LAVA-PÉS NA ÚLTIMA SEIA NA NOITE DE QUINTAFEIRA EM JERUSALÉM

Jesus ensina que o verdadeiro senhor se faz servo

Na noite em que se consuma o mistério da sua entrega, Jesus de Nazaré realiza um gesto inaudito: levanta-se da mesa, tira o manto, cinge-se com uma toalha e começa a lavar os pés aos discípulos. O verdadeiro Senhor torna-Se servo dos outros. Assistir e ajudar: eis o centro da renovação, que depende apenas da boa vontade de cada coração.

Pedro resiste, por humildade mal compreendida. Mas Jesus ensina: amar é abraçar, é inclinar-se sobre o outro, desde que o outro o permita. Com o exemplo, o Mestre resume a sua máxima: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.” Nesse gesto, Ele resume todo o caminho do humano e da humanidade.

N’Ele se unem o céu e a terra. A cruz, que se avizinha, não é um palco de derrota: é a árvore da vida, assim como a árvore do paraíso terreno foi a árvore do conhecimento. No humano, encontramos ao mesmo tempo o Cristo abandonado e o Cristo ressuscitado. E n’Ele está presente o Deus que não abandona, mesmo quando as circunstâncias parecem gritar o contrário.

À mesa, porém, acompanha-O também Judas,  mais interessado na realização de ideologias políticas do que na comunhão do amor. Judas torna-se símbolo daqueles que, em nome de uma pretensa verdade, procuram desmontar o que existe apenas para se instalarem nos andores da idolatria egocentrista.

Jesus veio superar os dualismos e os maniqueísmos que, ainda hoje, persistem nos seguidores de Judas: todos os que trabalham para outros senhores, movidos por um coração tóxico que nunca é construtivo. O lava-pés permanece, pois, como antídoto e memória: a grandeza está em servir, não em dominar.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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A VIVER COM O FADO

O Companheiro inseparável de Sombra e Luz que o Destino nos deu

Se olharmos para a natureza com olhos atentos, descobrimos que nela tudo tende para a luz. Uma semente não germina antes de a terra estar pronta. Um rio não rompe a rocha pela força brusca, mas pela persistência silenciosa de um fluxo que encontra o seu caminho. O inverno não se apressa para que a primavera chegue mais cedo. Cada estação carrega o seu tempo, e o que não amadureceu no outono permanece como folha seca, não como falha, mas como matéria que a nova estação transformará em adubo.

Há, porém, plantas e pessoas, que foram geradas nos primeiros anos de vida em lugares sombrios. O seu desenvolvimento parece ficar condicionado à sombra originária durante toda a existência, por muito sol exterior que tardiamente apareça. Até parece que cada um de nós paga tributo pelo agir dos artífices que nos formaram.  Isso não é culpa, não é desculpa, nem é dívida, é apenas a circunstância. Tentar compreender a diferença entre culpa e circunstância é já o primeiro passo de um caminho mais consciente.

Na vida, há padrões de sofrimento que parecem querer acompanhar-nos sob roupagens diferentes. O mesmo conflito relacional repete-se em pessoas distintas, em contextos distintos, com uma persistência que desconcerta. Numa autoanálise purgativa, surge inevitavelmente a pergunta: pode este bloqueio existencial ser superado? Pode o fado ser vencido?

Carl Jung dizia que aquilo que não é conscientizado tende a ser vivido como destino. Outros psicólogos acrescentam que enquanto não compreendermos o chamamento contido naquela situação, enquanto não lhe dermos um sentido que nos transforme, a vida repeti-lo-á, com a paciência de quem espera que um filho aprenda uma lição não pela punição, mas pela maturação. O chamamento não se impõe, apenas aguarda. Tem uma paciência que ultrapassa largamente a nossa.

É a mesma pergunta que ressoa desde os tempos primordiais: Adão, onde estás? Não um julgamento, mas um convite a situar-se, à relação, à presença, ao enraizamento. Um chamamento à inteireza que, como na natureza, se manifesta através da inter-relação de tudo com todos.

O sintoma, seja ele uma dificuldade externa ou um sofrimento interno, não é um inimigo a eliminar, mas um mensageiro a interrogar. O incómodo que se repete é muitas vezes o sinal da nossa própria surdez, da nossa pressa, do ainda não termos ouvido o chamamento, o que há muito nos chama. As situações que persistem meses ou anos são, com frequência, aquelas que contêm o material do nosso próprio amadurecimento. A pergunta produtiva não é “de quem é a culpa?”, mas sim: O que é que esta situação persistente me está a pedir que eu veja em mim mesmo? Que parte de mim ainda não escutei? Que crescimento está à espera?

Seria erro culpar-se ou culpar alguém pelo sofrimento que se traz. A sombra que nos acompanha vem do facto de sermos seres situados num mundo feito de situações interligadas. Por vezes, ela tem origem numa ferida antiga, o mau olhado em criança por quem, em vez de amar, criticou e deste modo ensinou a pessoa a fugir de si mesma, a não se sentir em casa no seu próprio ser, porque quando dela precisava, outros a invadiram. Esta fuga de si, disfarçada de combate ao exterior, é o que tantos escritos políticos e críticos escondem: o combate às próprias sombras projetadas lá fora, onde é mais fácil reconhecê-las do que acolhê-las dentro.

No fado português encontra-se algo desta tensão: no queixume lamenta-se um chamamento e a dor de ainda o não ter integrado. Mas a dificuldade do fado e de qualquer forma de lamentação que se fecha sobre si mesma é que não distingue entre uma dor repetida porque não integrada, uma estrutura externa que precisa de ser abandonada, ou uma ferida que precisa de cura antes de poder ser compreendida. As mágoas que se levam ao lavadouro público, aos amigos que confirmam a queixa ou aos autores que tudo justificam, acabam por ser apenas espelhos que devolvem a mesma imagem sem a transformar. Confirmam o fado em vez de apontar para o chamamento.

A natureza oferece-nos o critério: quando estamos verdadeiramente a escutar o chamamento, há uma sensação de alinhamento, mesmo que dolorosa. Quando estamos apenas a repetir o mesmo padrão sem crescimento, há exaustão sem fruto. As flores que a árvore produz, se se mantiverem na sombra das negatividades, aguardam o tempo propício para dar fruto. A árvore não acelera o seu crescimento porque o agricultor tem pressa. Há uma altura para plantar, uma altura para lavrar, uma altura para deixar o solo em pousio.

Num desenvolvimento humano orientado para a paz e nem toda a repetição é chamamento, importa dizê-lo com clareza, a autorreflexão não é um exercício de autocastigo, mas de escuta. Na tradição cristã, este apelo vai além da relação dialética eu-tu, porque nos convida a entrar na lógica relacional do nós, da compaixão e da sintonia, onde já não há castigo nem autocastigo, mas a vivência de um mundo inteiro a sofrer em nós e do sofrimento da germinação da flor a emergir o fruto, a ressurreição.

Os problemas não são fracassos. São chamamentos a ver o que ainda temos para compreender em nós, para que os outros deixem de ser superfícies de projeção das nossas sombras.

Talvez a tenacidade exasperante dos nossos bloqueios seja apenas o inverno que insiste até que finalmente preparemos a terra para a primavera. Uma primavera que não podemos apressar, mas que também não podemos eternamente adiar.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo Social
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A ESPERANÇA QUE LIBERTA E A FÉ QUE INCOMODA

Vivemos tempos grávidos de espera. Basta ligar os noticiários ou olhar para dentro de nós mesmos para percebermos que todos esperamos por algo. Uns esperam pela paz, outros, movidos por interesses ou desilusões, esperam pela guerra; há ainda aqueles que apenas aspiram à vitória, independentemente dos custos que ela exija e outros que esperam simplesmente pela oportunidade da vida.

Esta constatação revela algo incómodo: a esperança e a fé são forças poderosas, mas nem sempre são inocentes. Quem detém o poder sabe disso há séculos. Impérios e governantes aprenderam a instrumentalizar a esperança para acalmar os ânimos, a confiança para unir os povos e o significado para criar lealdades. Há, assim, uma esperança que adormece e uma esperança que desperta; uma fé que consola e enfraquece, e outra que assegura a dignidade e assume a responsabilidade.
A primeira beneficia os cínicos e a segunda torna-se perigosa para quem está no poder.

A dupla face da fé
Ao longo da história, a fé religiosa desempenhou papéis aparentemente contraditórios. Houve momentos em que foi a grande estabilizadora das ordens sociais existentes, na Europa medieval, no mundo islâmico e nas sociedades influenciadas pelo confucionismo. Nesses contextos, a fé ajudou a consolidar estruturas, oferecendo sentido, coesão e a criar grandes civilizações.

Mas houve também momentos em que a mesma fé desencadeou dinamismos revolucionários. A Reforma Protestante abalou impérios inteiros. No século XX, movimentos de libertação inspirados em convicções religiosas enfrentaram regimes opressores, do totalitarismo à escravatura e à injustiça estrutural.

O que pode explicar esta dualidade? A resposta reside numa dialética interna à própria fé; dado ela se dirigir a um padrão superior a qualquer poder concreto, o seu efeito prático depende da atitude de quem gere ou governa. Enquanto o poder se mostra compatível com esse padrão, de justiça, dignidade e verdade, a fé tende a ordenar e consolidar, mas quando o poder viola esse padrão de forma flagrante, a mesma fé pode transformar-se numa força crítica, silenciosa ou mesmo rebelde. A maneira como a sociedade está a ser dirigida leva a crer na necessidade de um acentuar da força crítica.
Assim, a fé não clama constantemente por mudança ou por revolução. A fé não se reduz a uma lufada de vento que ocasionalmente passa; a fé age como uma força contrária discreta: relativiza as pretensões absolutas do dinheiro, do Estado ou da ideologia, sem recorrer imediatamente à violência. O seu papel não é tanto derrubar, mas impedir que o poder se torne absoluto. Ela é um fogo santo que lembra o brasido a resplandecer uma fragrância de incenso a acalentar a vida.

O dilema do indivíduo
E é aqui que surge o grande dilema da vida individual. A mudança desejada, aquela que tornará o mundo mais justo, chega quase sempre tarde demais para quem mais precisa dela. E isto porque o indivíduo não vive no futuro idealizado, mas no presente, envolto nas estruturas de poder e das circunstâncias que o moldam e até , por vezes, o subordinam.

Entre a esperança e a realidade abre-se um espaço de cansaço, subordinação e, por vezes, resignação. Se a esperança se fixar unicamente no “grande acontecimento” futuro, corremos o risco de permanecer paralisados numa eterna espera.

Mas há uma alternativa: compreender a esperança como liberdade interior. Quando assim entendida, algo muda profundamente. O indivíduo continua envolvido nas estruturas do mundo, sujeito às suas pressões e circunstâncias, mas já não é totalmente controlado por elas. Mantém um espaço de integridade que o poder não consegue colonizar.

A história ensina-nos que as transformações profundas raramente surgem de revoluções permanentes. As transformações profundas emergem, sobretudo, de mudanças graduais na consciência, nas relações humanas e nos pressupostos culturais. Essas mudanças ocorrem de forma discreta, muitas vezes impulsionadas por pessoas que vivem nesse “meio-termo”, nem totalmente conformadas, nem em permanente insurgência. Aceitam a vida e o viver com naturalidade, mas sempre com a lanterna da intuição que orienta no lusco-fusco do acontecer.

A lentidão que protege
Há aqui uma assimetria fundamental que cria uma tensão a suportar-se: o poder age imediatamente; a esperança age lentamente. Essa lentidão é, ao mesmo tempo, uma fraqueza e uma força. É uma fraqueza porque não responde na mesma velocidade da opressão. Mas é uma força precisamente porque, ao não ser idêntica ao poder, não é totalmente controlável por ele.

A questão decisiva, então, não é se o mundo e as coias que desejamos chegará a tempo, porque, para muitos, ele nunca chegará a tempo. A questão verdadeira é outra: enquanto esse mundo não chega, conseguirá a pessoa humana preservar a sua dignidade no âmbito individual?

Essa é a tensão constante que atravessa a natureza humana e a história. Viver nessa tensão não é fácil. Exige uma fé que não se deixa reduzir a consolo barato, e uma esperança que não se refugia na pura espera. Exige a capacidade de estar no mundo sem se render ao que ele tem de desumano e de agir sem a ilusão de que a solução ou a salvação virá apenas de um grande acontecimento.

A fé e a esperança completam-se na caridade, entendida não como mera generosidade, mas como o compromisso de tratar cada ser humano como um fim em si mesmo, independentemente do ritmo das transformações históricas e das implicações do dia-a-dia, numa atitude soberana na imagem da do Cristo no deserto ao encarar as tentações a partir da distância dos 40 dias.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Social-pedagogo

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EMIGRANTE…

Na peugada do génio português

Trago Portugal gravado na medula dos ossos
e o Tejo aceso no Douro como estrela no olhar.
Sou filho de duas marés e de nenhum porto,
um barco antigo que já não sabe ancorar.

Parti quando os ares da europa respiravam luz
e a oliveira falava com o cedro do Norte;
então o mundo era largo como promessa
e nele cada um buscava a sua sorte.

Sou, no emigrante, metade caminho
No regressado a metade memória.
Mas no fundo sou apenas um homem
que escuta o fado secreto da História.

E assim caminho, migrante “Ninguém”,
com o mundo a viver já comigo,
na espera que o nevoeiro se abra,
sobre um Portugal avindo consigo.

Então saberei que a viagem fez sentido:
o exílio, o regresso, a dor e o cantar.
Porque todo o migrante que volta ferido
traz dentro de si a aurora do mar.

*

O emigrante e a sombra da pátria
caminham juntos como espelho antigo
onde a nação procura o seu rosto.

 

Nele o coração atravessa o abismo
como quem busca o início do mar.
Ele é ponte onde o coração nunca termina.
E assim o povo aprende a cantar
mesmo quando a dor se levanta.

António da Cunha Duarte Justo

© Pegadas do Tempo

 

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A TINTA E O HORIZONTE

Meu pai era a força que lavra o chão,
a onda que fecunda a imensidão,
energia em transbordo, chama viva,
a imaginação que nos cativa.

Foste, aos doze, caminheiro a sós,
de Gaia a Arouca, guiado pelo sol,
nas encruzilhadas, a sombra do pinhal
hesitava o passo, mas não o teu sinal.

Tu, homem encoberto que a vida não poupou,
no teu sorrir a minha veia se formou.
És a tinta que na caneta vai correr,
à procura de um espírito que a saiba ler.

Se em ti era a ideia, o horizonte a desenhar,
na mãe era a terra que o fazia ancorar.
E no meu pulso, em cada verso que se lança,
ouço o vosso eco, a herança que não cansa.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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