ONDE TUDO GIRA E A MULHER SUSPIRA

Olho em mim, à minha volta, e o espaço ruge.
Há forças que se cruzam no meu peito aberto,
uma órbita severa que me centra e rege,
um vento cego e cósmico que me arrasta perto.
O sistema solar, com seu desenho exato,
quer espelhar a sua arquitetura em meu esqueleto;
somos astros de carne num eterno pacto,
atraídos pelo abismo de um íman secreto.

O amor tem nas pessoas a exata grandeza,
o mesmo peso denso, a mesma gravidade,
que o sol impõe à flora com real firmeza,
erguendo os caules fundos para a claridade.
A terra gira em torno do calor do dia,
e o homem gira em volta da mulher que adora,
tudo guarda no sangue a sua geometria,
uma ordem secreta que no mundo vigora.

A fragrância da flor acende-se no rosto
daquela que detém o eixo do meu norte,
no abrigo das suas pétalas encontro o pouso,
o repouso sagrado que me livra da morte.
Sou o girassol tonto, preso ao magnetismo,
que sem notar o tempo ou a lei do espaço,
sente o voar do pólen suspender o abismo
e mergulha no gineceu do teu abraço.

Nesta dança de asas leves e carnais,
a atração sustenta o céu e o chão profundo;
entre rotação e translação, nos sinais
de dois corpos acesos, movimenta-se o mundo.
Se o girassol procura a luz que o alumia,
a alma busca o divino, o mistério oculto,
na esperança de ver, na carne e na agonia,
o invisível e o sagrado num abraço adulto.

Tudo caminha à pressa, no encalço do brilho,
esperando que o trovão rasgue a noite escura,
que do atrito do fósforo nasça o rastilho,
a chama viva e livre que nos transfigura.
O amor é este combate contra a inércia fria,
o fogo que nos salva de ser meteorito
caído no vazio, sem rumo ou poesia,
perdido na distância de um deserto aflito.

A vida, por si só, pesa como uma rocha,
difícil de carregar no lombo dos dias;
mas o amor é a alavanca que a noite arrocha,
a experiência magna que abre as vias.
Não é a única âncora, mas é a mais violenta,
a que torna o caminho suportável e belo,
enquanto o universo lá fora se sustenta
e nós ardemos juntos no mesmo castelo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

Social:
Pin Share

POESIA EM ALVORAR MULTIPOLAR

Quando a Lua me visita, no rosto lhe sorrio,
E nesse espelho etéreo um outro Sol se vê.
Ocidente e Oriente num só olhar confio,
Pois no brilho que emana, ninguém jamais se perde.
Misturam-se os saberes, as emoções irmãs,
Num lago de luz onde o tempo se desfaz.

Logo erguemos nossas mãos, dois hemisférios de alma,
Num arco de oração que o céu sabe entender.
O louvor é a ponte que a distância acalma,
E o Criador escuta o cosmos a crescer.
Unimos o que a história teimou em separar,
Numa só vibração que nos faz palpitar.

A Ave-Maria ecoa em cada fuso horário,
Maria de Nazaré, matriz da Humanidade.
Em suas entranhas, o mistério planetário,
Onde o céu e a terra acham a igualdade.
Tudo o que dela emana é santo e imortal,
É o parto perenal que une o bem total.

Mas quando a Lua foge e a sombra me consome,
Minh’alma, polinizada, exalta-se a tremer.
Estremeço, Maria, no teu sagrado nome,
Pois sinto o que é dar à luz e renascer.
A comoção divina trespassa o meu ser,
E o mundo, em cada célula, começa a florescer.

Da saudade profunda, um útero se forma,
Já não de fantasia, mas de real visão.
É a Anunciação que a nossa alma transforma,
Aceitando o raio eterno em pura doação.

Assim como Maria, direi o meu “Sim”,
Para que um novo estado em nós tenha um jardim.
Novas maneiras de estar, sem muros nem fronteiras,
Onde a dor do contínuo parto é luz que nos clareia.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

Social:
Pin Share

VOLTANDO AO ACORDO ORTOGRÁFICO

 

Para pessoas que põem reticências ao AO e interessadas na discussão

Ao ler-se o artigo “O Acordo Ortográfico ainda não pode ser julgado” de Paulo Freitas do Amaral, no jornal “Correio de Lagos” https://correiodelagos.com/opiniao/o-acordo-ortografico-ainda-nao-pode-ser-julgado/# , verifica-se que o artigo é um primor de retórica histórica, mas peca por determinismo tecnológico. Ele olha para as redes de informação como um mero eco do Acordo, quando, na verdade, elas são o seu principal campo de batalha. Longe de tornarem o Acordo irreversível, as novas tecnologias expõem as suas incongruências diariamente, mantendo viva a grafia anterior nos motores de busca e permitindo, pela primeira vez na História, uma flexibilidade ortográfica em tempo real. Se o autor estivesse certo, a inteligência artificial já teria resolvido a questão; mas a realidade é que a IA gera constantemente erros e confusões entre as variantes, provando que o Acordo não é uma realidade cultural consolidada, mas uma norma administrativa em permanente tensão com a prática viva da língua, uma tensão que a tecnologia, afinal, tornou mais visível, e não mais pacífica.

  1. O “argumento da escala temporal” é uma falácia de autoridade ao apelar para a História. Quando afirma que 20 anos são “extremamente curtos” perante “nove séculos”, ele está a cometer um sofisma. Este raciocínio é uma armadilha lógica que torna qualquer crítica eternamente prematura. Se 20 anos são curtos, 50 também o serão, e 100 também, porque a língua tem 900.

O que ele esconde com esta retórica é que a avaliação de um sistema não precisa de séculos. A coerência interna de uma língua avalia-se pela lógica, não pela cronologia. Se eu desenhar um mapa com coordenadas erradas, não preciso de esperar 50 anos para saber que os viajantes se vão perder; posso analisar a geometria do mapa no dia seguinte. O Acordo Ortográfico tem vícios lógicos que são atemporais e que a retórica do autor tenta abafar com a névoa do “tempo histórico”.

  1. A “coerência interna” e o pecado da exceção (O “deus dará”)

O historiador deixa a coerência “ao deus dará”. Coerência interna é a relação previsível entre a fonologia (o som) e a grafia (a escrita), e a relação morfológica entre palavras da mesma família (ex: eletricidade / elétrico). Se a língua não obedece a decretos, porque assume que obedece a este?

O Acordo Ortográfico, na sua aplicação prática, quebrou essa coerência em vez de a aperfeiçoar. Ele eliminou as consoantes mudas (ex: acção, ação), mas apenas quando não são pronunciadas. Contudo, na derivação, essas mesmas consoantes reaparecem porque são pronunciadas: escrevemos ação (sem ‘c’), mas escrevemos acionista ou acionar (com ‘c’? Não, espera, a regra é acionar sem ‘c’ também? Vamos a um exemplo mais claro: contacto, passou a contato em Portugal? Não, a regra diz que se a consoante for pronunciada, mantém-se. Então pacto mantém o ‘c’ porque se pronuncia? Com isto abre-se caminho à confusão.

O exemplo clássico é a dupla grafia de verbos que passaram a ter oscilações caóticas. Como já referi no artigo https://antonio-justo.eu/?p=11083  o que o Acordo fez foi substituir uma ortografia etimológica (com regras claras, ainda que complexas) por uma ortografia fonética superficial, mas cheia de exceções e casuísmos e empobrecimento das pessoas gramaticais. É exatamente o oposto de uma coerência interna, passando a ser uma colcha de retalhos. Ignorar esta análise técnica em nome de “já passou uma geração” é, de facto, deixar o rigor ao acaso.

  1. A confusão entre “sucesso de implementação” e “qualidade sistémica”

O autor do texto troca os campos semânticos propositadamente. Ele diz que não se pode chamar “fracasso” porque as pessoas estão a escrever de acordo com a nova norma. Mas isso é confundir adesão forçada com qualidade linguística.

A escolaridade obrigatória e os dicionários institucionais impõem qualquer norma, mesmo que ela seja má. A questão nunca foi se as pessoas conseguem adaptar-se (elas conseguem porque os humanos são plásticos), mas sim o que se perdeu nessa adaptação. Perdeu-se a transparência etimológica (a ligação ao latim e grego, que ajudava na compreensão de palavras eruditas), perdeu-se a distinção gráfica entre palavras homófonas (ex: cesta e sexta já eram confusas, mas outras surgiram) e, sobretudo, perdeu-se a unicidade da raiz morfológica. Avaliar o sucesso ou fracasso sem passar pelo crivo da funcionalidade cognitiva e pedagógica é um debate vazio. O autor foge desse crivo porque, se o enfrentasse, teria de admitir que a reforma é, na melhor das hipóteses, um mal que atenta contra a lógica da língua.

  1. O “tempo” não cura contradições lógicas

Por fim, a maior fragilidade da posição do historiador  é assumir que o tempo é uma espécie de alquimia que transforma o errado em certo. Se uma regra é internamente contraditória hoje, continuará a sê-lo daqui a 100 anos. As pessoas podem habituar-se à contradição porque o cérebro humano normaliza o absurdo, mas isso não faz dela uma boa regra. A História que ele invoca não é um juiz que absolve os erros; é um arquivo que os regista.

Quando ele diz que “a língua não obedece a decretos”, e simultaneamente defende que os decretos devem permanecer só porque foram aplicados, ele está a contradizer a sua própria premissa. Se a língua é orgânica, ela rejeitaria espontaneamente as más soluções. Ora, o que vemos é que a língua não rejeitou porque a tecnologia e a escola a amoleceram. Estamos perante uma língua em estado de “vida assistida”, não de evolução natural.

Em suma, o texto de Paulo Freitas do Amaral é uma magnífica peça de oratória para silenciar críticos, apelando à paciência histórica. Mas a verdade é que um linguista ou um filólogo sério não precisa de esperar 900 anos para saber se uma reforma faz sentido; precisa apenas de olhar para o paradigma verbal, para a derivação sufixal e para a economia cognitiva da escrita. E, nesse olhar, o Acordo revela-se frágil, incoerente e profundamente dependente de “deus dará” – ou, pior, do “deus algorítmico” dos corretores ortográficos. Na qualidade de historiador Paulo Freitas do Amaral pronuncia-se sobre um assunto que não faz parte da sua especialidade e deveria reconhecer que a filosofia da História não deve seguir o cunho político/partidário porque obedece a uma outra lógica.

António da Cunha Duarte Justo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

Anexo carta que redigi à Direcção do Jornal Correio de Lagos

Assunto: Refutação analítica aos pressupostos históricos e tecnológicos do Acordo Ortográfico

(Se o Jornal Correio de Lagos pretender contribuir para uma discussão mais objectiva pode publicar o artigo que se segue à refutação)

 

Prezado Senhor Paulo Freitas do Amaral,  autor do artigo “O Acordo Ortográfico ainda não pode ser julgado”.

Li com atenção o seu artigo, no qual defende que vinte anos são um período insuficiente para avaliar o Acordo Ortográfico e que as novas redes de informação e a digitalização vieram, naturalmente, consolidar a sua irreversibilidade. A sua prosa é, reconhecidamente, de grande fluência retórica. Contudo, como cidadão atento à coerência interna da nossa língua e à realidade dos factos digitais, sinto-me na obrigação de lhe endereçar uma contracrítica estruturada, que espero ver publicamente considerada.

Permito-me resumir os argumentos que contradizem a sua tese e que, a meu ver, revelam uma visão excessivamente complacente e determinista da reforma ortográfica:

  1. A falácia da escala temporal e a aceleração da História

Argumenta que 20 anos são “extremamente curtos” perante nove séculos de existência da língua. Este raciocínio, porém, constitui uma falácia de autoridade que torna qualquer crítica eternamente prematura. A verdade é que a condição material da História se alterou radicalmente. No passado, uma reforma dependia de gerações para circular através de livros impressos. Hoje, com a comunicação instantânea e a Big Data, produzimos em duas décadas um volume de texto escrito superior a todo o património dos nove séculos anteriores. Portanto, não só é possível avaliar o impacto da reforma, como temos a obrigação estatística e empírica de o fazer. O “tempo histórico” encolheu e a tecnologia não é uma desculpa para a inércia, mas um acelerador de diagnósticos.

  1. A confusão entre implementação forçada e qualidade sistémica

O senhor confunde, no seu texto, o sucesso da implementação com a qualidade intrínseca da norma. Que as crianças e os jovens escrevam segundo as novas regras é um dado meramente administrativo e escolar, não um atestado de excelência linguística. A escolaridade obrigatória e os dicionários institucionais impõem qualquer norma, mesmo que ela seja intrinsecamente defeituosa. O cerne da questão nunca foi se as pessoas conseguem adaptar-se (sim porque os humanos são plásticos), mas sim o que se perdeu nessa adaptação. E é factual que se perdeu a transparência etimológica, a ligação orgânica às raízes greco-latinas, e criaram-se novas ambiguidades homofónicas. O tempo não cura contradições lógicas; o facto de nos habituamos a elas, não as transforma em boas regras.

  1. A ilusão do “esquecimento” face ao Arquivo Digital Total

O argumento mais frágil apresentado  é o de que a nova geração “não tem memória” da grafia anterior, tornando o retrocesso impraticável. Ora, ao contrário das reformas do século XIX, hoje vivemos na era do hiper-arquivo. Qualquer jovem, ao pesquisar um texto de 1998 ou uma edição crítica de Camões, tem acesso instantâneo e lado-a-lado às duas normas. A tecnologia não apaga o passado; monumentaliza-o e torna-o perenemente acessível nos servidores. Portanto, a memória não é biológica, é algorítmica. E se a memória persiste digitalmente, a justificação para não se voltar atrás perde toda a força histórica.

  1. A tecnologia como agente de coerção, não de evolução orgânica

Afirma que “os computadores, os corretores e a IA trabalham naturalmente com as normas atuais”. Esta é uma inversão lógica perigosa. Um corretor ortográfico não é um fenómeno linguístico natural; é um acto de engenharia política e comercial. Se a Microsoft ou a Google atualizarem os seus dicionários para a norma anterior (ou para uma híbrida), toda a escrita digital mudará no dia seguinte. A tecnologia não é um agente de consolidação irreversível; é um agente de plasticidade extrema. Usar a tecnologia para validar o Acordo é como dizer que uma estrada de asfalto é irreversível porque os carros só andam nela, esquecendo que o asfalto foi posto por decisão humana e pode ser removido por outra decisão. A língua não “muda” porque o Word sublinha uma palavra a vermelho; a língua é coagida por uma interface, o que é historicamente muito diferente.

  1. A incoerência interna da reforma (o “deus dará” estrutural)

O artigo começa por dizer que “a língua não obedece a decretos”, mas termina a defender que o decreto deve permanecer só porque foi aplicado. Se a língua é orgânica, ela rejeitaria espontaneamente as más soluções. Ora, o que vemos é que a língua não rejeitou porque a tecnologia e a escola a implementaram. Estamos perante uma língua em estado de vida assistida, não de evolução natural. A reforma quebrou a coerência morfológica ao eliminar consoantes em alguns contextos, mas mantê-las noutros (nas palavras da mesma família), e criou caos nas conjugações verbais como adequar ou averiguar e empobrece a língua acabando propriamente com o vós. Isto não é evolução; é uma colcha de retalhos que um filólogo sério reconheceria como um atentado à lógica sistémica da língua.

Conclusão:

A sua visão, prezado Senhor Paulo Freitas do Amaral, é a de um historiador que olha para o passado com saudade, mas que se recusa a olhar para o presente com rigor técnico. A avaliação de uma reforma ortográfica não deve ficar refém de uma paciência cronológica indefinida; deve passar pelo crivo da funcionalidade cognitiva, da transparência etimológica e da economia pedagógica. E nesse crivo, infelizmente, o Acordo Ortográfico revela-se frágil, incoerente e profundamente dependente do “deus algorítmico” dos corretores.

Não peço que o consideremos um “fracasso” por decreto, mas peço que lhe retiremos o véu da inevitabilidade histórica. A língua portuguesa sobreviveu a muitas mudanças, mas sobreviveu, sobretudo, porque houve quem as discutisse com lucidez e não as aceitasse como um destino cego. É nesse espírito de debate crítico que lhe apresento estas reflexões.

Com os melhores cumprimentos,

António da Cunha Duarte Justo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

Artigo : Os Erros do Acordo Ortográfico no link: https://antonio-justo.eu/?p=11083

Social:
Pin Share

OS DETALHES DO DEMÓNIO

Os jovens creem no Diabo, diz o estudo alemão,
talvez porque os idosos, coitados, já não têm visão
para ler a letra miúda dos tratados de Bruxelas,
onde o inferno se compra com moedas amarelas.

Pormenores, pormenores, eis a nova peste:
austeridade na sopa dos pobres, petróleo na festa
dos tanques que roncam em velhas estepes,
enquanto o ambientalista chora por mais cartazes verdes.

Politicos anões dançam num tabuleiro gigante,
mudam as quotas, mudam o tom, mas o mandante
é o senhor dos cofres, o Mamon de carinhoso cinzento,
que ri na cave do banco central, onde o ar é lento.

Já não se distingue o grande do pequenino:
a reforma de um imposto ou o gatilho de um assassino?
Tudo são truques, tudo é peça num motor de guerra
que aquece os motores enquanto a Terra se desterra.

E a juventude, ó alma ingénua, herda o sabor
do que o espírito do tempo cozinhou com desamor:
sobra-lhe o detalhe, a migalha, a factura,
enquanto o Diabo, desempregado, assina a escritura
deste mundo onde o fogo já não precisa de chifres,
basta um “deficit” mal contado e uns juros que nos cifram.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

Social:
Pin Share

UE retira financiamento à Bienal de Arte de Veneza devido à participação da Rússia

A União Europeia, através da Agência Executiva Europeia para a Educação e a Cultura (EACEA), cancelou definitivamente um subsídio de dois milhões de euros destinado à Bienal de Veneza. A decisão, formalizada a 21 de julho de 2026, foi tomada na sequência da recomendação da Comissão Europeia e após uma avaliação jurídica do processo.

O motivo invocado foi a decisão da organização da Bienal de admitir a participação da Rússia na 61.ª edição da exposição internacional de arte contemporânea, que decorre de 9 de maio a 22 de novembro. A Rússia regressou ao evento pela primeira vez desde o início da invasão da Ucrânia em 2022, após ter estado ausente nas edições de 2022 e 2024.

A posição da União Europeia

O porta-voz da Comissão Europeia, Thomas Regnier, declarou que “os eventos culturais financiados pelo dinheiro dos contribuintes europeus devem salvaguardar os valores democráticos, promover o diálogo aberto, a diversidade e a liberdade de expressão, valores que não são respeitados na Rússia atual”.

A Comissão Europeia tinha avisado a Bienal durante meses de que o financiamento seria retirado se a Rússia participasse. Em abril de 2026, foi dado à organização um prazo de 30 dias para “limpar o seu nome” relativamente à participação russa. Após considerar insuficientes as explicações apresentadas pela Bienal, Bruxelas procedeu ao corte definitivo do subsídio.

A decisão gerou também críticas por parte do governo italiano, com a subsecretária da Cultura, Lucia Borgonzoni, a classificar a medida como “mais um ataque político e ideológico” a uma instituição cultural.

A posição da Bienal de Veneza

A Fundação Bienal de Veneza anunciou que irá recorrer da decisão. A organização defendeu-se argumentando que o subsídio europeu não se destinava à exposição de arte propriamente dita, mas sim a atividades do setor do cinema, nomeadamente o Biennale College e o Venice Production Bridge, atividades que, segundo a fundação, “não têm nada a ver com a participação da Rússia na Bienal de Arte”.

A Bienal sublinhou ainda que a decisão “não tem impacto significativo no orçamento, nas contas ou nas atividades previstas”, e reiterou que foi fundada com base nos princípios de “abertura, diálogo e rejeição de qualquer forma de encerramento ou censura”. O presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, argumentou que “se a Bienal começar a selecionar não as obras, mas os bens, não as visões, mas os passaportes, deixaria de ser o que sempre foi: o lugar onde o mundo se reúne”.

O contexto da participação russa

O pavilhão russo, propriedade do Estado russo, apresentou o projeto “The Tree Is Rooted in the Sky”, com cerca de cinquenta artistas selecionados pelas autoridades de Moscovo. A curadora do pavilhão é Anastasia Karneeva, filha de Nikolay Volobuyev, vice-diretor-executivo da Rostec, uma fabricante estatal de armamentos russa.

O pavilhão esteve aberto apenas durante a semana de pré-abertura da Bienal, em maio, tendo permanecido encerrado ao público durante o resto do evento. A sua presença gerou protestos, incluindo uma invasão do coletivo punk-feminista Pussy Riot, e levou à demissão do júri internacional.

A Ucrânia criticou veementemente a decisão da Bienal, com a ministra da Cultura, Tetiana Berejna, a comparar o ato a “convidar um assassino em série para um jantar com amigos”.

Análise crítica

A decisão da União Europeia suscita várias questões e uma análise crítica. Em primeiro lugar, a própria Bienal sublinha que os fundos em causa não se destinavam à exposição de arte propriamente dita, mas a outras atividades culturais. A suspensão do financiamento por razões alheias ao objeto do subsídio pode ser vista como uma medida desproporcionada.

Em segundo lugar, a argumentação da EU, de que a cultura financiada com dinheiros públicos deve “promover e salvaguardar valores democráticos”, coloca a questão de saber quem define o que são esses valores e como devem ser promovidos. A decisão corresponde a um entendimento segundo o qual o poder político se arroga o direito de definir os limites da liberdade artística, o que contradiz o próprio princípio da liberdade de expressão que a UE diz defender.

Em terceiro lugar, a medida levanta a questão da seletividade: a UE focou exclusivamente a participação da Rússia, apesar de também terem ocorrido protestos contra a presença de Israel na Bienal. Esta aparente disparidade de critérios pode ser interpretada como uma aplicação política e não de princípios lógicos como os valores invocados.

Por fim, a decisão penaliza os artistas e a instituição cultural, sem que estes tenham necessariamente responsabilidade direta pelas decisões geopolíticas que motivaram o corte de financiamento. A cultura, enquanto espaço de diálogo e encontro entre povos, corre o risco de se tornar instrumento de uma política que, ao pretender defender valores, acaba por cercear a própria liberdade que diz proteger.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

Social:
Pin Share