VIVER COM OU CONTRA A RÚSSIA DEPENDENTES DOS USA OU CONVIVER COM TODOS?

Europa por fazer entre Imperialismo americano e russo

A Ucrânia e a Rússia fazem parte da cultura europeia e da Europa. Independentemente do que tem acontecido na Ucrânia, sobretudo desde 2013 e apesar do acto brutal russo de 24 de fevereiro de 2022, nada justifica as campanhas de ódio encenadas pelos Media contra a Rússia. Por um lado, os Media não falam dos antecedentes dos acontecimentos na Ucrânia e nem sequer mencionam as promessas feitas em 1990 à Rússia e nem sequer alinhavam a forma de sujeição da Europa à “potência protectora” América. E a Europa deixa-se instrumentalizar pela ordem política global da América, que se preocupa apenas com a expansão dos próprios interesses políticos e de poder. Quando irá a UE finalmente acordar e desenvolver uma política independente centrada na liberdade, na paz e na compreensão internacional? Que fazemos para superar o ódio e a desconfiança? Esquecemos que uma boa medida de desconfiança em relação às instituições estatais e suas ajudantes é a característica necessária que impulsiona a responsabilidade necessária para o bem comum e para uma sociedade criteriosa e equilibrada!

Quem assiste à demonização de Putin e à divinização de  Zelenskyj e seguiu o desenrolar da política interna ucraniana, encontra uma semelhança crassa de modelos de propaganda usados na Europa e na Ucrânia que fazem lembrar a Série “Servidor do Povo” que fez de Zelenskyj presidente da Ucrânia (1); este candidatou-se depois à presidência, à frente do partido com o mesmo nome: “Servidor do Povo”; nessa série que vi, Zelenskyj é apresentado como presidente inigualável e salvador da Ucrânia. O efeito viral e manipulador que os estrategas de Zelenskyj conseguiram com a elaboração da série televisiva “Servidor do Povo” para ser eleito presidente da Ucrânia, conseguem-no também agora teatralmente na cena política internacional.

 “A quem interessa dividir a Europa?” (2), é a pergunta que se põe desde a guerra militar russa na Ucrânia e desde a guerra política e económica do Ocidente contra a Rússia e que levam ao empobrecimento do povo em geral…. A responsabilidade pode considerar-se dividida devido à luta entre os dois imperialismos que sacrificam a Europa, mas o fulcro da resposta será de encontrar na luta do imperialismo dos USA institucionalizado militarmente depois da segunda grande guerra com a criação da OTAN e na declarada intenção dos USA não permitirem que a Europa se irmanasse com a Rússia. Em 1949 a criação da união militar (OTAN) era óbvia, atendendo à existência simultânea do imperialismo soviético (Pacto de Varsóvia) e à incapacidade da Europa para se defender, tendo, por isso mesmo, de recorrer ao patrocínio dos EUA. O imperialismo soviético (socialismo) e o imperialismo americano (capitalismo) tinham grande parte do mundo sob a sua alçada.

Uma vez desfeita a organização imperialista do Pacto de Varsóvia seria natural, numa perspectiva europeia e de paz, que se desfizesse também o pacto da OTAN. Isso não se deu devido à estratégia americana de se afirmar como imperialismo mundial ímpar, unipolar e, nesse sentido, impedir que a Europa ocidental se unisse à Europa oriental! Numa perspectiva europeia, a Europa está a errar na medida que em vez de se tornar parte da solução tornou-se parte do problema! A argumentação de que a Europa foi ingénua em relação à Rússia é muito relativizada com a correspondente ingenuidade da Europa perante os USA, também eles com interesses próprios, em rivalidade  com os interesses europeus que implicavam maior inter-relacionamento económico, cultural e político com a Rússia e tendo em conta que o Ocidente se comportava mais contra a Rússia, o que a ajudou a tornar-se ainda mais autoritária.

Por outro lado, o imperialismo socialista da União Soviética e o imperialismo capitalista dos USA continuaram activos principalmente em países de África e da América latina através do apoio directo ou indirecto das correspondentes forças rivais dentro desses países: assim dá-se continuidade à guerra fria com medidas de suborno e de desestabilização de grupos rivais dentro de países insuficientemente estáveis (como aconteceu também no caso da Ucrânia); se o imperialismo socialista se afirma nos países usando uma estratégia ideológica divisionista e anti cultura, o imperialismo ocidental afirmava-se numa luta de manipulação económica de subjugação  e com o pretexto da defesa dos valores da democracia liberal.

A campanha generalizada nos meios da comunicação ocidentais contra o Patriarca Cirilo (salvaguarde-se aqui o erro a ele inerentes) é hipócrita porque tende a destruir a identidade cultural russa exigindo-se uma separação entre valores de Estado e valores religiosos numa sociedade em que escasseiam os grandes centros urbanos e simplesmente pelo facto de no ocidente só quererem valer em política os valores sob a perspectiva secular.(https://antonio-justo.eu/?p=7509).

Aquela disputa que se prolongava e prossegue na América latina e em África concretizou-se de forma mais exacerbada na Ucrânia, dado esta ser um estado considerado fronteira de interesses ideológicos, militares e económicos entre o Ocidente e o Oriente. A sociedade ucraniana, atendendo à sua composição populacional e à sua posição geográfica, que poderia ser um estado-federal-ponte privilegiado entre os dois blocos rivais, tornou-se em lugar de confronto entre os dois imperialismos, sendo ao mesmo tempo vítima e cúmplice de imperialismos antagónicos.

Se o apaziguamento (uma política de concessões recíprocas) não tem sido desejado e as duas partes não se respeitarem mutuamente, torna-se impossível a realização de negociações e na consequência dar-se-á o prolongamento indefinido da crueldade. Após a queda do presidente eleito Yanukovych, as regiões do sul e leste da Ucrânia não quiseram alinhar-se com o derrube do governo (derrube apoiado pelos USA) e acentuaram a vontade de conquistar a sua independência com o apoio da Rússia (3).  O regime de Kiev enviou os militares, e como estes não disparavam contra os seus próprios cidadãos, Kiev enviou então unidades voluntárias (4). Durante 8 anos, a Ucrânia ocidental disparou, à sombra do mundo informativo, contra os seus próprios cidadãos no Leste onde 17.000 pessoas foram mortas. Durante 8 anos, o governo de Kiev não implementou o acordo de Minsk (com a tolerância da França e da Alemanha), por interesses óbvios também nos grandes latifúndios ucranianos. Antes, a guerra civil era apoiada pela Rússia e USA e agora os ucranianos orientais estão a disparar contra a Ucrânia ocidental com o apoio directo dos russos.

Exemplo da escalação:  A Rússia intervém militarmente na Ucrânia e a OTAN apoia militarmente a Ucrânia. A EU/OTAN inicia a guerra económica contra a Rússia embora as exportações russas de carvão, petróleo e gás sejam os lubrificantes da economia europeia e deste modo o Ocidente assiste a um encarecimento de vida de que já não há memória; o Ocidente bloqueia as transações bancárias com a banca russa e a Rússia impõe o pagamento das suas matérias primas em rublos, o que originará novos fluxos de dinheiros; a Alemanha interditou a emissora russa em Berlim e a Rússia reagiu interditando a Voz da Alemanha na Rússia; o Ocidente declara políticos russos como pessoas non gratas e a Rússia reage do mesmo modo em reação aos países considerados inimigos!

Na guerra económica a Rússia usa agora os alimentos e os fertilizantes como armas de fundo. A Ucrânia e a Rússia, em conjunto, abasteciam um terço mundial com cereais (trigo, milho, cevada e soja). Agora a Rússia está a responder bloqueando a rota de exportação de cereais e fertilizantes para o norte de África e para o Próximo Oriente, bloqueando os portos no mar negro; nestes países não se farão esperar grandes fomes. Bloqueios económicos, usados como armas de guerra, são abusos ilícitos porque próprios das grandes potências e atingem os fracos e a população e não impedem as guerras.

A natureza é inteligente e por isso mostra-nos que a verdadeira evolução se realiza no viver com. A Rússia faz parte da casa comum Europa como já afirmava Gorbatchov e no princípio também era aspiração de Putin. Querer construir a casa comum sem a Rússia revela-se em miopia política e fanatismo do momento de parte a parte. Um desejo de unidade europeia é hoje também contrariado pela União Europeia que prefere a posição cómoda de se encostar à OTAN; a União Europeia prefere assim ser reduzida ao estilo e interesses anglo-saxónicos.

A derrota   político-económica da União soviética, em termos de guerra fria não justifica a atitude dos EUA, da EU nem da Nato contra a Rússia e contra a inicial boa vontade de Putin. É de constatar que, perante a afirmação do imperialismo ocidental às portas da Rússia, o nacionalismo exacerbado de Putin tenha fomentado nele a velha nostalgia imperial. O comportamento do Ocidente revela querer uma guerra total. Em nome da defesa dos valores ocidentais a Nato assume a estratégia das guerras da religião, próprias da guerra dos 30 anos (1618-1648) entre católicos e protestantes, servindo-se também ela agora, em termos de ideologias, contra a posição do Patriarca Cirilo I (5). Procura-se mover na política e na opinião pública tudo o que possa favorecer uma guerra total .

Os dois blocos em conflito perderam a razão e os políticos desqualificaram-se na qualidade de servidores do bem do povo. Legitimar a guerra ou medidas bélicas com a razão de defesa de valores europeus ou de próprios interesses a defender num país terceiro é tão válido como o argumento da Rússia de lutar contra o nazismo na Ucrânia.

A Europa, se acordar do grande sonambulismo em que entrou depois da segunda guerra mundial, terá de arredar caminho na descoberta dela própria e como tal viver com a Rússia sem viver contra os USA. Um dia, o desenvolvimento histórico levará, um dia, as potências de cunho cristão a unirem-se para melhor subsistirem no concerto de um mundo multipolar (6)!

Num conflito em que nos encontramos todos implicados (Rússia, EUA, EU, Ucrânia e OTAN) não é suficiente limitar-se a andar à caça de um culpado e, ao mesmo tempo, pretender-se ignorar os erros de todos no passado e o facto de nos encontrarmos enredados neles. Também sinal de esperteza, mas não de inteligência, é reduzir todas as falhas de um lado a um só acontecimento (24 de fevereiro) para que ele seja retratado como o único culpado e assim esconder os próprios malefícios…. Encontramo-nos numa situação em que todas as partes se comportam mal pelo que seria irracional que uma das partes determinasse, só ela e por ela sobre a rectidão e verdade da sua posição. Precisam-se conversações embora as partes nao estejam interessadas nelas porque o seu objectivo é só vencer o adversário e ostentar razão para isso.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo

  • (1) Título original: Sluha narodu, ucraniano Слуга народу, russo Слуга народа Sluga naroda) é uma série de comédia política produzida na Ucrânia pelo estúdio Qwartal 95 de Volodymyr Selenskyj sobre uma história fictícia da eleição do Presidente da Ucrânia. Vi a longa série e constatei que os promotores de Zelenskyj conseguiram manipular o povo divinizando Zemenskyj de tal modo que o povo tinha de o eleger; os mesmos métodos de encenação usam os Media ocidentais para demonizar o macabro Putin! O resultado é o mesmo. Por aqui se pode concluir como é fácil trabalhar o povo de maneira a ele pensar como elites querem que pense! Por aqui se vê como é fácil o controlo do povo seja ele de que sistema for!
  • (2) Perguntas: https://antonio-justo.eu/?p=7543; https://antonio-justo.eu/?p=7472
  • (3) “As regiões leste e sul, as mais povoadas do país, possuíam muitos habitantes russos que se opuseram às manifestações a favor da União Europeia. Dentre essas regiões, a Crimeia foi a que vivenciou os maiores níveis de tensão política. O parlamento da Crimeia foi tomado por um comando pró-Rússia, o qual aprovou a autonomia da península e posterior anexação à Rússia. No dia 16 de março de 2014, apesar de forte oposição da Organização das Nações Unidas (ONU), foi votado um referendo popular na Crimeia que decidiu sua separação da Ucrânia e anexação à Rússia, opção que venceu com mais de 95% dos votos. A população ucraniana é muito heterogénea embora de cultura comum!
  • (4) Batalhão Azov: https://antonio-justo.eu/?p=7488
  • (5) Nacionalizações da Ortodoxia: https://antonio-justo.eu/?p=7509
  • (6) Para aqueles que pensam que o meu artigo pode ser considerado pró-russo chamo a atenção que o escrevo sob uma perspectiva europeia que a nossa imprensa não contempla e para mitigar a atmosfera de guerra de informação sobretudo anti russa, uma imprensa que carece da apresentação de outras perspectivas que enriqueceriam a controvérsia.
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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

41 comentários em “VIVER COM OU CONTRA A RÚSSIA DEPENDENTES DOS USA OU CONVIVER COM TODOS?”

  1. Olá, António,
    Não aguentas muito o registo da frase. Começas por dizer que A Rússia praticou um “acto brutal” em 22 de Fevereiro, mas logo a seguir verberas “as campanhas de ódio encenadas pelos Media”. É próprio do cristão: … “tua praebe illi et alteram…”.
    É pena que o Putin não saiba Latim…
    Um abraço.

  2. Caro amigo!
    Gostei da tua frase latina pelo cheiro que ela traz a cristianismo, tão ausente na actual discussão pública e na maneira de encarar ou tomar posição em relação aos contendores em luta. De facto grande parte do povo russo é ortodoxo e naturalmente se não souber latim certamente que tem acesso à frase do evangelho através do grego! O aspecto cristão que será comum à população cristã de um lado e do outro da cortina (não combater contra o mal para não se tornar como ele) saberá entender a frase em termos de ética pessoal mas, uns e outros, bem conscientes que instituições e estados se orientam por uma “ética” própria, e sobretudo por interesses próprios e não nunca pela moral individual cristã; daí o bom princípio de o cristão não se identificar demasiadamente com os interesses políticos do Estado (coisa que infelizmente está a acontecer na Rússia por parte da jerarquia ortodoxa de Moscovo e que se observa também nos nossos países do ocidente em que a opinião publicada conduz a população a uma identificação geral da população pelos interesses políticos da OTAN, tal como Cirilo I faz em relação ao regime político russo! Penso que a nível de atitude cristã individual estamos a deixar-nos levar na enxurrada política, não guardando suficiente distância relativamente aos interesses dos blocos (empenhamo-nos mais pela guerra -tomando partido empenhado – do que pela paz.
    Pelo que observo na sociedade encontramo-nos numa fase de autodestruição dos nossos valores mais genuínos! Trata-se de destruir a própria consciência para fomentar uma consciência onde já não haja bem nem mal (apenas interesses a seguir cegamente) e assim se passe a acabar com a individualidade e com a responsabilidade pessoal. Na minha maneira de avaliar a situação atual tenho a impressão de assistir também a uma guerra interna contra a nossa cultura.
    Quem diz sim ao “não matarás” já é considerado perigoso para o nosso sistema político-social interessado em fazer da nossa sociedade um átrio de casernas militares. O cérebro e o coração das pessoas passam a girar em torno da guerra como se esta fosse o meio de construir humanidade ou justiça. Fomenta-se a vontade de ir para a guerra como se guerra fosse a solução dos problemas humanos! (Conheço um português cristão que se queria alistar para ir combater na Ucrânia e pelo que pude observar o seu empenho e vontade adquiriu-a através da informação transmitida na TV!)
    Esperemos que Putin aprenda das lições que tem recebido e que o espírito guerreiro fomentado no Ocidente abrande de tal modo a possibilitarem-se convenções que assegurem a paz pelo menos por outros 70 anos!
    Grande abraço

  3. A Europa tem de se enxergar dentro dela mesma e aí encontrará a Ucrânia com a Rússia, só assim conseguirá sair desse limbo patrocinado pela OTAN/NATO forçado pelos EUA.
    In Forum Elos

  4. Texto muito esclarecedor.
    Obrigada.
    Seria ideal se a Europa conseguisse viver com a Russia sem viver contra os USA. Mas penso que tão cedo isso não irá acontecer porque o espírito Gorbatchov perdeu-se e para a Europa seria estigmatisante unir-se à Rússia devido à sua
    História recente.

  5. Em paz com todos, e paz entre todos, é desejável
    Contra a guerra, contra a destruição da UCRÂNIA, e contra as mortes e o terrível sofrimento que provoca, mas não contra a Rússia, só o governo é responsável pela invasão, e as mães russas, também choram os seus filhos

  6. Alaya Torga, é verdade! O que os guerreiros não têm em conta nos conflitos bélicos é o sofrimento do povo e recorrem à barbaridade de sacrificarem o povo que apenas pretende viver em paz, vendo-se sacrificados em nome de interesses alheios

  7. A análise que propõe, que li com proveito, não desvia a minha atenção de um terrível facto: um país invadiu outro país, provocando mortes e destruições maciças inenarráveis. Relativamente a Cirilo, uma pergunta: leu a homilia deste supremo hierarca ortodoxo no início da Quaresma? Eu li, em francês e fiquei esclarecido, A Teixeira Coelho

  8. António Coelho, procuro refelctir, não procuro confissões por este ou por aquele; esse será o objectivo dos narradores da corte de um lado ou do outro! Quanto a opiniões que pretendem fixar a sua atitude baseando-se num acontecimento pontual ou apenas numa só narrativa estabelecendo uma lógica ou ordem causal a partir dele/a respeito-as mas essa lógica torna-se relativa. É a mesma lógica que condena os USA pela mentira que usou para intervir militarmente no Iraque, sem legitimação sequer da ONU. Uma lógica de barricada mantem o mundo cada vez mais na mesma, porque cada qual se encontra bem e justificavelmente na sua e como tal com razões para erguer a própria pistola contra o que considera adversário! Assim se justifica uma cultura de guerra, porque cada um se agarra à sua lógica de ter de vencer! https://antonio-justo.eu/?p=7509

  9. António Coelho Tem toda a razão, mas há quem prefira embrulhar, embrulhar, e não encarar a realidade.

  10. Fernando Ramos Machado, há quem procura pensar e não só seguir uma narrativa; é porém preciso ter compreensão para com todos porque cada um vê à medida do que lhe é dado ver e além do mais pensar faz doer! Gostaria de saber a razão que o leva a embrulhar o meu texto de maneira a ter no seu embrulho o próprio peixe, sem precisar de argumentar dado, pretender reduzir a realidade ao que pensa que ela é!

  11. Interessante: Quem pensa e pensa diferente, questiona o que diz o texto, com o qual não concordo m, como tem acontecido ultimamente. O que lamento, pois gostava do que o Justo escrevia. Enfim…
    Dizia eu, quem não concorda, “embrulha”. A democracia por aqui é muito interessante. Tenho observado e assistido a textos, observações e comentários deveras interessantes. Mas no meu mundo democrático há lugar para todos, só não permito “areia nos meus olhos

  12. Carla Moita, está a querer fazer embrulho do que usei no próprio texto em relação ao embrulho em que o senhor Fernado Machado tentou meter-me para não ter de argumentar! Se questionassem o texto seria o que eu esperaria, mas dizer eu não concordo não é razão, apenas confissão como quem apenas quer cuspir no prato do vizinho! Interessante seria argumentar primeiramente contra a tese de fundo em que elaboro o texto e depois seguir afirmação por afirmação e contestá-la. Assim eu poderia aprender alguma coisa. Agora, para tentar entrar no seu discurso, como define o seu mundo democrático e o que define como areia que não entra nos seus olhos! Doutro modo dá a impressão que o seu mundo democrático é muito próprio e só tem lugar para a sua opinião e definição. Eu não ando à procura de adeptos porque penso que cada qual tem o direito de escolher o seu clube e fazer as suas avaliações; quanto a mim sinto-me apenas como pessoa que não é dono da verdade e por isso se põe a caminho no sentido de procurar resposta para o importante que é a pergunta que faço em cima: “Que fazemos para superar o ódio e a desconfiança? Esquecemos que uma boa medida de desconfiança em relação às instituições estatais e suas ajudantes é a característica necessária que impulsiona a responsabilidade necessária para o bem comum e para uma sociedade criteriosa e equilibrada!…” Não percebo a razão do incómodo que causo com os meus pensamentos e apesar de tudo se sente na necessidade de tentar ordenar o que escrevo no sentido que lhe convém mas que não é o do artigo! Lamento mas não sigo o pensar das massas como querem os sistemas de poder sejam eles do oriente ou do ocidente! Para isso teria que me subjugar aos programas de informação dos partidos rivais. Nós que nos dizemos amantes da paz, que fazemos para superar o ódio e a desconfiança?

  13. António Cunha Duarte Justo, pensar não dói! No pensamento sou livre! Nada é mais maravilhoso! Agora, pensar com lógica! E apesar de afirmar constantemente, que pretende com os seus textos abrir caminhos para diferentes formas de pensar, eu leio aqui sempre as mesmas. Sempre!! Quase uma doutrina. Permita-me a sinceridade. E poucas ideias novas. Acontecimentos históricos de um passado longínquo, que nada têm a ver com o que se está a passar. Mas sei bem, que o Justo não é o único a seguir esta “doutrina”. Há dias assisti a um debate, onde estava uma senhora, que dizia ipsis verbis o que o Justo aqui escreve. Posso enviar-lhe o link. Muito interessante… mas percebi que é um grupo. Ok. Fiquei mais aliviada.

  14. Carla Moita , o pensamento faz doer no momento em que ele não vai de acordo à rotina e ao comodismo e começa a admitir que há várias lógicas mas o seguimento da razão leva-nos por vezes a reconhecer que o que se pensava precisa de aferimento e exige muito esforço até se poder tirtar conclusões queridas certas! Tenho a impressão que nos meus textos há alguma frase que a arrelia e já lhe não deixa distância para ver o conjunto do que é dito! Ainda não percebi a razão porque vem aqui à minha página; será masoquismo ou vontade de cuspir no meu prato! Não desejo links porque gosto de pensar por minha cabeça! Eu procuro refectir aqui de maneira a que as pessoas não engulam o que a guerra da informação nos quer fazer acreditar (seja numa perspectiva ou na outra); se aqui apresento aspectos que parecem favorcer o adversário é coisa para ser entendida por quem já não tem partido declarado e para quem já enjoa os meios a que estamos dispostos (para entender isto do que as sociedades se servem para manipular basta ver a série “Servidor do Povo”: a manipulação tanto se usa do endeusamento como da demonização. Confesso porém que a tese que defendo é a da Europa e não apenas dos USA/NATO, Ucrânia ou Rússia. A Rússia e a Ucrânia fazem parte da Europa e a mim a maior dor é verificar o sofrimento de tanta gente a morrer e a ter de abandonar as suas terras e por outro lado uma Europa feita da parte ocidental e oriental (também Rússia e Ucrânia) se combaterem como se andassem numa guerra tribal e muitos não se dão conta de que nos encontramos numa guerra da informação e que grande parte do povo não tem ideia própria, basta-lhe a opinião da TV e deste modo deixa-se envolver numa luta instintiva, uma luta em favor da guerra e não da paz!

  15. Boa analise. No fundo, a população tem sido massificada e alienada, dentro de uma sono dogmático. Para relembrar o celebre pensar de Kant, o qual afirmou que Hume o acordou do sono dogmático.

  16. António Cunha Duarte Justo, eu não vou argumentar consigo, porque não tenho tempo, nem paciência. Aliás, não sei por que razão o mantenho ainda na minha lista de “amigos” no FB.

  17. Fernando Ramos Machado, talvez eu o tenha entendido mal na palavra embrulhar por ter lido superficialmente a sua frase, que li como se referindo a mim! Se foi isso peço-lhe desculpa! Uma das razões de ser um pouco impaciente com alguns comentadores deve-se ao facto de, em vez de se referirem ao artigo que escrevo, apenas mostram insatisfação por eu não repetir a cassete das TVs a que estão acostumados. Naturalmente que também a cassete tem os seus pontos válidos, mas para se entrar em diálogo é preciso então entrar em diferenciação.

  18. António Cunha Duarte Justo, não tem de pedir desculpa. De facto, não o mencionei, mas não vou negar que te há pensado em si e em todos os que escrevem prosas intermináveis, sobretudo quando exprimem opiniões das quais divirjo radicalmente. Para mim, o FB é, essencialmente,. espaço lúdico e cultural. Não é para tiradas filosóficas, políticas, religiosas. O tempo que dedico ao FB é relativamente reduzido, mas implica sacrifício de outras actividades mais interessantes.
    Quanto a embrulhar, é mais ou menos o mesmo que enrolar ou, melhor, mastigar, tiradas e argumentações intermináveis, sempre em defesa dos inalterados dogmas.
    Não vale a pena responder a este comentário porque, por mim, não vai haver debate.

  19. Fernando Ramos Machado, não respondo; apenas confesso porque vejo algo de comum. Também uso o FB sobretudo para colocar artigos meus que são publicados noutros lados e porque também penso que faz bem à generalidade das pessoas não só falar do dia a dia! É importante que todos, à sua maneira, se empenhem no sentido de acordarem e também darem o seu contributo para abanar a sociedade do sono dogmático seja ele político ou religioso, na tradição dos velhos filósofos! Assim podemos mantermo-nos todos acordados, independentemente da cama em que nos encontremos!

  20. Pergunta lógica: se a Guerra é entre os EUA e a Russia, porquê esta ataca e destrói a Ucrania e não os EUA?
    em FB

  21. Manuel Campos, certamente porque as grandes potências não querem guerra na própria casa mas na casa dos outros! A Ucrânia além de ter a europa do leste e a europa ocidental dentro dela, ou talvez por isso, tornou-se no cavalo troiano das potências rivais!
    Essa dos dois países em guerra (Rússia e Ucrânia) é a narrativa que nos venderam e de forma bem empacotada! Precisamente porque a posião dos que defendem unilateralmente a Rússia se iguala à dos que defendem a posição dos EUA e a do Ocidente em que nos encontramos é dogmática é bem necessário que se levante a voz crítica dos que desejam um Ocidente na continuação dos filósofos como Kant, etc.!

  22. Os EUA querem confrontar-se com a Rússia, mas fazem-no indiretamente através da Ucrânia (para evitar uma guerra nuclear). A Ucrânia serve, assim de „Proxy“ (isto é, de „Outsourcer“) dos EUA, que assim não arriscam quase nada e só têm a ganhar (venda de armas, gás, reforço da NATO, etc.). E as sanções são também „outsourced“ para as costas dos europeus…
    FB

  23. António Cunha Duarte Justo, exato, pois são eles que mais lucram com a mesma! E nós, europeus, caímos na cilada que nem uns patinhos…

  24. Vasco Esteves, muitos caíram na esparrela de identificarem os interesses da Europa com os interesses da EU/USA! Por isso identificam quem defende os interesses de uma Europa inteira com os interesses da Rússia. Este equívoco é fomentado por uma imprensa que se diz livre mas que se dignou proibir estações de imprensa russa (por exemplo em Berlim) para não admitir objecção à própria política informativa. Que na Rússia se faça uso desse recurso já era conhecido, mas que um ocidente chegasse a atitudes semelhantes é que deveria constiztuir escândalo, mas não; do lado da Rússia o povo expressa a cassete do sistema e do lado do ocidente grande parte do povo repete a cassete que o sistema lhe sugere.!

  25. António Cunha Duarte Justo, à custa disto já pagamos a energia mais cara e do outro lado do Atlântico esfregam as mãos de contentes. Pobres Ucranianos
    in FB

  26. António Cunha Duarte Justo o nós não me preocupa, o que me preocupa é quem se deixou levar por promessas vãs que levaram a isto. E esses estão a cair que nem moscas. Quem tudo fez para que isto chegasse onde chegou arma-se em combatente da liberdade e em virgem ofendida. Recomendo a entrevista do ex Presidente do Uruguai à Al-Jazeera. Contundente e mete o dedo na ferida em muitos assuntos.

  27. Quem invadiu a Ucrânia.., foi a Rússia.. a Rússia invadiu a Ucrânia…e está a destruir indiscriminadamente, a matar, a violar… A destruir escolas… Hospitais…. Creches..zonas residenciais… Não tente ” dourar a pílula” e fazer das pessoas parvas.
    FB

  28. Amâncio Fernandes Antunes, este não é o tema! Penso que as pessoas não são parvas porque fazem uso da razão! Quanto a opiniões serão de respeitar e dependem naturalmente das informações ou fontes de informações a que têm acesso!

  29. António Cunha Duarte Justo as opiniões são de respeitar quando não implicam com mortes, destruição, violação, roubos. Se alguém deitar fogo à sua casa … Também respeita…..Deixe-se de tretas que se percebe bem onde quer chegar…
    FB

  30. António Cunha Duarte Justo neste caso querer dividir culpas é o mesmo que defender o agressor…..mas está a ver que tenho razão….. você defende o agressor… Por uma questão ideologica… Que nem o é bem .. uma vez que ele tanto apoia a extrema direita com apoia o PC. Vocês é que têm que se definir….o que realmente são… E o que querem…. O contributo que deram para depor o antigo regime… Esbanjaram tudo… A história vos julgará. E o eleitorado também… Aliás já o começou a fazer

  31. Amâncio Fernandes Antunes, leia o artigo antes de chegar a conclusões erradas e querer ordenar o outro nas suas gavetas! Nessa lógica tem de ter razão mesmo em questões complexas que não se poderiam reduzir a uma cartilha nem a uma realidade concebida só a preto e branco! Não contesto o seu direito a opinar e respeito a sua ideologia, o que não aceito é ser enredado de maneira pessoal ou ser enquadrado em esquemas criados por si; isto simplesmente porque não me sinto soldado de ninguém nem tão-pouco quero ser metido numa caserna, encontre-se ela na Rússia ou na OTAN! Não visto a farda de ninguém, o que não abdico é do direito de pensar pela própria cabeça e não pela dos outros!
    O problema situa-se no facto de a narrativa contada pelos nossos Media só ter começado apenas com a intervenção russa de 24 de Fevereiro e essa foi a esperteza da estratégia seguida pelos nossos guerreioros dos Media e assim a população só sabe da intrervenção russa sem conhecer sequer o início da meada. Encontramo-nos numa guerra bem engendrada também pelos Media e agora olhe-se para onde se olhar só se veem soldados!

  32. António Cunha Duarte Justo, caro amigo, primeiro: é facto indesmentível que Moscovo invadiu um país vizinho; segundo, colocar-se unilateralmente ao lado da Rússia é diferente de se colocar ao lado do mundo livre e democrático. A Rússia não o é, há muito, quando pela força integrou no império outros países e territórios. Claro, foi também alvo de ataques e domínio por outros impérios. Mas, isso é outra história.
    FB

  33. Importante artigo:

    “SE NÃO ACABARMOS COM A GUERRA, A GUERRA ACABARÁ CONOSCO” | H. G. WELLS | Artigo de Alastair Crooke
    2022/06/17 by Das Culturas

    Em mais uma inadmissível tentativa de CENSURA, o FB não deixa transcrever o link da revista Strategic Culture em que vem este artigo, mas fazendo a tradução, sem o link – como fizemos – é possível levá-lo ao conhecimento dos leitores. Aqui fica, portanto. Leia, antes que o bloqueiem:

    “A Europa agora está presa “até às goelas” com amplas sanções económicas à Rússia e incapaz de enfrentar as consequências.

    Emmanuel Macron irritou muita gente (assim como Kissinger fez no WEF), quando disse: ‘não devemos humilhar Vladimir Putin’, porque deve haver um acordo negociado.

    Esta tem sido a política francesa desde o início desta saga. Mais importante, é a política franco-alemã e, portanto, pode acabar também por tornar-se política da UE.

    A qualificação “pode” é importante – como na política da Ucrânia, a UE está mais rancorosamente dividida do que durante a Guerra do Iraque. E em um sistema (o sistema da UE) que insiste estruturalmente no consenso (por mais que ele seja fabricado), quando as feridas são profundas, a consequência é que uma questão pode travar todo o sistema (como ocorreu no período que antecedeu a guerra do Iraque). Ora a verdade é que as fraturas na Europa hoje são mais amplas e mais amargas (ou seja, acerbadas pelas forças do Estado de Direito).

    Embora o rótulo “realista” tenha adquirido (nas circunstâncias atuais) a conotação de “apaziguamento”, o que Macron simplesmente está dizendo é que o Ocidente não pode e não irá manter seu atual nível de apoio à Ucrânia indefinidamente.

    A política está se intrometendo em todos os estados europeus. Na Alemanha, na França e também na Itália, há um conjunto de opiniões contra a continuação do envolvimento no conflito. Simplesmente, o iminente desastre do comboio económico está se tornando muito aparente e ameaçador.

    O difícil caminho de Boris Johnson no recente voto de confiança pode não ter sido explicitamente ligado à Ucrânia, mas as acusações subjacentes às políticas Net Zero de Johnson (vistas pelos eleitores conservadores como socialismo disfarçado), imigração e aumento do custo de vida, no entanto, certamente estão.

    Claro que ‘uma andorinha só não faz a primavera’. Mas o dramático colapso do apoio popular a Johnson, resultante de sua beligerância económica em relação à Rússia, está levando a liderança europeia a uma reviravolta. “Estamos vendo pânico na Europa devido à Ucrânia”, observou o presidente Erdogan.

    O que é notável é que, apesar de Macron abraçar a “autonomia estratégica europeia” ao pedir um acordo, ele pode estar hoje mais perto de Washington do que os falcões de Londres.

    Sim, no início, a palavra ‘acordo’ estava vagamente presente no discurso americano, mas depois seguiu-se um longo hiato em que, por cerca de dois meses e meio, a narrativa tornou-se única: a necessidade de sangrar o nariz de Putin.

    Agora, o humor dos EUA – a narrativa – está mudando, aparentemente reconciliado com mais más notícias militares que emanam da Ucrânia (até mesmo o quase neoconservador Edward Luttwak jogou a toalha, dizendo que a Rússia vencerá e que o Donbass deveria ter uma palavra a dizer no seu próprio destino).

    A adesão de Johnson à Ucrânia é vista como uma tentativa desesperada de convocar o legado da Guerra das Malvinas de Margaret Thatcher (Thatcher enfrentou inflação crescente e raiva doméstica crescente por sua agenda, mas o conflito vitorioso sobre a Argentina em 1982 ajudou a fortalecê-la para a reeleição) ,

    “Falar da crise da Ucrânia proporcionando um ‘momento das Malvinas’ para Johnson – no entanto – é simplesmente uma miragem para conservadores desesperados”, escreveu Steven Fielding, professor de história política da Universidade de Nottingham. Pode revelar-se miragem para Bruxelas também.

    Se há algo a ser dito sobre o apelo de Macron a uma solução negociada, é que mesmo um acordo de cessar-fogo limitado – o que provavelmente é o que Macron tem em mente – não seria viável nesta tóxica e polarizada atmosfera ocidental. De bermuda, Macron está ‘por cima dos esquis’. Patos (para misturar metáforas) primeiro precisam de ficar alinhados antes de avançar:

    A América precisaria retroceder seu même vicioso de ‘ódio a Putin’. Eles precisariam direcionar as mensagens para uma “viragem” sobre a ‘vitória’ que poderia ser associada a uma conversa com Putin; caso contrário, o próprio ato de conversar com o ‘malvado Putin’ sairá pela culatra em uma enxurrada de acrimónia pública. Macron acabou de experimentar isso mesmo.

    Uma certa redefinição já começou (por design ou tédio do leitor). As notícias da Ucrânia dificilmente podem ser classificadas como estando “acima da média” nos mídia dos EUA hoje.

    Pesquisas e links de “guerra” do Google caíram de um penhasco. De qualquer forma, o Partido Democrata claramente precisa se concentrar nas questões domésticas – inflação, armas de fogo e aborto – as questões que dominarão as eleições de meio de mandato.

    A questão é esta – a UE está claramente fraturada, mas as elites de segurança americanas também.

    Talvez um impasse prolongado, uma guerra de atrito, mantendo a Rússia e a Europa Ocidental engajadas uma contra a outra, seja preferível (principalmente por um Biden emocionalmente engajado) a um ‘acordo’;

    mas uma guerra longa pode não estar mais disponível (sobretudo se, como sugere Luttwak, a Rússia estiver à beira de vencer).

    E Biden, se ele optasse por tentar um “acordo” com a Ucrânia, seria capaz de sustentar – politicamente – algo menos do que um acordo apresentado como uma clara “vitória” dos EUA? Isso é mesmo uma opção agora? Quase certamente não. Moscovo não está de bom humor.

    Entretanto. uma oferta de negociações por parte de Biden conteria algum núcleo de valor a ser considerado da perspectiva russa? Quase certamente não. Se não, o que há então para falar?

    Moscovo diz estar aberta a negociações com Kyiv. O Kremlin, no entanto, não está procurando uma “saída” (a opinião pública está totalmente contra isso).

    Chame-se a isso de ‘conversas, se quisermos, mas uma tradução melhor poderá ser que Moscovo está pronta para aceitar o ‘documento de rendição’ de Zelensky sob a rubrica de ‘conversas’; ora isso não é fácil de vender ao cético eleitorado americano como sendo uma “vitória”.

    Em certo sentido, a fórmula “longa guerra de desgaste” traz consigo embutida uma ideia “fracasso” – pois não foi o desgaste militar, mas a guerra financeira que foi configurada como “primeira linha de ataque” do Ocidente.

    O “rublo se tornaria escombros” quase que imediatamente, à medida que a guerra económica de amplo espectro desmoronaria estruturalmente a Rússia (derrubando sua vontade de lutar na Ucrânia). Esperava-se que o aviso daí decorrente à China (e outros, como a Índia) fosse severo.

    Pelo menos esse era o plano pré-guerra. A ação militar nunca teve a intenção de ser um “levantamento pesado” para esmagar a Rússia, mas sim atuar como o amplificador do descontentamento doméstico à medida que a economia da Rússia desmoronasse sob sanções sem precedentes.

    Uma insurgência do Donbas, planejada e preparada ao longo de oito anos, nunca deveria ter um “papel de estrela”, precisamente porque os EUA sempre imaginaram que as forças russas acabariam prevalecendo. No entanto, tornou-se “o único jogo na cidade”.

    Mas a guerra financeira, na qual se basearam as esperanças de um rápido colapso russo, não apenas fracassou, como paradoxalmente se virou no sentido oposto para ferir gravemente a Europa.

    Isso, e o colapso do ‘esprit de corps’ ucraniano, tornaram-se um albatroz pendurado no pescoço da UE. Não há como fugir das sanções, nem da iminência da implosão militar ucraniana, sem que a Rússia emerja como “vencedor” claro.

    É um desastre (por mais que os ‘artistas de spin’ torçam e tentem mudar isso).

    Sem surpresa, então, os líderes europeus estão procurando uma saída para os efeitos nocivos das políticas que eles – a UE – adotaram tão rapidamente, sem sequer se preocupar em fazer o trabalho de casa.

    Mas o ponto aqui é muito mais grave: mesmo que houvesse conversas mais amplas (digamos) na próxima semana, o Ocidente pode mesmo teoricamente concordar com o que poderia dizer a Putin?

    Tem, pelo menos, feito a devida diligência sobre como a Rússia, por sua vez, definiria sua visão para o futuro eurásia? E em caso afirmativo, os negociadores europeus teriam o mandato político para responder, ou as negociações entrariam em colapso porque a Europa não pode responder a nenhum mandato de negociação, além de um estritamente limitado a questões da futura composição da Ucrânia?

    A Rússia, de fato, estabeleceu claramente seus objetivos estratégicos. Em dezembro de 2021, a Rússia emitiu dois projetos de tratados para os EUA e a OTAN, que incluíam uma arquitetura de segurança na Europa que garantisse segurança indivisível para todos e uma retirada da OTAN para seus antigos limites orientais de 1997.

    Esses documentos sublinham que a Ucrânia é apenas uma pequena parte dos objetivos estratégicos mais amplos da Rússia. Os dois rascunhos foram ignorados em Washington.

    A guerra da Ucrânia, em princípio, poderia ser encerrada por meio de um acordo negociado que abordasse as preocupações de segurança mais amplas da Rússia em toda a extensão da Europa, mantendo a independência da Ucrânia – embora com o nordeste, leste e sul ucranianos ligados em alguma configuração à Rússia, ou absorvidos por ela.

    Mas há a realidade de que a UE transferiu seu mandato político em relação à Ucrânia para uma OTAN abrangente.

    E o objetivo claro desta última é excluir a Rússia do “tabuleiro de xadrez” político mundial como jogador e implodir a economia russa – devolver a Rússia à era Ieltsin, por outras palavras.

    Como tal, os objetivos da OTAN não têm espaço para o diálogo.

    A “longa guerra” de Moscovo também deve ser entendida corretamente – não se trata apenas de ameaças à segurança que emanam da Ucrânia, mas da ameaça à segurança que emana de uma cultura, autodefinida como uma “civilização” ocidental auocomplacente:

    Christopher Dawson em Religion and the Rise of Western Culture, escrito há quase um século, escreve: “Por que a Europa sozinha entre as civilizações do mundo tem sido continuamente abalada e transformada por uma energia de inquietação espiritual que se recusa a se contentar com a lei imutável da tradição social que rege as culturas orientais? É porque o ideal religioso não foi o culto da perfeição atemporal e imutável, mas um espírito que se esforça por incorporar-se à humanidade e mudar o mundo”?

    Os líderes europeus que contemplam um “acordo” entendem que, concordando ou não, este último resume a percepção popular russa? E que vencer na Ucrânia é visto como o gatilho catártico necessário para relançar as civilizações russas e outras não ocidentais?

    A questão então se torna: a União Europeia tem uma mão a jogar em tal cenário, separada da de Washington? Na verdade não; não tem locus.

    A UE não tem locus – pois – como Wolfgang Streeck observou em seu ensaio sobre “A UE depois da Ucrânia”, os estados da Europa Ocidental, aparentemente como uma coisa natural (ou seja, sem reflexão mais profunda), concordaram “deixar Biden decidir em seu nome – o destino da Europa dependerá do destino de Biden: isto é, das decisões, ou não, do governo dos EUA”.

    A UE, assim, situa-se efetivamente como uma província atípica, dentro da política doméstica americana.

    Algumas elites da UE triunfaram: a Ucrânia fixou a UE inequivocamente como “Atlanticista do Norte”, ponto final. Mas por que a alegria?

    É verdade que a guerra na Ucrânia pode (temporariamente) ter neutralizado as várias falhas onde a UE estava desmoronando. Há algum tempo, a Comissão da UE tem envidado esforços para suprir o vazio democrático decorrente da centralização e despolitização de fato da economia política da União, preenchendo a lacuna com uma “política de valores” neoliberal a ser rigorosamente aplicada pela UE – sobre os Estados membros recalcitrantes – através de sanções económicas.

    Os direitos de identidade, segundo essa interpretação, serviriam como substituto dos debates sobre economia política, com o cumprimento de valores a serem impostos aos Estados-membros por meio de sanções económicas (Estado de Direito).

    Não é difícil ver como a Ucrânia pode ter se solidarizado com a determinação de Ursula von der Leyen de fazer valer os valores da UE, não apenas em pessoas como Orbán, mas como uma ferramenta para erradicar sentimentos pró-Rússia remanescentes em uma UE facciosa e firmemente plantar O Atlântico Norte como valor primordial da UE. Sancionar a Rússia e suas noções tradicionalistas estava em perfeita harmonia com sancionar os estados do Leste Europeu também por seu tradicionalismo social.

    No entanto, isso teve um custo – o custo de catapultar os Estados Unidos para uma posição de hegemonia renovada sobre a Europa Ocidental. Isso forçou a Europa a continuar com sanções económicas abrangentes, de fato incapacitantes, contra a Rússia, o que, como efeito colateral, reforça a posição de domínio dos EUA como fornecedor de energia e matérias-primas para a Europa.

    Isso descarta completamente as ideias de Macron de que a UE precisa de uma “soberania estratégica europeia” que possa mitigar as preocupações legítimas de segurança da Rússia. A Europa agora está presa “até à goelas” com amplas sanções económicas à Rússia e incapaz de enfrentar as consequências.

    Não há literalmente “nenhuma maneira” de que a inflação estrutural resultante ou a contração económica possam, ou serão, contidas.

    A UE abdicou dos meios para pôr fim à guerra. Apenas compartilhar uma mesa enquanto Zelensky assina o documento de rendição.

    Não haverá nenhuma tentativa séria nos EUA antes de novembro, mesmo para tentar conter a inflação. A consequência dessa rendição da UE ao Comando dos EUA é que, também em relação à inflação, a UE dependerá das mudanças indiretas da política eleitoral dos EUA.

    É tão possível que Biden ordene uma nova emissão de ‘cheques stimmie’ para mitigar os efeitos da inflação nos bolsos americanos (assim acelerando ainda mais a inflação), como é provável que ele permita o Quantitative Tightening (destinado a reduzir a inflação) na corrida até ao meio-mandato.

    À medida que os efeitos da guerra se instalarem, eles trarão uma séria reação contra Bruxelas.”

    Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino

  34. A CASA EUROPEIA ESTÁ A SER DESTRUÍDA ANTES DE SER CONCLUÍDA

    Extractos do discurso de Vladimir Putin no Bundestag alemão em 25.09.2001 (1):
    Ninguém duvida do grande valor das relações da Europa com os Estados Unidos. Mas acredito que, a longo prazo, a Europa só consolidará a sua reputação como um centro poderoso e independente da política mundial ao unir as suas próprias capacidades com os recursos humanos, territoriais e naturais da Rússia, bem como com os seus potenciais económicos, culturais e de defesa.
    … A Rússia é um país europeu amigável. Para o nosso país, que atravessou um século de catástrofes de guerra, o principal objectivo é uma paz estável no continente.
    …Por vezes exigimos lealdade à OTAN, por vezes discutimos sobre a oportunidade da sua expansão. Ainda não conseguimos chegar a acordo sobre os problemas relacionados com o sistema de defesa antimísseis, etc.
    …Os fanáticos religiosos lançaram um ataque armado descarado e em larga escala contra a vizinha república do Daguestão, após terem tomado o poder na Chechénia e transformado cidadãos comuns em reféns. Os terroristas internacionais anunciaram abertamente – muito abertamente – as suas intenções sobre a criação de um novo estado fundamentalista entre os mares Negro e Cáspio, o chamado Halifat ou Estados Unidos do Islão.
    … Hoje em dia, as decisões são por vezes tomadas sem nós. É-nos então pedido enfaticamente que os confirmemos. Depois as pessoas voltam a falar de lealdade à OTAN….
    …Não há muito tempo, parecia que em breve surgiria no continente uma verdadeira casa comum, na qual os europeus não estariam divididos entre oriental e ocidental, norte e sul. Contudo, tais linhas divisórias permanecem, e isto porque ainda não nos libertámos finalmente de muitos estereótipos e clichés ideológicos da Guerra Fria.
    Hoje devemos declarar com certeza e de forma definitiva: A Guerra Fria terminou….
    …Nós compreendemos: Sem uma arquitectura de segurança internacional moderna, duradoura e estável, nunca criaremos um clima de confiança neste continente, e sem este clima de confiança, nenhuma Grande Europa unificada é possível.
    … O principal objectivo da política interna da Rússia é, acima de tudo, garantir os direitos democráticos e a liberdade, melhorar o nível de vida e a segurança do povo.
    … A estabilidade política na Rússia é assegurada graças a vários factores económicos, nomeadamente um dos sistemas fiscais mais liberais do mundo. Com um imposto sobre o rendimento de 13% e um imposto sobre os lucros de 24%, é mesmo!
    … No orçamento de 2002, as despesas sociais ocupam o primeiro lugar. Gostaria de salientar em particular que, pela primeira vez na história da Rússia, as despesas com a educação excedem as despesas com a defesa.
    … Estou convencido que hoje estamos a virar uma nova página na história das nossas relações bilaterais e que estamos a dar o nosso contributo conjunto para a construção da casa europeia.
    … É claro que estamos no início da construção de uma sociedade democrática e de uma economia de mercado. Neste caminho, temos muitos obstáculos e obstáculos a ultrapassar. Mas para além dos problemas objectivos e apesar de algumas – muito sinceramente e honestamente – falta de jeito, por baixo de tudo isto bate o coração forte e vivo da Rússia, que está aberta à plena cooperação e parceria.
    Agradeço-vos…

    (1) Extractos do discurso original em alemão (ver link) que escolhi e traduzi através de um programa da Internet:
    https://www.bundestag.de/parlament/geschichte/gastredner/putin/putin_wort-244966

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