PARA UMA CULTURA DO ENCONTRO ROMPER A INÉRCIA

Do hiperindividualismo à consciência integral do “Eu-Tu-Nós”

O empenho em tal causa terá de ser de envergadura civilizacional se não se quer que a civilização se dissolva na inércia. A tarefa começa pela necessidade urgente de uma síntese global que resgate o ser humano ocidental da fragmentação do hiperindividualismo contemporâneo. Para tal seria de encarar a necessidade de uma grande síntese epistemológica e antropológica para salvar a humanidade da sua própria fragmentação.

Temos de proceder a uma leitura histórica cirúrgica. O processo de emancipação individual, que teve no Protestantismo e no Iluminismo os seus motores iniciais, libertou o homem de tutelas medievais, mas, ao ser capturado pelas estruturas económicas e técnicas da modernidade, degenerou no hiperindividualismo e na atomização social. O ego hipertrofiado tornou-se o consumidor perfeito para um sistema que precisa de indivíduos isolados, previsíveis e dependentes de “máscaras” mercantis. Se o indivíduo se esvaziou do seu âmago, da sua mesmidade, as civilizações correm agora o mesmo risco de implodirem por falta de consistência espiritual interna, fechando-se em pequenos nichos de sobrevivência identitária.

A urgência da síntese numa matriz integradora global

A tarefa competiria aos intelectuais, filósofos e líderes espirituais do Ocidente e do Oriente; não se trata da criação de uma nova ideologia política, mas sim de uma Meta-Matriz Relacional (1). A criação de uma matriz conceptual e formativa transcultural, que sirva de base para as relações internacionais e para a educação dos povos, é, depois do reencontro da própria cultura com os seus fundamentos orgânicos, o desafio do nosso século. Uma síntese que assente no reconhecimento de que somos todos “caminheiros na procura e na construção da Verdade”, operando em três eixos fundamentais:

  1. A dialética do humano: Masculinidade e Feminilidade

A desestruturação do mundo atual decorre também da perda de equilíbrio entre as energias arquetípicas do masculino e do feminino, como tenho apresentado  em Pegadas do Tempo: www.antónio-justo.eu. A sociedade técnico-secular hipertrofiou o “masculino tóxico/mecânico” (a conquista, a exploração, a categorização, o controlo e a descrição fria) e marginalizou o “feminino essencial” (a intuição, o acolhimento, a ressonância, o cuidado e a relação por presença). Integrar ambas as dimensões na matriz formativa dos povos é devolver à humanidade a sua totalidade psicológica e existencial. Não há “Nós” inteiro sem a harmonia destas duas polaridades (2).

  1. A reconciliação do Ser: Materialidade e Espiritualidade

O Ocidente secularizado cometeu o erro trágico de decretar o divórcio entre o corpo e a alma, entre o progresso técnico (materialidade) e a profundidade mística (espiritualidade). A síntese proposta exige que a espiritualidade deixe de ser vista como um “anacronismo” ou um “hábito privado”, passando a ser reconhecida como a infraestrutura invisível que dá qualidade e limite ético à ação material. O Oriente tem aqui um papel pedagógico fundamental com as suas filosofias da imanência e da unidade entre mente e matéria (3).

  1. O horizonte teandro-político: Povo expressão do divino

Esta expressão evoca a intuição profunda de que a comunidade humana (o Povo), quando autoconsciente e unida na ressonância, manifesta a própria presença do Sagrado na Terra. Deus não como um monarca exterior que dita dogmas e preconceitos através de uma casta institucional, mas Deus como a força motriz, o “Movente” intemporal que se atualiza na comunhão sincera e sem máscaras entre os seres humanos. Formar os povos neste sentido é educá-los para a sacralidade da relação social (4).

O desafio da implementação na prática

O grande obstáculo a esta visão utópica (no sentido mais nobre de um ideal orientador) é que as estruturas que hoje governam o mundo, financeiras, tecnológicas e burocráticas, prosperam precisamente na ausência de síntese. Elas alimentam-se do preconceito, da divisão e da ilusão de certeza para manter o controlo. Por isso, essa matriz pedagógica global talvez tenha de começar a ser escrita e vivida a partir da base, através de redes transnacionais de pensadores e criadores que, se recusam a aceitar a falência qualitativa da nossa civilização (5).

Estratégias e possíveis abordagens:

As fórmulas do dogmatismo eclesial e do maniqueísmo secular seriam ultrapassadas ao repensar-se o Mistério da Trindade (1=3) e (3=1) e da Encarnação para lá de impostações religiosas ou seculares e devolvê-las ao seu estatuto de matrizes lógicas e existenciais:

– A Trindade como Antídotos ao Maniqueísmo – O pensamento trinitário quebra o binarismo (dualismo). Mostra que a identidade não se faz pela exclusão do outro, mas pela relação de reciprocidade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo não competem; coexistem numa dinâmica de doação mútua (perichoresis) onde a unidade preserva a diversidade. Secularizar a Trindade significa criar uma sociedade onde o “Nós” não esmaga o “Eu” nem o “Tu”, mas os potencia (possibilita a sustentabilidade perene da cultura).

– A Encarnação como Reconciliação Matéria-Espírito – Em Cristo, o divino não anula o humano; a carne (matéria) torna-se o veículo do Espírito. Ao esquecer isto, o Ocidente secular hipertrofiou a matéria (o consumo, a técnica) e desintegrou o sentido (um reino simbolizado na estátua de Nabucodonosor, rei da Babilónia, com pés de barro, isto é, símbolo da vida pública  com políticos sem virtude, carentes de méritos e sem valores intrínsecos: um colosso sem alma que não pode resistir ao embate que a espera).

O novo “momento Beneditino” e o encontro de caminheiros

Uma estratégia que reinterpretasse o espírito original de São Bento para o século XXI poderia tornar-se numa cirurgia historicamente oportuna. De facto, quando o Império Romano colapsou no caos e no maniqueísmo bárbaro, foram os mosteiros beneditinos que preservaram a cultura, criaram novos modelos agrícolas e fundaram comunidades de paz baseadas no equilíbrio entre o trabalho material e a contemplação (Ora et Labora).

Teríamos um Neo-Monasticismo Ecuménico e Intercomunitário de cariz secular e espiritual, com um eixo de caracter vertical seguindo a Via Mística Transcultural como tecto. Enquanto o Ocidente acentuaria o valor do Eu (Trindade/Encarnacão) o Oriente expressaria o valor do Todo (Budismo/Vazio Interdependente). Deste modo abdicar-se-ia da matriz de pensamento maniqueísta dos opostos rivais legitimadores de uma cultura da guerra para se ultrapassar o binarismo/dualismo e passar-se à fórmula trínia de uma cultura de paz de avanço em espiral.

Teríamos, por um lado, grupos seculares e religiosos em co-presença. Haveria a criação de espaços que funcionem como laboratórios de uma nova síntese, onde crentes e não-crentes se sintonizam através da via mística (inclusiva) que, por natureza, despoja o ser humano de dogmas e preconceitos, permitindo o encontro direto com o “Movente” e por outro lado teríamos o casamento do ocidente com o oriente em que o passo do Ocidente consistiria em caminhar em direção ao Oriente através da mística, reaprendendo a dissolver o ego inflacionado na teia da interdependência universal (o conceito budista de Pratītyasamutpāda ou o Tao) e o passo do Oriente seria caminhar em direção ao Ocidente assimilando a valorização ontológica da pessoa individual, não como um átomo isolado da sociedade de consumo, mas como um nó sagrado, único e irrepetível na rede da existência com o protótipo relacional trinitário.

Esta caminhada comum do Cristianismo e do Budismo não visa fundi-los numa religião universal cinzenta, mas sim usá-los como espelhos mútuos para corrigir os excessos e cegueiras de cada civilização.

Na minha página virtual Pegadas do Tempo, tal como neste ensaio, procuro fomentar momentos de reflexão e análise que sirvam de estímulo à ponderação urgente de que carecemos, neste tempo em que a cultura da concorrência ameaça devorar o que o humano tem de mais genuíno. Numa perspetiva de construção de uma cultura universal de paz, poderíamos, cada qual no seu contexto, ir elaborando e desenhando a arquitetura operacional de que a nossa civilização necessita para não sucumbir à mecanização existencial. O momento axial que atravessamos pede a visão de um pragmatismo profético. O grande desafio da era da Inteligência Artificial e da hiperconexão virtual não se resolve com mais isolamento nem com o apego a formalidades políticas e pastorais estéreis, mas sim com o entrelaçamento de comunidades em redes descentralizadas que gerem experiências reais de comunhão. Constatamos como as instituições falham e como a “Palavra”, enquanto energia mistério, pode ser encarnada hoje através de vetores cruciais:

  1. A descentralização e os novos rituais na era da IA

Se a IA automatiza a lógica, a eficiência e a descrição abstrata, o que resta para o Homem é a capacidade de presença, o mistério e o vínculo afetivo. Os conventos físicos tradicionais servem a poucos, mas o modelo de “redes descentralizadas” permite que o espírito comunitário se propague em capilares pela sociedade.

– A Palavra como Energia: A Palavra aqui não é o “discurso” ou o dogma dogmático, mas a força geradora de realidades (o Logos: a “Palavra” no processo de ser encarnada).

– Novos Rituais: Precisamos de dinâmicas virtuais e físicas que funcionem como portos de abrigo contra o ruído. Não se tratam de rituais de “sacristia”, de “lojas”, de centrais partidárias, nem de fóruns político-económicos intergovernamentais, mas sim de momentos estruturados de paragem, escuta e partilha autêntica, que as pessoas possam levar consigo para o seu quotidiano. Quanto à sua orgânica, creio que um modelo de maior abrangência global poderia ser elaborado com as devidas adaptações, inspirando-se na estrutura da Igreja católica que, apesar do seu carácter piramidal, contempla o momento democrático e a valorização das dimensões regionais.

  1. A arte e o desporto como liturgias encarnadas

Urge focar a ação cultural e religiosa nas artes, filmes, teatro espontâneo, concertos, etc., onde a mensagem esteja em primeiro plano, e não o intérprete! Tal implicaria uma autêntica revolução pedagógica, mas uma revolução que valeria a pena experimentar, moldada pelas necessidades e potencialidades de cada comunidade. Imagine-se, nas igrejas e sacristias, sessões de teatro de improvisação onde se pudesse desenvolver uma catarse de carácter psicológica, espiritual e física, na qual o indivíduo e o grupo, em interação, expressassem o divino e o humano, a amargura e a alegria de viver, numa autêntica expressão litúrgica de cura e redenção.

Este teatro improvisado, longe de ser mero entretenimento, constituir-se-ia como um espaço de vulnerabilidade sagrada. O ensaio, a falha, o gesto inesperado, tudo isso se tornaria matéria litúrgica, porque aí, mais do que em qualquer rito perfeitamente coreografado, se revela o humano tal como ele é: imperfeito, em busca, aberto ao sopro do Espírito. O “palco” da igreja deixaria de ser um lugar de distância entre clero e fiéis para se tornar um círculo onde todos são, ao mesmo tempo, atores e espectadores da Graça. O que está em jogo não é a qualidade estética da representação, mas a verdade da encarnação, o Verbo que se faz carne, de novo, em cada gesto partilhado.

Uma expressão de cura humana integral, não alicerçada em definições de pertença, mas num carácter simultaneamente corporal e espiritual, pressupõe o Esvaziamento do Ego (Kenosis). Esta Kenosis não é um mero apagamento niilista, mas antes uma expansão por esvaziamento: o artista, ao recolher-se, não diminui, torna-se antes uma membrana permeável por onde o divino e o humano trocam respirações.

Quando o actor ou o músico se apaga em favor da obra, a arte converte-se num canal para a ressonância trinitária e pressupõe, além disso, uma espiritualidade isenta do excessivo odor a velas e das habituais vénias ao Zeitgeist. A ressonância trinitária não é um conceito abstrato; é a vibração concreta de uma relação que se estabelece no intervalo entre a nota e o silêncio, entre o gesto e a pausa, entre o eu e o Tu.

O esvaziamento do ego, nesse contexto, é o único gesto que permite à comunidade e não ao intérprete tornar-se protagonista da cura. Como na improvisação teatral, aqui o “palco” não é o lugar do virtuoso, mas o lugar do servidor da obra. E a obra, por sua vez, não pertence ao artista, nem ao público, nem sequer à Igreja como instituição: ela pertence ao encontro (corpo místico de Cristo) esse instante fugidio (a ressoar em cada um) em que o corpo, o espírito e o Mistério coabitam sem mediações desnecessárias. É nessa nudez ritual que a redenção deixa de ser doutrina e se faz carne, novamente, em cada respiração de vivência partilhada.

O que o mundo hoje precisa é de uma espiritualidade sem cheiro a velas e sem vénias ao Zeitgeist: Os centros paroquiais e culturais já têm a logística e o espaço físico. Falta-lhes libertarem-se das exterioridades formais para oferecerem o que o mundo pede: espaços de silêncio, de encenação da vida, de partilha pós-concorrência. O desporto e a arte, vividos de forma comunitária, tornam-se a nova mística encarnada. A espiritualidade autêntica não se confunde com a encenação piedosa (rituais sentimentais, as parafernálias devocionais) nem com o servilismo às modas intelectuais ou políticas do momento, sejam elas o ativismo superficial, o tecnoutopismo ou o relativismo estéril que nos amarra a todos à pia onde todos se servem da “lavagem” (restos de comida) pública. Essa espiritualidade despojada exige uma ascese de atenção que corresponde a estar no mundo sem lhe prestar vassalagem, a habitar a tradição sem a mumificar e a acolher o novo sem se render ao fetiche da novidade.

  1. A Fenomenologia das Fórmulas básicas e o Impacto político

O indivíduo isolado é politicamente impotente e facilmente engolido pelas orgânicas burocráticas da modernidade, facto este que se observa cada vez mais consumado nas novas formas de estar na polis. Para recuperar a voz, as pessoas  têm de se organizar em grupos e assim se formar uma nova antropologia e uma nova sociologia. Para isso precisa-se:

– Consciencialização antropológica: Cada cultura esconde fórmulas básicas de sabedoria (como a Trindade no Ocidente ou o Vazio Interdependente no Oriente). Fazer uma fenomenologia dessas fórmulas significa traduzi-las em matrizes de comportamento em que se afirme a cooperação em vez de maniqueísmo e a inclusão em vez da exclusão.

– Para lá de Hans Küng: O projeto Ethos Global de Hans Küng lançou as bases teóricas para uma ética planetária partilhada. O passo seguinte, exige porém  que os governantes e o clero apliquem isto na organização prática mas como virtude e não como conteúdos abstratos como pretendem forças que se encontram por trás de agendas políticas. As instituições não podem ser núcleos fechados (guetos de certezas) nem balões ao sabor das águas do politicamente correto; têm de se enredar com outros grupos para criar massa crítica e impacto político-social.

Criar Plataformas de Polinização cruzada

Como resposta à urgência de curar a fratura maniqueísta da nossa sociedade pressupõe-se criar-se uma estratégia de dupla via que transforma a paróquia e a sede partidária de espaços de trincheira ideológica em verdadeiras plataformas de polinização cruzada.

Ao criar eventos culturais abertos em paralelo com os religiosos, a paróquia deixa de ser um “gueto de crentes” e passa a ser a ágora da comunidade de cunho católico. O segredo está em fazer com que o crente e o laico se encontrem não para debater dogmas, mas para comungar de uma experiência humana partilhada que se expressa em ações conjuntas.

A Arte com Conteúdo Integral como Terceiro Elemento

Para que este convívio aconteça sem desdém mútuo, a arte com conteúdo integral funciona como o lubrificante existencial perfeito.

O Laico entra no espaço atraído pela beleza, pela música ou pelo teatro, sem o medo de ser doutrinado ou de encontrar o “cheiro a sacristia”.

O Crente sai da sua zona de conforto e aprende a ver a manifestação do Mistério e da Palavra também fora das fórmulas litúrgicas tradicionais.

O Encontro dá-se na ressonância da mensagem da obra. A arte integral toca no âmago do ser, onde as máscaras do “ateu” ou do “católico” caem, restando apenas dois caminheiros perante o belo.

A Despolarização dos Partidos Políticos

Ao estender esta lógica aos centros nevrálgicos dos partidos políticos, as consequências revelam-se igualmente profundas. Hoje configurados como fábricas de ideologia e de competição agressiva, se estes organismos passarem a fomentar práticas abertas e não apenas doutrinas fechadas, a política poderá recuperar a sua dimensão antropológica primordial: a de serviço ao “Nós”.

Imagine-se uma sede partidária que abra as suas portas a dinâmicas de teatro espontâneo, a serviços de diaconia como nas paróquias, a projetos de ecologia local ou a debates artísticos desprovidos de fins eleitorais. Ao fazê-lo, ela abdica do papel de “ator dominante” para se focar na mensagem e na comunidade. Cria-se, assim, nesses espaços, a prática do exercício cívico como virtude e não já como mera defesa de interesses sectoriais ou de captura do poder.

Esta convivência prática, horizontal e desarmada constitui o único antídoto eficaz contra o desaparecimento do indivíduo na orgânica mecânica do nosso tempo. Ela é a encarnação viva de uma cultura de paz em substituição da cultura de competição.

Mas onde reside, afinal, o círculo vicioso que paralisa as instituições contemporâneas? Estará no medo de perder a identidade ou na incapacidade de gerir a pluralidade? Na verdade, ele emerge da trágica aliança entre o receio da descaracterização, a gestão da “miséria” institucional, a inércia burocrática e a tendência humana para se refugiar em guetos de identificação fácil. Esta equação complexa revela por que razão a transição para uma consciência integral (Eu-Tu-Nós) constitui um desafio hercúleo e plurivalente. Enquanto as direções se limitarem a administrar a miséria, seja a escassez de recursos, a perda de sócios ou a debandada de militantes, a sua visão encolhe. O foco desloca-se, então, da missão e do horizonte do bem comum para a mera sobrevivência orgânica.

A Patologia do Clientelismo Institucional

Este refúgio na rotina não é inócuo; ele germina e perpetua verdadeiros ecossistemas de clientela, cuja dinâmica se revela em três movimentos complementares e devastadores.

O primeiro é o circuito fechado. As paróquias e os partidos políticos, ao enclausurarem-se na sua própria lógica, passam a produzir conteúdos, linguagens e rituais feitos à medida exclusiva dos seus habitués. Toda a sua energia criativa e comunicacional é canalizada para confortar a clientela fiel, assegurando a sua lealdade a qualquer custo. Contudo, esta sintonia fina com o interior tem um preço exorbitante: o alheamento total em relação ao resto do mundo, que deixa de ser interpelado para ser meramente ignorado.

O segundo movimento é o consolo das máscaras. A rotineira clientela, prisioneira deste ciclo, aceita de bom grado a máscara institucional — sejam as exterioridades formais do rito religioso, sejam a cartilha ideológica do partido. Esta adesão não nasce, porém, de uma convicção profunda, mas da necessidade visceral de se agarrar a uma ilusão de pertença e de certeza num mundo cada vez mais fluido e desconcertante. A máscara funciona como um bálsamo que anestesia a angústia da desorientação.

Da conjugação destes dois fatores emerge o terceiro movimento que se expressa no desdém pelo exterior. Instaura-se um fosso intransponível: quem está dentro olha para fora com desdém ou receio, encarando a alteridade como uma ameaça à sua identidade conquistada a ferros; quem está fora, por seu turno, retribui o olhar com indiferença ou repulsa, vendo naquela instituição um clube obsoleto e surdo. Neste jogo de espelhos distorcidos, a cultura da concorrência e o maniqueísmo politico-ideológico vencem uma vez mais, cimentando a paralisia e inviabilizando qualquer ponte para o diálogo autêntico.

Romper o Enredo da Inércia através de infiltração para o Encontro

Dado que o desafio é plurivalente e as instituições padecem do peso esmagador da inércia, a transformação dificilmente emanará de uma decisão de topo das suas direções administradoras. A mudança estrutural exige, assim, uma abordagem de cissura e infiltração antropológica que atue silenciosamente nos interstícios do poder.

A primeira via é a criação de factos consumados, ou a via prática. Em vez de tentar convencer uma direção paroquial ou partidária a rever a sua visão teórica, o caminho passa por propor pequenos projetos concretos e autónomos, um concerto de conteúdo integral, ações de voluntariado, uma encenação espontânea, um círculo de silêncio, que, valendo-se da logística da instituição, falem uma linguagem universal. Quando a clientela habitual e os novos “caminheiros” se misturam na experiência do belo, o medo da perda de identidade dissolve-se pela evidência da alegria do encontro.

Paralelamente, impõe-se a afirmação de uma identidade aberta, no sentido de uma verdadeira trindade operacional. Importa demonstrar na prática que a matriz trinitária não destrói a identidade, pelo contrário, expande-a. A identidade cristã ou humanista não se perde quando se abre ao diálogo, ao fazê-lo, atualiza-se. O 1 só se realiza plenamente quando descobre que é 3, ou seja, que a sua substância mais íntima é a própria relação com o outro.

Compreender o mecanismo do medo institucional é o primeiro passo para construir as pontes que o contornam. Ora, o poder estruturado na nossa contemporaneidade desenvolveu uma imunidade quase perfeita à mudança orgânica vinda da base. O pragmatismo seletivo transformou a própria sociedade numa vasta rede de clientes. Esta lógica mercantil e de manutenção de privilégios não tolera a osmose com o indivíduo livre; prefere a filtragem e a exclusão para garantir que as engrenagens burocráticas e comerciais continuem a rodar sem sobressaltos. Daí a solidariedade cúmplice entre as instituições: todas têm o indivíduo como suporte, mas todas são solidárias em mantê-lo impotente. Uma cultura que apostasse na pessoa desenvolveria uma escola que ensinasse o aluno a pensar, cultivando um espírito simultaneamente crítico e inclusivo; a instituição, porém, prefere formar indivíduos adaptados e dependentes. Por isso, quando surgem pessoas ou grupos que apresentam conceitos críticos diferentes, a sociedade reage catalogando-os como teorias da conspiração e não como teorias alternativas.

Este mesmo padrão dinâmico, que observamos nas organizações políticas e educacionais, revela-se de forma paradigmática no atual sistema literário e cultural. O sistema editorial contemporâneo já não procura a originalidade do âmago do ser, o “conteúdo integral” ou a qualidade científica; prefere o produto padronizado, os canais de comercialização instalados e os autores que alimentam a mentalidade mercantil do entretenimento rápido ou da ideologia da moda, nomeadamente a literatura que fomenta o politicamente correto ditado pelo sistema (Quem vive do sistema não se insurge e quem está fora dele encontra-se na dependência dele). Desta forma, a autêntica criatividade é asfixiada pela burocracia do mercado e por interesses instalados, revelando que a inércia não se circunscreve à esfera política ou religiosa, mas constitui um fenómeno profundamente cultural. Para que as fissuras sejam verdadeiramente eficazes, terão, pois, de atravessar todos estes estratos, infiltrando-se tanto nos códigos do poder como nos bastidores da produção simbólica.

A Urgência de uma Nova Geração de Líderes e Funcionários

Face à rigidez e à impermeabilidade institucionais, a estratégia terá de se deslocar para a raiz biológica e espiritual das próprias organizações. A formação de uma nova geração de líderes e funcionários, religiosos e não religiosos, emerge como a única via capaz de operar a partir do interior do sistema, precisamente por serem eles os futuros herdeiros das chaves logísticas e do poder instituído.

Para que esta geração não seja corrompida pela inércia burocrática e pelo clientelismo logo à nascença, a sua preparação, em seminários, faculdades de letras, escolas de ciência política, centros de gestão cultural e universidades, teria de assentar em três pilares inovadores:

  1. Uma Pedagogia da Plurivalência que eduque os futuros líderes na capacidade de habitar a dúvida e a complexidade, em vez de os treinar para gerir certezas dogmáticas ou cartilhas partidárias.
  2. Uma Hermenêutica da Complementaridade que ensine a ler as fórmulas basilares das civilizações (como a Trindade, a Encarnação…) como gramáticas de paz e de relação Eu-Tu-Nós, libertando-as do espartilho do maniqueísmo institucional.
  3. A Vocação de Facilitadores, não de Actores formando líderes cujo ego se apague para dar lugar à mensagem e ao espaço de ressonância comunitária, que compreendam que a sua missão não é “administrar a miséria” da clientela, mas abrir as portas à vida encarnada.

Esta lógica formativa deve estender-se, com igual acuidade, às instituições de caráter económico e aos seus funcionários. Para garantir um mínimo de justiça e equilíbrio, seria imperativo estabelecer um teto para os ganhos pessoais, canalizando o excedente para fundações culturais e de beneficência pública, princípio que deveria aplicar-se, de igual modo, aos funcionários políticos. Com efeito, as atuais fundações políticas, tal como concebidas, tendem a estabilizar uma cultura de guerra e rivalidade, em vez de fomentarem uma autêntica cultura da paz.

O Enredamento Silencioso das Novas Lideranças

Dotados de uma visão ecuménica e plurivalente, estes novos guias teriam como primeira tarefa prática subverter a rigidez seletiva precisamente através do enredamento de grupos. Clérigos ou dirigentes com autoridade formal, possuiriam a legitimidade para aceder aos recursos e às redes logísticas atualmente fechadas, colocando-os ao serviço de encontros genuínos, da arte com conteúdo integral e de rituais descentralizados que acolham tanto o crente como o laico. Trata-se, naturalmente, de uma autêntica subversão pacífica exercida a partir das chefias.

Uma vez que a fortaleza do poder secular e religioso está blindada contra os cidadãos independentes e os leigos que tentam forçar a entrada, a solução reside em garantir que aqueles que assumem as muralhas já trazem no coração o desejo profundo de as abrir ao mundo. A crença debate-se na cabeça como um produto de mercado; a fé aberta deita raízes no peito e une-nos ao “Movente” sem precisar de explicações.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo ©

(1) A base filosófico-teológica e quântica para essa reconciliação dos opostos já se encontra no chamado mistério da Trindade em  o 1=3 e o 3=1 e no chamado mistério da incarnação em que em Jesus Cristo se mistura em termos de igualdade matéria e espírito servido a sua pessoa  ao mesmo tempo como bússola. A sociedade ocidental relegou essa visão de complementaridade e de inclusão para os conventos e construiu o modelo institucional secular baseado na dinâmica maniqueia, o que levou a sociedade secular a distanciar-se mais ainda dos modelos orientais. Por isso a acentuação da via mística seja um ponto de saída para o problema e um passo em direção de reconciliação com o oriente. O oriente poderia por seu lado dar um passo no sentido de valorização da pessoa em relação à sociedade.

(2) O Ocidente hiper-racionalizou e mecanizou a sociedade (mediante uma hipertrofia de um certo princípio masculino de controlo e segmentação), esquecendo-se da dimensão receptiva, relacional, cíclica e integradora (o princípio feminino), essencial para a ressonância e para o cuidado da vida.

(3) A resposta à crise secular não é o desprezo pelo progresso material ou pela ciência, mas a sua subordinação a um eixo espiritual. A matéria deve ser vista como a manifestação visível do invisível, e a técnica deve servir o âmago do ser, não a sua alienação

(4) Esta perspetiva pedagógica e política transformaria radicalmente as relações de poder. Se a sacralidade (Deus) não estiver apenas isolada num céu distante ou fechada num dogma, mas for reconhecida na própria comunidade humana em movimento (o Povo), o outro deixa de ser um concorrente ou um objeto funcional e passa a ser um co-caminheiro no Mistério (Neste ponto seria necessário acentuar-se o caracter místico do cristianismo se não quisermos tornar-nos em co-cangalheiros da cultura ocidental).

(5) Numa matriz desta natureza, a Verdade deixa de ser uma posse estática de uma cultura, religião ou partido (o que gera o preconceito e o dogmatismo) e passa a ser um horizonte em construção. Os intelectuais e pensadores de hoje teriam a missão de desenhar os programas de formação que equacionem o referido neste ensaio. Seriam programas que não ensinassem certezas ideológicas, mas que educassem os povos para a capacidade de viver com o paradoxo, de escutar o silêncio, de dialogar na diferença e de reconhecer que a nossa linguagem é apenas descritiva e apenas descreve o caminho, enquanto o caminho se faz caminhando juntos. Esta visão ecuménica e integradora seria a vacina contra a barbárie do egoísmo coletivo e individual. É uma utopia necessária para dar consistência às civilizações que ameaçam desmoronar-se sob o peso do seu próprio vazio existencial. O momento histórico em que nos encontramos mereceria relevância axial.

 

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PARÓQUIAS VIVAS

Quando o Sagrado e o Profano se abraçam na Arte, no Desporto e na Comunidade

Vivemos um paradoxo inquietante porque nunca a humanidade esteve tão sedenta de transcendência e, no entanto, nunca as estruturas religiosas tradicionais pareceram tão distantes do pulsar da vida quotidiana. Esta distância, particularmente sentida pelas gerações mais jovens, não decorre de uma rejeição do Mistério, mas, creio, de uma insatisfação crescente com as circunstâncias onde lhes oferecemos esse Mistério. Os jovens não suportam rituais vazios, palavras gastas (que já não interiorizaram nem conhecem devido ao apagamento de palavras em via na sociedade) e estruturas que privilegiam o poder hierárquico e uma tradição tornada formal em detrimento da autenticidade relacional. Se queremos verdadeiramente presencializar o “protótipo JC”, esse Jesus humano e divino que caminhava na poeira dos caminhos, temos de ousar misturar o sagrado e o profano, a liturgia e a vida, a arte e a ascese, sem medo de que o templo se confunda com a praça. O templo tem espaços para a realização mística ritual sacramental e espaços onde o sagrado e o profano se celebrem em inclusão. (Compreende-se o receio dos mais tradicionalistas, face à hostilidade contra o cristianismo e ao fechamento ideológico das organizações. Contudo, o cristão possui o fogo pentecostal e um legado que perdura. O pároco e a comunidade não se devem atemorizar porque a mensagem é de humanidade e confiança e a paróquia é a casa aberta a todos os que, de boa vontade e espírito aberto, procuram a verdade).

  1. Da Pirâmide à Rede: A Urgente Descentralização das Comunidades

A primeira grande transformação que se impõe é de cariz estrutural e espiritual. Durante séculos, a paróquia funcionou como uma pirâmide: no topo, o clero; na base, os fiéis expectantes. Esse modelo, que um dia cumpriu a sua função catequética e unificadora, tornou-se, em grande medida, infrutífera para um mundo que respira horizontalidade e conectividade. A descentralização de que falamos não é uma capitulação à anarquia, mas um regresso às origens: a Igreja primitiva era uma teia de comunidades interligadas, onde cada membro contribuía com o seu carisma para o edifício comum.

Imagine-se que, em vez de momentos de culto exclusivamente centrados no altar, as paróquias se transformassem em laboratórios de comunhão, espaços onde o regionalismo, as culturas locais e as vozes dos leigos fossem verdadeiramente escutadas e integradas. Tal como a Igreja católica, na sua sábia tradição, sempre contemplou o momento democrático e a valorização das dimensões regionais, também nós, ao nível da paróquia, podemos inspirar-nos nesse espírito sinodal. Não se trata de abolir a autoridade, mas de a redimensionar como serviço. Trata-se de criar (paralelamente) redes descentralizadas onde as decisões surjam a partir das necessidades e dos dons reais das comunidades e não apenas dos decretos vindos de cima. O jovem de hoje não quer ser um “espectador” passivo na missa; ele quer ser protagonista da sua fé, mesmo que isso implique uma “sujeira” criativa e uma certa desordem aparente. (Neste sentido ajudaria o espírito que se encontra no sistema preventivo salesiano (1).

  1. A Arte e o Teatro Improvisado como Liturgia de Cura e Catarse (redenção)

Se a estrutura se descentraliza, os conteúdos e as formas de expressão também devem sofrer uma autêntica revolução pedagógica. Urge focar a ação cultural e religiosa nas artes, no cinema, no teatro espontâneo, nos concertos, na pintura ao vivo, mas com uma condição fundamental: que a mensagem esteja em primeiro plano, e não o intérprete! O palco não pode ser um altar para a vaidade do artista, mas um espaço de kenosis, de esvaziamento do ego. Quando o actor ou o músico se apaga em favor da obra, a arte deixa de ser mero entretenimento para se tornar um canal de ressonância trinitária, uma vibração onde o divino e o humano se tocam.

Ousemos imaginar, nas próprias igrejas e sacristias, sessões de teatro de improvisação onde se pudesse desenvolver uma verdadeira catarse de carácter psicológica, espiritual e física. Nesses círculos improvisados, o indivíduo e o grupo, em interação, expressariam o divino e o humano, a amargura e a alegria de viver, numa autêntica expressão litúrgica de cura e redenção. Longe de ser um acto profano, essa improvisação constituir-se-ia como um espaço de vulnerabilidade sagrada. O ensaio, a falha, o gesto inesperado, tudo isso se tornaria matéria litúrgica, porque aí, mais do que em qualquer rito perfeitamente coreografado, se revela o humano tal como ele é: imperfeito, em busca, aberto ao sopro do Espírito também na descoberta dos próprios dons. O “palco” da igreja deixaria de ser um lugar de distância entre clero e fiéis para se tornar um círculo onde todos são, ao mesmo tempo, actores e espetadores da Graça. O que está em jogo não é a qualidade estética da representação, mas a verdade da encarnação, o Verbo que se faz carne, de novo, em cada gesto partilhado.

  1. O Desporto e o Corpo como Liturgia Encarnada

Afastemo-nos, contudo, do espaço físico da igreja por um instante. Quantas vezes relegamos o desporto para o domínio do “mundano” ou do “distração”, quando ele é, potencialmente, um dos mais poderosos veículos de santidade e comunhão? No desporto, o corpo humano é elevado à sua máxima potência: disciplina, sacrifício, trabalho de equipa, celebração da vitória e acolhimento da derrota. O que é a Eucaristia senão um banquete onde nos alimentamos do Corpo de Cristo? E o que é o desporto senão a celebração do corpo que Deus nos deu, tornado templo do Espírito Santo, precisando para tal de ser consciencializado?

O desporto, quando vivido sem a obsessão da fama e da competitividade desumana, é uma liturgia encarnada. Ele exige precisamente aquela kenosis de que falávamos: o atleta que se apaga em prol da equipa; o corredor que se entrega à fadiga para ultrapassar os seus limites; o adversário que, no final da partida, se abraça ao seu oponente num gesto de respeito mútuo. As paróquias e grupos juvenis deveriam abraçar o desporto como espaço de missão, criando torneios, campos de férias e encontros desportivos onde a competição seja um meio de crescimento pessoal e não de exclusão. Não são rituais de sacristia, mas sim momentos estruturados de paragem, escuta, esforço partilhado e autenticidade, que os jovens possam levar consigo para o seu quotidiano.

  1. A Espiritualidade Despojada: Sem Cheiro a Velas Nem Vénias ao Zeitgeist

Para que esta revolução aconteça, é imperativo que a espiritualidade que a acompanha seja despojada de dois pesos mortos: o “cheiro a velas” (o pieguismo devocional, os rituais vazios e a parafernália que substitui o essencial (2) e as “vénias ao Zeitgeist” (o servilismo acrítico às modas políticas, intelectuais ou tecnológicas do momento). Uma espiritualidade autenticamente evangélica não se pode esgotar na encenação piedosa nem no activismo superficial.

Esta espiritualidade exige uma ascese de atenção: estar no mundo sem lhe prestar vassalagem, habitar a tradição sem a mumificar, e acolher o novo sem se render ao fetiche da novidade. É uma espiritualidade de “cura humana integral”, não alicerçada em definições sobretudo de pertença, mas num carácter simultaneamente corporal e espiritual. É a certeza de que o encontro com Deus não acontece apenas nos momentos de recolhimento individual, mas também no embate dos corpos no jogo de futebol, no silêncio que se segue a uma peça de teatro intensa, na partilha da refeição após um ensaio. A cura integral de que a nossa civilização necessita para não sucumbir à mecanização existencial passa pela redescoberta do “nós” em redes descentralizadas que gerem experiências reais de comunhão.

Conclusão: O Protótipo JC em Cada Gesto

O desafio que lanço a cada pároco, catequista e animador juvenil é este: ousem. Ousem transformar a sacristia numa sala de ensaios. Ousem abençoar os campos de desporto como se abençoam os altares. Ousem misturar o sagrado e o profano, porque, para Jesus, o que era “profano” (a mesa do publicano, o toque no leproso, a conversa com a samaritana) tornou-se o lugar privilegiado da Revelação. O “protótipo JC” não se presencializa em templos imaculados e silenciosos, mas na poeira da estrada, no suor do atleta, na lágrima do actor e no abraço do irmão. A Igreja precisa de menos guardiães de museu e mais jardineiros do humano. As famílias são também lugares privilegiados, que se podem tornar em verdadeiros alfobres de espiritualidade. O momento axial em que nos encontramos pede a visão de um pragmatismo profético. Não tenhamos medo de experimentar, de falhar e de recomeçar. A juventude não espera de nós respostas perfeitas, o que espera é autenticidade. E a autenticidade é, afinal, o único caminho para a verdadeira Redenção.

O cristianismo realizado e a realizar-se em Jesus Cristo encerra nos seus mistérios, que são verdadeira fórmulas da realidade, toda a filosofia e mística, desde a Trindade e a Encarnação-Ressurreição até ao «No princípio era a Palavra», o Logos de João e ao «Eu sou o que sou, sou o tornar-se» do Horeb. Tudo isto envolve o peregrinar humano e a própria caminhada do universo.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

(1) Sistema preventivo na educação dos jovens: https://antonio-justo.eu/?p=1305

(2) . Deve notar-se que o pieguismo, tal como as especificidades de outros grupos, merece espaço na paróquia, já que o sentido é servir as necessidades individuais em processo. Numa sociedade que, em reação à atual tendência para despersonalizar e desautorizar o indivíduo, se terá de orientar cada vez mais para a formação de agrupamentos, a solução passa por as pessoas se organizarem em grupos para poderem ter visibilidade,  voz e espaço na sociedade.

 

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O MOVENTE POR TRÁS DA DESCRIÇÃO (NARRATIVA)

Balde de água fria para mentes sobreaquecidas por certezas

A razão por que não nos movemos a investigar o que se encontra por trás das coisas/acontecimentos e dos pensamentos vem do facto de os pensamentos só descrevem como funciona e não o porquê da força motriz primordial. De facto, a reflexão profunda conduzir-nos-ia a uma angústia epistemológica e existencial humana ao constatar que a nossa linguagem e os nossos conceitos criam uma barreira entre nós e a realidade pura, que nos dificulta lidar com a variedade de interpretações da realidade. A angústia diminui quando percebermos os limites da nossa própria razão e dos métodos científicos. Por isso assistimos a diversas teorias concorrentes para explicar a mente humana. O autoconhecimento conduz-nos à perda da ingenuidade para passarmos a andar com a lanterna de Diógenes na mão a perguntar o que é arealidade que se encontra por trás da resposta. O desconforto intelectual e existencial gerado pela dúvida sobre a natureza do conhecimento; a incerteza nos métodos para alcançar o saber e a dificuldade de lidar com a multiplicidade de interpretações sobre a realidade obriga-nos à atitude de Jesus que convida a andar sobre as águas e quem não confiar sucube nos homens de pouca fé; o luzeiro que realmente importa cuidar.

Se o girassol se deixa mover pela luz, o animal pela fome e o Homem pela curiosidade do mais além, a ciência fica-se apenas pela descrição dos mecanismos sem chegar ao profundo movente deles. Descrever como algo funciona não explica o porquê da força motriz primordial, o movente ou a vontade de ser que sustenta a vida.

Os filósofos, também eles apenas com o instrumento da linguagem, tentam descrever o que está por trás dessa necessidade biológica. O filósofo Arthur Schopenhauer argumentava que as nossas descrições científicas são apenas representações. Por trás de toda a flora e fauna (e de nós próprios), existe uma força cega, incessante e metafísica que ele chamou de Vontade. [1, 2]

Também Baruch Espinoza nos deixou à beira do mistério ao falar do conatus como o esforço intrínseco que cada ser vivo faz para continuar a existir e a perseverar no seu próprio ser. Não é uma escolha livre, mas a própria essência da matéria e da vida. [1, 2, 3]

A opinião como consciência ilusória é uma verdade certa que nos remete diretamente à distinção grega clássica entre Doxa (opinião subjetiva e mutável) e Episteme (conhecimento verdadeiro). O ego humano tende a confundir a sua descrição conceptual da realidade com a própria realidade. Talvez a linguagem seja a roupa com que procuramos esconder a nossa nudez!

O encontro puro seria ir além das palavras: um conhecimento por presença e não por representação

Ao chegarmos à premissa de que a linguagem apenas alinhava o contorno das coisas, a única forma de não dar a impressão de que as descrições são soluções é mudar a natureza do próprio encontro. Na tradição da Fenomenologia ocidental e em certas filosofias orientais (como o Zen ou o Taoismo), propõe-se uma suspensão do julgamento conceptual.

Em vez de olhar para uma árvore e pensar “isto é uma Quercus robur que faz a fotossíntese para sobreviver” (o que substitui a árvore real por um conceito), o desafio é o encontro estético e meditativo silencioso. É a experiência direta do ser antes de o nomearmos (a experiência mística). Quando comunicamos com os outros, admitir a limitação das nossas palavras e assumir que partilhamos perspetivas e não verdades absolutas, é o maior acto de honestidade intelectual e de humildade que podemos ter.

A tragédia das máscaras e o “Dever-Ser” social

Na vivência com a natureza e com as pessoas, sente-se mais a insistência da sociedade em fechar o mundo em definições lógicas e deste modo nos afasta da vibração real da existência. O embate inevitável entre a liberdade interior da vivência pura e a rigidez mecânica da ordem social gera cumplicidades dolorosas, mas compreensíveis. A sociedade necessita de estruturas, definições e previsibilidade para funcionar em massa. A dúvida gera ansiedade coletiva; por isso, a sociedade prefere a segurança de um preconceito ou de uma máscara à vertigem do desconhecido.

O sociólogo Erving Goffman defendia que a vida social é, por natureza, uma representação teatral onde todos usamos máscaras (personas) para desempenhar papéis. O problema que aponta não é a existência da máscara em si — que reconhece como necessária para a convivência —, mas o facto de a sociedade se ter esquecido de que a máscara é apenas um instrumento, não a identidade.

Quando a máscara substitui o ser, a sociedade perde o seu sustento qualitativo. Passamos a ter instituições que protegem dogmas em vez de pessoas, e indivíduos que defendem opiniões convictas apenas para esconder o medo de olhar para o vazio da sua própria falta de autoconsciência.

Resta-nos desenvolver estratégias de fidelidade existencial embora se caminhe sobre águas paradoxais

Para não nos deixarmos esmagar por este condicionamento trágico, existem caminhos filosóficos/religiosos e práticos que permitem manter a fidelidade ao conhecimento por presença (de caracter místico), mesmo vivendo dentro de uma engrenagem assente no preconceito:

Sócrates andava pela praça pública a questionar as certezas dos cidadãos, não para lhes dar uma nova verdade, mas para os libertar do falso conhecimento. Aceitar o paradoxo social significa usar a máscara necessária para transitar na sociedade (cumprir regras básicas, usar a linguagem comum), mas manter uma distância interior higiénica. Sabe que a máscara é uma ficção útil, mas não se confunde com ela.

O filósofo Paul Ricoeur falava  da “Segunda Inocência”, isto é,  da necessidade de passar por uma fase de crítica e dúvida para chegar a uma “segunda ingenuidade” ou segunda inocência. É a capacidade de, mesmo sabendo que as palavras e as estruturas sociais são limitadas e ilusórias, voltar a olhar para o outro e para a natureza com o deslumbramento de quem vê pela primeira vez. Não é ignorância, mas sim um silêncio conquistado pós-saber.

Martin Buber distinguia duas formas de relação: Eu-Isto (onde tratamos o outro ou a natureza como um objeto, uma descrição) e Eu-Tu (o encontro sagrado, direto e presente). A sociedade funciona quase exclusivamente no modo Eu-Isto. O seu papel, enquanto pessoa autoconsciente, não é mudar a estrutura macro da sociedade, mas santificar o micro: garantir que os seus encontros individuais com as pessoas e com a terra sejam experiências reais Eu-Tu, onde a máscara cai temporariamente. Viver na verdade da presença dentro de um mundo de representações é uma forma de resistência pacífica e silenciosa. É aceitar o trágico sem se deixar corromper por ele.

De facto o cristianismo vivido nos conventos abre brechas de encontro puro no meio das exigências formais da vida social. A virtude, a arte e o silêncio partilhado ajudam a criar essas pontes onde as máscaras se tornam mais transparentes.

A vida consagrada mostra uma das fraturas mais profundas da modernidade: a solidão da transcendência secular. Enquanto a sociedade ocidental contemporânea privatizou a busca pelo âmago do ser, transformando-a num projeto estritamente individual ou num nicho de “bem-estar”, o ser humano continua a ansiar por uma ressonância comunitária, por um “Nós” que partilhe da mesma profundidade vertical.

Essa ressonância plena (Eu-Tu-Nós) parece hoje quase exclusiva das comunidades religiosas e prende-se com a própria natureza do sagrado e da estrutura social.

O triângulo da ressonância: Eu, Tu e o Terceiro lemento

Para que a ressonância aconteça a nível coletivo (o Nós) e não apenas no encontro fortuito entre dois indivíduos, é necessário um horizonte de sentido partilhado. O sociólogo Hartmut Rosa, que estudou extensamente o conceito de “Ressonância”, sublinha que esta não pode ser fabricada artificialmente porque ela exige que os sujeitos estejam abertos a ser tocados e transformados por algo fora deles [1].

Nas comunidades religiosas tradicionais ou intencionais existe um horizonte previo

Existe um Terceiro Elemento, um Eixo Vertical Comum (Deus, o Cosmos, o Sagrado, a Tradição) para o qual todos os indivíduos olham em simultâneo. Ao sintonizarem-se verticalmente com esse absoluto, os membros da comunidade sintonizam-se horizontalmente uns com os outros. O “Nós” nasce organicamente dessa triangulação.

Ao contrário da sociedade secular, que quer que tudo seja traduzido em termos de utilidade, burocracia ou opinião acertada, a comunidade religiosa possui uma linguagem (o ritual, o mito, o canto, o silêncio litúrgico) que legitima a vivência do mistério e o despojamento das máscaras sociais (uma linguagem do mistério).

O paradoxal vazio da sociedade secular

A sociedade secularizada e hiperindividualista libertou o indivíduo de dogmas opressores, o que é um ganho inegável. Contudo, ao fazê-lo, substituiu o espaço comunitário da ressonância por uma rede de conexões funcionais ou ideológicas. No espaço público laico, as pessoas associam-se por interesses comuns (políticos, profissionais, lúdicos), mas raramente a partir do seu âmago de modo a estrutura e a força da massa desconsiderar o espaço interior soberano da mesmidade.

Por isso, fora da esfera religiosa deparamo-nos com a trágica constatação de que a busca por uma existência autoconsciente se torna um caminho profundamente solitário. Tentar viver essa inteireza na ágora moderna é, muitas vezes, pregar no deserto.

O dilema do pensador autoconsciente

Isto coloca-nos perante um dilema existencial inevitável, especialmente para quem procura uma fidelidade intelectual:
O Regresso à Comunidade: Integrar ou habitar o espaço de uma comunidade religiosa para usufruir da ressonância coletiva do Mistério, mesmo sabendo (pelo seu olhar crítico) que as estruturas dogmáticas dessa mesma comunidade também criam, inevitavelmente, as suas próprias máscaras e preconceitos institucionais.
O Cuidado das “Comunidades de Afinidade”: Procurar, à margem das grandes instituições, pequenas “comunidades de destino” ou de afinidade (pequenos círculos de pessoas) que, mesmo sem uma religião formal, se unem pelo compromisso partilhado com o silêncio, a mística religiosa, com a filosofia vivencial ou com o cuidado da terra.

Esta necessidade de ancorar a ressonância num “Nós” demonstra que a autoconsciência nunca é um fim em si mesma, porque ela procura, por natureza, a comunhão.

A autoconsciência é insuficiente porque se reduz a uma situação de eunuco e a mesma deficiência se pode observar  em civilizações que ao perderem a consciência específica de si mesmas perdem consistência e sustentabilidade.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagodo
Pegadas do Tempo

 

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O PERFUME DO ENCONTRO

O girassol vira o rosto
Sem perguntar pelo Sol;
Tem no seu corpo o desgosto
De quem vive sem farol.

Mas quando a luz aparece,
Ele inclina-se e aceita;
A mística não se tece
Com a palavra perfeita.

Gente simples sabe bem
Que o amor é que sacia!
Quem faz o bem a alguém
Cria a Trindade do dia.

Deixa a crença no mercado,
Salva a tua fé da feira;
Deus é o abraço dado
À sombra da oliveira.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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AI DA SOCIEDADE QUE NÃO TEM ESGOTO

Uma sociedade sem canais de escoamento intelectual acaba por sufocar

Há sociedades que adoecem não por falta de riqueza, mas por excesso de unanimidade. Não são apenas os monopólios económicos que empobrecem um país; existem também monopólios de ideias, mais subtis e por isso mais difíceis de reconhecer. Não proíbem formalmente o pensamento, mas ocupam-no e embora não o censurem directamente, a realidade é que o saturam.

Também em Portugal, como em grande parte da Europa, cresce por vezes uma atmosfera em que determinadas narrativas tendem a adquirir estatuto ritual, quase litúrgico e que refletem o fervor de olhos e mãos erguidas em torno do ecrã. Questões reais e sérias como o clima, as discriminações, as imigrações, as guerras, as desigualdades e as várias formas de exploração, entram cada vez mais no espaço público acompanhadas por uma intensidade moral que nem sempre favorece a inteligência do problema. O zelo substitui a análise e a proclamação ocupa o lugar da interrogação.

Não é o tema que se torna ilegítimo; é o modo como, por vezes, se instala. O activismo, quando perde a capacidade de se deixar corrigir pela realidade, arrisca tornar-se cantante ao repetir fórmulas, amplificar emoções, criar pertenças e fabricar urgências permanentes. O ruído passa então a valer como prova de razão.

Entretanto, aqueles que conhecem os mecanismos profundos do poder, económicos, tecnológicos, financeiros, ideológicos e burocráticos, continuam a mover-se com discrição. Enquanto o olhar colectivo se fixa no eco das palavras, outros reorganizam silenciosamente os corredores da casa.

Uma sociedade sem canais de escoamento intelectual acaba por sufocar. Tal como uma cidade precisa de esgotos para afastar os resíduos e preservar a habitabilidade, também a vida pública necessita de instituições, meios de comunicação, escolas e cidadãos capazes de fazer circular o ar das ideias (e para isso não chega o barulho interpartidário, tão querido pelo poder porque desvia as atenções para polémicas de interesses). Onde tudo se acumula, até a boa intenção azeda.

Ai da sociedade que se transforma em esgoto de forças que se imaginam o centro do seu próprio universo. Vive então do ruído, da indignação contínua e da substituição do cidadão pela audiência. O indivíduo deixa de participar e limita-se a reagir; deixa de pensar e aprende apenas a alinhar-se.

Por isso, hoje a necessidade política mais urgente não é produzir mais palavras, mas criar mais ventilação. Ventilação intelectual e de interesses em jogo. Necessitam-se mais pessoas capazes de perguntar antes de repetir; de distinguir entre compaixão e exibição moral; entre justiça e automatismo ideológico; entre informação e sincronização emocional.

Uma casa fechada torna-se abafada mesmo quando está limpa. Também o cérebro humano precisa de janelas abertas ao controverso e ao contraditório, precisa de portas para o inesperado, de corredores onde circulem dúvidas e argumentos doutro modo asfixia na narrativa de um sistema ou de uma ideologia.

A grande casa europeia atravessa um desses momentos em que o ar rareia. Não apenas por crises externas ou por limitações materiais, mas também pela fadiga da inteligência governativa: uma tendência para administrar narrativas em vez de enfrentar causas, para gerir percepções em vez de imaginar caminhos. Ao mesmo tempo, actores económicos de dimensão global adquirem uma capacidade crescente de influenciar ritmos, prioridades e dependências.

Nenhuma civilização morre apenas por falta de recursos; muitas começam a definhar quando deixam de distinguir entre consenso e conformismo, entre doutrina e pragmatismos imediatistas.

Talvez o primeiro dever de uma sociedade livre seja conservar limpos os seus esgotos e abertas as suas janelas, porque uma abertura meramente globalista transforma o cidadão em necessitado e mero cliente dos seus produtos.

Uma comunidade nao atenta que não cria canais para escoar excessos, ideologias e resíduos do pensamento arrisca tornar-se irrespirável, malcheirosa e incómoda. Ai da pátria que não tem esgoto: cedo confundirá pureza com estagnação e ordem com sufocação.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

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