A FARSA DO ROSTO PROSÉLITO
(A tragédia política moderna dá-se na substituição do rosto pela sigla,
do abraço pelo manifesto, da dúvida pela doutrina
onde mentes brilhantes se imolam numa guerra de ecos,
acreditando que repetir o credo partidário é servir a humanidade,
quando na verdade estão a servir uma caricatura de si mesmos. )
Eles levantam-se cedo, de afecto engomado,
e as palavras já vêm no papel timbrado,
ninguém as pariu, ninguém as provou.
São versos de outrem, bordados na pressa,
que a boca repete, mas a alma não tece,
e o rosto, coitado, da fala se esvai.
Reúnem-se em salas de luz fluorescente,
erguem-se braços, discursos veementes,
mas cada argumento é um punho fechado
que nunca tocou no suor do operário,
nem viu a criança com fome no lar,
nem sentiu o frio do velho no largo.
E o pior, não é a ignorância, não!
é ver o inteligente, o douto, o sagaz,
gastar a ciência a polir a razão
de um credo que sabe, no fundo, falaz.
Amar o próximo? Sim, mas só se o próximo
assinar o papel, jurar a bandeira,
alinhar-se todo ao verso metódico
que a comissão aprova na sexta-feira.
E que tristeza ver a inteligência
servir de escudo a uma máscara oca,
quando podia, na simples demência
de ser humano, sentar-se à tua mesa,
olhar-te nos olhos, beber da tua falta,
e esquecer, por um instante, a tese
que a sua própria boca já ensaia e exalta.
Porque a luta que diz defender o Homem
esquece-se dele no primeiro minuto:
troca-lhe a face por um nome comum,
troca-lhe a dúvida pelo estatuto,
troca-lhe a carne viva, que sangra e ama,
pelo arquivo morto de uma doutrina.
E a ciência, outrora chama pura,
vira ferramenta de propaganda obscura
ao serviço da casa que a si mesma se inclina.
Mas não, meu amigo, não te conformes.
A máscara pesa, mas o rosto persiste.
Por baixo do slogan, do voto, das normas,
há sempre um homem que nunca desiste
de olhar outro homem, sem partido, sem causa,
e lhe estender a mão, não para o converter,
mas para, com ele, na sua pausa,
se lembrar que o político há-de ser
aquele que serve e não o que oprime,
que a sigla se dobre e o humano redima,
que a assembleia se faça onde alguém se estima,
e a verdade comece onde o medo e cálculo não prime.
Por isso, ergo este verso contra o esquecimento:
não há revolução que valha um tormento
se o homem que a faz se desfaz em contento
de ser só a sombra do seu partido.
O génio divino que em ti foi nascido
não quer a legenda, quer o corpo inteiro,
quer o “nós” que se faz sem manual ou dinheiro,
quer a política que chora e que sente,
e, em vez de discurso, oferece presente
o simples encontro de dois que se olham,
e sabem que os mundos, por mais que se escolham,
só valem se neles couber o outro
o outro, o teu, o nosso, o humano,
esse inclassificável, eterno, andarilho,
que não cabe em sigla, nem em plano,
e só se revela quando o deixamos ser,
não combatente, mas irmão.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578