Adão e Eva e os dois caminhos culturais do Ocidente e do Oriente
Quando se lê a narração do Livro do Génesis, podemos entendê-lo não apenas como narrativa religiosa, mas também como símbolo do alvorecer da consciência humana. Na narração de Adão e Eva expressa-se o nascimento da consciência do Ocidente marcada pela palavra, pela relação e pela historicidade.
Eva representa o despertar da interioridade na humanidade. Enquanto o espírito de Adão ainda se encontra imerso na natureza, numa unidade indiferenciada com o mundo animal, Eva desperta para a distinção entre interior e exterior. Ao reconhecer a própria sombra, percebe que existe um “dentro” e um “fora”. Esse momento é decisivo e dá início ao nascimento da autoconsciência.
A árvore do conhecimento não é apenas objeto de transgressão moral, é símbolo de orientação porque dá direção e proporciona desenvolvimento. Eva não consegue atingir toda a ciência da árvore da sabedoria porque apenas prova um fruto que reparte com Adão; deste modo, dá o salto da vida inconsciente animal para a humana, inaugurando a diferenciação, sem, contudo, conseguir alcançar a totalidade. A fragmentação torna-se assim destino da natureza humana, surgindo então a experiência da separação.
O ponto culminante para o desenvolvimento da cultura ocidental tem origem no chamamento de Deus a Adão (humanidade) e equaciona-se nestas suas três palavras: “Adão, onde estás?”
Este chamamento inaugura algo essencial na determinação da cultura ocidental e consiste na palavra (Logos) que interpela, numa pergunta que pressupõe resposta. Deus não acusa, apenas pergunta. A pergunta convida à localização interior, pois antes de começar a ação, é preciso situar-se. Este gesto, no meu entender, funda o movimento típico do Ocidente que se desenvolve numa dinâmica de pergunta e resposta, de tentativa e erro. De facto, antes de tudo está a palavra a preceder os acontecimentos, seguida da reflexão que antecede a ação e depois de se estar bem posicionado e com os “pés” firmes trata-se então de dar resposta no seguimento do chamamento.
É precisamente aqui que nasce a cultura do eu diante do tu, da relação dialógica, da responsabilidade pessoal no contexto de uma terceira realidade que é o nós; o nós é como que o intervalo experimentado, em Deus presente, que é a outra dimensão do ser.
A Linearidade e a Espiral
Assim, o Ocidente desenvolve-se como cultura da história, do tempo linear (1), da direção (sentido, do alfa para o ómega: princípio, meio e fim). Como se vê já na história do povo de Israel, que a Bíblia narra como peregrinação com início, queda, redenção e consumação. Com o cristianismo, a linearidade desenvolve uma outra perspetiva que encontra expressão na formulação trinitária, onde essa linearidade ganha uma dinâmica relacional, diria, dimensão em espiral que ultrapassa o dualismo e o hiato entre imanência e transcendência.
A doutrina da Trindade, articulada nos primeiros séculos e consolidada em concílios como o de Concílio de Niceia, introduz uma estrutura relacional no próprio conceito de Deus e expressa-se na unidade que é comunhão.
Logo, o tempo ocidental deixa de ser apenas lineal para se tornar linha em espiral e porque há direção, dá lugar à repetição (como é específico da cultura asiática), mas nele cada regresso ocorre em nível mais profundo.
Na via ocidental a pessoa torna-se o centro da cultura, não como indivíduo isolado (gota no oceano), mas como ser constituído na relação assumindo responsabilidade (ôntica). A linguagem torna-se instrumento de mediação. Pensar é separar para depois unir, é dividir para integrar (ao contrário da prática política geral que se expressa numa cultura da rivalidade).
Eva, ao inventar a linguagem, funda a distância entre sujeito e objeto. Essa distância gera ciência, filosofia, direito, política, mas também gera angústia, fragmentação e conflito.
A visão oriental: imanência, silêncio e ciclo
Em contraste, muitas tradições orientais, como o Budismo, especialmente na sua expressão Zen, não colocam a ênfase na interpelação verbal nem na transcendência pessoal (porque permanece na imanência, existe intrinsecamente dentro do ser ou objeto,)
O ideal zen é frequentemente descrito como coração-espelho. Isto é, reflete tudo, não retém nada e não se apropria (também porque não é pessoal).
Nele o vazio não é carência, mas liberdade. A ausência não é perda, mas leveza. Enquanto no Ocidente a pergunta original é “Onde estás?” no Oriente a pergunta original é “Quem é aquele que pergunta?”. Duas perguntas que determinam mundivisões diferentes.
Poderíamos resumir a diferença dos dois caminhos culturais em cinco palavras-chaves. Os conceitos definidores do Ocidente são: Palavra (ou logos), Chamamento (individualizado), História Linear (com início, meio e fim), Pessoa relacional (individual), Transcendência (de um Deus). As palavras correspondentes definidoras do Oriente, pela ordem apresentada são: Silêncio (ou Consciência), Harmonia (ou Dharma), Ciclo (ou Ritmo), Interconexão (ou Coletividade) despersonalização), Imanência (ou vazio).
No Oriente, a linguagem é vista como distância excessiva do real. Falar é já separar-se do acontecimento. E isto porque nesta cultura o céu não fala; nela o céu é, pura e simplesmente. A busca não é pela origem metafísica, mas pela libertação do apego. (A libertação definitiva do sofrimento -Nirvana – reconhece a natureza da realidade como vacuidade/interdependência)
Agarrar-se é sofrer. Escapar ao apego é libertar-se.
O conflito entre caminhos
A pergunta mais profunda não é histórica nem filosófica, mas sim existencial e resume-se nesta: Porque é que povos e pessoas, em vez de reconhecerem o seu caminho e aceitarem o dos outros, falam mal do caminho alheio?
A resposta tem certamente a ver com a insegurança identitária (donde venho, onde estou, quem sou e para onde vou).
Quem não compreende e não reconhece o próprio caminho sente o outro como ameaça. A opinião (a mundivisão, ideologia), quando reivindica o todo, transforma-se em violência.
O medo gera escravidão e o escravo inconsciente torna-se numa extensão do senhor e, deste modo, torna sustentável uma cultura da rivalidade como na cultura de Caim e Abel, cultura esta adversa à cultura de paz iniciada pelo novo Adão. Sim, porque, quando não há diálogo, resta a luta.
O diálogo autêntico não é fusão, nem é dissolução no outro. É atitude madura de permanecer na transição, sem perder identidade. Então torna-se natural que entre dois seres conscientes exista sempre um espaço: um espaço é tensão, mas que é também possibilidade de reconhecimento. Neste caso, embora na diversidade, tanto a teologia da trindade do ocidente como a visão oriental têm aspetos muito comuns. A relação da fórmula trinitária seria o caminho mais adequado para se construir uma cultura da paz e um futuro em que a complementaridade poderia fazer parte da consciência social dos povos. Neste sentido o Ocidente terá de recuperar o caminho místico, como já avisava Karl Rhaner.
Duas místicas, dois riscos
Se observarmos as mundivisões da perspetiva da águia, tanto o caminho ocidental como o oriental incluem grandeza e perigo. No caminho ocidental o risco situa-se no excesso de racionalização, na fragmentação (divide et impera), na dominação técnica e na perda do silêncio (que é o lugar onde a alma respira para se reencontar). Por sua vez, o risco oriental situa-se na dissolução da pessoa, na indiferença histórica e na fuga do sofrimento sem transformação do mundo.
Resumindo poder-se-ia dizer que o Ocidente ilumina como vela na noite e o Oriente se dissolve como gota no oceano.
Na realidade, ambos são verdadeiros, mas complementares. No diálogo das mundivisões e culturas a síntese fulcral a tentar seria entre a Palavra do Ocidente que se expressa como chamamento, relação, história e o Silêncio do Oriente que se expressa como presença, imanência, ciclo. A visão de Teilhard de Chardin seria aqui um caminho a ser aprofundado.
Uma Possível Síntese interior entre a Palavra do Ocidente e o Silêncio do Oriente
Talvez o futuro para o Oriente e para o Ocidente não seja escolher entre palavra ou silêncio, entre atividade ou convento, mas aprender o ritmo entre ambos. Neste sentido seria optar por uma atitude de complementaridade de um silêncio que escuta, da palavra que chama, de uma ação que nasce da reflexão e da contemplação que não abandona o mundo, mas se encontra em processo de transcendência (Em termos ocidentais poderia isto também significar transformar os conventos de ordem ativa em praça pública).
A pergunta “Adão, onde estás?” pode ser escutada também no silêncio Zen. E o vazio Zen pode ser compreendido como purificação do apego que impede o diálogo verdadeiro.
Assim, como se pode verificar, no chamamento a Adão não há culpa, há perspetiva. E também não há condenação, há consciência…
Cada pessoa, conforme a sua constituição, pode inclinar-se mais para a via da palavra ou para a via do silêncio, mas na consciência que toda a natureza embora repetindo-se segue um chamamento implícito que lhe proporciona desenvolvimento. A maturidade talvez consista em reconhecer que o próprio caminho não esgota o real; que o outro não é ameaça, mas espelho e que a diferença é condição de relação, mas em que cada pessoa está chamada a ser um microcosmo de toda a realidade (para cristãos o melhor exemplo ou protótipo é Jesus Cristo onde se encontram reunidos encarnação e Ressurreição).
Entre eu e tu permanece sempre uma distância que não deve ser abolida e é nela que nasce a liberdade e aquilo a que poderíamos designar de dignidade humana, do ser pessoa, aquele espaço-intervalo onde se alberga o mistério, o divino.
Chamamento coletivo
O mito de Adão e Eva, lido desta forma simbólica, não é apenas narrativa religiosa, é descrição do nascimento da autoconsciência, da linguagem, da responsabilidade e da história. Por seu lado a tradição oriental lembra-nos que antes da palavra há respiração, antes da identidade há presença (como poderemos também intuir no Ocidente a partir dos acontecimentos entre o calvário e a Ressurreição, o momento do silêncio e do sepulcro vazio em termos religiosos, a experiência da sexta-feira santa).
Digno de consideração é verificar que o verdadeiro caminho não será nem a pura linearidade nem o puro ciclo, mas uma espiral consciente onde silêncio e palavra se iluminam mutuamente. E aqui a pergunta permanece viva, não como acusação, mas como orientação, na tentativa de resposta ao “Onde estás”?
Se a pergunta primordial dirigida a Adão foi “Onde estás?”, então ela também não pode ser reduzida à intimidade do indivíduo. Também as civilizações são chamadas a situar-se. A União Europeia, enquanto herdeira de uma tradição fundada na consciência, na palavra e na responsabilidade histórica, não está dispensada dessa interpelação.
Quando uma cultura que nasceu do exercício reflexivo da interioridade deixa de escutar a própria voz e passa a orientar-se predominantemente por lógicas de confronto, de estratégia e de poder, algo se desloca nas bases que a sustentam. Não se trata de negar a necessidade de defesa ou de decisão política; trata-se de perguntar se essas decisões brotam de uma autoconsciência amadurecida ou de uma adaptação acrítica ao ruído exterior.
A voz que pergunta “Onde estás?” não é confessional; é estrutural. É a exigência de coerência entre identidade e ação. Uma cultura que separa a sua retórica humanista da sua prática histórica assume o risco de viver numa duplicidade: proclama valores universais enquanto age segundo imperativos circunstanciais. Essa ambivalência é sinal de uma consciência fragmentada.
Quando o indivíduo é chamado à responsabilidade, mas a comunidade política age como se estivesse dispensada de exame interior, instala-se uma forma coletiva de inconsciência. E a inconsciência, quando organizada, torna-se perigosa.
O verdadeiro desafio europeu não será afirmar-se no terreno do confronto, mas reencontrar o seu centro. Não um centro religioso no sentido estrito, mas um centro integral onde palavra, memória, responsabilidade e ação voltem a coincidir.
De facto, uma cultura que não sabe responder onde está acaba por ser conduzida por forças que não sabe ou não se atreve a nomear.
Ocidente e Oriente simbolizados numa Árvore e num Espelho
Num convento beneditino onde além de retiros espirituais cristãos se faziam meditações Zen e exercício de Yoga, o superior do convento era convidado a fazer o encerramento dos cursos e costumava contar a seguinte parábola: Conta-se que, no princípio, havia uma árvore no meio de uma clareira e, diante dela, um espelho apoiado numa pedra.
A árvore crescia em direção ao céu, ramo após ramo, como quem procura uma resposta. Cada folha era uma pergunta e cada fruto, uma tentativa de compreender.
O espelho não procurava nada. Não subia nem descia, apenas permanecia. Quando o vento passava, refletia o vento e quando a noite chegava, apenas refletia a noite. Nada guardava nada nele e nada retinha.
Um dia, um viajante entre culturas chegou à clareira. Olhou para a árvore e sentiu o impulso de subir, de ver mais longe, de distinguir e de dar nome ao que a sua vista atingia. Depois olhou para o espelho e sentiu o convite a parar, a esvaziar-se, a estar simplesmente presente.
Ficou hesitante, sem saber se escolher a árvore a que pretendia subir ou o espelho.
Então percebeu algo: a árvore só podia crescer porque a terra era silenciosa e o espelho só podia refletir porque havia luz.
O viajante compreendeu, então, que a sua peregrinação não se delimitava na escolha entre a árvore e o espelho, mas na lenta aprendizagem do momento próprio para subir e para permanecer. E, no entanto, sabia-se a caminho, movido por um chamamento pessoal que não era apenas seu, que ecoava no âmago do seu ser e, ao mesmo tempo, em toda a natureza. Nesse apelo primordial, tantas vezes se confundia com o reino vegetal, pois lhe parecia que também ele, na sua mudez vertical, cumpria um destino no sentido do sol, seguindo a órbita desse eco luminoso, semelhante ao eco espiritual que o peregrino sentia na sua alma.
Descansado, ao partir, levou consigo uma certeza silenciosa: há momentos em que a vida nos chama pelo nome e há momentos em que ela apenas nos pede que estejamos.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo. Social
Pegadas do Tempo
(1) Na Concepção Ocidental ( Linear-Espiral, ascendente) o tempo é um recurso finito e um vetor que avança irreversivelmente do passado (origem) em direção a um futuro (télos/fim). É frequentemente associado a uma flecha ou espiral (progresso), ele implica evolução, inovação e uma história que não se repete, e se expressa na simbologia cristã com o Alfa e o Omega na esperança de salvação depois de um juízo final segundo as tradições judaico-cristãs.
Na Concepção Oriental (Cíclica, repetitiva) o tempo é um palco de eterno retorno, regido por ciclos cósmicos de criação, destruição e renascimento (ex: Samsara hinduísta/budista, Roda do Dharma). Não há um fim absoluto, mas sim revoluções constantes, onde a história é padronizada e a salvação reside em transcender a roda do tempo, não em acelerá-la.