Será possível uma matriz de orientação onde alguém poderá falar ao humano na qualidade de humano sem o reduzir a função, massa ou rebanho?
Na continuação do que escrevi no artigo DA GEOPOLÍTICA À METAFÍSICA DO PODER não estamos apenas perante uma regressão histórica, mas perante uma mutação antropológica regressiva.
A tribalização do nosso tempo não guarda a essência da tribo arcaica. É fenômeno mais grave ainda, ao ponto de consciências atentas e sensíveis se sentirem como viajantes numa estação cultural derradeira. Esta nova agregação tribal carece de cosmologia integrada, não brota da observação paciente do mundo natural, chegando, em seu desvio, a negá-lo, como atesta a sua marcante ausência de feminilidade. E, sobretudo, é estéril: não gera a seiva profunda da sabedoria simbólica, como em teologias, filosofias e literaturas passadas; deste modo reduz a pessoa ao nível do ovino de rosto virado para a relva.
A sociedade tribal que estamos a forjar não é feita de clãs orgânicos, mas de arquipélagos funcionais, artificiais, regidos por algoritmos frios. Tome-se como exemplo certas expressões do fenómeno woke: erguem uma identidade que é pura superfície, sem interioridade colectiva autêntica. É uma militância sem comunhão, uma bandeira sem transcendência, uma tribo de código reducionista, não de sangue, terra ou mito.
Os indivíduos ganham visibilidade em grupos, mas perdem a sua ipseidade (1) e isto é decisivo. Sem singularidade e essência individual própria não há responsabilidade, não há consciência moral e não há liberdade verdadeira.
Historicamente, a antropologia cristã foi o antídoto, afirmando cada pessoa como irrepetível e portadora do divino, anterior a qualquer grupo. E quando este eixo se perde, regressamos não à tribo natural, mas à horda administrada.
Modernidades múltiplas de pluralidade sem fundamento
A ideia de “modernidades múltiplas ou de interculturalismos” poderia ser fecunda se assentasse numa verdade comum (Logos), isto é, numa referência à natureza, e à tradição, numa ética do real e numa conceção do humano como medida (à imagem do protótipo Jesus Cristo).
Em vez disto observamos pluralidade sem verdade, diversidade sem critério e diferença sem orientação. Nesta perspectiva já não há ligação às leis da natureza nem à observação do real.
A cultura deixa de ser cultivo e passa a ser construção arbitrária.
Neste quadro, o cientista Samuel P. Huntington em “O choque de civilizações” apenas descreveu fricções de superfície. O verdadeiro “choque” não é entre civilizações, mas entre visões do humano como ser-com-sentido versus entidade moldável (concepção esta observável nas narrativas dos media na EU em que não interessa apresentar factos mas enquadrá-los numa interpretação funcional pós fática destinada a moldar consciências em função do regime-sistema coisa que já se observa há mais tempo em estados socialistas).
O papel do poder expressa-se em decompor para governar
A decomposição em via especialmente na civilização ocidental não é ingénua ao ser mais agressiva no ocidente onde a consciência da dignidade humana e dos direitos humanos nasceu; a decomposição não é acidental; ela é estrutural e intencional porque o poder contemporâneo não quer indivíduos conscientes, não quer comunidades enraizadas (por isso vem-lhe a jeito a infiltração de guetos muçulmanos) nem quer transcendência operativa na civilização ocidental. O poder contemporâneo fomenta fragmentação, grupos reativos e espiritualidades neutralizadas, pervertendo o espiritual como pedagogia de submissão em vez de libertação. (veja-se o cultivo de práticas budistas, que bem doseadas poderiam servir para o bem-estar dos corpos mas não como alternativas).
Aqui entra a perversão do espiritual como pedagogia de submissão: não para libertar, mas para pacificar.
A questão decisiva: a Igreja católica percebeu o tempo?
É uma questão séria, mas justa: parece que o catolicismo não está a compreender o momento histórico que realmente está a acontecer, ao tratar a crise apenas como uma questão social. Historicamente, a Igreja foi a primeira instituição verdadeiramente global; foi a primeira a afirmar a dignidade universal da pessoa e foi a primeira a colocar limites éticos ao poder.
Hoje a Igreja católica vive uma tensão interna profunda que se poderia explicar com o seu desvio excessivamente pedagógico (oportuno para a época de civilizar os povos bárbaros na europa) mas com a negligência da missão mística e ontológica (explicável para a altura em que com a coroação do imperador Carlos Magno se tratava de colocar os fundamentos para a formação da civilização europeia, começada na era medieval).
De facto, nessa era pedagógica a Igreja empenhou-se sobretudo na sua missão pedagógica estabelecendo-se como educadora moral, mediadora social e como agente humanitário. Tudo isso foi legítimo e oportuno no passado da história europeia, mas tornou-se insuficiente.
A sua missão mais profunda não é ensinar comportamentos, mas defender a estrutura do ser humano enquanto lugar de integração do divino (naturalmente sem perder de vista os biótopos culturais em que está inserida).
Quando a Igreja abdica de falar do ser e se limita ao agir, não responde aos sinais dos tempos que sopram especialmente na Europa e apontam para uma espiritualidade de caracter mais mística. O ponto chave da missão hodierna será complementar o ser com o estar.
O mundo atual absolutiza o estar centrando-se no contexto e na situação; absolutiza o ter com posse e acesso à riqueza e redu-lo a performance no mero funcionar.
A missão própria do cristianismo não é negar isso, mas integrá-lo no ser. Porque para o cristianismo o humano não é meio para a economia, não é meio para a ideologia nem meio para a estabilidade do sistema.
O ser humano é fim em si em estado processual. Não é um fim fechado, mas um ser em caminho, aberto à divinização.
Isto é radicalmente incompatível com qualquer forma de poder totalizante.
Pode o catolicismo oferecer uma matriz globalizante alternativa?
Sim, em potência tem tudo o que é preciso desde que não seja teocrática como é o caso do islão, mas que acentue a ralação humano-divina como se encontra expressa no protótipo Jesus Cristo. Não deve ser moralista nem disciplinadora. A nova era exige dela que acentue mais o aspecto antropológico e ontológico na perspectiva espiritual.
O catolicismo poderia oferecer uma matriz globalizante não opressiva baseada em: Centralidade da pessoa (não do grupo ou função), (acentuando a relação eu-tu-nós, fórmula trinitária na perspetiva inter-relacional e não funcional); consciência como soberania, dado a verdadeira soberania não ser territorial, mas interior; uma transcendência não instrumentalizada porque o espiritual não serve para governar, mas para libertar; pressupõe comunhão sem dissolução da individualidade e que a Verdade surja como horizonte e experiência, não como arma, sem contudo cair no relativismo e no dogmatismo.
Uma tal matriz é profundamente cristã, mas, tal como Jesus Cristo, não confessional no sentido estreito da palavra. Assim seria oferecível à humanidade sem submissão.
O risco e a oportunidade
Aqui, atendendo à estruturas sociais e também de pensamento seria de se meditar sobre a frase de Paulo quando constata “Oh felix culpa” … que implicaria uma abordagem teológica além de antropológica e sociológica.
O risco é claro porque a Igreja poderia tornar-se irrelevante ou cúmplice por omissão.
A oportunidade da Igreja neste tempo histórico é ser a última garante da consciência humana num mundo funcionalizado. Não como poder concorrente, mas como instância de sentido que o poder secular deveria sustentar e implementar.
Conclusão
O que aqui proponho é mais uma reflexão que implica não o regresso ao passado nem tão-pouco uma restauração. Tratar-se-ia de uma transfiguração do papel do catolicismo, menos gestor de moral, menos pedagogo social, mais guardião do humano como lugar do divino num confronto entre antropologia cristã e antropologia tecnopolítica.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
© Pegadas do Tempo
(1) Ipseidade refere-se à qualidade do que é “ele mesmo” ou “em si mesmo”, a singularidade e identidade própria de um ser, a sua característica única que o diferencia dos outros e a consciência dessa individualidade ao longo do tempo. É a percepção de continuidade e pertencimento de si mesmo, fundamental para o senso de identidade pessoal, sendo um conceito central na fenomenologia, explorado por filósofos como Paul Ricoeur e Martin Heidegger. Este conceito baseia-se na visão cristã do ser humano ao mesmo tempo como corpo e alma, como matéria e divino (filho). Daí o conceito de pessoa com o ser soberano a nível de consciência e de agente social e institucional.