O EIXO CIVILIZACIONAL EM RUTURA

Ensaio sobre a mudança axial e o nascimento da política relacional
(Sahra Wagenknecht como sintoma e prenúncio)

Há momentos na história em que o solo treme sob o fundamento das instituições e o cidadão se sente desprotegido e indefeso. Não se trata de sismos eleitorais, de alternâncias de poder, de crises cíclicas que o sistema digere e recicla. Trata-se de algo mais fundo e que implica a erosão das próprias categorias com que pensamos o político. Vivemos um desses momentos em que se torna urgente uma política relacional para além da esquerda, da direita e do formalismo partidário

O arrazoamento político-partidário que domina a governação em toda a União Europeia e, por extensão, no Ocidente, arrasta-se numa linguagem gasta, numa gramática de interesses que já não traduz a experiência vivida das pessoas hodiernas. Os partidos falam, mas não dizem; propõem, mas não escutam; governam, mas não vivem o presente e, no entanto, a exigência de mudança não vem de fora, pois brota do próprio interior da crise, como uma força axial que reclama nova forma.

A rutura dos eixos

Desde a Revolução Francesa, a política de massas organizou-se em torno de dois conflitos fundamentais: a disputa sobre a desigualdade económica e a tensão entre valores conservadores-autoritários e liberais. A esquerda e a direita nasceram dessa topologia. Durante dois séculos, essa bússola funcionou, imperfeitamente, mas funcionou.

O busílis da questão é que hoje e na nova era que se aproxima essa bússola perdeu o norte.

A globalização económica, a imigração, os refugiados, a afirmação de identidades religiosas e culturais reconfiguraram o campo de forças. O velho eixo esquerda-direita foi atravessado por um novo eixo, aberto versus fechado, que não se deixa reduzir ao primeiro. As pessoas já não se reconhecem nas coordenadas tradicionais. Sentem que tudo o que lhes era familiar está ameaçado e buscam segurança na exclusão do que percebem como estranho. Outras, pelo contrário, veem na globalização e no multiculturalismo uma promessa de vida mais rica. Este é a nova clivagem e nenhum dos partidos tradicionais o enfrenta com honestidade.

Os partidos liberal-democratas, em particular, declinam por toda a Europa. O Ciudadanos espanhol desapareceu do parlamento. O FDP alemão, que em 2009 atingiu 14,6% dos votos, foi eliminado nas eleições de 2025. A razão não é apenas conjuntural porque provém da falta de clareza das convicções e do afastamento das expectativas do eleitorado natural. Os partidos que outrora representavam a terceira via, o centro reformista, o liberalismo social, perderam a capacidade de encarar o real.

E, no entanto, a Comissão dos Assuntos Políticos e da Democracia do Conselho da Europa alerta: os partidos políticos têm uma responsabilidade particular na salvaguarda da coesão e da estabilidade democráticas. Sem partidos, o pluralismo não pode ser representado de forma significativa e os parlamentos não podem funcionar eficazmente. O problema não é a existência dos partidos, mas a sua fossilização. A diminuição do número de militantes, a ascensão do sentimento antipartidário, a queda das taxas de participação, a volatilidade eleitoral e a perceção persistente de elitismo, corrupção e interesse próprio minam a legitimidade do sistema.

A mudança axial

O que está em curso não é uma simples crise política, é uma mudança axial.

Karl Jaspers, Lewis Mumford e Eric Voegelin cunharam a noção de “época axial” para descrever momentos em que a humanidade reconfigura as suas categorias fundamentais de sentido. Uma mudança axial introduz uma nova weltanschauung que enfatiza a subsidiariedade em vez das estruturas centralizadas de poder, e um imperativo moral em que a mudança evolutiva é impulsionada mais pela cooperação do que pela competição. A descrição “axial” refere-se à emergência de um eixo transformador que permite uma correção de escala através de alternativas às estruturas de poder existentes.

Vito Mancuso, numa conferência recente, descreve a nossa condição como uma “perda de eixo do mundo”, a ausência de um axis mundi, de um critério maior do que o simples ego ganancioso. Sem essa dimensão maior, temos muitos egos autocentrados e a impossibilidade de formar sociedade. A palavra sociedade, vem do latim societas, de sócios e só existe quando há um interesse superior ao interesse estritamente individual. O que vale na economia, vale na política.

A mudança axial não é um conceito académico. É a experiência vivida de milhões de pessoas que já não se reconhecem nas coordenadas políticas herdadas. É a intuição de que algo mais profundo está a acontecer que não se limita apenas a uma troca de governos, mas uma transformação da própria consciência política.

O sintoma Wagenknecht na Alemanha

Sahra Wagenknecht é, simultaneamente, sintoma e anúncio.

O Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW), fundado em janeiro de 2024, combina políticas económicas supostamente de esquerda com uma abordagem ultraconservadora da imigração e uma política externa pró-russa. No seu programa de seis pontos, aprovado em junho de 2025, o BSW apresenta-se como “a força política do despertar”, contra o militarismo, a divisão social e a tutela autoritária”, defendendo uma “política da razão e do equilíbrio social, da renovação democrática e da paz”.

Wagenknecht define o partido como “a encarnação do que muitos partidos já não defendem: um conservadorismo esclarecido no sentido de que preserva tradições e segurança nas ruas e espaços públicos, mas ao mesmo tempo empregos, saúde e pensões”.

Isto não é nem esquerda nem direita no sentido tradicional. É uma tentativa, ainda titubeante, ainda contaminada pelas maleitas do individualismo da nossa sociedade de transição, de criar   o novo eixo. O BSW aponta para uma política que ultrapassa a dicotomia herdada, mas ainda não encontrou a linguagem plena dessa ultrapassagem.

Um filósofo e crítico político observaria que o BSW tem razão em denunciar o formalismo partidário e a governação daninha que se esconde atrás da retórica democrática. Mas erra ao não assumir plenamente a responsabilidade individual que a nova época exige. A mudança axial não se faz com novos partidos que repetem velhos vícios. Faz-se com pessoas que assumem a sua quota de responsabilidade pelo mundo que habitam.

Urge uma Racionalidade relacional

O que emerge como exigência já não será emoção política, porque já temos excesso dela, à direita e à esquerda. O que está a emergir é racionalidade relacional.

A lógica da relacionalidade, desenvolvida por teóricos como Qin Yaqing, argumenta que a relacionalidade precede a racionalidade. Um ato “racional” em relação a um inimigo pode ser arracional e até irracional se dirigido a um amigo. A política relacional não nega a racionalidade porque a redefine em termos de relações e não de interesses isolados. Os processos de política seguem uma lógica de relacionamento, ou seja, atores que agem de forma a sustentar e refletir a teia de relações na rede política. O relacional e o racional não são alternativas porque cada sistema político reflete ambos.

Esta é a mudança de mentalidade que a época axial exige define-se por  uma política orientada não pela emocionalidade das identificações tribais, equacionadas no tribalismo da revolução francesa que a qualificou de direita ou esquerda, nós ou eles, mas pela razão que reconhece a primazia das relações. Uma razão que não é fria calculadora de interesses, mas que compreende que o eu se constitui na relação com o outro e no seu melhor social parte do nós.

Individualismo responsável

A transição para a nova época axial não se fará sem uma reconfiguração do individualismo.

Lipovetsky distingue o individualismo responsável do individualismo irresponsável: o primeiro está circunscrito ao plano daquilo que se espera das reformas políticas; o segundo é a deriva hedonista que dissolve o laço social. Na sociedade de transição em que vivemos, ambos coexistem. O BSW, como todos os movimentos emergentes, padece desta ambiguidade: aponta para o assumir individual de responsabilidades, mas ainda se debate com as maleitas do individualismo irresponsável.

O que a nova política exige é um individualismo que não seja egoísmo, mas responsabilidade. Protagoniza uma autonomia que não se feche sobre si mesma, mas que se abra à relação e advoga uma liberdade que não seja indiferença, mas compromisso.

Este é o paradoxo da época axial: quanto mais o indivíduo se assume como singular, mais se descobrirá relacional. Quanto mais se responsabiliza, mais se compreende parte de algo maior. O axis mundi não é uma transcendência que anula o eu, mas uma dimensão maior de si mesmo que o constitui.

O imprevisível

E daqui surge o imprevisível. Nenhuma análise, por rigorosa que seja, pode prever o que emerge quando a consciência muda de eixo. A mudança axial não é um programa político que se implementa, mas sim uma transformação que acontece e à qual os partidos, se quiserem sobreviver, terão de se adaptar ou morrer.

O que se pode afirmar com exigência é isto: a política que vier não será nem de esquerda nem de direita, nem sequer de uma “terceira via” no sentido blairiano que se esgotou na aceitação acrítica da globalização. Será uma política relacional, que reconhece que os problemas da nossa época, ou seja, a crise ecológica, a solidão urbana, a desintegração comunitária, a perda de sentido, não se resolvem com mais Estado ou mais mercado, mas com novas formas de relação.

Será uma política que ultrapasse o formalismo partidário e a governação daninha que hoje se pratica em Bruxelas, Berlim, Londres, Paris ou Lisboa. Uma política que assuma a responsabilidade individual como fundamento da responsabilidade coletiva. Uma política que não tema o profetismo, não o profetismo messiânico que promete paraísos, mas o profetismo que ousa nomear o que está a nascer quando todos ainda olham para o que está a morrer.

Exigência e criatividade

O ensaio que aqui esboço não pretende ser um programa, pretende apenas ser um gesto, um gesto de exigência e de criatividade.

Exigência, porque a época não tolera mais a mediocridade do arrazoamento partidário que se contenta com a gestão do existente. Criatividade, porque o novo não nasce do velho por dedução lógica. Nasce por rutura, por invenção, por abertura ao que ainda não é.

Os partidos, na sua forma atual, encontram-se num estado de consciência subdesenvolvida. Equacionam interesses, argumentam num grau rudimentar e arcaico, como se a política fosse ainda uma negociação entre grupos de pressão. O BSW, embora inicie uma nova maneira de estar político, ainda padece das maleitas dessa herança. Mas aponta — e isso é o essencial. Aponta para uma política que não se esgota na gestão dos interesses, mas que se abre à responsabilidade pelo todo.

O aspeto profético

O que está em curso não é uma crise, é um nascimento e nas dores do parto, é natural que se confundam os gritos da morte com os primeiros vagidos da vida. Mas quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir reconhece os sinais que indicam que a mudança axial está a acontecer. A política ocidental, mais cedo ou mais tarde, terá de se reconfigurar. Os partidos que sobreviverem serão aqueles que compreenderem que a racionalidade relacional não é uma concessão ao sentimentalismo, mas a forma mais alta de razão. Que o individualismo responsável não é uma ameaça à comunidade, mas o seu fundamento. Que a mudança de mentalidade não é uma opção, mas uma urgência.

Urge mudança necessária no arrazoamento político-partidário. Não por decreto, não por programa, não por revolução, mas por axialidade. Porque o eixo do mundo está a deslocar-se, e quem não se mover com ele será deixado para trás, não pela força dos adversários, mas pelo peso da própria inércia.

Resumindo: a crise em que nos encontramos anuncia a mudança axial e o profético nascimento da política relacional. Filosoficamente seria de dizer que o momento axial em que nos encontramos aponta  para uma crise das categorias com que formulamos as perguntas. E o BSW pode estar a antecipar uma das formas da recomposição política futura.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

A ECOLOGIA ENTRA NO CORAÇÃO DA TEOLOGIA

O cuidado da criação não é um apêndice moral, mas uma dimensão constitutiva da fé cristã. O novo documento da CTI, aprovado por Leão XIV, insere a ecologia no núcleo da teologia trinitária.

Resumo

O presente artigo que apresenta as novas orientações da Comissão Teológica Internacional (CTI) procura mostrar como a ecologia entra hoje no coração da teologia, deixando de constituir um tema periférico para se tornar uma dimensão estruturante do pensar teológico e exige a reconfiguração dos seus próprios pressupostos ontológicos, antropológicos e sociais. Ao assumir a teologia trinitária como horizonte fundamental, depreende-se a necessidade de ultrapassar uma ontologia de matriz predominantemente grega, substancialista, hierárquica e excessivamente marcada pelo masculino, em direção a uma ontologia relacional, comunional e trinitária. O mistério trinitário revela o ser não como autossuficiência, mas como relação, alteridade, reciprocidade e dom. Esta remodelação ontológica reclama, por sua vez, uma antropoginelogia que repense conjuntamente o humano, o masculino e o feminino, superando a redução androcêntrica da antropologia teológica e filosófica e reconhecendo a diferença na igualdade e na reciprocidade. Tal transformação não pode deixar de repercutir-se numa correspondente sociologia, capaz de questionar estruturas de dominação, apropriação e exclusão e de pensar novas formas de convivência e comunhão. A questão ecológica revela-se, deste modo, inseparável da questão antropoginológica e social, porque a relação com a Terra prolonga e manifesta determinadas conceções de Deus, do ser e do humano. Uma teologia trinitária da criação desloca o paradigma da posse para o da pertença, da autonomia para a interdependência e do domínio para o cuidado. A criação emerge, assim, como tecido de relações e comunidade de vida e não como exterioridade disponível à soberania humana. A conversão ecológica implica, portanto, uma conversão das categorias fundamentais com que a teologia pensa Deus, a humanidade, a sociedade e o cosmos. É nesta transformação paradigmática que a ecologia deixa de ocupar as margens e entra verdadeiramente no coração da teologia.

O novo passo da Comissão Teológica Internacional

Há documentos eclesiásticos que se leem como meras atualizações disciplinares. Outros, poucos, marcam um antes e um depois na maneira como a Igreja compreende a sua própria missão. O novo texto da Comissão Teológica Internacional (CTI), “Cuidar da nossa Casa comum” é a resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário, pertence inequivocamente a este segundo grupo. Publicado com o visto de Leão XIV, após quatro anos de trabalho (2022-2026), o documento não se limita a ecoar a Laudato si’ de Francisco, pelo contrário, aprofunda as suas intuições mais radicais e confere-lhes um fundamento teológico sistemático que faltava.

A tese da Comissão é tão simples quanto revolucionária ao afirmar  “o nosso relacionamento com a natureza (ecologia) é uma dimensão constitutiva do nosso relacionamento com Deus Criador (teologia)”. Dito de outro modo: a ecologia não é um tema periférico da doutrina social da Igreja, nem uma concessão ao espírito do tempo. É matéria teológica no sentido pleno. E, como tal, exige que se repense a própria articulação entre fé e mundo.

De Francisco a Leão XIV há uma linha de continuidade que se torna doutrina

Quando Francisco, em 2015, escreveu que «tudo está interligado», muitos leram a encíclica como um apelo à consciência ambiental. E era-o, certamente. Mas a novidade profética estava noutro lugar: na recusa em separar a crise ecológica da crise social e em afirmar que a Terra «clama contra o mal que lhe provocamos». A ‘Laudato si’ foi, desde o início, um texto teológico, embora muitos tenham preferido lê-lo como um tratado de ecologia política.

A CTI retoma agora esse fio condutor e leva-o até às suas últimas consequências. O documento aprovado por Leão XIV não substitui a encíclica; apresenta-lhe o seu núcleo dogmático. A criação não é o palco onde decorre a história humana, mas sim a obra do Deus trinitário, marcada por uma «impressão trinitária» que torna toda a realidade relacional. Nada é uma mónada. Tudo está em relação, porque o próprio Deus é relação.

Esta afirmação, aparentemente abstracta, tem consequências práticas decisivas. Se a criação traz em si a marca da Trindade, então a interdependência ecológica não é apenas um dado da biologia ou da física, é também um dado teológico. Destruir a natureza é, por isso, deformar uma resposta ao Doador. Cuidar dela é, pelo contrário, entrar na lógica do dom.

Nem senhor absoluto, nem mero animal: a antropologia cristã em jogo

O documento da CTI evita com lucidez dois extremos igualmente redutores. O primeiro é o «antropocentrismo predatório», que transforma o ser humano em proprietário absoluto do mundo, legitimando um uso ilimitado dos recursos. Este é o pecado denunciado por Francisco: a Terra que clama contra o mal que lhe causamos.

Mas a Comissão recusa também o extremo inverso, expresso em certas formas de biocentrismo ou ecocentrismo que dissolvem a singularidade humana, equiparando a pessoa a qualquer outro ser vivo. A resposta cristã situa-se no meio: o homem é criado à imagem e semelhança de Deus, o que lhe confere uma dignidade singular, mas essa dignidade não é um título de domínio mas sim uma responsabilidade. O homem não é proprietário da Casa comum. É seu guardião, cultivador e servidor.

Neste ponto, o documento toca num dos nervos mais sensíveis da teologia contemporânea: a relação entre a transcendência divina e a imanência do mundo. Ao afirmar que a criação é obra do Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo, a CTI abre caminho a uma compreensão mais profunda da Encarnação. Jesus Cristo não vem salvar apenas as almas, mas toda a criação. E é nessa perspectiva que a ecologia se torna cristologia aplicada.

Do «pecado ecológico» ao pecado contra a criação e o Criador

Um dos contributos mais relevantes do documento é a reformulação do conceito de «pecado ecológico». A expressão, difundida após o Sínodo para a Amazónia (2019), era teologicamente ambígua. A CTI propõe agora uma formulação mais precisa expressando-o como  pecado contra a criação e contra o Criador.

Esta dupla referência é decisiva. O dano causado à natureza não é pecado apenas porque produz consequências ambientais negativas, mas porque contradiz o sentido que Deus imprimiu à criação e a responsabilidade confiada ao ser humano. A poluição, a destruição dos ecossistemas, a exploração desenfreada dos recursos tornam-se, assim, ofensas a Deus. Não são meros erros de cálculo económico ou político; são falhas morais que afectam a relação do homem com o seu Criador.

A formulação é inovadora e, ao mesmo tempo, profundamente tradicional. Sempre se soube que o pecado tem uma dimensão social e cósmica. O que a CTI faz é tornar essa dimensão explícita, articulando-a com a teologia da criação e com a doutrina trinitária. O resultado é uma visão integrada em que o «clamor da Terra» e o «clamor dos pobres» se fundem numa única interpelação moral.

Ecologia integral e justiça social une o grito da terra ao dos pobres

A ecologia proposta pela Igreja não pode ser verde sem ser vermelha, por assim dizer, ou seja, não pode proteger a natureza esquecendo as pessoas, especialmente os mais pobres. O documento da CTI é inequívoco neste ponto: as populações mais vulneráveis são as primeiras vítimas da degradação ambiental, da escassez de água, da desertificação e das alterações climáticas.

Por isso, a Comissão retoma uma das grandes linhas da Laudato si’: o clamor da Terra e o clamor dos pobres são uma única interpelação moral. E esta perspectiva conduz a uma crítica corajosa do modelo económico dominante, quando este transforma a natureza e as pessoas em meros recursos de produção e consumo. A CTI aponta mesmo para a necessidade de um sistema económico diferente, «ao serviço da vida de todos», orientado pela sustentabilidade e pelo respeito pelos ritmos da Casa comum.

Esta dimensão social é frequentemente esquecida nos debates sobre ecologia, que tendem a polarizar-se entre catastrofistas e negacionistas. O documento evita ambas as tentações, propondo uma visão que é ao mesmo tempo realista e esperançosa. A crise ambiental é um «severo teste à nossa esperança», mas a esperança cristã não se confunde com optimismo superficial. A fé na redenção, que abrange toda a criação, é o horizonte último que dá sentido ao esforço presente.

A Eucaristia e a sacramentalidade da criação no mundo como dom e louvor

Talvez a passagem mais bela do documento seja aquela em que a CTI desenvolve a dimensão sacramental da criação. O mundo, sem se confundir com Deus, remete para Ele e manifesta algo da sua bondade e beleza. Esta «sacramentalidade» encontra na Eucaristia a sua expressão mais alta: o pão e o vinho, frutos da terra e do trabalho humano, tornam-se o corpo e o sangue de Cristo.

Aqui, a ecologia cristã não nasce apenas da preocupação perante uma catástrofe iminente, mas da gratidão. O mundo é recebido antes de ser utilizado. É dom antes de ser recurso. E precisamente porque é dom, pode tornar-se louvor. Esta intuição litúrgica confere à ecológica uma profundidade espiritual que falta a muitos discursos ambientais, mesmo quando bem-intencionados.

Cuidar da Casa comum não é, portanto, uma tarefa pesada ou moralista. É uma resposta de amor ao Doador. E é nesse amor que se encontra a verdadeira motivação para a mudança de estilo de vida, para a conversão ecológica, para a sobriedade partilhada.

A ecologia da esperança como questão teológica

Agora importa sublinhar o que este documento não é, e o que verdadeiramente é. Não é uma nova definição dogmática, nem um ato magisterial pessoal de Leão XIV. A CTI é um organismo consultivo e os seus textos têm a autoridade própria de quem aprofunda a doutrina. Mas não se trata de um documento menor. Pelo contrário: oferece o quadro conceptual para que a reflexão ecológica se integre no núcleo da teologia católica.

O que a CTI faz é transformar a pergunta ecológica numa pergunta teológica: «Como nos relacionamos com a criação, nossa Casa comum, obra do Criador trinitário?» E a resposta é inequívoca porque essa relação é uma dimensão da nossa relação com Deus. A ecologia deixa de ser um apêndice facultativo da vida cristã para se tornar parte integrante das grandes realidades da fé: Criação, Trindade, Encarnação, pecado, Eucaristia, justiça, conversão e esperança escatológica.

É este o passo decisivo dado pelo documento da Comissão Teológica Internacional que deveria orientar toda a discussão teológica. O desafio lançado à Igreja e ao mundo é viver a ecologia não como uma moda, mas como uma exigência da fé; não como uma preocupação secundária, mas como uma dimensão constitutiva do amor a Deus e ao próximo.

Nesse sentido, o texto da CTI não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida. A teologia trinitária que o fundamenta, com a sua ênfase na relação, na interdependência e na comunhão, abre caminho a uma revisão profunda da ontologia tradicional e a uma antropologia mais integrada diria, uma antopoginelogia. E isso, no fundo, é o que sempre fez a teologia quando é fiel à sua vocação: não repetir o passado, mas iluminar o presente à luz do mistério de Deus.

O cuidado da Casa comum é, assim, uma forma de responder ao próprio Deus. E essa resposta, como o documento nos recorda, não é uma questão de opção, é uma questão de identidade cristã.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

(1) DA ONTOLOGIA DO DOMÍNIO À ONTOLOGIA DA RELAÇÃO: https://antonio-justo.eu/?p=11307

Documento da CTI: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_cti_doc_20260821_prendersi-cura-casa-comune_it.html?utm_source=chatgpt.com

Outras referências: https://www.vatican.va/content/vatican/pt.html

DO CONTROLO ESTABILIZADOR AO DESCONTROLO DEMOCRÁTICO

O Dilema da Informação na Era da Emoção e consequências para o aparelho do Estado

Vivemos um período de transição especial. Durante décadas, os meios de comunicação tradicionais, imprensa e televisão, desempenharam um papel de filtragem da informação, conduzindo a opinião pública por corredores seguros alinhados com os poderes estabelecidos. Com a consolidação da União Europeia, esta influência estendeu-se ao meio governativo e académico, moldando currículos e privilegiando certas correntes de pensamento. No século XXI, as agências noticiosas globais uniformizaram a narrativa, tornando-a repetitiva em todo o espaço europeu, enquanto Bruxelas transformava o conhecimento num bem comercializável e dirigível.

A democratização trazida pelas novas plataformas digitais e redes sociais quebrou esse monopólio dos mediadores clássicos. No entanto, esta libertação teve como consequência a informação tornar-se profundamente emocional porque mais adaptada à percepção da generalidade. As elites políticas e os seus media afiliados perceberam rapidamente o potencial deste filão. Recorrendo a técnicas de psicologia aplicada e de neurobiologia, aprenderam a formatar emocionalmente os cidadãos, pois a emoção, quando ativada, desliga a razão. Assim nasceu a realidade pós-factual ou pós verdade com o relativismo vigente que lhe dá forma.  O objetivo é reduzir a sociedade a uma massa de clientes, cuja capacidade intelectual se mede pela efemeridade do “like” e das estatísticas sociológicas. Este novo método de arrazoamento substitui o conhecimento pelo sentimento e a verdade pelo impacto. A curadoria do jornalista e do editor foi substituída pelos algoritmos, que alimentam a indústria do sentimento em vez de servirem como mediadores objectivos como seria de esperar. Vivemos, por isso, num sótão com janelas para o mundo, mas sem alicerces na vida real.

Esta fase intermédia gera insegurança tanto nos cidadãos como nas estruturas estatais. A revolução da Inteligência Artificial acelera a passagem do modelo analógico para novas formas de relação social e política, com implicações profundas no aparelho do Estado.

Em primeiro lugar, exige-se uma revisão urgente dos próprios instrumentos da democracia representativa. As mesas de voto presenciais, especialmente para os portugueses na diáspora, tornaram-se peças arcaicas de um modelo analógico. A obrigatoriedade de deslocação física a locais específicos, em dias marcados, contrasta com a fluidez do mundo digital e desincentiva a participação de milhões de cidadãos. A substituição por um sistema de voto eletrónico seguro, editável e acessível deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade premente. Esta modernização não só garantiria o efetivo exercício da cidadania além-fronteiras, como aliviaria a pressão logística sobre o aparelho consular e eleitoral.

Em segundo lugar, este novo ecossistema tecnológico implicará novas formas de organização partidária e de consulta à população. O governo poderá realizar referendos consultivos ainda muito mais intensivos do que o atual modelo suíço, diluindo o poder central em associações regionais ou locais. Neste cenário, o próprio parlamento poderia ser reduzido ou assumir novas funções e os juízes constitucionais, em vez de nomeações partidárias, poderão vir a ser eleitos por consulta direta ao povo.

A grande questão que se coloca é: conseguiremos dominar a Inteligência Artificial e o voto digital antes que sejam monopolizados pelos mesmos senhores da política e da informação artificial? O futuro da nossa democracia e a credibilidade do nosso Estado dependem de recuperarmos o espaço para a razão e para a participação inclusiva, num mundo cada vez mais dominado pelo afeto digital e pela rigidez de estruturas ultrapassadas.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

NÃO ESTAMOS PREPARADOS PARA AS MUDANÇAS TURBULENTAS QUE A IA TRAZ

Will Gates, otimista de sempre, mostra-se preocupado. Para ele, a IA não é só inovação, é uma “transição turbulentíssima” que vai deixar rastos indeléveis na história.

O principal aviso é que “não estamos preparados”. Enquanto o mundo acelera por interesses geopolíticos e económicos, os mais frágeis vão pagar a factura porque os jovens ficarão sem vagas de entrada e os trabalhadores substituídos por robôs mais baratos.

A solução que ele propõe é polémica e direta: taxar os robôs e os tokens de IA, porque o sistema atual incentiva as empresas a despedir pessoas para deduzir máquinas nos impostos.

Isto vai mudar tudo. Ou será “o maior equalizador” ou “a pior fonte de injustiça”. O que é certo é que não podemos ficar indiferentes.

Aqui, as palavras diretas de Bill Gates sem filtros:

“Raramente deixo de pensar na IA, não porque tenha todas as respostas, mas porque as questões que ela levanta são demasiado importantes para serem deixadas apenas a um pequeno grupo de tecnólogos.”

“A transição para a Inteligência Artificial vai ser um dos períodos mais turbulentos da história da humanidade.”

“Neste momento, não nos estamos a preparar adequadamente para essa transição.”

“As pessoas que mais precisam de tempo são as que menos têm – o contabilista que é substituído por um robot ou o trabalhador que ganha 20 dólares por hora e perde o emprego para um robot que ganha 10 dólares por hora.”

“Estou particularmente preocupado com os jovens, que entrarão num mercado de trabalho com menos vagas para principiantes.”

“Os incentivos geopolíticos e económicos são muito fortes para que se avance a toda a velocidade.”

“Acredito que deveríamos tributar os tokens de IA e os robots. […] O sistema fiscal incentiva a substituição de pessoas por máquinas.”

“Será o maior equalizador alguma vez inventado ou a pior fonte de injustiça.”

Diz também: “Fiquei fascinado pela encíclica do Papa Leão XIV sobre a IA, “Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial”. Estabelece uma base sólida para o trabalho que precisa de ser feito”

Encontramo-nos, na verdade,  numa “época axial” da História termo usado pelo filósofo Karl Jaspers em 1949 referindo-se ao período de grande transformação cultural e espiritual na história humana.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

(1) Ontem (26.08.2026), a Tek Notícias (Sapo) trouxe este alerta sério de Bill Gates (1) citando um ensaio de Bill Gates onde O bilionário e co-fundador da Microsoft acaba de publicar um ensaio onde avisa que é preciso um plano para a utilização da Inteligência Artificial que possa garantir que “o bem ultrapassa o mal”. https://tek.sapo.pt/noticias/computadores/artigos/bill-gates-faz-soar-o-alarme-em-relacao-a-inteligencia-artificial-e-diz-que-nao-nos-estamos-a-preparar-para-as-mudancas/

HEGEL ENTRE A RAZÃO SISTEMÁTICA E O MISTÉRIO DO REAL

O legado de um pensador em processo para além do “ou… ou”

Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu há 251 anos, a 27 de agosto de 1770, em Estugarda, e a sua sombra e brilho continua a ser um luzeiro na filosofia contemporânea. Mais do que celebrar um monumento intelectual, importa reconhecer nele um pensador que fez da contradição o motor do pensamento, lição que permanece extraordinariamente viva.

Hegel ensinou-nos que “tudo o que é racional é real e tudo o que é real é racional”, fórmula tantas vezes mal compreendida como defesa do status quo, quando na verdade constitui um chamamento à inteligibilidade do mundo. O seu grande contributo foi resgatar a filosofia do pensamento binário do “ou… ou” para a elevar à tensão fecunda do “e… e”: a realidade não se esgota em opções excludentes, mas revela-se no movimento dialético que inclui a contradição.

O pensamento hegeliano é, antes de mais, um pensamento em processo. Esta intuição, que a verdade não é uma posse, mas uma caminhada, repercute profundamente a espiritualidade cristã, nomeadamente na sua compreensão trinitária da relação como categoria última do real. O Professor Dr. Joaquim Teixeira, com a lucidez que lhe é própria, aponta, contudo, para o calcanhar de Aquiles hegeliano, porque ao tematizar o Espírito fora do elemento da consciência, Hegel teria traído a fenomenologia pela lógica, sacrificando a pessoa singular, descontínua e irredutível, ao altar do Sistema.

Uma crítica à ontologia grega que aprisiona o divino

Esta tensão leva-me a uma reflexão que gostaria de acrescentar. A ontologia hegeliana, na sua génese, permanece presa a uma arquitetura filosófica de raiz grega, nomeadamente à herança de Parménides e de Aristóteles, que privilegia o ser como presença, como identidade, como fundamento estável. O “Sistema” hegeliano é a apoteose dessa herança: tudo deve encontrar o seu lugar, tudo deve ser reconduzido à coerência da Ideia.

Mas será esta a única forma de arquitectar o pensamento? Haverá modos de abordagem à realidade que escapem ao primado da identidade e à violência da síntese?

Creio que sim. Há uma tradição, que poderíamos chamar, com cautela, “mística”, que nos ensina a habitar a realidade de modo distinto. Não se trata de abandonar a razão, mas de reconhecer que o real nos ultrapassa, que há um excesso que o conceito não captura, que a verdade se manifesta tanto na negação que abre (apophasis) como na afirmação que delimita (cataphasis).

O elemento místico, que frequentemente associamos ao “feminino”, não no sentido biológico, mas simbólico (necessário na nossa matriz antropológica que deveria ser uma matriz antropoginelógica): abertura, acolhimento, relação, não-dominação, oferece-nos uma chave hermenêutica mais universal do que a dialéctica hegeliana o faria supor. A mística não se opõe à razão; antes, recorda-lhe os seus limites. Onde Hegel constrói pirâmides conceptuais, a mística reside nas grutas de silêncio. Onde Hegel procura a totalidade, a mística celebra o fragmento que remete para o Todo sem o pretender conter.

Pensemos em autores como Pseudo-Dionísio, Mestre Eckhart, ou mesmo, no nosso tempo, Eugen Drewermann, Raimon Panikkar, Simone Weil (1), todos eles nos lembram que o acesso ao real se faz também por uma epistemologia do não-saber, por uma razão que se abre à transcendência sem a reduzir a conceito. Esta tradição, infelizmente, permaneceu marginal no grande edifício hegeliano, precisamente porque nele o Espírito é pensado fora da consciência viva, como se a verdade se realizasse nas entrelinhas da história, independentemente da experiência concreta das pessoas.

Hegel deixa a necessidade de uma razão encarnada

Não pretendo, com isto, rejeitar Hegel. Seria ingratidão e cegueira. Dele aprendemos que o pensamento é histórico, que a verdade se faz no tempo, que a contradição é fecunda, que a realidade é a-perspectiva e , nesse sentido, passível de ser sempre observada de um ponto de vista renovado. O que proponho é uma releitura: uma apropriação crítica que saiba integrar a mística como dimensão indispensável do pensar.

O Professor Joaquim Teixeira tem razão ao afirmar que Hegel “não soube pensar a pessoa como descontínua, singular e única”. Talvez lhe tenha faltado precisamente essa sensibilidade mística que reconhece no outro uma alteridade inassimilável, um rosto que não cabe na totalidade do conceito. Talvez o seu sistema seja demasiado masculino, no sentido de arquitectónico, vertical, de domínio conceptual e demasiado pouco feminino, pouco religioso no sentido de acolhedor, horizontal, relacional.

Husserl, ao colocar no seu gabinete o letreiro “Aqui não entra a Dialéctica”, não negava a importância de Hegel; antes, reivindicava um espaço para a experiência vivida, para a consciência intencional, para aquilo que escapa à engrenagem conceptual. É esse espaço que também nós devemos preservar.

O verdadeiro é também o não-dito

Celebrar Hegel aos 251 anos é reconhecer que o seu pensamento, como tudo o que é vivo, continua em processo. A dialéctica não se esgota na obra do mestre de Estugarda; ela exige ser continuada, repensada, talvez mesmo traída para ser fiel ao seu espírito mais profundo.

O “verdadeiro é o todo”, mas o todo só o é se incluir também o que não se deixa dizer, o que permanece misterioso, o que só se revela na relação e no silêncio. A filosofia futura terá de aprender a dialogar com a mística, a integrar o elemento feminino na arquitectura do pensar, a reconhecer que a realidade tem tantos rostos quantos os humanos que a contemplam e talvez ainda mais.

Nesse sentido, Hegel continua a ser um companheiro indispensável, desde que saibamos ler nele também o que ele não disse, ou não pôde dizer. A sua grandeza está em nos ter aberto o caminho do processo; a nossa responsabilidade está em continuá-lo, com a humildade de quem sabe que a verdade não se possui, mas se procura e que a procura, ela mesma, já é parte da verdade.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

(1) Para uma aproximação à mística e ao “elemento feminino” na filosofia, é recomendável ainda:
Simone de Beauvoir – O Segundo Sexo (para uma crítica filosófica à tradição patriarcal)
Luce Irigaray – Ética da Diferença Sexual
Julia Kristeva – Histórias de Amor (sobre o amor e o sujeito na mística)
Edith Stein – Ser Finito e Ser Eterno (fenomenologia e mística)
Eugen Drewermann – Alles ist Gnade (Tudo é Graça) (2025)

Nota Complementar: Simone Weil abre uma janela importante para o que eu designaria de uma Matriz da Antropoginelogia. A inclusão de Simone Weil nesta linhagem mística não é casual, mas programática para a superação da ontologia do domínio. A filósofa francesa, embora avessa a rótulos de género, desenha na sua obra os contornos mais nítidos daquilo que aqui designamos por sensibilidade feminina e que fundamenta uma necessária antropoginelogia. Esta sensibilidade manifesta-se em Weil não como um traço biológico, mas como uma radical postura epistemológica e existencial assente em três eixos: a decreação (o esvaziamento absoluto do ego e do desejo de afirmação soberana para permitir que o outro seja), a atenção pura (uma capacidade recetiva e horizontal de escuta do sofrimento, radicalmente oposta à rigidez dedutiva dos sistemas conceptuais) e a primazia das obrigações e necessidades da alma sobre a lógica mercantil dos direitos. Ao substituir a pulsão fálica de conquista e categorização racionalista pela abertura desarmada e pela mística do acolhimento, Weil resgata a vulnerabilidade corpórea e o cuidado relacional como categorias ontológicas primeiras. O seu legado oferece, assim, a ossatura teórica para converter a nossa matriz civilizacional de uma cultura de dominação vertical para uma antropologia da relação e da horizontalidade.

Outro artigo: 250° ANIVERSÁRIO DO GRANDE FILÓSOFO HEGEL  https://antonio-justo.eu/?p=6073