CELEBRAÇÃO DO 25 DE ABRIL ENTRE FESTA DA NAÇÃO E DISPUTA IDEOLÓGICA

A marca deixada pela transição das antigas províncias ultramarinas para a esfera de influência soviética e norte-americana

A celebração do 25 de Abril de 1974 reside numa encruzilhada de memórias, interesses políticos e identidades culturais. Longe de ser um evento monolítico, a comemoração da Revolução dos Cravos continua a ser um campo de batalha simbólico onde se confrontam, por um lado, a aspiração a uma festa de afirmação nacional e, por outro, a instrumentalização do evento para fins partidários imediatos. Uma análise da gênese e do estado atual das comemorações, suportada por dados históricos objetivos, permite evidenciar as virtudes e as contradições inerentes à forma como Portugal celebra a sua democracia. O 25 de Abril situa-se numa zona de tensão permanente entre celebração nacional, memória traumática e instrumentalização ideológica. O busílis da questão estará na expressão equilibrada dessa tensão para o desenvolvimento de uma sociedade mais lúcida sem apropriações de esquerda ou de direita.

A Política do Simbolismo entre Celebração Nacional e Festa de Partidos

Do ponto de vista da ciência política, a apropriação de datas fundadoras é uma prática comum nos regimes democráticos, mas a análise empírica do caso português revela uma acentuada assimetria. O 25 de Abril proporcionou a Portugal a conquista da liberdade democrática, mas os padrões de festejo atuais demonstram uma rutura perigosa: a diferença no tratamento do evento entre as forças de esquerda e as de direita.

De acordo com um levantamento exaustivo sobre as comemorações autárquicas de 2026, os programas tendem a ser mais extensos e culturais nos municípios liderados pela esquerda, enquanto nas câmaras da direita se observa um maior peso institucional e cerimonial, relegando frequentemente a data para o mero protocolo. Esta dicotomia evidencia que Abril deixou de ser um contrato social assente na palavra liberdade, transformando-se num trunfo ideológico mobilizado de forma assimétrica. A esquerda, sentindo-se detentora da memória revolucionária socialista, promove uma festa de rua que reforça a sua narrativa fundadora; parte da direita, por seu turno, tende a reduzir a data ao formalismo, como forma de sublimar o incómodo histórico de uma revolução que a desalojou do poder e a obrigou a adaptar-se ao novo regime.

Contudo, o discurso político oficial tende a ser vazio, autoreferencial e celebratório tendendo a simplificar o processo histórico. (A revolução não foi apenas um momento de libertação, mas também o início de um período de instabilidade profunda, o Processo Revolucionário em Curso, marcado por confrontos ideológicos intensos e por uma persistente tentativa, em certos sectores, de reconfigurar o país segundo modelos revolucionários inspirados no marxismo, de que é sombra o prólogo da Constituição que ainda considera o socialismo como meta e não como sociedade livre e aberta). Os apelos do Presidente da República para que as evocações desta data sejam “mais doação do que proclamação” e “mais futuro do que passado” são um sintoma de cansaço relativamente à liturgia repetitiva que domina a Assembleia da República. A festa, nestes moldes, serve mais os partidos que a nação, pois perpetua uma divisão ideológica que impede o alargamento da celebração a toda a sociedade portuguesa.

A Complexidade Da Memória: A Dor dos Retornados e a Guerra do Ultramar

A fragilidade da narrativa oficial do 25 de Abril reside na sua tendência para silenciar as memórias dissonantes. A aclamação da liberdade referenciada a um Abril só florido, se não for contextualizada, corre o risco de ser mal contada e de diluir os erros e a dor daqueles que foram vítimas da transição. A análise demográfica e sociológica revela que, entre 1974 e 1976, Portugal recebeu cerca de 500 a 700 mil cidadãos portugueses vindos das ex-colónias africanas durante o turbulento Processo Revolucionário em Curso (PREC).

Estes “retornados” eram, na sua maioria, cidadãos que nasceram em África mas eram juridicamente portugueses, muitos com várias gerações de família no território ultramarino. A sua chegada a um país continental com apenas 10 milhões de habitantes correspondeu a um aumento demográfico superior a 5% da população residente, o maior movimento migratório forçado da história contemporânea portuguesa, com elevadíssimos níveis de pobreza e desintegração social. A integração destas pessoas, bem como a dos militares que combateram no Ultramar, foi marcada por fricção identitária e por uma não integração do retorno na memória coletiva nacional.

Neste sentido, uma celebração da liberdade que apenas exalta a queda do regime, mas omite erros e o drama dos soldados e dos civis desalojados pela descolonização é uma celebração truncada. A liberdade genuína exige que se reconheça o custo humano do império e da sua brusca dissolução ao  serviço de uma ideologia extrema que influenciou o equilíbrio geopolítico a favor das duas potências mundiais da altura.

A Geopolítica da Descolonização entre a Ideologia Nacional e o Jogo das Superpotências

A análise crítica negativa centra-se aqui na natureza diletante e apressada da descolonização portuguesa. A historiografia atual confirma que o processo de descolonização não foi apenas um acto de justiça ou de cumprimento da Carta da ONU, mas sobretudo um tabuleiro de xadrez da Guerra Fria. O PREC foi o período de instabilidade e luta pelo poder entre facções de esquerda, que resultou em mais de um ano de incerteza económica, social e institucional.

A realidade geopolitica é que as antigas colónias (Angola e Moçambique) foram atiradas para guerras civis devastadoras que duraram décadas, nas quais a União Soviética e os Estados Unidos intervieram para apoiar movimentos satélites, em detrimento dos interesses das populações locais, dos portugueses que ali residiam e em prejuízo dos interesses de Portugal e de independências sem hegemonias partidárias. A independência das colónias não trouxe a paz imediata; pelo contrário, o fim do império em 1975 gerou uma redefinição forçada das fronteiras e da identidade da nação, sem que houvesse um plano estruturado para mitigar os efeitos sociais e económicos.

Contudo, uma análise positiva, partindo do mesmo facto, destaca a resiliência do país. A despeito da geringonça ideológica do PREC, o pequeno Portugal conseguiu integrar meio milhão de cidadãos, remodelando a sua estrutura social, educativa e empresarial com os quadros qualificados que chegaram de África. O caos da descolonização gerou o mérito excecional da reintegração.

O novo regime critica mas reproduz

Um dos pontos mais contestadores reside na ideia de que o sistema político emergente do 25 de Abril, ao afirmar-se ideologicamente, pode ter reproduzido, ainda que sob formas diferentes, certas lógicas de exclusão e imposição que atribuía ao regime anterior. Não se trata de uma equivalência direta, mas de um alerta: qualquer sistema que se torne excessivamente dogmático corre o risco de limitar a pluralidade que diz defender.

Para uma Celebração da Criatividade e da Unidade

A resolução que evitaria o confronto narrativo seria a transição para uma festa da vida, das regiões e da liberdade criativa. Uma celebração mais inclusiva poderia enfatizar dimensões culturais, regionais e humanas em vez de privilegiar a interpretação política dominante. A liberdade, afinal, não é monopólio de uma ideologia; é um valor plural, vivido de formas distintas por diferentes cidadãos. Esta visão parece encontrar eco na realidade actual; apesar das clivagens políticas, multiplicam-se as iniciativas culturais, desportivas e artísticas de base local desde quando não peadas pelo carácter celebratório. É confortável observar-se que em diversas escolas há uma movimentação de associações, escolas, coletividades e grupos culturais que exploram Abril como celebração da vida, utilizando o teatro, a música e a literatura como veículos de coesão social, para além da dialética esquerda-direita.

Resumindo

O 25 de Abril não pode ser, nem deve ser, território exclusivo de uma ideologia que dê a impressão que a identidade portuguesa se reduz à liberdade de Abril. Reduzir a festa a um desfile de partidos seria perpetuar as feridas do PREC e esquecer a nação e os retornados. A verdadeira celebração da liberdade só será plena quando conseguir integrar o méridto, os erros e a dor de Abril num verdadeiro património da Nação. A sua celebração ganha profundidade quando incorpora a complexidade: a libertação e a dor, a esperança e a perda, o consenso e o conflito. Só assim poderá deixar de ser apenas um símbolo ideológico e tornar-se, plenamente, um espaço de encontro entre diferentes memórias e visões do país

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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25 DE ABRIL EM CAMPANHA NACIONAL

Vive o partido em campanha sem fim,
palco de sombras num teatro vão;
o povo é plateia, ou antes, refrão,
e o Estado, cenário que serve o fim.

No 25 de Abril, de luz muito ténue,
há gritos, flores, fardas de poeira.
Parece a Mocidade a tarde inteira,
mas cada qual mais hábil se abranda.

E ninguém vê além? O sistema, esperto,
filtra o olhar com gaza de discurso.
E a classe que podia mudar seu curso
vive melhor na impostura do certo.

O povo lê a mesma cartilha, errado,
e aplaude o gesto, crê no que já viu.
O pensamento dói? Mas é melhor,
ficar na mediania, lado a lado.

A propaganda infecta tudo, infecta
o voto, a rua, a pátria, o coração.
Não há remédio porque somos a prisão
e o carcereiro. A vontade está afecta.

Desdenha-se do outro, fala-se mal.
O desacordo é o pão de cada um.
O partido, por gosto ou por algum
destino, vive do caos vertical.

E o Estado, pobre administrador
da mesma miséria que o mantém,
regando o mal que de si mesmo vem,
faz da inércia o seu melhor labor.

Medíocres, sim, porque pensar exige
mudança e dor, mas quem deseja a dor?
Faz de conta que amamos o Senhor
mas o Senhor é o mesmo que nos aflige.

Hipocrisia em verso e argumento.
E ainda há quem viva melhor, sem consenso.
O resto é canto, é pó, é tempo imenso
num palco onde ninguém sai do centro.

A ironia, meu povo, é esta lúcida:
todos no mesmo barco, a olhar de lado,
a ver o naufragar perpetuado
e a chamar-lhe Democracia plácida.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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ENQUANTO A EUROPA PERDE O PASSO A CHINA ACELERA

Passar do espartilho da figura para a eficácia do serviço ao povo

  1. O diagnóstico da paralisia europeia em contraste com o passado

A Europa encontra-se, nesta fase da história, numa posição paradoxal: nunca acumulou tantos recursos de conhecimento, nunca discursou tanto sobre o futuro e nunca esteve tão emperrada. O que outrora foi ponta de lança das civilizações, do método científico ao Estado de direito, da Revolução Industrial à integração pós-nacional, reduz-se hoje a um continente que marca passo, tropeçando até nas suas próprias instituições.

O problema não é de conteúdos. Muitos dos valores e princípios que a Europa produziu continuam válidos: a separação de poderes, a liberdade de investigação, a protecção social, o humanismo crítico. A questão está na linguagem e na forma de os tornar operativos. A linguagem tornou-se antiquada quando tenta evocar um passado glorioso sem o traduzir para os desafios presentes; e tornou-se verborreica quando se refugia em jargão sociopolítico, “Defesa dos valores”, “transição justa”, “soberania estratégica”, “resiliência”, que funciona menos como conceito operacional e mais como analgésico discursivo para um povo distraído. O resultado é uma cultura política que confunde intensidade declamatória com acção.

  1. A lição incómoda da China

Criticámos a China de maneira sobranceira, muitas vezes com razão, especialmente no que toca ao controlo comunista, à ausência de um cidadão soberano no sentido ocidental e à repressão sistemática de liberdades fundamentais. Essa crítica sobranceira impediu-nos de ver o óbvio: a China passou-nos a perna em sectores decisivos da ciência e da técnica, sobretudo nas tecnologias limpas.

O caso do automóvel eléctrico é exemplar. A indústria europeia, protegida durante décadas por um status quo confortável de motores de combustão, foi apanhada em contrapé. Enquanto o debate europeu se consumia em quotas de emissões e calendários de proibição, a China produzia, escalava e baixava preços. Hoje, oferece ao seu cidadão comum um veículo eléctrico acessível, não por caridade, mas por planeamento industrial agressivo, economias de escala e uma lógica que a Europa esqueceu: a de que a inovação sem penetração de mercado é mero exercício académico.

As pessoas e isto é um facto empírico, não um juízo moral, querem comer e viver bem. Não olham com rigor a quem as obriga, desde que as necessidades primárias estejam satisfeitas e haja perspectiva de melhoria. Este realismo elementar, que Maquiavel já entendia, continua a escapar às elites europeias, demasiado ocupadas a gerir a sua própria virtude sinalizadora.

  1. A hipocrisia do controlo velado e dos discursos vazios

A Europa sempre se prezou dos seus valores humanistas e do seu pioneirismo. Mas, paradoxalmente, nunca exerceu tanto controlo sobre as populações como hoje; fá-lo de maneira mais sofisticada e aparentemente democrática. Onde a China usa um partido único e uma arquitectura explícita de vigilância, a Europa usa regulamentação assimétrica, algoritmos de pontuação social disfarçados de “análise de risco”, condicionalidades de fundos europeus que moldam comportamentos, e uma correcção política que actua como censura difusa, sem necessidade de decretos.

A diferença não é de essência, mas de estilo. O Ocidente aproxima-se perigosamente do sistema que critica, a nível de controlo e influência da consciência social. A diferença é que o faz de maneira velada e hipócrita, de maneira a que a maioria das populações não se dê conta, porque as suas necessidades primárias encontram satisfação. O cidadão europeu médio, entretido com o acesso ao crédito, à saúde e à conectividade digital, não percebe que o seu espaço de dissentimento se estreitou tanto como o do chinês, apenas com verniz procedimental.

  1. A economia política dos preços altos

Há uma verdade incómoda que raramente se enuncia: na Europa, quem conta primeiro a nível de empreendimentos são as grandes empresas. O Estado e os seus governantes não estão interessados em preços baixos para o povo, porque quanto mais caros são os produtos, mais o Estado ganha à custa do povo que paga (IVA, impostos especiais de consumo, contribuições sociais embutidas nos preços). O sistema fiscal europeu é progressivo na retórica, mas profundamente regressivo na prática quando sobrecarrega o consumo de bens essenciais e de transição energética.

A China, inversamente, usa o seu controlo estatal para forçar preços baixos em sectores estratégicos, mesmo à custa de margens e de concorrência predatória externa. O resultado é que o cidadão chinês médio acede a tecnologias limpas, telecomunicações e infraestrutura a custos que o europeu considera irrealistas. Enquanto a Europa impõe tarifas “anti-dumping” ou regulações ambientais que funcionam como barreiras não pautais, está na realidade a proteger não o trabalhador, mas a ineficiência instalada e a captura de renda pelas grandes empresas que considera relevantes para o Estado.

  1. O futuro: aprender uns com os outros sem dogmas

A tese final é simples e incómoda para ambos os lados: a China tem muito a aprender com a Europa em matéria de soberania do cidadão, de garantias processuais e de pluralismo. Mas a Europa tem muito a aprender com a China em matéria de eficácia executiva, de visão industrial de longo prazo e de coragem para subordinar interesses instalados ao bem-estar material da população.

O futuro em que todos aprendem uns dos outros não é um futuro sem conflitos, é um futuro sem posições dogmáticas. O dogma ocidental de que a democracia liberal é condição sine qua non para o desenvolvimento tecnológico está factualmente errado: a China desmentiu-o. O dogma chinês de que o controlo partidário é compatível com a inovação sustentada a longo prazo também enfrenta os seus limites, na demografia, na criatividade reprimida, na fuga de cérebros.

A política não deve emperrar as relações económico-comerciais entre os povos, não por idealismo cosmopolita, mas por realismo: porque só assim se serve o povo. E servir o povo significa entregar resultados mensuráveis: poder de compra, esperança de vida, mobilidade social, acesso a tecnologia, liberdade efectiva de escolha. Qualquer sistema que se meça apenas pela pureza dos seus princípios, e não pelos seus efeitos, está condenado à irrelevância ou à hipocrisia.

A Europa ainda pode reivindicar o seu lugar como ponta de lança. Para isso, a elite europeia terá de abandonar a verborreia, baixar a sobranceria, e enfrentar uma verdade desconfortável: já não é ela só a ensinar; também ela tem de aprender. E aprender, para uma civilização que se quer humanista, é o acto mais humilde e mais forte porque passa a caminhar com o povo sem perder a bússola da mão.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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MEDITAÇÃO DO H₂O

Onde a Água chama pelo Calor e o Homem suspira pelo Amor

Não é nas abóbadas de pedra que o Infinito se deixa tocar. A abóbada é um obra cultural natural, uma expressão da comunidade que tenta guardar o fogo em ânforas de barro e isso é bom, porque o ser humano precisa de ritos como a videira precisa de latada. Mas o templo sem muro é o coração quando desarma as suas defesas e permite que a ferida sangre e respire na realidade do nós. Nesse lugar, Deus não é um conceito nem uma causa eficiente; é o próprio acto de ser amado e de amar, numa dança que confunde as estações: Pai, Mãe, Filho, são três respirações de um só pulmão (1).

A razão cartesiana quer dissecar o mistério como se ele fosse um relógio. Mas o reino não é um mecanismo; é uma semente que só germina no solo da vivência. Jesus não se equaciona numa tabela histórica porque ele é o instante em que o tempo se curva para beijar a eternidade. Quem o reduz a um dado arqueológico perde a sua sede. E quem o transforma em bandeira de partido ou em trincheira militar confunde o rosto com a máscara.

Olhemos para a água: ela aceita ser gelo para sustentar o inverno; aceita ser rio para servir a planície; aceita ser vapor para vestir o céu. A água, em cada mudança, continua a ser H₂O , uma essência que se disfarça de três corpos. O calor que desencadeia essa metamorfose não é uma temperatura; é uma metáfora do amor que desaba sobre o sólido do medo, o dissolve em lágrimas de compaixão e depois o eleva a uma leveza que tudo perdoa.

Assim é o percurso espiritual; ele passa do dogma à dúvida, da dúvida à confiança, da confiança ao abandono nos braços que nunca julgam. Os templos exteriores, os gestos litúrgicos, as instituições são as margens que protegem o rio de se perder no deserto. Porém, o rio não é as margens e quando a enchente chega, é o coração que transborda, não as pedras.

Por isso, não temamos o paradoxo: Deus é Pai-Mãe-Filho, a água é sólido-líquido-gás, o amor é lei e transgressão. Resta-nos viver e compreender, analisar para ficarmos com o invólucro vazio. O que serve, no fim, é a sede que nos fez procurar e a fonte que sempre esteve dentro de nós, batendo como um segundo coração (2).

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

© Pegadas do Tempo

 

  1. A mística medieval refere frequentemente: “Deus está mais perto de nós do que a nossa própria alma, pois Ele é o próprio fôlego que a sustenta”.
  2. Santo Agostinho no seu livro Confissões resume: “… o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti”. Isto corresponde à expressão da alma que busca a sua origem e fim. A frase sintetiza a condição humana à luz da fé.
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MANUAL DE INSTRUÇÕES PARA UMA SOCIEDADE QUE PERDEU O MANUAL

Humor Antropoginelógico

Há épocas em que a humanidade avança e há outras em que, com grande convicção científica, troca os mapas pelo GPS e depois culpa o satélite quando acaba no meio da floresta.

Vivemos, como se vê, num tempo de desconstrução. Desconstrói-se o pai, a mãe, a autoridade, a ética, o sentido e, se sobrar tempo, reconstrói-se tudo com instruções do tipo IKEA emocional: peça A (identidade), encaixar na peça B (função), ignorar parafusos (afeto). No final, falta sempre uma peça. Curiosamente, é sempre a que sustentava a mesa.

Eu proponho, com a devida modéstia e alguma irresponsabilidade científica, um conceito mais moderno: a matriz antropoginelógica. Não é doença, ainda não tem código internacional, e provavelmente não será financiada por nenhum ministério. Mas soa suficientemente complexa para ninguém a contestar de imediato.

A ideia é simples: o ser humano não é um manual técnico, nem um algoritmo com mau humor. É um ser dialógico e, como tal, é conflito em potência e dança entre aquilo que quer e aquilo que pode. Afirma-se entre o impulso e o limite, entre o “eu quero agora” e o “talvez não seja boa ideia”.

Tradicionalmente, e aqui entra a parte em que metade dos leitores começa a tossir, chamámos a isso masculinidade e feminilidade. Não como caricaturas biológicas, mas como funções simbólicas: estrutura e relação, limite e acolhimento, forma e conteúdo. Como café e chá. Ambos líquidos, ambos quentes, mas experimente trocar um pelo outro às sete da manhã e verá o que acontece à civilização.

Mas hoje preferimos outra abordagem: a funcional. Tudo é função. Tudo é papel. Tudo é substituível. O pai? Uma função. A mãe? Outra função. A criança? Um projeto em curso. E o ser humano? Um PowerPoint mal formatado.

O problema é que, quando tudo é função, ninguém assume responsabilidade. Porque função não sente culpa. Função não ama. Função não sofre. Função executa. E quando a função falha… abre-se um novo grupo de trabalho.

A isto junta-se a política do pensamento correto, que é correto sobretudo porque não admite discussão. E então, para evitar conflitos, eliminam-se símbolos. O pai torna-se suspeito. A mãe, um conceito em revisão. A autoridade, um abuso em potencial. E o resultado? Uma sociedade profundamente educada… e estranhamente ansiosa.

E isto porque o ser humano precisa de conflito simbólico para crescer. Precisa de uma figura que diga “não” sem pedir desculpa por existir. Precisa de outra que diga “sim” sem exigir um relatório de produtividade emocional. Precisa de tensão para gerar consciência.

Sem isso, o que surge não é liberdade, é desorientação com autoestima.

E então aparecem os novos arquétipos: não o pai autoritário, nem a mãe protetora, mas o algoritmo compreensivo que até se pode revelar como o melhor psicólogo. Este nunca julga, nunca exige, nunca contradiz. Apenas sugere. E aprende consigo, o que é uma forma elegante de dizer que o substitui lentamente.

Estamos a criar, com grande entusiasmo progressista, um superego que não proíbe… mas vigia, que não orienta… mas classifica, que não educa… mas recomenda conteúdos semelhantes.

E no meio disto tudo, surge uma nova figura sociológica fascinante: o homem soft. Não é masculino nem feminino, é editável e adaptável. É um ser que evita conflito como quem evita glúten. Que prefere não ter opinião para não correr o risco de ter de defendê-la.

Mas atenção: isto não é emancipação; é desorientação bem vestida.

Porque a verdadeira emancipação não elimina tensões, integra-as. Não destrói símbolos, transforma-os. Não ridiculariza o que veio antes, compreende-o e acrescenta-o.

A masculinidade, no seu melhor, não é dominação; é estrutura. A feminilidade, no seu melhor, não é submissão; é relação. E entre ambas nasce algo raro hoje em dia e que se chamaria consciência com coluna vertebral.

Sem isso, temos uma sociedade muito sensível… mas incapaz de decidir; muito inclusiva… mas sem critérios e muito livre… mas sem direção.

E talvez, no fim, o mais irónico seja que, ao tentar libertar o ser humano de todas as estruturas, criámos a estrutura mais rígida de todas, aquela que não pode ser questionada.

Por isso, talvez valha a pena reconsiderar.

Não para regressar ao passado, mas para recuperar aquilo que o passado sabia e que o presente esqueceu com grande convicção: que o ser humano não se constrói por eliminação… mas por integração.

E que, no fundo, uma boa sociedade é como um bom cabaret: tem humor, tem conflito… e ninguém sai exatamente igual ao que entrou.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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