(Em homenagem à Arte das Cantigas de Escárnio e Maldizer
testemunho aqui o Estado da Atualidade político-social
de bom Senso desalojado e de delírio coletivo)
Bem-vindos ao espetáculo, senhoras e senhores,
Ao grande teatro europeu dos sonâmbulos!
Onde Bruxelas, essa Babel climatizada,
Fabrica leis como quem cospe papéis mascados.
Aqui os tratados leem-se de pernas para o ar,
Como manuais de instruções chineses mal traduzidos.
A liberdade? Essa velha prostituta reformada,
Agora vende cosméticos em discursos polidos.
Os valores, ah, os valores! Servem de papel de embrulho
Para o bezerro de ouro que mugia na sala VIP.
Cada burocrata, doutorado em prestidigitação,
Transforma responsabilidade em fumo de cachimbo hip (da moda).
No topo da torre de vidro, menos senso que na tasca,
Onde o Zé da esquina resolve o mundo em três cervejas.
Mas nós? Somos a plateia obrigatória desta ópera bufa,
Aplaudindo quem valsa com o diabo nas festas alheias.
Portugal, esse palco de marionetas baratas,
Onde treze mil almas dormem em papelão sob as estrelas,
Enquanto os iluminados gastam milhões em gala diplomática:
“É o preço da grandeza!”, urram da sua janela.
Na Alemanha, a fornalha militar devora fortunas,
O povo encolhe como roupa mal lavada na máquina.
Mas tranquilos! Os estadistas de gravata apertada
Representam o progresso na televisão matina.
A mão invisível de que falam os economistas de sofá?
Essa não move mercados, move tachos e contratos!
Vira concursos como quem baralha cartas marcadas,
Num clube onde só entram os bem aparentados e natos.
Narrativas opacas, esse cimento pós-verdade,
Esmagam o mérito como quem pisa formigas no chão.
A tribo no poder, com seu código de sangue,
Banqueteia-se enquanto ao povo sobra a escuridão.
Portugal, esse salão de espelhos embaciados,
Onde todos se conhecem desde o berço ou da maçonaria.
Sobe-se não por talento, isso é coisa de otários!
Mas por quem sabe a cor da cueca da hierarquia.
Democracia nepótica, república de compadres,
Onde o humano mostra sua face mais podre e pequena:
Carreiras feitas de traições bem documentadas,
Estátuas erguidas sobre fundações de hipocrisia obscena.
E a corrupção? Essa senhora respeitável,
Vive confortável no ar condicionado dos gabinetes.
Tem cartão de membro, pensão vitalícia,
E manda beijinhos aos cidadãos marionetas.
Mas o povo, ah, o povo! Esse coitado cego,
Ainda sonha com justiça, verdade, horizontes claros…
Como quem acredita em Pai Natal aos quarenta anos,
Enquanto os doutos leem tratados ao contrário nos seus carros.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
Nota do autor:
Esta é uma Cantiga de Maldizer que se identifica com um bobo da corte que ainda acredita que o riso pode curar a lepra política. A verdade é que não pode, mas pelo menos entretém enquanto afundamos!
Aqui há também que ter em conta que, cinismo em doses excessivas pode causar lucidez súbita, e isso assusta os bem-instalados e causa estranheza aos cordeiros. Que possam servir de alerta, embora suspeite que quem precisa de ouvir está ocupado em aplaudir o próximo ilusionista na televisão. Esta cantiga foca-se no circo político europeu e nas suas personagens grotescas que se imitam e repetem umas às outras, mas na praça só uma criança não bem-educada poderá notar que o rei vai nu. Quem vive num só país membro da EU terá dificuldade em observar a banalidade com que se repetem em cópia perfeita dos altifalantes de Bruxelas-Berlim que no momento demostram ter os mais desqualificados políticos de sempre. O mesmo se constata com os diferentes jornais. Na poesia falo de tratados lidos ao contrário querendo referir-me ao Tratado de Lisboa que pretendia reforçar a eficiência e a legitimidade democrática da União e melhorar a coerência da sua ação. O objetivo central da UE era promover a paz, os seus valores e o bem-estar dos seus povos. Os dançarinos do poder abandonaram o povo para se perderam em cenas quiméricas sob a bandeira do internacionalismo e do progressismo ideológico