O Companheiro inseparável de Sombra e Luz que o Destino nos deu
Se olharmos para a natureza com olhos atentos, descobrimos que nela tudo tende para a luz. Uma semente não germina antes de a terra estar pronta. Um rio não rompe a rocha pela força brusca, mas pela persistência silenciosa de um fluxo que encontra o seu caminho. O inverno não se apressa para que a primavera chegue mais cedo. Cada estação carrega o seu tempo, e o que não amadureceu no outono permanece como folha seca, não como falha, mas como matéria que a nova estação transformará em adubo.
Há, porém, plantas e pessoas, que foram geradas nos primeiros anos de vida em lugares sombrios. O seu desenvolvimento parece ficar condicionado à sombra originária durante toda a existência, por muito sol exterior que tardiamente apareça. Até parece que cada um de nós paga tributo pelo agir dos artífices que nos formaram. Isso não é culpa, não é desculpa, nem é dívida, é apenas a circunstância. Tentar compreender a diferença entre culpa e circunstância é já o primeiro passo de um caminho mais consciente.
Na vida, há padrões de sofrimento que parecem querer acompanhar-nos sob roupagens diferentes. O mesmo conflito relacional repete-se em pessoas distintas, em contextos distintos, com uma persistência que desconcerta. Numa autoanálise purgativa, surge inevitavelmente a pergunta: pode este bloqueio existencial ser superado? Pode o fado ser vencido?
Carl Jung dizia que aquilo que não é conscientizado tende a ser vivido como destino. Outros psicólogos acrescentam que enquanto não compreendermos o chamamento contido naquela situação, enquanto não lhe dermos um sentido que nos transforme, a vida repeti-lo-á, com a paciência de quem espera que um filho aprenda uma lição não pela punição, mas pela maturação. O chamamento não se impõe, apenas aguarda. Tem uma paciência que ultrapassa largamente a nossa.
É a mesma pergunta que ressoa desde os tempos primordiais: Adão, onde estás? Não um julgamento, mas um convite a situar-se, à relação, à presença, ao enraizamento. Um chamamento à inteireza que, como na natureza, se manifesta através da inter-relação de tudo com todos.
O sintoma, seja ele uma dificuldade externa ou um sofrimento interno, não é um inimigo a eliminar, mas um mensageiro a interrogar. O incómodo que se repete é muitas vezes o sinal da nossa própria surdez, da nossa pressa, do ainda não termos ouvido o chamamento, o que há muito nos chama. As situações que persistem meses ou anos são, com frequência, aquelas que contêm o material do nosso próprio amadurecimento. A pergunta produtiva não é “de quem é a culpa?”, mas sim: O que é que esta situação persistente me está a pedir que eu veja em mim mesmo? Que parte de mim ainda não escutei? Que crescimento está à espera?
Seria erro culpar-se ou culpar alguém pelo sofrimento que se traz. A sombra que nos acompanha vem do facto de sermos seres situados num mundo feito de situações interligadas. Por vezes, ela tem origem numa ferida antiga, o mau olhado em criança por quem, em vez de amar, criticou e deste modo ensinou a pessoa a fugir de si mesma, a não se sentir em casa no seu próprio ser, porque quando dela precisava, outros a invadiram. Esta fuga de si, disfarçada de combate ao exterior, é o que tantos escritos políticos e críticos escondem: o combate às próprias sombras projetadas lá fora, onde é mais fácil reconhecê-las do que acolhê-las dentro.
No fado português encontra-se algo desta tensão: no queixume lamenta-se um chamamento e a dor de ainda o não ter integrado. Mas a dificuldade do fado e de qualquer forma de lamentação que se fecha sobre si mesma é que não distingue entre uma dor repetida porque não integrada, uma estrutura externa que precisa de ser abandonada, ou uma ferida que precisa de cura antes de poder ser compreendida. As mágoas que se levam ao lavadouro público, aos amigos que confirmam a queixa ou aos autores que tudo justificam, acabam por ser apenas espelhos que devolvem a mesma imagem sem a transformar. Confirmam o fado em vez de apontar para o chamamento.
A natureza oferece-nos o critério: quando estamos verdadeiramente a escutar o chamamento, há uma sensação de alinhamento, mesmo que dolorosa. Quando estamos apenas a repetir o mesmo padrão sem crescimento, há exaustão sem fruto. As flores que a árvore produz, se se mantiverem na sombra das negatividades, aguardam o tempo propício para dar fruto. A árvore não acelera o seu crescimento porque o agricultor tem pressa. Há uma altura para plantar, uma altura para lavrar, uma altura para deixar o solo em pousio.
Num desenvolvimento humano orientado para a paz e nem toda a repetição é chamamento, importa dizê-lo com clareza, a autorreflexão não é um exercício de autocastigo, mas de escuta. Na tradição cristã, este apelo vai além da relação dialética eu-tu, porque nos convida a entrar na lógica relacional do nós, da compaixão e da sintonia, onde já não há castigo nem autocastigo, mas a vivência de um mundo inteiro a sofrer em nós e do sofrimento da germinação da flor a emergir o fruto, a ressurreição.
Os problemas não são fracassos. São chamamentos a ver o que ainda temos para compreender em nós, para que os outros deixem de ser superfícies de projeção das nossas sombras.
Talvez a tenacidade exasperante dos nossos bloqueios seja apenas o inverno que insiste até que finalmente preparemos a terra para a primavera. Uma primavera que não podemos apressar, mas que também não podemos eternamente adiar.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo Social
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