BENTO XVI CRITICA OS REPRESENTANTES DA IGREJA CATÓLICA NA ALEMANHA

Além de Funcionários Pessoas de Fé

António Justo

As palavras do Papa emérito, proferidas numa entrevista (“Últimas Conversas”), com o jornalista Tobias Winstel, publicada no ” Herder Korrespondenz„ causaram um certo desconforto e irritação nos meios alemães e polémica na igreja católica.

Bento XVI assumiu um tom surpreendentemente crítico em relação à “igreja oficial” (Amtskirche)  e advertiu para o perigo de uma igreja e doutrina sem fé. “A doutrina deve desenvolver-se na e da fé, não ficar ao lado dela”.

Bento XVI responsabiliza os representantes da Igreja Católica pelo “êxodo do mundo da fé”(abandono da igreja) e lamenta que nos textos oficiais da Igreja só fale o cargo – não o coração e o espírito:  “Enquanto apenas a repartição, mas não o coração e o espírito, falar em textos oficiais da igreja, o êxodo do mundo da fé continuará”. Ele espera “um verdadeiro testemunho pessoal de fé por parte dos porta-vozes da igreja”. Também constata: “Nas instituições eclesiásticas – hospitais, escolas, Caritas – muitas pessoas estão envolvidas em posições decisivas, mas não partilham a missão interior da igreja e assim muitas vezes obscurecem o testemunho desta instituição (1).”

Ao fazer isso, ele critica, indiretamente, também o conflito entre as forças orientadas para a reforma (liberais) e as forças conservadoras. As divergências manifestam-se e são cada vez mais latentes no episcopado e em diferentes grupos de leigos.

Conservadores e Reformadores encontram-se organizados sobretudo nas organizações “Nós somos Igreja” e no “Fórum dos Católicos Alemães”.

“Nós somos Igreja” é uma organização liberal de católicos reformadores, resultante de uma petição (de 2,3 milhões de católicos na Áustria e na Alemanha) para reformas na Igreja e que se formou em 1995; os conservadores, cinco anos depois, organizaram-se no  “Fórum dos Católicos Alemães” (2). Além destas sobressai na opinião pública o grupo reformista de mulheres “Maria 2” e o grupo “O Caminho”.

Já numa entrevista anterior, Bento XVI tinha também questionado o sistema do imposto para a Igreja (3).

Neste contexto, também se distancia da escolha das palavras do seu famoso “discurso de Friburgo”, no qual tinha apelado à “retirada da Igreja católica do mundo” (desmundanização) (4).

Há um receio fundado de os conservadores na Igreja se servirem disto para resistirem à renovação iniciada pelo Papa Francisco.

Enfim, uma questão contenciosa, dado Bento XVI se pronunciar sobre política da igreja. De facto, na Alemanha grupos de católicos conservadores e liberais e bispos conservadores (em torno do Cardeal Woilki) e bispos reformistas (em torno do Cardeal Marx) não são moderados nas suas posições, o que pode não ser benéfico para a Igreja Católica global, devido à influência que a igreja católica alemã tem.   

O Papa emérito, que tinha prometido viver “escondido do mundo”, talvez, como alemão e devido à excitação actual na igreja alemã, se sentisse agora necessitado a proporcionar, aos representantes da igreja alemã e aos organizadores das alas católicas, mais reflexão e a serem “verdadeiro testemunho pessoal de fé”.

No meio de tudo isto, o apóstolo Paulo continua a advertir: «Se um membro sofre, todos sofrem com ele; e se um membro é homenageado, todos se alegram com ele. Vós sois o corpo de Cristo e cada um no seu lugar faz parte dele» (1Cor 12,26-27).

António CD Justo

Pegadas do Tempo

 

  • (1) Pelo que me foi dado observar em instituições da Igreja na Alemanha, admirou-me o facto de a própria Igreja ser tão livre que empregava pessoal  (Caritas) que promovia, a partir dela, organizações políticas contra ela mesma.
  • (2)  Resumindo, Reformadores e conservadores : um e outro movimento são independentes e movem-se, a nível de organização, à margem da Igreja estabelecida na Alemanha. Não pertencem ao Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK), que é o órgão representativo dos católicos reconhecidos pelos bispos (https://www.katholisch.de/artikel/27003-konservative-reformer-ein-blick-auf-die-fluegel-der-deutschen-kirche).

O “Fórum dos Católicos Alemães” quer reformas, mas sente-se como porta-voz de católicos conscientes da tradição. No seu Congresso “Alegria de Fé” de 2019, foi aprovada uma resolução que criticava um “cudgel de ‘politicamente correcto'” em negociações públicas, a “rádio estatal financiada coercivamente” e alegadas sanções para os críticos do governo. O Fórum tem o seu próprio portal kath.net na Áustria, por exemplo, ou o semanário “Die Tagespost” em Würzburg .

O agrupamento „Somos Igreja” sente-se como a ponta de lança daqueles que exigem o pleno acesso das mulheres a todos os cargos, a abolição do celibato obrigatório para os padres, uma moral sexual mais liberal e mais digna dos fiéis. São críticos relativamente aos papas Bento XVI e João Paulo II e vêm agora no Papa Francisco um farol de esperança. No primeiro Congresso da Igreja Ecuménica em Berlim, em 2003, organizaram uma missa católica numa igreja protestante onde os não-católicos foram explicitamente convidados a comungar, o que é oficialmente proibido. Os sacerdotes envolvidos foram posteriormente suspensos.

Com a eleição de Bätzing, para presidente da Conferência episcopal alemã, os bispos confiam na continuidade do curso do Cardeal Marx, bastante liberal que apoia o “caminho sinodal” com o qual a Igreja Católica na Alemanha quer aceitar o seu escândalo de abusos. Os bispos conservadores em torno do Cardeal Rainer Maria Woelki de Colónia criticam duramente este fórum. Baetzing também se pronunciou a favor da reconsideração do celibato obrigatório para sacerdotes.

  • (3)  “Tenho de facto grandes dúvidas se o sistema fiscal da Igreja está correcto como está” (https://www.deutschlandfunkkultur.de/benedikt-xvi-kritisiert-deutsche-kirche-erstaunlich-dass.2165.de.html?dram:article_id=365396).
  • (4)  A palavra “desmundanização” (libertação da Igreja das formas mundanas) indica a parte negativa do processo que me preocupa”, refere o papa e acrescenta que “a parte positiva não é suficientemente expressa por ela”. Trata-se mais de sair das limitações de uma época “em direção à liberdade de fé“. „Não sei se a palavra ” desmundanização”, que vem do vocabulário formado por Heidelberger, foi sabiamente escolhida por mim como palavra de ordem final em Friburgo”, refere ele.
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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

11 comentários em “BENTO XVI CRITICA OS REPRESENTANTES DA IGREJA CATÓLICA NA ALEMANHA”

  1. O Apóstolo Paulo advertiu… mas como pode ser se cada cabeça tem o seu pensamento e à medida que o tempo passa mais teorias e cada vêz mais complicadas ?!

  2. Naturalmente haverá sentenças e sentenças! Importante é que se não perca a cabeça em nenhuma delas, para se manter uma atitude própria fundamental. Paulo tinha-se encontrado com a Realidade e como tal sabia que não haverá sentença verdadeira que não deva incluir a comunidade!

  3. Saulo a caminho de Damasco ao encontrar-se com Cristo perdeu a cegueira das sábias opiniões mudando a sua mentalidade: de Saulo para Paulo; deixa assim de ser persguidor para se tornar seguidor; sem encontro não há metanoia!. O encontro com o Cristo possibilitou-lhe o encontro com a própria ipseidade passando a viver mais da sua experiência de fé do que dos saberes antes adquiridos. A experiência do encontro criou nele a perspetiva da fé (vivência tida que ultrapassa a certeza) que lhe possibilitou vislumbrar a dimensão transcendente da vida. Fé é vivência, encontro experimentado e não apenas crença. A partir do momento do encontro ultrapassa a dimensão das teorias importantes e dos pensamentos que lhe tinham outorgado para passar a ter a experiência da Realidade e de si mesmo; a experiência do inefável! A experiência do Encontro, a experiência da fé é integral e própria e como tal iluminadora do próprio pensamento!

  4. Mais do que um comentário, o seu texto é uma lição. Conhecia a história de Saulo (Paulo) mas a sua análise é muito enriquecedora.
    Saulo perseguia Cristo. Mas se ele não O tivesse perseguido, Cristo não o teria interpelado e não se teria operado a mudança em Saulo, nem o milagre. A Luz surgiu porque antes houve escuridão.
    Os misteriosos desígnios de Deus.

  5. Olá Justo
    Encontrei-te aqui, eu a ovelha negra do rebanho, tresmalhada a falar sozinha. A Igreja ainda é pior que os partidos e, hoje em dia, perdeu todo o poder inovador que algum dia poderá ter tido, Mas, como sou
    adepta da liberdade da minha, desde que respeite a dos outros, limito-me a constatar que como mulher na Igreja Católica e nas outras nada posso dizer, reduzida à Biologia .
    Porém, havendo adeptos, nada a fazer.
    Fica bem

  6. Meu caro Justo:
    Já te disse anteriormente que muito aprecio o que escreves neste forum.
    Leio e releio, e a minha vontade é sempre de te dar os parabéns e de te pedir que mantenhas a tua vontade de aqui postar páginas que me (nos) fazem pensar; seria quase enjoativo estar a repetir-te sempre a mesma coisa.
    Mas, o facto de te não responder não é sinal de que não aprecie, e muito, o que vais escrevendo, além de, de quando em vez, me atrever a deambular pelas tuas “Pegadas do Tempo”. Atrevo-me a supor que o mesmo acontece com mais Amigos.
    Ainda continuo a digerir (estou cada vez mais lento de cabeça) a tua penúltima comunicação (Eu sou mais aquilo….Caminhar entre protecção…) que considero excelente, e não me atrevo a deixar aqui a minha análise/entendimento/interpretação sobre o que ali escreveste – seria uma tautologia, como tal, desnecessária. Os teus textos têm, em mim, um efeito com que eu já aprendi a lidar: na primeira leitura, mesmo com esforço, apanho apenas o que eu considero o essencial; mas, lendo outra e outra vez, não necessariamente seguidas, surge sempre muita coisa nova, ou algo importante, ou pormenores que são pormaiores.
    Também é verdade que muitas vezes me pões a cabeça a doer, sobretudo quando me apercebo que não consigo chegar ao fundo dos assuntos que tratas…. É a altura certa para me lembrar duma virtude que se chama humildade.
    Vês! Nada disse e já me alonguei demasiado; demasiado, precisamente, por nada dizer.
    Forte abraço

  7. Caro amigo Evaristo
    Muito obrigado pela tua ressonância ao que escrevi. É para mim confortável verificar que há quem partilha de viveres semelhantes; assim não me sinto só. Também eu, quando escrevo, é como uma meditação que faço para mim e que me ajuda a sair dos ambientes rotineiros que, por vezes, puxam para baixo.
    No texto “Sou o que sou mais aquilo que fazem de mim” sinto-me inteiramente dentro dele, e também como que embrulhado num manto macio que me dá calor e alento. A relação trinitária sempre foi algo que me arrebatou e faz vibrar o meu interior. Fiquei muito contente ao saber que o texto te impressionou; seria bom que deixasses o teu coração à larga e dissesses o que pensas/sentes. Seria certamente um enriquecimento para todos nós. Também compreendo bem as incongruências que a leitura do texto pode dar porque, como certamente já notaste, sou um despenteado mental e, como tal, muitas vezes prefiro escrever com o coração, embora não pareça; certo é que o coração dá voltas que a razão não conhece (Isto parafraseando Pascal); o meu interesse é dar oportunidade à criatividade do leitor, que muitas vezes, deixando-se levar em ondas de associações e imagens parabólicas pode criar visões e conceitos muito mais ricos do que o próprio texto dá.
    O problema não está em ti, de não chegares por vezes ao fundo dos assuntos que trato; o problema está em mim que me não preocupo muito com o texto e confio na capacidade intuitiva do leitor que que criará pontes onde elas faltam e ultrapassará assim a pobreza vestindo-a com a riqueza própria.
    Sabes, tudo não passa além de imagens enevoadas das realidades espelhadas nas sombras da caverna e que Platão engendrava fora da caverna (essas imagens querem ultrapassar o meramente cognitivo). Tudo não passa de perspectivas de uma realidade a-perspectiva mas que se pode tornar integral quando se dá a nível de vivência ou se personaliza no nosso “protótipo” Jesus Cristo!
    Muito obrigado pelo que disseste.
    Sim, também expressaste a grande palavra humildade, uma virtude que faz parte da nossa atitude salesiana; a humildade é a luz que nos abre os olhos para a realidade! Ela é a seiva amorosa que nos faz passar sob a pele de toda a realidade e como tal também nos tira o medo de cairmos porque nos encontramos já no chão! Por vezes vivemos na ilusão das nossas grandezas que nos afastam da capacidade de percepcionarmos a realidade. Na pequenez do presépio se encontra o universo; ele é tão pequeno que se encontra em tudo e como tal só pode ser algo religioso. Humildade é processo algo a atingir, doutro modo também se poderia tropeçar nela; para o evitarmos resta-nos um pouco de vaidade que nos motiva também a escrever!
    Desculpa-me ter sonhado um pouco contigo! O brigado também pela ocasião que deste para te responder!
    Grande abraço

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