VITALIDADE DEMOCRÁTICA NA ÉPOCA DA ELECTRÓNICA

O voto da diáspora e a necessidade de uma democracia à altura do nosso tempo

A apresentação, anunciada para 20 de Outubro de 2026, de um projecto de lei do partido CHEGA na Assembleia da República, destinado a introduzir o voto electrónico para os portugueses residentes no estrangeiro, traz novamente de maneira mais eficiente ao debate político uma questão que há muito reclama uma resposta consequente que se expressa  no direito dos emigrantes a participarem plenamente na vida democrática do país a que continuam a pertencer.

Trata-se de uma iniciativa que merece atenção e empenho, independentemente da simpatia ou antipatia que o partido proponente possa suscitar. O que importa, numa democracia madura, não é apenas a origem partidária de uma proposta, mas sobretudo o benefício que dela possa resultar para os cidadãos e para o bem comum.

Há muitos anos que venho defendendo, em diversos artigos, a necessidade de modernizar os mecanismos de participação política, especialmente no que respeita aos portugueses espalhados pelo mundo. A distância geográfica não deveria traduzir-se numa diminuição prática dos direitos de cidadania.

Uma cidadania que não pode ficar prisioneira da distância

Portugal orgulha-se, justificadamente, das suas comunidades emigrantes. Reconhece-lhes o contributo económico, cultural e humano, celebra a sua ligação à pátria e invoca frequentemente a dimensão universal da portugalidade, de que os emigrantes se tornaram os melhores embaixadores.

Contudo, quando chega o momento de exercer direitos políticos, muitos desses mesmos cidadãos deparam-se com dificuldades que os residentes no território nacional dificilmente experimentam.

As grandes distâncias aos consulados, os constrangimentos dos serviços postais, a burocracia e as particularidades dos sistemas eleitorais continuam a dificultar a participação.

Nas eleições legislativas de 2025, a participação dos eleitores inscritos no estrangeiro rondou apenas os 22%. Este número, por si só, deveria suscitar uma profunda reflexão nacional. Embora a abstenção tenha múltiplas causas, não é aceitável ignorar o peso que os obstáculos materiais podem representar.

Não basta reconhecer formalmente um direito; é  necessário criar condições razoáveis, seguras e acessíveis para o seu exercício.

O voto electrónico como oportunidade de modernização democrática

A proposta anunciada pelo CHEGA abre a possibilidade de discutir seriamente a utilização das tecnologias digitais no exercício do voto pelos portugueses residentes no estrangeiro e até ser utilizado como projecto piloto para depois ser generalizado a todos os votantes portugueses independentemente do lugar em que se encontrem.

Naturalmente, o voto electrónico não pode ser apresentado como solução milagrosa. Exige garantias rigorosas de segurança informática, protecção de dados, autenticação dos eleitores, segredo do voto, transparência e fiscalização independente.

É igualmente necessário distinguir o voto electrónico presencial do voto remoto através da Internet, pois apresentam desafios técnicos e jurídicos diferentes.

A experiência de outros países, nomeadamente da Estónia, merece estudo atento, sem esquecer que os sistemas eleitorais devem responder às características institucionais e sociais de cada nação.

A modernização tecnológica só representa verdadeiro progresso quando reforça a confiança dos cidadãos e não compromete a integridade das eleições.

Para além da democracia dos partidos

A questão do voto electrónico insere-se numa problemática mais ampla que tenho procurado desenvolver nos meus escritos e que se resume na  necessidade de evoluirmos de uma democracia excessivamente centrada nos aparelhos partidários para uma democracia mais participativa, transparente e próxima dos cidadãos.

Os partidos são instituições indispensáveis à democracia representativa. Todavia, não deveriam monopolizar a iniciativa política nem reduzir o cidadão ao papel de eleitor convocado periodicamente para legitimar o sistema.

As tecnologias contemporâneas permitem imaginar formas complementares de consulta pública, participação cívica e intervenção dos cidadãos nos assuntos colectivos.

Isso não significa substituir precipitadamente a democracia representativa por mecanismos digitais, mas enriquecê-la com instrumentos que favoreçam a responsabilidade, a informação e o envolvimento permanente da sociedade.

A diáspora portuguesa, pela sua experiência internacional e pelo contacto quotidiano com diferentes culturas políticas, poderá desempenhar um papel particularmente relevante nesta renovação democrática.

O interesse nacional acima das fronteiras partidárias

A iniciativa do CHEGA merece ser analisada com seriedade parlamentar. Caberá aos restantes partidos examinar o projecto, apresentar as alterações que considerem necessárias e contribuir para encontrar uma solução juridicamente sólida, tecnicamente segura e democraticamente legítima sem subterfúgios de interesses partidários.

Seria desejável que esta matéria não se transformasse em mais um episódio de confronto partidário, no qual o valor de uma proposta fosse medido principalmente pela identidade de quem a apresenta.

A democracia ganha quando as boas ideias podem ser discutidas sem preconceitos e quando as divergências políticas se traduzem em debate fundamentado, assunto hercúleo parao habitual  discurso político demasiadamente mediano.

Importa, naturalmente, aguardar a publicação integral do projecto de lei, conhecer o seu articulado e acompanhar o respectivo percurso parlamentar. A apresentação de uma iniciativa não significa ainda a sua aprovação ou concretização.

A vitalidade democrática mede-se pela inclusão dos cidadãos

Nos meus artigos anteriores, nomeadamente O Voto da Diáspora – Direito ou Privilégio? e O Papel da Diáspora rumo a uma Democracia Participativa, tenho insistido na necessidade de superar uma concepção limitada da cidadania, demasiado dependente da proximidade física aos centros administrativos e políticos.

O português que vive no estrangeiro não deixa de pertencer à comunidade nacional. A sua distância pode alterar as condições de participação, mas não diminui a dignidade dos seus direitos.

A verdadeira modernização democrática não consiste apenas em digitalizar procedimentos. Consiste em colocar os instrumentos do Estado ao serviço das pessoas, eliminando barreiras desnecessárias e fortalecendo a confiança nas instituições.

A proposta agora anunciada oferece uma oportunidade para que Portugal discuta, finalmente, com profundidade, o lugar da diáspora na sua democracia.

Que esta oportunidade não se perca em rivalidades partidárias nem em promessas inconsequentes.

Uma democracia que se orgulha de ser universal não pode resignar-se a uma cidadania condicionada pela geografia.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Artigos relacionados :

O Voto da Diáspora, Direito ou Privilégio?: https://antonio-justo.eu/?p=10597

O PAPEL DA DIÁSPORA RUMO A UMA DEMOCRACIA PARTICIPATIVA

A Democracia Portuguesa e a Diáspora – Um Caso de Desencontro: https://www.mundolusiada.com.br/a-democracia-portuguesa-e-a-diaspora-um-caso-de-desencontro/

Observatório da Emigração: https://observatorioemigracao.pt/np4/10659.html

 

 

 

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A BÚSSULA DE MAGDBURGO E O SINAL QUE DEIXA MERZ DESCONFORTÁVEL

A moção AfD-BSW na Saxônia-Anhalt (RFA)como ensaio de uma nova oposição à política federal

A moção conjunta da AfD e do BSW, intitulada «Conversas de paz em vez de expansão da guerra na Ucrânia», foi aprovada por maioria simples numa sessão extraordinária do Landtag da Saxônia-Anhalt, em Magdeburgo, a 14 de outubro de 2026. As duas bancadas somam 44 dos 83 assentos. CDU, SPD, Verdes e Linke votaram contra.

O resultado vai além do plano regional. Funciona como teste e como farol para a política nacional, e deixa o chanceler Friedrich Merz perante um desconforto crescente que é o de ver surgir, a partir de Magdeburgo, um «sinal de paz» dirigido ao governo federal em Berlim. A própria AfD apresenta a iniciativa como a primeira do género num parlamento alemão e ela pode servir de projeto-piloto para uma nova forma de fazer oposição ao Executivo federal.

A estratégia por detrás da «bússola»

A Saxônia-Anhalt é o primeiro estado a testar a viabilidade de uma aliança AfD-BSW em torno de um tema de política externa.

Espera-se que outros parlamentos dos estados federados, sobretudo onde a AfD e o BSW são fortes, sigam o exemplo e criem um coro de oposição com eco em vários Länder.

A moção habilita o governo da Saxônia-Anhalt a levar à câmara dos estados a exigência de fim das sanções e do envio de armas para a Ucrânia. Pretende-se assim forçar um debate federal que constranja o governo de Merz a mudar de rumo.

Pressão em três frentes

A iniciativa de Magdeburgo é um ataque direto à linha do chanceler. O texto classifica a política de sanções e de envio de armas como «fracassada» e exige o fim imediato de toda a ajuda não humanitária à Ucrânia, o que mina a narrativa de que a Alemanha segue o caminho certo. A estratégia de Sahra Wagenknecht é clara, pois  usa a decisão como «sinal político de paz» e como ponto de pressão permanente.

No Bundestag, Merz viu-se obrigado a defender-se. Numa declaração de governo no próprio dia da votação, criticou o que designou por «jogo de banalização» vindo dos extremos políticos e insistiu que nenhum euro destinado à Ucrânia falta aos gastos sociais ou à educação. Quem tem de justificar assim as suas opções orçamentais e de segurança está na defensiva.

A votação ocorre num contexto de questionamento público crescente sobre os custos e a duração do apoio a Kiev. Merz visitou recentemente a capital ucraniana para reafirmar o compromisso alemão, mas a imprensa alemã leu a viagem como uma tentativa de sair da «defensiva política», sinal de que a sua coligação já era vista como frágil.

Conclusão

A decisão de Magdeburgo não é uma bala de prata, mas serve de bússola à oposição, ao indicar um caminho coordenado para desafiar a política de Merz em todo o país. Para o chanceler, a combinação de pressão externa organizada, críticas no Parlamento e ameaça eleitoral constante justifica plenamente a imagem das «dores abdominais». Iniciativas como esta contribuem para um discurso político mais racional e menos emocional e proporciona um discurso político de menos confrontação e mais relações diplomáticas!

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

 

 

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O TEATRO DE ZELENSKY

Era preciso um palco e o herói surgiu sem demora,
De verde-caqui vestido, o suor no rosto aflora.
A NATO diz-lhe: «Ficas à porta, meu querido!»
A UE suspira: «És dos nossos, entra, sê bem-vindo!»

O urso dormia profundamente na sua toca,
Mas foram provocá-lo com pedras, numa astúcia oca.
«Alargai a NATO, veremos o que acontece!»
E o gás da Rússia em labaredas se desvanece.

A pobre Europa paga a conta, nota após nota,
Perde o gás e a compostura, numa derrota ignota.
Berlim estremece, Paris suspira de aflição,
Londres, do outro lado, contempla sem apreensão.

Zelensky exige mais um canhão, mais armamento,
E a UE, generosa, entrega-se ao seu intento:
«Toma, leva também a nossa alma, sem condição!»
Mas a Ucrânia não é NATO, nem pertence à União.

É apenas o palco de escombros e destruição,
Onde se representam o escárnio e a humilhação.
No fim da peça, nem aplausos nem glória no salão:
Quem escreverá a história? Quem herdará a desolação?

Quem ficará com os destroços, a dor e a amargura?
O eurocrata permanece no gabinete, em pose segura,
E, com requintada compostura, num gesto discreto,
Chama à catástrofe «um pequeno episódio», com ar correcto.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas doTempo

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A MORAL AO SERVIÇO DO PODER

O cinismo de narrativas e a degradação da democracia

Quando os valores se transformam em instrumentos de legitimação e as instituições se afastam dos cidadãos, a democracia conserva as suas formas, mas perde a sua substância.

A democracia  adoece fortemente quando aqueles que governam deixam de sentir as consequências das decisões que tomam e aqueles que as sofrem deixam de ter influência efetiva sobre elas. É nesta separação entre o poder de decidir e a obrigação de suportar os seus efeitos que reside uma das contradições mais profundas das sociedades contemporâneas. A política, que deveria constituir o espaço privilegiado da responsabilidade coletiva, transforma-se progressivamente num circuito fechado de interesses, narrativas legitimadoras e decisões tomadas à distância da experiência concreta dos cidadãos.

O problema não reside simplesmente na existência de interesses, inerentes à vida social e política, mas na sua ocultação sob uma linguagem moral que apresenta como universalmente necessário aquilo que frequentemente corresponde a opções estratégicas particulares. Invocam-se a liberdade, a democracia, os direitos humanos, a segurança e a paz, mas nem sempre se admite que esses princípios sejam utilizados para avaliar criticamente as decisões de quem os proclama. A moral deixa então de funcionar como limite do poder para se transformar num dos seus instrumentos. Em vez de orientar a ação política, passa a justificá-la.

As democracias modernas necessitam de instituições intermédias: partidos, parlamentos, tribunais, sindicatos, meios de comunicação social, organizações internacionais e associações cívicas. Estas estruturas são indispensáveis à representação e à organização de sociedades complexas. Quando as estruturas se autonomizam em relação aos cidadãos, deixam de ser pontes entre a sociedade e o poder para se converterem em filtros que condicionam ou neutralizam a vontade popular. Então a representação transforma-se em substituição, a mediação, em tutela e a autoridade institucional, numa espécie de propriedade política daqueles que controlam os seus mecanismos.

É neste contexto que floresce uma linguagem política cada vez mais abstrata. Expressões como «segurança nacional», «interesses estratégicos», «equilíbrio geopolítico» ou «defesa da ordem internacional» podem corresponder a necessidades reais, mas tornam-se problemáticas quando são utilizadas como fórmulas incontestáveis, necessidades absolutas, destinadas a encerrar o debate em vez de o esclarecer. A política passa a ser apresentada como uma atividade reservada a especialistas, enquanto aos cidadãos se atribui o papel de espectadores que devem confiar, consentir e suportar.

O tempo desempenha aqui uma função decisiva, pois, quem controla a agenda política controla também o ritmo da contestação. Adiar esclarecimentos, multiplicar procedimentos ou remeter decisões para instâncias distantes pode permitir que situações inicialmente contestáveis acabem por consolidar-se como factos consumados. E os factos consumados possuem uma força particular: aquilo que ontem exigia justificação passa hoje a ser apresentado como inevitável. Assim, a injustiça nem sempre triunfa pela imposição frontal; muitas vezes vence pelo desgaste da resistência e pela habituação coletiva.

A democracia pressupõe cidadãos capazes de formar juízos autónomos. Mas essa autonomia não se esgota na liberdade formal de votar ou de manifestar opiniões. Exige condições intelectuais e materiais para compreender alternativas, confrontar argumentos e identificar os interesses que influenciam a decisão pública. Uma sociedade permanentemente exposta a mensagens emocionais, simplificações ideológicas e falsas dicotomias pode conservar a liberdade jurídica de expressão e, simultaneamente, perder capacidade de deliberação.

Quando a informação se transforma em repetição de narrativas dominantes, deixa de alimentar o pensamento crítico e aproxima-se de uma pedagogia da obediência. O cidadão é convidado a concordar antes de compreender, a escolher um campo antes de analisar as razões e a considerar suspeita qualquer pergunta que perturbe a versão oficialmente aceite. Não significa isto que os meios de comunicação constituam um bloco homogéneo, mas que a concentração económica, a dependência de fontes institucionais e a polarização podem enfraquecer o pluralismo efetivo.

A moral é particularmente vulnerável a este processo porque mobiliza sentimentos profundos de pertença, solidariedade, medo e indignação. Quando determinada decisão é apresentada como imperativo moral absoluto, os seus críticos passam a  ser retratados não como cidadãos com argumentos diferentes, mas como pessoas irresponsáveis ou moralmente inferiores. A divergência deixa de ser oportunidade de esclarecimento para se transformar numa prova de fidelidade. Surge, assim, um paradoxo inquietante: em nome da defesa dos valores democráticos, pode restringir-se o espaço intelectual necessário ao exercício da própria democracia.

É verdade que não existe uma moral única do povo, porque a  moral encontra-se ligada aos costumes, às tradições, às experiências históricas e às condições concretas da existência humana. Numa sociedade plural coexistem valores e interesses divergentes, por vezes contraditórios. Mas desta diversidade não decorre que todas as decisões sejam moralmente equivalentes ou que a política deva reduzir-se à administração da força. Pelo contrário, quanto maior for a diversidade moral, mais exigentes deverão ser os mecanismos de deliberação, justificação e controlo do poder.

A ausência de unanimidade não elimina a possibilidade de maiorias democraticamente formadas, tal como a existência de maiorias não dispensa a proteção dos direitos fundamentais. A dignidade humana, a proteção dos civis, a liberdade de consciência, a igualdade perante a lei e a justiça social constituem referências que não podem ser reduzidas a preferências estratégicas. O pluralismo não legitima a arbitrariedade governativa; pelo contrário, exige mais democracia, melhor informação, instituições independentes e procedimentos que permitam transformar a diversidade social em decisões legitimamente discutidas.

Uma das formas mais sofisticadas de legitimação do poder consiste em afirmar que a política é inevitavelmente apenas uma luta de interesses, embora por vezes se ganhe essa impressão. Nessa perspetiva, a moral seria uma cobertura retórica, os direitos humanos uma linguagem de conveniência e a justiça social uma aspiração subordinada à força. É verdade que os interesses influenciam profundamente a política, mas, reconhecer a sua existência não equivale a aceitá-los como único critério de legitimidade.

Quando se afirma que tudo é interesse e que nenhuma exigência moral possui força própria, oferece-se aos mais poderosos a justificação de que necessitam para agir sem limites. Importante é que o suposto realismo não se transforma numa ideologia de resignação. O cinismo torna-se uma profecia que se autorrealiza: porque se acredita que todos agirão exclusivamente por interesse, deixam de se exigir comportamentos orientados por princípios; e, porque estes deixam de ser exigidos, o interesse domina ainda mais a vida coletiva.

Não é a racionalidade que deve ser colocada no banco dos réus. O problema é a sua captura por objetivos que escapam ao escrutínio democrático. A razão instrumental pode calcular com precisão os meios necessários para alcançar determinado fim, sem perguntar se esse fim é justo. Pode avaliar custos financeiros e vantagens geopolíticas, permanecendo indiferente ao sofrimento humano que transforma em variável de cálculo. Por isso, uma política verdadeiramente racional deve submeter também os seus fins a exame público.

Quem decide? Com que mandato? Em benefício de quem? Quem suporta os custos? Que alternativas foram consideradas? Que interesses económicos estão envolvidos? Que mecanismos existem para corrigir decisões erradas? Estas perguntas não ameaçam a racionalidade política; constituem a sua condição democrática.

A grande questão do nosso tempo não é apenas saber se as instituições democráticas continuam a funcionar formalmente, mas se continuam a cumprir a finalidade humana que justifica a sua existência. Uma democracia pode conservar eleições, parlamentos e tribunais e, ainda assim, sofrer uma erosão profunda da sua substância quando a distância entre a vontade dos cidadãos e as decisões fundamentais se torna excessiva. A legalidade é indispensável, mas não esgota a legitimidade.

É aqui que a justiça social assume importância decisiva. A moral política não pode ser avaliada apenas pela nobreza das palavras, mas pela distribuição concreta dos direitos, das oportunidades, dos encargos e dos benefícios. Uma moral que não encontra tradução em decisões, orçamentos, leis, serviços públicos e condições de vida dignas corre o risco de não passar de retórica ao serviço da conservação do poder.

A resposta não deverá ser o abandono da política, mas a sua recuperação pela cidadania. E a nova sociedade que se encontra em desenvolvimento exige do cidadão que se organize em grupos porque o indivíduo se encontra em fase de desmantelamento dos grupos sociais que lhe davam abrigo, por isso precisa de se inscrever em novos se não quer ficar sem voz. Uma sociedade livre necessita de pessoas capazes de suportar a dor de pensar, de resistir às simplificações convenientes e de interrogar as certezas que lhes são oferecidas. Pensar exige esforço porque obriga a confrontar interesses, desmontar preconceitos e reconhecer que a verdade nem sempre coincide com aquilo que gostaríamos de ouvir.

A democracia não morre apenas quando alguém a destrói abertamente. Ela também pode definhar quando os cidadãos se habituam a confundir representação com submissão, informação com orientação ideológica e moral com propaganda. O seu futuro depende de uma exigência simples e radical: que o poder volte a prestar contas àqueles sobre cuja vida exerce as suas decisões.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

 

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POLÍTICA REAL E O INTERESSE NACIONAL PORTUGUÊS

Excepcionalmente, coloco aqui o artigo do senhor embaixador Francisco Henriques da Silva por o achar muito esclarecedor para quem quer pensar por si próprio:
UCRÂNIA – A REALPOLITIK E O INTERESSE NACIONAL PORTUGUÊS .
A Ucrânia não é membro da NATO nem da União Europeia. Consequentemente, não lhe são aplicáveis as cláusulas de defesa coletiva e de assistência mútua previstas, respetivamente, no artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte e no artigo 42.º, n.º 7, do Tratado da União Europeia.
Esta distinção jurídica é fundamental. Portugal não assumiu, nem pode assumir, relativamente à Ucrânia, as mesmas obrigações de defesa que assumiu perante os seus aliados da NATO e os restantes Estados-Membros da União Europeia.
Condenar a invasão russa, prestar ajuda humanitária e defender uma solução diplomática não obriga, porém, a apoiar indiscriminadamente todas as decisões de Kiev, nem a assumir compromissos militares, financeiros ou políticos sem uma avaliação rigorosa dos custos, dos riscos e dos benefícios para Portugal. E é isso que nos interessa
A solidariedade internacional não pode ser confundida com a obrigação de participar num conflito, nem a condenação de uma agressão implica a adesão incondicional à estratégia do Estado agredido.
Na minha perspetiva, Portugal deve privilegiar a ajuda humanitária, a diplomacia e a procura de uma solução negociada, evitando sempre um envolvimento militar direto e avaliando com o máximo rigor qualquer apoio adicional, designadamente financeiro ou militar. Não por indiferença perante o sofrimento dos ucranianos, mas porque compete aos responsáveis políticos portugueses determinar, antes de mais, o que serve os interesses nacionais e quais os riscos que o País está disposto a assumir.
É isso que entendo por realpolitik e neutralidade pragmática: não uma neutralidade jurídica formal, nem a indiferença perante as violações do direito internacional, mas a recusa de transformar Portugal num ator subordinado a estratégias alheias, sem uma avaliação autónoma das suas consequências.
Afinal, o que está em causa para Portugal?
É aqui que regressamos ao essencial: o interesse nacional português.
O nosso país não é uma grande potência militar, não dispõe de recursos ilimitados e não pode assumir todos os conflitos internacionais como se a sua segurança estivesse diretamente ameaçada em cada um deles.
A nossa política externa deve assentar numa avaliação autónoma dos interesses nacionais, no cumprimento das obrigações internacionais efetivamente assumidas, na defesa do direito internacional e na capacidade de distinguir entre solidariedade, prudência e envolvimento militar.
Devemos preservar a relação transatlântica, cumprir os compromissos decorrentes da NATO e da União Europeia e manter uma diplomacia ativa, capaz de dialogar com diferentes interlocutores. Mas devemos igualmente evitar que a solidariedade com um país em guerra se transforme numa adesão automática a todas as suas opções estratégicas.
A questão fundamental não é saber se somos mais favoráveis a Kiev ou a Moscovo, se nos identificamos mais com a narrativa ocidental ou com a russa, ou se esta ou aquela posição é mais popular no nosso espaço político.
A questão é outra: que política serve melhor Portugal, protege os portugueses, reduz o risco de uma escalada militar e contribui realisticamente para uma paz duradoura?
Numa guerra que envolve uma potência nuclear, esta pergunta não é um exercício académico. É uma exigência elementar de responsabilidade política.
Não podemos esquecer que uma guerra prolongada tem custos humanos, económicos e estratégicos enormes; que a escalada militar comporta riscos difíceis de controlar; e que uma vitória militar proclamada politicamente pode não corresponder a uma paz sustentável.
Defender uma solução negociada não significa aceitar antecipadamente todas as exigências de Moscovo. Significa reconhecer que a diplomacia, por mais difícil que seja, tem de continuar a ser uma alternativa real à perpetuação da guerra. E este ponto é fundamental.
Enfim, não se trata de Direita contra Esquerda, nem de simpatias pessoais por este ou aquele dirigente. Trata-se de política externa, de responsabilidade e de interesses nacionais.
A condenação da invasão russa não nos obriga a abdicar do pensamento crítico. A solidariedade com a Ucrânia não exige um cheque em branco. E a defesa dos interesses de Portugal não pode ser confundida com cobardia, indiferença ou cumplicidade com a Rússia.
Após quase 4 décadas a servir o país como diplomata, continuo a acreditar que o realismo político, o pragmatismo e o bom senso não são sinais de fraqueza. São condições indispensáveis para uma política externa responsável.
É essa a posição que defendo. E é precisamente por considerar que a matéria é demasiado séria para ser tratada com ligeireza que me recuso a abdicar de a discutir com frontalidade.
Estamos a falar de problemas complexos de povos eslavos em vastos territórios da Europa Oriental. Não podemos minimizar nem simplificar estes problemas .
E sobretudo , no caso vertente: não confundir: moralidade (agir respeitando valores e princípios) com moralismo (julgar por esses mesmos valores).”
O meu comentário:
Portugal está a fazer o favor aos interesses do grupo E3. Especialmente a Alemanha, a Inglaterra e a a França estão interessadas na guerra porque favorece as suas ambições e interesses, e em especial a indústria da guerra, além disso estas potências premeiam pessoas de partidos do arco do poder português para bons postos em instituições internacionais. A guerra tem a vantagem para os governantes de ocuparem o povo com este assunto e assim distrair o povo de outros problemas graves que corresponderiam aos verdadeiros interesses portugueses. A guerra da Ucrânia não é nossa; é uma guerra geoestratégica e como tal do interesse da rivalidade entre as grandes potências. Além disso a conta da guerra depois dela fica em aberto porque um dia a Ucrânia quererá ser reconstruída e isso custará caro aos que colaboraram na guerra devido às destruições que provocaram impedindo também uma política diplomática de conversações e de paz!
António da Cunha Duarte Justo
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