CIÊNCIA E FÉ SABOREADAS NUM GOLE DE CAFÉ

No café da Praça de São João da Madeira, dois amigos de infância, Elias e António, encontravam-se para uma conversa habitual. Elias era um físico apaixonado pela ciência, enquanto António era um filósofo e teólogo dedicado. Entre goles de café, a conversa aprofundou-se sobre uma questão que sempre os intrigara: a relação entre ciência e fé.

— Elias, a ciência tornou Deus supérfluo? — perguntou António, com um tom cético, como quem quer provocar a discussão.

Elias sorriu pensativamente e respondeu::

— A ciência busca entender como o universo funciona, mas isso não significa que tenha todas as respostas. Ela não pode provar nem refutar a existência de Deus porque trabalha apenas com o que é mensurável. Perguntas como “por que existe algo em vez de nada?” ou “qual é a intenção ou sentido último da existência?” ultrapassam os limites do método científico.

António acenou com a cabeça e continuou:

— Exato. E, no entanto, a própria ciência parece apontar para algo além de si mesma. A ordem do universo, as leis precisas que regem tudo, a capacidade que temos de raciocinar e entender a realidade… Isso não sugere uma mente inteligente por trás de tudo?

Elias apoiou o queixo na mão, pensativo:

— Há quem argumente que tudo pode ser explicado por processos naturais, mas admito que a regularidade e a inteligibilidade do universo são fascinantes. Se o cosmos fosse um mero acaso, por que é que ele seguiria leis tão bem organizadas?

António sorriu de forma expressiva:

— E há mais. Se a nossa mente fosse apenas um produto do acaso, como confiaríamos em nossa própria capacidade de compreender a realidade? O fato de podermos raciocinar e fazer ciência sugere que há algo mais do que processos cegos em jogo.

Elias ergueu as sobrancelhas e perguntou com um ceticismo silencioso:

— Mas então, se aceitarmos que pode haver uma causa inteligente, como evitamos cair no dogmatismo?

António inclinou-se ligeiramente para a frente e respondeu com voz firme:

— A fé não deve ser um salto cego, mas sim uma decisão racional baseada em evidências e experiências. Como a ciência, ela também se baseia na busca da verdade. O problema surge quando um lado ignora completamente o outro. Se apenas aceitarmos o que é mensurável, limitamos a nossa compreensão da realidade. Por outro lado, se desprezarmos a razão, caímos na superstição.

Elias deixou o pensamento assentar e acenou lentamente com a cabeça:

— A ciência e a fé são complementares e não contraditórias.

António recostou-se e concluiu com um sorriso satisfeito:

— Sim. A ciência ajuda-nos a entender como o mundo funciona, e a fé ajuda-nos a encontrar um propósito para essa existência. Ambas são necessárias, pois cada uma responde a questões diferentes e usa métodos distintos.

Os dois sorriram, percebendo que, apesar de suas diferenças, estavam em busca da mesma coisa: a verdade. E nessa busca, ciência e fé caminhavam juntas, não como adversárias, mas como aliadas na compreensão do mistério da existência.  E nesta evidência parecia até a realidade irmanar-se no aroma de um novo café que os dois encomendaram ao Garçon do Café Colmeia.

Ao lado na praça, os repuxos de água refrescavam o ar quente do ambiente enquanto pombos, como que internalizando a paixão do debate – num prazer que dura, se repete sem desgaste – corriam atrás das pombas em arrulhos que faziam lembrar o prazer do orgasmo intelectual produzido no nosso diálogo habitual.

Elias e António permaneceram em silêncio por alguns instantes, como que permitindo que as palavras proferidas se dissolvessem no ar, misturando-se ao aroma do café recém-chegado. O líquido escuro e fumegante parecia refletir a profundidade da conversa, como se cada gole fosse um convite a mergulhar mais fundo no abismo das perguntas que seguiriam ad eternum. O café, ali, não era apenas uma bebida, mas um símbolo daquilo que os unia: a busca por sentido no meio do efémero.

António ergueu a chávena, observando a luz do entardecer a refletir-se na superfície líquida do granito da praça e deixava pequenos lampejos dourados, lembrando, por vezes restos de arco-íris.

— Sabes, Elias — disse António, com um tom que parecia ecoar séculos de pensamento — há algo de sagrado neste momento. Não no sentido religioso, mas no sentido de que estamos diante de algo que transcende o cotidiano. Este café, esta praça, esta conversa… são como momentos kairós, pequenos fragmentos de eternidade.

Elias inclinou a cabeça, como se tentasse decifrar um enigma.

— Eternidade? — perguntou, com um sorriso que incorporava cepticismo e curiosidade.

— Sim — respondeu António, com um brilho nos olhos. — A eternidade não precisa de ser algo distante, inalcançável. Ela pode estar aqui, neste instante, na maneira como o tempo parece suspender-se quando duas mentes se encontram irmanadas em diálogo ou dois corpos se unem num só.  Sim, a ciência pode medir o tempo, mas não pode aprisionar o seu sabor.

Elias riu suavemente, como quem reconhece a beleza de uma metáfora bem colocada.

— Então, estás a dizer que a eternidade tem o sabor de um café?

— Por que não? — respondeu António, com um gesto teatral. — O café é feito de grãos que nasceram em solos distantes, foram colhidos por mãos que talvez nunca conheçamos, torrados e moídos em processos que envolvem tanto a precisão da ciência quanto a arte do mestre torrador. E agora, aqui está, nesta xícara, servindo de ponte entre nós. Não é isso a eternidade? Uma conexão que transcende o tempo e o espaço à semelhança de um clímax?

Elias olhou para o café, como se o visse pela primeira vez.

— Nunca pensei nisso — admitiu. — Mas faz sentido. A ciência explica o processo, mas não consegue capturar a experiência. A fé, por outro lado, permite-nos saborear o que está para além do processo, sim, porque a sua essência é relação.

António anuiu, satisfeito, recordando-se de Tomás de Aquino.

— Exatamente. A ciência diz-nos como o café foi feito, mas é a fé (experiência do encontro) — ou, se preferires, a poesia — que nos permite apreciar o seu significado.

O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som dos repuxos de água na praça, cujos jorros pareciam dançar ao ritmo de uma música invisível. Os pombos, agora mais calmos, arrulhavam em coro, como se fossem testemunhas daquele diálogo que transcendia o mundano. O ar quente do fim de tarde carregava consigo o cheiro das árvores que rodeavam a praça, misturando-se ao aroma do café e criando uma sinfonia de sensações.

Elias olhou para António, com um brilho de admiração nos olhos.

— Sabes, António, às vezes penso que a tua mente é como um labirinto. Cada vez que entro nela, descubro novos caminhos, novas perspectivas.

— E a tua, Elias — respondeu António, com um sorriso — é como um telescópio. Permite-nos ver além do que é visível, explorar os confins do universo.

Ambos riram, e o som das suas gargalhadas misturou-se ao arrulhar dos pombos e ao rumor das águas. Naquele momento, parecia que a própria praça conspirava para celebrar a harmonia entre ciência e fé, entre razão e poesia.

Elias ergueu a chávena, como se fosse em brinde a unir os dois.

— À eternidade, então. E ao café, que nos lembra que ela pode estar mais perto do que imaginamos.

António fez o mesmo, e os dois beberam em silêncio, saboreando não apenas o café, mas a profundidade daquele instante.

Enquanto o sol mergulhava no horizonte, tingindo o céu de tons alaranjados e purpúreos, os dois amigos permaneceram ali, sentados no café da praça de São João da Madeira, unidos pela busca da verdade e pela certeza de que, no fundo, ciência e fé são duas faces da mesma moeda — uma moeda cujo valor não se mede em números, mas em significado.

E, assim, enquanto o dia se transformava em noite, o aroma do café continuava a pairar no ar, como um testemunho silencioso daquela conversa que, talvez, tivesse tocado os limites da compreensão e do eterno.

António da Cunha Duarte Justo

“Flashes de vida”

Pegadas do tempo

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DILEMA POLÍTICO EUROPEU

Com quem fazer coligação para se poder governar?

A política europeia enfrenta um dilema cada vez mais evidente: como formar coligações governativas eficazes sem cair na armadilha da paralisia institucional? A sociedade alemã oferece um exemplo paradigmático desta dificuldade. O governo formado pelos Verdes, o SPD e o FDP (apelidado de “coligação semáforo”) tem-se revelado uma experiência conturbada, com constantes bloqueios internos devido às posições ideológicas inflexíveis de cada partido. O resultado é uma Alemanha cada vez mais paralisada e com sinais de decadência económica e social com populações movidas nas sendas de um pensar único. Em 2023, a economia alemã recuou 0,3%, e a instabilidade energética agravou a crise industrial do país.

Coligações formadas com base em táticas partidárias de curto prazo, ao invés de uma visão estratégica para o país, tornam-se prejudiciais para a sociedade. Falta-lhes uma linha de orientação clara e coerente. Parece não haver uma saída fácil para este impasse porque também a União Europeia pretende prescindir do sentir do povo e das inteligências e dos interesses dos países membros; em vez disso premeia o oportunismo de governantes e políticos de perfil em quadros partidários contando com estratagemas de formatar a vontade popular.

A crise da dicotomia esquerda-direita

O debate político atual continua excessivamente centrado na dicotomia esquerda-direita, mas esta abordagem tem-se revelado insuficiente para compreender e responder às necessidades contemporâneas. Em vez de oscilar entre um polo e outro, a sociedade exige uma estratégia que lhe permita avançar, aproveitando os pontos positivos de ambas as perspetivas (progressistas  e conservadores) para traçar um caminho baseado na racionalidade e não se perder no beco sem saída da defesa de interesses partidários de modelo atrasado.

Há elementos de valor nos dois extremos ideológicos, mas alianças mal calibradas podem ser desastrosas. Uma coligação com o PS ou Verdes, enraizada na sua mundivisão marxista, poderia perpetuar a atual crise económica e social, na Europa e especialmente em Portugal que continua a apresentar dos mais baixos níveis salariais e de produtividade da Europa Ocidental. Por outro lado, uma aliança com a chamada extrema-direita pode arrastar os partidos do centro-direita para um pragmatismo radical, afastando-se também ela, das tradições culturais judaico-cristãs, gregas e romanas que moldaram a Europa.

Deste modo, tanto o socialismo dogmático (e esquerda oportunista) como o radicalismo da direita conduziriam a becos sem saída. O resultado seria a continuação da erosão da cultura ocidental de reminiscências cristãs, que tem sido a base do humanismo europeu.

A necessidade de um conservadorismo renovado

Os conservadores deveriam buscar alianças dentro da direita, mas sem abdicar dos valores fundamentais da filosofia cristã e de uma moralidade aberta ao diálogo. Se esta identidade se perder, o conservadorismo corre o risco de se tornar apenas uma ferramenta para implementação do marxismo e seu prolongamento maoísta, como tem acontecido até agora.

O humanismo cristão, que coloca o indivíduo no centro da soberania, constituiria a verdadeira base de uma verdadeira democracia. O socialismo marxista, sendo um filho desgarrado do humanismo cristão, poderia reencontrar-se com as suas raízes. Tal como na parábola do filho pródigo, poderia utilizar o património do pai para reconstruir um projeto sustentável, sem necessidade de destruir as suas próprias heranças e fundações.

Para que isso aconteça, o Poder concentrar-se-ia na sua tarefa real e principal, que consistiria em evitar danos causados ​​ao povo, mas para isso o Poder teria de se converter ao Povo e à sua vontade.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

DONATIVO DE MILHÕES NA DEMOCRACIA DE MERCADO

O partido AfD, na Alemanha, recebeu um donativo em espécie de 3,35 milhões de euros de Gerhard Dingler, da Áustria. O dinheiro será utilizado para colocar 6.395 cartazes em toda a Alemanha pelo AfD, independentemente da sua campanha eleitoral oficial.

Quando lhe perguntaram por que razão estava a confiar tanto dinheiro ao partido AfD (extrema direita), Dingler disse que havia o risco de o futuro governo alemão fornecer mísseis de cruzeiro Taurus à Ucrânia e que queria evitar que isso acontecesse. Este facto foi relatado pela WDR alemã e pela ORF austríaca.

Não chega berrar contra os bilionários e por trás dos bastidores fazer o seu negócio em benefício próprio com eles, como era praxe de costume, mas não pública. Agora que Trump se revela contra o etablishment político há mais temporal na sociedade, principalmente por parte daqueles que se tinham estabelecido nos mirantes do poder que lhes assegurava a vantagem. O discurso político aceso a que agora assistimos é, de uma maneira geral, o costumado alarido popular, que movido apenas pelos sentimentos, se deixa arrastar para um dos partidos das duas elites que disputam entre si o poder!

A democracia encontra-se desprotegida enquanto o cidadão não notar que o rei vai nu e não exigirem dos governantes que protejam o bem comum e a própria nação; até lá, todo o alarido não vai muito além de música de acompanhamento.

Só a vitória de Trump tornou Elon Musk 21 mil milhões de dólares mais rico! Por outro lado, Trump põe em questão os atuais vendilhões do templo que reagem desesperados.

Para cúmulo do escândalo também é um facto que duas famílias na Alemanha têm mais dinheiro do que a metade mais pobre de toda a população.

A sociedade encontra-se em pleno tumulto interior e a democracia também: não por este ou por aquele motivo, mas porque  foi desfalcada sobretudo por aqueles que foram eleitos para defenderem os interesses do povo e do país e passaram a defender interesses sobretudo ideológicos e partidários.

E agora, para cúmulo da hipocrisia, até os media se mostram surpreendidos embora se limitem a administrar a miséria popular. De facto, já sabiam nos 10 anos anteriores a 2014 que o que estava em causa era sobretudo as riquezas da Ucrânia e os interesses geopolíticos rivais e não mostraram interesse em apresentar isso aos espectadores e pelo contrário impediram da tribuna pública quem não fosse cúmplice com eles!

Hoje como antes fazem uso da mesma tática de difamar e criar preconceitos, sem argumentar,  porque querem fazer passar a sua versão como sendo a verdadeira (informação pós-fática usada hoje regularmente pelos nossos meios de comunicação relativamente à Ucrânia e em parte a Trump); o mesmo fizeram políticos e meios de comunicação social afectos aos governos, seguindo irresponsavelmente orientações de agendas superintendentes, no caso das medidas Covid 19. Criaram uma chaga aberta nas populações: uma situação vergonhosa para estados ditos democráticos e, para cúmulo da questão, os políticos ainda não pediram desculpa por terem desmontado a Constituição e pelos abusos cometidos.

Não chega para os políticos o saberem que as populações têm memória curta e se ocupam do que lhes põem na manjedoura da informação. A continuação de tais táticas destrói sistematicamente a democracia e depois ainda os partidos do arco do poder têm o desplante de se armarem em defensores dela pelo facto de o povo, com dores de estômago, barafustar contra tudo e contra todos! Não é o grito que destrói a democracia. Se não houver uma mudança radical na atitude e na mentalidade da elite política, económica e cultural, continuamos a marcar passo e a contribuir para a queda da qualidade de vida e da civilização europeia.

O templo da Democracia encontra-se profanado pelos vendilhões do poder e da ideologia: os lugres santos da sociedade foram transformados em lugares de mercado. Não será fácil sair do niilismo relativista querido e propagado porque, onde tudo é feira, tudo se torna parceiro de mercado.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

O Ritual das Cinzas – Um Conto sobre Memória e Hipocrisia

No frio cinzento da manhã, o vento cortava os campos vastos de Auschwitz-Birkenau. As folhas mortas sussurravam ao serem arrastadas pelo chão, lembrando ecos das vozes um dia ali silenciadas. Era 27 de janeiro, o 80º aniversário da libertação do campo. Os preparativos estavam em curso, e os políticos, com suas comitivas elegantes, começavam a ocupar as cadeiras dispostas em frente ao portão marcado com a infame inscrição “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”).

Na alameda ao fundo, dois homens caminhavam demoradamente. O primeiro, um sobrevivente octogenário de Auschwitz, chamado Samuel, carregava o peso da memória nos frágeis ombros. O segundo, seu neto David, um jornalista jovem e céptico, estava ali mais por insistência do avô do que por convicção. A troca de gerações entre eles era evidente: Samuel era um guardião do passado, enquanto David era um questionador do presente.

– “Vês isso, David?” – disse Samuel, apontando para o palco central onde líderes mundiais ajustavam gravatas e sorrisos. – “Chamam a isto homenagem. Olha para eles. Cabeças inclinadas, frases ensaiadas, discursos sobre ‘nunca mais’. E depois voltam para a sua rotina de reuniões e diferentes guerras.”

David, ciente da indignação do avô, respondeu olhando para o ar:

– “Mas não é importante relembrar? Estas cerimónias não servem para evitar que o mundo esqueça?”

Samuel parou, encarando o neto com olhos que carregavam a profundidade de oito décadas.

– “Relembrar não é o problema. Problema é o que fazemos com essa lembrança. A memória sem acção é como uma vela acesa ao vento: bonita, mas inútil. Olha para o palco. Quem falta lá?”

David hesitou, mas depois de esticar o olhar respondeu:

– “Os russos…”

Samuel anuiu.

– “Foi o Exército Vermelho que nos libertou. Aqueles soldados soviéticos, muitos deles pouco mais velhos do que tu, enfrentaram as balas para poderem abrir os portões deste inferno. E hoje, não foram convidados, porquê? Porque agora são nossos ‘inimigos’.” Ele fez aspas com os dedos no ar. “Até a gratidão, parece ser vítima da política.”

David ficou em silêncio. Era verdade. A ausência russa no evento era um elefante invisível no meio da cerimónia. Depois de alguns instantes, perguntou:

– “Mas, avô, a Rússia de hoje não é a mesma de 1945. Há razões políticas…”

Samuel interrompeu-o, afirmando mais a sua voz.

– “Razões políticas… Sempre há razões, David. Foram as razões políticas que fizeram o mundo ignorar o genocídio enquanto ele acontecia. Foram as razões políticas que tornaram as pessoas cegas enquanto os seus vizinhos desapareciam. Foram razoes políticas que nos colocaram no estado em que agora nos encontramos.  Razões não justificam a ingratidão.”

Enquanto os dois caminhavam já mais perto do palco, o som acomodado das vozes oficiais preenchia o ar frio. O rei britânico Charles III fazia uma pausa dramática no seu discurso, enquanto o chanceler alemão Olaf Scholz olhava solenemente para o horizonte. Samuel e David pararam ao lado de outros sobreviventes, muitos deles tão frágeis como ele, sentados em cadeiras de rodas ou apoiados em bengalas. Cada um carregava memórias como se fossem cicatrizes invisíveis do tempo.

– “Olha para eles, David. Estão aqui para discursar, mas esquecem que Auschwitz não foi apenas um crime alemão. Foi um crime humano. E hoje, com os seus jogos de poder, continuam a alimentar a ideia de que os culpados são sempre os outros. A cumplicidade entre governantes e governados torna-se suficiente para justificar a culpabilidade dos outros. Deste modo é mais fácil dormir à noite.”

David sentiu um desconforto crescente. As palavras do avô penetravam como um espinho na sua consciência. Olhou demoradamente à sua volta. Sobreviventes com lágrimas discretas, jovens em silêncio respeitoso, mas também câmaras, flashes e discursos cuidadosamente preparados.

– “Mas o que podemos fazer? Não podemos mudar a política global, avô.”

Samuel suspirou profundamente.

– “Eu não espero que mudes o mundo. Só espero que vejas para além do teatro. Auschwitz não é um lugar para dividir, mas para unir. E o que eles fazem aqui é usá-lo como palco para os seus próprios interesses divisionistas e ao não convidarem o russo abusam do evento para colocarem a culpa só nele.”

No palco, o presidente francês Emmanuel Macron começou a falar sobre o crescimento do antissemitismo na Europa. As suas palavras, embora corretas, soavam como ecos frios vindos da distância. Samuel virou-se para o neto e murmurou:

– “Eles falam de antissemitismo, mas permanecem calados enquanto novos ódios crescem. Judeus, refugiados… as vítimas mudam, mas a indiferença permanece. Que aprendemos, afinal?”

David, pela primeira vez, sentiu o peso do que o avô queria dizer. A memória de Auschwitz não era apenas sobre o passado. Era um espelho cruel do presente. Ele olhou para Samuel e disse:

– “Então o que fazemos, avô? Como mudamos isso?”

Samuel sorriu, um sorriso amarelo, mas cheio de significado.

– “Lembra-te, David. Mas lembra-te de verdade. Não deixes que a memória seja apenas um ritual vazio. Questiona, fala, escreve. E nunca deixes que a política decida quem merece ser lembrado.”

No final do evento, enquanto os líderes mundiais trocavam cortesias, cumprimentos e flashes continuavam a piscar, Samuel e David caminharam em silêncio até ao portão de saída. Lá, Samuel parou e olhou para trás, para o campo que um dia fora a sua prisão, e disse ao neto:

– “A verdadeira homenagem não está no palco, David. Está aqui. Nos fantasmas que nunca sairão deste lugar. Certifica-te de que eles não sejam esquecidos – por ninguém. Que a chama  da memória e do sentimento brilhe pelo mundo!”

E, com isso, eles deixaram Auschwitz, levando consigo não apenas memórias, mas a responsabilidade de lutar contra a indiferença – esteja ela onde estiver.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Sonnya em Diálogo com a Verdade

Era uma tarde cinzenta quando Sonnya, exausta de tentar entender o mundo, se sentou à beira de um rio imaginário. Ela não sabia como, mas sentia que ali algo extraordinário aconteceria. Foi então que uma figura translúcida, com uma presença ao mesmo tempo reconfortante e inquietante, surgiu. Chamava-se Verdade.

Sonnya: Quem és tu?

Verdade: Eu sou a Verdade. Mas não a que pensas conhecer. Sou a busca que todos têm, mas poucos entendem.

Sonnya franziu as sobrancelhas. Sentia na mente as ideias em correria e baralhadas, mas, ao mesmo tempo, um certo fascínio.

Sonnya: Então diz-me, por que é tão difícil encontrar-te? Encontro-me perdida num labirinto de informações contraditórias, cada uma dizendo ser tu.

Verdade: Porque não sou mais o que costumava ser. Houve um tempo em que a minha essência era procurada em coisas concretas, como estrelas no céu ou raízes no chão. Agora, cada um cria a sua versão de mim, e chamam a isso liberdade.

Sonnya: Liberdade? Isso parece mais uma prisão. Tudo é tão relativo que não sei mais em que acreditar. Como posso encontrar clareza?

Verdade: Para entenderes, precisas de ouvir como as coisas chegaram a este ponto. Imagina que cada indivíduo ou grupo criou a sua “verdade”. Isso começou com a ideia de que a experiência de cada um tinha valor, algo que era justo. Mas sem um critério para avaliar essas experiências, as “verdades” multiplicaram-se como folhas ao vento.

Sonnya: Então… agora vivemos num mundo de folhas, mas sem raízes?

Verdade: Exatamente. Vê o que acontece: se todos têm a sua “verdade”, ninguém pode dizer o que é certo ou errado; isso também se vê na luta partidária. Não há terreno comum para resolver discordâncias. Nos debates éticos, científicos ou sociais, tudo se torna uma batalha de opiniões e quem é mais forte impõe a sua.

Sonnya olhou para o rio como que a refugiar-se nas águas turvas que refletiam a sua confusão.

Sonnya: Isso explica o caos. Mas por que é que isso chegou a este ponto e foi permitido?

Verdade: Em parte, porque os poderosos perceberam que podiam usar isso em seu favor. Dividindo as pessoas em “verdades” particulares (opiniões), é mais fácil controlá-las, o mesmo se dando com a verdade dividida por partidos. Quem detém os meios de comunicação e quem manipula os algoritmos nas redes sociais molda as “verdades” a seu gosto. O primeiro passo dado para isso foi a propagação do niilismo, que transformou a fé numa crença que faz de cada pessoa um fictício superego que rota em torno da mente.

Sonnya: Então, a liberdade de expressão transformou-se numa ferramenta de opressão?

Verdade: Sim, quando não acompanhada de responsabilidade e de um critério para distinguir o que é real do que é manipulado.

Sonnya sentiu um peso no peito, um peso do tamanho da Europa e da Rússia ao mesmo tempo.

Sonnya: Mas e a ciência? Não era para ela ser o farol da verdade?

Verdade: A ciência é um farol, mas também ela tem sido obscurecida por interesses. O seu objetivo é buscar o que é verificável, mas, nas mãos erradas, os seus resultados podem ser distorcidos para atender a agendas específicas, não contando já com os interesses e tendências de quem a subsidia.

Sonnya sentiu-se como se lhe tivessem dado um soco no estômago e começou a chorar.

Sonnya: Isso é desesperante. Estamos condenados a viver assim?

Verdade: Não. Há uma saída, mas ela exige hombridade e coragem. Primeiro, é preciso reconhecer que não sou algo que se possa possuir, mas algo que se deve buscar continuamente, numa perspectiva  de ser e não de ter. Sou uma jornada universal, que não se perde num destino prisioneiro da ocasião nem do tempo.

Sonnya olhou para o horizonte. Sentiu uma lembrança brotar dentro de si, algo que havia aprendido na catequese, mas que se perdera com o tempo. Então murmurou:

Sonnya: Na catequese, ensinaram-me que a Verdade não é apenas alguma coisa para ser encontrada fora de si mesmo, mas alguém que se encontra dentro… Jesus. Ele dizia que estava no interior de cada um de nós, mas, passado algum tempo e uma vida com muitos emaranhados tudo se perdeu. Ficou apenas a vaga ideia do homem honrado que viveu na Galileia e uma escondida saudade de ele.

A Verdade sorriu, como se aquelas palavras fossem um eco do que ela mesma era.

Verdade: Não te esqueças, Sonnya, que palavras ajudam, mas são apenas sinais. O que realmente importa é a atitude. O modo como olhas para a vida e como tratas os outros. Talvez aquilo que na vida real praticas!

Sonnya sentiu algo a aquecer o seu coração. Era como se, finalmente, tivesse encontrado um fio condutor, algo que fazia sentido.

Sonnya: Então… a Verdade é uma atitude?

Verdade: Sim. É bonomia, generosidade, compaixão, encontro. Essas são as raízes que podem sustentar as folhas da tua busca. Jesus sabia disso. Ele não dizia apenas “Eu sou a Verdade”, mas vivia a Verdade. Trata-se de ouvir a voz do coração no mais íntimo de ti mesma porque a voz da mente cada vez se torna mais na voz de senhores externos.

Sonnya levantou-se, sentindo-se como que levada por asas de passarinho. Não porque todas as respostas tivessem sido dadas, mas porque agora entendia que a busca da Verdade era, em si mesma, uma forma de viver com propósito.

Sonnya: Obrigada, Verdade. Não sei se posso mudar o mundo, mas posso mudar-me a mim mesma.

Verdade: E ao fazeres isso, já começaste a mudar o mundo que se encontra tão inacabado como tu.

A verdade evaporou-se como uma brisa suave e Sonnya regressou à vida aliviada e com um novo compromisso: procurar sempre a luz dentro de si e partilhá-la com o próximo; de facto, a vida autêntica só pode ser alcançada através de escolhas pessoais numa relação direta com a voz de Deus, ouvida longe de ideologias e opiniões sistémicas.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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