A CONSTANTE HISTÓRICA

Não é falta de inteligência
é o peso invisível
que dobra o pensamento
como água que rodeia a pedra.

Em todos os regimes,
em todos os tempos,
um povo inteiro afirma o regime
e alguns, considerados, os incómodos, os loucos, os livres
tentam abrir-lhes os olhos.

É assim que se faz.
É assim que sempre se fez.

A democracia tem o seu fraco
como todos os outros tiveram o seu!
Nela a maioria decide o que é verdade
e a estatística torna-se doutrina,
a sociologia vira catecismo,
e a sabedoria das outras disciplinas:
teologia, filosofia, história, poesia
é deitada ao chão
para que os pés dos números
não sintam o frio do mármore.

A maioria não engana com má-fé.
Engana com boa consciência,
que é a forma mais perfeita de engano.

E os dissidentes?
São tolerados como ornamento,
prova de que o sistema é livre,
enquanto o sistema segue sem os ouvir.

É assim que se faz. É assim que sempre se fez.
E é assim que sempre há-de ser!
Não fosse o povo continuar a ser povo
e as elites deixarem de ser poder.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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A UE À MARGEM DA “PAZ” QUE FINANCIOU!

Bruxelas reclama lugar nas negociações, mas Moscovo recusa-a como mediadora e Washington já não a consulta

A nação que teme os seus inimigos busca amigos. A nação que confia nos seus amigos perde-se a si mesma. A Ucrânia fez as duas coisas ao esquecer que o que move Bruxelas são interesses alheios.

A União Europeia encontra-se hoje perante uma contradição diplomática de difícil resolução: após a escalada do conflito em 2022, os aliados ocidentais de Kiev romperam laços com Moscovo e adoptaram uma estratégia de isolamento total da Rússia, e agora vê-se excluída das negociações de paz que se desenvolvem sem a sua presença efectiva.

Estão em curso negociações trilaterais com os Estados Unidos, a Federação Russa e a Ucrânia nos Emirados Árabes Unidos, o que coloca em evidência o papel marginal da UE nos esforços diplomáticos para pôr termo à guerra que decorre no seu próprio continente. O Parlamento Europeu reconheceu formalmente que a marginalização da UE destas conversações é uma consequência directa da sua incapacidade de seguir uma estratégia diplomática autónoma, caracterizada pela ausência de iniciativa própria e por uma dependência excessiva de abordagens militarizadas, alinhadas pelos EUA e pela NATO.

Perante este impasse, a Alta Representante da UE, Kaja Kallas, admitiu abertamente que a Europa nunca será um mediador neutro entre a Rússia e a Ucrânia, porque está do lado da Ucrânia e defende os seus próprios interesses de segurança fundamentais. A declaração, ao reconhecer publicamente a perda de neutralidade, terá agravado as perspectivas de Bruxelas participar nas negociações. Moscovo, pela voz do ministro Lavrov, classificou as condições impostas pela UE como “idióticas”, e acusou a União Europeia de praticar “diplomacia de megafone”, emitindo ultimatos públicos em vez de procurar negociações substantivas.

Internamente, a UE debate-se com a questão de quem a poderia representar junto de Moscovo. Kallas alertou que não se deve cair na “armadilha” russa de discutir quem deverá representar a Europa em eventuais negociações, sublinhando que qualquer processo negocial deve ser conduzido como um esforço colectivo. Mas a posição não convence todos os Estados-membros: inteligentemente, o primeiro-ministro português Luís Montenegro voltou a defender que é preciso dialogar com a Rússia para alcançar “uma paz justa e duradoura na Ucrânia” e incentivou a Europa a “tomar a iniciativa” de um processo de paz bilateral (1).

Entretanto, a factura continua a crescer. A população europeia não beneficia em nada desta estratégia e, pior ainda, terá de pagar a conta da guerra, como se vê no apelo de Von der Leyen de 135 mil milhões de euros aos Estados-membros para 2026-27. Sob a administração Trump, os Estados Unidos abandonaram a estratégia de isolamento da Rússia e reposicionaram-se como mediadores do processo de paz, deixando Bruxelas a reivindicar um papel central numa mesa onde, por ora, não tem assento.

A nação que teme os seus inimigos busca amigos. A nação que confia nos seus amigos perde-se a si mesma. A Ucrânia fez as duas coisas ao esquecer que o que move Bruxelas são interesses alheios.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10980

(1) Bruxelas, em questões de geopolítica tem agido contra a Europa, sem conceito próprio, contra a sua posição geográfica, ignorou as intenções dos EUA contra interesses europeus e contra a Rússia depois da quedo da União Soviética. Tem castigado em vão os seus cidadãos, mas o pior ainda é que devido à conivência da sua narrativa com os Media sobre a Ucrânia e a Rússia, tem tirado  a capacidade crítica à generalidade dos seus cidadãos que se comporta como rebanho de um pastor que os leva para a sua venda!  Bruxelas revela-se como tendo abandonado o humanismo cultural europeu e a capacidade diplomática em favor do confronto e do globalismo liberalista, que, no seu dogmatismo, revela ter uma atitude de imperialismo mental!

 

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CONTRA A MUTILAÇÃO GENITAL

Um exemplo criativo de coragem e dignidade

Na revista Kontinente, da organização missionária missio, deparei com uma notícia que merece ser partilhada como exemplo luminoso de humanidade e transformação social.

Entre o povo Samburu, no Quénia, persiste ainda a dolorosa tradição da mutilação genital feminina, rito imposto a muitas meninas antes do casamento e considerado, durante gerações, condição para a entrada na vida adulta. Para milhares de jovens africanas, este costume representa sofrimento físico, trauma psicológico e a perda da própria autonomia sobre o corpo.

Foi neste contexto que surgiu a coragem serena e criativa da Irmã Theresa Nduku. Em vez de afrontar a cultura local com condenações exteriores ou discursos agressivos, procurou transformar a tradição a partir de dentro, respeitando a identidade do povo e oferecendo uma alternativa humana e digna.

A religiosa criou um novo ritual de passagem para a idade adulta. Durante uma semana, as raparigas participam em encontros de formação e reflexão sobre o corpo feminino, a saúde, a dignidade humana, os direitos da mulher, a fé, a cultura e os seus próprios sonhos de vida. Aprende-se ali não apenas a rejeitar a violência, mas sobretudo a descobrir valor, autoestima e liberdade interior.

No final da semana realiza-se uma cerimónia festiva e solene. Os anciãos da comunidade rezam pelas jovens, as famílias participam com orgulho e os pais assumem publicamente o compromisso de não submeter as filhas à mutilação genital. Segundo a Irmã Theresa, “é um momento de alegria e orgulho para todos”.

Este exemplo mostra como a mudança social profunda raramente nasce da humilhação cultural ou da confrontação ideológica. Muitas vezes, nasce da proximidade, da escuta, da educação paciente e do testemunho silencioso de pessoas que dedicam a vida aos outros.

Em muitos lugares esquecidos do mundo, milhares de irmãs, padres e missionários continuam diariamente a salvar vidas, ensinar crianças, cuidar de doentes, defender mulheres vulneráveis e combater práticas desumanas. Fazem-no longe das câmaras, sem protagonismo e, frequentemente, em condições extremamente difíceis mas sempre com dedicação e respeito pelo povo.

Por isso, causa estranheza ver tantas críticas generalizadas e ideológicas dirigidas à Igreja por sectores e grupos que, na prática, raramente assumem presença concreta junto dos mais pobres, dos abandonados e das vítimas de tantas formas de miséria humana.

Histórias como a da Irmã Theresa Nduku recordam-nos que a verdadeira transformação do mundo começa quase sempre em pequenos gestos de coragem, respeito e amor concreto pelas pessoas.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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PESSOAS DA SOMBRA

Andam pelas esquinas da vida
a falar mal da vida alheia.
Esperam ecos,
mas o eco que volta,
é a sua própria sombra projectada,
órfã de corpo,
parindo um vazio.

Tecem do outro, máscaras.
E cada máscara
é um espelho onde não ousam mirar-se.
A dignidade do outro
enxovalham
quem não tem coragem
de experienciar a própria nudez.

Não há luz sem sombra,
ensinam as árvores,
que crescem para os dois lados.
Mas há quem escolha a sombra
como um reino de nada:
destroem para sentir o chão,
reduzem ao pó
porque o pó não as ameaça.

A pessoa digna
não precisa de contrários nem de maus.
Não precisa de plateia-sombra
que aplauda o seu perfil.
Ouso perguntar:
o que quererá revelar de si
quem só sabe dizer mal do outro?
(O maldizer é uma seta que vira
e fere a mão que a lança.)

O Mestre da Galileia
não julgava.
Era presença:
silêncio que não precisa de eco.
E esse silêncio habita
no sacrário do teu peito,
no íntimo onde a existência
deixa de ser fala ou nome
para ser vivência.

(Quem maldiz quer eco, não diálogo.
Quem escolhe a sombra, reino do nada,
não age por maldade, mas por medo.)

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Escrito na Branca nas férias de outono de 2019

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CENTENÁRIO DO GOLPE DE ESTADO QUE INICIA A DITADURA MILITAR EM PORTUGAL

A história não deve ser esquecida, deve ser compreendida

Há 100 anos, a 28 de maio de 1926, Portugal assistia ao golpe militar que pôs fim à Primeira República que se encontrava em estado caótico e deu início a um período ditatorial. Liderado por Gomes da Costa, o movimento começou em Braga e rapidamente se espalhou pelo país, num contexto marcado pela instabilidade política e social da época. O início do período ditatorial deu lugar ao Estado Novo com a Constituição de 1933 resultado de plebiscito nacional e que durou até à Revolução dos Cravos em 1974.

Um século depois, recordar esta data é mais do que fazer uma visita ao passado! É refletir sobre os ciclos da nossa história, sobre as fragilidades da democracia e sobre a importância da memória histórica para não nos deixarmos levar por ideologias oportunistas!

Entre revoluções, regimes e mudanças de rumo, permanece o desafio de construir um país mais consciente, mais livre e politicamente mais maduro.

 

A história não deve ser esquecida, deve ser compreendida.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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