Liberdade Hipotecada

NÃO CHEGAM NOVAS REGRAS PARA A ECONOMIA
Liberdade Hipotecada
Antonio Justo
A crise financeira internacional revela a urgência de voltar à economia de mercado social pautado pela responsabilidade social e individual tal como exigem críticos do turbo-capitalismo e sugere a doutrina social da igreja. Para isso precisam-se cidadãos fortes num estado forte. A crítica analítica (não a sociedade proletária socialista) de karl Marx ao capital revela-se como correctivo oportuno às fúrias dum capitalismo atrevido que cada vez despreza mais as leis de trabalho.

Esta é a hora do Estado, a hora da segurança, a hora dos políticos e a hora da burocracia. A ideia da liberdade tornou-se frágil perante a necessidade de segurança agora prioritária! A crise leva à consciência da liberdade hipotecada.

Esta crise poderia dar oportunidade ao nascimento dum novo sistema financeiro mundial orientado para o povo e para os povos. A História apenas reage, não parece predispor de tempo para pensar e agir a partir duma nova perspectiva. Neste momento todas as energias se dirigem no sentido da estabilidade do Estado e do sistema financeiro, passando a questão da necessidade duma nova ordem social e da justiça social para um lugar menos relevante. Não resta tempo para filosofar. O activismo torna-se óbvio para defender a carteira e colocar o dinheiro em segurança…

A América Latina, em vários Estados, já adivinhava a crise ao fortalecer o poder do Estado perante o mercado financeiro. É realmente necessário muita força para controlar os grandes e para poder impor-se contra a corrente do banal agendado. A História continuará a repetir e a falar das mesmas crises, dos mesmos mecanismos de poder e de opressão, acomodada à prática de que o óbvio é contra o humano.

A situação faz lembrar um doente que, em vez de procurar descobrir o sentido mais profundo da sua doença, recorre aos comprimidos e às injecções, porque só pensa em livrar-se da doença o mais depressa possível, sem pensar que a enfermidade é apenas um sinal de alarme a chamar a atenção para o estilo de vida seguido. O alarme do sistema económico dá sinais mas a política e a economia só parece estar interessada em desligar o alarme para que tudo corra como de costume. O problema permanece, sabendo-se de antemão que o alarme voltará a tocar noutra circunstância.

O Neo-liberalismo revelou-se como uma ideologia especulativa alheada às regiões e às sociedades: abusa da natureza e do Homem. O mercado livre descontrolado e desregulado conduz à omnipotência e omnipresença duma casta cínica que se apodera de todos os grupos precisando sempre de vítimas para sobreviver.

Uma economia de mercado sem um enquadramento ético e social conduz à catástrofe.

Não chega a desculpa da lógica da causa e efeito nem tão pouco se justifica o alinhamento atrás dum mercado livre na esperança de que ele tudo regulará.

O Homem tem memória curta e a massa anónima é bicho de hábitos. Em breve tudo passará à ordem do dia, do rotineiro, à conveniência da banalidade do factual. Assim, para o povo não ficar sem o dinheiro dos bancos falidos, os governos disponibilizam as verbas do povo, hipotecando as próximas gerações. O dinheiro agora emprestado aos bancos desvalorizar-se-á e o dito povo solucionará a crise com maior desemprego e pagando taxas de juro mais elevadas. Não está em discussão a tomada de medidas pelos Estados, o que preocupa é que esta seja tomada sem o povo e à sua margem; o que preocupa é o sistema!

Assim, contrariamente ao que se esperava, a América e o seu sistema parecem sair-se bem da crise. De facto o Dólar tem encarecido e o Euro embaratecido.

As elites do êxito revelaram-se incapazes. A arrogância da elite económica revelou-se precária perante a elite política. A Alemanha colocou 500 biliões de Euros à disposição de bancos em risco de falência; estes têm medo de recorrer ao subsídio público, por um lado por terem de se submeter a regras estabelecidas pela classe política e por outro lado para não manifestarem a sua fraqueza perante a sua clientela, o que poderia provocar a falta de confiança nas suas instituições.

Facto é que, na Alemanha, bancos que recorram à subvenção do Estado, terão de submeter-se a maior controlo estatal e os seus chefes não poderão ganhar mais de 500.000 euros por ano. A Caixa de Depósitos da Baviera é a primeira a recorrer à disponibilização de dinheiros públicos num valor de 5-6 biliões de euros.

Se o mundo fosse tão fácil de governar como o céu e o inferno, não seria precisa a inteligência humana. Porém, parece exigir-se demais à inteligência humana ao pretender-se acabar com o inferno de uns e o paraíso de outros.

A esperança permanecerá a riqueza de uns e a miséria de outros!

António da Cunha Duarte Justo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

Um comentário em “Liberdade Hipotecada”

  1. Liberdade Hipotecada
    2008-10-26 23:31:49 Fortaleza (CE) Brasil Paulo M. A. Martins

    Caríssimo
    Professor António Justo,

    Ao ler o seu tão inteligente quanto brilhante artigo, afigurou-se-me pertinente produzir um comentário. E socorri-me das declarações exaradas numa entrevista que Austregésilo de Athayde me concedeu nos finais da década de 80, que abaixo transcrevo.

    Na altura, ele era o decano dos jornalistas a nível mundial, presidente da Academia Brasileira de Letras e principal redactor e relator da Declaração Universal dos Direitos do Homem, com quem o jurista e filósofo René Cassin partilhou todas as honras recebidas por ocasião do 20º. Aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Humanos, quando a Academia Sueca lhe atribuiu o Prémio Nobel da Paz.

    Uma das razões, quer se queira quer não, é que os Trabalhadores perderam a sua própria identidade e deixaram-se arrastar pela corrida louca e desenfreada dos políticos e dos governos.

    Por essas e por outras razões, Austregésilo de Athayde, enfaticamente, me dizia:

    ……………………………………………………………………………………………

    Austregésilo de Athayde:

    “As classes trabalhadoras, neste momento da vida internacional, justamente, em virtude do que está exarado na Declaração Universal dos Direitos do Homem, merecem toda a protecção e todo o respeito.

    O “trabalho” é irmão do “capital”. O “capital” não se forma sem o “trabalho”. O “capital” nasce do “trabalho”, portanto, tem a sua prioridade.

    Os trabalhadores têm direito à participação, activa e permanente, em todas as instituições de ordem política, cultural ou seja do que for, dentro das suas liberdades essenciais de pensamento, de religião, de culto, etc.”

    ……………………………………………………………………………………………

    E os Trabalhadores ao longo dos tempos, deixaram-se descaracterizar, perderam a noção do seu real poder e capacidade de intervenção, VENDERAM-SE!

    Hoje, para mal dos seus pecados, só lhes resta aguardar serenamente pela recessão que caminha galopantemente…

    De nada lhes vale queixarem-se dos americanos, dos outros ou de quem quer que seja!…

    É o somatório de todos os disparates que atingiu o seu “boom”!

    Tudo o mais, agora, como pseudo-soluções adoptadas, não passa de panaceias para iludir e travestir a gravidade da situação da economia mundial globalizada, tanto mais porque a globalização social sempre foi ignorada!

    Agora, quer queiramos quer não, só com uma nova Ordem Mundial, só nos resta saber de que cariz e quem a vai liderar…

    Felizmente, que o Tratado de Lisboa foi liminarmente “chumbado” pelos irlandeses! Porque, caso contrário, a Europa iria evoluir para uma nova e perigosissíma “UNIÃO de qualquer coisa”, um sucedâneo à que desmoronou com o Muro de Berlim…

    Mas, sob a capa da DEMOCRACIA e da LIBERDADE, o TOTALITARISMO e não só espreitam pela sua nova e soberana oportunidade!

    E creia-me, Professor António Justo, que ao ler os “doutos” comentários que me antecedem, bem como alguns artigos dispersos pelo “PortugalNotícias” fico triste, muito triste, por verificar que as pessoas, os nossos compatriotas, não estão conscientes da gravidade que os envolve e vai consumi-los…

    Falam, escrevem, como se estivessem de “barriga cheia”…

    Neste momento, a maior felicidade que me poderiam dar, seria convencerem-me de que estou errado. Mas, infelizmente, nem Portugal nem o Brasil vão escapar…

    A menos que, do céu, surja um milagre de Nossa Senhora de Fátima ou de Santo António!…

    É que o efeito em “espiral” tem muito que se lhe diga!…

    Fraterno abraço.

    Paulo M. A. Martins
    in Portugalnoticias

    2008-10-25 12:44:16 RENATO NUNES
    Caro Senhor Justo:
    Nunca menospreze o capitalismo.
    E o sistema mais inventivo e capaz de auto-regenerar-se que existe.
    Claro que agora ate aceita medidas Socialista para sobreviver.
    Aceita de bracos abertos — por conveniencia — a intervencao estatal, que quer apenas dizer que somos todos nos a pagar pela crise que eles criaram; ate ha uns dias atras nem queriam sequer que o Estado “olhasse” para aquilo que estavan fazendo ! Queriam actuar sem que os controlassem. Actuavam atirando ao vento tudo o que eram regras de prudencia e precaucoes minimas.
    A GANANCIA faz e mata o Capitalismo.
    Este sendo sem duvida o sistema maior criador de riqueza ate hoje inventado tem forcosamente –para bem de todos – ser vigiado e controlado. Nao se pode deixar o Capital entregue a si proprio.
    A tal teoria do “Free Market” com hoje e aplicada e uma farsa.
    De facto e o “Free Market” e o MELHOR sistema quando deixado a si proprio pois ele contem mecanismo que auto-corrigem situacoes como a actual, se os Governos nao se meterem pelo meio a tentar salvar os Capitalistas.
    Agora nesta crise, em verdadeiro “Free Market” umas centenas de Bancos e Firmas grandes eram deixadas ir para a FALENCIA.
    Era doloroso, perdia-se riqueza e empregos mas o Mercado voltava de novo a funcionar, “purgado” do “virus” da GANANCIA tendo os que causaram a crise poago na pele os erros que fizeram..
    Assim como esta sendo feito salvavm-los e eles voltarao de novo a fazer o mesmo quando este assunto for esquecido uma vez que nao pagaram pelo mal que fizeram.
    Mas nao e assim que funciona.
    Os Governos –todos feitos com ou debaixo das ordens do Grande Capital — actuam apressadmente, nao para salvar o povo dos prejuizos e do desemprego, mas para salvar o Capital e grandes Investidores.
    Assim, quando os lucros sao fabulosamente elevados…Privatizam-se.
    Quanto as asneiradas dos capitalistas resultam em prejuizos fabulosos estes…..Socializam-se.
    Isto e o neo-Liberalismo Americano e vendido ao Mundo; e os idiotas Europeus abracaram o sistema sem sequer pensar nas consequencias e vao ainda pagar mais caro do que os proprios Americanos que lhes venderam “LIXO’ . Espertos venderam gato por lebre aos Europeus..
    Nao acredito que esta crise resulte em nada de bom para as sociedades Ocidentais. uma vez que os “medicos” contractados para curar o “doente” sao os mesmo que recitaram os medicamentos errados desde o principio da doenca. Eles continuam a ser grandes Capitalistas e seus lacaios da Wall Street assim como os Politicos dos Governos vigentes que abracarm o neo-Liberalismo.
    Saudacoes
    Renato Nunes,
    Carolina do Sul, EUA
    in Portugalnoticias

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