À MÃE SEMENTE E ALFOBRE

Mãe, graças te dou por teres semeado
no ventre da terra que nunca julgou
o grão mais perfectível e delicado
que em mim germinou e depois frutificou.

Teu colo foi ninho de aurora primeira,
tão cedo partido, que falta me faz!
os beijos que agora são névoa passageira
guardei nos poros, do toque veraz.

Sem competição, teu sucesso foi pleno:
abraçaste o silêncio, a humilde razão,
tempera de dores, trabalho e aceno
de mãos que afagaram a minha estação.

Na frágil matéria do existir que vergaste
com ânimo seguro e divina fronte,
despiste a noite onde reslumbraste
no limiar que une a terra ao horizonte.

Teus sonhos, que em nós se fizeram criança,
agora nos filhos alegres são voo,
reconhecimento que em dança se lança
no ar que teu sopro primeiro abençoou.

Mãe, tu não envelheces: és múltipla, inteira,
por ti floriram da mulher as estações,
menina, donzela, anciã, companheira,
trazendo no colo as humanas nações.

O mundo em teus braços repousa e floresce
sem vento que o areje, mas dá melhor fruto:
és côncava lua que nutre e aquece,
és mesa que congrega e converte o absoluto.

Em tua casa estou na minha, és o centro,
o tempo que passa te vestes de amor;
homens e mulheres transitam, enquanto
tu ficas, farol, na espiral da flor.

Sei bem que há mães feridas, sombra e ciência
que passam ao fruto o veneno a expiar,
mas hoje é teu dia, de plena clemência:
o sol do teu riso faz tudo esquecer.

Mãe, dança connosco na seiva que dobra
a espinha do mundo de tanto acolher.
És infinito, natura, que se desdobra:
cantar-te é nascer, sempre mais, a crescer.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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1.º DE MAIO: O DIA EM QUE AS MÁQUINAS CHORAM POR NÓS

Era uma vez um mundo que trocou as mãos calejadas por dedos de aço, os suspiros dos cansados pelo zumbido infalível das máquinas. Hoje, no primeiro dia de maio, os sinos dobram, mas não celebram porque o seu tocar parece de lamento. Soam por aqueles que ainda se chamam trabalhadores, embora o trabalho já não os reconheça como seus.
Os homens outrora conquistaram este dia como um refúgio no calendário do suor, um instante de respiro entre a servidão dos séculos. Mas que ironia: ganharam um dia e perderam os outros. Os salários, mínimos como esmolas, compram pão, mas não compram horizonte. Sustentam o corpo, mas deixam a alma em jejum. E enquanto os relógios de ponto viram algoritmos, os direitos desmancham-se no ar, como fumo de chaminés abandonadas.
A automação chegou sem piedade, vestida de progresso, e onde pisou, deixou pegadas de desalento. O operário, antes explorado, agora é ignorado. Suas mãos, que moviam o mundo, são peças sobressalentes num mecanismo que se autorepara. O capital desalmado, esfinge insaciável, devora até seus próprios filhos—e os que sobram, assistem, esfaimados de futuro, à decomposição da própria dignidade.
Onde estão os sindicatos? Onde estão os gritos que furaram o céu como fachos? Mudos, encurralados pela engrenagem que não tem ouvidos, apenas rodas dentadas. Resta ao Homem a escolha de se render como peça solta ou erguer-se como brasa. A precarização é cada vez mais abrangente pois não é só do ofíciomas sobretudos da alma. O trabalho sem rosto cria homens sem nome.
Os governantes, feiticeiros de números, falam em produtividade, em flexibilidade, em revoluções digitais, que no final se revelam como palavras vazias que rolam como moedas falsas. Suas leis são escritas em código binário, sem espaço para lágrimas ou suor. Enquanto isso, a vida torna-se líquida, escorre por entre os dedos como areia de horas extras não pagas. O Ocidente, outrora farol, agora é um navio à deriva, com velas rasgadas pelo mesmo vento que soprou sobre os colonizados. A roda da história gira, e os de baixo começam a exigir o que lhes foi negado, enquanto os de cima já nem sabem o que é humanidade.
Na sombra deste dia, São José Operário estende suas mãos marcadas pela plaina. Carpinteiro, pai, homem mas não algoritmo, não função nem estatística. Se queremos resistir ao dilúvio de cifras, não basta lembrar Chicago; é preciso invocar o milagre do trabalho que não humilha, que não reduz, que não descarta.
E Portugal, pequeno barco neste oceano de ferrugem e silício? Entre o centralismo que esmaga e o globalismo que desfigura, só nos resta a rebeldia das raízes. A Europa será federal ou não será, pois só um mundo feito de pátrias humanas, não de impérios digitais, merece ser chamado de civilização.
A tarefa que nos cabe é antiga como Caim e Abel: lutar contra a exploração que mata o corpo e a alienação que aniquila a alma. Enquanto houver um só homem que levante a cabeça e pergunte “por quê?”, a chama não se apagará. Não por um mundo de máquinas perfeitas, mas por um mundo de homens imperfeitos, livres, iguais em dignidade, donos de seu suor e de seu sonho.
Tanto trabalhador na carência numa sociedade que se quer fina e rica. Ele constrói a casa que não habita e habita a falta que não construiu. A reforma é um eco do salário, a carência a parede que lhe cai em cima. E a a pátria, que lhe chama ‘cota’, esquece que foi ele quem a ergueu.
António da Cunha Duarte Justo

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A MAIA À PORTA

Diz a memória enterrada nas raízes do mundo
que uma criança (1) já foi escondida na noite
sob o disfarce das flores,
e que desde então
a luz aprendeu a fingir-se de campo.

Mas antes disso, muito antes,
já a terra celebrava o seu próprio regresso,
já o sangue verde subia pelos troncos
como um cântico sem língua,
já o sol era invocado em pétalas
para que o inverno esquecesse o caminho de volta.

Lembro-me da noite
como quem lembra um segredo
dito em voz baixa pela terra.

Em Várzea, naquela Arouca,
abril acabava devagar,
como se tivesse medo de partir,
e as mãos já sabiam o caminho
antes de o corpo chegar ao campo.

Íamos ao monte buscar a giesta,
amarela como o sol que ainda não era,
leve como se o mundo coubesse nela.

Havia qualquer coisa no ar,
não sei se era medo
ou respeito pelo que não se via.

A freguesia dizia:
“é noite de coisas más a passar”
e eu olhava a estrada vazia
como quem espera
que o invisível tenha forma.

Mas depois vinha o gesto,
simples, certo, antigo,
de colocar a maia à porta.
e então tudo mudava.

A casa ficava mais casa,
como se tivesse aprendido a defender-se,
como se alguém, muito antes de nós,
tivesse deixado ali um aviso de luz.

A minha mãe ajustava os ramos
com um cuidado quase sagrado,
e o silêncio era diferente,
não era vazio,
era cheio de proteção.

Eu não entendia tudo,
mas sentia.

Sentia que aquela flor
não era só flor,
que aquela noite
não era só noite,
que havia uma história
a acontecer dentro de nós
sem precisar de palavras.

E depois, vinha a manhã.
E nada tinha acontecido,
ou possivelmente tudo.

Porque a porta continuava inteira,
o mundo ainda estava no lugar,
e a maia, depois já mais murcha,
guardava o segredo de ter vencido.

Hoje, longe desse tempo
que ainda vive em mim,
sei que não era só (uma) tradição.

Era a forma que tínhamos
de pedir à vida que fique.
De novo, a terra assim,
reaprende a nascer.

António da Cunha Duarte JustoFormularbeginn

Pegadas do Tempo

(1) A lenda das Maias, profundamente enraizada no norte de Portugal, narra que, durante a fuga da Sagrada Família para o Egito, um delator assinalou a porta da casa onde o Menino Jesus dormia com um ramo de giesta florida. A intenção era guiar os soldados de Herodes até ao local, para que pudessem matá-Lo, pois o rei temia o surgimento de um novo monarca, conforme anunciado nas escrituras. Contudo, por intervenção divina, na manhã seguinte todas as portas da aldeia amanheceram adornadas com giestas amarelas, tornando impossível aos soldados identificar a morada de Jesus.

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TRADIÇÃO DA MAIA

A Festa da Maia, celebrada em várias regiões de Portugal na noite de 30 de abril para 1 de maio, é uma dessas tradições em que o tempo parece sobrepor camadas de sentido, pagão, cristão, rural, sem nunca perder o seu caráter profundamente comunitário e simbólico.

As suas origens perdem-se em tempos remotos, muito anteriores à cristianização da Península Ibérica. A Maia está intimamente ligada aos antigos rituais de celebração da primavera, marcando a renovação da vida, o despertar da terra e a promessa de fertilidade. Tal como outras festividades europeias associadas ao mês de maio, evoca a transição do inverno para uma estação de abundância, luz e crescimento. O próprio nome poderá estar associado à deusa Maia da tradição clássica, símbolo de fecundidade, ou simplesmente ao mês que anuncia a plenitude da natureza.

Com a expansão do cristianismo, estas práticas não desapareceram, mas foram reinterpretadas. A tradição popular portuguesa integrou elementos cristãos, dando-lhes novos significados. Uma das narrativas mais difundidas,  como bem recordo da minha memória de infância em Arouca, associa as “maias” à proteção da Sagrada Família durante a fuga para o Egipto. Segundo a crença, a colocação de ramos de giesta amarela (ou outras flores silvestres) nas portas e janelas serviria para enganar ou afastar perseguidores, impedindo-os de identificar a casa onde Jesus se teria escondido. Assim, um gesto de origem agrária e simbólica passou a ser também um ato de devoção e proteção.

No entanto, para além desta leitura cristã, persistem traços claros de antigas superstições. A noite de 30 de abril era vista como um momento liminar, carregado de forças invisíveis. Acreditava-se que espíritos malignos, bruxas ou energias negativas vagueavam nesse período de transição. As maias,  especialmente a giesta, funcionavam então como um amuleto protetor, afastando o mal e garantindo saúde, prosperidade e fertilidade para o lar e para os campos.

A escolha da giesta não é inocente. A sua cor amarela intensa evoca o sol e a luz, símbolos universais de vida e proteção. Além disso, floresce precisamente nesta época do ano, tornando-se um elemento natural acessível e carregado de significado. Em muitas aldeias, era comum também enfeitar fontes, currais e campos, num gesto que transcendia o espaço doméstico e abarcava toda a comunidade.

A Festa da Maia é, assim, um testemunho vivo da capacidade das tradições populares de integrar diferentes camadas culturais. Entre a devoção cristã e os rituais ancestrais da fertilidade, entre a memória coletiva e a experiência individual, mantém-se como um elo com a terra, com o ciclo das estações e com um imaginário onde o sagrado e o mágico coexistem naturalmente.

Hoje, mesmo com a vida moderna a afastar-nos dos ritmos rurais, o simples gesto de colocar uma maia à porta continua a carregar esse património invisível,  um sinal de proteção, um eco da primavera, uma ponte entre o passado e o presente que nos transmite a alegria e uma oportunidade de festejar!

António da Cunha Duarte Justo

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O ESTADO NOVO ERA AUTORITÁRIO MAS NÃO FASCISTA

Uma Proposta de Rigor conceptual para o Debate político português

Resumo

O presente artigo tem por objetivo clarificar a classificação científica do regime do Estado Novo português (1933-1974), distinguindo-a do rótulo, frequentemente utilizado no discurso político polarizado, de «fascista». Recorrendo à tipologia consagrada de Juan Linz e à obra de outros cientistas políticos (como Stanley Payne ou Roger Griffin), argumenta-se que o Estado Novo constitui um regime autoritário e não um regime fascista ou totalitário. Distinguem-se as fases de Salazar e de Marcelo Caetano, mostrando-se que, embora o primeiro corresponda ao modelo autoritário clássico, o segundo tentou uma liberalização que o afasta ainda mais de qualquer definição de fascismo. Conclui-se que o uso inflacionado e impreciso do termo «fascista» prejudica a compreensão histórica e a qualidade do debate democrático, propondo-se uma linguagem política mais rigorosa e menos suscetível a narrativas pós-factuais que pretendem formatar opiniões e consciências segundo o modelo comunista inicial (PREC).

  1. Introdução

No discurso político português contemporâneo, é comum ouvir-se classificar o Estado Novo como um «regime fascista», e os seus dirigentes, Salazar e Caetano, como «fascistas». Esta rotulagem, embora emocionalmente eficaz para deslegitimar o passado e legitimar a rutura democrática de 1974, padece de um grave problema: a inexatidão científica e a indução em erro. Usar a palavra «fascismo» como sinónimo genérico de «ditadura de direita» ou de «autoritarismo conservador» é tão incorreto como chamar «comunista» a qualquer regime de esquerda não democrático. Tal imprecisão não é inocente nem é neutra. O objectivo do seu emprego é alimentar a polarização, simplificar excessivamente a história e impedir que os cidadãos e os políticos discutam com base em conceitos claros.

Este artigo não pretende reabilitar o Estado Novo, cujo caráter antidemocrático e repressivo e é inquestionável. Pretende, isso sim, devolver ao debate público a diferença qualitativa entre regimes autoritários e fascistas, diferença essa que os cientistas políticos há muito estabelecem. Fazê-lo é um exercício de honestidade intelectual e de responsabilidade cívica, pois uma democracia consciente não teme a precisão; pelo contrário, alimenta-se dela.

  1. O que é o Fascismo? Uma Definição Mínima e Consensual

Para que uma comparação seja válida, é indispensável partir de uma definição operacional de «fascismo». Rejeitando usos propagandísticos, tomemos a síntese de três dos maiores especialistas mundiais:

a) Juan Linz (cientista político) : O fascismo é uma ideologia totalitária que procura mobilizar as massas para um projeto de transformação radical da sociedade, baseado num mito de regeneração nacional, no culto do líder e na negação do pluralismo.

b) Stanley Payne (historiador): O fascismo caracteriza-se por: 1) um nacionalismo extremo e expansionista; 2) uma estética da violência e da disciplina paramilitar; 3) um partido único de massas com forte enraizamento social; 4) a rejeição do conservadorismo tradicional (a Igreja, a monarquia, as elites agrárias são subordinadas ao partido); 5) a ambição de criar um «homem novo».

c) Roger Griffin (teórico): O fascismo é, na sua essência, um ultranacionalismo ou mito de renascimento nacional, isto é, um nacionalismo que promete o renascimento da nação após uma decadência percebida. Este renascimento exige a rutura total com o passado e a criação de uma nova ordem.

Desta definição científica emergem elementos-chave que o fascismo não partilha com regimes meramente autoritários: a mobilização de massas, o partido único militante, a estética paramilitar, o culto dinâmico do líder (não apenas um chefe respeitado) e a rutura iconoclasta com as tradições conservadoras (como a religião e a família tradicional, que o fascismo vê como instrumentos, não como fins).

  1. O Estado Novo de Salazar foi um Regime autoritário, não fascista

Aplicando estas coordenadas ao Estado Novo (1933-1968), obtemos um quadro claramente distinto em que se evidencia que o Estado Novo não reúne as atributos para que possa ser designado de fascista:

Característica Fascismo (ex.: Itália, Alemanha) Estado Novo (Salazar)
Partido Partido único de massas, mobilizador, com milícias. União Nacional – partido único sem milícias, desmobilizador, criado para controlar e conter, não para mobilizar.
Líder Culto carismático, «Duce», «Führer», com mito de infalibilidade. Salazar era um professor austero, rejeitava culto da personalidade explícito, promovia a discrição e a «missão» mais do que o carisma.
Ideologia Nacionalismo revolucionário, mito do renascimento nacional que rompe com o passado para criar o «homem novo». Nacionalismo conservador, tradicionalista, católico. O lema era «Deus, Pátria, Família» e como tal valores pré-existentes, não projetos revolucionários.
Violência Violência institucionalizada, paramilitarismo, rituais de agressão. Violência policial e censura (PIDE), mas ausência de milícias partidárias e de culto da violência enquanto estética. A repressão era burocrática e dissuasora, não executável, (performativa).
Relação com a Igreja Subordinação ou controlo da Igreja (ex.: concordata de 1929 em Itália, mas com tensões). Aliança estratégica com uma Igreja Católica valorizada como pilar da ordem. O Estado Novo foi profundamente católico, não pagão ou anticlerical.
Economia Corporativismo dirigido à autosuficiencia e à preparação para a guerra. Corporativismo conservador, anti-socialista, mas sem ambição imperialista militar (além do retórico «orgulhosamente sós»).

Como Juan Linz argumentou e mostrou de forma decisiva, os regimes autoritários (como o Estado Novo, o franquismo ou o salazarismo) caracterizam-se por pluralismo limitado, desmobilização política, legitimidade tradicional e ausência de ideologia elaborada e transformadora. Salazar qualificava o seu regime como «não ser fascista, porque o fascismo é uma certa exaltação da força, um certo culto do César, uma certa exaltação da juventude que não corresponde ao meu pensamento». Esta autodestruição, embora propagandística, é corroborada pela análise científica.

Onde, então, reside a confusão? O Estado Novo usou alguns símbolos e instituições emprestados do fascismo italiano (a milícia – Legião Portuguesa, o partido único, a formulação «Deus, Pátria e Família»). Contudo, usou-os de forma imitativa e descaracterizada, esvaziando-os do seu conteúdo mobilizador. A Legião Portuguesa nunca teve o papel dos camisas negras ou castanhas; era uma força de reserva, pouco ativa. O partido único era um cartão de sócio da elite, não uma estrutura de enraizamento popular.

  1. O Marcelismo (1968-1974) era ainda menos autoritário

A discussão tendenciosa  evita falar do período de Marcelo Caetano por razões ideológicas fixadas num discurso maniqueísta. A chamada «Primavera Marcelista» foi uma tentativa de liberalização controlada (não democratização) do regime autoritário. Marcelo Caetano procurou:

a) Atenuar a censura (surgindo a famosa «censura prévia com duas cores»).

b) Permitir uma oposição moderada, a CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática).

c) Revogar alguns símbolos mais ostensivos do Estado Novo (como a saudação de braço erguido nas cerimónias oficiais).

Esta evolução não só não aproximou o regime do fascismo (que é intrinsecamente radical e mobilizador), como o afastou ainda mais. O fascismo exige um partido activo, uma ideologia dinâmica e uma ruptura permanente. O marcelismo, pelo contrário, procurou um «regime de direito» (nas palavras do próprio Caetano) dentro dos limites do autoritarismo, algo que o fascismo autêntico nunca toleraria. A manutenção da PIDE/DGS e da repressão às esquerdas mostra que o regime continuava autoritário, mas não fascista.

  1. Porque importa a Distinção no Debate político português?

Importa diferenciação no debate por três razões fundamentais:

  1. Rigor histórico e científico: Chamar fascista ao Estado Novo é um erro factual, comparável a chamar comunista à URSS de Brejnev. Se o debate público ignora definições consensuais, qualquer conversa séria torna-se impossível.
  2. Combate a narrativas pós-factuais: A polarização política portuguesa e a manipulação do povo beneficiam de atalhos retóricos como «fascista». O termo «fascista» serve para encerrar o debate em vez de o abrir («o adversário é fascista, logo não merece ser ouvido»). A história do século XX mostra que regimes autoritários e fascistas tivera origens, funcionamento e legados muito distintos. Confundi-los é uma forma de desonestidade intelectual que mina a confiança no discurso público e na política partidária.
  3. Legitimação da democracia e do 25 de Abril: Curiosamente, a tese de que o regime era fascista, foi deliberadamente promovida por alguns setores pós-25 de Abril para maximizar a ruptura. No entanto, uma democracia madura não precisa de exagerar o mal do regime anterior para se justificar. Pode e deve reconhecer que derrubou um regime  autoritário, repressivo e ilegítimo, sem ter de lhe atribuir um rótulo tecnicamente incorreto. Fazê-lo é sinal de força, não de fraqueza.
  1. Conclusão e Recomendações

O Estado Novo foi um regime autoritário, enquadrável na tipologia de Juan Linz, caracterizada por pluralismo limitado, desmobilização política, legitimidade por apelo à ordem e à tradição, e poder executivo mal definido, mas concentrado. Não foi um regime fascista, pois não possuía nem o partido de massas mobilizador, nem a ideologia do mito do renascimento nacional, nem a estética da violência, nem a rutura total com o conservadorismo tradicional. A fase de Marcelo Caetano foi uma variante liberalizante deste mesmo autoritarismo, ainda mais distante do fascismo.

Para um debate político português menos polarizado e mais objetivo e sério, seria de propor:

a) Abandonar o termo «fascista» como sinónimo de «ditadura de direita» porque não corresponde às suas características definidoras (mobilização, partido único de massas, nacionalismo palingenético, culto da violência) que não se encontram presentes nele.

b) Adotar a linguagem precisa: «regime autoritário», «Estado Novo», «autoritarismo salazarista».

c) Reconhecer que o 25 de Abril derrubou um regime autoritário e não democrático. Este facto é suficiente para legitimar plenamente a democracia portuguesa, sem recurso a rótulos inflacionados.

Uma democracia que confunde termos tão distintos como «autoritarismo» e «fascismo» é uma democracia frágil, incapaz de aprender com a história e de dialogar com rigor. É tempo de devolver à palavra «fascismo» o seu significado histórico preciso, libertando o debate político da armadilha das narrativas pós-factuais muito presente no debate radical de esquerda.

Este artigo pretende promover um debate sério e respeitador do povo, recusando a duplicidade de discursos: um de natureza científica, rigoroso e diferenciado, e outro de índole político-partidária, simplista e manipulador. Respeitar o povo implica reconhecer que, muitas vezes, o seu pensamento é condicionado pelas narrativas promovidas pelas elites e pelo regime político vigente.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Bibliografia:

  • Linz, Juan J. (1975). «Totalitarian and Authoritarian Regimes». In Handbook of Political Science.
  • Payne, Stanley G. (1995). A History of Fascism, 1914–1945. University of Wisconsin Press.
  • Griffin, Roger (1991). The Nature of Fascism. Pinter Publishers.
  • Rosas, Fernando (2019). Salazar e os Fascismos: Ensaio Breve de História Comparada. Tinta-da-China.
  • Pinto, António Costa (1992). O Salazarismo e o Fascismo Europeu. Estampa.

 

Nota: O objetivo do artigo não é defender qualquer regime, mas sim promover a clareza conceptual, essencial para uma democracia saudável e para um discurso político que se pretenda honesto e fundamentado.

 

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