DO EMPENHO QUE NOS FALTA

Europa muralha quando foi chamada a ser mar

O mar não tem muros, mas os homens constroem-nos dentro de si para não descobrirem o rosto por trás da onda.

Há uma imagem que a imprensa europeia repete, como um disco eliminado que lembra a de um mapa, com setas vermelhas a atravessarem o Estreito de Gibraltar, uma mancha densa de corpos anónimos a escalar a cerca de Ceuta. Fala-se em números de pelo menos 50 000, 80 afogados, fala-se em «pressão migratória», em «defesa das fronteiras», mas raramente se fala no que esses braços que nadam procuram, para além da linha imaginária que separa a África da Europa.

Ninguém nada contra as correntes do Mediterrâneo por desporto ou espírito de aventura. A água salgada não é um convite; é um desespero líquido, um último recurso e aqueles jovens carregam nas costas uma história inteira de injustiças, séculos de extração de riqueza, mapas de países traçados por outrem onde os seus recursos naturais e o seu trabalho foram sempre o combustível para o progresso alheio.

Quando Bruxelas ergue o tom e fala em «invasão», comete dois erros fatais porque troca a causa pelo efeito, e a pessoa pela estatística. Mas não se invade aquilo a que se pertence, ainda que por direito de humanidade partilhada. O que vemos não é uma mancha militar, mas o movimento tectónico da pobreza a chocar contra a muralha rica da indiferença.

Por trás da Onda há uma Economia de Exploração e a Atração pelo Abismo

Há uma verdade incómoda que os discursos oficiais evitam: a Europa e os Estados Unidos são os grandes beneficiários de um sistema que mantém o Sul global numa dependência perene. Extraem-se minerais, explora-se a mão de obra, transferem-se lucros e depois, de maneira surpreendente e hipócrita, erguem-se barreiras para impedir que os corpos desses mesmos trabalhadores sigam o caminho do capital.

A solução proposta é quase sempre a mesma: contenção, devolução, dissuasão. Raramente se pergunta: porque é que a Europa é tão atrativa? E a resposta é cruelmente óbvia, porque concentra a riqueza que foi, em boa parte, construída sobre os ombros daqueles que agora batem à porta.

Mas há um caminho alternativo, um caminho de empenho, não de luta. A palavra lutar traz já em si a mecha masculina guerreira. Por isso é melhor falarmos de empenho. Empenho em criar filiais industriais nos países de origem. Empenho em transferir tecnologia e em pagar preços justos pelas matérias-primas. Empenho em reduzir a atratividade da Europa, não a tornando pior, mas tornando o mundo melhor.

Não se trata de uma caridade paternalista nas de inteligência estratégica com rosto humano. Se os jovens da margem sul tiverem escolas, empregos dignos, hospitais e esperança, a travessia mortal deixa de fazer sentido. A pressão migratória não se resolve com arames farpados; resolve-se com estradas, fábricas e universidades. E isto fica mais barato e é mais justo e sobretudo mais eficaz.

O Palco da Guerra é o Sorvedouro que tudo justifica

Enquanto nos debatemos com os 80 afogados de Ceuta, os orçamentos europeus incham com verbas para a defesa. Ouvimos ministros, como o alemão Pistorius, pregar a «preparação para a guerra» com a mesma naturalidade com que outros falam do tempo. O comediante Dieter Hallervorden, com a verdade crua que só a sátira permite, chamou-lhe «ministro da Guerra» e mandou para o inferno quem exige que nos tornemos belicosos. O que disse parece exagerado, mas tem razão e até justifica que é melhor ser covarde durante dois minutos do que estar morto para o resto da vida.

A história, essa velha professora que nunca repetimos, ensina-nos que o rearmamento não é segurança, mas sim uma profecia que se auto-cumpre. Cada euro gasto em tanques é um euro roubado ao bom entendimento, à educação, à saúde, às pensões, ao ambiente e provoca uma espiral de escalada que, como sabemos, desemboca sempre no mesmo lugar o campo de batalha, onde a lógica falha e os factos brutos prevalecem.

E quem paga o preço? Certamente não a pequena elite que, numa eventual crise, emigra para paraísos fiscais ou países neutros. Quem paga são os que ficam, os que não têm para onde fugir, os que dependem do sistema público que se desmorona para financiar a indústria bélica. Os mesmos que, ironicamente, são convocados para odiar o estrangeiro, quando o verdadeiro inimigo, tantas vezes, está dentro de portas e veste fato e gravata.

Uma Elite governante doente contamina a Democracia e o seu Povo

A democracia europeia está doente e não por falta de eleições, mas por falta de escuta. Os governantes, reféns de grandes grupos económicos globais, privilegiam o lucro máximo e imediato em detrimento da justiça social duradoura. Mas se a política se virasse para a solidariedade efetiva, com planos concretos de cooperação, com perdão da dívida, com investimento real nos países mais pobres, o apoio popular seria esmagador. As pessoas comuns não são estúpidas e sabem que a exploração do ser humano e da natureza tem um custo que, mais cedo ou mais tarde, todos pagamos. Observam que gerir a miséria é um negócio cruel e sabem que resolvê-la seria um investimento em paz.

Se os governantes percebessem que o seu poder não está em controlar a orientação mental dos cidadãos através do engano e do medo, mas em alinhar os interesses da nação com os interesses da humanidade, não precisariam de manipular, de dividir ou de guerrear. Um povo que se sente ouvido não precisa de ser vigiado. A guerra, aliás, é o último recurso dos que já não têm argumentos de esperança.

A Modus de Conclusão

O rearmamento é, além do mais, uma catástrofe ecológica. As indústrias bélicas são das mais poluentes do globo. Mas o debate público insiste em separar o ambiente dos mísseis, como se o ar que respirarmos pudesse escolher entre a paz e a guerra.

A verdadeira segurança dos povos não está nas ogivas nucleares, mas na capacidade partilhada de cultivar, de curar, de construir. Não há muro alto que proteja uma ilha de prosperidade rodeada por um oceano de miséria. Esse mar não respeita fronteiras, porque leva corpos, leva sementes, leva poluição e leva histórias.

Por vezes o que parece desordem não é desordem, é apenas a única ordem possível para quem olha o mundo com os olhos abertos e onde a indignação é o princípio da lucidez.

No fundo, o que Ceuta nos mostra não é uma invasão, mas um espelho que reflete um mundo que escolheu a defesa em vez do abraço e o lucro em vez da vida.

O verdadeiro empenho político deveria consagrar-se à paz com a mesma veemência com que se consagra à guerra. Consagrar-se-ia, pois, à educação, não à doutrinação, à produção local contra o dumping global. E então, em vez de se perder a contar os afogados, ouviria, finalmente, o que dizem os que nadam.

A verdadeira vitória não é impedir que cheguem, mas fazer com que não precisem de partir. Que o mar, um dia, sirva apenas para nos unir, nunca para nos sepultar.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

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O ROSTO PROSÉLITO

(A farsa política moderna dá-se na substituição do rosto pela sigla,
do abraço pelo manifesto, da dúvida pela doutrina
onde mentes brilhantes se imolam numa guerra de ecos,
acreditando que repetir o credo partidário é servir a humanidade,
quando na verdade estão a servir uma caricatura de si mesmos. )

 

Eles levantam-se cedo, de afecto engomado,

e as palavras já vêm no papel timbrado,

ninguém as pariu, ninguém as provou.

São versos de outrem, bordados na pressa,

que a boca repete, mas a alma não tece,

e o rosto, coitado, da fala se esvai.

 

Reúnem-se em salas de luz fluorescente,

erguem-se braços, discursos veementes,

mas cada argumento é um punho fechado

que nunca tocou no suor do operário,

nem viu a criança com fome no lar,

nem sentiu o frio do velho no largo.

 

E o pior, não é a ignorância, não!

é ver o inteligente, o douto, o sagaz,

gastar a ciência a polir a razão

de um credo que sabe, no fundo, falaz.

Amar o próximo? Sim, mas só se o próximo

assinar o papel, jurar a bandeira,

alinhar-se todo ao verso metódico

que a comissão aprova na sexta-feira.

 

E que tristeza ver a inteligência

servir de escudo a uma máscara oca,

quando podia, na simples demência

de ser humano, sentar-se à tua mesa,

olhar-te nos olhos, beber da tua falta,

e esquecer, por um instante, a tese

que a sua própria boca já ensaia e exalta.

 

Porque a luta que diz defender o Homem

esquece-se dele no primeiro minuto:

troca-lhe a face por um nome comum,

troca-lhe a dúvida pelo estatuto,

troca-lhe a carne viva, que sangra e ama,

pelo arquivo morto de uma doutrina.

E a ciência, outrora chama pura,

vira ferramenta de propaganda obscura

ao serviço da casa que a si mesma se inclina.

 

Mas não, meu amigo, não te conformes.

A máscara pesa, mas o rosto persiste.

Por baixo do slogan, do voto, das normas,

há sempre um homem que nunca desiste

de olhar outro homem, sem partido, sem causa,

e lhe estender a mão, não para o converter,

mas para, com ele, na sua pausa,

se lembrar que o político há-de ser

aquele que serve e não o que oprime,

que a sigla se dobre e o humano redima,

que a assembleia se faça onde alguém se estima,

e a verdade comece onde o medo e cálculo não prime.

 

Por isso, ergo este verso contra o esquecimento:

não há revolução que valha um tormento

se o homem que a faz se desfaz em contento

de ser só a sombra do seu partido.

O génio divino que em ti foi nascido

não quer a legenda, quer o corpo inteiro,

quer o “nós” que se faz sem manual ou dinheiro,

quer a política que chora e que sente,

e, em vez de discurso, oferece presente

o simples encontro de dois que se olham,

e sabem que os mundos, por mais que se escolham,

só valem se neles couber o outro

o outro, o teu, o nosso, o humano,

esse inclassificável, eterno, andarilho,

que não cabe em sigla, nem em plano,

e só se revela quando o deixamos ser,

não combatente, mas irmão.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © : https://antonio-justo.eu/?p=11268
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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CONSCIENCIALIZAÇÃO ENTRE ORDEM DA NATUREZA E ORDEM CULTURAL

Da Convivência cultural e ecológica num Mundo multipolar

Num mundo contemporâneo que se afirma, cada vez mais, pela rigidez dos opostos, a humanidade enfrenta o desafio urgente de redescobrir o diálogo. Vivemos divididos por fronteiras invisíveis, onde o “nós” e o “eles” sufocam a riqueza da convivência.

Para superar este impasse e cultivar um humanismo autêntico entre os nossos biótopos culturais, precisamos também de olhar para a maior das mestras que nos se depara de modo imediato e se revela na própria natureza. Longe de se contradizerem, a ordem natural e a ordem cultural são duas formas de vida em evolução contínua que se podem e devem ajudar a melhorar.

A Ordem humana e o Fluxo da Natureza

A nossa noção tradicional de ordem é, por essência, uma redução histórica. Associamos o conceito de ordem à simetria perfeita, à linha reta e ao controlo absoluto. Trata-se de um mecanismo de defesa porque diminuímos a realidade para nos conseguirmos definir a nós próprios. Tentamos estabelecer limites rígidos para que a nossa visão e o nosso entendimento limitado possam processar a complexidade do mundo.

A natureza, contudo, ignora as nossas réguas. Ela não apresenta linhas claras nem limites exatos. No seu seio, o grande convive harmoniosamente com o pequeno, sem qualquer preocupação com classificações ou gavetas conceituais. O veneno e o remédio coexistem lado a lado, na mesma floresta. Na ordem orgânica da Terra, nada é direito, mas nada está desalinhado; tudo cumpre uma função no ecossistema global.

A Ambivalência do Ser humano e o Medo do Ilimitado

O equívoco da nossa civilização não está em criar instrumentos de medida, mas em confundir a riqueza da vida com as próprias ferramentas que usamos para a medir. Na nossa necessidade incessante de definir, torna-se visível a profunda ambivalência do ser. Etimologicamente, a palavra “definir” tem a sua raiz no latim finire, que significa delimitar, erguer muros, estabelecer o fim de algo. Sendo criaturas biologicamente limitadas, sentimo-nos instintivamente mais confortáveis dentro de cercas mentais; mas a natureza, essa, serve-se também da osmose como possibilidade, dissolvendo as fronteiras que teimamos em traçar.

A ideia abstrata precisa de cálculo e de um ordenador para existir enquanto a vida real apenas precisa de espaço para pulsar. A ideia limita e estagna, enquanto a vida cresce, passa, muda e evolui livremente. Contudo, esta oposição aparente esconde uma complementaridade essencial: a régua dá forma ao ilimitado, assim como o ilimitado dá perspetiva à régua. O acto de finire não é, por si só, um erro porque é a resposta humana à nossa condição finita, um refúgio que nos orienta no caos.

A ordem Humana está focada na redução e na uniformidade, na simetria rigorosa e nas ideias fixas. A ordem da Natureza está focada na expansão e na integração, na diversidade aberta, na coexistência de opostos e no sentido prático da vida. Mas estas duas ordens não se anulam nem se repelem, completam-se. O limite que o Homem impõe com o definir (o finire) oferece contorno e identidade à imensidão natural, evitando que esta se dissipe em vazio. E a osmose natural que é a permeabilidade entre opostos, numa troca constante que ignora muros, oferece movimento e renovação à rigidez humana, avisando que as nossas definições não se devem cristalizar em dogmas que asfixiem. Se a definição dá segurança a osmose dá vitalidade e uma não sobrevive sem a outra. Isto transportado para a sociologia, ensina que o verdadeiro desenvolvimento é a interculturalidade e não a multiculturalidade.

O verdadeiro medo do ilimitado não é, portanto, o receio do que é vasto, mas sim o pânico de reconhecer que a nossa própria finitude só ganha sentido quando abraça a infinitude que a rodeia. Civilizar-se não é domesticar a natureza nem render-se a ela, mas sim aprender a viver com ambas as forças, usando a medida como bússola, a liberdade como motor e a consciência humana como regulador. Definir é necessário para não nos perdermos, mas viver exige, acima de tudo, a coragem de deixar que os muros que erguemos sejam, de vez em quando, atravessados pela seiva do que não cabe em nenhuma lei, porque é exatamente nesse atravessar que o finito e o infinito, o humano e o natural, se reconciliam e se completam.

Os Biótopos culturais precisam da Diversidade como Elã vital

A ordem da natureza nunca foi caótica, mas a sua estabilidade não nasce da uniformidade, mas sim da diversidade aberta. Na ecologia, existem biótopos, comunidades de seres vivos que partilham o mesmo teto ambiental. Da mesma forma, as culturas humanas funcionam como biótopos sociais. São famílias de pessoas, de pensamento, tradições e linguagens que coabitam no globo humano.

Mais ainda: cada flor, tal como cada ser humano, é em si mesma um habitat diversificado e único. Os recentes e devastadores incêndios florestais funcionaram como um aviso severo gravado diante dos nossos olhos: tentar planear a natureza de acordo com o nosso entendimento estrito traz sempre consigo a tragédia da exceção. Na relva, diferentes seres vivos encontram abrigo sob a mesma folha; cada flor atrai insetos distintos, gerando uma interação harmoniosa onde a diferença é o motor da sobrevivência; na cultura o espírito dá perspetiva transcendente  ao elã da diversidade, muito embora forças das ideologias petrificadas embora fomentem um desenvolvimento quantitativo contrariam porem o desenvolvimento qualitativo.

O Óbvio do Humanismo e da Interligação

O óbvio reside em formar consciências permeáveis e abertas, que nem formatam nem se deixam formatar. A criação, no seu conjunto, é a maior metáfora da existência: não se orienta por ideologias secas, mas pelo sentido intrínseco da vida. Ela revela uma força criadora que ama a diversidade e viabiliza a comunhão. Mesmo o que rotulamos de “desordenado” encontra espaço nessa comunhão, não para justificar a destruição das regras sociais, mas para nos lembrar que a vida flui secretamente dentro de cada manifestação cultural.

Não fomos criados para viver em trincheiras ideológicas, como observamos na resposta que os partidos e governantes, muitas vezes, não dão, ao apostarem na desconstrução do adversário ou na guerra contra biótopos culturais distintos. Somos chamados a respeitar diferentes ordens e a aprender também com a ecologia que a cultura não se edifica pela desmontagem, pelo cancelamento ou pela destruição do outro, mas sim pela interligação, pelo diálogo e pela humildade de reconhecer que nenhum biótopo humano é absoluto. Ao abdicarmos da ilusão do controlo total, podemos finalmente florescer juntos no grande jardim da humanidade e possibilitar uma cultura da paz.

Como lembra Edgar Morin: “O tesouro da humanidade está na diversidade criadora, mas a fonte da sua criatividade está na sua unidade geradora.” Contudo, temos cabeças tão repletas de saberes compartimentados que a necessária interligação entre eles fica comprometida, cerceando a expansão do pensamento. Precisamos de um pensamento menos binário, que se liberte do molde redutor de tese e antítese e mais aberto à lógica trinitária, que aplica a parte no todo e o todo na parte. Relegada para o domínio do mistério, essa lógica é, no entanto, profundamente real, pois ajuda a superar moralismos e erros de pensamento. Além disso, num tempo de multipolaridade e interdependência planetária, ela transcende a linearidade da causa e efeito, possibilitando uma visão contextual, global e estrategicamente inteligente.

Por fim, uma ontologia coisificada gerou um racionalismo reduzido, que se esgota em sistemas lógicos fechados, sistemas que se desconhecem a si mesmos, não se tocam e excluem o mistério e o sagrado, por não os comportarem. Superar essa limitação é o passo decisivo para que o humanismo e a interligação deixem de ser meras abstrações e se tornem práticas concretas de coexistência.

Essa coexistência cultural e ecológica exige uma ética da espécie humana alicerçada na virtude. Os direitos humanos e a igualdade universal do indivíduo permanecem, ainda hoje, subjugados às lógicas culturais dominantes, que tendem a impor uma uniformidade redutora em vez de acolher diferenças. Falta-lhes, precisamente, o processo de osmose, a interferência fecunda entre culturas, que possibilite uma verdadeira reforma do pensamento, condição indispensável para transformar a educação e responder aos desafios da atual era multipolar.

Hoje, seguindo o conselho de Edgar Morin, o caminho passa por assumir o compromisso de ampliar a nossa consciência, isto é, praticar uma ciência com consciência e promover uma educação que não formate, mas que capacite cada ser humano a realizar a sua vocação de homo complexus num mundo permanentemente complexo.

Contudo, basta olhar para as nossas elites e para o cidadão comum para constatar como nos encontramos focados no quantitativo mensurável da física antiga (base da ontologia, antropologia e sociologia vigentes) sem se ter em conta o desenvolvimento humano qualitativo. Assim estamos a afundar-nos em novas formas de extremismo, em guerras fratricidas, na artificialização do pensamento e na naturalização da barbárie. Urge, por isso, que a ética e a osmose deixem o plano teórico e se imponham como práticas do quotidiano, sob pena de a complexidade humana se dissolver na simplificação brutal das ideologias fixas e doutrinas e de perdermos, definitivamente, a oportunidade de florescer juntos no jardim comum que teimosamente recusamos cultivar.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11263
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

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DAZWISCHEN (ALI MESMO NO MEIO (1)

Entre o teu nome e o meu, entre a ave e a árvore,
entre a fenda da terra e a abóbada do céu,
ouve-se a música, não a que os astros tecem,
mas a de Afrodite que afina o espaço do intervalo,
esse vão suspenso onde dois seres se respiram
sem ainda se tocarem, na ânsia de se acharem.

Nesse dazwischen, o fósforo da ideia
desce, risco breve e lúcido, ao centro do peito:
não queima, ilumina e no rosto incendeia
um sorriso que desfolha, pétala a pétala,
o inverno do silêncio. As mãos erguem-se,
cálice de vazio e suspiram por mais,
mais carne onde o feminino se faz onda
e o masculino, penhasco que a recebe,
mais céu onde a terra aprende a sua queda
para, ao cair, se saber feita de estrela.

Mas olha a surpresa, num ápice, o golpe de asa:
o dazwischen solveu-se. Nem sopro, nem fósforo.
Um mero beijo e o entre-dois ruiu
como um castelo de sal ao primeiro orvalho.
O que era ponte é agora travessia consumada;
o que era música, pausa que o lábio preencheu.

Que esse beijo, porém, se prolongue, amigos,
que caia, lento e cego, como pólen que o acaso
confia à asa da abelha sem bússola nem destino,
não para as flores que o caminho guarda
no seu livro de herbário, mas para as outras,
as que a própria senda desconhece e evita,
as que germinam onde o passo hesita,
no limite agreste onde o feminino é seiva
e o masculino, a luz que a verticaliza,
e a terra, ao subir, não fere o céu, abraça-o.

E nesse pólen, o fósforo reacende-se,
já não como ideia, mas como corpo mundano.
E o beijo, sendo um, é todo o voo e toda a raiz,
porque o que cai em flor não finda em chão,
ascende em fruto e no fruto, a semente,
e na semente, o gérmen do novo intervalo,
o recomeço do sopro que, incansável,
afina outra vez o arco entre o teu nome e o meu,
entre o voo e o ramo, entre o céu e a terra,
porque o encontro nunca é um fim, mas a fenda
onde a ânsia escondida, enfim, se sabe eterna
a repetir-se, fértil, no pólen do instante.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

(1) “Dazwischen” é um palavra alemã que significa literalmente, “ali entre”, “pelo meio”, “no meio” ou “entre as coisas” é precisamente esse espaço invisível. É aquilo que não se vê à superfície, mas que une tudo e revela o que está oculto, sem precisar de tocar no que é material ou superficial (como a “roupa”). É a perceção pura, a intuição ou a ligação profunda que vai direto ao ponto essencial.

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CEUTA E O TEATRO DAS NARRATIVAS

50.000 almas entre o desespero e o xadrez geopolítico

Não eram cinquenta, nem quinhentas, mas sim cinquenta mil. Cinquenta mil almas que, enquanto o tempo abre e fecha os olhos, transpuseram a cerca que separa África da Europa, para, no dia seguinte, regressarem a Marrocos como se o mar tivesse devolvido aquilo que a terra emprestara. A imagem é tão surreal como a rapidez com que se desenrolou o tufão. Para o observador distraído, foi uma vaga migratória. Para o olhar crítico, um espelho que reflecte as tensões submersas do Magrebe e, por arrasto, um aviso sombrio de que as fronteiras, quando abandonadas à geopolítica, se podem tornar em pólvora seca, tal como a Ucrânia nos ensinou.

A indiferença ou, mais provavelmente, a acção calculada das autoridades marroquinas torna evidente que não estamos perante um acaso climatérico ou uma falha de segurança. Rabat está irritado pelo restabelecimento de laços amigáveis entre Espanha e a Argélia, que é a sua rival histórica no tabuleiro norte-africano. Marrocos vê a aproximação de Espanha a Argélia, como uma provocação directa. Se a geopolítica é a arte de fazer o inimigo dançar, Ceuta foi o palco agora escolhido e as 50.000 pessoas, infelizmente, são apenas coreografia involuntária. O rasto das pegadas na areia não leva ao mar; leva, inequivocamente, aos corredores do poder em Marrocos.

Todavia, a questão não é, nunca foi, apenas migratória. No horizonte, o Saara Ocidental emerge como um fantasma que recusa descansar em paz. Ao facilitar a cidadania espanhola aos saharauis, que são os habitantes indígenas desse território disputado, Madrid atirou um dado sobre a mesa que Marrocos não podia ignorar. Apoiado pela Argélia, o movimento Polisário é a espinha dorsal da indignação marroquina. Assim, a crise de Ceuta não é uma crise de refugiados; é uma crise de soberania e de orgulho nacional ferido, que usa vidas humanas como massa de manobra numa negociação que se quer silenciosa, mas que explode em praça pública.

É aqui que o discurso público se desvirtua e a informação se transforma em arma de arremesso. Bruxelas tece indignações hipócritas, condimentadas com lágrimas de crocodilo, enquanto analistas de gabinete especulam sobre ligações obscuras entre Washington, Telavive e Rabat. Diz-se que Marrocos decidiu desestabilizar o governo de esquerda espanhol em retaliação pelas críticas de Madrid a Israel na Faixa de Gaza e aos ataques dos EUA ao Irão, ou pela resistência ibérica em aumentar aceleradamente as despesas de defesa perante as exigências de Trump. Haverá um fio condutor que liga a pressão sobre o défice militar à abertura súbita das portas de Ceuta? Esta especulação, por mais sedutora que seja, corre o risco de servir apenas os moinhos de quem procura simplificar o complexo. A verdade é que transformar 50.000 jovens desesperados num instrumento de chantagem diplomática revela uma crueldade tão gritante que ultrapassa qualquer intenção política racional.

Os rumores, esses, acrescentam pólvora ao debate. A ideia de que Israel ajudaria Marrocos a “recuperar” Ceuta e Melilha para punir a Espanha circula nos bastidores como moeda corrente. Mas, mais do que a veracidade destas intenções, difícil de provar e fácil de desmentir, importa perceber quem as divulga e com que propósito. A informação, hoje, muitas vezes não ilumina porque deslumbra e cega. As redes sociais amplificam o eco da fronteira “aberta”, transformando o desalento estrutural dos jovens marroquinos, que veem no mar mais oportunidades do que na sua própria pátria, num espetáculo mediático que desvia o olhar do elefante na sala: a falta de oportunidades endémica nos países de origem e a hipocrisia europeia perante o drama humano, que só se comove quando as imagens entram pela sala de estar dentro.

Ceuta é, pois, o reflexo de um mundo onde as cortinas da geopolítica escondem palcos de miséria. As fronteiras, recordemo-lo, devem ser marcadas por boas relações entre vizinhos e não por notícias escandalosas ou informações manipuladas que procuram levar a água aos moinhos de agendas alheias. Ao lermos os factos, exijamos clareza: não nos deixemos afogar na espuma dos dias, mas antes aprendamos a ver o fundo do abismo, mas sem ganhar vertigens. Porque enquanto as grandes potências jogam xadrez com os territórios, os peões, esses cinquenta mil, continuam a olhar para o mar, não como uma fronteira, mas como a única promessa ténue de um futuro que, na terra firme, lhes foi negado.

Segundo fontes oficiais espanholas, pelo menos 67 pessoas morreram durante este episódio específico, que levou à chegada de cerca de 50.000 pessoas à cidade. Em 2026 morreram oficialmente 97 pessoas na tentativa de alcançar Ceuta. Números oficiais apontam para 46 mortos em 2025.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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