AS MTAMORFOSES DO MISTÉRIO

Os enigmas dos chamamentos

António da Cunha Duarte Justo

A natureza, a história e a cultura são a tela 
onde o divino nos chama a situar-nos

Vivemos suspensos entre o indizível e o visível. Tudo o que nos cerca, desde a seiva que sobe na árvore, o eco dos passos que marcam as eras, a palavra que insiste em nascer, tudo é lineamento de um apelo que não se deixa aprisionar em definições. Não somos donos do real, mas espectadores e actores a viver no palco do mistério. A realidade não se desvenda numa única chave, nem é um dado que se submete ao nosso domínio, mas um enigma que se oferece à nossa liberdade numa sinfonia de imensas tonalidades. Diante de nós, abrem-se três grandes “manuscritos” simultaneamente: o livro da Natureza, escrito em metamorfoses e ciclos; o livro da História, tecido de glórias e ruínas; e o livro da Cultura, povoado de símbolos e narrativas. Lê-los exige mais do que a razão instrumental; exige a humildade do aprendiz que aceita ser interpelado, que aceita ser questionado pela pergunta primordial: “Onde estás?”. Ao contemplarmos esta tríplice manifestação, percebemos que o efémero é porta para o eterno e que o sólido se dissolve em gasoso para nos lembrar do voo espiritual.

A natureza não é mero cenário passivo, mas metáfora viva da vida cultural e individual. Em cada biótopo, em cada ecossistema coexistente, pulsa um enigma que nos interpela. Tudo se torna sinal e imagem, um puzzle cósmico cuja solução não está dada, mas proposta como um chamamento misterioso dirigido à humanidade e à própria Terra. Investigar a natureza é, assim, um imperativo hermenêutico, porque a natureza tem algo essencial a dizer-nos, se nos dispusermos a escutá-la para além do ruído superficial da utilidade.

Tal como as pessoas, a natureza ostenta, à primeira vista, uma harmonia aparente. Mas essa harmonia, tal como a refinação do caráter humano, só se revela verdadeiramente na profundidade do tempo e da observação atenta que ultrapassa o imediato e o cronológico. O ser humano assume, então, o papel de observador, análogo ao amante da arte que contempla um quadro. Olha para ele, não para o possuir, mas para se deixar interpelar pelas camadas de sentido que ele esconde. Na natureza, descobrimos os mesmos enigmas que filósofos e artistas, de Oriente a Ocidente, tentaram desvendar. A natureza é, simultaneamente, sonho e realidade concretizada, véu e epifania.

Somos todos alunos do Todo. Ao observar a natureza, o ser humano procura organizá-la e abordá-la nos diferentes níveis, físico, biológico, estético, espiritual, sem excluir nenhum, se quiser que a sua leitura seja verdadeiramente integral. Nesse movimento, oscilamos entre o autorretrato (microcosmo que somos) e a visão do cosmos (macrocosmo). Como na teia de Indra (onde as filosofias hinduísta e budista procura ilustrar a interconexão de todo o universo), onde cada ser reflete todos os outros e o mistério do Todo pulsa em cada fração do mundo. Através de narrativas, filosóficas, científicas ou poéticas, tentamos encontrar-nos a nós próprios no âmbito do todo, desejando sempre seguir o caminho ideal (o Tao que se faz caminho na filosofia chinesa baseada na harmonia com o universo e  ensina a viver com naturalidade, aceitação e sem resistência, numa atitude de “não ação” ou da mera vivência do momento presente) e, ao participar nos sinais dos tempos, representá-los da forma mais plena possível. Na vertente do Ocidente o caminho ideal permanece no chamamento mais próximo do Humano na pessoa de Jesus Cristo, como protótipo para toda a humanidade e criação no “Eu sou o caminho a verdade a vida”!

A tradição católica, nesse ponto, oferece uma intuição luminosa, verdadeiramente católica, ao afirmar que a Revelação não se encerra num único livro pois ela transcende a palavra discurso. Ela desdobra-se em três grandes manifestações, ou seja, a Revelação contida na Escritura de que Jesus Cristo é o protótipo (mais que uma cultura, discurso ou livro), a Revelação presente na Natureza e a Revelação inscrita na História. Cada uma delas exige dedicação e humildade; caso contrário, seguimos a narrativa superficial que nos desvia do caminho, escravizada pelos líderes e pelos seus interesses míopes. Todas elas, porém, ecoam no fundo do Homem e da humanidade a mesma pergunta inicial e fundadora que é: «Adão, onde estás?» e a mesma resposta silenciosa que nos convoca a todos na intuição do «Estou mais além; segue-Me.» A natureza, a história e a cultura tornam-se, assim, o lugar teofânico onde Deus nos interpela e onde somos chamados a transcender-nos.

Infelizmente, a tentação da simplificação é enorme. Esquecemos toda a faixa de cores do arco-íris para seguirmos a redução maniqueísta do preto e branco de uma lógica meramente dialética dos opostos como em Marx. Destruímos, com isso, as complexas estruturas coloridas das ligações e perdemo-nos na máscara pura da realidade, contentando-nos com uma perceção primitiva. A «gravidade» do olhar naturalista prende-nos à crosta do imediato, impedindo-nos de ascender à leveza do espírito. Para tentar compreender o insondável, o mistério, é necessário captar, de forma puramente perspectivista, o caráter efémero do espaço e do tempo; de contrário, tornamo-nos vítimas dessa gravidade que nos afasta da harmonia do todo que é aperspectivo; aquela harmonia que se encontra em paralelo nas diversas revelações que a chamada realidade aplicada esconde, embora pretenda justamente conduzir-nos à Realidade última.

É precisamente nesse ponto que a natureza se nos oferece como símbolo dinâmico do apelo volátil, que corresponde à transformação do sólido em líquido e do líquido em gasoso; isto não é mero fenómeno físico, mas metáfora e indicação do percurso do material para o espiritual. Assim como as árvores florescem nas suas flores e frutos, também o corpo do ser humano floresce no espiritual. O nosso desenvolvimento não pode limitar-se a uma adaptação passiva aos gostos efémeros da época. Também a literatura é chamada a fazer mais do que apenas tornar-se a narrativa do espírito do tempo; ela deve ser profecia, memória e abertura ao transcendente.

Tudo isto deve, porém, acontecer num campo aberto, onde o ser humano, as ciências, os povos e as nações não se limitem ao primeiro impulso de se definirem a si próprios por oposição ao outro. Urge uma cultura de perceção diferente, alimentada por novas imagens profundas, para que não vivamos constantemente num clima de tempestade e para que ousemos criar, finalmente, uma cultura de paz. Estamos incompletos, tal como o mundo; a nossa vocação mostra-nos o caminho numa realidade que não é meramente circular, mas aberta ao novo, como formulou o cristianismo.

Somos, simultaneamente, observadores, actores e realização. “No princípio era o Verbo e o Verbo fez-se carne”, para que, pela carne, regressemos ao Espírito. Não podemos deixar-nos prender nem fascinar pelos fogos de artifício da cultura, mas sim tentar ver o que está por detrás deles: a chama eterna que os alimenta, o “sou o que sou, sou o tornar-se” que no Monte Horeb não quis receber nome para anunciar-se como processo no protótipo Jesus Cristo. O nosso caminho reside no mistério de uma terra obscurecida, mas não abandonada. Estamos todos na oficina do real, aprendizes humildes da realidade, num processo inacabado de busca da Verdade. A luz da inspiração não nos faltará, tal como o sol que, inexoravelmente, brilha sobre a Terra e sobre cada criatura que nela habita, convidando-nos a participar, com toda a criação, no desenvolvimento do mundo e da história, seguindo o apelo misterioso que nos chama para Além.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo Social
Pegadas do Tempo

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A EUROPA QUE SE QUER UNA E SE DIVIDE NUMA GEOPOLÍTICA DO NORTE CONTRA A DIPLOMACIA DO SUL

A lucidez de António Costa entre a oposição da E3 e os interesses negligenciados do Sul

À laia de resumo deste ensaio: A Europa, que se quer casa comum, não pode tolerar que alguns inquilinos se julguem senhores do lar. A velha diplomacia portuguesa ensina que o poder não se mede pela força do punho, mas pela largura do olhar, aquele olhar universalista de quem, sentado no extremo do continente, vê o mundo como um todo, não como um tabuleiro de xadrez dividido entre vencedores e vencidos. Quem só ouve Berlim e Paris, escuta o eco do poder; quem ouve Lisboa, escuta a voz da razão.

Introdução

A iniciativa do presidente do Conselho Europeu, António Costa, de abrir canais diplomáticos com Moscovo não foi um mero gesto protocolar. Foi um teste à coesão da União Europeia e o resultado do teste foi revelador. Ao tentar estabelecer contacto com o Kremlin para avaliar a disponibilidade russa para negociações, Costa expôs uma fratura que há muito se adivinhava, mas raramente se assumia em público: a Europa não fala a uma só voz, nem sabe bem quem deve falar por ela. O que é mais grave ainda é a Europa não se mostrar disposta a ouvir todas as suas vozes porque o grupo E3 (Alemanha, Inglaterra e França) pretende ser a voz da Europa e opem-se veementemente à tentativa de António Costa, Presidente do Conselho Europeu, de preparar relações diplomáticas com Moscovo.

O que está verdadeiramente em jogo não é apenas o protocolo diplomático ou a oportunidade política de um contacto telefónico. O que está em causa é a própria natureza do projeto europeu, a tensão entre as suas tradições políticas, a anglo-saxónica e a latina e a persistente dificuldade em conciliar os interesses de um continente que se quer unido mas que continua a ser gerido por uma lógica de pesos e contrapesos onde nem todos os pesos são iguais.

O E3 e a pretensão de um poder moral

França, Alemanha e Reino Unido, o chamado grupo E3, reuniram-se em Londres com Volodymyr Zelensky para delinear as condições para uma paz “justa e duradoura”. O formato E3, segundo o chanceler alemão Friedrich Merz, teria sido criado “a pedido expresso da Ucrânia”. Mas esta justificação, por mais legítima que seja, não esconde uma realidade mais incómoda que é o facto de o grupo E3 se arrogar a si não apenas o poder económico e militar, mas também um poder moral que, na prática, funciona como uma espécie de colonialismo mental sobre os restantes Estados-membros.

Quando Macron e Merz criticaram a iniciativa de Costa, argumentaram que o momento ainda não era o certo para dialogar com Putin e que, quando esse momento chegasse, deveria ser o E3 a liderar. Mas quem lhes confere esse direito? O tratado europeu é claro quanto ao papel do presidente do Conselho Europeu: é o “representante natural” dos interesses do bloco. Costa, como ex-primeiro-ministro português, não age por capricho ou por vaidade pessoal; age dentro das suas competências institucionais. A reação de Merz e Macron revela menos uma preocupação com o protocolo do que com a perda de controlo sobre o processo.

A geopolítica do Norte contra a diplomacia do Sul

A oposição a Costa reflete duas visões antagónicas da política externa europeia. De um lado, a tradição anglo-saxónica, que vê o mundo em termos de poder, de alianças militares e de vitórias estratégicas. Do outro, a tradição latina e, dentro dela, a velha escola diplomática portuguesa; que privilegia o diálogo, a mediação e a construção de pontes, mesmo com adversários.

Costa defendeu a sua posição com clareza: “Não podemos depender apenas de outros para interpretar as mensagens russas”. O seu objetivo era “estabelecer um canal diplomático” para, “quando chegar o momento, defender os interesses da UE”. Não se tratava de mediar, nem de substituir os Estados Unidos, nem de abrir uma via negocial paralela. Tratava-se, simplesmente, de garantir que a Europa tem uma linha direta com Moscovo, em vez de depender de terceiros para saber o que o Kremlin pensa.

Esta abordagem, que qualquer diplomata experiente consideraria elementar, foi recebida com fúria por Berlim e Paris. Um diplomata do E3 chegou ao ponto de classificar a iniciativa como “altamente pouco profissional”. Outros líderes, como o primeiro-ministro estónio, rejeitaram liminarmente a necessidade de “canais alternativos” com “ditadores”. A mensagem é clara: para o núcleo duro europeu, a diplomacia só é legítima quando gerida por quem se considera no direito de a gerir.

Os países que apoiam Costa e a razão do seu apoio

Mas Costa não está isolado. A Irlanda e a Letónia pronunciaram-se a favor da sua liderança. A Bélgica, na voz do primeiro-ministro Bart De Wever, apoiou-o publicamente: “És o único que nos pode representar”. A Eslovénia saudou “quaisquer passos que possam levar à cessação das hostilidades”. Uma fonte oficial europeia referiu mesmo que “um número enorme” de Estados-membros apoiou a posição de Costa.

Porque razão estes países, muitos deles pequenos ou periféricos, se colocam ao lado de Costa? Porque veem nele a possibilidade de uma Europa que não é apenas o prolongamento dos interesses franco-alemães. Veem nele a esperança de que a diplomacia não se resuma à lógica da indústria bélica, de que a paz não seja apenas uma palavra vazia e de que os interesses do Sul, onde a guerra parece distante, mas os seus custos são quotidianos, possam finalmente ser ouvidos.

Os custos da guerra e o orçamento dos sacrifícios

A pergunta que Costa, conscientemente ou não, colocou no centro do debate é simples, mas incómoda! Por que razão os Estados do Sul teriam de cortar nas prestações sociais, nos serviços de saúde, na educação e no bem-estar das suas populações para financiar uma política de confronto que beneficia sobretudo os interesses industriais e militares do Norte? A União Europeia está a pagar um preço elevado pela guerra na Ucrânia, um preço que, como sempre, é suportado de forma desigual.

Enquanto Berlim e Paris lideram a retórica da vitória “custe o que custar”, são os cidadãos do Sul, com os seus salários mais baixos e os seus Estados sociais mais frágeis, que sentem na pele o impacto da inflação, do aumento do custo de vida e da pressão orçamental para aumentar as despesas com defesa. A unidade da Europa, na visão do E3, serve os interesses do E3. A solidariedade europeia, na prática, tem um programa muito preciso.

A velha política portuguesa e o futuro da Europa

Costa, ao estender as suas antenas em direção a Moscovo sem consultar previamente as potências do E3, não cometeu um ato de indisciplina. O que cometeu foi um ato de lucidez, pois recordou à Europa que a diplomacia não se faz apenas com sanções e com ameaças. Recordou que Portugal, país situado na extremidade ocidental da Europa, longe do centro belicoso do continente, tem uma tradição de mediação entre o Norte e o Sul, entre a Europa e o mundo. Esta posição tomou-a Portugal ao fundar a escola de Sagres em torno do infante D. Henrique, adiantando-se a uma Europa também ela na altura embrenhada em guerras.

A velha política portuguesa, aquela que nos ensinou que é possível dialogar com adversários sem capitular, que é possível construir pontes sem abdicar de princípios, tem muito para ensinar a uma Europa que parece ter esquecido as virtudes da diplomacia e parece renegar a sua herança cultural. Costa não propôs uma rendição, o que propôs, foi que a Europa recuperasse o seu papel de actor diplomático autónomo, em vez de se limitar a seguir a agenda de Washington ou a dos seus próprios membros mais poderosos.

A Europa que queremos perante a Europa que temos

A Europa enfrenta uma escolha fundamental. Pode continuar a ser gerida por um núcleo duro de países do Norte que ditam a agenda e esperam que os restantes obedeçam. Ou pode redescobrir-se como um projeto verdadeiramente plural, onde a voz de Lisboa vale tanto como a de Berlim, onde a tradição diplomática do Sul é tão valiosa como o poder militar do Norte, e onde a paz não é uma concessão aos inimigos, mas uma exigência dos povos.

A iniciativa de Costa foi criticada como “descoordenada” e “não profissional”. Mas certamente foi a mais profissional de todas: a de um diplomata que sabe que o silêncio não é uma estratégia e que a guerra não se vence apenas no campo de batalha. O E3 quer sentar-se à mesa? Que se sente. Mas que não pretenda ocupar todos os lugares. A Europa tem 27 cadeiras. Está na altura de as ocupar todas.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA, AO PARLAMENTO E A TODAS AS INSTITUIÇÕES AINDA EMPENHADAS NA SUSTENTABILIDADE DA CULTURA MILENÁRIA PORTUGUESA

A memória dos antepassados não é um fardo do passado, mas a bússola do futuro. Integrar sem apagar, abrir sem se perder, construir com a sabedoria de quem nos precedeu, é o que move o desafio perene que vos traz esta carta. Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados e Instituições da Nação, é a vós que me dirijo, na certeza de que a integração plena do passado e do presente é o único caminho para edificarmos uma sociedade verdadeiramente humana e universal.

A verdadeira integração nunca se edifica sobre os escombros da cultura que pretende abraçar. Quando, em nome de uma pretensa abertura, se suprime a identidade que nos define, o que se obtém não é coesão, mas sim uma fratura silenciosa e profunda. É precisamente este o cerne da questão que opõe o Presidente da República, António José Seguro, ao decreto do Parlamento e que expõe, de forma crua, o embate entre a defesa do interesse coletivo e a imposição de agendas ideológicas fragmentárias.

Em junho, o Chefe de Estado vetou o diploma que visava proibir o hastear de bandeiras “de natureza ideológica, partidária ou associativa” nos edifícios públicos. Sob o argumento aparentemente plausível de que o texto encerra conceitos vagos e que as causas humanitárias ou ambientais gozam de acolhimento constitucional, o Presidente oferece, na verdade, um flanco perigoso: o da relativização do próprio símbolo máximo da Nação. Ao fazer tábua rasa da distinção entre o que é estruturante e o que é acessório, ele e as forças que o apoiam abrem caminho para que a bandeira nacional seja remetida para um plano secundário, enquanto os estandartes sectários ocupam o espaço público, sem resistência e sem pudor.

Ora, a bandeira de Portugal não é um mero pedaço de pano; é a condensação viva da nossa liberdade democrática, da autoconfiança do Estado de Direito social e da memória coletiva de um povo. Criticá-lo por, de forma velada, alinhar com um ideário globalista maçónico e contestável não é uma acusação leviana; é constatar que a contenção interior que é a base de qualquer estabilidade, se desvanece quando a totalidade é colocada ao mesmo nível da exceção. Quem detém a força da totalidade sabe integrar a diferença sem a exaltar de modo a humilhar a maioria silenciosa que se revê na tradição.

É certo que a afirmação identitária baseada apenas no ímpeto emocional, como a que se vê nos recintos desportivos, comove, mas fomenta um nacionalismo abstrato e estéril, desligado da vida real do povo. A verdadeira lealdade à Pátria não se esgota no grito, mas radica na continuidade de uma herança cultural que nos precede e nos ultrapassa. Nenhum esforço de integração triunfará se, em seu nome, se reprimir a cultura própria ou se menosprezar o pendão que nos congrega. Cabe perguntar, em que podem os cidadãos basear-se, se os seus valores mais caros forem sacrificados no altar da sensibilidade ativista? Não podemos, por respeito a minorias efémeras, abdicar da nossa matriz civilizacional, nem tão-pouco diluir todos os valores num relativismo que iguala o todo à particularidade de um dia.

O Presidente deve ao país uma explicação cabal sobre esta aparente submissão às correntes “woke”. Colocar as bandeiras ideológicas ao mesmo nível da bandeira nacional não é um gesto de pluralismo; é um ato de desrespeito pela coletividade e pela cultura portuguesa. Esse zelo desmesurado, longe de revelar tolerância, denuncia uma confusão estratégica que alimenta o caos simbólico, com o claro propósito de relativizar tudo o que nos é sagrado. Por detrás desta posição, adivinha-se a ação de forças que atuam contra a integridade da Nação, banalizando o seu génio histórico para o entregar, sem defesas, às voragens do globalismo mais raso. Para tal, recorrem ao desmantelamento sistemático dos símbolos e das tradições que floresceram na Europa e que constituem a nossa singularidade.

É profundamente desolador constatar que já não se distingue a regra da excepção. A excepção é legítima, mas quando é alçada à condição de regra, deixa de enriquecer o todo para passar a destruí-lo. Este é o cerne da tragédia que se anuncia: a inversão de valores, onde o acessório prevalece sobre o estruturante e o efémero se sobrepõe ao perene.

Em nome da Razão, que exige clareza e hierarquia; e em nome do Coração, que pulsa pela dignidade do nosso povo, urge que António José Seguro e os representantes do Parlamento reflitam sobre o legado que pretendem deixar. A integração que não respeita a alma de uma Nação está condenada ao fracasso, pois uma Pátria que se envergonha dos seus símbolos é uma Pátria que prepara, em silêncio, a sua própria dissolução.

Com os profundos votos de que a lucidez prevaleça sobre a moda ideológica,

António da Cunha Duarte Justo

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PRESIDENTE SEGURO ABRE PORTAS SEGURAS PARA A VORAGEM DO GLOBALISMO WOKE

Um contra-ataque político do presidente António José Seguro ao serviço do movimento Woke

A verdadeira integração nunca se edifica sobre os escombros da cultura que pretende abraçar. Quando, em nome de uma pretensa abertura, se suprime a identidade que nos define, o que se obtém não é coesão, mas sim uma fratura silenciosa e profunda. É precisamente este o cerne da questão que opõe o Presidente da República, António José Seguro, ao decreto do Parlamento e que expõe, de forma crua, o embate entre a defesa do interesse coletivo e a imposição de agendas ideológicas fragmentárias.

Sem pudor, no dia 10 de junho de 2026, o Chefe de Estado vetou o diploma que visava proibir o hastear de bandeiras “de natureza ideológica, partidária ou associativa” nos edifícios públicos. Sob o argumento aparentemente plausível de que o texto encerra conceitos vagos e que as causas humanitárias ou ambientais gozam de acolhimento constitucional, o Presidente oferece, na verdade, um flanco perigoso: o da relativização do próprio símbolo máximo da Nação. Ao fazer tábua rasa da distinção entre o que é estruturante e o que é acessório, ele e as forças que estão por trás dele abrem caminho para que a bandeira nacional seja remetida para um plano secundário, enquanto os estandartes sectários ocupam o espaço público, sem resistência e sem pudor.

Ora, a bandeira de Portugal não é um mero pedaço de pano; é a condensação viva da nossa liberdade democrática, da autoconfiança do Estado de Direito social e da memória coletiva de um povo. Criticá-lo por, de forma velada, alinhar com um ideário globalista maçónico e contestável não é uma acusação leviana; é constatar que a contenção interior que é base de qualquer estabilidade, se desvanece quando a totalidade é colocada ao mesmo nível da exceção. Quem detém a força da totalidade deveria saber integrar a diferença sem a exaltar de modo a humilhar a maioria silenciosa que se revê na tradição.

É certo que a afirmação identitária baseada apenas no ímpeto emocional, como a que se vê nos recintos desportivos, comove, mas fomenta um nacionalismo abstrato e estéril, desligado da vida real do povo. A verdadeira lealdade à Pátria não se esgota no grito, mas radica na continuidade de uma herança cultural que nos precede e nos ultrapassa. Nenhum esforço de integração triunfará se, em seu nome, se reprimir a cultura própria ou se menosprezar o pendão que nos congrega. Cabe perguntar, em que podem os cidadãos basear-se, se os seus valores mais caros forem sacrificados no altar da sensibilidade ativista? Não podemos, por respeito a minorias efémeras, abdicar da nossa matriz civilizacional, nem tão-pouco diluir todos os valores num relativismo que iguala o todo à particularidade de um dia.

O Presidente deve ao país uma explicação cabal sobre esta aparente submissão às correntes “woke”. Colocar as bandeiras ideológicas ao mesmo nível da bandeira nacional não é um gesto de pluralismo, mas sim um acto de desrespeito pela coletividade e pela cultura portuguesa. Esse zelo desmesurado, longe de revelar tolerância, denuncia uma confusão estratégica que alimenta o caos simbólico, com o claro propósito de relativizar tudo o que nos é sagrado. Por detrás desta posição, adivinha-se a ação de forças que atuam contra a integridade da Nação, banalizando o seu génio histórico para o entregar, sem defesas, às voragens do globalismo mais raso. Para tal, recorrem ao desmantelamento sistemático dos símbolos e das tradições que floresceram na Europa e que constituem a nossa singularidade.

É profundamente desolador constatar que já não se distingue a regra da exceção. A exceção é legítima, mas quando é alçada à condição de regra, deixa de enriquecer o todo para passar a destruí-lo. Este é o cerne da tragédia que se vai anunciando e se encontra em franco progresso através da implementação de um globalismo woke e se anuncia na inversão de valores, onde o acessório prevalece sobre o estruturante e o efémero se sobrepõe ao perene.

Em nome da Razão, que exige clareza e hierarquia e em nome do Coração, que pulsa pela dignidade do nosso povo, urge que António José Seguro reflita sobre o legado que pretende deixar. A integração que não respeita a alma de uma Nação está condenada ao fracasso, pois uma Pátria que se envergonha dos seus símbolos é uma Pátria que prepara, em silêncio, a sua própria dissolução.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

PS: Não é por acaso que o movimento «woke» se interliga e se expande com a ajuda de órgãos governamentais e administrativos. Isso deve dar-nos que pensar e urge fazê-lo, mesmo que pensar nos custe e até cause dor!

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A MASMORRA DA TORRE DE VIGÍLIA

Desce do alto, pois o olhar do mirante
é vidro espesso que te separa do mundo.
A vida corre em baixo, ofegante,
e a pedra é dura só no olhar profundo.

Se a tocas, é calhau que a água molha,
se a evitas, é muralha que te cerra.
A noite que na tua alma se recolhe
é o eco da razão que faz da terra
um campo estéril onde a mente semeia
areia grossa em vez de branda relva.

A cruz que pesa e que o teu dorso encadeia,
se a ergueres com braços, torna-se em selva,
mas se a arrastas no chão, feita corrente,
enforca o coração na própria gente.

Vai, toca a folha que o sol chama e sente,
e deixa o pé na água que não mente.
O sério da vida é não levá-la a sério,
sê água, sê raiz, sê sol, sê ar,
que o todo cabe num só hemisfério
se o deixares sentir, não explicar.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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