Balada das Ondas da Vida

Nas ondas da vida nas ondas do mar,
a vida movimenta-se novas ondas a formar.
Crista e vale, subida e descida,
dança eterna da força contida.

O que parece contrário é par,
o que julgas adverso vem-te sustentar.
Como o barco no alto mar navega,
sem a onda que o ergue, afunda e se entrega.

Na família, no clã, na sociedade inteira,
agem forças antigas de maneira certeira.
Não são inimigas, não são contradição,
são faces diversas da mesma criação.

Cada ser que respira busca individuação,
definir-se, afirmar-se na sua condição.
E neste afirmar-se, no atrito que há,
não reside a guerra, reside o estar cá.

Se cada um soubesse, se cada um notasse
que as mesmas leis da vida, em todos palpitasse,
o conflito seria visto com outro olhar:
não inimigo a temer, mas irmão a abraçar.

Pois a energia que te move a ser quem és,
move também o outro, move tantos a seus pés.
A mesma força cósmica que ondula o oceano
ondula em ti, em mim, no próximo, no humano.

Compreender-se é compreender o alheio,
reconhecer em si o universal enleio.
A onda não combate a onda que vem depois,
juntas formam o mar, juntas são as leis.

Se te vires como parte, não como separado,
se sentires a vida como um todo entrelaçado,
verás que o atrito é só a pele da união,
o preço da existência, a marca da individuação.

Somos barcos ao vento, somos ondas também,
somos força e repouso, somos onda e vaivém.
E se não fosse o empurrar de cada onda a formar,
não haveria sustento, não haveria mar.

Então navega consciente, com olhos de aceitar:
o que te parece adverso veio-te ajudar.
As leis da natureza não conhecem traição,
só conhecem o pulsar da eterna criação.

Que esta balada seja espelho e lição,
que cada verso acorde a tua supervisão:
Não há inimigos onde há compreensão,
há só o ondular da vida em constante expansão.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo 2024

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CUIDAR DE QUEM CUIDA

Padres com Satisfação vocacional que convivem com o Risco de burnout

Inquéritos feitos a padres nos EUA em 2025 (e na Europa) revelam níveis elevados de sacerdotes que vivem a sua vocação com satisfação e sentido, mas enfrentam desafios estruturais graves: sobrecarga, solidão, risco de exaustão, falta de apoio institucional. Ao mesmo tempo, os padres revelam uma clara visão de futuro: priorizar juventude, famílias, evangelização e serviço social, uma Igreja mais “de rosto humano”, comprometida com o mundo real (1).

As percepções sobre liderança, bem-estar comunitário, confiança etc. podem variar muito de diocese para diocese; os resultados gerais não dizem tudo sobre contextos particulares.

Uma realidade que pede atenção e misericórdia

A Igreja é uma família. E como em qualquer família, quando alguém se sente cansado, sobrecarregado ou só, todos somos chamados a reparar, escutar e ajudar.

Em muitas comunidades portuguesas e europeias, os padres vivem hoje com grande dedicação, mas também com um peso crescente de responsabilidades: várias paróquias a cargo da mesma pessoa, exigências administrativas, deslocações constantes e expectativas que nem sempre são humanas.

Muitos continuam a servir com alegria e fidelidade. Outros vivem momentos de cansaço profundo, solidão ou stress, nem sempre visíveis, nem sempre partilhados.

Reconhecer esta realidade não é criticar a Igreja, mas amá‑la com verdade porque somos todos humanos.

Alguns dados simples para compreender melhor

– Em várias regiões da Europa, incluindo Portugal, a proporção aproxima‑se hoje de 1 padre para 3.000 a 4.000 fiéis.

– Estudos europeus e internacionais indicam que cerca de 30% a 40% dos padres apresentam sinais de cansaço emocional prolongado (burnout) em algum grau.

– Padres mais jovens ordenados após 2000 ou com múltiplas paróquias tendem a sentir maior pressão e solidão.

– Em Portugal, uma investigação recente em que foi aplicada a ferramenta psicológica Francis Burnout Inventory (FBI) que mede a saúde mental no trabalho (exaustão emocional e satisfação no ministério) aplicada a padres portugueses (amostra de 266) confirma que também entre nós existem sinais de exaustão associados à falta de descanso, de apoio regular e de partilha fraterna e também pensamentos sobre deixar o ministério.

Estes dados não descrevem pessoas concretas, mas ajudam‑nos a perceber melhor o contexto em que muitos sacerdotes vivem hoje.

Quando o cansaço se prolonga

Quando a sobrecarga se prolonga e não se é escutado nem cuidado, o desgaste pode levar a:

– Ansiedade, depressão e doenças psicossomáticas;

– Solidão profunda e perda de alegria ministerial;

– Distanciamento afetivo das comunidades;

– Risco de abandono do ministério;

– Empobrecimento da vida pastoral das paróquias e da vida comunitária.

Cuidar dos padres é cuidar da qualidade da vida cristã de todos.

Uma palavra de gratidão aos padres

A entrega do sacerdote é preciosa e a sua humanidade também.

Jesus não chamou servidores incansáveis, mas amigos. Descansar, pedir ajuda, partilhar o peso com irmãos e comunidades não diminui a vocação, pelo contrário, protege‑a.

A fraternidade entre padres, vivida com amizade, oração e partilha sincera e com a oração partilhada é uma das maiores fontes de cura e perseverança.

A paróquia é uma comunidade de vida

A paróquia não é apenas o lugar onde o padre trabalha, é uma comunidade de corresponsáveis, uma comunidade de vida.

Cada comunidade pode ser mais leve e mais fraterna quando: partilha tarefas e responsabilidades; respeita limites e tempos de descanso; valoriza a presença humana do padre, não apenas o que ele faz; cria equipas e ministérios activos e valoriza momentos simples de convivência.

Uma comunidade viva não sobrecarrega o padre, caminha com ele anunciando o Evangelho com gestos concretos.

Caminhar juntos com esperança

A Igreja precisa de bispos que sejam pais e pastores, não apenas gestores.

Estas palavras não nascem de críticas, mas de um desejo simples: uma Igreja mais atenta, mais humana e mais evangélica.

Cuidar de quem cuida é uma missão de todos.

“Vinde repousar um pouco comigo.” (Mc 6,31)

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) O relatório do inquérito de 2025 feito nos EUA a padres sobre a sua situação pode ser consultado em  https://catholicproject.catholic.edu/wp-content/uploads/2025/10/NSCPWave2FINAL.pdf    entre outras coisas identificou que ~ 40% dos padres ordenados após 2000 manifestaram sentimentos de solidão em algum grau. Cerca de 39% dos padres relataram ao menos um sintoma de “burnout” (cansaço emocional, esgotamento, visão negativa) e 5% relataram ter todos os sintomas. Há diferença entre padres diocesanos (mais em risco 7% apresentam “alto burnout”) e padres religiosos (2%).

Os padres que responderam à pesquisa mantêm níveis elevados de “florescente” pessoal: pontuação média de 8,2/10 (igual à de 2022)  ou seja, saúde mental, propósito, relações sociais etc., em bom nível.

Estudos empíricos recentes em Itália mostram que, além da sobrecarga objetiva, fatores pessoais (traços de personalidade) e a falta de atividades de lazer/proteção profissional influenciam a propensão ao burnout.

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PANENTEISMO NO DENTRO E FORA DO OCEANO EM NÓS + A DANÇA DA TRINDADE , Agosto 2025

 

PANENTEISMO NO DENTRO E FORA DO OCEANO

Escuta, não sou mais que uma breve gota,
Mas trago o mar no sangue e na medida.
Não sou o Todo e, no entanto, ele em mim habita,
Pois Deus é mais que a soma da existência.

Que outro oceano me diria: “és minha espuma,
Mas nunca perderás a tua forma breve”?
Que vento me traria, sem me destruir,
O gosto do eterno, o sal do que não finda?

Eu não me perco em Ti, nem me anulas;
Em Ti me encontro, inteiro, singular.
Danço contigo a dança da Presença,
Onde o Teu e o meu, juntos, podem cantar.

Pois se crio em Ti, Teu hálito é meu chão;
Mas Tu és mais que o gesto e a canção.

António da Cunha Duarte Justo

 

A DANÇA DA TRINDADE QUE NOS CHAMA


O Pai é fonte, o Verbo é o espelho,
E o Amor que os une é o Espírito que tudo inundou.

E Tu, ser humano, não és rotina;
És palavra única no meio da poesia.
A criação não é tela que se gasta,
Mas o próprio olhar de Deus, em pleno dia.

Por isso o mundo é templo, e não se esgota;
O mal não é divino, mas batalha que se trava.
E o Tempo caminha para a festa onde o Cristo é a nota,
Onde se escuta enfim a música mais clara.

Oceano em nós, que nada afoga,
Trindade que nos salva e nos convoca.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo 2025

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A TRINDADE COMO RELAÇÃO DAS RELAÇÕES NO CONTEXTO DA FÍSICA QUÂNTICA

Se a Trindade é relação pura, então o real não se deixa aprisionar em guetos disciplinares. Ciência, teologia e arte não são linguagens rivais, mas modos complementares de tecer o mesmo véu. Aparentes contrários como o empírico e o metafísico, o cálculo e o símbolo, a precisão e o mistério, não se anulam; antes, articulam-se numa tensão fecunda. Reconhecer essa complementaridade e o processo de acesso à realidade não é um gesto de conciliação ingénua, mas a atitude fundamental de quem se dispõe a olhar para a realidade sem a despedaçar em caixinhas separadas.

O conceito trinitário de Deus, definido como relação pura (relação das relações), oferece um paradigma teórico e arquetípico capaz de fundamentar a transdisciplinaridade. Nesse quadro, conciliam-se sob uma mesma matriz relacional os distintos regimes de apreensão do real: o científico, o teológico e o artístico.

A trindade como a relação das relações

No debate teológico, o conceito-chave reside na interpenetração mútua das três Pessoas divinas (pericorese), articulada à definição tomista de que, na Trindade, as pessoas são relações subsistentes. Se o Transcendente (Deus) e o Encarnado (o Cosmos/Cristo) se definem como pura relação, então a realidade deixa de ser um conjunto de ‘coisas’ estáticas para se configurar como um tecido de conexões.

Quando se define a realidade desta forma, a transdisciplinaridade torna-se obrigatória. Se tudo é relação, nenhum método isolado consegue capturar o todo. A teologia, a filosofia e a física quântica tornam-se simplesmente diferentes comprimentos de onda ou perspetivas para observar a mesma rede relacional.

O ponto de encontro dos modelos e das imagens

A nova física é indissociável de seus construtos teóricos (símbolos). Ademais, constitui um facto epistemológico incontornável que qualquer ferramenta utilizada para abordar a realidade recorre inevitavelmente a imagens.

No que toca a Modelos e Metáforas, nem a física quântica vê o electrão em si, nem a teologia vê Deus em si. A física serve-se de construtos matemáticos e imagens (como “ondas”, “partículas”, “spin” ou “campos”) para esquematizar o comportamento da matéria. A teologia serve-se de imagens e mitos (como “Pai”, “Filho”, “Sopro-Espírito”) para delinear o mistério do Ser. (1)

No que se refere à ilusão do Método Puro, o grande erro do cientificismo clássico foi o dogmatismo metodológico, ou seja, acreditar que o método científico era a própria realidade e não apenas uma ferramenta de tradução. Quando nos libertamos dessa fixação cega, percebemos que tanto o físico como o teólogo estão a criar modelos representativos para decifrar as relações constituintes do universo.

Onde reside o problema e qual a razão de ele existir?

Se esta convergência é tão lógica, porque é que ela encontra tanta resistência? O problema não é de ordem do ser (ontológica), mas sim do estar (existencial), institucional e cultural! O busílis da questão vem:
a) do apego ao Poder Epistémico (teoria do conhecimento) onde historicamente, as disciplinas defendem as suas fronteiras para manter a sua autoridade. O cientificismo rejeita a teologia por medo do regresso ao dogmatismo religioso; a teologia, por vezes, isola-se por medo de ver os seus mistérios reduzidos a meros fenómenos psicológicos ou físicos;
b) da confusão de Níveis de Realidade. O físico Basarab Nicolescu, um dos pais da transdisciplinaridade, explica que a realidade é composta por diferentes níveis. O erro acontece quando se tenta aplicar as leis de um nível (como as equações matemáticas da física) diretamente noutro nível (como a experiência existencial do sagrado), gerando uma tradução literal e grosseira em vez de um diálogo transdisciplinar simbólico. (2).

Ao assumir a “relação das relações” como a base de tudo, valida-se que a ciência capta a dimensão mensurável dessa relação, enquanto a teologia e a mítica captam a sua dimensão de sentido profundo, sem que uma precise de anular a outra.

A física quântica ao resgatar o papel de observador (e da imagem) na construção da realidade está precisamente a seguir o modelo místico de acesso à realidade presente na teologia. O busílis mais revolucionário da epistemologia contemporânea situa-se precisamente no facto que é o colapso da separação absoluta entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. Ao colocar o observador no centro da constituição do real, a física quântica rompe com o ideal mecanicista de Newton e Galileu e aproxima-se, estruturalmente, do modelo místico e teológico de acesso à realidade.

O observador na física e na mística

Na física clássica, o cientista era um espectador neutro a olhar através de uma janela para um mundo mecânico preexistente. Na física quântica, o observador torna-se participante:

O Efeito do Observador: No nível subatómico, as partículas existem numa sobreposição de possibilidades (onda). É o acto de medição, a interferência do observador, que colapsa essa onda numa realidade concreta (partícula). O real não está “lá fora” à espera de ser descoberto; ele coemerge com a observação. (3)

A Experiência Mística: Na teologia mística (como na tradição de Mestre Eckhart ou no Pseudo-Dionísio), o conhecimento de Deus não acontece por via de uma análise exterior e distante. O mistério só se revela através da participação e da união. O místico sabe que o seu próprio olhar e o seu estado de consciência alteram e moldam a perceção do Divino. O sujeito e o objeto fundem-se na experiência.

O resgate da imagem e do símbolo

A física quântica, ao lidar com uma realidade que não pode ser vista diretamente (como os quarks ou as cordas) é forçada a abandonar o literalismo e a abraçar a linguagem simbólica, tal como a teologia:

A Imagem como Ponte: Como o ser humano não consegue conceber algo que seja onda e partícula ao mesmo tempo, a física usa estas “imagens” como metáforas matemáticas para aproximar a nossa mente de uma realidade irrepresentável.

O Ícone Teológico: Na teologia, a imagem (o ícone, o mito, o dogma) nunca é a realidade última (Deus), mas sim o veículo necessário que permite ao observador humano relacionar-se com o Transcendente. Ambos os campos compreendem que a imagem não é a coisa em si, mas a única forma de o observador interagir com o invisível.

A realidade como coocorrência

Penso que é possível criar linhas de pensamento em que a realidade, seja ela a matéria quântica ou a transcendência encarnada, funciona sob um princípio de coocorrência. Não há uma realidade objetiva pura sem uma consciência que a testemunhe, nem há uma consciência sem uma realidade para se manifestar.

O “problema” metodológico desaparece quando compreendemos que a mística usa a intuição, a contemplação e o símbolo para aceder ao Todo, enquanto a física quântica usa o formalismo matemático e a experimentação laboratorial para aceder à textura relacional da matéria. O essencial em tudo isto é que tanto a Teologia cristã (fórmula trinitária da realidade) como a nova física (física Quântica) chegam à mesma conclusão de que a separação é uma ilusão e que o fundamento do ser é a interação. (A física quântica provou que o mundo não é sólido, fixo ou objectivo, mas sim um campo dinâmico de possibilidades).

O físico e filósofo Bernard d’Espagnat, com o seu conceito de “Realismo Velado“ propõe o princípio que a realidade última está escondida e só se mostra através das nossas estruturas conceituais. Por seu lado Alfred North Whitehead com a Teologia do Processo reformulou a ideia de Deus a partir deste dinamismo e interdependência quântica.

A Teologia do Processo, a Teologia da Libertação e o pensamento cosmoteândrico de Raimon Panikkar convergem para equacionar a realidade de forma complementar através de um paradigma relacional e participativo. Em vez de excluírem a física, estas três correntes integram-na como a descrição material e estrutural dessa mesma rede de relações. Por seu lado, tamb´ém a física reconhece  que não sobrevive sem recurso à simbologia.

Teologia do Processo: a dinâmica e o vir-a-ser da matéria

Inspirada na filosofia de Alfred North Whitehead, a Teologia do Processo abandona a ideia de um Deus estático que governa um universo mecânico. (4)

O nexo quântico: A realidade não é feita de “coisas” duradouras, mas de eventos e processos em constante atualização. Deus não opera por coerção, mas por atração e persuasão, oferecendo possibilidades a cada instante do real.

Integração com a física: Esta teologia encaixa-se na física quântica. Nela, o eletrão não é uma esfera sólida numa posição fixa, mas um evento dinâmico que colapsa e se atualiza a cada instante na sua relação com o ambiente. A matéria e o espírito pertencem ao mesmo fluxo contínuo de vir-a-ser. (5)

Teologia da Libertação: a relação encarnada na história e na práxis

A Teologia da Libertação foca-se na história concreta, nas estruturas sociais e na urgência da justiça. À primeira vista ligada apenas à política e à sociologia, ela conecta-se com este tecido universal por vias profundas. (6)

A práxis como observação: Tal como a física quântica provou que o observador altera o sistema ao intervir nele, a Teologia da Libertação defende que o conhecimento teológico não é neutro. Conhecer a realidade exige engajamento e transformação (práxis).

Integração com a física: Através da ecologia integral (como o trabalho de Leonardo Boff), esta corrente compreende que a opressão social e a destruição ambiental derivam do mesmo erro: o atomismo mecanicista clássico, que isola os seres humanos uns dos outros e da natureza. A libertação histórica é a restauração das relações justas em todas as escalas da matéria (7).

A Trindade Radical de Panikkar: a intuição cosmoteândrica

O teólogo Raimon Panikkar formulou o princípio cosmoteândrico, que propõe que toda a realidade se estrutura numa “Trindade Radical” indissociável composta por três dimensões (8).

O Divino (Teandrico): A profundidade infinita, o mistério e a abertura para o novo.

O Humano (Antrópico): A consciência, o olhar do observador que dá sentido e testemunha o real.

O Cósmico (Material): O tecido físico do universo, a exterioridade corporizada.

Integração com a física: Para Panikkar, Deus, o Homem e o Cosmos não são substâncias separadas. Eles estão numa relação de interpenetração mútua (pericorese ou advaita). A física não é excluída; ela é o rastreamento rigoroso da dimensão cósmica desta trindade estrutural (9). Sem a matéria (física), o mistério divino permaneceria desincorporado e a consciência humana não teria onde manifestar-se (10).

A síntese complementar e transdisciplinar

Estas três abordagens dividem o trabalho de decifrar o real sem anular o laboratório do físico:

A teologia do processo foca-se na metafísica do vir-a-ser e nela o tempo e a matéria são fluxos de eventos interligados num todo relacional e deste modo entra no diálogo com a Nova Física ao validar a natureza indeterminada e flutuante do vácuo quântico.

A teologia da libertação encara o processo da práxis histórica e social onde a relação exige compromisso ético e transformação sistémica. Deste modo supera o mito do observador neutro; o cientista molda o mundo em diálogo com a Nova Física.

A teologia de Panikkar foca a ontologia cosmoteândrica. O seu contributo relacional vê toda a realidade como constitutivamente divina, humana e cósmica. Por seu lado entra em diálogo com a Nova Física onde a física descreve a dimensão material da teia de relações.

O problema metodológico desfaz-se se adotarmos a transdisciplinaridade. A física quântica descreve a sintaxe da realidade (as regras matemáticas de como os campos e partículas se correlacionam). A Teologia do Processo descreve a sua dinâmica existencial. A Teologia da Libertação exige a sua ética relacional concreta. Panikkar oferece a semântica mística definitiva: tudo o que existe é uma relação das relações. Nenhuma delas anula a outra, pois são modos complementares de sintonizar a mesma sinfonia.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

(1) https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/16662_4.PDF

(2) O manifesto: https://sites.usp.br/revistabalburdia/um-manifesto-pelo-fim-da-disciplinaridade/

(3) https://www.instagram.com/reel/DWmuighDkVI/

(4) Teologia do Processo: file:///C:/Users/Antonio/Downloads/barroca,+A+teologia+do+processo+de+Whitehead.pdf

(5) Mecânica quântica e teologia: 2https://unusmundus.academiaabc2.org.br/mecanica-quantica-e-teologia/

(6) https://www.textoaureo.com.br/2023/3%C2%BA-trimestre-de-2023-adultos/li%C3%A7%C3%A3o-2-a-deturpa%C3%A7%C3%A3o-da-doutrina-b%C3%ADblica-do-pecado-din%C3%A2micas-e-slides

(7) Leonardo Boff: https://pt.wikipedia.org/wiki/Leonardo_Boff

(8) A Racionalidade: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/40915

(9) Trindade Radical: file:///C:/Users/Antonio/Downloads/admin,+Art+247+BJD.pdf

(10) Vida cosmoteândrica: https://ihu.unisinos.br/categorias/656498-semana-panikkariana-2025-raimon-panikkar-uma-vida-cosmoteandrica

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A FALÁCIA DA TÁTICA DE OPOR ESPIRITUALIDADE A RELIGIÃO

Vivemos um tempo em que se tornou quase um sinal de distinção afirmar-se que se é espiritual, mas não religioso. A frase, repetida até à exaustão, parece oferecer uma síntese elegante da sensibilidade contemporânea. A espiritualidade surge como experiência livre, autêntica e profundamente pessoal; a religião, pelo contrário, é frequentemente apresentada como sinónimo de instituição, norma, rigidez e poder. Esta oposição, porém, mais do que descrever a realidade, revela uma construção ideológica que empobrece ambas as realidades,  reduz a complexidade da experiência humana e revela segundas intenções.

É verdade que a dimensão espiritual não depende necessariamente da pertença a uma religião (e além disso também dentro da religião há diferentes nuances de espiritualidade). Muitas pessoas experimentam um profundo sentido de transcendência perante a beleza da natureza, o silêncio, a arte, o amor ou o mistério da existência, sem se identificarem com qualquer tradição religiosa. A abertura ao infinito parece fazer parte da própria estrutura do ser humano. Contudo, reconhecer esta evidência não implica transformar espiritualidade e religião em conceitos rivais.

A cultura contemporânea favorece uma espiritualidade à la carte, moldada segundo as preferências individuais e frequentemente apresentada como alternativa às religiões institucionalizadas. Paralelamente, tornou-se quase lisonjeiro falar mal das instituições, como se toda a forma de organização fosse, por definição, opressiva. Naturalmente, as instituições religiosas carregam consigo responsabilidades históricas, erros e pecados que não podem ser ignorados. Mas reduzir a sua identidade a essas sombras significa esquecer que também elas foram, e são durante séculos, guardiãs da memória espiritual da humanidade, promotoras de cultura, de solidariedade, de arte, de pensamento e de esperança.

A oposição sistemática entre espiritualidade e religião acaba por servir uma visão profundamente individualista da pessoa humana. O indivíduo passa a ser entendido como realidade autossuficiente, desligada da tradição, da comunidade e da história, como se pudesse construir sozinho todo o sentido da sua existência. Mas o ser humano nunca existe isoladamente. É sempre um ser de relação. Somos constituídos pelo Eu, pelo Tu e pelo Nós. A nossa identidade nasce do encontro e amadurece na pertença. Não subsistimos sem comunidade, e nenhuma comunidade perdura sem instituições vivas que lhe deem continuidade, memória e estabilidade.

Por isso, apresentar a espiritualidade como algo exclusivamente inato, espontâneo e independente de qualquer aprendizagem constitui uma simplificação antropológica errónea. A disposição para a transcendência pode ser constitutiva da natureza humana, mas toda a potencialidade necessita de desenvolvimento. Também a linguagem é uma capacidade inata, mas ninguém nasce a falar; aprende-se no diálogo com os outros. O mesmo acontece com a espiritualidade. Ela cresce através da educação, da cultura, da reflexão, da disciplina, da experiência, da arte, da filosofia e, para muitos, da vida religiosa. Facto é que, o inato e o adquirido não se excluem, completam-se mutuamente.

As grandes tradições religiosas representam precisamente este património acumulado de sabedoria. Os seus símbolos, ritos, narrativas e práticas não são simples convenções exteriores; constituem linguagens que, ao longo dos séculos, ajudaram milhões de pessoas a interpretar a existência, a enfrentar o sofrimento, a celebrar a alegria e a abrir-se ao mistério. Sem estas mediações comunitárias, a experiência espiritual corre o risco de perder profundidade histórica e de ficar prisioneira do instante e da emoção; sem as instituições já teriam desaparecido.

A antiga máxima latina, retomando as palavras de Jesus no Evangelho, “haec oportuit facere et illa non omittere” (“importava fazer estas coisas, sem omitir as outras”), exprime admiravelmente este equilíbrio. Não se trata de escolher entre espiritualidade e religião, mas de reconhecer que ambas podem enriquecer-se reciprocamente. A espiritualidade oferece à religião a vivência (mística) interior que impede o formalismo; a religião oferece à espiritualidade uma memória viva, uma linguagem comum, uma ética e uma comunidade que a preservam do subjetivismo absoluto.

Esta falsa oposição tornou-se particularmente sedutora numa cultura marcada pela suspeita relativamente a toda a autoridade e a toda a tradição. Em certos ambientes, opor espiritualidade à religião tornou-se quase um gesto identitário, apresentado como sinal de liberdade e de emancipação. Contudo, essa atitude, frequentemente associada a determinadas correntes culturais contemporâneas, acaba por reproduzir uma lógica redutora: substitui uma simplificação por outra. Não é eliminando as mediações que o ser humano se torna mais livre; a verdadeira liberdade consiste em discernir quais as mediações que humanizam e quais as que alienam.

Importa igualmente reconhecer que cada cultura possui uma coerência interna própria. Muitos vivem hoje fascinados por uma permanente circulação entre cosmovisões do Ocidente e do Oriente, recolhendo elementos dispersos de diversas tradições sem compreenderem plenamente o contexto espiritual e antropológico que lhes dá sentido. O diálogo entre culturas é indispensável e fecundo, mas só produz verdadeiro encontro quando assenta no respeito pela identidade de cada tradição e não na simples acumulação de experiências fragmentadas como pretende o Wokismo.

Também a teologia cristã oferece aqui uma importante lição de humildade. Um dos seus pilares fundamentais consiste em reconhecer que toda a linguagem sobre Deus permanece inevitavelmente linguagem humana destinada a fazer a ponte… Nenhum nome, nenhuma definição, nenhuma imagem esgota o Mistério. Pelo contrário, ao nomearmos Deus, reconhecemos simultaneamente a distância infinita entre o Criador e as nossas representações. A consciência dessa distância protege-nos da idolatria das palavras e convida-nos à permanente abertura à verdade.

A verdadeira expansão da consciência não depende da adesão a modas espirituais nem da proclamação de certezas absolutas. Cresce antes na busca sincera da verdade, na humildade intelectual, na capacidade de escutar e no diálogo paciente. A espiritualidade pode revestir formas religiosas ou não religiosas; mas dificilmente floresce onde desaparece a disponibilidade para aprender, para deixar-se interpelar e para reconhecer os próprios limites.

Talvez um dos maiores perigos do nosso tempo seja precisamente a miopia do presente. Julgamos compreender imediatamente todos os fenómenos, classificamo-los segundo categorias ideológicas e perdemos a capacidade de contemplação. A história ensina-nos, porém, que o tempo possui uma sabedoria própria. Aquilo que hoje nos parece apenas ruído pode revelar-se amanhã como harmonia; aquilo que hoje nos divide pode, mais tarde, revelar uma unidade mais profunda.

Por isso, importa resistir à tentação das falsas alternativas. Espiritualidade e religião não são inimigas naturais. Quando permanecem unidas, enriquecem-se mutuamente pois uma alimenta a interioridade e a outra preserva a memória, a comunhão e a responsabilidade ética. Separadas artificialmente, ambas empobrecem. A espiritualidade corre o risco de dissolver-se num individualismo sem raízes em que cada um se torna dançarino de si mesmo para si mesmo, mas também a religião pode degenerar num formalismo sem alma.

Ultrapassar esta oposição é reconhecer que o ser humano vive sempre entre a mesmidade e a alteridade, entre a interioridade e a comunhão, entre a liberdade pessoal e a pertença comunitária. É nessa tensão fecunda que amadurece uma espiritualidade verdadeiramente humana que se torna suficientemente livre para procurar a verdade e suficientemente humilde para reconhecer que ninguém percorre sozinho o caminho do mistério.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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