A NATUREZA DO DESAFIO – POLÍTICA CAMUFLADA DE RELIGIÃO

O debate sobre a diversidade nas sociedades europeias tem sido dominado por um discurso predominantemente emocional, onde qualquer análise estrutural sobre as diferentes matrizes culturais é rapidamente rotulada de intolerância. Ora, a defesa de um ecumenismo genuíno e da rica diversidade humana é um bem inestimável; contudo, a abertura desmedida, quando desprovida de consciência histórica, pode transformar-se numa perigosa abdicação do biótopo civilizacional europeu.

É imperativo reconhecer uma diferença ontológica: o Islão não é apenas uma religião no sentido ocidental do termo, ou seja, como um espaço privado de crença separado da esfera política. O Islão é, sobretudo, um projeto político e jurídico completo, camuflado de religiosidade, cujo grande mérito histórico foi unificar tribos árabes díspares sob uma identidade cultural coesa. Esse feito notável, no entanto, constitui uma provocação silenciosa para culturas mais abertas e individualistas, como a europeia.

A fragilidade do Ocidente reside na sua tendência para enfraquecer as suas próprias bases identitárias em nome de uma diversidade abstrata. Esta postura ingénua favorece a afirmação hegemónica de um Islão que define a dignidade da pessoa não pela sua individualidade, mas exclusivamente pela pertença ao grupo. Esta é uma antropologia de gueto, que cria laços de solidariedade interna fortíssimos, mas que se revela impermeável à sociedade civil envolvente.

Há ainda uma convergência trágica: o socialismo ideológico abre-lhe as portas porque vê no indivíduo uma função abstrata, o proletariado, uma visão que coincide com a redução da pessoa a mero membro da umma (comunidade islâmica). Esta aliança tácita entre o internacionalismo progressista e a estratégia identitária islâmica serve uma agenda comum fatal. A finalidade dessa agenda comum é decompor as comunidades tradicionais europeias para as substituir por estruturas de poder maleáveis. A civilização islâmica não é, por si só, um “inimigo”, mas torna-se um perigo real para a civilização ocidental e para o catolicismo quando encontra no socialismo um aliado mais interessado em corroer do que em edificar.

A ilusão de que o Islão é “domesticável” ou de que se adequará, passivamente, ao secularismo europeu é uma crença frágil, que não tem em conta a sua origem desértica. Uma cultura treinada ao longo de séculos a afirmar as forças de sobrevivência, onde a geografia árida apenas permitia miragens, desenvolveu uma esperteza adaptativa que as culturas dos vales férteis, habituadas à abundância, raramente conseguem igualar. A Europa, que se debate internamente com o verme da decadência, exalta a diversidade pela diversidade, abrindo assim as gretas por onde a cunha identitária alheia se introduz. (continua em “Os Sinais de Unidade).

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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MONTENEGRO “PESSOA DO DIA”

Na imprensa alemã Montenegro foi mencionado «Pessoa do Dia» devido às medidas adotadas para combater a escalada dos preços dos combustíveis.

Face aos atuais lucros recorde das petrolíferas, o Governo português apresentou um projeto de lei que visa tributar os chamados «lucros extraordinários». As receitas desta taxa destinam-se a «apoiar as famílias e os setores económicos mais afetados pela subida dos preços dos combustíveis».

Em 2022, na sequência da guerra na Ucrânia e como medida de emergência contra a crise energética, a União Europeia já havia instituído um imposto sobre lucros extraordinários. Contudo, atualmente, Bruxelas rejeita esta mesma abordagem.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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BALADAS SATÍRICAS

NO BERÇO DO DESENCNTO

Ansiando, pairando, baloiçando
no fio que a História teceu,
fugimos do jugo tirano,
mas de nós mesmos, também,
fugimos na dança do leme
que a mão quer, mas a alma não quer.

Batem leve, levemente,
as asas do pássaro incerto,
que a minhoca tem no bico,
mas a deixa cair, liberto,
só pra sentir, no voo,
o gosto de nunca ter.
Batem leve… e o desengano
é a herança de Camões,
a ilha dos amores findos
é o cais dos corações.

Queremos o remédio urgente,
mas a cura, mas, essa, não!
A presença é um fardo pesado,
a ausência é a nossa paixão.
Vivemos no dazwischen estreito,
trincheira de anarquia e razão,
onde a hesitação é a liberdade
que escolhemos por condição.

Pairando, pairando, pairando,
sem rumo, mas cheios de espanto,
preferimos a escassez à fartura,
pois o espanto é pesado demais.
Assim, atados ao fio da queixa
que nos serve de estranho disfarce,
boiamos em águas mortas,
sem nunca no leme tocar
porque a vida, se ativa, é escolha,
e escolher é começar a naufragar.

António da Cunha Duarte Justo

 

BALADA DO ENCANTO

De olhos no ar e bater
no peito, em uníssono, a clamar:
“Queremos o leme! Queremos o rumo!
Mas o rumo, esse, vamos negar!”
Pois a queixa é o nosso ouro,
o alibi de fino brasão:
pra ficarmos de boca na relva,
sem ter que mover um botão.

Gritamos, de olhos no ar,
contra o leme e contra o piloto,
mas se a cura nos bate à porta,
corremos, coitados, contrafeitos!
“Não, não, que a cura é careta,
o remédio é que sabe bem;
preferimos a febre contada
a ter saúde e ninguém.”

Lá na praça, os nossos doutores,
de toga ou de fato-riscado,
esgoelam-se em ataques ferozes,
num jogo de espelho trocado.
Falam, falam do adversário,
mas da solução, nem um pio;
enquanto o povo, exausto e letrado,
só quer seu quinhão no vazio,
que é melhor reclamar do remo
do que usar os braços, com tédio,
pois remar dá cãibras e sono,
e o sofá é o nosso remédio!

Cantamos, choramos, batemos…
Mas o leme? Deixamos cair.
Prefere-se a água morta e a queixa
a ter que, afinal, decidir.
A anarquia é muito trepidante,
a tirania é um tédio total;
o dazwischen é a nossa morada,
onde o “nunca” é o nosso “afinal”!

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

BALADA DO DIA-A-DIA

Lusitanos somos, dando o corpo
ao trabalho, ao suor, ao labor;
mas o leme, esse, está noutras mãos,
e a vida é um sonho menor.
Perdemos, perdemos, perdemos
o espanto da abundância nua;
preferimos a escassez magra
que nos dá a desculpa crua.

Indignamo-nos, sim, mas à tarde,
no café, no serão, no jantar;
a indignação é o barco,
e a vontade é o seu boiar.
Não queremos pegar no ferro
do leme, que é duro e cortante;
queremos a brisa suave
de um sonho de navegante.

Os romanos, outrora, diziam
que éramos povo sem lei;
hoje, a lei é a hesitação
que a própria alma nos deu.
Gastamos a vida a pairar
entre o querer e o não-ser,
e a saudade do que não fizemos
é o que nos faz viver.

Damos, damos, damos as horas,
mas o tempo, esse, escorre no chão;
e o pássaro deixa a minhoca,
porque o voo é a sua refeição.
Ah, batem leve, levemente…
mas o nosso desejo é, no fundo,
ficarmos, ficarmos, ficarmos
no conforto do meio-mundo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do tempo

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UMA BOA ACÇÃO

Naquela manhã, uma névoa densa pairava sobre Kassel. Aquele cinzento pesado que penetra até aos ossos e oprime a alma, ainda antes de o primeiro gole de café afastar o cansaço. Estavam agendadas as compras do dia: as incómodas e intermináveis obras em frente à loja, o carrinho de plástico a ranger, a luz fria do Aldi que iluminava a indiferença dos rostos apressados. Nada indicava que, entre as prateleiras de metal e o zumbido dos leitores de códigos de barras, um sol muito particular iria nascer.

A minha esposa, Carola, estava na fila do caixa, de olhar perdido no vaivém monótono das compras, quando reparou no rapaz jovem que a sucedia na fila da caixa. Não tinha carrinho, apenas os braços carregados com uma melancia e um pacote de bolachas, equilibrados com a perícia de quem não gosta de perder tempo. Num gesto de humanidade espontânea, ela sorriu-lhe e convidou-o a passar à sua frente. Era pouco, dir-se-ia, quase nada porque significava apenas um passo para o lado, um aceno de mão.

Mas o jovem, com uma serenidade desarmante, não se limitou a aceitar.  Apontou para a jovem que estava atrás dele e que segurava apenas três coisas na mão e pediu-lhe que a deixasse passar à frente em vez dele.

Carola, gentil, abriu os braços num gesto largo e espontâneo disse:

“Claro, passem os dois, à vontade.”

O Jovem e a jovem sorriram, daqueles sorrisos genuínos, sem pressa e sem máscaras. Foi como se uma pequena onda de calor tivesse varrido a fila da caixa e o corredor. Depois, como agradecimento ele quis ajudar a colocar os artigos da minha esposa na esteira rolante.

O jovem primeiro atravessou o caixa, pagou e, quedou-se pacientemente ao lado dos tapetes rolantes, à espera de Carola. Quando ela terminou, ele aproximou-se com uma oferta inesperada:

“Deixe-me levar-lhe as compras até ao carro.”

Ela recusou, por instinto, embora constrangida com o peso, porque afinal, levava dois pacotes de água, cada um com seis garrafas pesadas. Mas ele, que ainda não contava com décadas de peso da vida, não aceitou um “não” por resposta. Pegou nos pacotes com a firmeza de quem ainda carrega consigo a força das boas maneiras e seguiu-a até ao estacionamento, com passos seguros. Já junto ao carro quis oferecer-lhe um exemplar do nosso jornal regional, HNA, já que era distribuidor de jornais. Carola agradecida respondeu-lhe que era assinante do jornal.

Ele, limpando as mãos às calças e com um brilho maroto no olhar, confessou:

“Eu só queria fazer algo de bom e começar o dia com uma boa ação.”

Foi então que Carola, iluminada por aquela troca tão singela, lhe respondeu com a presteza e a ternura que já germinava no seu coração:

“Mas o senhor com a sua atitude gentil já fez a boa ação e não foi só uma, foram mais! Ao deixar a colega de trás passar, ao ajudar-me e ao sorrir-me com esta cordialidade tão pura, sem segundas intenções. Isso já era para mim o sol da manhã.”

Ele, por um instante, ficou em silêncio, como se estivesse a saborear o doce sabor residual das palavras dela. Depois, voltou a sorrir. Fazia parte daquelas raras pessoas que esquecem imediatamente cada boa ação assim que a praticam e pensam apenas na seguinte. Não contava as suas boas ações, limitava-se a deixá-las para trás e a seguir em frente.

E acreditem: aquele sorriso, nascido no corredor de um supermercado qualquer, foi um clarão que desfez o nevoeiro cerrado que a manhã nos trouxera. Mas a magia não parou ali. Ao chegar a casa, a Carola contou-me tudo e as palavras dela envolveram-me como um cobertor ao lume. Ela, ao transmitir-me esse instante, praticou também a sua boa ação, fez com que a faísca saltasse para mim. E eu, agora, ao confiá-la a estas linhas, passo-lhe a chama a si, que me lê.

É assim o desabrochar do dia. Não vem num estrondo, nem num acontecimento grandioso. Vem num desvio de passo, numa cedência de lugar, num oferecimento de braços cansados, num sorriso que se atravessa no nosso caminho e nos deixa, sem pedir nada em troca, a sensação profunda e cálida de um amanhecer eterno.

Porque o que custa zero é, no fim, o que tem mais valor. E as pegadas que ficam no tempo não são as das pressas, mas as dos pequenos gestos que nos fazem parar e olhar o outro.

António da Cunha Duarte Justo,
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

 

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A NATUREZA NÃO ENGANA NEM REJEITA O HUMANO

Humanidade acima de Gritos de Guerra e de  Lutas culturais

A cidade de Berlim, marcada pelo sangue e pelo medo após o atentado islamista contra as pessoas no CSD (Christopher Street Day), não clama apenas por justiça, mas também por um exame de consciência. O sangue que corre é um eco doloroso que expõe a ferida de civilizações que desaprendem a comungar com a essência humana. Assistimos à triste e vergonhosa metamorfose de termos como “diversos”, “trans” e “homossexuais” em autênticos gritos de guerra. Em vez de designarem a riqueza da biografia humana, estas palavras são hoje instrumentalizadas por instituições que utilizam vidas individuais como meros peões para atingir fins de ordenamento social. Reduzem o Homem a objeto, onde o ser humano é despido da sua dignidade tanto por defensores como por opositores, num jogo de forças que ignora a pureza da natureza inerente a cada indivíduo e a soberania da consciência individual como defende o cristianismo leal.

A sociedade não tem donos. Ninguém é senhor do tecido social. Quando casais homossexuais ou indivíduos diversos são empurrados para as margens, ou quando grupos tentam estabelecer “zonas privadas” de aceitação e exclusão na praça pública, quebra-se o respeito pelo humano, pelo Todo criado. É legítimo que cada instituição crie as suas normas internas, mas há um limite sagrado e este pressupõe que deve permanecer sempre um espaço reservado onde a humanidade geral tenha lugar independentemente da regra e da excepção. A existência não pode ser regulada pela exclusão.

Diante do terror de Berlim, onde a natureza humana básica foi barbaramente aniquilada, impõe-se uma pergunta que é essencial: porque é que alguém culpa o outro por aquilo que a natureza, criada por Deus, planeou? A criação não comete erros; a sua assinatura é a pluralidade que mostra a sua tinta na diversidade. Se olhássemos para a biosfera sem as lentes do preconceito, veríamos que a natureza não discrimina a folha que nasce torta nem a flor que exibe uma cor singular. Ela acolhe todas as manifestações da vida na sua harmonia vasta. O preconceito não é uma lei natural; é uma projeção humana. É o esgoto interior dos indivíduos que transborda, invadindo o discurso público com comentários desdenhosos e violência física, destilando um ódio cego que tenta apagar o rosto que a natureza preservou em cada ser. Também a gritaria social de um lado ou do outro não serve o “diferente” e até o compromete quando é usado por forças ideológicas que tendem criar o caos numa sociedade ordeira que querem destruir.

As pessoas “diversas” ou diferentes partilham da mesma vulnerabilidade que une toda a espécie humana; conhecem o cárcere do medo, mas não precisam e não devem implorar por serem aceites. O direito à existência e à busca da felicidade é intrínseco, inalienável e universal. As ideologias gémeas, que tentam impor o silêncio e o esquecimento às minorias, falham porque tentam lutar contra a própria Criação. Actos de agressão e terrorismo urbano não geram a verdadeira visibilidade que edifica; pelo contrário, camuflam os problemas reais e estruturais da sociedade, funcionando como uma cortina de fumo para a nossa incapacidade coletiva de promover a paz.

O caminho para a cura exige uma viagem interior. Se cada cidadão prestasse mais atenção à sua própria hostilidade interna, purificando os seus ressentimentos e dogmas, o contágio do ódio exterior perderia a sua força motriz. Uma sociedade que tolera em demasia o espírito negativo e a barbárie acaba, inevitavelmente, por castigar o bom e o justo. Urge, por isso, resgatar um mundo que tenha a natureza como espelho, garantindo um lugar seguro para todos e para cada um, onde a única lei universal seja o respeito absoluto pela dignidade humana.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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