FILHOS DE PAIS DIVORCIADOS TÊM MENOS FILHOS

Estudo revela que filhos de pais separados têm menos filhos e relações mais instáveis na vida adulta

 Um estudo recente da Universidade Bocconi, em Milão, publicado na conceituada revista “Demography”, lança uma nova luz sobre as tendências demográficas e a dinâmica familiar. A investigação conclui que os filhos de pais divorciados têm, em média, menos filhos do que as pessoas que cresceram em famílias intactas.

Analisando dados de 1,75 milhões de pessoas, a equipa de investigação descobriu que o número de filhos é reduzido em cerca de 14% para os homens e aproximadamente 5% para as mulheres provenientes de laços rompidos. Em média, estas pessoas também permanecem sem filhos com uma frequência ligeiramente superior à dos outros, embora, quando se tornam pais, isso tenda a acontecer mais cedo.

O Papel da Estabilidade Relacional

De acordo com o estudo, o mecanismo central para este menor número de filhos reside na instabilidade relacional. Os filhos de pais divorciados tendem a separar-se com mais frequência do que outras pessoas, resultando em casamentos e relações mais curtos. Esta fragilidade nos vínculos afetivos, naturalmente, reduz a janela de oportunidade e a estabilidade necessárias para projetar e constituir uma família numerosa.

Esta propensão para separações mais frequentes pode estar também enraizada nos valores e atitudes transmitidos pela família de origem. Sociólogos sublinham que, mais do que o divórcio em si, o tipo de comunicação familiar após a separação e a manutenção do contacto com ambos os pais são factores decisivos para moldar o desejo e a confiança do indivíduo em ter os seus próprios filhos.

Um Contexto Demográfico Preocupante

Estas conclusões surgem num momento em que o número de nascimentos em quase todos os países europeus e norte-americanos se encontra abaixo do nível de reposição populacional, contribuindo para um drástico envelhecimento da sociedade. Naturalmente, para este cenário geral contribuem também outros factores, como o ar atmosférico social (o Zeitgeist), o modelo económico vigente, ideologias do momento e a falta de espaço habitacional favorável a crianças.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A CEGUEIRA ESTRATÉGICA DO OCIDENTE E O SISTEM ISLÂMICO IRANIANO

O conflito entre Israel, os Estados Unidos e o Irão no quadro da disputa geopolítica contemporânea

A situação no Irão e no Médio Oriente inscreve-se num quadro mais amplo de disputa geopolítica, estruturado em torno de dinâmicas de poder, controlo territorial e interesses económicos estratégicos. À semelhança do conflito na Ucrânia, trata-se de uma confrontação de natureza eminentemente geoestratégica, com implicações diretas para a Europa. Em causa está a garantia de acesso a matérias-primas essenciais, bem como o controlo das respetivas rotas de transporte e escoamento.

Neste contexto, o Irão assume particular relevância geográfica e estratégica no quadro das políticas ocidentais de contenção ou equilíbrio face à afirmação da China como potência global. Paralelamente, Israel ocupa uma posição central na articulação de interesses concorrenciais entre a Europa e o mundo árabe.

A instabilidade regional, incluindo a consolidação de regimes autoritários e a persistência de intervenções externas, reflete assim uma lógica de competição sistémica entre potências, na qual as populações civis permanecem particularmente vulneráveis e privadas do pleno exercício da sua autodeterminação.

Tudo parece reduzir-se a um regime desumano e a interesses geoestratégicos das grandes potências, tanto na guerra que envolve o Irão e o Médio Oriente como no conflito na Ucrânia. É trágico constatar como decisões do Reino Unido e dos USA contribuíram para a desestabilização do Irão, no jogo de colocar particularmente no contexto que levou à Revolução de 1979 e à ascensão do regime dos ayatollahs, cujas consequências têm sido profundas para o povo iraniano e para a estabilidade regional.

O povo iraniano tem sido sucessivamente privado do direito a determinar livremente o seu próprio destino. Num cenário internacional em que a China se afirma cada vez mais como potência global, intensificam-se rivalidades estratégicas, e o Ocidente procura conter a sua expansão de influência. Nesse quadro, multiplicam-se conflitos geopolíticos em que interesses de poder se sobrepõem à vida humana e dos Estados.

Em última análise, são as populações civis que continuam a pagar o preço mais alto, quer sob regimes autoritários, quer no contexto de intervenções externas, permanecendo presas numa dinâmica de confronto em que os seus direitos, a sua segurança e a sua dignidade são sacrificados.

A Guarda Revolucionária como herdeira dos assassinos na história

O Irão pré-islâmico foi um centro cultural milenar de grande relevo que com a conquista muçulmana árabe no século VII se foi remodelando e durante a segunda guerra mundial  sofreu exploração colonial e manipulação política por parte da União Soviética, Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, que visavam o controle dos recursos petrolíferos e a manutenção de alinhamento geopolítico estratégico. Desde 1979, a República Islâmica construiu um modelo onde religião, nacionalismo e resistência ao Ocidente formam uma identidade política coesa e a pressão externa reforça essa identidade.

A Guarda Revolucionária assume no Irão a tarefa que os “assassinos” desempenharam no Islão através dos séculos (1) e que era a de protetores do espírito islâmico contra as ameaças externas e internas. Esta função, que aos olhos ocidentais parece contraditória, pois como podem “assassinos” proteger algo espiritual, tem profundas raízes na história islâmica. O Islão nasceu e expandiu-se pela espada e a mesma espada que o expandiu é a que o defende.

Se a Guarda Revolucionária se mantiver no poder, a repressão interna poderá intensificar-se. E o povo que aspirava à liberdade encontrará um horizonte ainda mais distante.

Este é o grande problema para o Ocidente porque não tem muito que possa oferecer como atração própria do mundo secular (a não ser a liberdade da pessoa humana que o sistema islâmico oprime). Oferecemos democracia, mas ela parece cada vez mais disfuncional até para nós. Oferecemos liberdades individuais, mas elas são frequentemente percebidas como decadência moral. Oferecemos desenvolvimento económico, mas regimes autoritários, embora desumanos, têm demonstrado vantagens competitivas no mundo globalizado. Veja-se o exemplo do Kuwait onde o mundo ocidental se apinha para passar lá férias!

O erro da classificação medieval

Quem classifica os regimes islâmicos como medievais revela não ter compreendido no mínimo o Islão, nem a natureza da sua própria posição no mar da história. O Irão era um centro cultural muito antes do Islão, e a Revolução Islâmica de 1979 foi, em grande medida, uma resposta à brutalidade do domínio britânico e americano na região. Os Estados Unidos completam este ano 250 anos de independência; desde 1776, houve uma tentativa constante de se apropriar de terras e matérias-primas em nome dos valores republicanos e democráticos. Esta história não confere superioridade moral para julgar os outros.

A Grã-Bretanha foi particularmente brutal no seu domínio da região, traçando fronteiras arbitrárias, instalando monarquias fantoche e explorando os recursos petrolíferos sem qualquer consideração pelas populações locais. O resultado foi a Revolução Islâmica e décadas de hostilidade que persistem até hoje.

A lógica que o Ocidente não compreende

A lógica dos argumentos que o Ocidente defende não é aceite pelos aiatolas, porque o islão parte de um pensamento uniforme, não fragmentado como o nosso. Sabe que as diferentes lógicas, a jurídica, a moral, a política e a económica, servem para criar divisões e explorar contradições. Enquanto no Ocidente debatemos se devemos priorizar os direitos humanos ou a segurança nacional, os aiatolas agem com uma coerência que nós já perdemos e que a EU procura indiretamente repor, mas com a deficiência de se limitar ao poder económico e militar. O regime socialista procurou também ele unir política e ideologia fazendo desta uma espécie de religião (certamente que aqui há aspetos afins da esquerda com o islão), mas falta à ideologia socialista, um elemento essencial do homem que é a coerência espiritual.

O Islão, em geral, associa os interesses nacionais à missão divina. O que é bom para o Irão é bom para o Islão, e vice-versa e até a mentira desde que sirva o islão passa a ser virtude (Não quero com isto criticar o Islão, porque na lógica meramente do poder ele conquista a razão).

Esta fusão entre interesses nacionais e missão divina confere aos líderes iranianos vantagens operacionais significativas, como: capacidade de decisão rápida, controlo absoluto da informação e mecanismos de repressão eficientes que atuam sem constrangimentos legais ou morais. A isto acresce uma capacidade de mobilização popular que os líderes ocidentais apenas podem sonhar, uma vez que estes estão limitados por sondagens, debates internos intermináveis, uma opinião pública volátil e a inevitável pressão dos ciclos eleitorais.

Por outro lado, o Islão, através da sua rede de mesquitas e grupos extremistas, consegue uma presença social integrada (impossível de romper), tanto a nível interno como externo, que qualquer sistema de espionagem ocidental não consegue replicar. Isto porque os serviços de inteligência do Ocidente são aparelhos exteriores ao tecido social, frutos da lei decretada e da burocracia estatal, ao contrário do Islão, que está organicamente entranhado nas comunidades onde atua.

O Ocidente, apesar de todos os seus erros, tem em mente que “quem vive pela espada, morre pela espada”. Perante a realidade islâmica, esta visão torna-se numa consciência trágica porque limita a ação do Ocidente, impedindo-o, em parte, de levar até ao fim as lógicas que desencadeia; isto baseia-se no princípio humanista cristão que distingue entre servir a César e servir a Deus. Assim o Ocidente avalia sempre a situação de forma estratégica, com dois pesos e duas medidas, porque as prioridades mudam constantemente. Hoje a Rússia é inimiga, amanhã pode ser aliada contra a China. Hoje o Irão é o alvo, amanhã pode ser necessário para equilibrar a Arábia Saudita e possivelmente como local estratégico no afirmar-se em relação à China.

A questão de Israel e a persistência de guerra e guerrilha

Tal como a situação se apresenta com o programa do Irão de extermínio dos judeus, uma retórica que infelizmente persiste em setores do regime iraniano, não se descortina haver, neste momento, alternativa à guerra. Israel enfrenta um dilema existencial: os mísseis guiados iranianos, que em confrontos anteriores penetraram as suas defesas aéreas, representam uma ameaça que nenhum país pode ignorar. Por outro lado, encontram-se interesses ocidentais geoestratégicos na defesa de Israel (possíveis rivalidades futuras entre Europa e o mundo islâmico).

Mas a guerra, por mais inevitável que pareça, não resolverá os problemas fundamentais. Esta não é uma guerra para a mudança de regime, pelo menos não o é no sentido que o Ocidente a entende. E, no final, a situação poderá ser ainda pior do que no Iraque, na Líbia, na Síria e no Afeganistão. Se a Guarda Revolucionária se mantiver no poder, o terror contra a sua própria população tornar-se-á ainda mais desumano. O povo que ambicionava a liberdade terá ainda mais dificuldades.

E o busílis da questão permanece porque tanto o Ocidente como o Islão são hegemónicos.

O mundo invertido

Vivemos num mundo invertido, onde o caos cria confusão, o que torna o poder útil e permite que os governantes se escondam na lealdade dos Nibelungos, essa fidelidade cega a líderes que conduzem os povos à destruição. Em 1999, a NATO violou o direito internacional na guerra do Kosovo. Pouco depois, as pessoas na Sérvia saíram massivamente para as ruas e houve mudança de regime. Mas o Irão não é a Sérvia e a mudança na história não segue apenas o poder militar.

Nenhum dos blocos, chamem-se eles capitalistas ou socialistas, Ocidente ou Oriente, Rússia ou EUA, Israel ou Irão, pode ser tomado como referência moral. O seu agir invalida qualquer posição que se tome, independentemente do lado que se ocupe nas barricadas. Um lado e o outro não reconhecem uma ordem mundial e querem impor as suas regras inspiradas nos seus interesses.

A necessidade de uma ética superior

Quando se toma uma posição inflexível, nega-se uma ética superior e deste modo impede-se o desenvolvimento qualitativo, porque não há equilíbrio entre o desenvolvimento interior, espiritual, do ser  e a mera acumulação exterior de possuir ou ter.

As potências mundiais comportam-se como se o mundo fosse um jardim de infância e elas fossem os seus  donos e educadores. Mas esquecem-se de que também elas não passam de criancitas a brincar no parque infantil, com brinquedos cada vez mais perigosos. A diferença é que, no jardim de infância global, quando os brinquedos avariam, quem paga a fatura são sempre os mesmos: os povos que apenas desejam viver em paz.

Há várias modalidades de intenção entre o militarismo, o empenho genuíno e a procura sincera de soluções. Cabe-nos distingui-las, num tempo em que a propaganda e a desinformação tornam essa distinção cada vez mais difícil ou mesmo impossível.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) O termo assassino viria de “assass”, ou seja, “os fundamentos” da fé islâmica. A origem da palavra ASSASSINO também é referida como vinda do árabe haxaxyn, consumidor de haxixe, erva-seca, porque o Velho da Montanha, líder de uma seita de fanáticos, drogava os seus discípulos antes de eles roubarem e matarem cruzados e peregrinos a caminho da Terra Santa.

Leituras: Para aprofundar a compreensão do sistema político iraniano, recomendo a leitura dos analistas do Council for Strategic and Defense Research e do Mahatma Gandhi Centre for Nonviolence and Peace Studies . Sobre a natureza do Islão político, o Hudson Institute oferece análises detalhadas das diferentes correntes.

 

REFLEXÃO QUARESMAL E O CLIMA INTERIOR

Entre a tempestade do mundo e a paz que vamos aprendendo a cultivar

Há dias em que o vento sopra de tal modo que parece atravessar as paredes. Não tanto o vento meteorológico, mas sobretudo o vento das notícias, das discussões ideológicas, dos meandros do poder e das urgências artificiais. Ainda antes do café abro o telemóvel e sinto o seu zunir constante, como se o mundo estivesse sempre a bater-me à porta e a querer desabar.

Durante tempos pensei que era apenas impressão minha e que tinha talvez uma sensibilidade social excessiva! Com o tempo, porém, comecei a perceber que muitos à minha volta partilhavam do mesmo cansaço invisível que se torna impertinente e por vezes até atormentador. A grande luminosidade tecnológica que nos acompanha exteriormente é acompanhada   de uma crescente escuridão interior. Quanto mais clareza intelectual criamos sobre os sistemas digitais, económicos e políticos, mais descemos à cave da nossa própria inquietação existencial.

Tudo isto me faz lembrar uma tarde junto ao mar na praia da Costa Nova. As ondas avançavam com força e retiravam a areia sob os meus pés. Por instantes perdi o equilíbrio e como reação fechei os olhos. A sensação era simples e, ao mesmo tempo, reveladora porque quando o chão se move, não é o mar que precisa de estabilidade, quem precisa dela sou eu.

Essa imagem tem-me acompanhado na observação de mim mesmo e do mundo. O mundo tornou-se severo, tanto no clima exterior como no interior das pessoas. As redes sociais e os meios de comunicação, em geral, amplificam indignações, os debates políticos endurecem e as palavras perdem a sua inocência e subtileza. O diálogo foi substituído por trincheiras emocionais. E nós, no meio desse vendaval, tentamos permanecer com os pés bem assentes na terra para não cair, mas as ondas não nos deixam.

Com o tempo percebi que começava a reagir a cada notícia que achava relevante como se fosse uma convocatória pessoal. Mas o mais fatal é que uma guerra distante se tornava ansiedade próxima e uma decisão política se transformava em revolta íntima. Sentia-me parte de uma engrenagem gigantesca e, ao mesmo tempo, impotente. Para fugir ao sentimento desta impotência então procurava ruminar as notícias através de reflexões.

Entretanto veio-me à ideia a imagem do mito de Sísifo que condenado pelos deuses a empurrar uma enorme pedra montanha acima, quando chegava ao topo, a pedra rolava de volta, e ele tinha de começar novamente. Empurramos montanha acima diariamente a pedra da produtividade, do desempenho e da validação social, apenas para a ver rolar novamente na manhã seguinte. A repetição exaustiva passa a substituir o sentido deixando a impressão que tudo se reduz a atrito como se a fricção fosse o sustento da vida. Não será essa a metáfora perfeita da nossa época? Trabalhamos, opinamos, partilhamos, reagimos e, na manhã seguinte, tudo recomeça, mas tudo parece ficar cada vez mais na mesma.

Mas a história de Sísifo também pode ser lida de outra forma: é possível que a dignidade não esteja no resultado, mas na forma como seguramos a pedra.

Num tempo em que o peso dos dias se faz sentir com especial intensidade, entre as exigências do trabalho, as inquietações que vêm do mundo e as perguntas sem resposta que acompanham o silêncio de cada um, há que encontrar conforto num espaço espiritual ou nalgum recanto do espírito, como referia o físico Max Planck, ao falar que cada um precisa de ter um ponto firme, de uma posse que não nos pode ser tirada, isto é, uma atitude pura e a boa vontade. À primeira vista, pode parecer quase ingénuo. Como pode a boa vontade fazer frente à aspereza do real? Como pode resistir à violência, à atitude maldosa, à pressa, ao ruído do mundo? Não é fácil, mas a força da boa vontade estará no facto de não competir, de não se impor, mas de simplesmente manter-se na consciência de que não se trata de concorrer, mas de resistir.

A inteligência emocional, hoje tão citada em manuais de liderança, revelou-se para mim algo muito mais íntimo, resumido na capacidade de não permitir que o ruído exterior colonize o silêncio interior, o centro da mesmidade. Tudo isto é processo onde se pode aprender a  distinguir entre aquilo que faz parte de mim e me pertence e aquilo que me rodeia  ou que apenas atravessa o meu ecrã ou se mostra nos jornais.

A tarefa não é fácil, até porque o homem não é de pau e, por vezes, a circunstâncias tornam-se no cadinho da vida. Trata-se então de dar um paço de cada vez! Desligar notificações, caminhar sem auscultadores, escutar alguém sem preparar resposta. Importante é a comunicação direta de olhos nos olhos, de voz sem filtro, porque tem um poder reparador que nenhum algoritmo consegue refutar.

Observo também que muitas ideologias prometem segurança identitária, mas cobram um preço elevado que se manifesta na rigidez do coração. Quando nos agarramos a certezas absolutas, fechamos as janelas da compreensão. E sem compreensão não há paz possível, no máximo, apenas vitória temporária.

Vivemos uma época em que a democracia, para alguns, já só soa a nostalgia, pois o poder parece, além de cruel, distante e as decisões globais ultrapassam a nossa influência direta. Para mantermos a saúde psíquica somos cada vez mais condicionados a vivermos com humor e a virar-nos para o espaço interior que é o território onde continuamos soberanos.

Isto não significa fuga espiritual, nem de ingenuidade política, mas assumir responsabilidade. Se permitirmos que a angústia e o ressentimento se instalem em nós como morada permanente, tornamo-nos replicadores da mesma dureza que criticamos.

O nosso tempo exige cidadãos experientes na adversidade, não endurecidos, mas amadurecidos; pessoas capazes de reconhecer a própria fragilidade sem a transformar em agressividade, para chegar a compreender que a verdadeira coragem, muitas vezes, consiste em permanecer humano quando o ambiente incentiva o contrário.

Volto frequentemente àquela imagem da praia. As ondas continuarão a avançar e a recuar na consciência que o movimento é a base da existência. Mas aprendi que posso abrir os olhos no meio da instabilidade e procurar o meu centro. Esse centro não elimina a tempestade; apenas impede que eu me torne parte dela.

A grande tarefa da nossa geração não será conquistar territórios nem vencer debates, mas preservar a alma num tempo de excessos. Num século de luzes artificiais intensas, o desafio maior é reacender a luz humana, de maneira discreta, mas persistente.

Só quem encontra paz dentro de si consegue atravessar a tempestade sem perder a alma e pode contribuir para uma cultura de paz fora de si.

E essa é uma revolução silenciosa que começa sempre no íntimo de cada um de nós e aí procurar conciliar reflexão crítica, experiência pessoal e promoção de uma cultura de paz fundada na dignidade humana e na consciência interior.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo