PENÍNSULA IBÉRICA (AL ANDALUZ) DECLARADA LUGAR DE RECONQUISTA PARA O ISLÃO

O Mito da Tolerância e da Paz multicultural medieval em Al Andaluz

Por António Justo

Um dos objectivos do terrorismo internacional é desestabilizar a Península Ibérica (“Al Andaluz”). Esta é “a terra da guerra”, como anunciava já o médico Ayman Al-Sawahiri (vice-chefe da organização terrorista Al Quaida em 2006 ao declarar a guerra santa contra Al-Andaluz (Península Ibérica), especificando: “O objetivo da jihad é libertar os territórios que já foram a terra do islão, desde Al-Andalus até ao Iraque.”

Há duas semanas, antes do atentado de Barcelona (1), a milícia Estado Islâmico (EI) apelava nos seus sites à “reconquista de Al-Andalus” (HNA,19.08.2017) e anunciava um atentado nos próximos dias, chegando a usar, em 29 de julho passado, a expressão “fogo sobre Al Andaluz”; Al Andaluz era a expressão usada pelos árabes quando se referiam à Península Ibérica, dominada pelos mouros (desde 711 a 1249 a zona de Portugal e desde 711 a 1492 grandes zonas de Espanha).

A tradição islâmica (sharia) divide o planeta em fronteiras religiosas: a “terra da paz” (Dar el Islam) que são as regiões onde os muçulmanos dominam, e a “terra da guerra” (Dar al-Harb), as terras onde o islão ainda não domina. O sonho “árabe” é a reconquista de Espanha; reconquistar o que os invasores muçulmanos tinham conquistado aos cristãos da Península Ibérica.

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O Mito de Al Andaluz: estímulo para uns e força alienadora para outros

 

A região da Catalunha (província de Barcelona) é uma terra preferida por radicais muçulmanos para aí viverem. Na Espanha há 800 mesquitas e na sua sombra há também “mesquitas de garagem” onde a pregação do ódio produz frutos. O dia 22 de agosto seria, para já, uma data propícia para mais atentados!

A lembrança da era dourada muçulmana em Espanha (Al Andaluz) é um mito para os muçulmanos no seu sonho de voltar ao fulgor da sua Idade de ouro e, para não muçulmanos, é o mito da suposta era de paz e tolerância entre o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. O sonho árabe corresponde às suas coordenadas de religião política e ao sonho de um império a realizar; da parte europeia, o desejo mitificado de um tempo de paz e tolerância que provem de um trauma de séculos de convívio e de relações frustradas com o vizinho muçulmano – temos, sociologicamente, a experiência dolorosa de uma humilhação, ainda no inconsciente, a procurar refugiar-se na ilusão de uma sublimação.

Os muçulmanos estão na origem, de facto, de um grande desenvolvimento na Península ibérica e na Europa, através da filosofia como tradutores/comentadores das obras dos clássicos gregos (os escritos gregos da antiguidade foram traduzidos para árabe, hebraico e latim em Córdoba), das ciências da medicina (Albucasis, Averróis), das novas técnicas de agricultura, da concentração em aglomerados citadinos e da sua arquitetura própria.

Uma certa tolerância dos potentados muçulmanos do Al Andaluz, foi conseguida então pelo facto de não terem posto em prática o que a doutrina islâmica exigia (Corão, Ditos do Profeta e Sharia). Então como hoje surgiram movimentos de radicalismo (jihadistas) que pretendem pôr em prática o que a doutrina muçulmana e o exemplo de Maomé requer.

O filósofo judeu Moisés Maimonides de Córdoba, propôs uma interpretação alegórica das passagens da Tora de maneira a, nas Escrituras sagradas, termos uma verdade simbólica para os filósofos e teólogos e uma verdade física para o povo (verdade literal!)

O sistema muçulmano perseguiu o seu grande filósofo Averróis que foi um luzeiro na medicina e na filosofia, na qualidade de comentador de Aristóteles. A sua acentuação da razão e a interpretação alegórica dos textos sagrados (semelhante a Maimonides) não agradavam nem aos senhores muçulmanos nem aos senhores cristãos, tendo sido desterrado pelo soberano muçulmano.

O Medievalista Francisco Garcia Fitz, constata que  „a tolerância na Espanha muçulmana“ , em que as três culturas se respeitavam mutuamente, não passa de um „mito multicultural“ e não corresponde à verdade histórica. Cristãos e Judeus eram tidos como inferiores e eram marginalizados, embora considerados minorias protegidas (“dhimmis”). Na Espanha, como ainda hoje na Turquia, estavam impedidos de obter tarefas de liderança no exército ou na administração política.

As relações entre grupos religiosos eram caracterizadas por conflitos religiosos, políticos e de raça como conclui Darío Fernández-Morera no ensaio The Myth of the Andalusian Paradise, e que “nos melhores tempos só podia ser controlado através do poder tirânico dos governantes”.

 

A outra parte da realidade muçulmana em Espanha

 

Tanto a demonização como a divinização de uma época ou cultura estão ao serviço da guerra das corporações e da estupidificação de espíritos indiferenciados.

Nesta época, Al Andaluz era um centro de muita criatividade e de alto nível científico e intelectual. O sistema económico era favorável à formação de elites.

Os não-muçulmanos (ahl al Dhimma) eram discriminados e oprimidos. O historiador Bernard Lewis constata: «As sociedades islâmicas nunca reconheceram a igualdade nem fingiram fazê-lo […] Sempre houve discriminação, de modo permanente e naturalmente necessário, como algo inerente ao sistema e institucionalizado pela lei e pela prática

Cristãos e judeus pagavam impostos específicos – um imposto individual e um imposto sobre a terra – que eram muito mais opressivos do que os impostos aos muçulmanos. As comunidades cristã e judaica estavam proibidas de exercer a sua religião em público, não podiam construir novas igrejas nem expressar em público as suas opiniões sobre religião. Muhammad I (823–886) mandou destruir todas as igrejas construídas depois de 711. Judeus e cristãos tinham de usar vestes que os distinguiam dos muçulmanos; nos séculos XI e XII houve também conversões forçadas, deportações e emigrações maciças de refugiados para a Espanha cristã.

O historiador Francisco Garcia Fitz:  “As operações militares do governante Almanzor no século X e as expedições jihad dos Almorávidas e Almohitas no século XII, contra os territórios cristãos, eram uma correspondência às cruzadas cristãs na luta contra o Islão”. Neste pano de fundo, continua o historiador: “a ideia idílica de uma Espanha muçulmana como local de encontro para três culturas parece mais ser a resposta a uma necessidade atual. Os modelos de relações interculturais que a nossa sociedade precisa, não devem ser buscados na Idade Média. Porque o que lá se encontra é o outro lado da realidade: política de exclusão, que culminou em violência e expulsão”. “A tolerância na espanha muçulmana é um mito” .

No fim do califado em 1031, a convivência deteriora-se, chegando a haver um pogrom contra os judeus de Granada, onde milhares foram assassinados. Muitos judeus, entre eles Moisés Maimonides, refugaram-se em áreas mais tolerantes no Mediterrâneo oriental ou nos reinos cristãos emergentes no oeste da Espanha.

O domínio muçulmano terminou como começou…. Rivalidades, no século VIII, entre cristãos tinham facilitado a entrada dos muçulmanos na Península Ibérica e rivalidades, no século XIII, entre muçulmanos facilitaram a reconquista cristã. Em 1492 o último rei Abu Abdalá (Boabdil), capitulou perante os Reis Católicos, Fernando e Isabel.

Com este contributo não quero justificar preconceitos com preconceitos. Saber é luz que vai iluminado também os nossos mais obscuros recônditos!  Importante é estarmos na disposição de descobrir e servir o espírito da luz, mas sempre conscientes das próprias trevas.

© António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo (Português e História)

Pegadas do Tempo,

A TRISTE VIDA DE UMA VACA LEITEIRA

Consumo de Leite e de Carne por pessoa

 

António Justo

Uma vaca leiteira produz 7.740 quilos de leite por ano (cerca de 20 litros por dia em média). A Alemanha tem, atualmente, 4,21 milhões de vacas leiteiras em 67.319 explorações agrícolas.

Na Alemanha consomem-se, por pessoa, 52 litros de leite bebidos, 17 Kg de iogurte e 25 Kg de queijo, por ano.

Os lavradores recebem atualmente entre 33 e 35 Cêntimos por cada litro de leite. Lavradores alemães queixam-se que um preço justo, de compra ao lavrador, para cobrir os custos, deveria andar pelos 40 cêntimos por litro.

Geralmente, depois de três anos de produção de leite, a vaca leiteira aos cinco anos é levada para o matadouro. Uma vaca podia alcançar uma idade de 25 anos. Uma pecuária apropriada à espécie exigiria uma alimentação doméstica em vez de uma alimentação em grandes vacarias com o pasto gene-Soja importado.

Consumo de Carne

A vida de animais em campos de concentração só poderá ser melhorada se o consumo de carne e leite for mais moderado e direcionado no consumo de mais vegetais.

Em 2014 a Alemanha consumia 53 Kg por pessoa, por ano, Portugal 40 Kg, o Brasil 42 Kg, a Espanha 57Kg, a Índia consome 5 Kg por pessoa.  Em Portugal o consumo real é certamente maior do que o registado nas estatísticas atendendo ao facto de muitas famílias, no interior, terem galinhas para consumo. Estas são geralmente galinhas felizes porque criadas à solta e com alimentação natural!

 

Em 2015  o consumo de carne por habitante, na Alemanha, era de 88,3 Kg por pessoa, o que, tirando os ossos, corresponde a um consumo de 60,3 Kg por pessoa.

 

Quem compara diferentes estatísticas chega à conclusão que os dados estatísticos oscilam bastante.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

PARA UM DISCURSO MAIS AFERIDO ENTRE PRODUÇÃO E REIVINDICAÇÃO

Comparação do PIB (produto interno bruto) e PPC (poder de compra per capita) entre alguns países europeus e lusófonos

 

A comparação dos salários mínimos entre países pode ser um estímulo para maior equidade, mas também para maior competição.   Nas comparações e tomadas de conclusões é importante ter-se em conta não só o PIB (1) mas em especial a paridade do poder de compra (PPC) entre os países (2).

A Suiça, com 8,3 milhões de habitantes (dos quais 2 milhões de estrangeiros) e uma área de 41 285 km², consegue ser a 23ª economia do mundo, com um PIB nominal por cabeça de 79.242 US$ e com um poder de compra per capita (PPC) de 59.561 US$. Portugal tem um PIB de 19.832 US$ e um poder de compra de 28.933 US$ (dados relativos a 2016)!

Comparação de países em relação ao produto interno bruto per capita (PIB)

O Luxemburgo tem um PIB   de 103.199 US$, a Suiça 59.561 US$, a Alemanha 41.902 US$, a França 38.128 US$, a Espanha 26.609 S$, Portugal 19.832 US$ , Brasil 8.727 US$, Angola 3.501 US$,  Cabo Verde 3.078 US$,  Timor Leste 2.102 US$, Guiné-Bissau 595 US$, Moçambique 392 US$

Comparação de países em relação ao poder de compra per capita (PPC)

A PPC tem em conta tanto as diferenças de rendimentos como as diferenças no custo de vida. Quanto mais fraco for o Dólar maior é o poder de compra dos países de moeda mais forte.

O Luxemburgo tem um PPC   de 104.003 US$, a Suiça 58.561 US$, a Alemanha 48.111 US$, a França 42.314 US$, a Espanha 36.416 US$, Portugal 28.933 US$, Brasil 15.242 US$, Angola 6.844 US$, Timor Leste 4.187 US$, Cabo Verde 6.662 US$, Guiné-Bissau 1.730 US$, Moçambique 1.215 US$.

 

Quando se fazem comparações entre países, para não cairmos em fantasias aleatórias, temos de considerar o poder de produção de um país, o poder de consumo, a realidade geográfica, política, social e cultural que levam um país a ser mais ou menos equilibrado em relação ao que produz e consome. Para se mais distribuir é preciso produzir mais; isto independentemente da justiça/injustiça real ou sentida em relação à distribuição da riqueza!

 

  • 1. O PIB (produto interno bruto) é a soma dos bens e serviços (quantificado em dinheiro) que (no caso) um país produziu num ano per capita. É o termómetro da economia, da riqueza produzida num país ou região.
  • 2. Na comparação a fazer-se a PPC tem em conta as diferenças de rendimentos e as diferenças no custo de vida dos países (além destes fatores de diferenciação há outros a ter em conta quando se fazem afirmações sobre ordenados e sobre nível de vida).

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

 

O CONTO DAS FADAS DAS LABAREDAS DOS FOGOS

 

A Política é inocente – A Responsabilidade é do Mexilhão

António Justo

De Pedrógão Grande ressoa o eco da voz dos 64 mortos, dos 254 feridos e dos animais queimados sem conta – todos a bradar por compaixão que abrace a sua dor. São vozes que se elevam aos céus à procura daquela consolação que em vão se encontra num Estado antiquado, porque orientado para os interesses de corporações onde se não reconhecem as necessidades do cidadão nem da população rural e urbana.

Pelo que se observa nos Média, os grupos políticos, do governo e da oposição, procuram fazer o seu aproveitamento político à luz do clarão de Portugal em chamas.

Já não chega o cheiro e o fumo dos pinheiros e dos eucaliptos, a ele vem juntar-se o fumo da tocha de cada agremiação, para iluminar a própria capelinha e distrair do adro que se encontra a arder! Há gente bravia mais interessada no fogo social, e para atear mais o fogo, serve-se até do papel de jornais que antes eram da sua estimação. Em épocas de eleições quem põe o dedo nas chagas da nação não escapa sem ser chamuscado como porco na fogueira do vizinho.

 

 

Porque incriminar governos ou partidos se o culpado é quem vota?

 

O que interessa já não parece ser a realidade dos factos, mas sim a discussão postfactual destinada a alentar as lógicas de cada ideologia. Nesta, o devoto do partido padroeiro queixa-se da luz da capelinha vizinha onde o fogo que queima também ilumina.

Entrementes, nos montes e vales da Pólis, ventos de fervores e fervuras queimam também o possível verde que ainda resta nalguma terrinha ou em capela perdida.

Ao lado, embrulhados nos cobertores do seu narcisismo, parlamentos e governos vão dormindo o sono dos eleitos, na segura consciência habitual de que nem o fogo da corrupção nem a fuligem das queimadas da sociedade chegam ao parlamento. A firma encontra-se em concurso, basta distribuir os dividendos.

Controle-se o Parlamento que não controla os governos nem faz leis que defendam a floresta nem ataquem o fogo da corrupção. A responsabilidade está em quem vota e entra no jogo de culpar ou desculpar governo ou oposição em vez de se ocupar dos factos, da realidade, das pessoas e da nação. Enquanto cada um e cada grupo continuar no jogo de aplaudir o jogo do seu clube favorito aceita implicitamente que o país é relvado e o povo é quem perde porque não tem claque nem joga. Aceita-se um Estado faz de conta, reduzido a duas equipas de jogadores que apostam no barulho da assistência, de um lado a gritar pénalti e do outro a gritar fora de jogo.

O trágico da tragédia está na habitual conversa pegada, no discurso da culpa da desculpa culpada que, como força autónoma, distrai das vítimas, dos factos, da natureza e da irresponsabilidade de governos sucessivos sustentados pelas bocas do mundo e desculpados pela culpa das craques apenas interessadas em ver o jogo e em satisfazer os sentimentos de desdém e de apreço.  Os jogadores vão ganhando o seu; o avanço do país não importa, o que ele produz chega para os poucos e o povo mete-se no atrelado da União Europeia.

No meio de tudo isto, o povo tornou-se imune e independente dos jornais que não lê, pois, acredita apenas na percepção sensorial, guiada pelo instinto de que os jornais de referência discutem os interesses doutros polos que se servem deles como ilustração. Se Portugal continua a arder desta maneira deve-se à incúria de todos os governos, partidos e povo distraído. O Estado tem poupado à custa das regiões do interior e dos mais fracos e agora discutimos todos sobre o sexo dos anjos ou sobre a culpa dos jornalistas e do adversário. Tudo isto não interessa à floresta nem ao povo porque serve para atear outras labaredas na cuca da lenha que fica dos fogos.

Na Alemanha a política também fez erros ao não calcular os perigos em torno da G20, mas teve vergonha pelo que aconteceu nas ruas de Hamburgo e logo o Estado colocou 40 milhões de euros no fundo de ajuda para indemnização dos danificados, e isto independentemente das verbas que os seguros têm de pagar. A nossa sociedade, pelo que se vê nos Média, não pode ir à frente porque em vez de nos preocuparmos com os factos e com a realidade, preocupamo-nos em desculpar ou em acusar alguém: o centro do interesse e da preocupação não está na resolução objectiva do problema, mas na atribuição da culpa. Pelo que consta, o povo inocente conseguiu juntar já 13 milhões de euros enquanto o Estado esfrega os olhos na esperança de os factos servirem de bombo para atrair povo para a sua festa! Em política o povo é uma miragem, apenas presente na ideologia! O poder das corporações em volta do Estado é demasiado forte tornando-se nos eucaliptos do Estado não deixando crescer nada ao lado.

Em questão de Jornais, partidos e de opiniões observa-se o fenómeno generalizado de “cada macaco em seu galho” defender de olhos fechados o seu próprio interesse. Cada um tem o seu público e a sua clientela numa sociedade não acostumada à réplica. Cada um só lê um jornal por questões de segurança (Porque não ler os jornais dos deuses e dos diabos para abrir as perspectivas, andando mais desinformados!). Por isso em vez do discurso controverso sobre a coisa pública opta-se pelo discurso da má língua e do maldizer de uns e de outros; o ditado da opinião faz parte do argumento de um ter sempre razão numa lógica construída nos parâmetros de serviço a um clubismo em que tão regaladamente se vive.

Muitas vezes, no discurso público tenho a impressão de nos encontrarmos em becos sem saída num discurso de beco sem saída que apenas reage tornando-nos a todos reacionários com rosto de progressistas. Estaríamos todos tramados com tanta trama se não fossem uma nova mentalidade da juventude que começa a surgir

© António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

CORPORATIVISMO PORTUGUÊS DESVINCULADO E ALÉRGICO A CONSENSOS

Entre o Coletivismo do Inconsciente nórdico e o Individualismo de Inconsciente latino

 

Por António Justo

 

O apóstolo Paulo na Carta ao Coríntios 12, 12-31 oferece a visão mais antiga de corporativismo e concebe-o como uma forma orgânica de política e de sociedade como um corpo (metáfora do corpo místico de Cristo); no período da industrialização a Rerum Novarum (Papa Leão XIII1890) reconhece os direitos laborais corporativistas que servem de base às democracias cristãs e à organização de sindicatos.

Esta concepção de corporativismo contrasta com um corporativismo encerrado nos interesses de agremiações estanques marginalizadoras da pessoa humana.

O regime corporativista de Salazar era um modelo de “corporativismo económico” paternalista e anticapitalista (1), ligado à terra, que deu lugar a um modelo de “corporativismo ideologizado” mais sob a égide partidária em que a solidariedade social se opera já não tanto em termos naturais orgânicos de associações produtivas, mas de maneira abstrata em termos ideológicos, agora em conluio com o capital.

De facto, o Corporativismo do Estado Novo foi teoricamente extinto em 1974 (setembro) mas grande parte dos documentos mais relevantes necessários para o estudo do Corporativismo do Regime de Salazar e suas implicações e cumplicidades com o novo regime de Abril, foi escondida ou destruída devido a interesses ideológicos do novo sistema!  Isto torna numa perda irreparável para se poder compreender melhor o espírito e os vícios de um “corporativismo político-ideológico-administrativo” que hoje ainda vigora!

A revolução de 1974 aproveitou-se do pessoal estratégico e dos organismos de coordenação económica educativa, científica e política do regime de Salazar, para reestruturar os novos ministérios e criar laços efectivos e duradouros de poder. Seria comprometidor ter-se hoje acesso a documentos relevantes do corporativismo do regime autoritário de Salazar!

Deste modo torna-se hoje impossível analisar a cumplicidade da política do regime de Abril com o corporativismo e administracao de Salazar; a ideologia socialista aliada aos interesses económicos por si domesticados, estava interessada em aproveitar-se do antigo sistema corporativo e em transformá-lo de maneira ideologicamente  proveitosa no regime democrático. Assim, temos um regime com a mesma mentalidade e cumplicidade do regime que combate.

O povo, já não vinculado à terra e aos seus grémios corre o perigo de passar a viver em balões de ideologias que lhe reservam sobretudo o papel de consumidor, prosélito ou mero votante.  Se antes dominava o paternalismo de Estado agora domina o Estado partidário (2).

 

Entre solidariedade social económica e solidariedade social ideológica

 

O corporativismo português é centralista, de caracter autoritário e ideológico; nele os modelos de acção e decisão das corporações mais que orientados para o consenso de grupos, para o cidadão e para o Estado encerra-se em grupos de interesses. O resultado do rendimento nacional e o estilo de discurso politiqueiro revelam que o corporativismo do Estado Novo foi continuado na sua mentalidade porque enquanto este procurava impedir a acção cívica individual substituindo-a pelo interesse dos grémios, o 25 de Abril cria novas solidariedades, já não tanto assentes na economia e na cultura, mas na solidariedade ideológica, também ela não fomentadora da acção cívica individual, porque baseada nos interesses de corporações partidárias. O 25 de Abril de coloração comunista aliado ao socialismo radical ad hoc nunca estive interessado em aceitar colaboração entre classes: o marxismo vive da luta de classes apostando, por isso, no conflito, não estando interessado numa política de integração das classes na sociedade; o capitalismo liberal de mistura também não está interessado numa política concreta de integração das camadas sociais porque parte do princípio que o mercado regula tudo por si mesmo….  O novo regime, na tendência, aposta numa utopia socialista transportando para os partidos a ideia fascista, de que “as diferentes vontades políticas das classes estariam representadas nas associações”. Os interesses do corporativismo afirmam-se à margem do cidadão em geral.

À ideologia da luta socialista marxista de classes vem mais tarde juntar-se o Individualismo liberal anárquico. Em Portugal, a representação de interesses, embora plural revela-se impeditiva da competição e como garante de um certo jacobinismo ideológico herdado da revolução liberal e cultivado pela rede da maçonaria infiltrada em diferentes organismos da política e do Estado. Confunde-se mercado económico com mercado ideológico, como se nota em certos sectores da universidades e em grande parte no MEC em espaços políticos controladas pelo espírito de um corporativismo ideologizado.

A disputa entre associações empregado-empregador não é querida e por isso não parte da realidade no terreno nem do país real.  Em vez de termos uma democracia de caracter inclusiva concordante temos um sistema de divergências. Os extremos da ideologia capitalista e socialista juntam-se em Portugal impedindo-o

Uma luta de identidades baseadas nos solos e subsolos de capelinhas mantem-se coesa sem ter em conta a identidade e a coesão de um Estado que para ser coeso dependeria da solidariedade de povo e das instituições, mesmo daquelas que se afirmam pelo contra, mas que deveriam estar conscientes da identidade tecto que é geograficamente o Estado.

 

No Jogo Yin Yang entre Família e Estado e Estado e Família

 

Neste contexto acho digna de nota a sociedade alemã na maneira como consegue integrar os necessários conflitos entre organizações sociais e económicas, (patronatos e sindicatos) entre indivíduo e sociedade, numa dinâmica inclusiva em relação ao Estado, também ele reconhecido, por todos, como factor de identidade. Aqui o Estado integra o conceito de família, enquanto nas sociedades latinas a solidariedade familiar é mais de espírito privado e como tal mais individualista.

É interessante ver-se como os estados de cunho mais protestante projectam o espírito familiar no Estado enquanto os Estados latinos atomizam mais esse espírito e esvaem-se no individualismo; quem vê de fora, certamente, constata uma certa contradição na dinâmica polar entre os países de cariz católicos mais centrados na comunidade (no nós) e os países de cariz protestante mais concentrados no eu; a um colectivismo do inconsciente nórdico parece opor-se o individualismo do inconsciente latino (existencialmente mais comunitário). Cada sociedade parece reagir externamente de maneira oposta a uma filosofia de substrato, procurando a vivência a nível imanente não se interessando por uma análise comparativa para lá do inconsciente colectivo. É interessante observar a vivência polar ad intra e ad extra das forças comunitárias e individualistas, dentro das sociedades e na relação destas com as diferentes culturas, num jogo de relações tipo yin e yang.

Estado Novo como Corporação económica paternalista  e Regime de Abril como Corporação ideológica

Assim, tecnológica e economicamente, os países do Sul estão condicionados à dependência dos nórdicos. Uma política sem interesse numa economia nacional própria, consequentemente, não fomenta a formação de consensos entre as corporações e entre as políticas… As relações entre empresários e trabalhadores, mais que fundadas na realidade económica e nos interesses económicos nacionais, assenta nos interesses individualizantes de forças partidárias de ideologias extremamente concorrentes (falta-lhe a experiência de uma economia social) que deste modo beneficiam uma ideologia de mercado (1).

Grande parte do discurso nos jornais portugueses de referência não se preocupa em fazer uma análise tipo sinopse relativamente ao regime de Salazar e ao regime de Abril, contentando-se em seguir os ditados da política assumida ad hoc e só na demonização do Estado Novo. O regime corporativista de Salazar, como modelo corporativista do Estado, foi sub-reptícia assumido e modificado no sentido do 25 de Abril, com o particular de se ter tornado ainda mais ideologizado pelo facto de o papel do Estado ser em grande parte assumido pelos partidos com os seus tentáculos, fundações, PPPs, etc., no lugar das corporações e associações produtivas…  Das corporações económicas ideológicas do Estado Novo passa-se para corporações ideológicas do Regime de Abril. A solidariedade social é organizada pela política em conluio com o capital da macroeconomia.

As corporações sindicais mais que especialistas em economia e interessadas numa interacção corporativa e na construção de um Estado de economia social preferem continuar a ter o patrão como papão (esquecem que trabalhadores empenhados fortalecem o empresário e este enriquece os trabalhadores – exemplo da VW e da economia alemã baseada no fomento de pequenas e médias empresas – as grandes empresas são importantes na concorrência a nível internacional). Um modelo de Estado arbitrariamente intervencionista, atua, muitas vezes, à margem da economia real da sociedade e dos interesses do bem-comum e, devido à prevalência ideológica (neocapitalismo e socialismo) fica condenado a ter de correr sempre atrás das macroeconomias.…

Enfatiza o moralismo político com mediador de redes de interesses num mercado sem capacidade competitiva, com demasiada jerarquia funcional, e burocracia controladora dentro de um Estado com o monopólio de representação; o Estado não tem pejo em sobrecarregar as pequenas e médias empresas com os óbolos que têm de pagar para manter a burocracia formadora e fiscal. A nível de política de educação para melhor controlar a ideologia nacional considera as escolas particulares concorrentes e não elementos complementares enriquecedores do sistema, como se verifica em Estados ocidentais não socialistas.

Contraditoriamente segue-se o ditado da economia liberal e por outro um burocratismo parasita que além de reduzirem a produção impedem o desenvolvimento das pequenas e médias empresas. A Alemanha pode ser o exemplo de um Estado, com um orçamento com superavit, precisamente porque tem organizações fortes a nível de empresariado e de sindicatos, em que os interesses de mediação mais que ideológicos assentam em dados reais (o mesmo se diga da Suiça com oito milhões de habitantes e que alimenta os nacionais e muitos imigrantes que a enriquecem atrai imigrantes). Deste modo têm rendimento para manter um certo grau de justiça social, sem que o creme fruto da produção nacional não se limite só a alimentar as elites.

Independente deste texto recomendo a leitura de “O Poder local em Tempo de Globalização” (Fernando Taveira da Fonseca) que é um documento independente de ideologias e pode contribuir para  uma melhor compreensão e moderação da actual discussão político-social em Portugal.

 

© António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo (Português e História)

Pegadas do Tempo, https://antonio-justo.eu/?p=4422

  • (1) “A organização corporativa, com toda a sorte de organismos que dela fizeram parte, foi a mais saliente e inovadora criação institucional dos estados corporativos no sentido de domesticar o capitalismo, compartimentando os interesses e impondo a colaboração entre «capital» e «trabalho» num plano nacional”. O corporativismo do Estado Novo sofre da mesma doença que sofre o corporativismo ideológico que se lhe seguiu: é um corporativismo ad hoc. O corporativismo num Estado pequeno pode perpetuar a velha mentalidade vazada sucessivamente em vasos novos. Tem-se por um lado a afirmação de interesses monolíticos e uma sociedade em geral ao sabor do vento.
  • (2) Um aparte: A sociedade parece cada vez viver mais de uma dicotomia desequilibrada entre natura e cultua. Se no passado dominava a natureza atualmente domina a cultura (o desequilíbrio das duas forças vivenciais fomenta a crise e a pressa do declínio do Ocidente – numa luta da cidade contra o campo e na abstracção da vida social). Assim hoje vivemos numa sociedade chamada de mercado e da concorrência de mercados, mas na realidade não encontramos mercados reais localizados, mas lojas de mercadores anónimos presentes em todas as cidades. Concretamente, também a economia e o mercado se transformaram numa ideologia que se impõe e determina um modo de vida cada vez mais artificial.