Os enigmas dos chamamentos
António da Cunha Duarte Justo
A natureza, a história e a cultura são a tela onde o divino nos chama a situar-nos
Vivemos suspensos entre o indizível e o visível. Tudo o que nos cerca, desde a seiva que sobe na árvore, o eco dos passos que marcam as eras, a palavra que insiste em nascer, tudo é lineamento de um apelo que não se deixa aprisionar em definições. Não somos donos do real, mas espectadores e actores a viver no palco do mistério. A realidade não se desvenda numa única chave, nem é um dado que se submete ao nosso domínio, mas um enigma que se oferece à nossa liberdade numa sinfonia de imensas tonalidades. Diante de nós, abrem-se três grandes “manuscritos” simultaneamente: o livro da Natureza, escrito em metamorfoses e ciclos; o livro da História, tecido de glórias e ruínas; e o livro da Cultura, povoado de símbolos e narrativas. Lê-los exige mais do que a razão instrumental; exige a humildade do aprendiz que aceita ser interpelado, que aceita ser questionado pela pergunta primordial: “Onde estás?”. Ao contemplarmos esta tríplice manifestação, percebemos que o efémero é porta para o eterno e que o sólido se dissolve em gasoso para nos lembrar do voo espiritual.
A natureza não é mero cenário passivo, mas metáfora viva da vida cultural e individual. Em cada biótopo, em cada ecossistema coexistente, pulsa um enigma que nos interpela. Tudo se torna sinal e imagem, um puzzle cósmico cuja solução não está dada, mas proposta como um chamamento misterioso dirigido à humanidade e à própria Terra. Investigar a natureza é, assim, um imperativo hermenêutico, porque a natureza tem algo essencial a dizer-nos, se nos dispusermos a escutá-la para além do ruído superficial da utilidade.
Tal como as pessoas, a natureza ostenta, à primeira vista, uma harmonia aparente. Mas essa harmonia, tal como a refinação do caráter humano, só se revela verdadeiramente na profundidade do tempo e da observação atenta que ultrapassa o imediato e o cronológico. O ser humano assume, então, o papel de observador, análogo ao amante da arte que contempla um quadro. Olha para ele, não para o possuir, mas para se deixar interpelar pelas camadas de sentido que ele esconde. Na natureza, descobrimos os mesmos enigmas que filósofos e artistas, de Oriente a Ocidente, tentaram desvendar. A natureza é, simultaneamente, sonho e realidade concretizada, véu e epifania.
Somos todos alunos do Todo. Ao observar a natureza, o ser humano procura organizá-la e abordá-la nos diferentes níveis, físico, biológico, estético, espiritual, sem excluir nenhum, se quiser que a sua leitura seja verdadeiramente integral. Nesse movimento, oscilamos entre o autorretrato (microcosmo que somos) e a visão do cosmos (macrocosmo). Como na teia de Indra (onde as filosofias hinduísta e budista procura ilustrar a interconexão de todo o universo), onde cada ser reflete todos os outros e o mistério do Todo pulsa em cada fração do mundo. Através de narrativas, filosóficas, científicas ou poéticas, tentamos encontrar-nos a nós próprios no âmbito do todo, desejando sempre seguir o caminho ideal (o Tao que se faz caminho na filosofia chinesa baseada na harmonia com o universo e ensina a viver com naturalidade, aceitação e sem resistência, numa atitude de “não ação” ou da mera vivência do momento presente) e, ao participar nos sinais dos tempos, representá-los da forma mais plena possível. Na vertente do Ocidente o caminho ideal permanece no chamamento mais próximo do Humano na pessoa de Jesus Cristo, como protótipo para toda a humanidade e criação no “Eu sou o caminho a verdade a vida”!
A tradição católica, nesse ponto, oferece uma intuição luminosa, verdadeiramente católica, ao afirmar que a Revelação não se encerra num único livro pois ela transcende a palavra discurso. Ela desdobra-se em três grandes manifestações, ou seja, a Revelação contida na Escritura de que Jesus Cristo é o protótipo (mais que uma cultura, discurso ou livro), a Revelação presente na Natureza e a Revelação inscrita na História. Cada uma delas exige dedicação e humildade; caso contrário, seguimos a narrativa superficial que nos desvia do caminho, escravizada pelos líderes e pelos seus interesses míopes. Todas elas, porém, ecoam no fundo do Homem e da humanidade a mesma pergunta inicial e fundadora que é: «Adão, onde estás?» e a mesma resposta silenciosa que nos convoca a todos na intuição do «Estou mais além; segue-Me.» A natureza, a história e a cultura tornam-se, assim, o lugar teofânico onde Deus nos interpela e onde somos chamados a transcender-nos.
Infelizmente, a tentação da simplificação é enorme. Esquecemos toda a faixa de cores do arco-íris para seguirmos a redução maniqueísta do preto e branco de uma lógica meramente dialética dos opostos como em Marx. Destruímos, com isso, as complexas estruturas coloridas das ligações e perdemo-nos na máscara pura da realidade, contentando-nos com uma perceção primitiva. A «gravidade» do olhar naturalista prende-nos à crosta do imediato, impedindo-nos de ascender à leveza do espírito. Para tentar compreender o insondável, o mistério, é necessário captar, de forma puramente perspectivista, o caráter efémero do espaço e do tempo; de contrário, tornamo-nos vítimas dessa gravidade que nos afasta da harmonia do todo que é aperspectivo; aquela harmonia que se encontra em paralelo nas diversas revelações que a chamada realidade aplicada esconde, embora pretenda justamente conduzir-nos à Realidade última.
É precisamente nesse ponto que a natureza se nos oferece como símbolo dinâmico do apelo volátil, que corresponde à transformação do sólido em líquido e do líquido em gasoso; isto não é mero fenómeno físico, mas metáfora e indicação do percurso do material para o espiritual. Assim como as árvores florescem nas suas flores e frutos, também o corpo do ser humano floresce no espiritual. O nosso desenvolvimento não pode limitar-se a uma adaptação passiva aos gostos efémeros da época. Também a literatura é chamada a fazer mais do que apenas tornar-se a narrativa do espírito do tempo; ela deve ser profecia, memória e abertura ao transcendente.
Tudo isto deve, porém, acontecer num campo aberto, onde o ser humano, as ciências, os povos e as nações não se limitem ao primeiro impulso de se definirem a si próprios por oposição ao outro. Urge uma cultura de perceção diferente, alimentada por novas imagens profundas, para que não vivamos constantemente num clima de tempestade e para que ousemos criar, finalmente, uma cultura de paz. Estamos incompletos, tal como o mundo; a nossa vocação mostra-nos o caminho numa realidade que não é meramente circular, mas aberta ao novo, como formulou o cristianismo.
Somos, simultaneamente, observadores, actores e realização. “No princípio era o Verbo e o Verbo fez-se carne”, para que, pela carne, regressemos ao Espírito. Não podemos deixar-nos prender nem fascinar pelos fogos de artifício da cultura, mas sim tentar ver o que está por detrás deles: a chama eterna que os alimenta, o “sou o que sou, sou o tornar-se” que no Monte Horeb não quis receber nome para anunciar-se como processo no protótipo Jesus Cristo. O nosso caminho reside no mistério de uma terra obscurecida, mas não abandonada. Estamos todos na oficina do real, aprendizes humildes da realidade, num processo inacabado de busca da Verdade. A luz da inspiração não nos faltará, tal como o sol que, inexoravelmente, brilha sobre a Terra e sobre cada criatura que nela habita, convidando-nos a participar, com toda a criação, no desenvolvimento do mundo e da história, seguindo o apelo misterioso que nos chama para Além.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo Social
Pegadas do Tempo