje é o medo.
Se é verdade que a aceitação da liberdade religiosa e do pluralismo é algo que as religiões têm de aprender também é verdade que o secularismo não se pode apenas afirmar na incriminação das religiões.
Em geral no Islão a discussão teológica não é conhecida. A discussão teológica sobre o Corão e sobre Maomé é mesmo proibida. Maomé e o Corão são declarados tabus bem como a sua análise histórico-cultural crítica. Mais que teólogos são juristas com as suas escolas de interpretação própria. Deus enlibrou-se no Corão e a única coisa que há a fazer é discutir a aplicação e as tradições, isto é pode-se falar sobre ética e política familiar, etc., isto porém no sector do direito islâmico, da scharia.
A ignorância crassa é constrangedora no que toca à discussão pública sobre as religiões e na maneira como agora se distorce a realidade dum discurso papal sem conhecimento do documento. Só interessam títulos de jornais, o resto é preenchido pela fértil fantasia superficial. O stress dos jornalistas não lhes permite mais que a leitura duma página DIN4.
Naturalmente que as ameaças infundadas do mundo islâmico não se fizeram esperar com ataques incendiários a igrejas, assassínio duma freira e seu assistente num hospital na Somália, o propagado “ataque ao Vaticano” pelo grupo terrorista “Armada dos Mudschahedin” do Iraque, sindicalistas na Turquia, etc. A reacção só vem dar razão ao discurso do Papa. A sua aula universitária era dirigida àqueles que apelam à violência e àqueles que não têm coragem de iniciar uma discussão séria para lá da hipocrisia e do oportunismo que tem dominado nas relações inter-culturais entre os contraentes. Ele queria iniciar “um diálogo sério e aberto no respeito mútuo”. Naturalmente que uma leitura completa do documento e a discussão séria viria perturbar aqueles que dum lado e do outro esperam mais da força da violência do que da força dos argumentos. Não querem passar à análise dos factos e das doutrinas e preferem ficar-se pela censura e na irracionalidade dos preconceitos.
Na sua aula académica na universidade de Ratisbona sobre a relação entre razão e fé, Bento XVI começa o seu discurso com uma citação marginal do Imperador Manuel II em 1391 em que este discute com um intelectual da Pérsia sobre a Guerra Santa (Dschiadd): O Papa refere que o Imperador estava interessado na questão central da relação entre fé e Violência e não apenas na discussão entre o diferente trato entre crentes (monoteístas) e infiéis e por isso na sua argumentação terá partido da Sura 2, 256 do Corão que diz “não haja coacção em questões da fé” , uma das suras mais antigas do tempo em que Maomé ainda se “encontrava numa situação de impotência e ameaçado” e por outro lado o imperador sabia que mais tarde foram introduzidas no Corão as determinações sobre a “guerra santa” passando por isso directamente ao problema da questão da relação entre religião e violência, afirmando de maneira rude “mostra-me, o que é que Maomé trouxe de novo, e aí só encontrarás coisas más e desumanas, ao pregar e prescrever o espalhar a fé através da espada”. O imperador continuou argumentando que o espalhar a fé com violência era absurdo e que essa fé se torna uma contradição e afirma: “Ela está em contradição com o ser de Deus e com o ser da alma”… “O sangue não agrada a Deus” e “não agir segundo a razão é contrário ao ser de Deus”…”Quem quiser levar alguém à fé precisa da capacidade de falar bem e dum pensar justo e não de violência e ameaças”…E Bento XVI continua a sua aula e diz “a frase decisiva da argumentação contra a conversão pela violência é: central no diálogo citado: “A frase decisiva nesta argumentação contra a conversão pela violência é: “Não agir segundo a razão é contrário ao ser (natureza) de Deus”. O Papa quer um diálogo sério entre as religiões e as ciências e para isso precisa-se do instrumento comum da razão. Bento XVI cita o Professor Theodore Khoury de Munster que afirma que para o imperador, um bizantino crescido com a filosofia grega isto é evidente, para a doutrina islâmica esta frase não é evidente porque “para o Islão Deus é absolutamente transcendente e a sua vontade não está ligada a nenhuma das nossas categorias nem mesmo a da racionalidade”.
Nesta aula Bento XVI tira a legitimação religiosa aos islamistas, o que os representantes do Islão não fazem.
Por outro lado o Santo Padre ao questionar algumas determinações do Corão sobre a “Guerra Santa” coloca indirectamente a questão se o Islão poderá conciliar fé e razão.
O Papa pretende que a discussão sobre o diálogo das religiões se inicie a sério a nível intelectual e académico dado que a que a política por questões óbvias só tem estado interessada em fazer das religiões uma papa-açorda e em instrumentalizá-las para os seus fins.

António da Cunha Duarte Justo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

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