Um dos fatores mais negligenciados no debate sobre a coesão social é o elemento linguístico e ritual. Enquanto a Igreja Católica, com o Concílio Vaticano II, optou por abandonar o Latim na liturgia, o Islão manteve o Árabe como língua litúrgica comum, desde a Índia até ao Egipto. Esta repetição diária das suras do Alcorão, em escolas e mesquitas, cria uma universalidade intrínseca e uma pertença transnacional que a Igreja Católica perdeu ao democratizar excessivamente o rito. A defesa do Latim na parte mística da missa é questionada mas também não é um mero saudosismo; seria um elemento estratégico de unidade doutrinal, um sinal externo capaz de criar um sentimento de pertença forte numa época de fragmentação (o Papa porém apresenta essa visibilidade).
No plano antropológico, a “superioridade” resiliente do Islão reside na afirmação inabalável do princípio masculino sobre o princípio feminino na dinâmica social. O Ocidente, ao manter um patriarcalismo mental inconsciente, mas defraudado por ideologias concorrentes, acaba por aceitar interiormente o machismo islâmico, que vê a feminilidade como mera função reprodutora ao serviço do aumento do grupo. A Europa necessita urgentemente de transformar a sua antropologia numa “antropoginelogia”, isto é, uma matriz que integre verdadeiramente o princípio feminino, pacífico e agregador, com o princípio agressivo e estruturador masculino, em vez de os colocar em conflito como faz ao implementar o islão.
A nossa ambivalência perante este fenómeno advém de uma confiança excessiva na nossa própria fadiga de pensamento (hermenêutica). Acreditamos que a história avança pela verdade, mas, infelizmente, ela avança muitas vezes quantitativamente mais pela mentira e pela persistência. O Islão, vindo de lugares áridos, desce ao vale com uma energia que lhe vem da consciência de grupo, formatada em tempos de escassez. Nós, cordeiros dos vales férteis, satisfazemo-nos com o sabor da nossa relva e ignoramos que a inteligência de sobrevivência do “lobo” é, para ele, uma questão de vida ou morte. A esperança de um diálogo verdadeiro só virá quando a Europa recuperar a ligação à terra e às suas leis, deixando a preguiça intelectual de lado. (continua em “A Estratégia no Terreno”).
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo