Em memória do Pe. Ramiro Pereira Galhispo

O amigo Pe. Ramiro foi um homem de coração largo, que fez da entrega aos outros o seu programa de vida

Nesta hora de emoção e saudade, em que recordamos a partida do nosso muito querido Pe. Ramiro Pereira Galhispo, natural da Caranguejeira, Leiria, quero deixar algumas palavras de gratidão e de memória.

A 11 de agosto de 2026, o seu corpo foi entregue à terra, depois de uma longa vida de 95 anos, plena de espírito salesiano, de serviço, de alegria e de humanidade. A dor da sua partida mistura-se com a consolação de sabermos que se libertou finalmente do sofrimento causado pela doença. E fica, entre nós, aquilo que a morte não consegue sepultar e que é a presença de uma vida semeada nos outros.

Agora que o meu amigo morreu, dou comigo a revivê-lo de uma maneira muito especial. Volto às cartas que me escreveu ao longo dos anos, releio as suas palavras, reconheço nelas a sua voz e reencontro o homem que conheci e estimei. É também através dessas cartas que quero manifestar a minha gratidão por tudo aquilo que ele semeou.

O Pe. Ramiro conseguiu congregar, de forma singular e autêntica, a sua individualidade e a sua missão. Nele conviviam harmoniosamente o homem, o salesiano, o sacerdote, o músico, o professor e, sobretudo, o pastor. Um pastor que, por natureza e vocação, não se colocava acima do rebanho, mas caminhava no meio dele para melhor o compreender e servir.

Era um padre da juventude e do povo. Deixava falar o coração e, por onde passava, parecia transmitir uma certeza simples e profunda como que a dizer: Deus também é povo.

Tinha um sorriso comunicativo, uma alegria contagiante e um bom humor que aproximavam as pessoas. O espírito jovial de Dom Bosco manifestava-se nele com naturalidade. Era entusiasta, cheio de iniciativa, vivaz, otimista, sociável e eloquente. Mas, acima de tudo, era alguém disponível, era um homem com quem se podia contar.

O Pe. Ramiro era, para mim, um anjo de asas largas, não feito para permanecer apenas dentro dos muros de um convento.

Precisava de espaço para servir, de gente para amar, de dificuldades onde meter mãos à obra. A capacidade de dedicação acompanhava-o por toda a parte. Onde chegava, começava a fazer. Onde encontrava sofrimento, aproximava-se. O sofrimento dos outros tocava-o profundamente, como se encontrasse em cada pessoa ferida o próprio Cristo abandonado, no momento da súplica: «Pai, se possível, afasta de mim este cálice.»

A sua alegria não era, porém, ingenuidade nem desconhecimento da dor. Como sacerdote, manifestava quase sempre encorajamento e esperança, mas essa luz vinha também de sofrimentos escondidos. Talvez por isso fosse uma alegria tão verdadeira porque era a força de quem aceita a cruz procurando vivê-la já com rosto de ressurreição.

Desde Arouca ficou uma amizade de muitos anos

O carismático Pe. Ramiro começou a fazer parte da minha vida em 1960, em Arouca, quando foi meu professor de francês e de mestre de música.

Recordo ainda a sua enorme sensibilidade. Quando nós, alunos, desafinávamos, ele não nos humilhava nem nos censurava. Limitava-se a erguer as mãos até aos seus cabelos encaracolados, como que acariciando a própria cabeça perante o nosso desacerto musical. Era um gesto tão seu e que, passados tantos anos, permanece vivo na minha memória.

Mais tarde, depois do meu tirocínio em Izeda, voltei a encontrá-lo quando eu era estudante de Teologia em Benediktbeuern. Nessa altura, o Pe. Ramiro trabalhava como pároco e orientador no Colégio Português de Kaiserslautern, servindo uma comunidade de cerca de três mil portugueses.

A sua ação, porém, ultrapassava largamente a atividade estritamente pastoral. Exercia diversas funções em benefício daquela comunidade emigrante e chegou a enviar para Benediktbeuern dinheiro proveniente do seu trabalho, ajudando assim a financiar os nossos estudos teológicos: éramos quatro estudantes portugueses.

Nunca esqueci este gesto de salesiano. Ele diz muito mais sobre o Pe. Ramiro do que qualquer elogio que lhe possamos fazer pois trabalhava, servia e partilhava para que outros pudessem continuar o seu caminho.

Depois da minha ordenação sacerdotal, quando vivia nas Oficinas de S. José, tive ainda a felicidade de o substituir durante as férias nas comunidades de Kaiserslautern e de Mogúncia. Pude então compreender ainda melhor a dimensão do trabalho que ali realizara e, sobretudo, os laços humanos que criara.

«Quem anda à chuva molha-se»

Em 1980, deixou aquele seu “império” de Kaiserslautern e partiu para a Madeira.

A saída não foi fácil fácil, mas o Pe. Ramiro possuía aquela sabedoria de quem, tendo sofrido, se recusa a transformar a mágoa em ressentimento.

Numa carta que me escreveu do Funchal, em 17 de abril de 1986, recordava as circunstâncias da sua saída de Kaiserslautern: «Isso são problemas ultrapassados; foi apenas para dizer que a vida traz destes percalços; e… quem anda à chuva molha-se (a não ser que use o guarda-chuva da hipocrisia).»

Este é um extraordinário retrato da sua maneira de estar na vida! Perdoar, seguir adiante, não alimentar amarguras, não permitir que o passado impeça a construção do futuro.

Noutra carta, depois de ter deixado Kaiserslautern, escrevia-me sobre os pedidos para que regressasse e sobre as inevitáveis queixas que surgiam entre as pessoas: «Pedidos de regresso e “queixas” que sempre se fazem uns aos outros, mas a que eu nunca respondo, procurando sempre a calma, a reconciliação e a alegria. O passado passou e há que construir a partir do que existe, sem lamúrias.»

“Sem lamúrias”

Talvez estas duas palavras encerrem muito da sua filosofia de vida. Não significavam ausência de sofrimento, mas a decisão de não fazer do sofrimento uma morada. O Pe. Ramiro preferia construir.

Kaiserslautern ficou para trás geograficamente, mas nunca verdadeiramente o deixou partir. Kaiserslautern corria atrás dele: através de centenas e centenas de cartas, através da amizade e da gratidão das pessoas e através dos muitos jovens daquela comunidade que vinham a Portugal durante as férias para casar e queriam que fosse ele a celebrar e acompanhar esse momento das suas vidas.

Um padre dos jovens

O Pe. Ramiro compreendia profundamente os jovens. Não os via como destinatários passivos de pedagogias ou doutrinas, mas como pessoas que precisavam de proximidade, confiança, atenção e amor.

Quando chegou a altura de deixar o Funchal, confidenciava: «É bom que outros passem por aqui para ver se perdem um pouco a mania de que bons são só os que estão dentro dos muros dum convento.»

E acrescentava, a propósito da juventude: «Os jovens hoje merecem outro tratamento e precisam de mais algo do que simplesmente ideias e ciência na cabeça…!»

Estas palavras dizem muito sobre o seu modo de compreender a missão salesiana.

Para ele, educar e evangelizar não era apenas transmitir ideias. Era estar presente, como Dom Bosco estava presente e muitos hoje procuram estar presentes. Educar era ouvir, acompanhar, dar confiança, ajudar alguém a descobrir que é amado e que a sua vida possui valor.

Quando foi delegado nacional da Federação AADB, essa capacidade de congregar e entusiasmar tornou-se ainda mais evidente. Onde aparecia, o Pe. Ramiro impressionava e mobilizava as pessoas. Tinha a capacidade rara de comunicar entusiasmo sem perder a proximidade humana.

O Pe. Ramiro também era o “espanta-pardais”

Ele próprio dizia, com aquele humor tão característico, que era um “espanta-pardais”.

Sempre entendi esta expressão como uma bela metáfora da sua missão. O importante era cuidar da sementeira, centrar toda a ação no essencial cristão e salesiano e não ficar excessivamente preocupado com os “pardais” que, aqui e ali, procuram estragar aquilo que se semeia ou tenta semear.

O Pe. Ramiro sabia seguir em frente, perdoava, recomeçava e procurava a reconciliação. Não cultivava uma cara triste nem deixava que o peso do mal lhe roubasse a capacidade de sorrir.

Foi um homem profundamente cristão, capaz de encarar a cruz quotidiana com rosto de ressurreição.

O Amigo

O Pe. Ramiro não pertence apenas às instituições por onde passou, às comunidades que serviu ou à história salesiana. Para mim, pertence também à história familiar e pessoal da amizade.

Foi meu amigo e amigo da minha família. Foi ele quem batizou o meu filho, David Ramiro, em S. João da Madeira. E o próprio nome conserva, por isso, uma memória que nos é particularmente querida. Defacto, escolhi o nome para o meu filho em recordação do Pe Ramiro e do Pe. David.

Ao longo dos anos voltámos a encontrar-nos várias vezes em Arouca e a última vez na Quinta Outeiro da Luz onde ficou de na próxima vez trazer calções para mergulhhar na piscina. Infelizmente a doença não lhe permitiu voltar. Guardo também com especial ternura uma imagem dos últimos tempos em que tivemos o prazer de atravessar juntos a ponte dos Passadiços do Paiva, de mão na mão.

Hoje essa recordação ganha para mim outro significado. Há pontes que atravessamos sem sabermos que um dia se transformarão em símbolos. Aquela mão que então acompanhei é agora memória. Mas a amizade permanece como uma ponte que nem a morte consegue destruir.

O Pe. Ramiro tinha uma vida cheia que enchia a vida dos outros

O amigo Ramiro foi um homem realizado e permaneceu jovem porque fez da entrega aos outros o seu programa de vida. Teve uma vida cheia e encheu a vida dos outros.

Encheu-a de alegria, de amor, de dedicação, de música, de humor, de esperança e daquela disponibilidade tão própria de quem não pergunta primeiro o que vai receber, mas aquilo que pode oferecer.

Deixa nos seus condiscípulos, nos irmãos salesianos, nos antigos alunos, nos jovens, nas comunidades que serviu, nos amigos e em tantas famílias uma saudade imensa. Mas deixa também uma mensagem: viver com alegria, servir com generosidade, conservar a mente aberta, perdoar e continuar a construir.

Agora, ao reler as cartas que me escreveu, o Ramiro torna-se paradoxalmente mais vivo dentro de mim. A sua caligrafia, tão característica como ele embora mais ordenada, devolve-me a sua voz; as suas frases devolvem-me o seu humor; as suas confidências fazem regressar o amigo.

Talvez uma das formas mais profundas de permanecer seja precisamente esta: continuar vivo naquilo que se semeou no coração dos outros.

Por isso, nesta hora em que entregamos o seu corpo à terra, a palavra que mais desejo pronunciar não é apenas saudade mas sobretudo de agradecimento.

Obrigado, Pe. Ramiro, pela amizade. Obrigado pelo sacerdócio vivido no meio do povo.
Obrigado pela juventude que conservaste e despertaste nos outros. Obrigado pelas mãos que tantas vezes meteste à obra.
Obrigado pela alegria com que escondeste tantas cruzes.
Obrigado pelas cartas, pelas palavras, pela música, pelo sorriso e pela capacidade de acreditar nas pessoas.
Obrigado à sua família da Caranguejeira, que o deu à vida e obrigado à Família Salesiana, que nos proporcionou o encontro com uma personalidade tão rica e prendada de dons.
Obrigado a Deus pela longa vida deste homem que soube fazer dos seus 95 anos uma história de entrega. Hoje entregámos o seu corpo à terra, mas aquilo que o Pe. Ramiro semeou não fica debaixo dela porque fica em nós.

Certamente esta é a mais bela ressurreição que nos é dado testemunhar na vida daqueles que amámos: quando partem e, apesar disso, continuamos a ouvi-los, a recordá-los, a repetir as suas palavras e a reconhecer no nosso próprio caminho alguma coisa daquilo que deles recebemos.

Descansa em paz, querido Pe. Ramiro. Que Deus te acolha agora com aquela mesma alegria com que tu procuraste acolher os outros.

E que, onde estiveres, continues com as tuas asas largas, finalmente sem muros, sem dores e sem fronteiras.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

Retrato poético do Pe. Ramiro

ASAS LARGAS

Não eras homem de ficar
à sombra quieta de um convento;
tinhas o mundo para amar
e Deus soprava em chamamento.

Eras de estrada e de partida,
de porta aberta, mão estendida,
um padre feito para a vida,
um coração de asas sem medida.

Onde chegavas, de repente,
havia um gesto, havia um plano;
Deus parecia mais da gente,
mais nosso, próximo, mais humano.

Tinham os jovens no teu olhar
não só doutrina ou teoria:
queriam alguém para os escutar,
queriam pão de companhia.

E tu sabias que ensinar
é muito mais do que dizer:
é caminhar, compreender,
dar confiança e fazer crescer.

Professor de música e francês,
se alguma nota nos fugia,
não vinha a crítica ou altivez:
a mão aos caracóis subia!

E nesse gesto divertido,
tão teu, tão simples, tão inteiro,
ficava o erro perdoado
e o mestre amigo verdadeiro.

Depois, por terras da Alemanha,
entre emigrantes portugueses,
fizeste a pátria na distância
e foste irmão milhares de vezes.

De Kaiserslautern, trabalhando,
a nós, estudantes, ajudavas;
e o que ganhavas, partilhando,
em nosso estudo semeavas.

Que bela forma de ensinar
sem livro, quadro ou pregação:
quem dá ao outro o seu lugar
faz do Evangelho profissão.

Mas veio a chuva. E tu sabias
que quem caminha há de molhar-se;
só há maneiras, tu dizias,
de, por hipocrisia, resguardar-se.

Não quiseste tal guarda-chuva,
nem te serviste da amargura;
preferiste, depois da chuva,
seguir de fronte limpa e pura.

E quando a vida te feria,
não fizeste da dor morada:
por trás da tua cortesia
havia uma cruz abraçada.

Também por isso a tua alegria
não era um riso superficial:
era uma Páscoa que nascia
do sofrimento feito sinal.

Tinhas a cruz, mas no teu rosto
já despontava a Ressurreição;
e punhas, mesmo no desgosto,
uma esperança em cada mão.

Chamavas-te, a rir, “espanta-pardais”,
e havia nisso uma verdade:
guardar sementes essenciais,
sem dar ao mal centralidade.

Que os pardais viessem à semente!
Tu semeavas outra vez.
Perdoar era seguir em frente;
recomeçar, tua lucidez.

“Sem lamúrias”, ensinavas:
o que passou, passou também.
Com o pouco que encontravas,
fazias nascer algum bem.

Ó Ramiro, padre do povo,
salesiano até ao coração,
tinhas o dom de fazer novo
o que tocavas com a tua mão.

Músico, mestre, sacerdote,
pastor sem trono nem altura,
não caminhavas sobre o rebanho:
ias com ele na aventura.

E se encontravas quem sofria,
não passavas indiferente;
naquela dor reconhecias
Cristo abandonado à tua frente.

Por isso foste sempre jovem,
mesmo quando os anos eram tantos:
há homens que os calendários medem,
há outros que se medem pelos encontros.

Noventa e cinco anos de caminho,
de humor, serviço e amizade;
quem tanto deu nunca está sozinho
quando atravessa a eternidade.

Também comigo atravessaste
uma ponte sobre o Paiva, mão na mão;
quem diria, quando passaste,
que ela seria hoje oração?

Há pontes feitas de madeira,
há pontes feitas de amizade;
umas terminam noutra beira,
outras atravessam a eternidade.

Batizaste o meu David Ramiro,
entraste assim na minha família;
e em cada carta que hoje admiro
tua voz novamente cintila.

Agora abro as tuas cartas
e o tempo começa a recuar:
as palavras tornam-se pegadas
e volto contigo a caminhar.

Não, Ramiro, não estás ausente
enquanto houver quem possa dizer:
“Foi meu amigo, esteve presente,
ajudou-me um dia a crescer.”

Hoje a terra recebeu
o corpo cansado da viagem;
mas não recebe o que floresceu,
nem pode enterrar tua passagem.

Porque quem vive para dar
não cabe inteiro numa despedida;
fica nos outros a morar,
multiplicado noutra vida.

Ficas no jovem que escutaste,
no emigrante que acolheste,
no aluno que não humilhaste,
no coração que compreendeste.

Ficas no pão que repartiste,
no riso aberto, franco e são,
na mão que a tanta gente abriste,
na fé transformada em ação.

E fica em nós, como alvorada,
o teu recado derradeiro:
seguir sem medo pela estrada,
amar e servir por inteiro.

Vai, pois, amigo, em paz profunda,
liberto agora de sofrer.
Que a Luz de Deus toda te inunda
e te ensine um novo amanhecer.

Talvez o Céu também precise
de quem não saiba estar parado,
de um “espanta-pardais” que avise
que o Amor deve ser semeado.

E se há no Céu algum convento,
que sejam largos os seus portais:
tu foste sempre homem de vento,
um anjo de asas largas demais.

Ao Pe. Ramiro Pereira Galhispo,
com amizade, gratidão e saudade.

António da Cunha Duarte Justo

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COM DEUS A JANELA É MAIOR

Fé, crença e instituição entre os limites da linguagem e a vastidão do horizonte humano

A sabedoria não consiste em viver sem janelas, mas em saber que toda a janela tem uma moldura e que o horizonte é sempre maior do que aquilo que vemos. O problema começa quando imaginamos que a nossa janela é o mundo.

Há opiniões que, embora coerentes dentro da sua própria lógica, fazem lembrar quem contempla o mundo através de uma janela demasiado pequena. O que se vê pode ser verdadeiro, mas não é toda a verdade. O horizonte fica condicionado pela moldura e facilmente se confunde a parcela visível com a realidade inteira.

Também o pensamento corre esse risco. Quando se fecha sobre os seus próprios pressupostos, interesses ou certezas, transforma a razão numa espécie de quarto de paredes espelhadas, onde, para onde quer que se olhe, acaba-se por encontrar a própria imagem. A perspetiva do divino, pelo contrário, convida a alargar a janela. É uma perspetiva global e integral, desde que Deus não seja reduzido a um tijolo destinado à construção do próprio ego, nem convertido em argumento para legitimar aquilo que previamente decidimos pensar ou ao limite do próprio conhecimento.

Da estreiteza das certezas à liberdade de uma fé que alarga o horizonte

Pensar com Deus não significa possuir a verdade nem falar em nome dela. Significa, antes, reconhecer que a verdade é sempre maior do que aquele que a procura ou a expressa. A fé autêntica não estreita o horizonte, muito pelo contrário alarga-o. Não deveria tornar o ser humano mais rígido, mas mais disponível e não mais arrogante, mas mais atento ao mistério que atravessa a existência. Deus tem uma função muito mais profunda do que a de simples resposta religiosa. Deus é horizonte, mas não aquele que confirma a nossa perspetiva, mas aquele que permanentemente a transcende. Assim, quanto mais alguém pretende meter Deus dentro das suas certezas, menor se torna o seu mundo e quanto mais reconhece que Deus o ultrapassa, mais larga se torna a janela.

A fé é o vinho e a crença é a garrafa

Deixar-se guiar por Deus pertence à dimensão da fé e não pode ser simplesmente reduzido a um conjunto de crenças. Fé e crença relacionam-se, mas não se confundem.

Poderíamos dizê-lo através de uma imagem: a fé é o vinho e a crença é a garrafa que lhe dá forma, a conserva e permite partilhá-lo. A garrafa é necessária, mas não é o vinho. E seria estranho discutir interminavelmente o formato, a cor e o rótulo da garrafa (a crença, a instituição), esquecendo aquilo que ela contém.

A crença dá expressão histórica, cultural e comunitária à experiência religiosa. Formula, organiza, transmite e preserva. A fé, porém, situa-se mais fundo, porque é relação interior, confiança fundamental, abertura ao transcendente e nele a todo o ser que nele está presente. É a disposição de quem aceita caminhar sem possuir antecipadamente o roteiro completo.

Por isso, a fé exige coragem. A confiança cultivada no quotidiano alimenta os impulsos espirituais de quem procura deixar-se guiar por Deus. E deixar-se guiar não significa abandonar a razão, mas aprender também a escutar aquilo que vem do interior (a nossa sarça ardente), para além dos automatismos funcionais, das conveniências, dos cálculos de interesse e das expectativas exteriores. Há uma inteligência do coração que não substitui a razão, mas a completa. A razão sem a verdura do vale transformar-se-ia em deserto

A liberdade interior da fé

Num mundo onde o cinismo é frequentemente confundido com lucidez e a desconfiança com inteligência, conservar a capacidade de confiar tornou-se quase um ato de resistência.

A fé pode proporcionar essa liberdade interior. Não se trata de obedecer cegamente a regras nem de se tornar subserviente à autoridade (nem à letra morta). Sabemos, inclusivamente pela experiência do mundo do trabalho e das organizações, como a obediência sem consciência pode facilmente converter-se em conformismo, oportunismo ou renúncia à própria responsabilidade.

Pensar com Deus significa precisamente o contrário, porque possibilita espaço para ganhar distância interior em relação às narrativas dominantes, discerni-las e, quando necessário, procurar novos caminhos. A fé permite confrontar aquilo que nos é dito de fora com aquilo que, no silêncio da consciência, o coração reconhece como verdadeiro.

Não se trata de transformar qualquer sentimento pessoal em voz divina. Também o coração necessita de discernimento. Trata-se de não permitir que a vida seja inteiramente determinada pelo ruído exterior.

Deus não cabe nas nossas construções

Ficaram para trás os tempos em que, em largos setores da cultura religiosa europeia, a fé era alimentada sobretudo pelo medo da condenação eterna. Uma espiritualidade dominada pelo medo corre sempre o risco de esquecer o essencial da mensagem cristã onde o amor de Deus é libertador e possibilita a reconciliação.

Na comunhão interior com Deus, as coisas começam a ser vistas de outra maneira

Deus não fica aprisionado em frases, fórmulas, doutrinas ou instituições. Estas podem apontar para Ele, testemunhá-Lo e manter viva a memória de uma experiência coletiva, mas não podem encerrá-Lo. O símbolo aponta para algo mais profundo, mas não possui. E também a palavra aponta mas não esgota.

No cristianismo, esta tensão torna-se particularmente fecunda: Deus não permanece numa abstração ou doutrina distante, porque, em Jesus, percorre o caminho do humano. O divino encontra o ser humano dentro da história, das suas fragilidades, relações, circunstâncias e contradições.

O ser humano, por sua vez, nunca existe isoladamente. É constituído pela sua mesmidade e pelas circunstâncias que o envolvem. Precisa do outro e necessita de estruturas (instituições) que tornem historicamente possível o nós, a comunidade. É aqui que entram as instituições.

Fé, crença e instituição

As instituições são necessárias porque a memória humana precisa de lugares onde habitar. Sem estruturas, tradições e comunidades, dificilmente uma experiência atravessaria séculos e gerações. A instituição organiza o espaço coletivo, conserva a memória, transmite narrativas e possibilita uma presença histórica. Mas toda a instituição corre igualmente o risco de confundir o recipiente com o conteúdo.

Talvez possamos considerar a instituição como um bem menor, não porque seja necessariamente má, mas porque toda a institucionalização implica regras, fronteiras, poderes e mecanismos de conservação que podem acabar por sobrepor-se à experiência viva que lhes deu origem.

É, por isso, empobrecedor identificar simplesmente fé e instituição.

Fé, crença e instituição são dimensões diferentes, embora complementares, de uma realidade humana e espiritual complexa que tem a ver com a essência humana na qualidade de eu-tu-nós (tão bem enunciada na fórmula trinitária)..

A fé corresponde à relação interior com o transcendente; a crença oferece-lhe linguagem, imagens, conceitos e narrativas; a instituição cria o espaço histórico e comunitário onde essas crenças podem ser transmitidas, celebradas, discutidas e renovadas.

Uma comunidade religiosa sem experiência interior corre o risco de se transformar numa administração do sagrado. Uma experiência espiritual sem qualquer linguagem dificilmente pode ser comunicada. E uma crença sem comunidade corre o risco de desaparecer com aquele que a professa.

Há, portanto, entre estas dimensões uma tensão inevitável e até mesmo  necessária.

A soberania da fé

Quem observa a religião apenas do exterior pode ter dificuldade em compreender esta distinção. Vê os ritos, os dogmas, os edifícios, as autoridades e os costumes e conclui que nisso consiste a religião. Mas a realidade interior da fé não é imediatamente observável.

No cristianismo, a soberania espiritual do cristão encontra-se precisamente na fé, isto é, na relação pessoal e interior com Deus, que não pode ser inteiramente substituída pela adesão exterior a fórmulas. A crença é necessária como roupagem cultural e comunitária, mas a roupa não é o corpo, assim como a rota não é a paisagem.

Isto não implica desprezar a tradição. Pelo contrário, significa colocá-la no lugar que lhe corresponde. A comunidade constitui o biótopo do indivíduo. Ninguém nasce fora da linguagem, da história ou da cultura. Precisamos de comunidades para receber e transmitir aquilo que individualmente nunca poderíamos construir do princípio. A instituição possibilita continuidade histórica; a tradição permite conversar com os mortos e entregar alguma coisa aos que ainda não nasceram. Mas nenhuma tradição deveria transformar-se numa prisão do espírito.

Toda a linguagem é símbolo

A questão torna-se ainda mais complexa quando reconhecemos uma característica fundamental da existência humana, pelo facto de toda a linguagem ser simbólica. A palavra nunca é a própria coisa.

Quando dizemos «árvore», nenhuma árvore cresce sobre a página. Quando dizemos «amor», a palavra não contém os amores vividos. E quando pronunciamos a palavra «Deus», quatro letras não encerram o mistério para o qual apontam.

Entre aquilo que alguém pretende comunicar e aquilo que o outro compreende existe inevitavelmente um espaço interpretativo. O emissor parte do seu universo de experiências, memórias, emoções e conceitos. O recetor acolhe a mensagem a partir de outro universo igualmente singular. O significado recebido nunca é uma reprodução fotográfica da intenção original, pois  é sempre uma reconstrução. A realidade que transportamos mentalmente é, portanto, sempre interpretada.

Este facto deveria tornar-nos intelectualmente mais modestos. Muitas discussões tornam-se violentas precisamente porque cada participante esquece a natureza simbólica da linguagem e identifica a sua interpretação com a própria realidade. De repente, já não se confrontam perspetivas sobre uma coisa: confrontam-se identidades. E quando uma interpretação se torna parte inseparável do ego, qualquer discordância passa a ser sentida como agressão pessoal.

 

Quando as palavras se tornam trincheiras

Abre-se assim um vasto campo para debates que facilmente se perdem na emoção. Não necessariamente porque os interlocutores sejam irracionais, mas porque desconhecem, ou esquecem, os limites da própria linguagem. As palavras, criadas para construir pontes, podem então transformar-se em trincheiras.

Para evitar isso, é necessário aprender a ler e a ouvir o outro sob múltiplas perspetivas. Perguntar não apenas «o que disse?», mas também: «de onde fala?», «o que entende por esta palavra?», «que experiência estará por detrás desta afirmação?» e, sobretudo, «que parte da realidade estarei eu próprio a não ver?».

É aqui que regressamos à pequena janela. Cada ser humano olha o mundo a partir de uma janela particular. A sua biografia é uma janela; a sua cultura é uma janela; a sua religião ou ausência dela é uma janela; a sua profissão, educação, condição social e experiência afetiva são janelas. O problema não está em possuir uma janela. É impossível viver sem alguma moldura. O problema começa quando imaginamos que a nossa janela é o mundo.

A fé pode ajudar a ultrapassar essa ilusão porque introduz no pensamento uma dimensão que transcende o próprio ego. Se Deus é maior do que aquilo que penso sobre Deus, também a realidade será maior do que aquilo que penso sobre ela.

O humor como higiene do espírito

Neste contexto, o humor desempenha uma função espiritual e intelectual frequentemente subestimada. O humor saudável cria distância entre o ego e as suas certezas. Recorda-nos que somos seres limitados a falar de realidades que nos excedem. Impede-nos de transformar cada opinião numa fortaleza e cada divergência numa batalha pela sobrevivência da própria identidade.

Quem consegue sorrir de si mesmo já começou a libertar-se da tirania do ego. Talvez por isso o humor seja um dos melhores antídotos contra o fanatismo. O fanático não consegue rir de si próprio porque precisa de levar absolutamente a sério a imagem que construiu de si, do mundo e até de Deus. O humor, pelo contrário, abre uma pequena fresta na parede das certezas. E por essa fresta pode entrar luz.

Pensar à grande

Pensar com Deus não significa, portanto, pensar que se possui Deus. Significa justamente reconhecer que Deus não cabe no nosso pensamento. É essa consciência que permite pensar à grande.

Pensar à grande é não reduzir o outro à opinião que expressou ontem. É não reduzir a fé à crença, nem a crença à instituição. É reconhecer a necessidade da comunidade sem divinizar as suas estruturas. É respeitar a tradição sem transformar a memória numa algema. É usar a razão sem fazer dela um ídolo e escutar o coração sem o confundir com o capricho. É também reconhecer que aquilo que vemos depende, em parte, da janela através da qual olhamos.

Talvez a verdadeira experiência espiritual não nos ofereça simplesmente respostas, mas comece por alargar a janela. Então, aquilo que antes parecia contraditório pode revelar outra dimensão; aquilo que parecia ameaça pode tornar-se pergunta e aquilo que parecia estranho pode tornar-se oportunidade de encontro.

E até Deus deixa de ser o argumento que usamos contra o outro para voltar a ser o horizonte que nos ultrapassa a ambos. Nesse horizonte, a fé não precisa de ter medo da razão, a razão não precisa de ridicularizar a fé e a diferença não necessita de desembocar em hostilidade.

Quem contempla o mundo por uma janela mais ampla descobre, pouco a pouco, que nenhuma perspetiva humana contém a paisagem inteira.

E talvez seja precisamente aí, quando deixamos de confundir a nossa pequena janela com a vastidão do mundo, que começamos verdadeiramente a ver.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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RECEITA PARA ESTRESSADOS DO AUTOAPERFEIÇOAMENTO

A arte de também nos deixarmos em paz

Vivemos numa época em que já não basta viver. É preciso melhorar a vida, melhorar o corpo, melhorar a mente, melhorar as relações e, se sobrar algum tempo, melhorar também a maneira como melhoramos. Imaginemos que até já chegamos a ponto de o descanso ter de ser produtivo.

Meditamos para ficar mais serenos, fazemos exercício para viver mais, lemos para crescer interiormente e, ao fim do dia, caímos exaustos na cama com a desagradável sensação de ainda não sermos a pessoa que deveríamos ser. Estamos a exagerar um pouco neste ponto.

A pressão do autoaperfeiçoamento é particularmente traiçoeira porque se apresenta sempre com boas maneiras. Não nos diz: «Não prestas.» mas sugere-nos delicadamente que podíamos ser ainda melhores e nós, habituados à obediência, lá metemos mais uma obrigação na mochila.

Por isso gosto da meditação e da oração, não como técnicas para me tornar melhor, mas como lugares onde posso, por momentos, deixar de ter de me tornar seja o que for para ser simplesmente com o divino e expressar como é boa a ressonância. Há uma sabedoria e um silêncio que não exigem currículo.

No silêncio posso escutar-me e tentar reconciliar o ego com o eu, o eu com o tu e ambos com esse difícil e maravilhoso «nós». Para isso, cada pessoa traz consigo uma sabedoria que não vem necessariamente nos diplomas. Há coisas que a alma sabe antes de nós sabermos explicá-las e quanto mais simples são as pessoas mais visível tornam a explicação.

Também quem procura ajudar os outros conhece outra armadilha! Esquecermo-nos de nós próprios, até a ponto de nos esquecermos da sede.

Na vida religiosa e pastoral isso acontece facilmente. Queremos estar presentes, compreender, consolar, servir. Tudo é muito cristão até ao dia em que a alma, depois de passar tanto tempo a dar água aos outros, percebe que também ela tem sede.

É algo que é preciso aprender pois também eu sou alguém de quem devo cuidar, o problema é que a força do hábito nos leva na enxurrada.

Temos por vezes uma estranha generosidade ao reservarmos para os outros a compreensão e deixarmos para nós a severidade. Ao amigo cansado dizemos: «Descansa, fizeste o que podias.» A nós próprios dizemos: «Podias ter feito mais.» É uma injustiça na própria casa talvez a compensar a atitude daqueles que organizam a vida a desviar a água para o seu moinho. (Não se trata aqui de moralismo porque a vida é como o fluxo do rio e não se fixa numa ou noutra margem ela é margem e corrente doutro modo não seria vida).

Durante a minha atividade pastoral encontrei uma maneira muito pessoal de fazer as pazes com os meus limites. Quando queria ajudar alguém e sentia sobre mim o peso da responsabilidade, dizia a Deus: «Tu sabes que quero fazer o bem e que procuro estar ao Teu serviço. Se fizer alguma coisa errada, lembra-Te de que também tenho as minhas limitações e eu faço o que posso e à minha maneira, de resto, o problema é. Teu.»

Talvez fosse uma oração desabitual, mas aliviava-me a alma, pois sempre pensei que Deus compreenderia. Afinal, se nos criou limitados, não poderá ficar demasiado surpreendido quando damos com a cabeça nos limites.

Hoje, na atividade jornalística, continuo a viver um pouco desta confiança. Escrevo procurando fazê-lo com boa intenção, embora conheça o aviso popular de que «de boas intenções está o inferno cheio».

Escrevo, portanto, aquilo que analiso, penso e sinto. Se errar, haverá quem me corrija e há sempre algo a aprender.

Talvez seja esta a minha receita para os estressados do autoaperfeiçoamento: tratar-nos a nós mesmos como tratamos alguém de quem gostamos e estarmos atentos ao que o espírito do tempo nos dita.

Melhorar, sim, mas sem viver descontentes com aquilo que somos. Por isso trata-se de ajudar os outros sem nos abandonarmos pelo caminho e rezar sem querer impressionar Deus, deixando também Deus falar e quando meditamos trata-se de o fazer sem transformar o silêncio noutra disciplina olímpica.

Trata-se de aprender a dizer ao fim de certos dias: «Fiz o que pude e amanhã veremos.»

Não está escrito nos «livros» da vida que tenhamos de ser permanentemente a nossa melhor versão. A vida seria demasiado injusta se reservasse o seu palco apenas para os melhores. Há lugar também para os hesitantes, os cansados, os que tropeçam e continuam o caminho. Chegaria sermos, na medida do possível, a nossa versão mais humana, aquela que conhece os próprios limites, sabe sorrir das suas imperfeições e, ao fim do dia, se permite sentar um pouco com a vida, sem a obrigação de se aperfeiçoar, deixando que ela siga o seu curso e nós com ela.

Do Direito ao Desgoverno e à Rebeldia!!!

Como exercício de desabituação e em espírito de contradição à propaganda do perfecionismo que nos quer atafegar, segue uma receita

Quero entrar na vida sem passaporte e sair dela sem porteiro.

O oposto do controle não é o caos, mas sim a trégua!

É permitido chorar e não extrair lição alguma do choro.

É permitido levantar-se sem rumo e gastar o dia em órbita.

É permitido ter medo das lembranças e não ter forças para encará-las.

É permitido não rir dos problemas, levá-los a sério, e deixá-los pesar.

É permitido não lutar, recuar e descobrir que a fronteira também é um lugar.

É permitido abandonar tudo por medo porque às vezes o medo é a única voz sensata.

É permitido não transformar sonhos em realidade e deixá-los onde estão, na qualidade de sonhos.

É permitido não demonstrar amor e mesmo assim tê-lo guardado onde ninguém vê.

É permitido que as tuas dúvidas e mau-humor respinguem nos outros, desde que, depois, os limpemos juntos.

É permitido deixar os amigos e, mais tarde, reencontrá-los no silêncio.

É permitido não seres tu mesmo diante das pessoas, porque tu tens vários eus e todos merecem vez.

É permitido fingir que as pessoas não te importam, se a intimidade doer naquele dia.

É permitido ser gentil por puro acaso e não por cálculo de lembrança.

É permitido esquecer aqueles que gostam de ti porque a memória tem os seus esquecimentos justos.

É permitido sentir saudade e não se alegrar, apenas senti-la até que ela passe.

É permitido esquecer os olhos, o sorriso e lembrar-se apenas do que doeu.

É permitido recusar-se a embelezar a dor e assim não transformar a tristeza em currículo.

É permitido não ser herói porque os heróis morrem no final e os habitantes ficam para testemunhar o cotidiano

É permitido não pagar o passado porque o passado já foi pago com o tempo que passou.

É permitido descansar, hesitar, errar e repetir o erro porque são actos políticos de resistência ao produtivismo.

Quero entrar na vida sem passaporte e sair dela sem porteiro.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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ENTRE SIMBOLOGIA E REALIDADE NA VERDADE DO ENTREMEIO

Toda a linguagem é símbolo. Por ser puramente simbólica, há um abismo interpretativo entre o emitir e o receber da mensagem. O conceito mental gerado prova que o significado não reflete o real, mas reconstrói a realidade de forma subjetiva.
Abre-se assim espaço para debates que, por vezes, se perdem na emoção, fruto do desconhecimento da própria essência da linguagem.
Para que as palavras não se tornem trincheiras, há que ler e ouvir o outro sob múltiplas perspetivas. O humor é o antídoto que evita que o ego leve a sua interpretação tão a sério a ponto de se querer definir contra o outro.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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ORAÇÃO

Orar é agradecer, apesar de tudo.
Nos tempos difíceis que vivemos, marcados por ameaças de guerras, a nossa linguagem corre o risco de se brutalizar, servindo de prenúncio para ações violentas.
No discurso social e no trato diário, a palavra muitas vezes fere e a ação arrasa. Contudo, enquanto na guerra a linguagem se contrai num grito, na oração ela dilata-se num silêncio profundo, onde o ser humano e o divino se encontram sem as prisões dos conceitos. Este silêncio não significa ausência de som, mas sim a plenitude da escuta que bate ao ritmo do coração e nos serve de base firme contra os ventos das circunstâncias e de pomada que cura as feridas da alma.
Inspirados por São Domingos, que se comemora hoje, aprendemos a transição vital de “falar sobre Deus” para “falar com Deus”. Esse passo exige desistir da posse mental e das ideologias para entrar na verdadeira relação do encontro. Falar com Deus é uma entrega que envolve todo o nosso ser, inclusive o corpo, seja ao estender os braços em cruz, ao erguê-los ao céu, ao juntarmos as mãos… Ao libertar os músculos e alongar a respiração, desocupamos a mente e sentimos o calor do simples acto de estar na presença divina. O divino revela-se, assim, como o nosso verdadeiro lar, um ponto de apoio íntimo onde estamos sempre em casa, protegidos das modas e das emoções passageiras.
A oração não nos isola da realidade; faz-nos sintonizar com o pulsar do mundo através de uma compaixão fraterna, onde o silêncio que nos une se converte em compromisso e inclusão.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
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