A SINFONIA DO SIFÃO

Nas latrinas da sociedade, ó sábio viajante,
esgotam-se os dejectos e as grandes teorias.
As ideias, qual alho em terra adubada,
brotam férteis na clausura do assento,
mas cuidado com as que ficam empedernidas!
Se a canalização da alma entope,
o mau cheiro é fumaça de ideologias caducas,
e o ar, que devia ser leve, pesa como única rectórica.

Descarrega, onda límpida e catártica,
leva o ruído, a pressa, o disparate factuado,
e devolve-nos o centro celeste do umbigo.
Aqui, o homem curva-se perante a sua própria natureza,
mas não se quebra; antes, flutua
na pausa do teatro, no intervalo da glória,
onde as honras ocultas são a única verdade
e o eco do dreno é a música dos divos.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo ©

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O TRONO SEM CLASSES

Eu sento-me, Tu sentas-te, Ele senta-se.
A porcelana é fria, mas a verdade é morna:
aqui, o rei depõe a coroa e as calças,
e o plebeu ascende em nobreza anónima.
É o único parlamento onde a direita e a esquerda
se sentam, em pleno acordo, sobre a mesma louça branca.

A vergonha, essa dama de véu cobarde,
veste-nos, afinal, de dignidade pura;
o silêncio que aqui habita não é mudo,
é o rumor do mundo a tomar fôlego.
E o herói que ali fora é dono do palco,
aqui rende-se ao mais pequeno dos deuses:
o botão de descarga, o rolo de papel infinito (1),
e a água que gira é carrossel do esquecimento.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

(1) Aqui, na toalete, as hierarquias desfazem-se na água! O odor, democrático e inevitável, cobre todos com o mesmo manto de igualdade elementar. Não há tribunas nem plateias; apenas se tem o bastidor do mundo, o palco sem espectadores onde cada um regressa à condição comum. A casa de banho talvez seja o lugar mais discretamente filosófico da existência. Há criatividade e uma filosofia com cheiro a amoníaco, onde o ambiente respira a verso e a condição humana se despe das suas máscaras. É também uma pausa no teatro do mundo, uma breve suspensão das personagens, dos títulos e dos enfeites. Na casa de banho,  a glória deixa de conseguir esconder o seu próprio rumor. Encontram-se, sem cerimónia, as honras públicas e as honras ocultas; aqui o prestígio e a fragilidade partilham o mesmo espaço e obedecem à mesma necessidade. É um lugar de libertação e de antidiscriminação silenciosa. Um território onde o corpo recorda aquilo que o espírito tantas vezes esquece: que toda a elevação humana assenta sobre uma igualdade  irrevogável.

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OS ERROS DO ACORDO ORTOGRÁFICO

 

Pluricentrismo significa respeitar e cultivar cada variante, nunca apagá-las.

Preservar o «tu» e o «vós» não é saudosismo;
é o último dique contra a proletarização da língua,
que a quer arrastar para o pântano dos incultos.

António da Cunha Duarte Justo

O Acordo Ortográfico (AO) de 1990 apresenta problemas sérios, pois corresponde a um apagamento de distinções semânticas e, como tal, a um empobrecimento da língua portuguesa que possui grande riqueza de diversificações e especificações. 

Como prova do empobrecimento semântico em Portugal mencione-se o exemplo do desaparecimento do vós entre outros de “facto” vs. “fato” o que é emblemático!

Em Portugal, facto (evento, realidade) é diferente de fato (peça de vestuário)
No Brasil: fato foi simplificado significando ambas as coisas (só o contexto pode desfazer a ambiguidade, mas a distinção gráfica perde-se.

Assim ao eliminar o “c” mudo em “facto” (que no Brasil passaria a “fato”), o AO não resolve a ambiguidade!  Pelo contrário, cria-a onde ela não existia em Portugal. E, para quê? Para poupar uma letra que não se pronuncia? Isso não é simplificação, é achatamento. Por que razão há de Portugal aceitar um empobrecimento semântico.

Outros exemplos semelhantes: contacto vs. contato (perde-se a ligação etimológica ao latim contactus)

O AO90, a exemplo das seguintes palavras (receção, recepcção e ressecção), ao eliminar as consoantes mudas (neste caso, o “p” e o “c”) torna-se num Busílis para o próprio AO. Como o acordo tentou aproximar a escrita da pronúncia real e esta varia entre Portugal e o Brasil, gerou-se uma grande confusão visual, semântica e geográfica. O Acordo acabou por criar uma dupla grafia oficial. E o que mostra a maior falta de conceito e a confusão é o facto de em Portugal, a forma preferencial ser receção (sem o ‘p’), embora o termo recepção também seja admitido. No Brasil, apenas é aceite recepção. Por seu lado a confusão geral com “receção/recessão” gera uma instabilidade na escrita de palavras compostas pelo mesmo radical.

Antes do acordo tínhamos em Portugal e no brasil a mesma palavra recepção para designar o acto de receber e recessão para designar crise económica. Recessão passou a ler-se e a ouvir-se exatamente igual a receção em Portugal. Além do mais caiu-se num caos de critérios pois se o “p” caiu em receção, o “c” deveria cair em resseção. Porém, o meio médico resiste à perda do “c” mantendo ressecção.

Também introduziu profundas incongruências e assimetrias no uso do hífen e na queda de acentos. Ao tentar criar regras gerais com base na fonética e na biologia das palavras, com o acordo, o texto gerou excepções bizarras que obrigam os falantes a memorizar listas em vez de seguir uma lógica. “Assim, escreve-se coordenar e cooperar (tudo junto, mesmo com vogais iguais) e coabitar (sem hífen, deixando o “h” cair). Isto destrói a coerência geométrica da regra de aglutinação.” Porque é que o cidadão perdeu a noção de composição em paraquedas, mas manteve-a em para-choques, para-brisas, para-raios ou para-lama? Linguisticamente, não há qualquer justificação científica para tratar estas palavras de forma diferente. E ainda antirreligião ou minissaia…

Também a eliminação de certos acentos que visava limpar a grafia de sinais tónicos considerados “supérfluos”, acabou por criar palavras gémeas com significados opostos ou grafias ambíguas, entre elas: O fim do acento diferencial em “para”: O verbo parar perdeu o acento agudo na 3.ª pessoa do singular. Agora, usa-se a palavra “para” tanto para a preposição (vou para casa) como para o verbo (ele para o carro). Também aqui se revela a incongruência do acordo que eliminou o acento em para (verbo), mas decidiu manter o acento diferencial no verbo pôr (para distinguir da preposição por) e em pôde (passado, para distinguir de pode no presente).

Na poesia e na literatura em geral o leitor vive da polissemia (múltiplos sentidos), do duplo sentido, do subentendido e do ritmo. Ao retirar acentos diferenciais e mudar grafias, o acordo mutilou intencionalmente a capacidade de o autor criar ambiguidades artísticas controladas. “Na prosa poética ou na poesia, o autor quer muitas vezes que o leitor oscile entre dois significados ao mesmo tempo. Sem o acento diferencial, o leitor moderno perde a chave do enigma.” Assim o exemplo de para e para (ao ser empobrecido para para) como no verso «O homem para o vento». Se fosse “pára o vento” expressava a energia humana; se fosse “para o vento”, o homem era apenas alvo que seguia com o vento.  Com a redução a para destrui a beleza da dúvida estética que o poeta quereria criar.

O AO deveria ter sido facultativo ou, pelo menos, ter preservado grafias duplas (como o “c” e “p” mudos) como variantes aceites. A imposição de uma única grafia em nome da “unidade” sacrificou a riqueza interna da língua e o que mais entristece, professores como eu, é que o acordo revela ter sido mais fruto de ideologia do que de ciência.

A questão mais grave é a erosão das pessoas verbais

O problema não reside apenas no Acordo Ortográfico, que regula apenas a escrita e não a oralidade, mas numa tendência sociolinguística mais ampla. Em Portugal, essa tendência tem sido acelerada pelo próprio AO e pela exposição mediática ao português do Brasil (telenovelas, YouTube, redes sociais), favorecendo a grafia brasileira em detrimento da europeia. Este enviesamento é reforçado no dia a dia pelos corretores automáticos, que, ao seguirem a norma brasileira, nos impõem sugestões abrasileiradas e a poder de tanta insistência até os mais cautelosos acabam por seguir.

O desaparecimento do “vós”

O “vós” já estava em declínio em Portugal do centro sul, mas mantinha-se na língua culta do norte, em registos formais, na liturgia, na literatura, na jurisprudência e em algumas regiões como Trás-os-Montes.

Hoje, muitas crianças portuguesas nunca aprendem a conjugar o “vós”. Os manuais escolares ainda o ensinam, mas na prática usam-se estruturas como “vocês” + verbo na 3ª pessoa do plural. Isto revela também descuido na formação dos professores que confundem língua viva com espírito do tempo.

E porque é empobrecedor? O “vós” é a 2ª pessoa do plural que é simétrica ao “ihr” do alemão, ao “vos” do latim, ao “vous” do francês. Perdê-lo significa perder uma distinção gramatical útil (diferenciar um grupo de interlocutores de um grupo de terceiros).

A substituição do “tu” por “você” (ou pelo “tu” com verbo na 3ª pessoa)

Em Portugal, o “tu” ainda é muito usado no Norte e em contextos informais. Mas, por influência brasileira (onde “você” domina, e o “tu” aparece muitas vezes com verbo errado do tipo “tu faz”), já se ouve em Lisboa jovens a usar “você” ou mesmo “tu” com o verbo na 3ª pessoa (“tu fez”, “tu comeu”). Isso é uma perda de clareza morfológica. Interessante seria também um estudo sobre reimportação do “você” dos emigrantes do norte de Portugal para o Brasil e que agora é reimportado de maneira a diminuir a riqueza da língua.

O argumento do alemão e do latim contra o empobrecimento da riqueza verbal

O alemão mantém as seis pessoas (ich, du, er/sie/es; wir, ihr, sie). O latim idem. O português europeu tradicional (antes do acordo) também: eu, tu, ele/ela/você, nós, vós, eles/elas/vocês.

Quando se elimina o “vós” e se reduz o “tu” a uma forma ambígua (que muitas vezes é substituída por “você”,  que é 3ª pessoa), o sistema fica assim:

1ª sing: eu; 2ª sing: (desaparece ou funde-se com a 3ª); 3ª sing: ele/ela/você
1ª plur: nós; 2ª plur: (desaparece, usa-se “vocês” = 3ª plur); 3ª plur: eles/elas/vocês

Isto significa que perdemos a simetria entre as pessoas do singular e do plural. Um aluno alemão que aprende “du” e “ihr” fica confuso: em português de Portugal abrasileirado, passa a não haver correspondente claro para “ihr” (seria “vós”… mas quase ninguém usa) nem para “du” (se o “tu” está a ser substituído por “você” que gramaticalmente é 3ª pessoa).

A tendência não só empobrece a língua como dificulta o seu ensino a estrangeiros cuja língua materna preserva a riqueza da distinção paradigmática.

O que pode ser feito?

Além das razões óbvias apresentadas e no sentido de não transpor emoções de um lado e do outro importaria ter ainda em conta algumas nuances:

De facto, o Acordo Ortográfico não obriga ninguém a abandonar o “vós” ou o “tu”, que é um fenómeno social, mas as autoridades não são inocentes ao descuidarem a qualidade da língua e até em promover o seu empobrecimento. Os mais responsáveis neste processo são, além do AO,  o Ministério da Educação, as escolas, os Media e o controlo virtual.

Também a influência brasileira não é unilateral porque também no Brasil há movimentos de valorização do “tu” (no Sul e no Norte do Brasil usa-se “tu” com conjugação certa: “tu fazes”).

O empobrecimento é real, mas também há enriquecimento noutras frentes! A literatura angolana e moçambicana, por exemplo, introduz novas estruturas e léxico.

Revela-se absolutamente necessário manter o ensino explícito do «tu» e do «vós» com as respetivas conjugações corretas, em vez de ceder a uma ideologia que procura proletarizar a linguagem, rebaixando-a ao nível dos que estão alheios à cultura.

Também urge rejeitar a imposição de grafias que criam ambiguidade (como “facto” para “fato”). O AO deve permitir duplas grafias oficiais, como acontece com “acção/ ação” em Portugal pelo facto de o AO de 1990 proíbir “acção”, mas, a que, muitos lucidamente resistem).

Portugal não tem de falar como o Brasil. O pluricentrismo significa respeitar e cultivar cada variante, mas não as apagar.

O caminho não é rejeitar toda mudança, mas resistir à homogeneização que empobrece a língua. O português europeu deve preservar o “vós”, o “tu” e as distinções etimológicas sempre que possível. Também poderia acrescentar o você, como era próprio da região do norte que era uma maneira menos formal ente o Tu e o vós!
© Pegadas do Tempo

 

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CRISTIANO RONALDO É A BANDEIRA ONDE A PÁTRIA SE LEVANTA

De uma praia de pedra e vento, contra o fado do abandono,
Nasceu a vontade férrea que nenhum silêncio consome,
O rapaz que ousou erguer-se e recusar o outono,
Para gravar no mármore do tempo o seu próprio nome.

Cristiano é o cinzel que molda o corpo e o destino,
A prova de que a matéria se dobra perante a mente;
Num Portugal tantas vezes perdido no seu desatino,
Ele é o eixo vertical, o facho que se faz presente.

Não se fala aqui do ouro, do mercado ou da fumaceira,
Mas do herói que fita a meta com o olhar concentrado;
Ele move as energias de uma nação inteira,
E transporta no peito o choro de um povo sitiado.

Os comentadores passam, poeira na estrada vazia,
A crítica murcha na sombra do que foi apenas falado,
Mas o gesto de quem salta, rasgando a geografia,
Fica suspenso no ar, na memória do sagrado.

Ele mobilizou a alegria, o grito guardado na garganta,
Unindo o pequeno operário ao mais alto sonhador;
Pois quando o capitão avança e a cabeça levanta,
O mundo inteiro compreende a dignidade do esforço e do amor.

Corações ao alto! É o lema que a sua carne encarna,
Uma força que aglutina a cultura e a identidade;
No altar do relvado, onde a fria razão se desengana,
Fica o homem-símbolo, eterno na sua vontade.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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CONTRA A UNIFORMIZAÇÃO DA EUROPA


Um Olhar a partir do Diagnóstico de Ratzinger e dos Biótopos da Alma

A modernidade europeia vive um paradoxo dramático. Enquanto a diversidade é celebrada nos discursos formais, a administração tecnocrática centralizada em Bruxelas atua como um bulldozer que aplaina as assimetrias, transformando o continente num latifúndio sem biótopos. Trata-se do cumprimento rigoroso do diagnóstico que Oswald Spengler formulou em “O Ocaso do Ocidente”: aquele momento crítico em que uma cultura viva perde a sua força interior e espiritual, petrificando-se numa civilização mecânica, utilitarista e fria.

A atual fixação da União Europeia num globalismo liberal económico, aclitado por um socialismo puramente funcionalista, revela uma falta escandalosa de perspetiva histórica e humanista. Incapaz de formular estratégias geopolíticas de longo prazo, a liderança europeia transfere a sua ausência de visão para o interior dos próprios Estados-membros. O resultado é a importação e o fomento de lutas sociais internas e de conflitos identitários artificiais. O povo é jogado uns contra os outros dentro da própria casa, fragmentando o tecido social em guetos mutuamente hostis.

Todo este desvario maniqueísta seria evitado se existisse uma genuína consciência histórico-cultural de si. Como expus em As Metamorfoses do Mistério (1), o facto de uma cultura procurar manter-se fiel às suas próprias raízes não significa, de modo algum, opor-se às outras. A verdadeira tolerância não nasce do vazio identitário, mas sim da firmeza interior. Só quem sabe quem é pode respeitar o outro. A confusão de ideias e de práticas que Bruxelas dissemina só serve para semear o caos e abrir o caminho a um Islão que sabe o que é e o que quer, numa sociedade que se encontra desorientada e contraditória consigo mesma.

É precisamente neste ponto que a figura de Joseph Ratzinger se revela como um farol civilizacional, que transcende as fronteiras da religião. Ratzinger encarnou a síntese perfeita que fundou a Europa: a herança greco-romana, a sabedoria germânica e o dinamismo do Evangelho. Ao recuperar o conceito de Logos (razão) e de “lei natural”, o Papa emérito propôs uma plataforma universal de entendimento. Nesta visão, a consciência individual do homem é soberana e a história, as culturas e a natureza são mitos veneráveis, manuscritos sagrados que encerram um enigma transitório e não meros recursos a serem explorados pela razão instrumental.

Para que a Europa tenha futuro, é imperativo que compreenda que o mundo atual é organicamente multipolar. A insistência numa visão hegemónica e eurocêntrica acabou por conduzir o Norte geopolítico a um beco sem saída belicista, onde a única linguagem parece ser a da intensificação da guerra. É, portanto, urgente escutar a diplomacia do Sul global. O pluricentrismo, cuja riqueza encontramos, por exemplo, na ecologia linguística e humana da Lusofonia com o seu pluricentrismo, ensina-nos que a paz se constrói através da reciprocidade fraterna e não pela imposição ideológica.

Não podemos permitir que a Europa se transforme numa oficina sem alma. Temos de recuperar a nossa consciência histórica para, finalmente, podermos conviver pacificamente no grande concerto das civilizações, como humildes aprendizes na oficina do Real.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo
© Pegadas do Tempo

https://de.wikipedia.org/wiki/António_Justo

(1) As metamorfoses do Mistério: Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11068

 

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