FESTIVAL DA EUROVISÃO 2018 – UM MODELO PARA OS PAÍSES LUSÓFONOS

Até um Festival VisãoLusofonia

António Justo

Sob o mote «Todos a bordo!» realizou-se o festival (eurovision Song Contest 12.05.2018) perante um público presencial de 11.000 pessoas e muitos milhões de telespectadores dos 43 países participantes. Portugal está de parabéns! No Festival mostrou as suas capacidades e enriqueceu o mundo com a sua maneira de celebrara vida como festa!

Venceu Israel (esta é a quarta vez que vence), com a canção «Toy» interpretada por Netta. A artista soube, de maneira diferente, fazer valer a diferença transmitindo, ao mesmo tempo, a mensagem de que as mulheres não são nenhum brinquedo nas mãos dos homens. O que sobressai pela diferença, foi uma das características que se afirmou na memória dos países ao distribuírem os pontos pelas 26 apresentações de artistas. A canção de Cláudia Pascoal, com a sua digressão ao jardim da avó, não favorecia o espalhafato das emoções, o que levou ao incómodo último lugar, o lugar 26 na qualificação.

Apesar dos favoritos Suécia, França, República Checa, Noruega e Estónia, os três primeiros lugares vencedores foram para Israel, Chipre e Áustria. O 4° lugar, conseguido por Schulte, para a Alemanha, com a balada “Deixas-me andar sozinho”, dedicada ao falecido pai, mostra que o festival também tem espaço para cenários menos pirotécnicos.

A organização do espectáculo e sua a execução revela alto profissionalismo e competência.  Sem fogo de artifício, foi espectacular a encenação inicial do espetáculo e as intervenções musicais que se seguiram à competição.

Numa ética do pensar a partir do nós, da canção “Amar pelos dois”, diria, numa mística lusitana, foi expresso o espírito universal e profundo do que significa lusofonia, numa simbiose lusófona de Salvador Sobral e Caetano Veloso, com o pianista Júlio Resende. 

Em contraposição a uma música tecnocrata, a alma lusa lá estava a dar corpo à Europa, tal como o fez com D. Henrique e os Descobrimentos.

Um Projecto para um Festival da Lusovisão?

Lusovisão poderia tornar-se num projecto dos países lusófonos com potencialidades para fomentar os ‘biótopos’ culturais dos diferentes países/regiões no sentido de se institucionalizar a diversidade das culturas num todo feito de complementaridades.

A criação de um canal de Lusovisão comum, comparticipada pelos diferentes países lusófonos, poderia tornar-se num segundo ou terceiro canal de cada país, dedicado inteiramente à cultura e à arte na CPLP (todos os falantes de português e suas variantes: Angola, Brasil, Cabo Verde, Galiza, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Goa, Damão e Diu e outras comunidades falantes).

Na sequência da criação de um canal de Lusovisão, seria natural ter-se o Festival da Eurovisão como modelo para um projecto de Festival LusoVisão a criar-se na comunidade de língua portuguesa.

A canção das lusitanidades seria um festival de arte e cultura onde a diversidade unida tornaria uma alma forte a afirmar-se na concorrência das civilizações; juntaria sinergias diversas e poderia tornar-se também numa reacção correctora de uma globalização sem coração e num antídoto contra a uniformização cultural em via. Seria um ensejo para proteger o cariz humano e feminino, proteger a província, à nossa maneira, contra a metropolização ou monopolização cultural.

De facto, ao contrário da francofonia, que tem como base um conceito político, a lusofonia tem como base um conceito linguístico e cultural e como tal deveria criar o seu lugar de expressão e de encontro a esse nível.

Particularmente, cada nação carece de capacidade para se defender na concorrência com uma cultura latifundiária… A defesa de uma certa sustentabilidade local só poderá ser eficiente se se servir de supraestruturas em que o regional seja guardado sem, contudo, esquecer as leis da evolução que se resumem na selecção e domínio pelo mais forte ou na colaboração dos mais fracos para se defenderem e afirmarem juntos. Um tal projecto seria um contributo na defesa da sobrevivência das regiões e dos “biótopos” ecológico-culturais, sem ter de perder o comboio da História; o futuro será de quem se antecipa; o que fez Portugal com a iniciação dos descobrimentos (dando novos mundos ao mundo) seria hoje a missão dos países lusófonos. Um país, um espaço intercultural só terá sucesso se tiver uma missão à frente e tiver consciência de a querer cumprir.

Para isso há que meter mãos à obra e conservar a tensão da unidade na diversidade num universo de culturas e paisagens, todas elas complectivas.

A Lusofonia, de espírito humanista global católico e de alma honesta e transparente encontra-se já a deslizar no coração de todos nós, mas, para aparecer, terá de ser construída numa multiplicidade de eus a partir do nós.

Vamos todos antecipar o futuro, começando não só a nível de associações, mas também a nível universitário, administrativo e de organizações económico-comerciais, como propunha em 2012!

Chegou a hora de construirmos uma cultura arco-íris contra a monocromia em via.

Pessoalmente, na minha retina, do Festival, o que mais ficou e mais profundamente me tocou  foi a nova canção do S. Sobral. Ficou a satisfação de um Portugal a exercitar-se e a projetar-se num mundo que apesar das muitas luzes se revela bastante opaco. Do festival como tipicamente português fica a festa e o aviso de se redescobrir a ele para poder voltar a enriquecer o mundo de forma qualitativa!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

DIREITOS CULTURAIS CONTESTAM DIREITOS HUMANOS NA ALEMANHA

Administração permite poligamia a refugiados e proíbe-a a alemães

António Justo

No Município de Montabaur foi reconhecido asilo a um sírio (refugiado) com quatro mulheres e 23 filhos. Antes as mulheres viviam em diferentes cidades da Síria em casas do marido. A lei do reagrupamento familiar concede também aos refugiados o direito a mandar vir a família. O problema começa, porém, com a definição do modelo de família.

O islão permite ao homem possuir até quatro mulheres e um número arbitrário de escravas, desde que o homem as possa manter.

Devido aos protestos de cidadãos alemães que se sentem discriminados pela lei alemã, as autoridades responderam:” A legalidade de um casamento é regida exclusivamente pela lei do país em que foi concluída. E na Síria, os homens podem ter até quatro mulheres.”

Casos como este dificultam a compreensão para a integração de muitos refugiados até porque, naquela família, os membros masculinos impediam as meninas de frequentar a escola. Surgiram outros problemas como se relata aqui, (1) no jornal “Rhein Zeitung”.

Também em Schleswig-Holstein, no distrito de Pinneberg, um refugiado da Síria, que vive na Alemanha com sua esposa desde 2015, conseguiu que os 4 filhos da segunda mulher viessem para a Alemanha e recebeu agora a permissão para que a sua segunda esposa se venha juntar a ele (2). As autoridades disseram que agiram no “interesse das crianças” e certamente também no interesse do islão. A Constituição alemã, no artigo 3, diz: “Todos têm direito à vida, à liberdade e à segurança”. Segundo a lógica, também o casamento de homens com crianças será permitido, dado isso ser da competência do país onde se realiza o casamento!

 

O Estado negligência os seus deveres perante a própria cultura

Nas situações descritas observa-se um conflito entre a defesa de interesses individuais e a defesa de direitos culturais e, por outro lado o confronto entre direitos culturais de uma nacionalidade em relação à outra. São confundidos interesses de pessoas com os interesses das suas organizações contribuindo-se para situações discriminatórias quer para a sociedade maioritária quer para a minoritária. Na discussão pública confunde-se a defesa de interesses culturais com a defesa de direitos individuais. Isto leva aos mesmos preconceitos como a discussão se o islão pertence à Alemanha e se o cristianismo pertenceria à Turquia em vez de se respeitar a liberdade de religião apesar das diferentes estratégias de autoafirmação entre elas.

O regime político europeu tem negligenciado uma política do equilíbrio e da defesa dos direitos humanos também dentro dos grupos muçulmanos (a mulher é desprotegida e mantida na qualidade de pessoa subjugada ao homem!).

Para legitimar o negócio das armas e para dar resposta ao envelhecimento da população europeia a classe política tem em conta a desvalorização de valores humanos europeus e negligencia o aspecto da bilateralidade nas relações interculturais. O Estado, ao permitir, no seu território, a imposição de direitos culturais contra direitos humanos, esvazia necessariamente os direitos culturais europeus (baseados nos direitos individuais humanos) e deste modo favorecer a cultura muçulmana (baseada no seu direito cultural sobre o indivíduo) contra a cultura europeia!

Dado os estados de maioria muçulmana se definirem sobretudo pela religião, os estados europeus, embora provenientes da cultura cristã (nela inculturada gregos, romanos, judeus e bárbaros), ao incluírem nas suas relações com outras culturas apenas o aspecto económico e político (comércio de produtos) criam um vazio cultural na sociedade maioritária, proporcionando assim um clima de desconfiança entre os diferentes grupos populacionais.  Em nome da religião, uma cultura hegemónica pode afirmar-se contra uma cultura aberta e permissiva. Este dilema não encontra suficiente interesse político. Assim no povo europeu surge cada vez mais uma consciência antissistema político, como reacção a uma política liberalista de anticultura ocidental. A classe política não tem a coragem de dizer ao povo que o que lhe interessa é a conquista camuflada, o negócio, a venda de armas legitimadoras dos seus interesses apostados nos países queridos de guerra e por isso têm a obrigação moral de receber aquele povo que procura fugir do fogo das armas e dos interesses cruzados de grupos e elites organizados de cá e de lá.  

Integração
Fala-se muito de integração, mas grande parte dos turcos que se encontram na Alemanha, há várias dezenas de anos, provam o contrário de tais esperanças. Há muitos turcos a viver na Alemanha na segunda e terceira geração convictos que se tocarem numa mulher e ela tiver a menstruação, se tornam impuros. Ainda hoje noticiou um jornal (HNA) que, um polícia muçulmano da Renânia Palatinado, foi condenado a pagar 1000 euros de multa por ter recusado o aperto de mão, por razões religiosas, a uma colega polícia (justifica religiosamente a discriminação).   E depois, os políticos perguntam-se da razão por que o AfD é cada vez mais eleito! Também aqui se organiza uma discussão pública hipócrita dos a favor e dos contra, que se contentam no combate de posições ideológicas também elas abafadoras do que realmente se passa e em vez de analisarem profundamente as questões no sentido de abolir discriminação, fortalecem com a sua posição pro e contra o status quo de injustiças cometidas para com as minorias e para com as maiorias.

Fomento do tráfico de mulheres e de casamentos fora da Europa

O facto de haver liberdade religiosa e o Corão permitir a poligamia, (excepcionalmente permitida na Administração alemã,) a prática alemã incrementa o tráfico de noivas e os casamentos em países islâmicos! O islão permite a poligamia, mas a Alemanha, mais atenta à dignidade e aos direitos da mulher, até a bigamia proíbe para os alemães.

Discriminação factual da mulher

Isto torna-se num busílis, pois o governo alemão, com a sua prática, torna-se cúmplice de ajuda à bigamia e, indirectamente, legitima a inferioridade legal da mulher na sociedade islâmica; esta não permite à mulher ter familiar e socialmente os mesmos direitos que o homem! Por outro lado fomenta  o hábito de muitos turcos irem buscar as suas noivas à Turquia. Com a sua prática a classe política põe em causa os valores da dignidade humana transportados pela civilização judaico-cristã. Esquece que a laicidade e a secularização fazem parte integrante da cristandade, ao contrário do que acontece com o islão.

Temos assim uma sociedade de duas justiças; na mesma sociedade temos uns a quem é permitida a poligamia e outros condenados a pena de prisão se a praticarem. Casar com duas ou mais mulheres também seria um privilégio masculino que muitos másculos alemães quereriam para si. Ou será que terão de se tornar muçulmanos e casar num país onde a sharia seja reconhecida, para adquirirem tão torto direito?

Exige a o governo alemão, por uma razão de bilateralidade, que os países muçulmanos reconheçam o casamento gay de uniões de homens estrangeiros? Porque é que o direito dos países que seguem o direito muçulmano (sharia) não permite às mulheres terem também elas vários homens! Ou será que a mulher só interessa em vista da procriação e consequente expansão?

Independente da liberdade ser mais ou menos masculina, a sociedade europeia, cada vez tem mais problemas, por usar dois pesos e duas medidas.

Encontramo-nos numa situação em que, no mesmo Estado europeu, são permitidos direitos culturais contra direitos humanos e consequentemente a desigualdade de trato do homem e da mulher perante a lei. Ou será que uma política fomentadora de homens másculos quer conseguir, através da via travessa do Islão, voltar às regalias patriarcais da antiguidade?!

A Europa quer importar pessoas, mas estas são muçulmanas e trazem consigo costumes, mesquitas enquanto que o Estados europeus, pelo facto de não serem religiosos e menosprezaram o aspecto ético, não salvaguardam o direito do seu povo religioso poder manifestar-se igualmente em religião com direito a construcção de igrejas nos países muçulmanos.  

As perspectivas mudam-se através da maciez da classe política e da bengala do Islão!!!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

POR QUE TÊM OS ANIMAIS DE SOFRER TANTO?

 

Negócio com peles arrancadas à dor de animais: Cães Marta

Por António Justo

Segundo o Süddeutsche Zeitung as vendas anuais de peles na Alemanha atingem 1 bilhão de euros.

As peles que antes eram usadas como meio de sobrevivência contra o frio transformaram-se, em parte, em produtos de luxo para alimentar a vaidade. O problema não será aqui a ostentação, mas sim o sofrimento dos animais. Há muito animal que é criado apenas com a finalidade de ser abatido para se lhe extrair a peles.

Isto provoca escândalo: o que para uns é luxo, para outros é crueldade contra os animais.

A China produz por ano 35 milhões de peles de marta, a Rússia produz 1,9 milhões e os USA e Canadá produzem 7,5 milhões. A China é o maior importador de peles para alimentar o seu sector de manufactura e o principal exportador mundial de peles para fabricação. Na China também floresce a indústria de peles de cães e de gatos.

Só na China avalia-se em várias dezenas de milhões de animais que são mortos por causa da sua pele. Cães marta são muitas vezes esfolados vivos e, na Europa, muitas vezes, as peles em vez de serem designadas de “cães marta” são designadas incorrectamente de “raccoon dog” dado os guaxinins (raccoon) serem em muitos lados uma praga e assim se enrola melhor a consciência do comprador! 15% dos animais utilizados para extração de pele são caçados diretamente na natureza ou com armadilhas. Grande parte das peles utilizadas pela indústria de peles são provenientes de animais criados em cativeiros, nas fazendas de peles. A esfola da pele do animal é feita muitas vezes nele ainda vivo, porque enquanto quente é mais fácil o trabalho.

A cooperação internacional de protecção de animais protestam contra a federação de comércio de peles “Fur Trade Federation; no documento “Facts on Fur”,” admoesta que na Alemanha 51% dos produtos com peles não se encontram correctamente designados nem diferenciadas nas etiquetas de venda. Na Grã-Bretanha chegam a ser 93%.

O direito de um animal a ter uma vida conforme à sua espécie e ao bem-estar animal, encontra-se ainda em tempos primitivos.

Peles de cachorro chegam a ser mais baratas do que peles artificiais.

A indústria e comércio de peles conseguiu recuperar terreno e aumentar a comercialização, fazendo misturas de peles com seda, couro etc. e empregando cores.

A crueldade praticada em massa com os animais é devida a ignorância, superstição e ganância de ganho.

É recomendado comprar-se só peles que tenham o rótulo “Origin Assured” (Origem Garantida) que garante que a pele é originária de países que cuidam do bem-estar de animais de peles e que têm normas para sua defesa.  

O governo norueguês anunciou até 2025 acabar com todas as fazendas de animais de peles. Na Alemanha ainda há duas.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo,

CAÇA ÀS BRUXAS NO NOSSO TEMPO!

A Imbecilidade é trunfo: aqui e lá

Em Papua-Nova Guiné, mulheres inocentes, chamadas bruxas más (Sangumas) são perseguidas, torturadas e até queimadas publicamente nas praças das aldeias.

Naturalmente não há só bruxas! Na Arábia Saudita, a perseguição é legal: em 2007, um farmacêutico egípcio foi executado por supostamente ter tentando dividir um casal através de feitiçaria, como regista um relatório da organização de direitos humanos Human Rights Watch. Já em 2011, foram condenadas à morte73 pessoas por motivos semelhantes.

Em muitos lugares, especialmente no Congo e Nigéria a bestialidade encontra-se em casa. Na capital congolesa de Kinshasa, 25 mil crianças são apelidadas de filhas de bruxa (“Bana bandoki”) e são obrigadas a viver nas ruas.

A guerra contra a humanidade vence aqui e lá!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo,

CHAMADOS A SER BONS SEM TERMOS DE SER OS MELHORES

Reflexão sobre amar e ser amado entre egoísmo e altruísmo

Por António Justo

Se fores capaz de transmitir a alguém o sentimento de ser amado, de ser considerado e ser aceite, ele acreditará em si mesmo e a sua autoconfiança fará milagres.

O eu faz parte do nós e o nós expressa o encontro com o tu que leva ao reconhecimento do eu como relação em torno do amor.

O egoísmo está presente em todo o ser humano; faz parte da energia que conduz à identificação e à diversidade. Egoísmo e altruísmo são atitudes que se requerem em certo equilíbrio.

 

Na nossa vida do dia-a-dia verificamos que amar alguém, gostar de uma coisa ou de um ideal implica entrega e que fazer algo ou dedicar-se a alguém, desinteressadamente, traz consigo a consciência de que o serviço prestado, reverte também em benefício de si mesmo sem ter sido pretendido. A alegria, que se proporciona a outrem, recebe-se de volta, na ressonância de uma satisfação comum. Isto implica altruísmo, mas sem auto-negação.

A necessidade de identificação, de reconhecimento e o grau de narcisismo próprio levam-nos a navegar entre amor próprio, auto-negação e amor autêntico a si mesmo

A consideração pelos outros (altruísmo) é saudável se não se realiza à custa do próprio bem-estar. Sofrer ou tortura-se para que alguém se sinta feliz, a ponto de desconsiderar as próprias necessidades e de não considerar os próprios limites, leva uma pessoa a não se dar conta de si nem dos próprios sinais psíquicos nem físicos que, não tomados a sério, acabam em doenças. A natureza vive do esforço individual e comum, no respeito pelas necessidades de cada um. Sem entrega nem esforço não há transformação nem desenvolvimento. A vida define-se como relação aberta na procura de autonomia individual. Geralmente a energia mais acentuada é o egoísmo.

Dá-se desrespeito e autoexploração quando se exagera no altruísmo por razões de perfeccionismo ou excesso de ênfase no dar resposta ao que outros esperam de nós. Muitos tornam-se vítimas das espectativas dos outros e aquela energia positiva despendida, que deveria provocar satisfação, torna-se em incómodo por ter sido tirada à custa da própria substância e não do que transbordava dela.

O oposto destas atitudes e comportamentos (egoísmo exacerbado) acontece num outro tipo de pessoas que estão tão fascinadas de si mesmas (narcisismo) que só veem o mundo e os outros na própria perspectiva, crivando a realidade pelos próprios interesses; o narcisista ama a imagem de si mesmo a ponto de viver enamorado do seu ego. A falta de reflexão e a inexistente sintonia/compaixão com o outro leva o/a narcisista a não notar as necessidades do outro e a viver num mundo infantil, no ego de príncipes encantados.

Auto-obsessão no amor próprio

Para se poder avaliar do grau doentio do amor próprio (grau de narcisismo) há que observar critérios patológicos como egocentrismo, sentimento de superioridade, auto-obsessão, falta de empatia, forte susceptibilidade (expressa no conto “A Princesa e a Ervilha), desvalorização e exploração de outros.

Por trás do fanatismo também se encontra sempre narcisismo e um sentimento de inferioridade a querer ser compensado. Nele o ego é tão embalonado que sobe sem reconhecer o próximo (ou usa-o como pretexto ao serviço da sua ilusão); geralmente vive centrado na mente e só se identifica com algo longínquo que o ultrapassa, embora reprogramado no próprio ego. Orienta-se por slogans que ele próprio escolheu, conferindo-se assim um sentimento de soberania e de poder.

A sociedade ocidental é cada vez mais narcisista. O narcisismo é um amor próprio aparente; na realidade está preso a sensações de inferioridade e falta de amor próprio equilibrado.

Todo o narcisismo é egoísta, mas nem todo o egoísta é um narcisista. O ego (amor próprio doentio) manifesta-se sob três tendências: possuir, dominar e/ou querer ter valor (ser importante). Se uma destas três características tiver um valor acentuado então poder-se-ia falar de egoísmo sublinhado.

“Nunca me ligavam” – A falta de autoconfiança – Fuga a si mesmo

A tendência egoísta, se demasiadamente acentuada, é sintoma de carência afectiva e falta de empatia; provem de um buraco na personalidade, que poderá vir da falta de apreciação na infância (a experiência inconsciente do “nunca me ligaram” ou de uma infância do “laissez faire” onde tudo lhe foi removido do caminho; sem necessidade de enfrentar obstáculos não teve ocasião de se situar, nem de criar raízes estáveis de relação. Então fica pela vida fora uma falta de autoconsciência que se compensa e sacia na realização automatista de um programa desastroso outrora aprendido e internalizado.

Esta programação inconsciente provém de um sentimento internalizado do ” Eu não sou Ok”, “Eu não tenho valor”, “não sou bem-vindo”, “Não sou suficiente”, etc. Tanta criança arma teatro e até dança em torno dos pais e dos educadores, tal como o gato ao encostar-se às pernas do dono, mas sem conseguir obter a atenção e dedicação devidas porque o adulto, no momento, se encontra fechado nele, alheado no seu mundo de pensamentos, longe da situação; encontra-se a viver um outro filme, num outro mundo que não é o seu, nem o da criança…

Esta amarga experiência infantil, somada a muitas outras, cria um buraco na alma daquela personalidade que passa a ter a necessidade de se destacar perante os outros – tem a necessidade de ser em tudo super, para poder sentir-se aceite e amada; nessa necessidade, mendiga agora a atenção que não teve e, em consequência disso, é incapaz de se definir por si mesma, de descansar em si mesma e de fazer as pazes também com os próprios defeitos.

Foi programada por alguém tipo árvore frondosa que não deixa vingar nada debaixo dela nem a seu lado, (talvez por alguém com trastorno limite de personalidade – narcisista-borderline), que faz da criança uma escrava ao serviço da sua vaidade. Conheci tais pessoas que só viam os outros em função delas e isto chegava ao extremo de abusar da criança que quando chamada, sistematicamente, tinha de deixar tudo imediatamente e correr, sem ter direito ao tempo dela, sem um momento de pausa para se dar conta do próprio existir e das próprias necessidades (nela passou a existir as necessidades dos outros): o pai/mãe chamou, sem respeito pelo que a criança estava a fazer, e a criança ficou automaticamente comprometida com a vontade alheia; aprendeu a responder às necessidades do outro sem ter em conta a própria necessidade, passando a ser uma estrutura  interrompida; a criança não teve tempo para construir a autoconfiança que vem da capacidade de dar resposta a si mesma e aos outros num ambiente de amor,  consideração e aceitação. Agora, como adulta continua a responder à necessidade de ser perfeita ou de parecer perfeita.

Como vivemos numa sociedade de apelo ao narcisismo, a sua tendência para a auto-optimização, de ser cada vez mais bonita, melhor e de subir mais alto, leva-a, ainda mais, a viver fora dela. A consequência pode ser o desenvolvimento de uma personalidade com uma atitude desafiadora e intolerante para consigo e para com os outros (ou uma pessoa sempre a correr atrás de gurus narcisistas porque a sabedoria interior foi perturbada).

Muitas vezes, pessoas estruturadas desta maneira são condicionadas a procurar compensar o buraco psíquico com o perfeccionismo ou com um sentimento insaciável da necessidade de produzir sempre mais e melhor; nunca se sentem satisfeitas com o que fazem porque uma força internalizada lhes diz que, para serem boas, têm de ser melhores e produzir mais para serem aceites pelos outros!  Sentem-se sempre incompletas; e como o stress não resolve problemas acumulam ainda outras inconveniências.

Amor próprio equilibrado entre egoísmo e altruísmo

Nem mais nem menos: “Ama o próximo como a ti mesmo”, adverte o Evangelho! O pressuposto para se amar verdadeiramente o próximo prevê primeiro o amor a si mesmo.

 Se nos observamos bem a nós e ao mundo, notaremos que tudo é relação (relacionamento parentesco). Sem um tu não há um eu e sem um eu não há um tu e só no reconhecimento recíproco se dá lugar ao nós.

Nos polos equilibrados, do egoísmo (amor a si mesmo) e do altruísmo (amor ao próximo), gera-se a sintonia/compaixão (em termos religiosos, a caridade) sem tirar a responsabilidade ao outro nem a liberdade a si mesmo. O verdadeiro altruísta não se satisfaz com o resultado do seu bem-fazer porque sente a legítima satisfação da relação com o outro na gratidão e na alegria que dimana no todo.

O Homem não pode ser apenas um fim em si nem sequer um meio para a finalidade dos outros. Através do próximo chegamos à consciência do eu que é o encontro das relações. Em torno da palavra eu se forma o Homem e a humanidade na consciência de serem identidade em processo e a caminho de uma meta que não é o colectivismo, mas a comunidade, à imagem da fórmula trinitária onde o eu pessoal e o nós se reúnem e expressam em pessoa.

Se no nosso interior há tempestade não é saudável compensar o desequilíbrio da alta ou baixa pressão em nós, mediante a abertura de um ventículo para o exterior, uma adição; esta pode substituir o sintoma por algum tempo, mas volta imprevistamente. Primeiro há que alcançar a bonomia, a bonança dentro de nós para que a nossa acção se torne benéfica ad intra e ad extra. Uma certa tensão é sempre necessária douto modo a vida tornar-se-ia num “buraco negro” …

O altruismo saudável não funciona para acalmar a má consciência nem tão-pouco para afugentar o medo. Quem exagera no altruísmo, para adquirir reconhecimento, facilmente cairá em depressão ou Burnout!

A auto-realização implica um egoísmo sadio, um egoísmo sem egocentrismo. Também estamos chamados a promover o bem alheio, mas não à custa da própria felicidade. Uma pessoa contente transmite contentamento aos outros; uma pessoa infeliz anda envolvida pelo manto da escuridão e propaga o escuro nos outros.

Segundo investigações psicológicas 75% das pessoas agem devido a influências exteriores sem saberem, muitas vezes, o que é importante para si.

Há muitas pessoas com um padrão comportamental de tendência altruísta que chegam a colocar a defesa da vida do grupo acima da individual. e uma maneira de se tornar reconhecido e aceite, uma tendência natural a ajudar os outros.

Uma dedicação despreocupada ao próximo faz parte do desenvolvimento pessoal espiritual e psicológico…. Quando for capaz de descansar em mim mesmo, sem necessidade de andar sempre a arranjar a casa do meu eu ou do próximo e quando sentir o sol do carinho que em mim brilha independentemente dos defeitos que tenha, então o sol interior irradiará na minha atuação e na minha atitude para o exterior.

Então compreenderei a satisfação do gato e do cão que – sem a necessidade de controlar ou de se controlar – despreocupadamente se rola no chão, de pernas para o ar, vivendo, de maneira aberta, a satisfação do momento sem qualquer medo nem receio.

Por vezes há pessoas que passam uma vida sacrificando-se para os outros. Esquecem que temos esta vida para também treinarmos e aprendermos aquela alegria e gozo que, sem adiamentos, antecipa a realização futura. Somos individuações na comunidade.

Neste sentido, a primeira tarefa será aprender a amar-se, criando assim o fundamento para se poder mudar. Doutro modo anda-se a dar aos outros a compensação do amor que nos foi negado e nos faltou. Uma vida, realizada na alegria do viver, proporciona a resposta dos outros no respeito, amor e sintonia; então não se é enganado nem se engana o próximo com amores nem dedicações esforçados. Surge então o calor do dar e receber da mesma energia divina (amor) que flui dentro e fora no nós.

Deus criou-nos a nós tal como criou o sol e em nós colocou a sua energia que vem de dentro para fora, do interior para o exterior. A opção pela autonegação dedicando-se só aos outros é tão perigosa como a dedicação só a si mesmo porque ambos surgiriam, não da realização e da riqueza, mas da falta que conduz a uma abnegação desequilibrada. O sol divino tem de brilhar primeiramente em nós para nos abrir e através de nós brilhar e aquecer os outros.

Sou com o todo sem me perder nos outros, sou com o outro consciente de que ele e eu somos apenas parte do todo.

Uma maneira consciente de avaliar o amor no trato de si mesmo será o de se permitir tomar decisões que deem satisfação independentemente do que os outros dirão ou esperam. Quando a voz do interior não é sorvida pela voz de fora, então vive-se naturalmente, o Reino de Deus, como os “pássaros e os lírios do campo” aceitando os cumprimentos e as críticas dos outros como aqueles aceitam o sol e a chuva. Então o que faço dá alegria e contentamento porque faço-o simplesmente, sem sentimentos de obrigação ou de culpa muito embora num sentimento de sintonia/compaixão. Então a felicidade e a infelicidade dos outros não me ensombram porque o meu viver compreende amar os outros e deixá-los ser como são.

Tenho que pôr nos pratos da balança da minha vida, de um lado o amor, o respeito, o cuidado que tenho para comigo e no outro prato as necessidades dos outros.

Deixo entrar e sair de mim o ar dos sentimentos positivos e negativos sem os reter, do mesmo modo, como entra em mim o ar mais ou menos oxigenado que respiro. Aceito o dentro e o fora, o dia e a noite, a luz e a sombra, o sucesso e o fracasso sem o medo de me negar ou afirmar para ser aceite. Consideração e estima iluminam as minhas relações sem me deixar prender em pensamentos negativos, devaneios, dúvidas e medos. Não sou vítima de ninguém e na qualidade de consciência reflectida assumo a responsabilidade de ser, ser com os outros numa dinâmica de ser para mim e ser para os outros.

Reconhecer-se e aceitar-se

Para se chegar ao nível do “ama o próximo como a ti mesmo” há, em primeiro, que se reconhecer a si mesmo, como advertia a frase no frontispício do templo de Apolo em Delfos aos que nele entravam. Reconhece a ipseidade (“conhece-te a ti mesmo”) e nela os teus pontos fortes e fracos, as facilidades e dificuldades como fluxo e refluxo da mesma realidade. O segundo passo é “aceita-te como és” com os teus lados de luz e de sombra. E se me encontro numa altura em que me não posso aceitar, então aceito a não aceitação. O terceiro passo será: aceitar em si uma possibilidade de mudança, mas sem limite de tempo e sem pressão de auto-optimização.

Em paz de consciência

Muitas pessoas têm na sua consciência um juiz interior muito rigoroso sempre a apelar pata o dever: esse juiz malformado diz: “eu devo…, tenho que…” ou “a gente deve…, a gente tem que…”

Muitas vezes, esta é a voz do “eu paterno” que continua escondida e a mandar em nós. Este juiz fala do alto da sua cátedra e por isso é preciso substituí-lo por um juiz Anjo, que não condena embora faça ver as coisas positivas e negativas com objectividade e que gosta de ti tal como és.

Dos erros se aprende para a próxima vez. Deus ama-te como és, no antes, no agora e no depois; faz algo que te dê alegria, não te deixes subjugar apenas pelo programa do dia-a-dia, doutra maneira vive o programa em ti, sem que tu vivas porque só serves.

Muitas vezes surge em nós uma sensação corporal ou um sentimento espiritual desagradável e não temos tempo para lhe dar atenção e compreender o que esse sentimento ou sensação nos quer dizer; muitas vezes esse mal-estar apenas nos quer dizer que excedemos os nossos limites.

Sentimentos agradáveis são sinais de que nos encontramos em consonância com a situação do momento. Se o sentimento é torturante talvez se dê ao facto do sentimento puro se misturar com devaneios, conflito interno, a tentativa altiva de dominar uma sensação, etc..

Do sentimento de aceitar e ser aceite surge o contentamento de se encontrar com o dia ou com o próximo, venha ele como vier. Chega a boa intenção de procurar o bem em tudo e de se experimentar contentamento, independentemente da gratidão que se receba. Então a viva sorri para mim e eu sorrio para a vida na consciência de que a dor e a alegria servem o todo.

A realidade do eu-tu-nós encontra-se magistralmente delineada na fórmula Trinitária onde a Relação é de tal maneira viva e misteriosa que ganha expressão numa terceira pessoa. Neste sentido, a abertura e a entrega expressam a liberdade amorosa.

© António da Cunha Duarte Justo

Pedagogo e teólogo

Pegadas do Tempo