A Alma feminina no Coração do Futebol masculino e o Aviso a Portugal a reflectir a Lusofonia
Por António da Cunha Duarte Justo
O cronómetro do Mundial de Atlanta parecia ter engolido a lógica. Quando o árbitro apitou, o painel electrónico gritava um zero a zero que não era apenas um resultado, mas um terramoto sísmico no Olimpo do futebol. A Espanha, colosso de títulos e dona de uma posse de bola hipnótica, saiu de campo engolida pelo silêncio; do outro lado, Cabo Verde, essa nação de 500 mil almas e 64.º lugar no ranking FIFA, celebrava o maior sucesso da sua história desportiva.
Este empate não pode ser reduzido a uma anedota estatística, pelo significado que tem. Ele é, na realidade, um poema épico, um manifesto e, acima de tudo, um aviso cerrado a Portugal.
Enquanto as grandes nações, intoxicadas pelo “direito divino” de vencer, se transformam em vítimas da sua própria megalomania falhada, consumindo treinadores e atirando culpas ao vento, as pequenas nações ensinam a lição mais pura do desporto e Portugal é mestre nisto. O treinador cabo-verdiano, Pedro Leitão Brito, resumiu essa filosofia imortal antes do apito inicial ao dizer: «Não viemos aqui apenas para participar, viemos aqui para nos medirmos». E mediram-se, mostrando criatividade, ritmo e uma alma indomável que suplantara o medo. Cabo Verde não jogou com a obsessão do resultado; jogou com a arte de existir (aquele desejo natural do arbusto de também ele poder ser bafejado pelos raios do sol que brilha nas árvores grandes.
Este é o retrato do “Golias” moderno: Alemanha e Espanha, presas na armadura do favoritismo, esquecem-se que o futebol é feito de pés, mas vive de corações. Se o triunfo fácil corrompe, a luta pode dignificar. Um Cabo Verde feliz é um Cabo Verde unido.
A Oração de Curação e o Princípio feminino do Desporto
A noite de Atlanta ainda nos trouxe uma outra lição, ainda mais profunda, nos arredores do campo onde a Alemanha vencia Curação com soberania (1-7). Para os olhos do mundo, uma goleada, mas para a memória do coração e para os olhos do mundo foi uma pequena rebelião. Os jogadores de Curação perderam no marcador, mas venceram na eternidade.
No seu jogo aconteceu o sublime. Após o apito final, o alemão Felix Nmecha, autor do primeiro golo germânico na competição, não se dirigiu ao túnel para celebrar. Em vez disso, reuniu-se com os adversários de Curação, e junto com alguns, ergueram os braços e rezaram juntos. Ao fazê-lo, Nmecha proferiu palavras que deveriam ser inscrevidas nos portões de cada estádio do mundo: «No jogo somos adversários e, depois, todos cristãos e irmãos. Queremos futebol com visão!»
Eis onde o texto pretende chegar: Felix Nmecha, naquele gesto, não praticou apenas desporto masculino, a força, a penetração, a estratégia bélica do ataque e defesa. Ele juntou o princípio masculino da luta e da competição ao princípio feminino que habita a alma do jogo: a comunhão, a empatia, a religação espiritual e a memória afetiva. A mistura ajuda a vida e, sem dúvida, o bom viver.
E isto, até porque, o futebol, tal como a vida, é um grande teatro. Antes de a peça começar, os actores cruzam-se nos bastidores; carregam consigo a alma do povo, e essa alma é profundamente feminina. Ela é o útero onde germina a criatividade, a intuição que antecipa o passe, a ternura que transforma o rival em irmão. Quando o corpo (masculino) e o espírito (feminino) se alinham, as forças multiplicam-se. Os jogadores de Cabo Verde e Curação não corriam apenas com músculos; corriam com o sentimento profundo das suas diásporas, espalhadas pelo mundo.
O Apelo à Lusofonia: Uma Matriz masculino-feminina
E Portugal com os estados lusófonos não podem perder-se na encruzilhada histórica. Só juntos poderão tornar-se num polo relevante no xadrez geopolítico multipolar a desenhar-se.
Cabo Verde não empatou com a Espanha por acaso. Foi um sinal dos tempos, um espelho levantado à antiga metrópole. Portugal tem vivido encostado ao “Mamon” da União Europeia, de olhos postos na tecnocracia, na burocracia e no euro, enquanto os seus irmãos lusófonos navegam desgarrados no Atlântico e no Índico, e nós nos esquecemos da nossa missão histórica comum.
A Lusofonia não pode ser apenas uma linha geográfica ou um passado comum. Deve ser uma matriz social nova, onde o espírito masculino e o espírito feminino se fundem na ânsia de formar uma nação de corações unidos. É tempo de Portugal olhar para Cabo Verde e ver não um parceiro ao lado, mas um parceiro de alma e com a mesma alma. É tempo de perceber que, tal como no futebol, o talento brota quando os olhos da sociedade se viram para os seus talentos, independentemente do tamanho do país.
Que o empate em Atlanta sirva de epifania e que a oração ecuménica de Nmecha sirva de rito de passagem. Precisamos de um futebol com visão, mas também de uma política com alma. Abandonemos a megalomania estéril das grandes potências e abracemos a riqueza da pequenez unida. Corpo e alma, masculino e feminino, Portugal e a sua diáspora, Portugal e os países seus irmãos, todos unidos no mesmo ritmo crioulo.
E viva a LUSOFONIA! Que ela seja a nação de afetos conectados na mesma língua, que transcende os resultados e onde cada empate é uma vitória do espírito humano.
Pegadas do Tempo