O Indivíduo na Sociedade e a Sociedade no Indivíduo: Ninguém se pensa sozinho
A relação entre o indivíduo e a sociedade é marcada por uma tensão constitutiva, isto é, o ser humano é simultaneamente sujeito singular e realidade relacional (sujeito social). Não existe um “eu” puro fora do “nós”, nem um “nós” abstrato que dispense a interioridade pessoal.
Para tornar visível esta tensão e a sua fecundidade, recorro a duas figuras paradigmáticas do século XX e uma do século XIV: Rainer Maria Rilke, poeta da interioridade e do devir existencial, Dietrich Bonhoeffer, teólogo da responsabilidade comunitária e da ação histórica e Nuno Álvares Pereira, estratega militar português (1) que pode figurar como configuração exemplar e integradora dos dois.
Ambos recusam soluções fáceis. Ambos pensam o humano como processo. Mas situam-se em polos diferentes dessa mesma tensão.
Rilke e a primazia da interioridade vivida
Rilke escreve: «Não procures agora as respostas que não te podem ser dadas, porque não as podes viver. Trata-se de viver tudo. Vive agora as perguntas. Talvez então, sem te aperceberes, um dia vivas gradualmente a resposta.»
E ainda: «Nunca se deve desesperar quando se perde algo, uma pessoa, uma alegria, uma felicidade; tudo volta ainda mais maravilhoso.»
Estas palavras condensam o núcleo do pensamento rilkeano expresso na vida como processo de maturação interior, em que o sentido não é imposto de fora, mas emerge da experiência vivida. A verdade não é um objeto a possuir, mas um acontecimento a atravessar. Esta atitude exige paciência, abertura à incerteza e confiança na potência transformadora do tempo vivido.
Rilke insere-se na tradição existencialista e na filosofia da vida, onde a autenticidade da experiência interior se torna critério supremo. “Viver as perguntas” significa aceitar que o sentido não se revela de modo abstrato ou imediato, mas se encarna lentamente na biografia. A promessa de um “retorno mais maravilhoso” não é um mecanismo de compensação moral, mas a afirmação de que a perda pode transfigurar-se em profundidade.
Enquanto ética pessoal, esta atitude é de grande valor porque protege contra o desespero imediato; resiste à compulsão de respostas rápidas e oferece um antídoto contra o ativismo ansioso e superficial.
No entanto, esta ética pessoal não é suficiente.
A sociedade que habita o indivíduo limita a interioridade isolada
Uma crítica legítima ao pensamento de Rilke é a sua radical subjetividade. O foco quase exclusivo na interioridade corre o risco de obscurecer uma dimensão fundamental da existência: a sociedade vive no indivíduo e ao mesmo tempo o indivíduo vive na sociedade.
As nossas perguntas não nascem num vazio. Elas são moldadas por estruturas económicas e políticas, pela linguagem e sistemas simbólicos, pelas relações de poder, por traumas coletivos, por memórias históricas e tradições culturais e pela saudade do espiritual.
A pergunta decisiva que Rilke não formula é: quem pode, de facto, “viver as perguntas”?
Para um sujeito em situação de precariedade extrema, violência estrutural ou trauma social, a confiança num “retorno mais glorioso” pode soar não a sabedoria, mas a cinismo involuntário. Há sofrimentos que não se resolvem apenas por trabalho interior, porque não são apenas interiores.
Aqui surge uma lacuna que também se fez sentir historicamente na teologia cristã, sobretudo quando esta privilegiou excessivamente a antropologia moral em detrimento da sociologia e da política. Ao focar-se no indivíduo abstrato, descuidou o homo politicus, o ser humano enquanto nó de redes informacionais, culturais e institucionais.
O ser humano não é apenas espírito e consciência, ele é também informação genética, informação cultural e informação processual. Forma-se em ecossistemas simbólicos, narrativos e tecnológicos. A sua opinião, identidade e ação emergem de processos coletivos, hoje amplificados por sistemas algorítmicos e mediáticos, um aspeto que a inteligência artificial torna particularmente visível.
Sem instituições, sem memória coletiva e sem tradição, o ser humano não se torna mais livre: regressa a um estado de imediatismo instintivo, vivendo num presente sem profundidade temporal. Rilke rejeitou dogmas e instituições, com razão em certos contextos, mas sem alguma forma de institucionalização simbólica, não há cultura, nem futuro, nem responsabilidade histórica.
Assim, as palavras de Rilke não são falsas, mas são incompletas.
Bonhoeffer: da interioridade à responsabilidade histórica
É aqui que o pensamento de Dietrich Bonhoeffer se torna decisivo. Ele escreve: «A glória final não é que o mundo seja julgado e condenado, mas que Cristo, através da sua cruz, que é também a cruz da comunidade, perdoe o mundo e faça a paz.»
À primeira vista, esta afirmação pode parecer resignada. Mas essa leitura dissolve-se quando se considera o contexto existencial de Bonhoeffer.
Ele não escreveu a partir de uma torre de marfim espiritual, nem a partir do espírito do tempo, mas do interior da resistência ativa ao regime nazi, pagando com a própria vida. A sua teologia nasce no limite, onde pensar e agir coincidem.
A “cruz da comunidade” não é símbolo de passividade, mas de solidariedade ativa. A comunidade cristã não existe para julgar o mundo a partir de uma suposta superioridade moral, mas para assumir o peso do mundo, criando espaço real para reconciliação, justiça e paz.
Paz como ação criadora, não como capitulação
Para Bonhoeffer, “promover a paz” (eirēnopoiein) é uma tarefa profundamente ativa. Não significa evitar conflitos, mas romper o ciclo da violência, da vingança e da humilhação moral. O pacificador não é neutro: ele paga o preço da reconciliação.
A sua crítica à “graça barata” é aqui central. Uma espiritualidade que se refugia no interior ou se limita a julgamentos piedosos é uma traição ao real e à própria filosofia e mística cristã. A graça é cara porque exige responsabilidade histórica, intervenção concreta e risco pessoal.
A aparente renúncia ao juízo condenatório não é fraqueza política, mas uma estratégia ética radical em que o objetivo não é destruir o adversário, mas restaurar a comunidade, o “shalom”, mesmo quando isso exige decisões duras, como a própria participação de Bonhoeffer na resistência conspirativa contra Hitler.
Rilke e Bonhoeffer são duas faces de um mesmo processo humano
Rilke e Bonhoeffer não se opõem; complementam-se.
Rilke recorda-nos que sem interioridade não há autenticidade, apenas adaptação funcional.
Bonhoeffer lembra-nos que sem responsabilidade social a interioridade degenera em narcisismo espiritual.
Rilke trabalha o tempo interior da maturação e Bonhoeffer assume o tempo histórico da decisão.
Ambos rejeitam respostas fáceis e confiam em processos transformadores. Mas em Bonhoeffer esses processos são explicitamente orientados para a mudança social, para a justiça encarnada, para a paz construída, algo que contrasta fortemente com a política contemporânea, dominada pela lógica da polarização, da humilhação do adversário e da vitória simbólica.
Rilke à luz de Nuno Álvares Pereira como interioridade encarnada
Para que o pensamento de Rilke não permaneça suspenso numa interioridade sem corpo histórico, é fecundo colocá-lo em diálogo com uma espiritualidade que soube viver as perguntas no meio do conflito real. Aqui, a figura de São Nuno de Santa Maria (Nuno Álvares Pereira) revela-se exemplar.
São Nuno viveu numa sociedade marcada por oposições extremas: guerra e paz, fidelidade nacional e universalidade cristã, poder militar e despojamento espiritual. Foi estratega, condestável, combatente decisivo na consolidação da independência portuguesa e, no entanto, o seu maior combate não se deu no campo de batalha exterior, mas no interior de si mesmo. A sua vida mostra que a verdadeira tensão formadora não é apenas entre o eu e a sociedade, mas entre o eu e o próprio ego.
Se Rilke nos convida a “viver as perguntas”, São Nuno mostra como fazê-lo quando a vida não permite retirada, quando a decisão é urgente e o sofrimento coletivo é real. Ele não fugiu do mundo para se tornar santo; tornou-se santo atravessando o mundo, transfigurando por dentro aquilo que por fora parecia apenas violência, ambição ou identidade nacional.
O seu nacionalismo não se absolutizou: purificou-se.
A coragem militar não se cristalizou em orgulho: transformou-se em fé.
A lealdade ao rei e à pátria não degenerou em exclusão: amadureceu em caridade universal.
Neste sentido, o “Santo Condestável” realiza aquilo que em Rilke permanece sobretudo como potencial: a integração entre trabalho interior e responsabilidade histórica. A sua espiritualidade não é uma negação da identidade, mas uma metamorfose dela. Ele não destrói o “eu”; em vez disso, converte-o. O egoísmo, a indiferença e a autossuficiência, inimigos silenciosos mais perigosos do que qualquer exército, são combatidos diariamente, até que neles floresça uma humanidade mais ampla e reconciliada. Isto é o que não se encontra nos políticos hodiernos e por isso a falta de humanismo, de coerência e de lógica política.
Diferentemente de uma espiritualidade puramente intimista, São Nuno mostra que o crescimento interior não afasta do mundo, mas aprofunda a forma de estar nele. A sua passagem da espada ao hábito carmelita não foi uma fuga tardia, mas a consumação lógica de um caminho interior já vivido em plena ação. Ele prova que a santidade não é incompatível com a política, nem a fé com a lucidez histórica, desde que o centro da luta seja deslocado do inimigo exterior para a conversão do coração.
Com Nuno Álvares Pereira, Rilke ganha realismo caminhável porque a “vida das perguntas” deixa de ser apenas uma ética da paciência interior e torna-se uma pedagogia da transformação do desejo, onde o sentido não é apenas esperado, mas incarnado em gestos, escolhas e renúncias concretas. São Nuno é, assim, a resposta viva à crítica sociológica feita a Rilke: ele mostra que é possível viver as perguntas sem ignorar o sofrimento coletivo, e crescer interiormente sem abandonar a responsabilidade pelo destino comum.
Com Nuo Álvares Pereira compreende-se que a tensão entre o eu e o nós, entre o privado e o público, entre o sagrado e o profano, não é um problema a eliminar, mas é o lugar onde o Homem se forma, porque a identidade nasce da tensão, não da fuga. (Da ipseidade, identidade própria e simultaneamente do reconhecimento de que a sociedade habita em nós).
O desafio contemporâneo não é escolher entre interioridade ou ação, mas integrá-las (Nuno torna-se exemplo de identidade, tensão e encarnação).
Viver as perguntas, sim, mas também assumir a responsabilidade pelas respostas que se tornam possíveis no mundo comum.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
Nota explicativa
A presente reflexão insere-se num diálogo entre duas coordenadas do pensamento moderno que ao serem integradas na pessoa humana e na sociedade de que é exemplo Nuno Álvares Pereira contribuem para uma sociedade com futuro qualitativo: a poética da interioridade e da singularidade existencial de Rainer Maria Rilke e a teologia da responsabilidade concreta e do compromisso social de Dietrich Bonhoeffer. Estas perspetivas, aparentemente antitéticas, uma voltada para a profundidade do eu e a outra para a exigência do outro, são convocadas aqui como lentes para reler a figura histórica e paradigmática de Nuno Álvares Pereira.
A opção por este diálogo justifica-se pela convicção de que a grandeza humana plena reside precisamente na capacidade de integrar estes dois polos. Rilke, cantor da “solidão essencial” e da necessidade de “guardar-se no próprio íntimo”, representa a imperativa jornada de autenticidade individual, o cultivo de uma interioridade forte e consciente para que já os místicos sempre apontavam com base num substrato espiritual. Bonhoeffer, mártir da resistência ao totalitarismo, advoga uma “graça custosa” que se materializa em ação no mundo, numa “responsabilidade para com a história” que exige empenho, decisão e risco em prol da comunidade.
Nuno Álvares Pereira emerge, nesta triangulação, como a figura histórica portuguesa que corporiza de forma quase arquetípica a síntese destas duas dimensões. A sua trajetória revela, primeiro, uma interioridade rilkeana de granítico propósito e convicção íntima: a sua fé, o seu sentido de destino, a sua resolução inquebrantável perante a dúvida alheia nas vésperas de Aljubarrota falam de um homem que escutou os ventos que vêm do Alto e se fortaleceu numa certeza interior. Contudo, essa força interior não se recolheu num misticismo passivo. Pelo contrário, projetou-se numa ação bonhoefferiana de decisão extrema e responsabilidade social e política. Assumiu o peso da história no momento crítico, colocou o seu génio militar e a sua autoridade moral ao serviço de uma causa coletiva, a independência e a coesão do reino, aceitando o custo e o sangue dessa responsabilidade.
Deste modo, o Condestável não é apenas o herói militar ou o santo religioso da narrativa tradicional. Ele torna-se o emblema da integração entre a fortaleza da alma (Rilke) e a audácia de garra (Bonhoeffer). A sua vida posterior, de renúncia aos títulos e entrega aos pobres no Convento do Carmo, consuma este percurso: a interioridade levou-o ao desapego, e o sentido de responsabilidade redirecionou-se para o serviço humilde.
O empenho que guia esta e outras minhas reflexões é, precisamente, levar o leitor a pensar por si próprio, mas fazendo-o a partir de um cruzamento de saberes, uma visão enciclopédica que confronta filosofia, teologia, história e literatura. Acredita-se que é neste território de diálogo transdisciplinar que o pensamento se liberta de caminhos únicos e descobre as conexões profundas que tecem a experiência humana, encontrando em figuras como Nuno Álvares Pereira um exemplo perene e desafiador para o nosso tempo.
António da Cunha Duarte Justo
(1) Nuno Álvares Pereira (1360-1431) consolidou a independência de Portugal, como herói da Batalha de Aljubarrota (1385). Assumiu o comando do exército português e infligiu duras derrotas aos espanhóis em Atoleiros e Aljubarrota, assegurando assim a independência do país e a coroa para D. João I.
Líder durante a crise, tornou-se mais tarde místico e servo dos pobres. É considerado um símbolo de bravura, honra e profunda piedade, sendo uma das figuras mais notáveis da história portuguesa.
Nuno Álvares Pereira foi beatificado em 1918 e canonizado pelo Papa Bento XVI em 2009, o que sublinha a sua importância enquanto herói nacional e santo (“Santo Condestável”).