O cuidado da criação não é um apêndice moral, mas uma dimensão constitutiva da fé cristã. O novo documento da CTI, aprovado por Leão XIV, insere a ecologia no núcleo da teologia trinitária.
Resumo
O presente artigo que apresenta as novas orientações da Comissão Teológica Internacional (CTI) procura mostrar como a ecologia entra hoje no coração da teologia, deixando de constituir um tema periférico para se tornar uma dimensão estruturante do pensar teológico e exige a reconfiguração dos seus próprios pressupostos ontológicos, antropológicos e sociais. Ao assumir a teologia trinitária como horizonte fundamental, depreende-se a necessidade de ultrapassar uma ontologia de matriz predominantemente grega, substancialista, hierárquica e excessivamente marcada pelo masculino, em direção a uma ontologia relacional, comunional e trinitária. O mistério trinitário revela o ser não como autossuficiência, mas como relação, alteridade, reciprocidade e dom. Esta remodelação ontológica reclama, por sua vez, uma antropoginelogia que repense conjuntamente o humano, o masculino e o feminino, superando a redução androcêntrica da antropologia teológica e filosófica e reconhecendo a diferença na igualdade e na reciprocidade. Tal transformação não pode deixar de repercutir-se numa correspondente sociologia, capaz de questionar estruturas de dominação, apropriação e exclusão e de pensar novas formas de convivência e comunhão. A questão ecológica revela-se, deste modo, inseparável da questão antropoginológica e social, porque a relação com a Terra prolonga e manifesta determinadas conceções de Deus, do ser e do humano. Uma teologia trinitária da criação desloca o paradigma da posse para o da pertença, da autonomia para a interdependência e do domínio para o cuidado. A criação emerge, assim, como tecido de relações e comunidade de vida e não como exterioridade disponível à soberania humana. A conversão ecológica implica, portanto, uma conversão das categorias fundamentais com que a teologia pensa Deus, a humanidade, a sociedade e o cosmos. É nesta transformação paradigmática que a ecologia deixa de ocupar as margens e entra verdadeiramente no coração da teologia.
O novo passo da Comissão Teológica Internacional
Há documentos eclesiásticos que se leem como meras atualizações disciplinares. Outros, poucos, marcam um antes e um depois na maneira como a Igreja compreende a sua própria missão. O novo texto da Comissão Teológica Internacional (CTI), “Cuidar da nossa Casa comum” é a resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário, pertence inequivocamente a este segundo grupo. Publicado com o visto de Leão XIV, após quatro anos de trabalho (2022-2026), o documento não se limita a ecoar a Laudato si’ de Francisco, pelo contrário, aprofunda as suas intuições mais radicais e confere-lhes um fundamento teológico sistemático que faltava.
A tese da Comissão é tão simples quanto revolucionária ao afirmar “o nosso relacionamento com a natureza (ecologia) é uma dimensão constitutiva do nosso relacionamento com Deus Criador (teologia)”. Dito de outro modo: a ecologia não é um tema periférico da doutrina social da Igreja, nem uma concessão ao espírito do tempo. É matéria teológica no sentido pleno. E, como tal, exige que se repense a própria articulação entre fé e mundo.
De Francisco a Leão XIV há uma linha de continuidade que se torna doutrina
Quando Francisco, em 2015, escreveu que «tudo está interligado», muitos leram a encíclica como um apelo à consciência ambiental. E era-o, certamente. Mas a novidade profética estava noutro lugar: na recusa em separar a crise ecológica da crise social e em afirmar que a Terra «clama contra o mal que lhe provocamos». A ‘Laudato si’ foi, desde o início, um texto teológico, embora muitos tenham preferido lê-lo como um tratado de ecologia política.
A CTI retoma agora esse fio condutor e leva-o até às suas últimas consequências. O documento aprovado por Leão XIV não substitui a encíclica; apresenta-lhe o seu núcleo dogmático. A criação não é o palco onde decorre a história humana, mas sim a obra do Deus trinitário, marcada por uma «impressão trinitária» que torna toda a realidade relacional. Nada é uma mónada. Tudo está em relação, porque o próprio Deus é relação.
Esta afirmação, aparentemente abstracta, tem consequências práticas decisivas. Se a criação traz em si a marca da Trindade, então a interdependência ecológica não é apenas um dado da biologia ou da física, é também um dado teológico. Destruir a natureza é, por isso, deformar uma resposta ao Doador. Cuidar dela é, pelo contrário, entrar na lógica do dom.
Nem senhor absoluto, nem mero animal: a antropologia cristã em jogo
O documento da CTI evita com lucidez dois extremos igualmente redutores. O primeiro é o «antropocentrismo predatório», que transforma o ser humano em proprietário absoluto do mundo, legitimando um uso ilimitado dos recursos. Este é o pecado denunciado por Francisco: a Terra que clama contra o mal que lhe causamos.
Mas a Comissão recusa também o extremo inverso, expresso em certas formas de biocentrismo ou ecocentrismo que dissolvem a singularidade humana, equiparando a pessoa a qualquer outro ser vivo. A resposta cristã situa-se no meio: o homem é criado à imagem e semelhança de Deus, o que lhe confere uma dignidade singular, mas essa dignidade não é um título de domínio mas sim uma responsabilidade. O homem não é proprietário da Casa comum. É seu guardião, cultivador e servidor.
Neste ponto, o documento toca num dos nervos mais sensíveis da teologia contemporânea: a relação entre a transcendência divina e a imanência do mundo. Ao afirmar que a criação é obra do Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo, a CTI abre caminho a uma compreensão mais profunda da Encarnação. Jesus Cristo não vem salvar apenas as almas, mas toda a criação. E é nessa perspectiva que a ecologia se torna cristologia aplicada.
Do «pecado ecológico» ao pecado contra a criação e o Criador
Um dos contributos mais relevantes do documento é a reformulação do conceito de «pecado ecológico». A expressão, difundida após o Sínodo para a Amazónia (2019), era teologicamente ambígua. A CTI propõe agora uma formulação mais precisa expressando-o como pecado contra a criação e contra o Criador.
Esta dupla referência é decisiva. O dano causado à natureza não é pecado apenas porque produz consequências ambientais negativas, mas porque contradiz o sentido que Deus imprimiu à criação e a responsabilidade confiada ao ser humano. A poluição, a destruição dos ecossistemas, a exploração desenfreada dos recursos tornam-se, assim, ofensas a Deus. Não são meros erros de cálculo económico ou político; são falhas morais que afectam a relação do homem com o seu Criador.
A formulação é inovadora e, ao mesmo tempo, profundamente tradicional. Sempre se soube que o pecado tem uma dimensão social e cósmica. O que a CTI faz é tornar essa dimensão explícita, articulando-a com a teologia da criação e com a doutrina trinitária. O resultado é uma visão integrada em que o «clamor da Terra» e o «clamor dos pobres» se fundem numa única interpelação moral.
Ecologia integral e justiça social une o grito da terra ao dos pobres
A ecologia proposta pela Igreja não pode ser verde sem ser vermelha, por assim dizer, ou seja, não pode proteger a natureza esquecendo as pessoas, especialmente os mais pobres. O documento da CTI é inequívoco neste ponto: as populações mais vulneráveis são as primeiras vítimas da degradação ambiental, da escassez de água, da desertificação e das alterações climáticas.
Por isso, a Comissão retoma uma das grandes linhas da Laudato si’: o clamor da Terra e o clamor dos pobres são uma única interpelação moral. E esta perspectiva conduz a uma crítica corajosa do modelo económico dominante, quando este transforma a natureza e as pessoas em meros recursos de produção e consumo. A CTI aponta mesmo para a necessidade de um sistema económico diferente, «ao serviço da vida de todos», orientado pela sustentabilidade e pelo respeito pelos ritmos da Casa comum.
Esta dimensão social é frequentemente esquecida nos debates sobre ecologia, que tendem a polarizar-se entre catastrofistas e negacionistas. O documento evita ambas as tentações, propondo uma visão que é ao mesmo tempo realista e esperançosa. A crise ambiental é um «severo teste à nossa esperança», mas a esperança cristã não se confunde com optimismo superficial. A fé na redenção, que abrange toda a criação, é o horizonte último que dá sentido ao esforço presente.
A Eucaristia e a sacramentalidade da criação no mundo como dom e louvor
Talvez a passagem mais bela do documento seja aquela em que a CTI desenvolve a dimensão sacramental da criação. O mundo, sem se confundir com Deus, remete para Ele e manifesta algo da sua bondade e beleza. Esta «sacramentalidade» encontra na Eucaristia a sua expressão mais alta: o pão e o vinho, frutos da terra e do trabalho humano, tornam-se o corpo e o sangue de Cristo.
Aqui, a ecologia cristã não nasce apenas da preocupação perante uma catástrofe iminente, mas da gratidão. O mundo é recebido antes de ser utilizado. É dom antes de ser recurso. E precisamente porque é dom, pode tornar-se louvor. Esta intuição litúrgica confere à ecológica uma profundidade espiritual que falta a muitos discursos ambientais, mesmo quando bem-intencionados.
Cuidar da Casa comum não é, portanto, uma tarefa pesada ou moralista. É uma resposta de amor ao Doador. E é nesse amor que se encontra a verdadeira motivação para a mudança de estilo de vida, para a conversão ecológica, para a sobriedade partilhada.
A ecologia da esperança como questão teológica
Agora importa sublinhar o que este documento não é, e o que verdadeiramente é. Não é uma nova definição dogmática, nem um ato magisterial pessoal de Leão XIV. A CTI é um organismo consultivo e os seus textos têm a autoridade própria de quem aprofunda a doutrina. Mas não se trata de um documento menor. Pelo contrário: oferece o quadro conceptual para que a reflexão ecológica se integre no núcleo da teologia católica.
O que a CTI faz é transformar a pergunta ecológica numa pergunta teológica: «Como nos relacionamos com a criação, nossa Casa comum, obra do Criador trinitário?» E a resposta é inequívoca porque essa relação é uma dimensão da nossa relação com Deus. A ecologia deixa de ser um apêndice facultativo da vida cristã para se tornar parte integrante das grandes realidades da fé: Criação, Trindade, Encarnação, pecado, Eucaristia, justiça, conversão e esperança escatológica.
É este o passo decisivo dado pelo documento da Comissão Teológica Internacional que deveria orientar toda a discussão teológica. O desafio lançado à Igreja e ao mundo é viver a ecologia não como uma moda, mas como uma exigência da fé; não como uma preocupação secundária, mas como uma dimensão constitutiva do amor a Deus e ao próximo.
Nesse sentido, o texto da CTI não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida. A teologia trinitária que o fundamenta, com a sua ênfase na relação, na interdependência e na comunhão, abre caminho a uma revisão profunda da ontologia tradicional e a uma antropologia mais integrada diria, uma antopoginelogia. E isso, no fundo, é o que sempre fez a teologia quando é fiel à sua vocação: não repetir o passado, mas iluminar o presente à luz do mistério de Deus.
O cuidado da Casa comum é, assim, uma forma de responder ao próprio Deus. E essa resposta, como o documento nos recorda, não é uma questão de opção, é uma questão de identidade cristã.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
(1) DA ONTOLOGIA DO DOMÍNIO À ONTOLOGIA DA RELAÇÃO: https://antonio-justo.eu/?p=11307
Documento da CTI: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_cti_doc_20260821_prendersi-cura-casa-comune_it.html?utm_source=chatgpt.com
Outras referências: https://www.vatican.va/content/vatican/pt.html