CÍCLO DE POESIAS QUE TINHAM SIDO ALINHAVADAS QUANDO  SUBSTITUI O Pe RAMIRO EM KAISERSLAUTEN

ANDAR COM A VIDA

Não vás à frente da vida,
na pressa de chegar primeiro;
nem fiques atrás,
como quem perdeu o próprio rasto.

Vai ao lado dela, ombro a ombro,
no ritmo do vento e do rio.

A vida não é coroa nem cinza,
é companheira de estrada
que só revela o sentido
quando contigo caminha.

Vale a pena a travessia
se o viajante e o caminho
aprendem a mesma canção.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

DE TRONCO AO VENTO

A verdade é vento que passa
por todos os rostos do mundo,
às vezes lâmina de inverno,
às vezes brisa de verão.
Não importa se ela grita ou canta,
importa é teres raiz no chão.

Que a árvore não tombe
ao primeiro sopro da dor,
nem se deixe dobrar
ao canto mole da mentira.

Comunicar é abrir janelas,
esperar é deixar o fruto amadurecer.
Mas não tropeces na espera,
transforma a paciência em chão,
mas nunca em prisão.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

ENTRE AS GOTAS DO MILAGRE
SEM NOTAR O ORVALHO

A bênção divina é chuva
caindo em gotas sobre a vida.
Muitos gastam os dias
a negar Deus entre as gotas,
e perdem o orvalho no intervalo.

Mas mais que a gota e o silêncio,
importa admirar o milagre:
a anémona abrindo-se ao sol,
o pulso do ser mais pequeno,
o rosto humano que espera.

Somos guardiões do jardim,
abençoar é a missão,
regar, cuidar, agradecer,
do lodo à estrela,
da flor ao irmão.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

A SINGELEZA

Sabedoria sem holofotes.
Basta-lhe a candeia de barro,
o fio de azeite,
a chama pequena do que é verdadeiro.

Bálsamo sobre a ideia ferida,
a humildade cura o pensamento.
desata os nós do ego.
Deixa a porta aberta
e o outro entra sem medo.

Não é fraqueza, mas água mansa
que esculpe a pedra, com o tempo.
Não é silêncio vazio, mas raiz

que sustenta a árvore
quando o vento das opiniões
quer desabar o mundo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

UMA FRESTA NO DIA-A-DIA

Uma fresta de verdade,
a claridade rasga a sombra.
Escusa-se o incêndio no horizonte,
bastam a réstia, o gesto, a palavra,
e o escuro recua.

Humildade no leito,
a relação flui como o rio.
Vida livre de peixes
que nadam
sem precisar de vencer.

Assim, o curso dos dias,
é luz sem cegueira,
bálsamo sem gravidade,
água que fecunda.
Do sol à estrela,
da lua ao chão,
do rio ao coração.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

EM CONTEMPLAÇÃO

De dia, olho a natureza,
agradeço ao sol
que em cada coisa me acena.
Na cor da flor, no voo do pássaro,
no mistério da pedra,
na variedade inteira do criado.

De noite, o céu estrelado.
Pequenos olhos de fogo a piscar,
abertos sobre o meu silêncio.

É a lua quem me embala o sentimento.
No seu luar me vejo,
entre a terra e o firmamento,
a divagar.

Sou poeira e abrigo,
caminho e luar.
Na órbita da lua
aprendo a não ser centro,
a ser companhia
da noite e do mar.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

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RECOMEÇAR ENTRE HORMONAS E OUTRAS INTEMPÉRIES

Parece estranho, mas nas relações entre homem e mulher somos mais iguais do que se diz: ambos temos hormonas, ilusões e a mania de querer parecer mais jovens. A menopausa também já não é tabu; tabu é ainda haver quem a confunda com “má vontade”.
Hoje conheci um par que, após 15 anos de divórcio e de cada um ir experimentar novas paisagens, se voltou a unir. Nos rostos via-se a história: ele com mapa de estradas, ela mais adivinhada que real. Serviu-me isto para penar que andamos todos num processo de desconstrução/reconstrução; muitas vezes, na primavera os corpos interessam-se, depois, no verão, desavêm-se nas ideias e os laços vão-se desfazendo como nós cegos.
Quer-se começar de novo, mudar algo. As hormonas anunciam que os sonhos de verão devem tornar-se realidade e, para não faltar emoção, mandam também ondas de calor. A natureza tem ritmos: sol na montanha revigora, mas suores intensos, insónias, irritabilidade, alterações psicológicas, dificuldades de concentração e secura vaginal não são “problema psicológico” arrumado num canto. Começam muitas vezes aos 40 e pedem atenção.
Vale a pena escutar os sinais, sobretudo a irritabilidade: pode ser o findar de ilusões passadas e o início de criação nova. No fundo, homens e mulheres são iguais na confusão; a diferença é que umas recebem boletim meteorológico interno e outros acham que é só calor.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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O EIXO CIVILIZACIONAL EM RUTURA

Ensaio sobre a mudança axial e o nascimento da política relacional
(Sahra Wagenknecht como sintoma e prenúncio)

Há momentos na história em que o solo treme sob os pés das instituições. Não se trata de sismos eleitorais, de alternâncias de poder, de crises cíclicas que o sistema digere e recicla. Trata-se de algo mais fundo e que implica a erosão das próprias categorias com que pensamos o político. Vivemos um desses momentos em que se torna urgente uma política relacional para além da esquerda, da direita e do formalismo partidário

O arrazoamento político-partidário que domina a governação em toda a União Europeia e, por extensão, no Ocidente, arrasta-se numa linguagem gasta, numa gramática de interesses que já não traduz a experiência vivida das pessoas hodiernas. Os partidos falam, mas não dizem; propõem, mas não escutam; governam, mas não vivem o presente e, no entanto, a exigência de mudança não vem de fora, pois brota do próprio interior da crise, como uma força axial que reclama nova forma.

A rutura dos eixos

Desde a Revolução Francesa, a política de massas organizou-se em torno de dois conflitos fundamentais: a disputa sobre a desigualdade económica e a tensão entre valores conservadores-autoritários e liberais. A esquerda e a direita nasceram dessa topologia. Durante dois séculos, essa bússola funcionou, imperfeitamente, mas funcionou.

O busílis da questão é que hoje e na nova era que se aproxima essa bússola perdeu o norte.

A globalização económica, a imigração, os refugiados, a afirmação de identidades religiosas e culturais reconfiguraram o campo de forças. O velho eixo esquerda-direita foi atravessado por um novo eixo, aberto versus fechado, que não se deixa reduzir ao primeiro. As pessoas já não se reconhecem nas coordenadas tradicionais. Sentem que tudo o que lhes era familiar está ameaçado e buscam segurança na exclusão do que percebem como estranho. Outras, pelo contrário, veem na globalização e no multiculturalismo uma promessa de vida mais rica. Este é a nova clivagem e nenhum dos partidos tradicionais o enfrenta com honestidade.

Os partidos liberal-democratas, em particular, declinam por toda a Europa. O Ciudadanos espanhol desapareceu do parlamento. O FDP alemão, que em 2009 atingiu 14,6% dos votos, foi eliminado nas eleições de 2025. A razão não é apenas conjuntural porque provém da falta de clareza das convicções e do afastamento das expectativas do eleitorado natural. Os partidos que outrora representavam a terceira via, o centro reformista, o liberalismo social, perderam a capacidade de encarar o real.

E, no entanto, a Comissão dos Assuntos Políticos e da Democracia do Conselho da Europa alerta: os partidos políticos têm uma responsabilidade particular na salvaguarda da coesão e da estabilidade democráticas. Sem partidos, o pluralismo não pode ser representado de forma significativa e os parlamentos não podem funcionar eficazmente. O problema não é a existência dos partidos, mas a sua fossilização. A diminuição do número de militantes, a ascensão do sentimento antipartidário, a queda das taxas de participação, a volatilidade eleitoral e a perceção persistente de elitismo, corrupção e interesse próprio minam a legitimidade do sistema.

A mudança axial

O que está em curso não é uma simples crise política, é uma mudança axial.

Karl Jaspers, Lewis Mumford e Eric Voegelin cunharam a noção de “época axial” para descrever momentos em que a humanidade reconfigura as suas categorias fundamentais de sentido. Uma mudança axial introduz uma nova weltanschauung que enfatiza a subsidiariedade em vez das estruturas centralizadas de poder, e um imperativo moral em que a mudança evolutiva é impulsionada mais pela cooperação do que pela competição. A descrição “axial” refere-se à emergência de um eixo transformador que permite uma correção de escala através de alternativas às estruturas de poder existentes.

Vito Mancuso, numa conferência recente, descreve a nossa condição como uma “perda de eixo do mundo”, a ausência de um axis mundi, de um critério maior do que o simples ego ganancioso. Sem essa dimensão maior, temos muitos egos autocentrados e a impossibilidade de formar sociedade. A palavra sociedade, vem do latim societas, de sócios e só existe quando há um interesse superior ao interesse estritamente individual. O que vale na economia, vale na política.

A mudança axial não é um conceito académico. É a experiência vivida de milhões de pessoas que já não se reconhecem nas coordenadas políticas herdadas. É a intuição de que algo mais profundo está a acontecer que não se limita apenas a uma troca de governos, mas uma transformação da própria consciência política.

O sintoma Wagenknecht na Alemanha

Sahra Wagenknecht é, simultaneamente, sintoma e anúncio.

O Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW), fundado em janeiro de 2024, combina políticas económicas supostamente de esquerda com uma abordagem ultraconservadora da imigração e uma política externa pró-russa. No seu programa de seis pontos, aprovado em junho de 2025, o BSW apresenta-se como “a força política do despertar”, contra o militarismo, a divisão social e a tutela autoritária”, defendendo uma “política da razão e do equilíbrio social, da renovação democrática e da paz”.

Wagenknecht define o partido como “a encarnação do que muitos partidos já não defendem: um conservadorismo esclarecido no sentido de que preserva tradições e segurança nas ruas e espaços públicos, mas ao mesmo tempo empregos, saúde e pensões”.

Isto não é nem esquerda nem direita no sentido tradicional. É uma tentativa, ainda titubeante, ainda contaminada pelas maleitas do individualismo da nossa sociedade de transição, de criar   o novo eixo. O BSW aponta para uma política que ultrapassa a dicotomia herdada, mas ainda não encontrou a linguagem plena dessa ultrapassagem.

Um filósofo e crítico político observaria que o BSW tem razão em denunciar o formalismo partidário e a governação daninha que se esconde atrás da retórica democrática. Mas erra ao não assumir plenamente a responsabilidade individual que a nova época exige. A mudança axial não se faz com novos partidos que repetem velhos vícios. Faz-se com pessoas que assumem a sua quota de responsabilidade pelo mundo que habitam.

Urge uma Racionalidade relacional

O que emerge como exigência já não será emoção política, porque já temos excesso dela, à direita e à esquerda. O que está a emergir é racionalidade relacional.

A lógica da relacionalidade, desenvolvida por teóricos como Qin Yaqing, argumenta que a relacionalidade precede a racionalidade. Um ato “racional” em relação a um inimigo pode ser arracional e até irracional se dirigido a um amigo. A política relacional não nega a racionalidade porque a redefine em termos de relações e não de interesses isolados. Os processos de política seguem uma lógica de relacionamento, ou seja, atores que agem de forma a sustentar e refletir a teia de relações na rede política. O relacional e o racional não são alternativas porque cada sistema político reflete ambos.

Esta é a mudança de mentalidade que a época axial exige define-se por  uma política orientada não pela emocionalidade das identificações tribais, equacionadas no tribalismo da revolução francesa que a qualificou de direita ou esquerda, nós ou eles, mas pela razão que reconhece a primazia das relações. Uma razão que não é fria calculadora de interesses, mas que compreende que o eu se constitui na relação com o outro e no seu melhor social parte do nós.

Individualismo responsável

A transição para a nova época axial não se fará sem uma reconfiguração do individualismo.

Lipovetsky distingue o individualismo responsável do individualismo irresponsável: o primeiro está circunscrito ao plano daquilo que se espera das reformas políticas; o segundo é a deriva hedonista que dissolve o laço social. Na sociedade de transição em que vivemos, ambos coexistem. O BSW, como todos os movimentos emergentes, padece desta ambiguidade: aponta para o assumir individual de responsabilidades, mas ainda se debate com as maleitas do individualismo irresponsável.

O que a nova política exige é um individualismo que não seja egoísmo, mas responsabilidade. Protagoniza uma autonomia que não se feche sobre si mesma, mas que se abra à relação e advoga uma liberdade que não seja indiferença, mas compromisso.

Este é o paradoxo da época axial: quanto mais o indivíduo se assume como singular, mais se descobrirá relacional. Quanto mais se responsabiliza, mais se compreende parte de algo maior. O axis mundi não é uma transcendência que anula o eu, mas uma dimensão maior de si mesmo que o constitui.

O imprevisível

E daqui surge o imprevisível. Nenhuma análise, por rigorosa que seja, pode prever o que emerge quando a consciência muda de eixo. A mudança axial não é um programa político que se implementa, mas sim uma transformação que acontece e à qual os partidos, se quiserem sobreviver, terão de se adaptar ou morrer.

O que se pode afirmar com exigência é isto: a política que vier não será nem de esquerda nem de direita, nem sequer de uma “terceira via” no sentido blairiano que se esgotou na aceitação acrítica da globalização. Será uma política relacional, que reconhece que os problemas da nossa época, ou seja, a crise ecológica, a solidão urbana, a desintegração comunitária, a perda de sentido, não se resolvem com mais Estado ou mais mercado, mas com novas formas de relação.

Será uma política que ultrapasse o formalismo partidário e a governação daninha que hoje se pratica em Bruxelas, Berlim, Londres, Paris ou Lisboa. Uma política que assuma a responsabilidade individual como fundamento da responsabilidade coletiva. Uma política que não tema o profetismo, não o profetismo messiânico que promete paraísos, mas o profetismo que ousa nomear o que está a nascer quando todos ainda olham para o que está a morrer.

Exigência e criatividade

O ensaio que aqui esboço não pretende ser um programa, pretende apenas ser um gesto, um gesto de exigência e de criatividade.

Exigência, porque a época não tolera mais a mediocridade do arrazoamento partidário que se contenta com a gestão do existente. Criatividade, porque o novo não nasce do velho por dedução lógica. Nasce por rutura, por invenção, por abertura ao que ainda não é.

Os partidos, na sua forma atual, encontram-se num estado de consciência subdesenvolvida. Equacionam interesses, argumentam num grau rudimentar e arcaico, como se a política fosse ainda uma negociação entre grupos de pressão. O BSW, embora inicie uma nova maneira de estar político, ainda padece das maleitas dessa herança. Mas aponta — e isso é o essencial. Aponta para uma política que não se esgota na gestão dos interesses, mas que se abre à responsabilidade pelo todo.

O aspeto profético

O que está em curso não é uma crise, é um nascimento e nas dores do parto, é natural que se confundam os gritos da morte com os primeiros vagidos da vida. Mas quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir reconhece os sinais que indicam que a mudança axial está a acontecer. A política ocidental, mais cedo ou mais tarde, terá de se reconfigurar. Os partidos que sobreviverem serão aqueles que compreenderem que a racionalidade relacional não é uma concessão ao sentimentalismo, mas a forma mais alta de razão. Que o individualismo responsável não é uma ameaça à comunidade, mas o seu fundamento. Que a mudança de mentalidade não é uma opção, mas uma urgência.

Urge mudança necessária no arrazoamento político-partidário. Não por decreto, não por programa, não por revolução, mas por axialidade. Porque o eixo do mundo está a deslocar-se, e quem não se mover com ele será deixado para trás, não pela força dos adversários, mas pelo peso da própria inércia.

Resumindo: a crise em que nos encontramos anuncia a mudança axial e o profético nascimento da política relacional. Filosoficamente seria de dizer que o momento axial em que nos encontramos aponta  para uma crise das categorias com que formulamos as perguntas. E o BSW pode estar a antecipar uma das formas da recomposição política futura.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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UM GOLPE CONTRA A CLASSE POLÍTICA E O GLOBALISMO DE BRUXELAS

O Resultado das Eleições na Saxónia-Anhalt é o Alarme para os que se apegam às Estratégias políticas de Ontem

 

Um Abalo Político

Os resultados eleitorais recentes na Saxónia-Anhalt representam muito mais do que uma mera mudança política regional; constituem um aviso profundo dirigido à classe política estabelecida e às instituições supranacionais da União Europeia. Quando a afluência às urnas dispara de forma dramática, atingindo os 77,8% dos eleitores elegíveis e um partido há muito descartado como sendo marginal conquista 43,8% dos votos, algo de fundamental se alterou na relação entre governados e governantes. Não se trata apenas de uma rejeição da União Democrata-Cristã (CDU) ou do actual governo federal; revela-se sobretudo  como uma repudiação de um paradigma político que tem dominado a cena política alemã e europeia durante décadas.

O Fracasso da Liderança Política Tradicional

A estratégia de campanha da CDU, particularmente sob a liderança de Friedrich Merz, revela um divórcio profundo entre as elites políticas e a população. Ao priorizarem uma retórica belicista em detrimento da reconciliação, os líderes do partido calcularam mal o estado de espírito do público de forma catastrófica. O povo alemão, historicamente cauteloso em relação ao militarismo e bem ciente dos custos económicos do confronto, demonstrou que não se deixará conduzir por um caminho de escalada sem protestar.
Merz encarna um arquétipo particular que se tem tornado cada vez mais problemático na política contemporânea: o político cuja perícia reside mais no lobby e nos interesses empresariais do que na verdadeira arte de estadista. A sua trajetória de carreira, do direito empresarial a cargos de destaque no setor financeiro, reflete uma classe política que se distanciou das experiências vividas pelos cidadãos comuns. O eleitorado registou este distanciamento com uma clareza inegável.

O Legado da Saxónia-Anhalt depois de Telhados de Vidro e Pedras atiradas

O establishment político há muito que opera sob o pressuposto de que a sua autoridade permanece inquestionável, de que os processos democráticos servem apenas para legitimar resultados pré-determinados. O resultado da Saxónia-Anhalt desfaz esta complacência. Durante anos, os partidos do sistema contentaram-se em atirar pedras a alternativas políticas, rotulando-as de extremistas ou perigosas. Os eleitores devolveram agora o gesto, recordando aos seus governantes que também eles habitam em telhados de vidro.

Esta dinâmica revela uma verdade mais profunda sobre a natureza do poder nas democracias modernas. Como Maquiavel observou, a política nunca foi um empreendimento virtuoso; é sustentada por interesses e não pela razão. Os interesses que têm orientado a política europeia nos últimos anos, ou seja, o imperativo de manter o alinhamento transatlântico independentemente do custo, a priorização da unidade institucional em detrimento do bem-estar nacional, entraram em conflito direto com os interesses do povo alemão. Quando este conflito atinge uma massa crítica, o processo democrático transforma-se num instrumento de correção.

A Crise Autoinfligida pela UE

Bruxelas tem operado sob o pressuposto de que apenas os incentivos financeiros são suficientes para orientar os Estados-Membros no sentido desejado. Esta abordagem tecnocrática, que reduz a política a um mero cálculo económico, revelou-se catastróficamente inadequada. A liderança da União Europeia não reconheceu que os cidadãos valorizam a soberania, a continuidade cultural e a responsabilização democrática de formas que não podem ser monetizadas.

A abordagem da UE às relações internacionais tem sido particularmente problemática. Ao adotar posturas de confronto em relação à China, à Rússia e aos Estados Unidos, Bruxelas contradisse os seus próprios princípios fundadores de diálogo e cooperação. Esta incoerência estratégica não passou despercebida aos eleitorados europeus, que percebem cada vez mais as suas instituições como estando ao serviço de elites transnacionais, em vez de zelarem pelo bem-estar dos povos europeus.

O abandono da tradição da Ostpolitik, uma pedra angular da política externa alemã que privilegiava o diálogo com a Europa de Leste e com a Rússia, representa um erro particularmente nefasto. Esta política, que trouxe enormes benefícios económicos através do acesso a recursos energéticos russos, foi sacrificada no altar do alinhamento geopolítico. As consequências desta mudança sentem-se agora nos lares alemães, onde os custos da energia dispararam e a competitividade industrial se erosionou.

A Política migratória e o Dia-a-Dia das Pessoas

As políticas de migração e asilo da UE, prosseguidas com um grau de rigidez ideológica que roça o autodestrutivo, criaram problemas tangíveis no quotidiano dos cidadãos comuns. O divórcio entre os compromissos humanitários abstratos de Bruxelas e os desafios concretos enfrentados pelas comunidades locais tornou-se cada vez mais difícil de ultrapassar.

Quando as elites políticas privilegiam compromissos ideológicos em detrimento da governação prática, criam condições para a rutura política. A recusa dos partidos do sistema em reconhecer as tensões reais geradas pelas políticas migratórias abriu espaço para que forças políticas alternativas articulassem essas preocupações. Não se trata, como o establishment gosta de fazer crer, apenas de xenofobia ou populismo; reflete um verdadeiro falhanço da representação política.

A Viragem Pragmática em Sahra Wagenknecht e a Nova Política

A emergência de Sahra Wagenknecht como força política representa um desenvolvimento fascinante na política alemã. Embora seja rotulada como “extrema-esquerda”, o seu apelo transcende as fronteiras ideológicas tradicionais. Consegue reunir apoio tanto da esquerda como da direita, orientando a sua política em torno de uma racionalidade prática, em vez de pureza ideológica.

O sucesso de Wagenknecht aponta para uma tendência mais ampla, que é o declínio das distinções tradicionais entre esquerda e direita entre os eleitores mais jovens. As novas gerações são cada vez mais céticas em relação aos rótulos ideológicos e procuram organizar as suas opiniões políticas em torno de argumentos substantivos, independentemente de serem classificados como “extrema-esquerda” ou “extrema-direita”. Esta viragem pragmática representa um desafio profundo para os partidos estabelecidos, cujas estratégias eleitorais continuam a assentar em quadros ideológicos ultrapassados.

A convergência entre os seguidores de Wagenknecht e o Alternativa para a Alemanha (AfD) em certas questões, particularmente na necessidade de soluções negociadas para o conflito na Ucrânia e no ceticismo em relação à centralização da EU, sugere que o panorama político se está a reorganizar em torno de novos eixos. Quando os extremos se tocam, é muitas vezes porque a razão abandonou o centro.

A Dimensão Económica da Indústria Bélica contra o Bem-Estar Nacional

A ênfase do atual governo nos gastos militares e na expansão da indústria de defesa tem ocorrido à custa das prioridades económicas internas. Enquanto a indústria armamentista prospera, os alemães comuns enfrentam uma degradação do seu nível de vida. O setor automóvel, outrora orgulho da indústria alemã, encontra-se em crise, com as empresas a aproveitarem a situação para reestruturar à custa dos trabalhadores.

Esta afetação económica errada reflete um problema mais profundo que corresponde à subordinação do bem-estar nacional por compromissos internacionais. A indústria alemã, que construiu o seu sucesso com base no acesso a energia russa a preços acessíveis e a extensos mercados de exportação, vê-se agora comprimida entre sanções e contrassanções. O resultado é a desindustrialização, o desemprego e a estagnação económica.

Um Aviso a Berlim e a Bruxelas

O resultado da Saxónia-Anhalt deve ser entendido pelo que é: um voto de advertência dirigido a Berlim e, por extensão, a Bruxelas. A vitória da AfD não representa um endosso a todas as suas posições, mas sim uma rejeição do falhanço dos partidos do sistema em representar as preocupações populares.

Merz e a liderança da CDU responderam com negação em vez de reflexão. A sua recusa em reconhecer a importância do resultado sugere que poderão ser necessários novos choques eleitorais até que a mensagem seja recebida. As próximas eleições em Berlim e na Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental oferecerão oportunidades adicionais para o eleitorado comunicar o seu descontentamento.

O Fim da Complacência

A classe política e o establishment de Bruxelas foram colocados em sentido. O povo demonstrou que já não aceitará políticas impostas contra a sua vontade, que responsabilizará os seus governantes e que procurará representação alternativa quando os partidos tradicionais falharem em servir os seus interesses.

A questão que se coloca agora é se o establishment político aprenderá com esta derrota ou se continuará na sua arrogância. Reconhecerá que a UE deve servir os seus cidadãos em vez das elites globais? Aceitará que a paz e o diálogo oferecem caminhos mais sustentáveis do que o confronto e a escalada? Ouvirá finalmente as vozes que têm clamado por uma reorientação da política europeia?

Os eleitores da Saxónia-Anhalt falaram, mas tudo leva a crer que Bruxelas e Berlim continuarão a arranjar lenha para se queimarem. Bruxelas tornou-se surda em relação às populações das periferias.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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OS DESABRIGADOS DA POLÍTICA

O escândalo da democracia, quando o povo se atreve a querer algo diferente dos seus defensores!

Em tempos de humor negro e de fé vermelha, as eleições europeias revelam-se o cúmulo do humor: uns apresentam-se em defesa do povo, outros em defesa do seu povo e alguns, mais modestos, em defesa do seu povinho. No fim, todos procuram abrigo debaixo da mesma palavra mágica “democracia”, mas o busílis da questão é que  cada qual parece trazer a escritura de propriedade no bolso.

Curiosamente, o tão censurado discurso do «nós e dos outros» não é exclusivo daqueles que dividem o mundo entre nacionais e estrangeiros. Também os autoproclamados guardiões da democracia gostam do seu “nós”, do “ nós, os democratas”, “nós, os esclarecidos”, “nós, os europeus de bem” e consideram do outro lado, “eles, os populistas”, “os enganados”, “os atrasados”, “os perigosos”, etc… Enfim, muda a fronteira, conserva-se a alfândega moral.
Assim, enquanto uns proclamam «nós, os nacionais, contra os estrangeiros», outros respondem «nós, os democratas, contra eles». A gramática é assustadoramente parecida e o que muda é apenas o dicionário. E cada campo, naturalmente, garante possuir a verdade, porque a dúvida, em período eleitoral, dá poucos votos e ainda menos lugares no Parlamento.
Assiste-se então ao espetáculo dos que se consideram do lado bom da democracia contra os habitantes do lado mau, como se a democracia tivesse bancada VIP e porteiro à entrada. A argumentação cede lugar à narrativa, a análise à indignação e o ódio, devidamente penteado e perfumado, apresenta-se em público com o respeitável nome de “consciência democrática” que em dicionário adverso significa “oportunista”.
De um lado estão os que vivem da perda; do outro, os que vivem do proveito. Uns prometem mundos e fundos; outros, mais pragmáticos, vivem dos fundos. E todos juram representar o cidadão, sobretudo aquele cidadão abstrato que nunca telefona, nunca protesta e convenientemente, cabe inteiro num comunicado de imprensa.
Entretanto, os senhores da realidade erguem-se contra ela. Espantam-se com o crescimento dos partidos a que chamam populistas, mas raramente perguntam quanto desse crescimento foi adubado pelas políticas que eles próprios defenderam. Bruxelas transforma-se, assim, numa curiosa fábrica política: produz decisões, distribui virtudes e nas horas vagas, fabrica os adversários que depois denuncia.

Talvez o problema seja mais simples e por isso mesmo, mais incómodo: durante demasiado tempo governou-se para uma clientela política que, entretanto, foi ultrapassada pela realidade. O velho pieguismo partidário já não comove como antes. E quando a realidade deixa de votar como previsto, há sempre quem conclua que o defeito está na realidade.

Em muitos governantes e funcionários da liturgia europeia, mais do que competência, começa a notar-se atrevimento, que se expressa naquele admirável talento de explicar aos eleitores por que razão estes votaram mal.

A democracia, porém, conserva um sentido de humor particularmente negro: de tempos a tempos entrega o boletim de voto precisamente àqueles de quem os seus autoproclamados proprietários menos gostam.

E aí começa o verdadeiro escândalo democrático: o povo atreve-se a não obedecer aos seus defensores.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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