ALEMANHA PERDE PARA  PORTUGAL A CORRIDA AO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU

Parabéns a Portugal e a Paulo Rangel pelo sucesso da eleição

A Alemanha perdeu o seu lugar no Conselho de Segurança da ONU, que ocupava há oito anos. A Áustria e Portugal candidataram-se a uma das duas vagas no grupo dos Estados da Europa Ocidental e Outros Estados, tendo a Alemanha de ceder o seu lugar. A candidatura de Portugal era para um mandato de dois anos. Recentemente, a Alemanha não tem contribuído para a prevenção de conflitos, mediação e acção humanitária, como exige o Conselho de Segurança.

O Conselho de Segurança é composto por 15 Estados-membros, sendo as suas decisões vinculativas para todos os Estados-membros da ONU. Este órgão máximo da ONU pode impor sanções, enviar missões de manutenção da paz e autorizar o uso da força militar.

Os cinco membros permanentes, EUA, Reino Unido, França, China e Rússia; são potências nucleares e têm poder de veto.

A posição da Alemanha no conflito do Médio Oriente e o seu excessivo envolvimento na guerra na Ucrânia foram certamente factores determinantes na eleição. A Alemanha não reconhece um Estado palestiniano.

A vaga no Conselho de Segurança é para o período de 2027-2028 e parece encontrar-se em boas mãos. Será de esperar que Portugal não se alinhe atrás de nenhum dos actores geopolíticos para poder manter a sua capacidade diplomática.

O ministro Paulo Rangel teve a iniciativa de organizar a candidatura de Portugal. Portugal ao lado de tantas nações revela-se mestre em diplomacia. Tinha como rival a forte Alemanha que foi deposta…

Portugal foi eleito como membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU, para o biénio 2027/2028.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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À MINA E A TODAS AS CRIANÇAS DO MUNDO

No dia em que a infância nos lembra quem somos

Há um tipo de luz que não vem do sol; vem dos olhos de uma criança quando te olha como se fosses o mundo inteiro. É uma luz sem filtro, sem medo, sem história que a manche. É o mundo como ele era antes de aprendermos a ter pressa e a correr atrás da sombra dos outros.

Penso na Mina e ao pensar nela, vejo-a em cada criança que ainda não aprendeu a fingir, que ri com o corpo todo, que chora sem vergonha, que ama sem condições nem com segundas intenções. Mina tem sete anos e uma sabedoria que a maioria de nós perdeu algures entre a infância e a idade adulta.

Às mães que constroem o primeiro fundamento firme, esse colo que é o berço da coragem, o meu louvor mais fundo. Mina recebeu todo o amor e dedicação que uma mãe pode dar a uma criança e uma criança que cresce no aconchego cresce com raízes. Tais raízes são o que nos permite, um dia, dobrar sem partir.

Há dias, a Mina fitou-me nos olhos. Não disse nada com a boca, mas disse tudo: eu não sou um projeto teu, sou vida que já acontece, presente e inteira. Ela é testemunha de algo que os adultos complicam: que a riqueza da vida está no começo, no agora, no simples. Algo que se expressa de forma diferente em cada estação, mas começa sempre ali, na pureza de quem ainda não sabe ter medo de amar.

Depois sentou-se numa escrevaninha e desenhou. Aí, com lápis de cor e com vontade, pintou-nos aos dois: ela e eu, de olhos arregalados para a vida. E no canto da folha, com a letra ainda irregular, mas absolutamente certa, escreveu:  “Vovô, eu amo-te.”

Há frases que não cabem num papel e esta é uma delas. Transbordou e chegou ao meu peito e ficou lá, bem aquecida.

Noutro dia, eu estava diante do computador, esse altar moderno onde sacrificamos o presente em nome do urgente e eu passo a vida a escrever. A Mina chegou, ficou à porta do meu escritório e disse com uma calma que envergonha:

“Queria brincar contigo. Mas não quero que venhas se não puderes.”

Sete anos que falam assim. Sete anos e já sabe que o amor não se pede à força e não se mendiga. Oferece-se e respeita. Há adultos que levam décadas a aprender isso. Mas Mina já sabia. (Minha querida, és um amor e ensinas-me tanto da vida!)

Por isso, neste dia que é de todas as crianças, o meu abraço mais genuíno vai para a Mina e, nela, para cada pequeno ser que ainda olha o mundo de olhos luminosos e com espanto. Que as crianças nos lembrem, a nós adultos distraídos, que o brilho não se perde com os anos. Apenas se esquece e esquecer, felizmente, tem cura.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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A CONSTANTE HISTÓRICA

Não é falta de inteligência
é o peso invisível
que dobra o pensamento
como água que rodeia a pedra.

Em todos os regimes,
em todos os tempos,
um povo inteiro afirma o regime
e alguns, considerados, os incómodos, os loucos, os livres
tentam abrir-lhes os olhos.

É assim que se faz.
É assim que sempre se fez.

A democracia tem o seu fraco
como todos os outros tiveram o seu!
Nela a maioria decide o que é verdade
e a estatística torna-se doutrina,
a sociologia vira catecismo,
e a sabedoria das outras disciplinas:
teologia, filosofia, história, poesia
é deitada ao chão
para que os pés dos números
não sintam o frio do mármore.

A maioria não engana com má-fé.
Engana com boa consciência,
que é a forma mais perfeita de engano.

E os dissidentes?
São tolerados como ornamento,
prova de que o sistema é livre,
enquanto o sistema segue sem os ouvir.

É assim que se faz. É assim que sempre se fez.
E é assim que sempre há-de ser!
Não fosse o povo continuar a ser povo
e as elites deixarem de ser poder.

António da Cunha Duarte Justo
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A UE À MARGEM DA “PAZ” QUE FINANCIOU!

Bruxelas reclama lugar nas negociações, mas Moscovo recusa-a como mediadora e Washington já não a consulta

A nação que teme os seus inimigos busca amigos. A nação que confia nos seus amigos perde-se a si mesma. A Ucrânia fez as duas coisas ao esquecer que o que move Bruxelas são interesses alheios.

A União Europeia encontra-se hoje perante uma contradição diplomática de difícil resolução: após a escalada do conflito em 2022, os aliados ocidentais de Kiev romperam laços com Moscovo e adoptaram uma estratégia de isolamento total da Rússia, e agora vê-se excluída das negociações de paz que se desenvolvem sem a sua presença efectiva.

Estão em curso negociações trilaterais com os Estados Unidos, a Federação Russa e a Ucrânia nos Emirados Árabes Unidos, o que coloca em evidência o papel marginal da UE nos esforços diplomáticos para pôr termo à guerra que decorre no seu próprio continente. O Parlamento Europeu reconheceu formalmente que a marginalização da UE destas conversações é uma consequência directa da sua incapacidade de seguir uma estratégia diplomática autónoma, caracterizada pela ausência de iniciativa própria e por uma dependência excessiva de abordagens militarizadas, alinhadas pelos EUA e pela NATO.

Perante este impasse, a Alta Representante da UE, Kaja Kallas, admitiu abertamente que a Europa nunca será um mediador neutro entre a Rússia e a Ucrânia, porque está do lado da Ucrânia e defende os seus próprios interesses de segurança fundamentais. A declaração, ao reconhecer publicamente a perda de neutralidade, terá agravado as perspectivas de Bruxelas participar nas negociações. Moscovo, pela voz do ministro Lavrov, classificou as condições impostas pela UE como “idióticas”, e acusou a União Europeia de praticar “diplomacia de megafone”, emitindo ultimatos públicos em vez de procurar negociações substantivas.

Internamente, a UE debate-se com a questão de quem a poderia representar junto de Moscovo. Kallas alertou que não se deve cair na “armadilha” russa de discutir quem deverá representar a Europa em eventuais negociações, sublinhando que qualquer processo negocial deve ser conduzido como um esforço colectivo. Mas a posição não convence todos os Estados-membros: inteligentemente, o primeiro-ministro português Luís Montenegro voltou a defender que é preciso dialogar com a Rússia para alcançar “uma paz justa e duradoura na Ucrânia” e incentivou a Europa a “tomar a iniciativa” de um processo de paz bilateral (1).

Entretanto, a factura continua a crescer. A população europeia não beneficia em nada desta estratégia e, pior ainda, terá de pagar a conta da guerra, como se vê no apelo de Von der Leyen de 135 mil milhões de euros aos Estados-membros para 2026-27. Sob a administração Trump, os Estados Unidos abandonaram a estratégia de isolamento da Rússia e reposicionaram-se como mediadores do processo de paz, deixando Bruxelas a reivindicar um papel central numa mesa onde, por ora, não tem assento.

A nação que teme os seus inimigos busca amigos. A nação que confia nos seus amigos perde-se a si mesma. A Ucrânia fez as duas coisas ao esquecer que o que move Bruxelas são interesses alheios.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10980

(1) Bruxelas, em questões de geopolítica tem agido contra a Europa, sem conceito próprio, contra a sua posição geográfica, ignorou as intenções dos EUA contra interesses europeus e contra a Rússia depois da quedo da União Soviética. Tem castigado em vão os seus cidadãos, mas o pior ainda é que devido à conivência da sua narrativa com os Media sobre a Ucrânia e a Rússia, tem tirado  a capacidade crítica à generalidade dos seus cidadãos que se comporta como rebanho de um pastor que os leva para a sua venda!  Bruxelas revela-se como tendo abandonado o humanismo cultural europeu e a capacidade diplomática em favor do confronto e do globalismo liberalista, que, no seu dogmatismo, revela ter uma atitude de imperialismo mental!

 

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CONTRA A MUTILAÇÃO GENITAL

Um exemplo criativo de coragem e dignidade

Na revista Kontinente, da organização missionária missio, deparei com uma notícia que merece ser partilhada como exemplo luminoso de humanidade e transformação social.

Entre o povo Samburu, no Quénia, persiste ainda a dolorosa tradição da mutilação genital feminina, rito imposto a muitas meninas antes do casamento e considerado, durante gerações, condição para a entrada na vida adulta. Para milhares de jovens africanas, este costume representa sofrimento físico, trauma psicológico e a perda da própria autonomia sobre o corpo.

Foi neste contexto que surgiu a coragem serena e criativa da Irmã Theresa Nduku. Em vez de afrontar a cultura local com condenações exteriores ou discursos agressivos, procurou transformar a tradição a partir de dentro, respeitando a identidade do povo e oferecendo uma alternativa humana e digna.

A religiosa criou um novo ritual de passagem para a idade adulta. Durante uma semana, as raparigas participam em encontros de formação e reflexão sobre o corpo feminino, a saúde, a dignidade humana, os direitos da mulher, a fé, a cultura e os seus próprios sonhos de vida. Aprende-se ali não apenas a rejeitar a violência, mas sobretudo a descobrir valor, autoestima e liberdade interior.

No final da semana realiza-se uma cerimónia festiva e solene. Os anciãos da comunidade rezam pelas jovens, as famílias participam com orgulho e os pais assumem publicamente o compromisso de não submeter as filhas à mutilação genital. Segundo a Irmã Theresa, “é um momento de alegria e orgulho para todos”.

Este exemplo mostra como a mudança social profunda raramente nasce da humilhação cultural ou da confrontação ideológica. Muitas vezes, nasce da proximidade, da escuta, da educação paciente e do testemunho silencioso de pessoas que dedicam a vida aos outros.

Em muitos lugares esquecidos do mundo, milhares de irmãs, padres e missionários continuam diariamente a salvar vidas, ensinar crianças, cuidar de doentes, defender mulheres vulneráveis e combater práticas desumanas. Fazem-no longe das câmaras, sem protagonismo e, frequentemente, em condições extremamente difíceis mas sempre com dedicação e respeito pelo povo.

Por isso, causa estranheza ver tantas críticas generalizadas e ideológicas dirigidas à Igreja por sectores e grupos que, na prática, raramente assumem presença concreta junto dos mais pobres, dos abandonados e das vítimas de tantas formas de miséria humana.

Histórias como a da Irmã Theresa Nduku recordam-nos que a verdadeira transformação do mundo começa quase sempre em pequenos gestos de coragem, respeito e amor concreto pelas pessoas.

António da Cunha Duarte Justo

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