QUANDO A POLÍTICA ESQUECE O HOMEM

Para ser lido num dia de eleições e pensado no dia seguinte

Num dia de eleições, quando o país se enche de debates, promessas e espectáculos televisivos, talvez valha a pena parar um pouco e dizer aquilo que anda esquecido: o maior problema do nosso tempo não é apenas político nem económico; é sobretudo humano.

Os candidatos falam, os comentadores analisam, os entrevistadores perguntam, muitas vezes sem verdadeira escuta. E, no meio de tanto ruído, a pergunta essencial fica sem resposta: que ideia de pessoa humana sustenta o sistema que nos governa?

Portugal não é excepção. É sintoma.

Vive esta realidade de forma clara. A política transformou-se, em larga medida, num exercício de imagem e de curto prazo. Discute-se tudo com ar grave, mas raramente se toca no essencial; fala-se de tudo,  menos daquilo que estrutura o quotidiano real das pessoas. A saúde que não responde como devia, a burocracia que desgasta, a carência silenciosa de quem trabalha e mesmo assim não chega ao fim do mês, a solidão de muitos idosos, a invisibilidade de quem não tem voz nem palco mediático.

O sistema cria fragilidades e depois surpreende-se com a desconfiança, a abstenção e o afastamento dos cidadãos. Mas como confiar numa política que fala de progresso enquanto trata o humano como um problema de gestão?

Aqui não está apenas em causa a competência técnica ou a boa vontade dos actores políticos. Está em causa algo mais profundo: a visão do homem. Sem uma ideia clara do que é a pessoa humana, a política torna-se um conjunto de procedimentos sem alma.

Vivemos numa sociedade que deixou de confiar no bom senso comum e na ordem natural das coisas para se agarrar quase exclusivamente ao poder: poder económico, poder técnico, poder mediático. E quando o poder deixa de ser acompanhado por uma consciência moral partilhada, o resultado não é mais liberdade, mas mais desencontro. Como já se dizia há séculos, o homem torna-se lobo do homem, hoje com linguagem polida, gráficos bem desenhados e relatórios impecáveis.

A Europa, vista a partir de Bruxelas, dá sinais claros desse cansaço. Uma Europa saturada de normas, directivas e regulamentos, mas cada vez mais pobre de sentido. Regula muito, controla mais, explica pouco e escuta menos ainda. Fala de valores, mas evita perguntar de onde vêm e para que servem. Governa-se como um sistema e esquece-se de que é, antes de mais, um conjunto de povos e de histórias.

Numa Europa fragmentada por dentro e por fora, perdeu-se até a noção de geografia humana. Governam-se territórios como se fossem quadros estatísticos, esquecendo que são pessoas concretas, com culturas, memórias e fragilidades próprias.

É neste contexto que a questão ética se torna inevitável. Não como moralismo, nem como regresso ao passado, mas como condição mínima de futuro. Sem um chão ético comum, nenhuma democracia resiste por muito tempo. Não por falta de leis, mas por falta de rumo.

Uma ética mundial, como a pensou Hans Küng, não pretende uniformizar consciências nem impor crenças. Procura apenas algo essencial: um acordo mínimo sobre o respeito pela dignidade da pessoa humana, acima de interesses económicos, ideológicos ou geopolíticos. É pouco e, ao mesmo tempo, é tudo.

Para a Europa e também para Portugal, isso implicaria uma relação mais honesta com as suas próprias raízes culturais e espirituais. Não para misturar religião com poder político, nem para restaurar velhas hegemonias, mas para deixar de tratar o cristianismo apenas como um incómodo ou um resíduo do passado. Quando liberta da tentação do poder, a tradição cristã foi uma escola de universalidade: ensinou que cada pessoa conta, que o outro não é um número, nem um meio, nem um obstáculo, mas alguém. Bruxelas regula com precisão, mas já não sabe para quê. Fala de valores, mas evita perguntar pela sua fonte. Governa territórios sem pensar a geografia humana que os habita.

Sem essa memória ética, a política reduz-se à administração do imediato. E os dias de eleições tornam-se dias de ruído, não de verdadeira escolha. Discute-se o acessório, evita-se o essencial.

Talvez, ao entrar numa cabine de voto, a pergunta mais importante não seja apenas em quem votar, mas que tipo de sociedade queremos alimentar. Porque, no fim, não são apenas os programas que moldam um país é a ideia de homem que os inspira.

E essa é hoje a urgência mais silenciosa, mas também a mais decisiva.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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RAINER RILKE À LUZ DE NUNO ÁLVARES PEREIRA

O Indivíduo na Sociedade e a Sociedade no Indivíduo: Ninguém se pensa sozinho

A relação entre o indivíduo e a sociedade é marcada por uma tensão constitutiva, isto é, o ser humano é simultaneamente sujeito singular e realidade relacional (sujeito social). Não existe um “eu” puro fora do “nós”, nem um “nós” abstrato que dispense a interioridade pessoal.

Para tornar visível esta tensão e a sua fecundidade, recorro a duas figuras paradigmáticas do século XX e uma do século XIV: Rainer Maria Rilke, poeta da interioridade e do devir existencial, Dietrich Bonhoeffer, teólogo da responsabilidade comunitária e da ação histórica e Nuno Álvares Pereira, estratega militar português (1) que pode figurar como configuração exemplar e integradora dos dois.

Ambos recusam soluções fáceis. Ambos pensam o humano como processo. Mas situam-se em polos diferentes dessa mesma tensão.

Rilke e a primazia da interioridade vivida

Rilke escreve: «Não procures agora as respostas que não te podem ser dadas, porque não as podes viver. Trata-se de viver tudo. Vive agora as perguntas. Talvez então, sem te aperceberes, um dia vivas gradualmente a resposta.»

E ainda: «Nunca se deve desesperar quando se perde algo, uma pessoa, uma alegria, uma felicidade; tudo volta ainda mais maravilhoso.»

Estas palavras condensam o núcleo do pensamento rilkeano expresso na vida como processo de maturação interior, em que o sentido não é imposto de fora, mas emerge da experiência vivida. A verdade não é um objeto a possuir, mas um acontecimento a atravessar. Esta atitude exige paciência, abertura à incerteza e confiança na potência transformadora do tempo vivido.

Rilke insere-se na tradição existencialista e na filosofia da vida, onde a autenticidade da experiência interior se torna critério supremo. “Viver as perguntas” significa aceitar que o sentido não se revela de modo abstrato ou imediato, mas se encarna lentamente na biografia. A promessa de um “retorno mais maravilhoso” não é um mecanismo de compensação moral, mas a afirmação de que a perda pode transfigurar-se em profundidade.

Enquanto ética pessoal, esta atitude é de grande valor porque protege contra o desespero imediato; resiste à compulsão de respostas rápidas e oferece um antídoto contra o ativismo ansioso e superficial.

No entanto, esta ética pessoal não é suficiente.

A sociedade que habita o indivíduo limita a interioridade isolada

Uma crítica legítima ao pensamento de Rilke é a sua radical subjetividade. O foco quase exclusivo na interioridade corre o risco de obscurecer uma dimensão fundamental da existência: a sociedade vive no indivíduo e ao mesmo tempo o indivíduo vive na sociedade.

As nossas perguntas não nascem num vazio. Elas são moldadas por estruturas económicas e políticas, pela linguagem e sistemas simbólicos, pelas relações de poder, por traumas coletivos, por memórias históricas e tradições culturais e pela saudade do espiritual.

A pergunta decisiva que Rilke não formula é: quem pode, de facto, “viver as perguntas”?

Para um sujeito em situação de precariedade extrema, violência estrutural ou trauma social, a confiança num “retorno mais glorioso” pode soar não a sabedoria, mas a cinismo involuntário. Há sofrimentos que não se resolvem apenas por trabalho interior, porque não são apenas interiores.

Aqui surge uma lacuna que também se fez sentir historicamente na teologia cristã, sobretudo quando esta privilegiou excessivamente a antropologia moral em detrimento da sociologia e da política. Ao focar-se no indivíduo abstrato, descuidou o homo politicus, o ser humano enquanto nó de redes informacionais, culturais e institucionais.

O ser humano não é apenas espírito e consciência, ele é também informação genética, informação cultural e informação processual. Forma-se em ecossistemas simbólicos, narrativos e tecnológicos. A sua opinião, identidade e ação emergem de processos coletivos, hoje amplificados por sistemas algorítmicos e mediáticos, um aspeto que a inteligência artificial torna particularmente visível.

Sem instituições, sem memória coletiva e sem tradição, o ser humano não se torna mais livre: regressa a um estado de imediatismo instintivo, vivendo num presente sem profundidade temporal. Rilke rejeitou dogmas e instituições, com razão em certos contextos, mas sem alguma forma de institucionalização simbólica, não há cultura, nem futuro, nem responsabilidade histórica.

Assim, as palavras de Rilke não são falsas, mas são incompletas.

Bonhoeffer: da interioridade à responsabilidade histórica

É aqui que o pensamento de Dietrich Bonhoeffer se torna decisivo. Ele escreve: «A glória final não é que o mundo seja julgado e condenado, mas que Cristo, através da sua cruz, que é também a cruz da comunidade, perdoe o mundo e faça a paz.»

À primeira vista, esta afirmação pode parecer resignada. Mas essa leitura dissolve-se quando se considera o contexto existencial de Bonhoeffer.

Ele não escreveu a partir de uma torre de marfim espiritual, nem a partir do espírito do tempo, mas do interior da resistência ativa ao regime nazi, pagando com a própria vida. A sua teologia nasce no limite, onde pensar e agir coincidem.

A “cruz da comunidade” não é símbolo de passividade, mas de solidariedade ativa. A comunidade cristã não existe para julgar o mundo a partir de uma suposta superioridade moral, mas para assumir o peso do mundo, criando espaço real para reconciliação, justiça e paz.

Paz como ação criadora, não como capitulação

Para Bonhoeffer, “promover a paz” (eirēnopoiein) é uma tarefa profundamente ativa. Não significa evitar conflitos, mas romper o ciclo da violência, da vingança e da humilhação moral. O pacificador não é neutro: ele paga o preço da reconciliação.

A sua crítica à “graça barata” é aqui central. Uma espiritualidade que se refugia no interior ou se limita a julgamentos piedosos é uma traição ao real e à própria filosofia e mística cristã. A graça é cara porque exige responsabilidade histórica, intervenção concreta e risco pessoal.

A aparente renúncia ao juízo condenatório não é fraqueza política, mas uma estratégia ética radical em que o objetivo não é destruir o adversário, mas restaurar a comunidade, o “shalom”, mesmo quando isso exige decisões duras, como a própria participação de Bonhoeffer na resistência conspirativa contra Hitler.

Rilke e Bonhoeffer são duas faces de um mesmo processo humano

Rilke e Bonhoeffer não se opõem; complementam-se.

Rilke recorda-nos que sem interioridade não há autenticidade, apenas adaptação funcional.

Bonhoeffer lembra-nos que sem responsabilidade social a interioridade degenera em narcisismo espiritual.

Rilke trabalha o tempo interior da maturação e Bonhoeffer assume o tempo histórico da decisão.

Ambos rejeitam respostas fáceis e confiam em processos transformadores. Mas em Bonhoeffer esses processos são explicitamente orientados para a mudança social, para a justiça encarnada, para a paz construída, algo que contrasta fortemente com a política contemporânea, dominada pela lógica da polarização, da humilhação do adversário e da vitória simbólica.

Rilke à luz de Nuno Álvares Pereira como interioridade encarnada

Para que o pensamento de Rilke não permaneça suspenso numa interioridade sem corpo histórico, é fecundo colocá-lo em diálogo com uma espiritualidade que soube viver as perguntas no meio do conflito real. Aqui, a figura de São Nuno de Santa Maria (Nuno Álvares Pereira) revela-se exemplar.

São Nuno viveu numa sociedade marcada por oposições extremas: guerra e paz, fidelidade nacional e universalidade cristã, poder militar e despojamento espiritual. Foi estratega, condestável, combatente decisivo na consolidação da independência portuguesa e, no entanto, o seu maior combate não se deu no campo de batalha exterior, mas no interior de si mesmo. A sua vida mostra que a verdadeira tensão formadora não é apenas entre o eu e a sociedade, mas entre o eu e o próprio ego.

Se Rilke nos convida a “viver as perguntas”, São Nuno mostra como fazê-lo quando a vida não permite retirada, quando a decisão é urgente e o sofrimento coletivo é real. Ele não fugiu do mundo para se tornar santo; tornou-se santo atravessando o mundo, transfigurando por dentro aquilo que por fora parecia apenas violência, ambição ou identidade nacional.
O seu nacionalismo não se absolutizou: purificou-se.
A coragem militar não se cristalizou em orgulho: transformou-se em fé.
A lealdade ao rei e à pátria não degenerou em exclusão: amadureceu em caridade universal.

Neste sentido, o “Santo Condestável” realiza aquilo que em Rilke permanece sobretudo como potencial: a integração entre trabalho interior e responsabilidade histórica. A sua espiritualidade não é uma negação da identidade, mas uma metamorfose dela. Ele não destrói o “eu”; em vez disso, converte-o. O egoísmo, a indiferença e a autossuficiência, inimigos silenciosos mais perigosos do que qualquer exército, são combatidos diariamente, até que neles floresça uma humanidade mais ampla e reconciliada. Isto é o que não se encontra nos políticos hodiernos e por isso a falta de humanismo, de coerência e de lógica política.

Diferentemente de uma espiritualidade puramente intimista, São Nuno mostra que o crescimento interior não afasta do mundo, mas aprofunda a forma de estar nele. A sua passagem da espada ao hábito carmelita não foi uma fuga tardia, mas a consumação lógica de um caminho interior já vivido em plena ação. Ele prova que a santidade não é incompatível com a política, nem a fé com a lucidez histórica, desde que o centro da luta seja deslocado do inimigo exterior para a conversão do coração.

Com Nuno Álvares Pereira, Rilke ganha realismo caminhável porque a “vida das perguntas” deixa de ser apenas uma ética da paciência interior e torna-se uma pedagogia da transformação do desejo, onde o sentido não é apenas esperado, mas incarnado em gestos, escolhas e renúncias concretas. São Nuno é, assim, a resposta viva à crítica sociológica feita a Rilke: ele mostra que é possível viver as perguntas sem ignorar o sofrimento coletivo, e crescer interiormente sem abandonar a responsabilidade pelo destino comum.

Com Nuo Álvares Pereira compreende-se que a tensão entre o eu e o nós, entre o privado e o público, entre o sagrado e o profano, não é um problema a eliminar, mas é o lugar onde o Homem se forma, porque a identidade nasce da tensão, não da fuga. (Da ipseidade, identidade própria e simultaneamente do reconhecimento de que a sociedade habita em nós).

O desafio contemporâneo não é escolher entre interioridade ou ação, mas integrá-las (Nuno torna-se exemplo de identidade, tensão e encarnação).

Viver as perguntas, sim, mas também assumir a responsabilidade pelas respostas que se tornam possíveis no mundo comum.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Nota explicativa

A presente reflexão insere-se num diálogo entre duas coordenadas do pensamento moderno que ao serem integradas na pessoa humana e na sociedade de que é exemplo Nuno Álvares Pereira contribuem para uma sociedade com futuro qualitativo: a poética da interioridade e da singularidade existencial de Rainer Maria Rilke e a teologia da responsabilidade concreta e do compromisso social de Dietrich Bonhoeffer. Estas perspetivas, aparentemente antitéticas, uma voltada para a profundidade do eu e a outra para a exigência do outro, são convocadas aqui como lentes para reler a figura histórica e paradigmática de Nuno Álvares Pereira.

A opção por este diálogo justifica-se pela convicção de que a grandeza humana plena reside precisamente na capacidade de integrar estes dois polos. Rilke, cantor da “solidão essencial” e da necessidade de “guardar-se no próprio íntimo”, representa a imperativa jornada de autenticidade individual, o cultivo de uma interioridade forte e consciente para que já os místicos sempre apontavam com base num substrato espiritual. Bonhoeffer, mártir da resistência ao totalitarismo, advoga uma “graça custosa” que se materializa em ação no mundo, numa “responsabilidade para com a história” que exige empenho, decisão e risco em prol da comunidade.

Nuno Álvares Pereira emerge, nesta triangulação, como a figura histórica portuguesa que corporiza de forma quase arquetípica a síntese destas duas dimensões. A sua trajetória revela, primeiro, uma interioridade rilkeana de granítico propósito e convicção íntima: a sua fé, o seu sentido de destino, a sua resolução inquebrantável perante a dúvida alheia nas vésperas de Aljubarrota falam de um homem que escutou os ventos que vêm do Alto e se fortaleceu numa certeza interior. Contudo, essa força interior não se recolheu num misticismo passivo. Pelo contrário, projetou-se numa ação bonhoefferiana de decisão extrema e responsabilidade social e política. Assumiu o peso da história no momento crítico, colocou o seu génio militar e a sua autoridade moral ao serviço de uma causa coletiva, a independência e a coesão do reino, aceitando o custo e o sangue dessa responsabilidade.

Deste modo, o Condestável não é apenas o herói militar ou o santo religioso da narrativa tradicional. Ele torna-se o emblema da integração entre a fortaleza da alma (Rilke) e a audácia de garra (Bonhoeffer). A sua vida posterior, de renúncia aos títulos e entrega aos pobres no Convento do Carmo, consuma este percurso: a interioridade levou-o ao desapego, e o sentido de responsabilidade redirecionou-se para o serviço humilde.

O empenho que guia esta e outras minhas reflexões é, precisamente, levar o leitor a pensar por si próprio, mas fazendo-o a partir de um cruzamento de saberes, uma visão enciclopédica que confronta filosofia, teologia, história e literatura. Acredita-se que é neste território de diálogo transdisciplinar que o pensamento se liberta de caminhos únicos e descobre as conexões profundas que tecem a experiência humana, encontrando em figuras como Nuno Álvares Pereira um exemplo perene e desafiador para o nosso tempo.

António da Cunha Duarte Justo

(1) Nuno Álvares Pereira (1360-1431) consolidou a independência de Portugal, como herói da Batalha de Aljubarrota (1385). Assumiu o comando do exército português e infligiu duras derrotas aos espanhóis em Atoleiros e Aljubarrota, assegurando assim a independência do país e a coroa para D. João I.

Líder durante a crise, tornou-se mais tarde místico e servo dos pobres. É considerado um símbolo de bravura, honra e profunda piedade, sendo uma das figuras mais notáveis ​​da história portuguesa.

Nuno Álvares Pereira foi beatificado em 1918 e canonizado pelo Papa Bento XVI em 2009, o que sublinha a sua importância enquanto herói nacional e santo (“Santo Condestável”).

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A FERIDA SOCIAL DA SOLIDÃO E O IMPERATIVO DE CRIAR LAÇOS

Há um paradoxo original na condição humana: nascemos sozinhos e morremos sozinhos, mas o greta da existência só ganha cor, calor e significado no cadinho do outro. O ser humano é, por essência, um animal social, um “animal político”, como já o definia Aristóteles. A sua afirmação no mundo não é um monólogo, mas um diálogo permanente que espera uma resposta, um eco, um reconhecimento. A pergunta que hoje, de forma premente, se nos coloca é: numa sociedade hiperconectada tecnologicamente, o que é que essa mesma sociedade devolve ao indivíduo para que ele não se sinta profundamente só? A resposta, quando não chega, deixa uma ferida que não é apenas da alma, mas que se inscreve no corpo, como uma doença silenciosa da modernidade.

Sentir-se sozinho é, de facto, uma das experiências mais cruéis. Não é sinónimo de estar fisicamente só, porque muitas vezes habita os corredores apinhados de um escritório ou o lado vazio de uma cama partilhada. É a sensação aguda de que a nossa essência não é vista, tocada ou compreendida. Os dados, como o preocupante estudo alemão que aponta que seis em cada dez pessoas se sentem sós, são mais do que estatísticas; são o retrato de uma epidemia subjetiva numa sociedade carente. A nossa visão de nós mesmos é, em grande parte, formada pelo reflexo que encontramos nos olhos dos outros. Quando esse espelho social se embaça ou se parte, a nossa própria imagem interior entra em crise. Perdemos contorno, nitidez, existência.

Vivemos tempos em que o nosso chão se torna cada vez mais movediço. A globalização, com as suas luzes e sombras, retirou-nos muitas vezes o chão das comunidades estáveis, das praças onde todos se conheciam. As notícias de conflitos globais ecoam como um ruído de fundo ansioso. Muitos sentem-se como peças intercambiáveis numa engrenagem vasta e impessoal, onde a eficácia substitui a afetividade. Neste contexto, o apelo a uma espiritualidade que sirva de refúgio e de sentido não é um mero capricho devocional, mas uma necessidade também psicológica vital. As comunidades, sejam religiosas, culturais ou de simples proximidade, são os antídotos naturais ao isolamento. É por isso que a ação do Estado e das instituições não pode limitar-se ao económico e ao funcional; deve investir ativamente na criação de espaços de encontro, de cultura viva e partilhada, de celebração do vínculo, durante todo o ano. Uma sociedade que não cultiva o seu espírito comunitário é uma sociedade que adoece coletivamente, tornando-se mais depressiva e fragmentada.

Contudo, a ponte para o outro não se constrói apenas de cima para baixo. Ela nasce dos gestos mínimos, da micro-política da gentileza quotidiana. Fiquei profundamente comovido com um episódio simples: durante um passeio, ao executar discretamente um exercício de equilíbrio, um desconhecido de semblante alegre que passava perguntou-me: “Está tudo bem?”. Não era mais do que uma frase, uma nesga de atenção, mas continha um universo de reconhecimento. Naquele instante, deixei de ser uma figura anónima numa paisagem para me tornar um alguém. Admiro, com um certo sentimento de humildade, a etiqueta infalível dos cães que, ao cruzarem-se, se cheiram e se saúdam. Recordam-nos um protocolo básico de existência: a presença do outro merece um registo, um reconhecimento.

É na descoberta mútua, nas conversas que desvendam universos íntimos, que nos encontramos a nós próprios. A falta deste estímulo relacional é um veneno lento. O cérebro atrofia-se, a demência pode encontrar terreno fértil; a alma, em desespero, busca consolo fugaz no álcool ou noutras substâncias. A biologia confirma a tragédia: o isolamento social crónico eleva os níveis de cortisol, a hormona do stress, abrindo caminho a doenças cardiovasculares e a um declínio geral do sistema imunitário.

A solidão é, portanto, uma questão de saúde pública. Combate-se com a participação ativa, como, dançar, pertencer a um coro, fazer parte de um grupo de voluntários, cultivar uma amizade com a paciência com que se cultiva uma árvore. Sei bem como isto é difícil de praticar porque também eu não consigo praticar sempre muito do que aqui digo embora reconheça a sua importância.  A reforma, tantas vezes temida pela perda súbita de significado e de rede social, deve ser preparada com a mesma cautela com que se planeia a independência financeira. É preciso poupar afetos, semear ligações.

Nem todas as pessoas solitárias estão isoladas, e muitos isolados não se sentem solitários. A chave, como bem apontam os movimentos de autoajuda e entreajuda, está na autenticidade e no compromisso. Relações superficiais ou tóxicas podem ser mais solitárias do que o silêncio. O que buscamos, no fundo, é o toque de uma humanidade partilhada, a confirmação de que a nossa voz tem um interlocutor, de que a nossa sombra, quando projectada, se funde com outras, formando uma proteção maior contra o vento frio da indiferença.

Chegou a hora de um investimento coletivo na arte do encontro. De perguntar ao vizinho como está. De criar, com pequenos gestos, uma rede de luz que afaste a escuridão da solidão. Porque no fim, salvamo-nos uns aos outros, ou perecemos juntos, na mais dolorosa das separações que é a que acontece estando lado a lado. Ninguém se realiza sozinho.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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USO DA SEMÂNTICA NA MOLDAGEM DA PERCEPÇÃO DA REALIDADE

“Património especial” (“Sondervermögen”) é o eufemismo político usado para a dívida pública na Alemanha

O júri de especialistas da Sociedade da Língua Alemã de Marburgo escolheu o termo «Sondervermögen» (Riqueza Especial) como a “palavra tabu” do ano de 2025. A escolha, que visa destacar vocábulos considerados impróprios ou enganadores, recaiu sobre a designação usada pelo governo para a nova dívida do Estado.

Os peritos argumentam que a expressão, de conotação positiva, serve para ocultar a realidade financeira que pretende designar: um volume de endividamento extraordinário. Na prática, o mecanismo do “património especial” permite contornar os limites de endividamento previstos na constituição financeira alemã, as chamadas “regras da dívida”.

O valor, que ascende a mais de 500 mil milhões de euros para financiar tarefas específicas como a modernização das Forças Armadas ou a transformação energética, contrasta com os 15 mil milhões anuais anteriormente permitidos por lei. Esta mudança representa uma ruptura com o compromisso público assumido pelo agora chanceler federal, Friedrich Merz, quando, de que tais fundos seriam uma exceção única.

A sentença do júri funciona como um espelho crítico perante a classe política. A escolha da “palavra tabu” alerta para o uso de uma linguagem cada vez mais refinada e eufemística nos corredores do poder, que, ao suavizar conceitos sensíveis, dificulta a averiguação pública e o debate transparente sobre temas que os governantes desejam encobrir.

A discussão levantada pelos linguistas de Marburgo vai além de uma questão semântica. Coloca no centro do debate democrático a forma como a linguagem política molda a perceção da realidade e a responsabilidade dos governantes de comunicar com clareza, sem recorrer a construções que possam ofuscar a importância das decisões tomadas.

Já o chanceler Schulz tinha classificado os 100 mil milhões de euros destinados às Forças Armadas como «património especial».

Trata-se de uma forma de embotar o povo; é pena que a lei não tenha efeito em casos de manipulação governamental. As palavras precedem os actos!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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CARTA-ABERTA AOS CANDIDATOS À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA PORTUGUESA

Aos onze Candidatos que aspiram representar a Nação:

Escrevo esta carta não apenas em meu nome, mas na qualidade de porta-voz de milhões de portugueses cujas vozes raramente ecoam nos corredores do poder. Dirijo-me a vós com a esperança de quem ainda acredita que a democracia pode ser mais do que um exercício formal, e que os governantes podem verdadeiramente servir o seu povo.

Quando Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente, escrevi-lhe expondo estas mesmas preocupações. A carta ficou sem resposta, como tantas outras vozes que se erguem e se perdem no vazio. Dirijo-me agora a vós, candidatos, com a esperança de que pelo menos um demonstre que a democracia portuguesa ainda ouve o seu povo. Respondei a estas questões. Mostrai que sois diferentes.

Há questões fundamentais que exigem respostas claras e compromissos firmes. Não peço promessas vazias, mas coragem política para enfrentar aquilo que durante décadas tem permanecido intocável por conveniência ou cobardia.

A Questão Constitucional que ninguém ousa discutir

Quem entre vós se atreve a propor a eliminação do preâmbulo da Constituição da passagem que aponta como objetivo do Estado o “rumo ao socialismo”?

Esta não é uma questão meramente técnica ou simbólica. Numa democracia verdadeiramente plural, o Estado não pode estar constitucionalmente comprometido com uma única ideologia política. Este anacronismo, herdado de um momento revolucionário específico da nossa história, colide frontalmente com o princípio da neutralidade do Estado e com a liberdade política que deve caracterizar uma sociedade democrática.

Durante décadas, todos os partidos do chamado “arco do poder” mantiveram um silêncio cúmplice sobre esta anomalia. Porquê? Que interesses se escondem por detrás desta recusa em abrir o debate? Uma Constituição deve unir todos os portugueses, não consagrar a visão de mundo de apenas uma parte deles.

A nossa história recente foi quase toda narrada a partir de um único enquadramento ideológico, que impôs limites ao pensamento e ao debate público. Exijo, em nome dos portugueses que desejam uma democracia madura, que este tema seja finalmente discutido sem tabus e sem chantagens morais.

O Povo esquecido

Enquanto nos pedem que sigamos, sem discussão interna, as decisões das potências europeias e os seus interesses geopolíticos e económicos, incluindo o financiamento de conflitos distantes, o povo português sofre em silêncio:

– 1,4 milhões de reformados sobrevivem com pensões iguais ou inferiores a 500 euros mensais. São pessoas que trabalharam uma vida inteira, que construíram este país, e que agora são abandonadas à miséria e à indignidade.

– 14.476 portugueses vivem nas ruas ou em condições precárias, entre os quais 1.686 casais sem teto e 263 famílias sem casa. Estas não são estatísticas abstratas. São seres humanos, compatriotas nossos, que perderam tudo enquanto os recursos da nação são desviados para prioridades alheias ao bem-estar do povo.

Como é possível que um Estado que se proclama social permita tamanha injustiça? Como podemos falar de solidariedade europeia quando não somos capazes de cuidar dos nossos próprios cidadãos?

A pergunta que exige resposta

Quem entre vós se compromete, como tarefa principal, a defender o bem comum e a felicidade do povo português?

Quem terá a coragem de dizer “basta” à subserviência automática perante interesses que não são os nossos? Quem colocará as necessidades concretas dos portugueses acima dos jogos de poder internacional?

Não vos peço que sejais inimigos da Europa ou do mundo. Peço apenas que sejais, antes de tudo, defensores de Portugal e dos portugueses. Que tenhais a dignidade de afirmar que, antes de contribuir para guerras ou para os orçamentos de burocracias distantes, temos a obrigação moral de garantir que nenhum idoso morre de frio ou de fome, que nenhuma família dorme na rua, que nenhum trabalhador é condenado à pobreza depois de uma vida de esforço.

Um apelo à coragem

Esta carta é um desafio. Um desafio para que pelo menos um de vós se erga acima do conformismo político e diga as verdades que outros calam. Para que alguém tenha a honestidade de reconhecer que a nossa democracia tem limites artificiais que precisam de ser ultrapassados.

O povo português merece governantes que o respeitem, que o ouçam, que defendam os seus interesses com a mesma determinação com que defendem os interesses de Bruxelas ou de Washington. Merece líderes que não tenham medo de abrir debates incómodos, de questionar consensos falsos, de colocar a justiça social acima da conveniência partidária.

Pergunto-vos, candidatos (1): tereis essa coragem?

Ou continuaremos a assistir ao espetáculo de campanhas vazias, repletas de sorrisos e promessas, mas desprovidas da substância e da ousadia necessárias para transformar verdadeiramente a vida dos portugueses?

O país espera. O povo aguarda. E a história julgará não apenas as vossas palavras, mas sobretudo o vosso silêncio.

António da Cunha Duarte Justo
Cidadão português, jornalista e defensor de uma democracia mais justa e verdadeira

 

(1) Dos 11 candidatos, os principais:

Marques Mendes

João Cotrim de Figueiredo (apoiado pela Iniciativa Liberal)

Catarina Martins (apoiada pelo Bloco de Esquerda)

António Filipe (apoiado pelo PCP)

Jorge Pinto (apoiado pelo Livre)

André Ventura

António José Seguro

 

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