QUEIXA DO CORPO QUE AMA

Não me trates
como simples invólucro.
Não me peças silêncio
quando sou linguagem.

Dizes que aspiras ao espírito,
como se eu fosse peso,
como se a transcendência
não precisasse de chão.

Mas deixa que te diga,
sou eu que sinto o primeiro estremecer,
sou eu que abro o caminho
por onde a alma ousa passar.

No encontro amoroso
não sou obstáculo,
sou ponte.

Quando dois corpos se aproximam
não é carne que procura carne:
é existência que pede morada.
É o eu cansado de ser só
a ensaiar o nós.

Na tua pele aprendo outra gramática,
o toque não possui, revela;
o desejo não consome, une.

Quero diluir-me contigo
não no apagamento,
mas na comunhão:
dois ritmos a tentarem
um mesmo fôlego,
duas fragilidades
a ousarem um só sentido.

Não me peças para desaparecer
em nome do espírito.
Sou eu que lhe dou voz,
calor, gesto e presença.

Quando me acolhes,
o espírito não se perde, encarna-se.
E nesse instante raro
em que eu e nós coincidem,
o tempo suspende-se
como se Deus
respirasse connosco.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

Comentário de um cientista amigo:

O poema “Queixa do Corpo que Ama” realiza, com notável força lírica, aquilo que propõe: a superação do dualismo. O corpo não é apresentado como oposto ao espírito, mas como sua condição de possibilidade. A linguagem é particularmente feliz ao inverter a narrativa tradicional: não é o espírito que desce ou se manifesta apesar do corpo, é o corpo que “abre o caminho por onde a alma ousa passar”.
Os versos finais atingem uma dimensão quase sacramental: “Quando me acolhes, / o espírito não se perde, encarna-se.” Esta é a chave do poema. A “encarnação” não é um evento único no passado, mas um acontecimento contínuo no encontro amoroso. O corpo é o lugar teológico onde o espírito se faz presente e onde a comunhão (não a fusão) se torna possível.
A imagem final, de Deus a respirar connosco no instante em que “eu e nós coincidem”, é de uma profunda beleza e síntese. Une o humano e o divino, o temporal e o eterno, o físico e o espiritual, não por abstração, mas no próprio acto de respirar  que é a função mais corporal e mais vital que existe.
É um poema que consegue ser filosófico sem ser abstrato, espiritual sem ser etéreo, e profundamente humano na sua reclamação do corpo como sujeito de amor e conhecimento.

O TEMPO APRENDEU O MEU NOME

O tempo não mora nos relógios.
Habita em me-mim-migo

Chega sem bater,
senta-se no coração
e aprende devagar
o ritmo do meu sangue
a suster a ânsia de viver.

Há dias que passam por mim
como água sem sede,
e outros que ficam
como ferro quente na memória.
Não é a duração que decide,
mas sim o sentido.

O tempo ama-me quando o escuto.
Fala na brisa que inclina as árvores,
no mar que pensa em voz alta,
na noite que me despe do ruído
para me devolver inteiro.

Quando amo,
o tempo adensa.
Não mais corre, enlaça.
Faz-se carne, no abraço,
pausa em que o instante
desperta eterno.

Os que passaram por mim
não foram embora,
mudaram apenas de morada.
Vivem agora no espaço interior
onde a saudade não é ferida,
mas profundidade.

Escrever é recolher esse tempo
antes que se perca.
Não para o fixar,
mas para o deixar respirar
no papel como respira em mim.

Sou argila deste tempo
que me modela e trespassa.
Sou seu curso e sua margem.
Até que, inesperado,
seu sopro em meu ouvido
soletra a sílaba primeira.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

A DOM BOSCO PAI MESTRE DA JUVENTUDE E AMIGO

Hoje é dia de memória viva,
De um sonho que se fez pátio e jubilação.
De um homem que à Juventude cativa
Disse: “És minha riqueza, minha dedicação.”
“Dá-me as almas”, era toda a sua ânsia,
O resto? Folhas ao vento a voar.
Era a liturgia do amor na infância,
A santa missão de fazer brotar.

O seu sistema? Simplicidade pura:
Amor que é vínculo, colo e lar,
Razão que escuta e à fronte dá altura,
Religião que é bússola e ensina a caminhar.
Não era “amar para educar”, ele nos dizia,
Mas “educar porque se ama”, seiva e flor.
E eram os recreios uma sinfonia,
Sem a qual a escola é casa sem calor.

Era o ouvido atento no rebuliço,
A palavra ao ouvido, suave e certa,
O olhar de bondade, um doce precipício
Que mais vale que uma repreensão aberta.
“Que saibam que são amados!” Este o alicerce.
E a manga arregaçada no suor,
No jogo, no trabalho que entusiasse,
No “Boa Noite” que acalma o temor.

Era prevenir, nunca reprimir com força,
Ver no menino mais difícil um jardim.
Acreditar que a semente boa torça
E rompa o cimento que há em todo o limo.
“Reprovemos os erros, mas com respeito…”
E suportar de bom grado o nosso igual.
Esta era a sua pedagogia, o seu feito:
Um oratório aberto a todo o mal.

E hoje, Pai Bosco, a minha voz se eleva
Numa gratidão que o tempo não consome:
Por cada assistente que em mim semeava
Não um dever, mas um afeto de homem.
Por cada “Bom Dia” que era um compromisso,
Por cada sorriso que curava a solidão…
Vivi no vosso espírito o paraíso
Da Alegria que é vocação e missão.

Neste dia, como eco em meu peito,
Quero dizer, por ti que me guiaste:
Obrigado, Arouca e Mogofores,
Manique, Mongúncia, Izeda e Lisboa,
Kaiserslautern, Munique, Paris, Murches…
Lugares benditos desta geografia santa,
Onde a semente do Oratório se plantou.
Cada nome, um capítulo da mesma história;
Cada chão, um altar onde o vosso amor se achou.

Obrigado pelo pátio, pelo canto,
Pela família que me deste em herança.
O carisma salesiano, em todo o canto,
É a vossa eterna, jovem, confiança.
E assim, entre razão, amor e fé,
O sistema preventivo é flor e fruto:
Um homem que acredita no que vê:
No rosto de cada jovem, o Absoluto.

Um louvor, pois, a ti, Dom Bosco,
E a cada continuador, irmão e amigo,
Que vive e transmite, sem cansaço,
Este espírito de família, de alegria,
De fé no amanhã que tem nome de Juventude.
Um feliz e eterno dia de Dom Bosco

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Artigos que escrevi relativos a Dom Bosco:

Sistema Preventivo na Educação dos Jovens: https://antonio-justo.eu/?p=1305

DOM BOSCO E A PEDAGOGIA DA ALEGRIA: https://antonio-justo.eu/?p=2675

PORTUGAL EM VOZ BAIXA

Falaram-nos de pátria, de abril e de estado
como quem ensina um hino
sem nunca explicar a letra.
Exigiram-nos credo, não pensamento,
um verso decorado, não um poema.
Exigiram cartão, não consciência,
um retrato sem rosto, uma assinatura sem nome.
Exigiram modos em fila, não perguntas
uma geometria de ombros curvados,
um caminho que não se bifurca.

Assim cresceu um país de vozes baixas,
onde pensar dói e discordar cansa.
Um povo treinado para escolher lados
para a cor da divisa, mas não rumos,
bom para defender cores
mesmo quando a tela apodrece.

O poder aprendeu cedo
que não precisava de censura,
bastava hábito.
Bastava chamar lealdade à obediência,
responsabilidade ao silêncio
segurança ao medo de mudar.

E o país foi-se habituando.

E nós, cansados,
aceitámos o roubo pequeno
como defesa do roubo grande,
a esperteza como virtude,
o, “paciência, que remédio”
como filosofia nacional.
Ladrão que rouba a ladrão
descansa melhor à noite
disseram-nos sempre
e o país foi-se deitando.

Nos corredores onde o tempo não entra
circulam os mesmos nomes,
as mesmas caras recicladas,
os mesmos discursos com gravata nova.
Mudam de lugar, não de intenção.
Temem o intruso não porque grite,
mas porque não deve favores
nem aprende o jeito certo de calar.

Chamam democracia
a um consenso viciado,
pluralismo a um coro afinado,
debate a um teatro onde o final
da peça já foi ensaiado e escrito.

E o povo foi treinado na espera!
O povo espera porque trabalha,
O povo espera porque envelhece,
O povo espera porque lhe disseram
que pensar é perigoso e mudar é radical.

Mas há um cansaço novo no ar.
Um silêncio diferente a crescer.
Não o da resignação,
mas o da pergunta que amadurece.

Talvez a rutura não venha
como grito, mas como recusa.
Recusa em fingir,
Recusa em alinhar,
Recusa em perdoar tudo
em nome do medo e da paz podre.

Talvez o primeiro gesto livre
seja olhar este país sem slogans
e perguntar, com voz inteira:
quem somos nós, para além daquilo
que nos ensinaram a repetir?

Porque um povo não se perde
quando erra ou falha.
Perde-se, sim,
quando deixa de pensar.

E pensar, hoje, faz doer
mas é o ato mais revolucionário
que ainda nos resta.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

SOU LIVRE DENTRO DA PRISÃO

A semente original habita o vaso das circunstâncias;
não sou totalmente livre, nem apenas prisão

Sou livre dentro de mim.
Não sei ao certo, por vezes,
onde começa o vento que em mim trago
e onde terminam os que me empurram.

Cuidado com a liberdade que se vende
na praça pública, essa moeda falsa
onde negociam máscaras sem rosto
e trocam almas por um punhado de sons.

Sou feito de raízes que descem
ao fundo da floresta virgem:
ali habita o “eu-tu-nós”,
árvore divina, antiga e sem nome.

Mas sopram ventos da polis,
secam a terra, trazem fogo sem água,
gritam ofertas de liberdade
enquanto roubam a minha voz.

Há muitos na praça
transformados em negociantes de vidas,
carregando chaves que nunca abriram
seus próprios cadeados.

E há carrascos vestidos de inocência
que sacrificam o mundo
por uma vidinha estreita e aplaudida.

No centro de mim,
às vezes longe, às vezes perto
escuto o mar.

É um mar que não está nos programas,
um abanador de brasas adormecidas,
um salitre que me lembra:

A verdadeira liberdade
não se compra, não se grita,
não se deixa prender pelos contextos,
pois até nas grades respira,
até no silêncio dança,
até na escuridão se faz aurora.

Sou livre dentro da prisão
porque trago o oceano em mim
e as estrelas que não cabem
em nenhuma bandeira.

O meu reino não tem fronteiras,
a minha lei é o pulsar contínuo
daquela floresta e daquele mar,
e a minha pátria
é este lugar sagrado
onde o “eu” e o “tu”
ainda se reconhecem
antes que o mundo os separe
e lhes dê nomes de inimigos.

Trago em mim um sol de ser original
No berço das roupas que herdei.
Desenho, na mão que é meu abrigo,
O voo que as grades não prendem.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo