A Necessária Transição da Matriz Social Masculina para uma Matriz Masculino-Feminina

Para Além da Flor de Jardim e do Punho agressivo

Uma reflexão analítica sobre o Dia Internacional da Mulher e o paradoxo da luta feminina num mundo estruturalmente masculino

O Colonialismo Mental da Matriz Masculina

Entre a flor simbólica oferecida à mulher e o punho cerrado que expressa a lógica da força, desenha-se uma das contradições mais profundas da sociedade contemporânea. Apesar das conquistas alcançadas na igualdade de direitos, continuamos a viver dentro de uma estrutura social marcada por uma matriz predominantemente masculina. A verdadeira emancipação feminina não poderá limitar-se à integração das mulheres nesse sistema.  Uma verdadeira evolução social exige uma transformação mais profunda que significaria a passagem para uma matriz social capaz de integrar, em equilíbrio, as qualidades do feminino e do masculino. Neste sentido urge uma reflexão crítica sobre o “colonialismo mental” da matriz masculina e a pergunta se estaremos verdadeiramente a honrar o que a mulher é e representa, ou limitamo-nos a prestar vassalagem a uma data que a própria estrutura social dominante transformou em formalismo inocente?

A questão que proponho é mais profunda e, para muitos, desconfortável: a sociedade contemporânea encontra-se enredada num paradoxo fundamental. Enquanto se proclama a igualdade de género e se celebram conquistas no campo dos direitos das mulheres, a estrutura profunda que organiza o pensamento, o poder e a economia permanece fundamentalmente masculina na sua essência. Este “colonialismo mental”, como o designei em reflexões anteriores publicadas em jornais e no blog “Pegadas do Tempo”, não poupa homens nem mulheres, condicionando o desenvolvimento humano e social a padrões determinados por uma lógica de afirmação, competição e domínio.

O presente artigo propõe-se analisar criticamente esta matriz antropológica e sociopolítica, argumentando que a verdadeira emancipação feminina e, por extensão, a verdadeira evolução humana, não passará pela integração das mulheres nas estruturas existentes nos termos masculinos, mas sim pela transformação radical dessas mesmas estruturas rumo a um equilíbrio dinâmico entre os princípios da feminilidade e da masculinidade.

1. A Matriz Masculina é uma Arquitetura Invisível da Desigualdade

1.1. As Raízes Evolutivas e Históricas

Quando analisamos a organização social contemporânea, dificilmente escapamos à constatação de que ela assenta sobre aquilo a que podemos chamar uma “matriz masculina”. Esta matriz não é um complô ou uma conspiração deliberada de homens contra mulheres, mas antes o produto de uma longa evolução histórica que remonta aos primórdios da humanidade.

Nos primórdios, a divisão de tarefas entre caça e recolha estabeleceu padrões de especialização cognitiva e social. O homem caçador desenvolveu capacidades de visão estratégica, pensamento abstrato, capacidade de risco calculado e ação decisiva, características que associamos ao princípio masculino. A mulher recolectora especializou-se na atenção ao próximo e ao concreto, na gestão do espaço doméstico, na nutrição e no cuidado, características do princípio feminino.

Esta diferenciação inicial, produto de necessidades adaptativas, não era hierárquica, mas complementar. Duas leis evolutivas operavam em equilíbrio: a lei da afirmação seletiva (competição, domínio) e a lei da colaboração (cooperação, inclusão, interdependência). Ambas eram necessárias à sobrevivência do grupo.

O período neolítico, com o culto da deusa-mãe, testemunhou talvez o último momento histórico de equilíbrio real entre os princípios feminino e masculino nas estruturas simbólicas e de poder. Foi com o desenvolvimento da metalurgia, da guerra organizada e das primeiras estruturas estatais complexas que se iniciou a progressiva masculinização das estruturas de poder.

1.2. A Economia como Motor da Masculinização Social

A Revolução Industrial marcou um ponto de viragem crucial. A transição dos modelos agrícola e artesanal para a produção industrial em larga escala exigia mão-de-obra, e as mulheres constituíam uma reserva estratégica. Contudo, para serem integradas no mundo industrial, tiveram de se adaptar à lógica masculina da produção que se resumem em  competição, eficiência, hierarquia rígida, separação entre trabalho e vida.

A pílula anticoncepcional, significativamente criada para as mulheres, não para os homens, simboliza esta instrumentalização: permitia às mulheres entrarem no mercado de trabalho nos termos masculinos, controlando a reprodução para não interromper a produção. A maternidade, princípio feminino por excelência, tornava-se um “problema” a gerir sob o signo da masculinidade.

Paradoxalmente, enquanto as estruturas se masculinizavam, o marketing descobria na sensibilidade feminina um filão a explorar. As mulheres, mais orientadas para a dimensão relacional e para o consumo, tornaram-se alvos privilegiados da indústria. Mas esta “valorização” da feminilidade era, na verdade, mais uma forma da sua instrumentalização ao serviço do princípio masculino: o lucro, a expansão, o crescimento pelo crescimento.

2. O Paradoxo da Luta feminina é combater o Masculino com Armas masculinas

2.1. A Falsa Dialética da Luta de Géneros

Eis o cerne da questão que tenho vindo a desenvolver nos meus artigos para o BOM DIA Luxemburgo, ContraCultura, na Revista Triplov e em muitos outros media: a própria luta feminina pelo equilíbrio entre feminilidade e masculinidade é, contraditoriamente, conduzida geralmente por princípios masculinos, sem que a ordem social seja transformada e a feminilidade seja tratada com equidade.

O antigo princípio político e militar “divide para reinar” (divide et impera) encontra na questão do género uma aplicação particularmente insidiosa. Tal como na luta entre ricos e pobres, a dialética entre homens e mulheres é frequentemente enquadrada em termos de conflito, competição e conquista de poder, numa palavra, em termos masculinos de carácter meramente sociológico .

Grande parte do ativismo feminista contemporâneo, embora animado por legítimas reivindicações de justiça, adota estratégias de luta de carácter extremamente masculino: afirmação agressiva, confrontação, conquista de territórios de poder. Esta contradição performativa de lutar pela valorização da feminilidade com armas masculinas, revela até que ponto a matriz masculina colonizou até os movimentos que pretensamente a contestam. (Talvez aqui se trate também de contrariar a ideia de que contra a força não há resistência com energias da própria força).

2.2. A Naturalização do Paradigma Militar

A naturalidade com que se discute hoje a introdução do serviço militar obrigatório também para mulheres constitui um sintoma revelador. O modelo militar, hierarquia rígida, obediência, violência organizada, sacrifício individual ao coletivo abstrato, representa a quintessência do princípio masculino. Que a “igualdade de género” se afirme através da integração das mulheres neste modelo, em vez de questionar o próprio modelo, demonstra o grau de internalização da matriz masculina.

Observamos hoje mulheres em cargos de liderança que tendem frequentemente a ser mais agressivas, mais “masculinas” na sua gestão do que muitos homens. Este fenómeno não é acidental: numa estrutura masculina, as mulheres sentem necessidade de “provar” o seu valor adotando e exacerbando os códigos masculinos. É uma forma de compensação que, tragicamente, perpetua o sistema que as limita.

A verdadeira igualdade não virá de mulheres que se tornam “homens honorários”, mas da transformação das estruturas para que possam acolher genuinamente o princípio feminino.

3. O Machismo Estrutural como Problema Inconsciente e Coletivo

3.1. Para Além da Intenção Individual

Um dos equívocos mais persistentes no debate sobre a igualdade de género é a personalização do problema. Tendemos a identificar o machismo com comportamentos individuais grosseiros, com a figura do “macho” arcaico e ostensivamente discriminador. Esta abordagem, além de redutora, é profundamente enganadora.

Para evitar esta estratégia do machismo sistémico se desculpar no machismo individual o O machismo intrínseco à nossa matriz social deve ser decomposto e encarado como um problema inconsciente e coletivo. Não se trata apenas de más intenções individuais, mas de estruturas de pensamento, sistemas de valor e modelos organizacionais que, independentemente da vontade dos atores, perpetuam a dominância do princípio masculino que impede tanto o desenvolvimento integral do homem como da mulher.

As mulheres que ascendem a posições de poder e adotam comportamentos tipicamente masculinos não o fazem por traição à sua natureza, mas porque o sistema as obriga a isso. Os homens que gostariam de desenvolver a sua dimensão feminina (emocionalidade, cuidado, expressividade) frequentemente veem-se constrangidos por expectativas sociais que os aprisionam. Homens e mulheres são, assim, igualmente vítimas desta matriz que a todos coloniza.

3.2. A Mutilação contemporânea cria Homens efeminados e Mulheres masculinizadas

Observamos hoje homens aparentemente mais “efeminados”, o que é frequentemente interpretado como sinal de feminização da sociedade. Esta leitura é duplamente equivocada. Primeiro, porque confunde efeminação (caricatura da feminilidade) com feminilidade genuína (princípio de integração, cuidado, relação). Segundo, porque estes homens não são agentes de uma mudança estrutural, mas sintomas e vítimas do ‘zeitgeist’, manifestações de uma crise de identidade masculina que não altera a dominância da matriz masculina nas estruturas de poder.

Paralelamente, observamos mulheres que se masculinizam para sobreviver em ambientes profissionais hostis. Este duplo movimento, homens que perdem a sua masculinidade autêntica sem verdadeiramente ganharem feminilidade, mulheres que sacrificam a sua feminilidade sem verdadeiramente ganharem poder é o trágico resultado de uma sociedade que, proclamando a igualdade, aprofunda a confusão identitária e fomenta doenças sociais próprias.

4. A Mulher para Além da Aparência: As Qualidades Femininas como Valor Estruturante

4.1. A Redução Estética da Mulher

Numa altura em que os homens levantam os punhos e mostram os músculos em gestos guerreiros, até a feminilidade tende a ser definida em termos másculos de guerra. A mulher não pode ser encarada apenas como beleza admirável ou como jarro de enfeite ou de mera inspiração, porque as suas qualidades vão muito além da aparência física.

A redução da mulher à sua dimensão estética é uma das formas mais sutis e eficazes de a desqualificar como agente social pleno. Quando a mulher é celebrada apenas pela sua beleza, pelo seu poder de inspirar artistas ou pelo seu papel decorativo, está a ser-lhe negada a participação na construção ativa do mundo.

4.2. A Inteligência Emocional como “Superpoder” Feminino

Estudos contemporâneos confirmam o que a sabedoria ancestral já intuía: o verdadeiro “superpoder” feminino é o coeficiente de inteligência emocional, que tem como pilares a autoconsciência, a autorregulação e a autodireção. Apesar de homens e mulheres terem igualmente potencial emocional, as mulheres demonstram maior empatia quando em posições de gestão e apoiam mais o bem-estar dos colaboradores.

Esta inteligência emocional não é um “defeito” a corrigir para ter sucesso num mundo masculino, mas uma competência superior que o mundo necessita urgentemente. A capacidade de reconhecer, compreender e gerir as próprias emoções e as dos outros, é uma competência estratégica para enfrentar os desafios complexos do nosso tempo.

4.3. Para Além da Funcionalidade

A mulher não é apenas funcionalidade, não é apenas “recursos humanos” ou “capital” a ser otimizado. A visão puramente economicista da participação feminina na sociedade, de quantas mulheres nos conselhos de administração, quantas em cargos de liderança, qual o seu contributo para o PIB, embora importante, segue o risco de reproduzir a lógica masculina da quantificação e da eficiência.

O que está em causa não é apenas a presença física de mulheres em determinados espaços, mas a transformação qualitativa desses espaços pela presença feminina genuína. Não se trata de “gerir melhor” o existente, mas de criar um novo paradigma de gestão, de relação e de organização social.

5. A Necessária Transição para uma Matriz Masculino-Feminina 

5.1. O Reconhecimento da Bivalência de Cada Pessoa

O primeiro passo para  mudança estrutural é reconhecer que cada pessoa, independentemente do sexo biológico, é portadora de características masculinas e femininas. A masculinidade (afirmação, análise, abstração, competição) e a feminilidade (integração, síntese, materialidade, colaboração) não são propriedades exclusivas de homens e mulheres, mas dimensões da psique humana (Animus e Anima) e princípios organizadores da sociedade.

Esta perspetiva, que tenho vindo a desenvolver em diferentes artigos e diversos meios, permite superar a visão essencialista que prende as pessoas a papéis predeterminados e abre caminho para uma compreensão mais rica e complexa da identidade humana.

5.2. A Crise da Visão Masculina do Mundo

O modelo masculino dominante, focado na afirmação imediata e na conquista de objetivos a curto prazo, mostra-se crescentemente inadequado face aos desafios contemporâneos e ao desenvolvimento integral humano. As crises ecológica, climática e de sustentabilidade exigem precisamente as qualidades do princípio feminino: cuidado com o longo prazo, atenção aos efeitos sobre o todo, responsabilidade relacional, prudência e repensar o princípio progressista.

A incapacidade das nossas estruturas políticas e económicas de responderem adequadamente a estes desafios não é acidental, é estrutural e como tal produto da dominância da matriz masculina. A transição para uma matriz masculino-feminina não é, portanto, apenas uma questão de justiça para com as mulheres, mas uma condição de sobrevivência para a humanidade.

5.3. Da Cultura da Guerra à Cultura da Paz

A consequência mais profunda e promissora desta transição seria a substituição de uma cultura da guerra por uma cultura da paz. A matriz masculina, na sua expressão desequilibrada, tende para a resolução de conflitos pela força, para a afirmação pela dominação, para a expansão pela conquista. A matriz feminina, pelo contrário, tende para a negociação, para a inclusão, para a resolução pacífica de tensões, numa lógica de afirmação e adaptacao.

A Europa enfrenta hoje, de novo, o fantasma da guerra. Assistimos a um preocupante rearmamento e a um discurso belicista que se pretende apresentar como “bom senso “. Este regresso a uma cultura de guerra é a expressão máxima do desequilíbrio da matriz masculina. Se as qualidades femininas de negociação, prudência e cuidado tivessem peso equivalente nas decisões geopolíticas, o mundo seria seguramente diferente.

6.Propostas para uma Nova Abordagem

6.1. A Desconstrução da Matriz como Tarefa Coletiva

Se o problema é estrutural e inconsciente, a solução não pode ser apenas individual. A desconstrução do machismo estrutural exige um esforço coletivo de tomada de consciência e de transformação das instituições. Não basta “empoderar” mulheres nos termos existentes; é preciso transformar os termos em que o poder é exercido.

Esta desconstrução passa pela educação, pela socialização das novas gerações, pela revisão dos modelos de liderança, pela reavaliação do que consideramos “sucesso” e “realização”. Passa, sobretudo, por questionar a naturalidade com que aceitamos que o mundo funcione segundo princípios de competição, hierarquia e dominação.

6.2. Valorização do Feminino sem Essencialismos

Importa aqui um cuidado: valorizar o princípio feminino não significa cair em essencialismos que aprisionam as mulheres num destino biológico. O que está em causa não é uma suposta “natureza feminina” imutável, mas um conjunto de qualidades e perspetivas que foram historicamente associadas às mulheres e que o desenvolvimento da civilização relegou para segundo plano.

A inteligência emocional, a capacidade de cuidado, a orientação para a relação e para a comunidade, a visão de longo prazo, a preferência pela negociação sobre o confronto, são qualidades que o mundo necessita, independentemente de quem as exerça. A sua valorização não é uma “concessão” às mulheres, mas uma necessidade civilizacional.

6.3. O Papel dos Homens nesta Transição

A construção de uma matriz masculino-feminina não é tarefa exclusiva das mulheres. Os homens têm um papel crucial a desempenhar, tanto na desconstrução da sua própria socialização masculina como na abertura a dimensões da sua personalidade que a cultura dominante os levou a reprimir.

Homens que choram, que cuidam, que exprimem as suas emoções, que recusam a competição como único modo de relação, que valorizam a qualidade de vida sobre a acumulação de poder,  estes homens não são “efeminados”, são humanos completos a reconquistar a totalidade da sua humanidade.

7. O Verdadeiro Significado do Dia da Mulher

O melhor caminho para celebrar o Dia Internacional da Mulher seria introduzir na matriz masculina que todos seguimos características mais femininas, no intuito de construir uma matriz social equilibrada entre as qualidades em torno dos princípios da feminilidade e da masculinidade. Uma verdadeira abordagem no sentido da mulher implica a necessidade de superar a matriz masculina na sociedade.

Sem combater a matriz masculina que homens e mulheres seguem, o Dia da Mulher torna-se apenas uma formalidade,  um dia de flores e discursos que não altera a estrutura profunda da desigualdade. Apesar de tudo, “vale a pena lutar” por uma sociedade mais justa e inclusiva, mas numa perspetiva e estratégia de carácter feminino, não seguindo a estratégia masculina de confronto e dominação.

A luta pela igualdade requer uma desconstrução do machismo estrutural e a valorização da inteligência emocional feminina. A verdadeira evolução social depende de uma mudança na mentalidade coletiva. Não se trata de “dar lugar às mulheres” num mundo construído por homens, mas de construir, juntos, um mundo novo onde masculino e feminino possam finalmente dançar em equilíbrio.

Talvez então, quando homens e mulheres se libertarem da matriz que a ambos aprisiona, possamos verdadeiramente celebrar não apenas um dia, mas uma nova forma de estar no mundo, isto é,  uma forma onde a paz não seja a exceção, mas a regra; onde a competição não seja o único motor, mas um entre muitos; onde o cuidado não seja desvalorizado, mas reconhecido como a mais alta forma de inteligência.

É essa a reflexão que deixo, não apenas neste Dia da Mulher, mas para todos os dias em que ousarmos imaginar um mundo diferente.

António da Cunha Duarte Justo

© Pegadas do Tempo

Nota: Desenvolvi este artigo a partir de reflexões que expus em múltiplos ensaios e publicações ao longo dos anos, procurando sintetizar e aprofundar uma perspetiva crítica sobre a matriz social dominante e o lugar da mulher na contemporaneidade. A luta da mulher pela sua integração no sistema patriarcal tem tido efeitos a nível meramente funcional, mas uma transformação substancial da matriz masculina terá de partir de outros pressupostos que não seja apenas os da integração, prespectiva esta demasiadamente masculina que nos pauta e a criação de uma matriz masculina-feminina não se pode alcançar apenas a nível de sintomas; trata-se de uma visão integral de homem e mulher e de passar da estratégia da funcionalidade para a relacional.

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LOBO ANTUNES MORREU, MAS VIVE NO ESPELHO DO PAÍS QUE DEIXOU

Neste ensaio procuro desenredar o legado de Lobo Antunes à luz da sua psicanálise à alma portuguesa

A Morte de Lobo Antunes e a Sombra no Fado

António Lobo Antunes morreu esta quinta-feira, 5 de março de 2026, aos 83 anos. Mas a frase, assim, despida e objetiva, soa a engano, tal como mentira soa a calmaria depois de uma batalha. De facto, foi-se um homem, um médico, um escritor, mas ficou o vendaval. Ficou a obra, essa “casa dos móveis que estalam à noite”, como ele próprio descreveria a solidão. Dele ficou, sobretudo, o retrato de um país que ele anatomizou como poucos: Portugal, esse paciente eterno deitado no divã da psiquiatria, com as suas memórias mal resolvidas a pulsarem sob a pele do presente.

Nascido em Lisboa em 1942, numa família da burguesia, cedo percebeu que a literatura era uma insónia, a “insónia dos bons livros “. Mas antes das letras, veio a medicina e a guerra. Chamaram-lhe “herdeiro de Faulkner e Céline”, mas a sua verdadeira genealogia literária forjou-se no limbo, no “cu de Judas” onde esteve destacado como médico durante a Guerra Colonial em Angola, entre 1971 e 1973. Foi lá que aprendeu que a morte não tem épica e que a coragem é, muitas vezes, apenas o medo que se verga. Foi em Angola que o jovem psiquiatra começou a acumular o material clínico para a longa análise a que submeteria a nação.

O Cirurgião das Almas e a Ferida da Guerra

Lobo Antunes mais que escrever livros, escrevia autópsias. A sua experiência em Angola não é um tema literário, é o motor de toda a sua inspiração. Em “Os Cus de Judas” (1979), o seu segundo romance, o alferes-médico que regressa a Lisboa não encontra uma pátria acolhedora, mas sim um país de paredes caiadas que finge que a guerra não existiu. O diálogo com a mulher anónima, numa noite de copos, é uma catarse falhada. É o desabafo de quem percebe que “viver é como escrever sem corrigir “e que o que lá está, de dor e de sangue, não pode ser apagado.

Foi essa a grande fratura que Lobo Antunes denunciou: Portugal, após o 25 de Abril, tratou a descolonização como um assunto administrativo, mas nunca como um trauma coletivo (Havia politicamente muito a esconder que impedia ser-se autêntico!). Os soldados voltaram, mas vieram de boca calada. Os retornados chegaram, mas foram recebidos com a vergonha alheia de quem vê um espelho partido e por isso foram tão maltratados. O país preferiu o esquecimento à purificação, e essa memória recalcada, como nos ensina Lobo Antunes, é a matéria de que são feitos os fantasmas.

As Naus e o Regresso dos Mortos como Desconstrução do Mito

Se há livro que funcione como chave para entender esta tese, é “As Naus” (1988). Neste romance desassossegado, Lobo Antunes faz o que melhor sabia na qualidade de psiquiatra: pega nos heróis canonizados de “Os Lusíadas” e devolve-os a um Portugal pós-colonial, pequenino e irrelevante. Vasco da Gama, Camões, os navegadores, regressam a Lisboa como retornados pobres, perdidos, bêbados e deslocados. O passado glorioso desembarca no cais mas já não cabe no novo cenário, empenhado em fabricar novos fantasmas e heróis de craveira histórica, os tais ‘históricos’ do novo regime, que tomem o lugar dos velhos espectros e garantam a continuidade dessa epopeia político-cultural que mantém Portugal em permanente sessão no divã da psicanálise.

O que o escritor fez foi uma cirurgia ao imaginário nacional. Durante séculos, Portugal alimentou-se da nostalgia do império, do mito sebástico do “Encoberto” que um dia há de voltar para nos salvar. Mas Lobo Antunes mostra-nos D. Sebastião não como um salvador, mas como uma figura grotesca, um rei menino perdido num país que já não tem trono nem altar. Aqui Lobo Antunes faz a crítica mais feroz ao Sebastianismo que se resume na esperança irracional de que algo de exterior nos venha resgatar da mediocridade, essa crença de que o passado pode funcionar como salvação para o presente.

Assim, Portugal de Lobo Antunes é um país desorientado. Vive na “sombra da antiga grandeza”, como aponta o seu pensamento, mas sem saber o que fazer dessa sombra. É essa dualidade que nos torna, aos olhos dele, uma nação de melancólicos a viver da consciência da decadência agudizada pela memória do esplendor. O viver nessa melancolia, sombra enraiada já na alma portuguesa, continua a viver no espírito do Encoberto que se encontra agora em Bruxelas.

“Portugal é um país que vive mais do que foi do que do que é”

Esta frase, que lhe é atribuída, condensa toda a sua visão. Para Lobo Antunes, a identidade portuguesa constrói-se sobre um silêncio espesso. É feita de orgulho, pela gesta dos descobrimentos; de culpa, pela violência colonial; de nostalgia, pelo império perdido; e de silêncio, pela incapacidade de discutir abertamente a guerra e a descolonização e também por de forma desalmada, continuar a afirmar-se ou a distrair-se na narrativa do desassossego de esquerda e de direita.

Esse silêncio, contudo, não é um vazio, mas sim uma presença barulhenta, como ele tão magistralmente descreveu ao constatar “Tanto ruído no interior deste silêncio: são as vozes dos outros a falar em mim “. E esses outros são os que ficaram para trás em África, os que regressaram sem chão, os que morreram na guerra, os que viveram a opressão da República e do Estado Novo. O Salazarismo, com a sua cartilha do “Deus, Pátria e Família”, não criou apenas obediência, mas também contenção emocional que perdura. Hoje como ontem, continua-se o hábito do medo de falar, da hipocrisia social, de uma vida interior que se esconde atrás da fachada da ordem.

A ironia e o humor negro surgem, na sua obra, como a única arma possível contra essa tragédia muda. É o riso de quem já viu o pior e sabe que as palavras são frágeis. Quando perguntado sobre o Nobel, a resposta clara como seca foi “Quero que o Nobel se f*da”; esta reação não era apenas desdém; era a defesa da soberania do escritor contra as glorificações oficiais, a recusa em deixar que a literatura fosse engolida pelo mesmo sistema que ele denunciava, tal como o foi Saramago ao ser usado como arma de um polo contra o outro.

O Fantasma do Império e a Decomposição na Europa

Na última fase do seu pensamento, que as suas notas tão bem captam, Lobo Antunes antecipou o debate contemporâneo sobre o pós-colonialismo e a identidade europeia. No meu entender, se o 25 de Abril matou o império, a entrada na União Europeia, nos anos 80, funcionou como uma espécie de segunda morte.

Compensados economicamente pelos fundos comunitários, os portugueses viram-se confrontados com uma nova forma de perda de soberania. Desta vez, não perdíamos colónias; perdíamos a ilusão de sermos o centro do mundo e nação intacta. Passámos a ser a periferia da Europa, um país encostado à boleia de Berlim e Bruxelas. Esta integração, se por um lado trouxe desenvolvimento, por outro aprofundou o sentimento de insignificância e de decomposição cultural que o escritor já diagnosticava.

Deste modo o fantasma do império permanece, já não como projeto político, mas como assombração. Vive na nostalgia cultural, nos manuais escolares, nas comemorações oficiais de dançarinos do poder. Vive também na culpa dos que olham para a história e veem o horror da guerra. Vive, sobretudo, na dificuldade que Portugal tem em se definir a si mesmo fora da matriz imperial e por isso se encosta à nova forma de imperialismo que é o imperialismo mental de Bruxelas.

A Técnica Literária como Espelho da Alma Coletiva

Não se pode falar de Lobo Antunes sem falar do seu estilo. A sua técnica narrativa, essa prosa que parece um rio de vozes, onde passado e presente se misturam, onde várias personagens falam ao mesmo tempo sem aviso prévio, é a expressão formal da sua visão do mundo e em especial de Portugal e da Europa.

Não há enredo linear porque não há identidade linear. Portugal é, para ele, um país de camadas geológicas expressas no substrato romano, na camada medieval, no basalto do império e no cimento bruto da modernidade europeia. Tudo se encontra misturado e fraturado. Os seus romances funcionam como consciências coletivas confusas, assombradas por fantasmas históricos que irrompem no discurso sem serem convidados.

Ao dar voz aos ‘vencidos da vida’, aos retornados do seu livro “O Esplendor de Portugal”, aos soldados de “Os Cus de Judas”, aos loucos e marginais que povoam os seus livros, Lobo Antunes fez uma operação de justiça poética ao dar expressão e corpo àqueles que a história oficial preferiu esquecer.

O Fim de uma Era

Com a morte de António Lobo Antunes, Portugal perde mais do que um escritor. Portugal perde o seu mais arguto intérprete. Num tempo em que a Europa debate o racismo estrutural, a revisão da história e o lugar dos antigos impérios, a sua obra permanece como um aviso: a memória não se apaga e recalcamento não é solução.

Os móveis continuarão a estalar à noite. As vozes continuarão a sussurrar no interior do silêncio. E nós, portugueses, continuaremos confrontados com essa pergunta incómoda que ele deixou a ecoar na consciência: quem somos nós, agora que o império se dissipou e a Europa já não é a miragem que fomos um dia?

Lobo Antunes não nos deu a resposta, mas deixou-nos o espelho. E, como nos seus livros, olhar para ele é sempre um acto de coragem, iminentemente necessário. Fica a obra e com ela a insónia. Fica a certeza de que, como ele dizia, “os maus romances contam histórias; os bons romances mostram-nos a nós mesmos”. Mas o fado, esse canto tão belo e inebriante que tolda a alma lusa, não é senão a carpideira velada de um Portugal que chora e carpe, sem o saber, o desencanto de si próprio e de todos os outros.

Lobo Antunes deixou-nos um “bom romance“, uma grande obra que nos espelha Portugal.

António da Cunha Duarte Justo

©  Pegadas do Tempo

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FILHOS DE PAIS DIVORCIADOS TÊM MENOS FILHOS

Estudo revela que filhos de pais separados têm menos filhos e relações mais instáveis na vida adulta

 Um estudo recente da Universidade Bocconi, em Milão, publicado na conceituada revista “Demography”, lança uma nova luz sobre as tendências demográficas e a dinâmica familiar. A investigação conclui que os filhos de pais divorciados têm, em média, menos filhos do que as pessoas que cresceram em famílias intactas.

Analisando dados de 1,75 milhões de pessoas, a equipa de investigação descobriu que o número de filhos é reduzido em cerca de 14% para os homens e aproximadamente 5% para as mulheres provenientes de laços rompidos. Em média, estas pessoas também permanecem sem filhos com uma frequência ligeiramente superior à dos outros, embora, quando se tornam pais, isso tenda a acontecer mais cedo.

O Papel da Estabilidade Relacional

De acordo com o estudo, o mecanismo central para este menor número de filhos reside na instabilidade relacional. Os filhos de pais divorciados tendem a separar-se com mais frequência do que outras pessoas, resultando em casamentos e relações mais curtos. Esta fragilidade nos vínculos afetivos, naturalmente, reduz a janela de oportunidade e a estabilidade necessárias para projetar e constituir uma família numerosa.

Esta propensão para separações mais frequentes pode estar também enraizada nos valores e atitudes transmitidos pela família de origem. Sociólogos sublinham que, mais do que o divórcio em si, o tipo de comunicação familiar após a separação e a manutenção do contacto com ambos os pais são factores decisivos para moldar o desejo e a confiança do indivíduo em ter os seus próprios filhos.

Um Contexto Demográfico Preocupante

Estas conclusões surgem num momento em que o número de nascimentos em quase todos os países europeus e norte-americanos se encontra abaixo do nível de reposição populacional, contribuindo para um drástico envelhecimento da sociedade. Naturalmente, para este cenário geral contribuem também outros factores, como o ar atmosférico social (o Zeitgeist), o modelo económico vigente, ideologias do momento e a falta de espaço habitacional favorável a crianças.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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A CEGUEIRA ESTRATÉGICA DO OCIDENTE E O SISTEM ISLÂMICO IRANIANO

O conflito entre Israel, os Estados Unidos e o Irão no quadro da disputa geopolítica contemporânea

A situação no Irão e no Médio Oriente inscreve-se num quadro mais amplo de disputa geopolítica, estruturado em torno de dinâmicas de poder, controlo territorial e interesses económicos estratégicos. À semelhança do conflito na Ucrânia, trata-se de uma confrontação de natureza eminentemente geoestratégica, com implicações diretas para a Europa. Em causa está a garantia de acesso a matérias-primas essenciais, bem como o controlo das respetivas rotas de transporte e escoamento.

Neste contexto, o Irão assume particular relevância geográfica e estratégica no quadro das políticas ocidentais de contenção ou equilíbrio face à afirmação da China como potência global. Paralelamente, Israel ocupa uma posição central na articulação de interesses concorrenciais entre a Europa e o mundo árabe.

A instabilidade regional, incluindo a consolidação de regimes autoritários e a persistência de intervenções externas, reflete assim uma lógica de competição sistémica entre potências, na qual as populações civis permanecem particularmente vulneráveis e privadas do pleno exercício da sua autodeterminação.

Tudo parece reduzir-se a um regime desumano e a interesses geoestratégicos das grandes potências, tanto na guerra que envolve o Irão e o Médio Oriente como no conflito na Ucrânia. É trágico constatar como decisões do Reino Unido e dos USA contribuíram para a desestabilização do Irão, no jogo de colocar particularmente no contexto que levou à Revolução de 1979 e à ascensão do regime dos ayatollahs, cujas consequências têm sido profundas para o povo iraniano e para a estabilidade regional.

O povo iraniano tem sido sucessivamente privado do direito a determinar livremente o seu próprio destino. Num cenário internacional em que a China se afirma cada vez mais como potência global, intensificam-se rivalidades estratégicas, e o Ocidente procura conter a sua expansão de influência. Nesse quadro, multiplicam-se conflitos geopolíticos em que interesses de poder se sobrepõem à vida humana e dos Estados.

Em última análise, são as populações civis que continuam a pagar o preço mais alto, quer sob regimes autoritários, quer no contexto de intervenções externas, permanecendo presas numa dinâmica de confronto em que os seus direitos, a sua segurança e a sua dignidade são sacrificados.

A Guarda Revolucionária como herdeira dos assassinos na história

O Irão pré-islâmico foi um centro cultural milenar de grande relevo que com a conquista muçulmana árabe no século VII se foi remodelando e durante a segunda guerra mundial  sofreu exploração colonial e manipulação política por parte da União Soviética, Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, que visavam o controle dos recursos petrolíferos e a manutenção de alinhamento geopolítico estratégico. Desde 1979, a República Islâmica construiu um modelo onde religião, nacionalismo e resistência ao Ocidente formam uma identidade política coesa e a pressão externa reforça essa identidade.

A Guarda Revolucionária assume no Irão a tarefa que os “assassinos” desempenharam no Islão através dos séculos (1) e que era a de protetores do espírito islâmico contra as ameaças externas e internas. Esta função, que aos olhos ocidentais parece contraditória, pois como podem “assassinos” proteger algo espiritual, tem profundas raízes na história islâmica. O Islão nasceu e expandiu-se pela espada e a mesma espada que o expandiu é a que o defende.

Se a Guarda Revolucionária se mantiver no poder, a repressão interna poderá intensificar-se. E o povo que aspirava à liberdade encontrará um horizonte ainda mais distante.

Este é o grande problema para o Ocidente porque não tem muito que possa oferecer como atração própria do mundo secular (a não ser a liberdade da pessoa humana que o sistema islâmico oprime). Oferecemos democracia, mas ela parece cada vez mais disfuncional até para nós. Oferecemos liberdades individuais, mas elas são frequentemente percebidas como decadência moral. Oferecemos desenvolvimento económico, mas regimes autoritários, embora desumanos, têm demonstrado vantagens competitivas no mundo globalizado. Veja-se o exemplo do Kuwait onde o mundo ocidental se apinha para passar lá férias!

O erro da classificação medieval

Quem classifica os regimes islâmicos como medievais revela não ter compreendido no mínimo o Islão, nem a natureza da sua própria posição no mar da história. O Irão era um centro cultural muito antes do Islão, e a Revolução Islâmica de 1979 foi, em grande medida, uma resposta à brutalidade do domínio britânico e americano na região. Os Estados Unidos completam este ano 250 anos de independência; desde 1776, houve uma tentativa constante de se apropriar de terras e matérias-primas em nome dos valores republicanos e democráticos. Esta história não confere superioridade moral para julgar os outros.

A Grã-Bretanha foi particularmente brutal no seu domínio da região, traçando fronteiras arbitrárias, instalando monarquias fantoche e explorando os recursos petrolíferos sem qualquer consideração pelas populações locais. O resultado foi a Revolução Islâmica e décadas de hostilidade que persistem até hoje.

A lógica que o Ocidente não compreende

A lógica dos argumentos que o Ocidente defende não é aceite pelos aiatolas, porque o islão parte de um pensamento uniforme, não fragmentado como o nosso. Sabe que as diferentes lógicas, a jurídica, a moral, a política e a económica, servem para criar divisões e explorar contradições. Enquanto no Ocidente debatemos se devemos priorizar os direitos humanos ou a segurança nacional, os aiatolas agem com uma coerência que nós já perdemos e que a EU procura indiretamente repor, mas com a deficiência de se limitar ao poder económico e militar. O regime socialista procurou também ele unir política e ideologia fazendo desta uma espécie de religião (certamente que aqui há aspetos afins da esquerda com o islão), mas falta à ideologia socialista, um elemento essencial do homem que é a coerência espiritual.

O Islão, em geral, associa os interesses nacionais à missão divina. O que é bom para o Irão é bom para o Islão, e vice-versa e até a mentira desde que sirva o islão passa a ser virtude (Não quero com isto criticar o Islão, porque na lógica meramente do poder ele conquista a razão).

Esta fusão entre interesses nacionais e missão divina confere aos líderes iranianos vantagens operacionais significativas, como: capacidade de decisão rápida, controlo absoluto da informação e mecanismos de repressão eficientes que atuam sem constrangimentos legais ou morais. A isto acresce uma capacidade de mobilização popular que os líderes ocidentais apenas podem sonhar, uma vez que estes estão limitados por sondagens, debates internos intermináveis, uma opinião pública volátil e a inevitável pressão dos ciclos eleitorais.

Por outro lado, o Islão, através da sua rede de mesquitas e grupos extremistas, consegue uma presença social integrada (impossível de romper), tanto a nível interno como externo, que qualquer sistema de espionagem ocidental não consegue replicar. Isto porque os serviços de inteligência do Ocidente são aparelhos exteriores ao tecido social, frutos da lei decretada e da burocracia estatal, ao contrário do Islão, que está organicamente entranhado nas comunidades onde atua.

O Ocidente, apesar de todos os seus erros, tem em mente que “quem vive pela espada, morre pela espada”. Perante a realidade islâmica, esta visão torna-se numa consciência trágica porque limita a ação do Ocidente, impedindo-o, em parte, de levar até ao fim as lógicas que desencadeia; isto baseia-se no princípio humanista cristão que distingue entre servir a César e servir a Deus. Assim o Ocidente avalia sempre a situação de forma estratégica, com dois pesos e duas medidas, porque as prioridades mudam constantemente. Hoje a Rússia é inimiga, amanhã pode ser aliada contra a China. Hoje o Irão é o alvo, amanhã pode ser necessário para equilibrar a Arábia Saudita e possivelmente como local estratégico no afirmar-se em relação à China.

A questão de Israel e a persistência de guerra e guerrilha

Tal como a situação se apresenta com o programa do Irão de extermínio dos judeus, uma retórica que infelizmente persiste em setores do regime iraniano, não se descortina haver, neste momento, alternativa à guerra. Israel enfrenta um dilema existencial: os mísseis guiados iranianos, que em confrontos anteriores penetraram as suas defesas aéreas, representam uma ameaça que nenhum país pode ignorar. Por outro lado, encontram-se interesses ocidentais geoestratégicos na defesa de Israel (possíveis rivalidades futuras entre Europa e o mundo islâmico).

Mas a guerra, por mais inevitável que pareça, não resolverá os problemas fundamentais. Esta não é uma guerra para a mudança de regime, pelo menos não o é no sentido que o Ocidente a entende. E, no final, a situação poderá ser ainda pior do que no Iraque, na Líbia, na Síria e no Afeganistão. Se a Guarda Revolucionária se mantiver no poder, o terror contra a sua própria população tornar-se-á ainda mais desumano. O povo que ambicionava a liberdade terá ainda mais dificuldades.

E o busílis da questão permanece porque tanto o Ocidente como o Islão são hegemónicos.

O mundo invertido

Vivemos num mundo invertido, onde o caos cria confusão, o que torna o poder útil e permite que os governantes se escondam na lealdade dos Nibelungos, essa fidelidade cega a líderes que conduzem os povos à destruição. Em 1999, a NATO violou o direito internacional na guerra do Kosovo. Pouco depois, as pessoas na Sérvia saíram massivamente para as ruas e houve mudança de regime. Mas o Irão não é a Sérvia e a mudança na história não segue apenas o poder militar.

Nenhum dos blocos, chamem-se eles capitalistas ou socialistas, Ocidente ou Oriente, Rússia ou EUA, Israel ou Irão, pode ser tomado como referência moral. O seu agir invalida qualquer posição que se tome, independentemente do lado que se ocupe nas barricadas. Um lado e o outro não reconhecem uma ordem mundial e querem impor as suas regras inspiradas nos seus interesses.

A necessidade de uma ética superior

Quando se toma uma posição inflexível, nega-se uma ética superior e deste modo impede-se o desenvolvimento qualitativo, porque não há equilíbrio entre o desenvolvimento interior, espiritual, do ser  e a mera acumulação exterior de possuir ou ter.

As potências mundiais comportam-se como se o mundo fosse um jardim de infância e elas fossem os seus  donos e educadores. Mas esquecem-se de que também elas não passam de criancitas a brincar no parque infantil, com brinquedos cada vez mais perigosos. A diferença é que, no jardim de infância global, quando os brinquedos avariam, quem paga a fatura são sempre os mesmos: os povos que apenas desejam viver em paz.

Há várias modalidades de intenção entre o militarismo, o empenho genuíno e a procura sincera de soluções. Cabe-nos distingui-las, num tempo em que a propaganda e a desinformação tornam essa distinção cada vez mais difícil ou mesmo impossível.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) O termo assassino viria de “assass”, ou seja, “os fundamentos” da fé islâmica. A origem da palavra ASSASSINO também é referida como vinda do árabe haxaxyn, consumidor de haxixe, erva-seca, porque o Velho da Montanha, líder de uma seita de fanáticos, drogava os seus discípulos antes de eles roubarem e matarem cruzados e peregrinos a caminho da Terra Santa.

Leituras: Para aprofundar a compreensão do sistema político iraniano, recomendo a leitura dos analistas do Council for Strategic and Defense Research e do Mahatma Gandhi Centre for Nonviolence and Peace Studies . Sobre a natureza do Islão político, o Hudson Institute oferece análises detalhadas das diferentes correntes.

 

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REFLEXÃO QUARESMAL E O CLIMA INTERIOR

Entre a tempestade do mundo e a paz que vamos aprendendo a cultivar

Há dias em que o vento sopra de tal modo que parece atravessar as paredes. Não tanto o vento meteorológico, mas sobretudo o vento das notícias, das discussões ideológicas, dos meandros do poder e das urgências artificiais. Ainda antes do café abro o telemóvel e sinto o seu zunir constante, como se o mundo estivesse sempre a bater-me à porta e a querer desabar.

Durante tempos pensei que era apenas impressão minha e que tinha talvez uma sensibilidade social excessiva! Com o tempo, porém, comecei a perceber que muitos à minha volta partilhavam do mesmo cansaço invisível que se torna impertinente e por vezes até atormentador. A grande luminosidade tecnológica que nos acompanha exteriormente é acompanhada   de uma crescente escuridão interior. Quanto mais clareza intelectual criamos sobre os sistemas digitais, económicos e políticos, mais descemos à cave da nossa própria inquietação existencial.

Tudo isto me faz lembrar uma tarde junto ao mar na praia da Costa Nova. As ondas avançavam com força e retiravam a areia sob os meus pés. Por instantes perdi o equilíbrio e como reação fechei os olhos. A sensação era simples e, ao mesmo tempo, reveladora porque quando o chão se move, não é o mar que precisa de estabilidade, quem precisa dela sou eu.

Essa imagem tem-me acompanhado na observação de mim mesmo e do mundo. O mundo tornou-se severo, tanto no clima exterior como no interior das pessoas. As redes sociais e os meios de comunicação, em geral, amplificam indignações, os debates políticos endurecem e as palavras perdem a sua inocência e subtileza. O diálogo foi substituído por trincheiras emocionais. E nós, no meio desse vendaval, tentamos permanecer com os pés bem assentes na terra para não cair, mas as ondas não nos deixam.

Com o tempo percebi que começava a reagir a cada notícia que achava relevante como se fosse uma convocatória pessoal. Mas o mais fatal é que uma guerra distante se tornava ansiedade próxima e uma decisão política se transformava em revolta íntima. Sentia-me parte de uma engrenagem gigantesca e, ao mesmo tempo, impotente. Para fugir ao sentimento desta impotência então procurava ruminar as notícias através de reflexões.

Entretanto veio-me à ideia a imagem do mito de Sísifo que condenado pelos deuses a empurrar uma enorme pedra montanha acima, quando chegava ao topo, a pedra rolava de volta, e ele tinha de começar novamente. Empurramos montanha acima diariamente a pedra da produtividade, do desempenho e da validação social, apenas para a ver rolar novamente na manhã seguinte. A repetição exaustiva passa a substituir o sentido deixando a impressão que tudo se reduz a atrito como se a fricção fosse o sustento da vida. Não será essa a metáfora perfeita da nossa época? Trabalhamos, opinamos, partilhamos, reagimos e, na manhã seguinte, tudo recomeça, mas tudo parece ficar cada vez mais na mesma.

Mas a história de Sísifo também pode ser lida de outra forma: é possível que a dignidade não esteja no resultado, mas na forma como seguramos a pedra.

Num tempo em que o peso dos dias se faz sentir com especial intensidade, entre as exigências do trabalho, as inquietações que vêm do mundo e as perguntas sem resposta que acompanham o silêncio de cada um, há que encontrar conforto num espaço espiritual ou nalgum recanto do espírito, como referia o físico Max Planck, ao falar que cada um precisa de ter um ponto firme, de uma posse que não nos pode ser tirada, isto é, uma atitude pura e a boa vontade. À primeira vista, pode parecer quase ingénuo. Como pode a boa vontade fazer frente à aspereza do real? Como pode resistir à violência, à atitude maldosa, à pressa, ao ruído do mundo? Não é fácil, mas a força da boa vontade estará no facto de não competir, de não se impor, mas de simplesmente manter-se na consciência de que não se trata de concorrer, mas de resistir.

A inteligência emocional, hoje tão citada em manuais de liderança, revelou-se para mim algo muito mais íntimo, resumido na capacidade de não permitir que o ruído exterior colonize o silêncio interior, o centro da mesmidade. Tudo isto é processo onde se pode aprender a  distinguir entre aquilo que faz parte de mim e me pertence e aquilo que me rodeia  ou que apenas atravessa o meu ecrã ou se mostra nos jornais.

A tarefa não é fácil, até porque o homem não é de pau e, por vezes, a circunstâncias tornam-se no cadinho da vida. Trata-se então de dar um paço de cada vez! Desligar notificações, caminhar sem auscultadores, escutar alguém sem preparar resposta. Importante é a comunicação direta de olhos nos olhos, de voz sem filtro, porque tem um poder reparador que nenhum algoritmo consegue refutar.

Observo também que muitas ideologias prometem segurança identitária, mas cobram um preço elevado que se manifesta na rigidez do coração. Quando nos agarramos a certezas absolutas, fechamos as janelas da compreensão. E sem compreensão não há paz possível, no máximo, apenas vitória temporária.

Vivemos uma época em que a democracia, para alguns, já só soa a nostalgia, pois o poder parece, além de cruel, distante e as decisões globais ultrapassam a nossa influência direta. Para mantermos a saúde psíquica somos cada vez mais condicionados a vivermos com humor e a virar-nos para o espaço interior que é o território onde continuamos soberanos.

Isto não significa fuga espiritual, nem de ingenuidade política, mas assumir responsabilidade. Se permitirmos que a angústia e o ressentimento se instalem em nós como morada permanente, tornamo-nos replicadores da mesma dureza que criticamos.

O nosso tempo exige cidadãos experientes na adversidade, não endurecidos, mas amadurecidos; pessoas capazes de reconhecer a própria fragilidade sem a transformar em agressividade, para chegar a compreender que a verdadeira coragem, muitas vezes, consiste em permanecer humano quando o ambiente incentiva o contrário.

Volto frequentemente àquela imagem da praia. As ondas continuarão a avançar e a recuar na consciência que o movimento é a base da existência. Mas aprendi que posso abrir os olhos no meio da instabilidade e procurar o meu centro. Esse centro não elimina a tempestade; apenas impede que eu me torne parte dela.

A grande tarefa da nossa geração não será conquistar territórios nem vencer debates, mas preservar a alma num tempo de excessos. Num século de luzes artificiais intensas, o desafio maior é reacender a luz humana, de maneira discreta, mas persistente.

Só quem encontra paz dentro de si consegue atravessar a tempestade sem perder a alma e pode contribuir para uma cultura de paz fora de si.

E essa é uma revolução silenciosa que começa sempre no íntimo de cada um de nós e aí procurar conciliar reflexão crítica, experiência pessoal e promoção de uma cultura de paz fundada na dignidade humana e na consciência interior.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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