CONSCIÊNCIA A CHAMA SECRETA

Não veio do trono nem da lei,
nem da voz da praça em claridade.
Veio do centro onde ninguém
assina pactos com a cidade.

Não tem estandarte nem sinal,
não conta tempos nem razões.
Arde em silêncio original,
sem pedir forma às instituições.

A fé passa, não se vê,
por entre datas e poderes.
Quem nela mora aprende a ser
mais do que o mundo quer dizer.

É o lugar que não admite
posse, voto ou majestade. (É luz que não se decreta)
Por isso os tronos têm temor
da luz sem rosto e sem medida.

 

Quem guarda o fogo interior
pode perder tempo e visão.
Mas leva intacto o seu senhor:
um reino já fora da nação.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(Poema desabafo feito como grito de alerta durante o “governo” Covid-19)

A CONSCIÊNCIA SOBERANA

Não nasceu do decreto
nem do voto contado ao entardecer.
Não se ergueu em parlamentos
nem aprendeu a linguagem das maiorias.
A fé, essa da consciência,
nasceu onde o poder não entra:
no silêncio em que o homem
se sabe mais do que função.

As fés seculares constroem-se em andaimes:
supraestruturas de sentido calculado,
máquinas de consenso,
pedagogias da obediência feliz.
Prometem liberdade administrada,
direitos garantidos por sistemas
que pedem, em troca,
a rendição íntima do olhar.

Mas a consciência não se assina.
Não obedece à geometria dos regimes
nem ao tempo curto das ideologias.
Atravessa impérios,
sobrevive a constituições,
assiste, paciente,
à queda sucessiva das formas
que juraram ser eternas.

Por isso a fé pessoal incomoda.
Porque não depende do Estado,
nem da técnica,
nem do aplauso moral do tempo.
Ela subsiste como brasa
sob a cinza das épocas,
esperando apenas
que o tempo mude de voz.

Até na Igreja, feita de Pedra e história,
há trono e há limite.
Há autoridade,
mas há um santuário que nem o Papa habita:
a consciência, esse espaço inviolável
onde Deus fala sem intermediários
e o homem responde sem delegar.

É aí que o cristianismo se torna constitucional
antes de o ser político:
quando afirma que nenhuma ordem,
nem mesmo sagrada,
pode substituir o juízo último
do coração iluminado.

Por isso os regimes desconfiam.
Os de ferro, como o chinês,
e os de veludo, como a nossa democracia.
Ambos toleram a fé
desde que domesticada,
desde que aceite ser cultura
e não critério,
rito e não resistência.

Mas a luz interior,
como a de Luzia,
prefere perder os olhos
a perder a visão.
E lembra ao mundo, século após século,
que a verdadeira soberania
não se governa: testemunha-se.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

AS CORES DA AMIZADE SOB O ARCO DA PRESENÇA

Só, sob o arco que une céu e chão,
Sinto orvalhar em flocos o pensamento.
E com asas de sonho, na amplidão,
Sigo a aragem suave do tempo.

Solidão que em mim se torna vaso
Onde o mar pousa a sua voz profunda,
E anjos, sem rumor, num doce caso ,
Minha tristeza com meus amigos embalam.

Na amizade que é filha do bem-querer,
Sinto o lugar quieto onde Deus habita.
Porta aberta para se ser e ter,
Onde a felicidade, livre, palpita.

– Corações de portas escancaradas,
Cultivai a amizade, a partilha pura,
Cuja ternura, por estradas delicadas,
Vem da estima, do afeto, da doçura!

Ela é o abanador na lareira da vida
Que aviva a brasa da existência,
Para que cada qual, na chama acendida,
Respeite e sinta a própria essência.

Vencerá o mal-querer, embora ele
Se empoleire nos altos do poder.
É energia que em nós se revela,
Asa que salva e sustém no querer.

No teu sorrir, o sol aquece e alumia
O caminho que trilho, claro ou obscuro.
No teu sorrir, a alegria que é minha
Encontra um lago puro, num colo seguro.

Amizade é amor, que fica depois
Da dor, no rotineiro da existência (1).
Refúgio das intempéries e dos bojos
Que o destino traz na sua inclemência.

Há a calorosa, que desce connosco
À adega escura e forte da jornada.
Há a do “vá com Deus”, leve e veloz,
Na despedida ligeira e apressada.

E há momentos em que o peso, mais denso,
Faz brotar no peito uma saudade:
E sinto-me, então, no regaço imenso,
Da vivência silenciosa da Amizade.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) Aqui recordo o dia em que as alianças caíram dos dedos.

E o vazio que fica no dedo
é a memória do abraço que ali cabia:
um aro de promessa, afrouxado,
até que a pele esqueceu seu nome.

Assim recordo: não a queda, mas o instante
em que o dedo reconheceu, por fim,
que era apenas dedo e não altar,
nem jura, nem ponte para outro corpo.

A CASA QUE A DOR CONSTRÓI

Não me peças canções de alva harmonia
nem versos que adormeçam como a névoa branda.
Trago na voz um grito de ironia,
ferrugem de esperança já roída e borrifada.

Sofro ao ver o rebanho, denso e crente,
gritar convicções alheias, em uníssono aberto,
defendendo, com ardor de inconsciente,
o jugo que lhe pesa, o mesmo laço certo.
São ecos, não são vozes. Sombras de uma ideia
que o sistema, tal ourives, forjou no seu segredo.
E cada qual repete, na arena que rodeia,
o dogma que o domina, pensando-o seu credo.

Oh, leve opinião de sofá e ecrã,
feita de vento e de espasmo passageiro!
És galo a desafiar outro galo, vã
disputa onde o tom sobe, irreal e altaneiro.
A casa da ipseidade não se ergue
com tijolos alheios, nessa areia movediça.
É grão a grão, na solidão que insurge,
que a rocha própria à mente edifica e talha.

Levo comigo o peso dos meus séculos,
a desconfiança antiga, herdada e visceral:
o Estado, a oficina, os jornais, os oráculos
a moldar o consenso, a tecer o cabresto geral.
Minha alma chora, ao ver a multidão dominada
gritar, ufana, as ordens do seu dono,
numa paixão pós-fática, deslumbrada,
que serve, sem o saber, o seu próprio abandono.

Não sigo a maré do consenso raso,
essa corrente que tudo anula e amontoa.
Busco a falha, a pedra áspera e diferente,
a ruptura com quem forja o molde e o caso.
Somos feitos de pele e de persuasão,
mas o nós perde-se no dilúvio dos canais.
Toda a mensagem é estratagema e arma,
e só acende, se a temos, a nossa própria brasa.

Por isso levanto, lenta, a minha casa,
pedra sobre pedra, com as mãos gretadas.
É trabalho áspero que nunca sossega,
esta construção de ideias, estas paredes erigidas.
Suporto o incómodo da opinião ligeira,
do já se sabe fácil, da certeza rápida.
A minha pedra custa, fere e alteia,
mas a casa é só minha, conquistada mas íntima.

É melhor o cansaço de pensar,
a fadiga da pedra mal cortada,
do que a leveza letal de me deixar
pensar por outrem na minha própria estada.
A opinião alheia é jugo e frio.
A própria, só conquistada em luta, é libertação.
Mesmo que reste apenas o desvio,
e um humor seco como minha última oração.

Assim construo, entre o grito e o sorriso,
numa resignação ativa e irónica.
Não mudo o mundo, mas defino o piso
do meu próprio quintal, nesta era frénica.
E talvez, se muitos levantarem a sua pedra,
se cansarem de ser voz e buscarem ser verbo,
a cultura da paz, que a guerra impede,
desabroche não por decreto, mas do nosso próprio corpo.

O trabalho é longo e a noite é densa.
Mas a casa cresce. Ela é minha e é imensa,                                                                    Contra a maré alheia, pedra sobre pedra.

Pois o ego, alheio a si, perde-se nas roupagens
que a sociedade veste sobre o seu esqueleto nu.
Ao não pensar por si, segue nas multidões,
e acaba por odiar o mundo que em si meteu.
Leva-o a engodo de ideias fabricadas,
tão longe da raiz, da seiva natural,
que constrói, à sombra de vontades alheias,
uma consciência à venda, corrompida e formal.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(Escrito no auge do Regime COVID-19)

MARIA E A EMERGÊNCIA DE UMA NOVA VISAO DO REAL

Teologia, Filosofia e Ciência em Diálogo

A celebração da Imaculada Conceição, a 8 de dezembro, confronta o pensamento contemporâneo com uma questão decisiva: que tipo de realidade admitimos como real? Num mundo moldado pelo paradigma científico-técnico, e da velha Física, tende-se a reconhecer como verdadeiro apenas o que é mensurável, repetível e empiricamente verificável. Contudo, tanto a filosofia moderna como a ciência contemporânea mostram que esta redução é epistemologicamente insustentável.

O símbolo como acesso ao real

A filosofia hermenêutica e fenomenológica (Husserl, Ricoeur) recorda que o símbolo “dá que pensar”: ele não explica, mas revela uma profundidade de sentido inacessível à mera descrição factual. Assim, quando a fé cristã afirma que Maria concebeu sem intervenção sexual, não pretende competir com a biologia, mas introduzir uma afirmação ontológica: a origem última do humano não se esgota na causalidade material.

Do mesmo modo que a ciência utiliza modelos e metáforas, ou seja, campo, onda, big bang, matéria escura, para falar do que não é diretamente observável, também a teologia recorre ao mito e ao dogma como linguagens simbólicas de uma verdade experiencial que se mantém válida para além do tempo histórico (mantendo a tensão entre o tempo Cronos e o tempo Cairos).

Conhecimento, consciência e limites da objetividade

Desde Kant sabemos que o conhecimento não é mero reflexo da realidade em si, mas resultado de uma interação entre sujeito e objeto. “A coisa em si” permanece sempre além da plena apreensão. A ciência contemporânea confirmou essa intuição filosófica: na física quântica, constatando que o observador não é neutro. Segundo Niels Bohr, não há fenómeno sem observação; em Heisenberg, a realidade observada depende do modo como é interrogada.

Esta constatação aproxima surpreendentemente ciência e teologia: ambas reconhecem que o real é mais vasto do que o real medido. A concepção virginal inscreve-se precisamente nesta intuição: fala de um acontecimento que não pode ser explicado por causalidade linear, mas que emerge de uma dimensão mais profunda da realidade.

Virgindade e novo paradigma ontológico

A virgindade de Maria aponta simbolicamente para um novo paradigma ontológico: o ser não é apenas efeito de causas anteriores, mas emergência, dom, novidade radical. As ciências da complexidade e da emergência (Prigogine, Morin) mostram que sistemas vivos produzem novidades não redutíveis às suas condições iniciais. O todo é mais do que a soma das partes.

Neste horizonte, o dogma da Imaculada Conceição afirma que a humanidade conhece, em Maria, uma origem não determinada pelo peso do passado, mas aberta ao futuro. Trata-se de uma antropologia da esperança, profundamente atual num tempo marcado por determinismos biológicos, sociais e tecnológicos.

Encarnação e superação da dualidade

A modernidade herdou uma visão dualista: espírito versus matéria, sujeito versus objeto, fé versus razão. Ora, tanto a teologia cristã como a física contemporânea caminham no sentido inverso: a realidade é relacional. A Trindade cristã pode ser lida como a forma simbólica mais radical dessa intuição: ser é ser-em-relação.

Em Jesus Cristo, concebido no seio de Maria, não há rejeição da matéria, mas a sua reabilitação plena. Deus não se opõe ao mundo, mas participa nele. Heidegger afirmava que a verdade acontece (Ereignis); não é posse, mas desvelamento. Neste sentido, a encarnação é o desvelamento máximo do sentido do real.

Maria, feminino simbólico e crítica à modernidade

Num contexto cultural dominado pela racionalidade instrumental e pela funcionalização do corpo, Maria surge como figura crítica. A sua virgindade não é negação da sexualidade, mas protesto simbólico contra a absolutização do desejo e a redução da pessoa a objeto. Leonard Boff lembra que nela emergem os traços maternais de Deus, silenciados por uma tradição excessivamente patriarcal e racionalista.

A figura de Maria restitui à linguagem religiosa o seu caráter poético e relacional, mais próximo da arte e da mística do que da engenharia social (de matriz masculina). A poesia, como a física moderna, aceita o paradoxo; sabe que há verdades que só podem ser ditas por aproximação.

Uma verdade em processo

A Imaculada Conceição não pertence apenas a uma mera ordem do “facto verificável”, mas da verdade existencial e transcendente. É uma verdade que acontece continuamente, sempre que o humano se abre ao dom, ao futuro e à transcendência. Assim como a ciência abandonou a ilusão da objetividade absoluta, também a teologia é chamada a libertar-se de leituras literalistas e defensivas.

Maria permanece como sinal de que a realidade é mais ampla do que aquilo que medimos, e de que o humano é, em última instância, um ser espiritual em devir, chamado a dar à luz o divino no coração do mundo.

“A verdade não é algo que possuímos, mas uma realidade que nos envolve e transforma.” (K. Rahner)

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo