ENQUANTO A EUROPA PERDE O PASSO A CHINA ACELERA

Passar do espartilho da figura para a eficácia do serviço ao povo

  1. O diagnóstico da paralisia europeia em contraste com o passado

A Europa encontra-se, nesta fase da história, numa posição paradoxal: nunca acumulou tantos recursos de conhecimento, nunca discursou tanto sobre o futuro e nunca esteve tão emperrada. O que outrora foi ponta de lança das civilizações, do método científico ao Estado de direito, da Revolução Industrial à integração pós-nacional, reduz-se hoje a um continente que marca passo, tropeçando até nas suas próprias instituições.

O problema não é de conteúdos. Muitos dos valores e princípios que a Europa produziu continuam válidos: a separação de poderes, a liberdade de investigação, a protecção social, o humanismo crítico. A questão está na linguagem e na forma de os tornar operativos. A linguagem tornou-se antiquada quando tenta evocar um passado glorioso sem o traduzir para os desafios presentes; e tornou-se verborreica quando se refugia em jargão sociopolítico, “Defesa dos valores”, “transição justa”, “soberania estratégica”, “resiliência”, que funciona menos como conceito operacional e mais como analgésico discursivo para um povo distraído. O resultado é uma cultura política que confunde intensidade declamatória com acção.

  1. A lição incómoda da China

Criticámos a China de maneira sobranceira, muitas vezes com razão, especialmente no que toca ao controlo comunista, à ausência de um cidadão soberano no sentido ocidental e à repressão sistemática de liberdades fundamentais. Essa crítica sobranceira impediu-nos de ver o óbvio: a China passou-nos a perna em sectores decisivos da ciência e da técnica, sobretudo nas tecnologias limpas.

O caso do automóvel eléctrico é exemplar. A indústria europeia, protegida durante décadas por um status quo confortável de motores de combustão, foi apanhada em contrapé. Enquanto o debate europeu se consumia em quotas de emissões e calendários de proibição, a China produzia, escalava e baixava preços. Hoje, oferece ao seu cidadão comum um veículo eléctrico acessível, não por caridade, mas por planeamento industrial agressivo, economias de escala e uma lógica que a Europa esqueceu: a de que a inovação sem penetração de mercado é mero exercício académico.

As pessoas e isto é um facto empírico, não um juízo moral, querem comer e viver bem. Não olham com rigor a quem as obriga, desde que as necessidades primárias estejam satisfeitas e haja perspectiva de melhoria. Este realismo elementar, que Maquiavel já entendia, continua a escapar às elites europeias, demasiado ocupadas a gerir a sua própria virtude sinalizadora.

  1. A hipocrisia do controlo velado e dos discursos vazios

A Europa sempre se prezou dos seus valores humanistas e do seu pioneirismo. Mas, paradoxalmente, nunca exerceu tanto controlo sobre as populações como hoje; fá-lo de maneira mais sofisticada e aparentemente democrática. Onde a China usa um partido único e uma arquitectura explícita de vigilância, a Europa usa regulamentação assimétrica, algoritmos de pontuação social disfarçados de “análise de risco”, condicionalidades de fundos europeus que moldam comportamentos, e uma correcção política que actua como censura difusa, sem necessidade de decretos.

A diferença não é de essência, mas de estilo. O Ocidente aproxima-se perigosamente do sistema que critica, a nível de controlo e influência da consciência social. A diferença é que o faz de maneira velada e hipócrita, de maneira a que a maioria das populações não se dê conta, porque as suas necessidades primárias encontram satisfação. O cidadão europeu médio, entretido com o acesso ao crédito, à saúde e à conectividade digital, não percebe que o seu espaço de dissentimento se estreitou tanto como o do chinês, apenas com verniz procedimental.

  1. A economia política dos preços altos

Há uma verdade incómoda que raramente se enuncia: na Europa, quem conta primeiro a nível de empreendimentos são as grandes empresas. O Estado e os seus governantes não estão interessados em preços baixos para o povo, porque quanto mais caros são os produtos, mais o Estado ganha à custa do povo que paga (IVA, impostos especiais de consumo, contribuições sociais embutidas nos preços). O sistema fiscal europeu é progressivo na retórica, mas profundamente regressivo na prática quando sobrecarrega o consumo de bens essenciais e de transição energética.

A China, inversamente, usa o seu controlo estatal para forçar preços baixos em sectores estratégicos, mesmo à custa de margens e de concorrência predatória externa. O resultado é que o cidadão chinês médio acede a tecnologias limpas, telecomunicações e infraestrutura a custos que o europeu considera irrealistas. Enquanto a Europa impõe tarifas “anti-dumping” ou regulações ambientais que funcionam como barreiras não pautais, está na realidade a proteger não o trabalhador, mas a ineficiência instalada e a captura de renda pelas grandes empresas que considera relevantes para o Estado.

  1. O futuro: aprender uns com os outros sem dogmas

A tese final é simples e incómoda para ambos os lados: a China tem muito a aprender com a Europa em matéria de soberania do cidadão, de garantias processuais e de pluralismo. Mas a Europa tem muito a aprender com a China em matéria de eficácia executiva, de visão industrial de longo prazo e de coragem para subordinar interesses instalados ao bem-estar material da população.

O futuro em que todos aprendem uns dos outros não é um futuro sem conflitos, é um futuro sem posições dogmáticas. O dogma ocidental de que a democracia liberal é condição sine qua non para o desenvolvimento tecnológico está factualmente errado: a China desmentiu-o. O dogma chinês de que o controlo partidário é compatível com a inovação sustentada a longo prazo também enfrenta os seus limites, na demografia, na criatividade reprimida, na fuga de cérebros.

A política não deve emperrar as relações económico-comerciais entre os povos, não por idealismo cosmopolita, mas por realismo: porque só assim se serve o povo. E servir o povo significa entregar resultados mensuráveis: poder de compra, esperança de vida, mobilidade social, acesso a tecnologia, liberdade efectiva de escolha. Qualquer sistema que se meça apenas pela pureza dos seus princípios, e não pelos seus efeitos, está condenado à irrelevância ou à hipocrisia.

A Europa ainda pode reivindicar o seu lugar como ponta de lança. Para isso, a elite europeia terá de abandonar a verborreia, baixar a sobranceria, e enfrentar uma verdade desconfortável: já não é ela só a ensinar; também ela tem de aprender. E aprender, para uma civilização que se quer humanista, é o acto mais humilde e mais forte porque passa a caminhar com o povo sem perder a bússola da mão.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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MEDITAÇÃO DO H₂O

Onde a Água chama pelo Calor e o Homem suspira pelo Amor

Não é nas abóbadas de pedra que o Infinito se deixa tocar. A abóbada é um obra cultural natural, uma expressão da comunidade que tenta guardar o fogo em ânforas de barro e isso é bom, porque o ser humano precisa de ritos como a videira precisa de latada. Mas o templo sem muro é o coração quando desarma as suas defesas e permite que a ferida sangre e respire na realidade do nós. Nesse lugar, Deus não é um conceito nem uma causa eficiente; é o próprio acto de ser amado e de amar, numa dança que confunde as estações: Pai, Mãe, Filho, são três respirações de um só pulmão (1).

A razão cartesiana quer dissecar o mistério como se ele fosse um relógio. Mas o reino não é um mecanismo; é uma semente que só germina no solo da vivência. Jesus não se equaciona numa tabela histórica porque ele é o instante em que o tempo se curva para beijar a eternidade. Quem o reduz a um dado arqueológico perde a sua sede. E quem o transforma em bandeira de partido ou em trincheira militar confunde o rosto com a máscara.

Olhemos para a água: ela aceita ser gelo para sustentar o inverno; aceita ser rio para servir a planície; aceita ser vapor para vestir o céu. A água, em cada mudança, continua a ser H₂O , uma essência que se disfarça de três corpos. O calor que desencadeia essa metamorfose não é uma temperatura; é uma metáfora do amor que desaba sobre o sólido do medo, o dissolve em lágrimas de compaixão e depois o eleva a uma leveza que tudo perdoa.

Assim é o percurso espiritual; ele passa do dogma à dúvida, da dúvida à confiança, da confiança ao abandono nos braços que nunca julgam. Os templos exteriores, os gestos litúrgicos, as instituições são as margens que protegem o rio de se perder no deserto. Porém, o rio não é as margens e quando a enchente chega, é o coração que transborda, não as pedras.

Por isso, não temamos o paradoxo: Deus é Pai-Mãe-Filho, a água é sólido-líquido-gás, o amor é lei e transgressão. Resta-nos viver e compreender, analisar para ficarmos com o invólucro vazio. O que serve, no fim, é a sede que nos fez procurar e a fonte que sempre esteve dentro de nós, batendo como um segundo coração (2).

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

© Pegadas do Tempo

 

  1. A mística medieval refere frequentemente: “Deus está mais perto de nós do que a nossa própria alma, pois Ele é o próprio fôlego que a sustenta”.
  2. Santo Agostinho no seu livro Confissões resume: “… o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti”. Isto corresponde à expressão da alma que busca a sua origem e fim. A frase sintetiza a condição humana à luz da fé.
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MANUAL DE INSTRUÇÕES PARA UMA SOCIEDADE QUE PERDEU O MANUAL

Humor Antropoginelógico

Há épocas em que a humanidade avança e há outras em que, com grande convicção científica, troca os mapas pelo GPS e depois culpa o satélite quando acaba no meio da floresta.

Vivemos, como se vê, num tempo de desconstrução. Desconstrói-se o pai, a mãe, a autoridade, a ética, o sentido e, se sobrar tempo, reconstrói-se tudo com instruções do tipo IKEA emocional: peça A (identidade), encaixar na peça B (função), ignorar parafusos (afeto). No final, falta sempre uma peça. Curiosamente, é sempre a que sustentava a mesa.

Eu proponho, com a devida modéstia e alguma irresponsabilidade científica, um conceito mais moderno: a matriz antropoginelógica. Não é doença, ainda não tem código internacional, e provavelmente não será financiada por nenhum ministério. Mas soa suficientemente complexa para ninguém a contestar de imediato.

A ideia é simples: o ser humano não é um manual técnico, nem um algoritmo com mau humor. É um ser dialógico e, como tal, é conflito em potência e dança entre aquilo que quer e aquilo que pode. Afirma-se entre o impulso e o limite, entre o “eu quero agora” e o “talvez não seja boa ideia”.

Tradicionalmente, e aqui entra a parte em que metade dos leitores começa a tossir, chamámos a isso masculinidade e feminilidade. Não como caricaturas biológicas, mas como funções simbólicas: estrutura e relação, limite e acolhimento, forma e conteúdo. Como café e chá. Ambos líquidos, ambos quentes, mas experimente trocar um pelo outro às sete da manhã e verá o que acontece à civilização.

Mas hoje preferimos outra abordagem: a funcional. Tudo é função. Tudo é papel. Tudo é substituível. O pai? Uma função. A mãe? Outra função. A criança? Um projeto em curso. E o ser humano? Um PowerPoint mal formatado.

O problema é que, quando tudo é função, ninguém assume responsabilidade. Porque função não sente culpa. Função não ama. Função não sofre. Função executa. E quando a função falha… abre-se um novo grupo de trabalho.

A isto junta-se a política do pensamento correto, que é correto sobretudo porque não admite discussão. E então, para evitar conflitos, eliminam-se símbolos. O pai torna-se suspeito. A mãe, um conceito em revisão. A autoridade, um abuso em potencial. E o resultado? Uma sociedade profundamente educada… e estranhamente ansiosa.

E isto porque o ser humano precisa de conflito simbólico para crescer. Precisa de uma figura que diga “não” sem pedir desculpa por existir. Precisa de outra que diga “sim” sem exigir um relatório de produtividade emocional. Precisa de tensão para gerar consciência.

Sem isso, o que surge não é liberdade, é desorientação com autoestima.

E então aparecem os novos arquétipos: não o pai autoritário, nem a mãe protetora, mas o algoritmo compreensivo que até se pode revelar como o melhor psicólogo. Este nunca julga, nunca exige, nunca contradiz. Apenas sugere. E aprende consigo, o que é uma forma elegante de dizer que o substitui lentamente.

Estamos a criar, com grande entusiasmo progressista, um superego que não proíbe… mas vigia, que não orienta… mas classifica, que não educa… mas recomenda conteúdos semelhantes.

E no meio disto tudo, surge uma nova figura sociológica fascinante: o homem soft. Não é masculino nem feminino, é editável e adaptável. É um ser que evita conflito como quem evita glúten. Que prefere não ter opinião para não correr o risco de ter de defendê-la.

Mas atenção: isto não é emancipação; é desorientação bem vestida.

Porque a verdadeira emancipação não elimina tensões, integra-as. Não destrói símbolos, transforma-os. Não ridiculariza o que veio antes, compreende-o e acrescenta-o.

A masculinidade, no seu melhor, não é dominação; é estrutura. A feminilidade, no seu melhor, não é submissão; é relação. E entre ambas nasce algo raro hoje em dia e que se chamaria consciência com coluna vertebral.

Sem isso, temos uma sociedade muito sensível… mas incapaz de decidir; muito inclusiva… mas sem critérios e muito livre… mas sem direção.

E talvez, no fim, o mais irónico seja que, ao tentar libertar o ser humano de todas as estruturas, criámos a estrutura mais rígida de todas, aquela que não pode ser questionada.

Por isso, talvez valha a pena reconsiderar.

Não para regressar ao passado, mas para recuperar aquilo que o passado sabia e que o presente esqueceu com grande convicção: que o ser humano não se constrói por eliminação… mas por integração.

E que, no fundo, uma boa sociedade é como um bom cabaret: tem humor, tem conflito… e ninguém sai exatamente igual ao que entrou.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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O MERGULHO

Nas pausas mora o que não cabe no dia,
aquele branco entre palavras onde a mente,
desatada do peso da aparência,
sobe, como ave ou fumo, levemente.

A casca é sempre mais ruidosa que a seiva.
O mar que se exibe à superfície guarda
nos seus porões de luz oblíqua e fria
o coral que nenhuma tormenta abala.

Quem só conhece o vento conhece o medo,
esse pânico gentil de ser levado
para longe de si, como folha ou vela
que ignora o que é ter raiz e ter calado.

Mas o mergulhador aprende cedo
o paradoxo limpo das profundezas.
Quanto mais desce, menos o mundo pesa
e ele, mais consciente, enfim, começa.

Não é valentia esta descida,
é apenas a recusa de flutuar
entre aparências que o rumor anima
e ventos que nos chamam pelo nome errado.

Suspender a corrida, parar. Só isso.
Deixar que a tua sombra te preceda
e reconhecê-la, afinal, como tua,
essa é a única maré que te liberta.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo ©

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O CAMINHO DA CONSCIÊNCIA

(versão condensada)
O ser humano sofre, não tanto pela realidade em si, mas pela imagem que cria dela e pelas ideias que o aprisionam.
No seu caminho, Jesus revela-se não apenas como mediador entre o humano e o divino, mas como o próprio caminho, verdade e vida. A sua via crucis propõe uma revolução silenciosa: vencer a dor sem a transmitir, quebrar o ciclo da violência sem recorrer a vítimas ou culpados. Com ele nasce a possibilidade de uma nova humanidade, uma idade da paz tantas vezes esquecida sob o peso da história e das estruturas de poder.
Jesus desmonta a imagem de um Deus violento e vingativo. Deus não exige sacrifícios. Ao assumir a condição de vítima, Jesus expõe a lógica da violência e torna-a inútil. Mostra que a transformação não nasce da lei nem da moral, mas da relação, uma relação viva, interior, que conduz à liberdade, à graça e ao amor.
A cruz não é castigo, mas consciência. Nela não há vencedores e vencidos: há reconciliação. O caminho do Calvário dissolve a lógica do crime e do castigo, substituindo-a por uma visão inclusiva da realidade. O mal não se vence com pior, mas com uma força mais profunda: a misericórdia.
A via-sacra torna-se, assim, um itinerário espiritual. Não convida ao sofrimento pelo sofrimento, mas à descoberta de um sentido novo, uma solidariedade radical que integra tudo e todos. O sofrimento assumido transforma-se em caminho de libertação, não apenas do mundo, mas das próprias ilusões.
No silêncio diante do julgamento, Jesus revela a inutilidade de discutir com uma mentalidade fechada na dualidade. A verdade não é um conceito, é relação. Por isso, cala-se.
Ao carregar a cruz, assume não uma culpa, mas o peso da condição humana. Rejeitado pelos poderes e incompreendido pelo povo, caminha sem devolver violência. Cai, como todos caem, mas levanta-se sempre na fidelidade a uma consciência maior.
No encontro com sua mãe, não há palavras: apenas um olhar onde a dor se transforma em compreensão. Na ajuda inesperada de um estrangeiro, na compaixão espontânea de uma mulher, revela-se que a humanidade permanece capaz de bem, mesmo sem compreender plenamente.
Jesus recusa o jogo das aparências, da moral rígida e das estruturas que aprisionam. Propõe uma mudança interior, uma metanoia, onde a vida deixa de ser regida pelo medo e pela norma, e passa a ser vivida na liberdade do amor.
Crucificado, não responde com revolta. Morre como viveu: livre, entregue, fiel ao amor. E é precisamente aí que a morte perde o seu poder.
A ressurreição não é apenas um acontecimento, mas um horizonte: Deus não está entre os mortos, mas entre os vivos. A cruz não é o fim — é passagem. Um convite a abandonar as imagens que nos prendem e a descobrir uma vida mais ampla, mais verdadeira.
A via crucis é, afinal, o caminho de uma consciência nova: aquela que não julga, não exclui, não agride, mas integra, transforma e ama.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo da via-sacra em https://antonio-justo.eu/?p=3531
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