A crise do nosso tempo não reside na pluralidade das narrativas, mas na incapacidade de as submeter a uma realidade comum, onde a razão reconheça os seus limites, a justiça transcenda a mera legalidade e a dignidade humana permaneça superior aos interesses que pretendem representá-la.
A humanidade entre as narrativas do poder e o exílio da realidade
Há uma enfermidade silenciosa a percorrer as sociedades contemporâneas. Não se manifesta necessariamente nos hospitais, nem se deixa diagnosticar pelos instrumentos habituais da medicina. Instala-se no pensamento coletivo, infiltra-se nas instituições, alimenta-se das linguagens políticas e prospera onde a razão deixa de procurar a verdade para se colocar ao serviço da pertença, da conveniência e do poder, enfim, uma enfermidade que parece penetrar a nossa essência.
É uma espécie de desorientação da consciência pública, na qual as sociedades, embora cada vez mais informadas, parecem compreender-se cada vez menos.
Nunca tivemos tantas palavras para explicar o mundo e talvez nunca tenhamos tido tão pouca disponibilidade para o escutar.
Os povos e os seus governos constroem narrativas destinadas a conferir identidade, continuidade e legitimidade à própria existência histórica. Nenhuma comunidade nasce no vazio. Cada uma respira num determinado biótopo cultural, alimentado pela geografia, pelo clima, pela memória dos antepassados, pelos trabalhos quotidianos e até pelos ventos dominantes que, durante séculos, modelaram os hábitos, os temperamentos e as formas de imaginar a vida.
A paisagem não é apenas o cenário da história; ela participa silenciosamente na formação da consciência. Há uma sabedoria das montanhas, uma inquietação das fronteiras, uma abertura dos mares e uma intimidade dos vales. A cultura nasce também desta convivência prolongada entre o ser humano e o lugar (Não é sem razão que as noites prolongadas de povos nórdicos os levam a procurar a luz nos livros que não encontram fora!).
O problema começa quando essa experiência situada, legítima na sua singularidade, se transforma numa narrativa fechada que pretende possuir a interpretação definitiva da realidade.
- Quando os factos deixam de dialogar
No regime contemporâneo das narrativas, os factos correm frequentemente o risco de perder a sua autonomia. Já não são necessariamente acolhidos pela sua capacidade de esclarecer a realidade, mas pela utilidade que oferecem à construção de uma determinada visão do mundo (ou narrativa).
Cada narrativa seleciona os acontecimentos que a confirmam, organiza-os segundo a sua lógica interna e tende a desvalorizar aqueles que a poderiam contrariar.
Assim se constituem universos paralelos de interpretação.
O que para uns representa libertação, para outros constitui ameaça; aquilo que um governo apresenta como defesa da segurança, outro denuncia como agressão; o que uma comunidade celebra como fidelidade à sua história pode ser vivido por outra como exclusão ou injustiça.
Não se trata de afirmar que todas as interpretações possuem o mesmo valor ou que os factos deixam de existir independentemente delas. Pelo contrário, é precisamente porque existe uma realidade que não depende das nossas conveniências que as narrativas precisam de ser confrontadas, corrigidas e responsabilizadas.
Uma narrativa que se torna imune à experiência deixa de ser instrumento de compreensão para se transformar em mecanismo de autopreservação.
A verdade deixa então de ser uma procura e passa a funcionar como propriedade de grupo. E quando a verdade é tratada como propriedade, o outro deixa de ser interlocutor para se tornar intruso.
2. O abstrato contra o situado
Uma das contradições mais inquietantes do nosso tempo reside na distância crescente entre a abstração dos discursos e a concretude da vida.
Fala-se de humanidade enquanto se ignoram seres humanos. Invoca-se a paz enquanto se alimentam mecanismos de hostilidade. Proclamam-se direitos universais enquanto se relativiza o sofrimento daqueles que se encontram fora do perímetro das nossas2 simpatias políticas ou culturais.
O abstrato, que deveria ajudar a compreender e a dignificar o concreto, converte-se frequentemente numa instância que o subordina.
A pessoa real, com a sua biografia, o seu medo, a sua esperança e a sua vulnerabilidade, desaparece por detrás de categorias como povo, nação, civilização, bloco, sistema ou interesse estratégico.
A linguagem torna-se progressivamente mais grandiosa à medida que a experiência humana se torna menos visível.
Mas nenhuma ideia de humanidade pode ser moralmente superior à pessoa concreta que sacrifica em seu nome.
A universalidade autêntica não nasce da eliminação das diferenças. Nasce da capacidade de reconhecer, em cada existência situada, uma dignidade que ultrapassa as fronteiras da pertença.
O universal que não sabe ajoelhar-se diante do particular acaba por se transformar numa abstração desumana.
3.A memória sepultada pela velocidade
A aceleração histórica agrava esta fragmentação.
Os acontecimentos sucedem-se com tal rapidez que raramente dispomos do tempo necessário para compreender as suas origens. Uma notícia enterra a anterior; uma indignação substitui outra; uma explicação instala-se antes de a experiência ter amadurecido.
A memória deixa de ser uma continuidade interpretativa e converte-se num depósito de fragmentos mobilizáveis.
Torna-se então difícil reconstituir a terra que alimentou as raízes de um conflito, de uma cultura ou de uma decisão política.
As causas profundas desaparecem sob a acumulação dos efeitos imediatos.
A sociedade começa a viver numa espécie de presente perpétuo, saturado de informação e empobrecido de consciência histórica.
Contudo, compreender não significa desculpar, tal como recordar não significa permanecer prisioneiro do passado.
Compreender é restituir aos acontecimentos a sua espessura humana, reconhecer os encadeamentos que os produziram e impedir que a simplificação transforme a história numa sucessão de culpados absolutos e inocentes perfeitos.
Uma civilização que perde a capacidade de recordar criticamente corre o risco de repetir aquilo que já não consegue compreender Muitas referências à história passam a ser desenraizadas e atraiçoadas para se tornarem em pedras mortas possibilitadoras ao caminhar de pessoas com andarilhos!…
4. O direito, a justiça e a consciência
Também o direito participa desta tensão.
Enquanto ordem normativa, o direito estabelece procedimentos, competências, obrigações e limites. A sua força reside precisamente na possibilidade de regular a convivência sem depender exclusivamente dos sentimentos individuais ou das convicções morais particulares.
Mas o direito não se identifica automaticamente com a justiça.
Uma norma pode ser formalmente válida e, ainda assim, produzir consequências profundamente injustas. Uma decisão pode respeitar os procedimentos e deixar sem resposta a dor daqueles que por ela são atingidos (E o principal busílis da questão é que também aqui subsiste o hiato entre consciência própria e função).
O direito, considerado apenas como sistema, não possui alma. A alma pertence aos seres humanos que o criam, interpretam, aplicam e contestam.
Por isso, a justiça não pode reduzir-se à legalidade, embora também não possa dispensar as garantias que o direito proporciona.
A justiça exige uma permanente vigilância da consciência sobre a ordem instituída.
O mesmo se aplica à moral. Nenhuma tradição moral particular esgota a experiência humana do justo. A consciência amadurece quando reconhece que os seus próprios critérios precisam de ser expostos à experiência do outro.
O direito sem consciência arrisca tornar-se administração da força; a consciência sem direito arrisca tornar-se arbitrariedade.
A tarefa civilizacional consiste em manter viva a tensão fecunda entre ambos.
- A doença da razão instrumentalizada
O sinal mais preocupante da nossa época não é certamente a existência de conflitos, inevitáveis numa humanidade plural, mas a crescente incapacidade de os pensar sem converter o adversário em inimigo existencial.
A razão, em vez de constituir um espaço de encontro, é frequentemente convocada para justificar decisões previamente determinadas por interesses económicos, geopolíticos, ideológicos ou identitários. Por isso deixa de perguntar «O que é verdadeiro?» para perguntar «Que argumentos servem melhor a nossa posição?».
A inteligência é pervertida e transformada em instrumento de legitimação.
Surge assim uma racionalidade aparentemente rigorosa, mas interiormente empobrecida porque conhece os meios, calcula as vantagens, organiza os discursos e perde de vista os fins humanos que deveriam orientar a sua atividade.
Não estamos perante uma ausência de inteligência, mas perante uma possível dissociação entre inteligência e sabedoria.
É possível possuir enormes capacidades técnicas e permanecer incapaz de reconhecer o sofrimento provocado pelas próprias decisões.
É possível defender apaixonadamente valores universais e aplicá-los seletivamente. É possível vencer todas as discussões e perder a capacidade de convivência.
Esta é uma das grandes patologias metafóricas da vida pública que consiste na transformação da razão em advogada permanente de interesses que raramente se deixam interrogar.
- A saúde mental como responsabilidade civilizacional
Falar de saúde mental neste contexto não significa confundir divergência política com doença psiquiátrica, nem atribuir diagnósticos clínicos a povos ou governos.
Saúde mental, significa interrogar, em sentido filosófico e ético, a qualidade da nossa relação coletiva com a realidade.
Uma cultura intelectualmente saudável deve ser capaz de distinguir os factos das interpretações, os princípios dos interesses, a fidelidade às raízes da hostilidade perante o diferente.
É necessário reconhecer a possibilidade do erro próprio sem considerar essa admissão uma derrota.
Precisa de cultivar uma memória que não seja instrumento de vingança, uma identidade que não necessite de inimigos e uma razão que não tenha vergonha de reconhecer os seus limites. Acima de tudo, precisa de recuperar a capacidade de escutar.
Escutar não significa concordar. Significa admitir que o outro pode revelar dimensões da realidade que a nossa experiência não alcançou.
A verdadeira inclusão não consiste em dissolver as diferenças numa narrativa uniforme, mas em criar condições para que narrativas distintas possam encontrar-se perante factos verificáveis, princípios discutíveis e uma dignidade humana que nenhuma delas tenha o direito de monopolizar.
Não precisamos de um mundo sem narrativas; o que precisamos é de narrativas capazes de reconhecer que não são o mundo inteiro.
- Regresso à terra comum que pisamos
Talvez a reconstrução de uma razão verdadeiramente humana (para além das lógicas) tenha de começar por um gesto de humildade que é o de olhar para a terra e regressar ela (nela encontramos o espírito e a matéria que em Belém se tornou protóptipo do ser e do tornar-se.).
Não à terra entendida como propriedade exclusiva de uma identidade, mas à terra enquanto condição partilhada da existência.
Todos nascemos situados. Todos recebemos uma língua antes de podermos escolher as palavras. Todos herdamos memórias, afetos, preconceitos e horizontes que não construímos sozinhos.
E todos, apesar dessas diferenças, partilhamos a fragilidade de um corpo, a necessidade de reconhecimento, a experiência da perda e a consciência, por vezes silenciosa, da própria finitude. É nessa vulnerabilidade comum que a razão pode reencontrar a sua vocação mais profunda.
A paz não nasce da vitória definitiva de uma narrativa sobre todas as outras. Nasce da construção exigente de condições em que a diferença não precise de se converter em ameaça.
A justiça não começa quando todos pensam do mesmo modo, mas quando ninguém é privado da sua humanidade por pensar de maneira diferente.
E a verdade não se torna mais fraca por aceitar o confronto; pelo contrário, encontra nele a possibilidade de se libertar das nossas ilusões.
Procura-se saúde mental.
Não apenas nos indivíduos, mas na qualidade do discurso público, na responsabilidade das instituições e na consciência daqueles que transformam palavras em decisões que afetam vidas.
Procura-se uma razão que não humilhe o sentimento, uma identidade que não sufoque a alteridade, uma lei que não esqueça a justiça e uma política que não confunda a grandeza dos seus projetos com a dignidade das pessoas.
Procura-se, afinal, a humanidade que se foi perdendo entre as palavras pronunciadas em seu nome. E isto porque uma civilização não se mede apenas pela inteligência com que organiza o poder, mas sobretudo pela sabedoria com que impede que esse poder destrua aquilo que deveria servir.
Certamente a primeira manifestação de saúde se expressa em reconhecer que nenhuma narrativa vale mais do que a vida que pretende explicar.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo