EUROPA E UCRÂNIA ENTRE O TEXTO E O CONTEXTO DE UMA HISTÓRIA MAL-CONTADA

A Paz voltará à Europa quando a Ucrânia e a Europa se tornarem independentes

Os ciclones vindos da Rússia e dos EUA começaram por varrer a Ucrânia e por colocar as populações europeias ao sabor dos ventos. Quanto aos políticos, que se encontram em lugares mais altos, esses assumiram sobretudo as funções de cata-ventos da OTAN/USA!

Com a invasão russa na Ucrânia criou-se uma cena tão trágica que fez renascer os velhos demónios da luta entre capitalismo (mundo livre) e socialismo (mundo controlado), entre Ocidente e Oriente; na sociedade assiste-se a um redemoinho que se pensava limitado aos agentes no palco, mas não, passou do palco também para a plateia: no cenário temos a guerra quente e no público temos a guerra fria! Por fim todos unidos num só campo de batalha onde todos se tornam soldados bem ordenados nas suas trincheiras: uns com armas de fogo outros com armas da opinião, tudo “fardado” ao serviço do Bloco Russo ou do Bloco OTAN e tudo isto à margem dos interesses da Ucrânia e da Europa!

Tudo olha agora só para a fogueira não se interessando por quem acarretou ou acarreta a lenha! Os europeus tornaram-se em acarretadores da lenha para a fogueira dos USA e da Rússia, através da OTAN. Os países da antiga obediência soviética só lhes é proporcionada a opção de saírem dessa subjugação para entrarem na obediência à OTAN; uma alternativa insatisfatória: sair de um poderio militar para entrarem noutro, quando o óbvio seria entrar numa Europa livre emancipada dos blocos; a verdadeira opção seria uma União Europeia, que não existe como verdadeira entidade europeia  promissora de futuro, dado ter-se tornado no braço estendido americano (OTAN): haverá outros meios de defender um mundo livre e democrático se ter de pertencer a um dos blocos. A Europa tem de acordar, não pode limitar-se ao papel de conciliadora ou de intermediária. A tragédia ucraniana, tomada a sério, levaria a Bela Adormecida Europa a acordar! A Europa tem que assumir-se a si mesma e aprender a andar pelo próprio pé! Só então será equilibrada e poderá tornar-se num luzeiro de uma política da paz para o mundo. No papel de serviçal americana na NATO e como prestável do velho socialismo não passará de uma atleta a correr entre dois mundos: o mundo turbo capitalista e o mundo do socialismo marxista. A maneira como os dois mundos abusam da Ucrânia torna-se patente no sofrimento da população ucraniana e na maneira como a OTAN/USA conseguiu manipular a opinião pública sofredora e os dirigentes políticos numa acção concertada contra uma Europa racional e independente! Em concreto, esta guerra é uma intervenção contra toda a Europa!

Mas se olhamos para a Ucrânia, a sua indecisão interna espelha a indecisão europeia na sua expressão de estar sem ser.

É irresponsável continuar a agir-se segundo a divisa emocional: o inimigo do meu amigo meu inimigo é! O complicado da questão é que ambos têm razões embora ambos se encontrem longe da razão! No fundo das suas intenções e longe do terreno, não querem fazer mal, só querem o próprio bem! Respira-se no ar um desejo de unilateralidade nas posições enquanto a UE se esconde sob o manto da irresponsabilidade tornando-se também ela cúmplice do que acontece na Ucrânia e na UE!

A Ucrânia é uma nação independente, mas com o pobre destino de se encontrar na zona ciclónica onde o Ocidente e o Oriente se digladiam. No meio de tudo isto quem perde é a Ucrânia e a Europa. Mas isto deve ser ocultado aos europeus!

De facto, em terreno ucraniano já há anos se dava uma guerra-civil: uma guerra representativa dos interesses da Rússia, por um lado, e dos EUA, por outro, e com uma Europa que não é carne nem peixe e por isso se encosta à NATO que a impede de poder crescer e aparecer de maneira pacifica e complementar numa estratégia comum de paz que poderia ir de Lisboa até aos Urais.

Na guerra civil da Ucrânia morreram 13.000 civis e 4.000 soldados sem que a consciência da EU e do povo europeu fosse acordada. De repente toda a Europa se levanta ao som das trombetas da alvorada militar.

Cada lado pensa ser o bom, lutando um contra o outro, sem pensar que  o bom se torna mau e no fim só se safam os maus à custa do sofrimento do povo e de uma Europa adiada. Para já, notam-se como primeiros vencedores da guerra, os grandes especuladores das energias no mercado; por anda o povo?! Esse anda, por aí desgarrado, à procura de um regaço seja na Ucrânia, na Europa ou na Rússia!

É um dado adquirido que a guerra surge da mentira e, quando se entra em guerra, a verdade é a primeira a morrer e, com a morte dela, aumenta a vontade de difamar porque não chega a guerra em campo de batalha, é preciso alarga-la às populações para que estas se disponibilizem a pagar a factura dela.

Isto não é mero espetáculo trágico, porque estamos todos envolvidos nesta guerra e mesmo aqueles que pensam não serem acossados pelos bélicos ventos, por terem os pés bem assentes na terra, terão dificuldade de ver para além do nevoeiro emocional, que faz lembrar o da pandemia Covid-19, onde, olhe-se para onde se olhar, em vez de rostos humanos, só se veem máscaras e no que toca ao imbróglio da Ucrânia, olhe-se para onde se olhar, em vez de cabeças só se avistam barretes e chapéus!

Nesta estratégia toda a informação é dada no sentido de não se compreender o que verdadeiramente se passou e se passa! Ao poder importa-lhe, com os seus acólitos da imprensa, espalhar o medo e a confusão entre o povo para não serem chamados à responsabilidade.

Toda a gente fala sem ouvir o que a Rússia quer, o que quer a Ucrânia, o que quer a Europa e o que querem os USA; uns e outros também não querem saber do que se tem feito de mal (por fazer ou por deixar de fazer) à Europa, à Ucrânia,  à Rússia, à EU e à própria NATO!  Deste modo tudo tem andado a seguir os guerreiros de um lado ou do outro, quando estes só estão interessados em ganhar sem olharem a perdas. Deste modo torna-se fácil não procurar soluções nem compromissos; cada um fixo na sua estratégia não está interessado em apresentar propostas de soluções. Se a Europa tivesse assumido a responsabilidade de ser ela mesma, certamente hoje teríamos uma Rússia e uma Europa diferentes, senão amigas pelo menos empenhadas uma com a outra. O mesmo erro que cometeu a Alemanha aquando da Reunificação alemã. Esta, em vez de aproveitar-se da oportunidade para começar a andar com os próprios pés e com a Europa, preferiu encostar-se à avalanche anglo-saxónica e deste modo atraiçoar a vocação genuína europeia; o mesmo tem estado a acontecer na Ucrânia (transformada num cavalo troiano da Rússia e da OTAN/USA! Nós abdicamos de sermos europeus e a Ucrânia foi vitimada pela falta desta consciência. Tudo leva a crer que uma Europa arrastada pelos USA e orientada pela Alemanha (ver: Viragem na Ordem Europeia  https://antonio-justo.eu/?p=7138 ) persistirá na sua decadência e autodestruição

Nota-se que, apesar do texto e do contexto de uma história mal contada, o que vai contar, como aconteceu depois da queda do real socialismo, são os factos, dados à luz prematuramente, que determinarão outros textos sem que tenha havido personalidades com capacidade para elaborarem uma Europa humana e com consciência histórica para além de interesses económicos e de estratégias geopolíticas. Não, a Europa já perdeu a cabeça!  Apesar da sábia advertência de Henry Kissinger sobre a Ucrânia (uma Ucrânia neutra e independente), os USA e a OTAN nunca estiveram interessados numa solução pacífica na Ucrânia porque a Ucrânia instável, nos seus intentos, funciona como barreira permanente entre a Rússia e a Europa Ocidental e assegura, ao mesmo tempo, o controlo dos EUA sobre a Europa! 

É muito questionável o facto de, quando a Guerra Fria terminou e o Pacto de Varsóvia se dissolveu, a OTAN ter continuado. A Europa só pode acordar e vir a si própria quando a OTAN se dissolver; isto acabaria com o alinhamento da Europa no confronto entre Oriente e Ocidente e permitiria a elaboração de uma política própria e uma nova relação humana entre a Europa e a Rússia.  Um relatório da RAND Corporation de 2019 ao Chefe do Estado-Maior do Exército dos EUA intitulado “Extending Russia” (Alargamento da Rússia), apregoado entre a esquerda e ignorado na direita, explica a estratégia a seguir para se desestabilizar a Rússia (1) 

Temos vivido numa Europa autodestrutiva a pretender afirmar-se na ambiguidade!

Por um lado, os USA queriam uma Rússia vencida e humilhada como se prevê da expressão pública de Obama quando disse que a Rússia era apena uma potência regional (defendendo assim o mundo unipolar liderado pelos USA); por seu lado Putin queria ver a Rússia como grande potência (à imagem da União Soviética) baseado na sua força militar e nas suas relações com o antigo e moderno “império” comunista.

Por um lado, os EUA queriam uma Europa sem a Rússia e a Europa, de ânimo leve, seguiu esta política; por outro lado, a Europa fez acordos comerciais com a Rússia. Putin, cada vez mais desrespeitado, exigia segurança e a não adesão da Ucrânia à OTAN, como afirmou na Conferência em Munique 2008. Os membros europeus fizeram, irresponsavelmente, ouvidos de mercador!

Por um lado, existe o tratado internacional vinculativo entre a Rússia e a Ucrânia de 1994, no qual a Rússia aceita as fronteiras ucranianas e a Ucrânia cede as suas armas nucleares ao seu vizinho em troca. Por outro lado, a OTAN terá dado garantias de não se expandiria para leste, mas fê-lo em nome do desejo de liberdade desses povos.

Por um lado, há uma lista de casos de violência bélica mostrando que 21 casos de violência bélica tiveram origem na Rússia. Por outro lado, a Wikipédia mostra que no mesmo período de tempo houve 46 guerras dos EUA que ficaram impunes. Hoje que se assiste a tantas sanções e cortes da liberdade de um lado e do outro será legítima a pergunta a nós próprios: e que sanções foram impostas aos USA?

Por um lado, Khrushchev, na Crise dos Mísseis Cubanos entre os EUA e a URSS, retirou os seus abastecimentos militares de Cuba porque o Ocidente não tolerava a sua presença naquele país. Por outro lado, a OTAN não quer compreender que a Rússia não queira ter uma ameaça militar na sua vizinhança imediata (Mísseis da OTAN na Polónia, etc…).

O busílis da questão é que Putin e os EUA, Putin e a Ucrânia sentem que estão e estiveram no caminho certo! O que fizemos nós quando os EUA e a Rússia promoveram a guerra civil na Ucrânia e agora queremos lavar as nossas mãos sangrentas como se a guerra na Ucrânia fosse apenas um problema entre ucranianos e russos? É verdade que seria tontaria desculpar um Putin invasor a cometer tantos actos contra a humanidade mas seria pura hipocrisia  querer agora desviar as atenções, quando, desde 2013 a EU não se mostrou interessada em tirar as brasas do fogo ateado por todos na Ucrânia; cada um olhava apenas para o seu negócio à custa de um povo ucraniano dividido entre si e calava cinicamente as mortes ucranianas (13.000 + 4.000 soldados). Sim, os mortos não falavam e dos dois milhões de refugiados de então não era conveniente falar!

O armamento fomenta o confronto e não o diálogo; aquele, contra a justiça, salvaguarda a lógica do direito à provocação e victória do poder mais forte. Porque não se deixa valer na Ucrânia o princípio democrático da autodeterminação também em relação à Crimeia, etc.?

As diversas contribuições, sobre o assunto, ajudam a compreender melhor o que se quer incompreensível; é por isso que na discussão vale a pena tentar iluminar diferentes níveis do conflito, para que o elemento humano não se perca. O estado de espírito não deve ser deixado ao acaso nem tão-pouco a uma informação pública bastante unilateral, porque esta tende a formar soldados e não pessoas esclarecidas, o que contribuiria para o interesse pela justa paz! Também uma política de informação mais ligada a um bloco ou a outro, recusa-se a fazer compreender a tragédia que se passa na Ucrânia; a questão complicar-se-ia e no povo surgissem dúvidas.

Que acontecerá quando Putin ficar encostado à parede? Será que queremos uma aliança entre a Rússia e a China? Uma Europa pronta a espelhar os valores cristãos não deve alinhar-se quer na “tradição” bélica dos USA/OTAN quer na tradição” bélica da Rússia.

Neste momento, apenas os loucos estão felizes. Todos nos temos de preocupar e engajar numa atitude humanista e os humanos encontram-se de um lado e do outro.

Cinicamente, o presidente dos EUA já tentou descalçar a bota ao dizer: “Não somos parte nesta guerra.” Na consequência a Europa, de cabeça no ar, tenta enfiar ainda mais a bota!

Contextualização:

O conflito acentuou-se em 2013 ao surgirem na Ucrânia massas de confrontos e protestos “Euromaidan”(iniciados em novembro 2013 até fevereiro 2014, altura do golpe de Estado e em que o governo foi deposto). Concretamente a guerra civil começou em 2014 devido à decisão do governo ucraniano de impedir um acordo com a EU fazendo isto contra a vontade de uma grande parte da população. Uma parte da população era por uma aproximação da Ucrânia ao Ocidente e a outra era pela aproximação à união russa (os do leste do país e especialmente os da península da Crimeia). Desde 2014, as forças governamentais ucranianas alinhadas com o Ocidente combatiam os ucranianos separatistas apoiados pela Rússia na região de Donbass. Muitas pessoas morreram e o governo foi deposto a partir e 22 de fevereiro de 2014. Em março de 2014, deu-se o referendo polémico da Crimeia e a maioria da população (95%) apoiou a sua integração na Rússia. (A 8 de Abril de 1783, a Crimeia foi formalmente declarada russa por Catarina II “a partir de agora e para sempre”). A anexação da Crimeia em 2014 seguiu-se a um conflito político (2) e por vezes armado em torno da península ucraniana da Crimeia. A partir daí acentua-se a guerra na Ucrânia oriental com o surgimento das duas regiões separatistas de Lugansk e Donetsk. Desde o início da guerra civil, a população, nesta zona, diminuiu para cerca de metade. Segundo a ONU, entre 2014 e 2018 morreram 13.000 pessoas em resultado da guerra e calculou em 4.000 o número de soldados ucranianos mortos. O exército ucraniano ia empurrando os separatistas de volta para o leste. Os separatistas têm recebido apoio da Rússia desde o início. Na Ucrânia há cerca de oito milhões de russos.

Aquando dos exercícios militares russos junto à fronteira Uraniana Putin exigia da Ucrânia a não adesão à OTAN e a sua neutralidade. Isto foi rejeitado pela da OTAN.

Agora em guerra, o presidente ucraniano Selenskyi mostrou vontade de fazer cedências em Donetsk e Lugansk, estendendo a mão no sentido das exigências de Putin (3). Isto daria abertura a uma espécie de divisória dessas repúblicas da Ucrânia se houvesse uma possível a cláusula de unificação nacional pacífica como objetivo…

A situação de hoje é semelhante à de 1939 antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial onde o papa Pio XII a 24 de agosto de 1939 advertia: “Que os homens voltem a se entender. Que voltem a negociar. Ao tratar com boa vontade e com respeito pelos direitos recíprocos, descobrirão que as negociações sinceras e eficazes nunca são excluídas de um sucesso honroso”. Tratava-se de ontem como hoje, não cultivar a memória das negatividades e as feridas recíprocas!  A Europa está a perder uma chance de se encontrar a si mesma para assumir liderar os próprios destinos!

António da Cunha Duarte Justo

© Pegadas do Tempo,

(1) O artigo pode ser acessado em https://www.rand.org/pubs/research_reports/RR3063.html. O estudo RAND explica os seus objectivos:”Examinamos uma série de medidas não violentas que poderiam explorar as vulnerabilidades e os receios da Rússia para prejudicar as forças armadas e a economia russa, bem como a reputação do regime no país e no estrangeiro. As medidas que estamos a considerar para o efeito não se destinam principalmente à defesa e dissuasão, embora possam contribuir para ambos. Pelo contrário, estas medidas pretendem ser elementos de uma campanha destinada a desequilibrar o adversário, forçando a Rússia a competir em áreas ou regiões onde os Estados Unidos têm uma vantagem competitiva, e fazendo com que a Rússia se estenda militar ou economicamente em excesso, ou fazendo com que o regime perca prestígio e influência a nível interno e/ou internacional”.

(2) O Presidente da Ucrânia  Viktor Yushchenko de 2005 até 2010 (Revolução Laranja) sinalizava um retorno à política pró-russa. Seguiu-se Viktor Ianukovytch (antigo governador do Oblast de Donetsk), eleito presidente da Ucrânia de 25 de fevereiro de 2010 até 22 de fevereiro de 2014 altura em que foi deposto e exilado por ser pro-Rússia, https://pt.wikipedia.org/wiki/Viktor_Ianukovytch e https://de.wikipedia.org/wiki/Euromaidan , em junho de 2015  foi despojado oficialmente do título de presidente . Oleksandr Turchynov presidente de 22 de Fevereiro de 2014 a 7 de Junho de 2014 presidente interino; Presidente Petro Poroschenko 7. Junho 2014 a 20. Maio 2019 e Presidente  Volodymyr Selensky a partir de 20 de Maio de 2019 … O golpe de Estado de 2014, apoiado pelos EUA, depôs o Presidente Viktor Yanukovych, que por solidariedade com o povo da Ucrânia oriental se recusou a assinar a requisição de entrada da Ucrânia na EU/OTAN; em seu lugar levou ao poder forças pró-ocidentais que queriam a Ucrânia na OtAN e até a declarar a Rússia como inimiga. Em reacção às forças do novo governo que começou por proibir as publicações que havia só em língua russa (língua dos povos das províncias Donetsk e Lugansk que então declararam a sua independência). Mas embora Kiev tenha assinado o acordo de Minsk 2015, nunca implementou nenhum destes pontos e ao recusar negociar com os rebeldes do leste a guerra-civil acentua-se.

(3)  Estas são as 4 exigências da Rússia à Ucrânia para a paz e o cessar fogo de imediato e o retirar sem mais condições definitivamente da Ucrânia:

1ª – Reconhecer formalmente a Criméia como sendo parte do território da Rússia

2ª – Reconhecer oficialmente as Repúblicas de Donetsk e Lughansk como independentes.

3ª – Alterar a sua Constituição para que esta declare de forma explicita que a Ucrânia é um País neutro e renuncia como tal a ser parte de qualquer organização militar que contrarie a sua neutralidade.

 

NO DIA DA MULHER

Falta da Face feminina na Matriz cultural

A matriz cultural (talvez mais adequado dizer “patriz” cultural!) em que vivemos é masculina e como tal discrimina de maneira sistemática a mulher ao não evidenciar o rosto da feminilidade nela! Nesta matriz ainda se aceita como natural ver os homens a explicar o mundo, partindo do princípio que eles é que sabem como o mundo funciona. A não integração da feminidade de maneira sistémica na matriz provoca discriminação e lutas correspondentes à forma de estar desse modelo cultural; não se tem tido em devida conta o aspecto da complementaridade do feminino e do masculino numa inter-relação  de diferenças, chamadas a ser inclusivas e não exclusivas.

O que se mantém em silêncio é que esta atitude é a consequência da matriz masculina que nos orienta e por isso estamos a lidar principalmente com um problema sistemático que se expressa em papéis e evita o talento feminino na qualidade de perito. Seria trágico para a sociedade se homens e mulheres entrassem numa luta de uns contra os outros na sequência sistémica orientada para o poder e para a dominação (atitude própria de um modelo cultural mais masculino que se poderia apaziguar através da inclusão nele do princípio da feminilidade). Seria absurdo e desonesto entrar-se numa discussão de experiências puramente pessoais numa espécie de luta corpo a corpo. O importante será ter um espaço em que se questione tudo para que os estereótipos sejam quebrados e se possibilite o surgir de uma nova cultura de relações a um nível básico interior e exterior. Isto não evitará a questão de homens se fixarem mais no mental e de mulheres no experimental (o método dedutivo e indutivo são formas necessárias complementares de explicar o mundo).

As mulheres não são melhores nem piores que os homens; umas e outros são diferentes, mas ambos portadores dos princípios da masculinidade e da feminilidade com diferentes predominâncias (pode até haver homens com predominância das características femininas e mulheres com a predominância de particularidades masculinas). Uns e outros são seres feitos deles mesmos e das suas circunstâncias e como tal sempre em processo de desenvolvimento! A injustiça feita às mulheres assenta no paradigma masculino que dá forma a todas as culturas e sociedades mundiais, obstruindo, basicamente, o surgir de uma igualdade dos dois rostos na sociedade. Para evitarmos muitas guerrilhas entre homens e mulheres será de começar por articular o lugar mais eficiente, a nível de princípios, afinidades e valores, que resolva de maneira inclusiva os problemas conflituais que se expressam em papéis demasiadamente definidos.

Numa fase intermédia, é lógico que muitas mulheres se organizem e lutem pela emancipação fazendo uso de métodos e estruturas que assentam no modelo cultural masculino. Como a estrutura masculina se afirma pela luta, também elas usam como estratégia essa forma de afirmação, ainda condicionada mais ao ter e adquirir do que ao ser!   É demasiado evidente a falta da face feminina na matriz cultural: uma nova matriz em que masculinidade e feminilidade fluem poderia ser simbolizada e expressa numa mesma moeda composta da face feminina e masculina!

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenski pretende concretizar a obrigatoriedade do alistamento de mulheres no serviço militar (1).

Tal intento, há anos legalizado, é, no meu entender, uma medida contra a feminilidade! Embora o movimento feminista (Femen (2), siga uma estratégia masculina de afirmação, neste ponto parece ter tido um vislumbre feminino ao declarar-se contra a inclusão de mulheres em zonas de combate!

Independentemente do respeito que se deve à decisão livre das mulheres, penso que as mulheres, que se manifestam contra o alistamento delas nas guerras, são as verdadeiras femininas que defendem a feminilidade (energia da paz), abstendo-se de entrar, num mundo de masculinidade exacerbada expressa no exército; para já urge o surgir na sociedade o rosto feminino  que questione a nossa matriz cultural mundial que se manifesta ridiculamente no que acontece em torno da Ucrânia/USA/Rússia.

Neste paradigma, a feminilidade não está presente, apenas se instrumentaliza a mulher! Talvez esta situação concorra para que os movimentos de emancipação das mulheres tomem consciência delas para não se deixarem tornar agentes do “patriarcado opressor” que julgam combater! A luta que fazem, usando a metodologia masculina de resolver os problemas, é compreensível se considerada apenas como passo provisório (Os lutadores são soldados em campo de batalha e como tal só podem ser tolerados por pouco tempo!), até que se esteja em situação de se criar uma matriz cultural em termos humanos justos e inclusivos dos princípios da feminilidade e da masculinidade, sem que haja hegemonia de um sobre o outro; isto, muito embora a questão se encontre radicada também em termos de funcionamento e organização do pensamento. A inclusão do princípio da feminilidade na base do paradigma iniciaria uma nova cultura mais humana e pacífica: outros valores e prioridades surgiriam sem que o papel social assumisse carater tão relevante!

Salvaguardada a liberdade de decisão da mulher, não é justo o argumento de que a mulher, para assumir responsabilidade pelo seu Estado, tenha de absolver o serviço militar e tenha de participar directamente na guerra (mesmo com o argumento da igualdade!), dado ela, também nesse esquema, poder assumir diferentes formas de serviço. Além disso é um facto que grande parte das mulheres já contribuem significativamente para a sociedade ao terem e criarem filhos (facto que numa sociedade de modelo não tão masculino deveria recompensar a mãe, monetariamente, como se fosse, durante um certo período, um soldado militar).  No meu ponto de vista, também não é sexismo defender-se que a mulher não seja convocada a fazer o serviço militar nem ser incluída em combates directos dado encontrarmo-nos numa matriz cultural em que a masculinidade se expressa e impõe sem contemplar a perspectiva da feminidade de de caracter pacífico.

É preciso apostar no poder renovador que a mulher tem (3).

 

António da Cunha Duarte Justo

©Pegadas do Tempo

(1) As mulheres devem ser recrutadas em caso de guerra. O escândalo é grande. Desde a Primavera de 2021, as mulheres de 100 grupos profissionais estão legalmente obrigadas a submeter-se ao serviço militar. Na altura, o regulamento mal foi notado pelo público. Para as mulheres, o serviço nas forças armadas é voluntário. Cerca de 32.000 mulheres estão actualmente a servir como soldados temporários no exército ucraniano, tendo cerca de 16.000 delas participado em operações de combate. O recrutamento de mulheres existe na Bolívia, Costa do Marfim, Eritreia, Israel, Coreia do Norte, Noruega, Suécia, Sudão e Chade. https://www.mdr.de/nachrichten/welt/osteuropa/politik/frauen-musterung-ukraine-militaer-100.html

(2) O grupo radical feminista Femen, nascido na Ucrânia, lançou uma nota pública em que exige que, se revogue o decreto que tornou obrigatório o alistamento de mulheres no serviço militar. Alguns intitulam tal exigência do movimento feminista Femen como hipócrita alegando que pretendem os mesmos direitos mas não as mesmas obrigações e que não foi o “patriarcado opressor”, mas a mentalidade feminista que colocou as mulheres na guerra. 

(3) PODER RENOVADOR DA MULHER: https://triplov.com/letras/Antonio-Justo/2009/mulher.htm, A História repete-se: https://antonio-justo.eu/?paged=99&author=1Aquivos ; Debate sobre o género: https://bomdia.eu/debate-sobre-o-genero-ciencia-ou-ideologia/ ; Matriz política… https://bomdia.fr/matriz-politica-masculina-nao-pode-ser-norma-para-a-instituicao-eclesial/ Sobre o tema mais artigos meus no google.

 

 

SINTONIA

Pus-me a olhar para a vida e, ao entrar dentro de mim, sinto, com tristeza, que como no „microcosmos” de cada pessoa e de cada família, assim é no macrocosmos da política!
Se olhamos para o ano 2021 e para o que corre, notamos os reflexos do “mundo louco” em que vivemos.
Nele, somos levados à reflexão e, por vezes, ao desalento a que nos conduzem os eventos que, mesmo sem querermos, determinam os nossos pensamentos e sentimentos.
Resta-nos contribuir junto com os outros para que a “paz de Deus” (liberdade, justiça, reconciliação e paz ) molde as nossas vidas num mundo sem conquistadores nem vencidos! Fica-nos a confiança de que da morte nasce a nova vida! Não estamos sós, somos muitos!
Apesar da tristeza que se encontra a caminho, desejo a todos uma semana feliz e com muito momentos de gozo para que o briho da alegria não se ausente.
Abraço
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

Acirrar o Urso russo significa preparar uma Guerra nuclear na Europa

A GUERRA NUNCA É POR UMA BOA CAUSA

A ilusão de se vencer Putin conduzirá à tragédia de pôr todos em perigo. Depois do 24 de Fevereiro, acordámos num mundo diferente: horrorizados com a guerra, o receio e a ansiedade acompanham-nos! Mais de um milhão de ucranianos encontram-se em fuga. Segundo a ONU, dos 874.000 ucranianos que estavam há dias em fuga, 454.000 já se encontravam na Polónia e os restantes em nações (1) vizinhas. A ONU presume que outros quatro milhões deixarão o país.

Nunca há guerra por uma boa causa. Esta guerra embora fabricada na Ucrânia não deixa de ter direitos de autoria!  Por isso há que ser pelos Ucranianos e preocupar-se por encontrar soluções para depois da guerra. A Ucrânia tem o direito à autodeterminação, embora o povo se encontre dividido, o que complicará a questão também depois da guerra. Isto e o facto de o presidente ucraniano pretender forçar que a Ucrânia entre na EU, mais complica a questão (a guerra não se dá directamente entre a Rússia e a EU e os parceiros da Nato!). Há perguntas por responder: porque é que a Ucrânia, pelo menos numa fase intermédia, não quer ser não-alinhada, independente da Rússia e da Nato?  Deste modo causaria menos dores de cabeça à EU e aos blocos rivais. Não será que o presidente ucraniano com o seus acto heroico não estará a sacrificar a Ucrânia ao pôr demasiada confiança nos parceiros da Nato? Não será que quanto mais armas se entregarem à Ucrânia mais fogo haverá lá porque elas apenas prolongarão a guerra? Será do interesse dos USA/Nato prolongar a guerra o mais tempo possível, na esperança de Putin ter de ceder devido às consequências internas das sanções impostas; mas os ucranianos é que pagarão esta estratégia com as próprias vidas e com a debandada do país. A que conduzirá o demasiado cerco internacional a Putin? Que acontecerá quando o urso russo se encontrar em situação de já não ter mais nada a perder? A sua única força é a bomba atómica! Será que queremos uma aliança entre a Rússia e a China? Há um ditado chinês que diz: “Um homem aponta para o céu. O tolo olha o para dedo, e o sábio vê a lua”

Além de assistirmos à guerra militar entre a Rússia e a Ucrânia estamos envolvidos numa guerra mediática onde se pretende criar fronteiras mentais; neste sentido procura-se, evitar falar do contexto, falando-se só dos aspectos emotivos para facilmente armar a mente das pessoas e assim fazer das suas opiniões soldados ao serviço de uma parte ou da outra: o que interessa é formar soldados!…(O ambiente mediático cria a sensação de que já estamos em guerra e até faz surgir entre jovens a vontade de se alistarem como soldados mercenários para a Ucrânia). É preciso evitar analisar a situação em termos maniqueístas e também não culpar as vítimas nem desculpar o crime. Em política não há santos, o que resta e conta são os factos e acções, que ficam, por vezes, à margem da razão e de actos corajosos!

Se estivermos atentos ao que se passa na opinião pública, notaremos que se está a actuar em termos da ordem marxista que divide o mundo entre os que estão do lado certo e os que estão do lado errado: dividir para instrumentalizar, dividir a sociedade e o mundo em opressores e oprimidos para deste modo, o grupo dos espertalhões se alimentarem à custa do que falta ao povo (segundo essa lógica nos seus domínios os do lado certo está a troica dominante e nos domínios dos outros estão do lado certo os oprimidos!  errado os dominantes (capitalistas-fascistas).  Deste modo, impede-se, na sociedade, a construcção de pontes possibilitadoras de convivência e colaboração pacífica entre as camadas sociais e as partes. Continua-se a afirmar e a justificar a ordem da sociedade e do mundo numa estratégia de luta antagónica.  Ao colocar-nos, inflexivelmente, de um lado ou do outro confirmamos a estratégia marxista que procura legitimar a violência pelo facto de ela se encontrar ancorada, em termos de poder, na natureza (evolucionismo selectivo afirmativo do mais forte). Na actual invasão russa na Ucrânia, observa-se o princípio natural de afirmação dos mais fortes (Rússia rival da Nato) contra o pequeno! Por outro lado, constata-se, como reacção, o surgir da solidariedade (princípio de colaboração e apoio entre os mais pequenos), único meio de juntar forças para resistir aos grandes. Aqui ajudaria o espírito do discernimento e a coragem de integrar como forma de vida os princípios inclusivos da ordem cristã. O facto de termos o sentimento de podermos escolher, não nos deve desviar da realidade de só termos liberdade para escolher um senhor!

Não podemos querer tudo ao mesmo tempo, mas também não podemos ignorar, por um lado, as necessidades individuais nem, por outro, desconhecer a necessidade da existência de constelações, de instituições e hierarquias. Essa ordem é tão natural que até se pressupõe na esfera celeste (anjos, arcanjos, etc.), o que não justifica a sobreposição de uns sobre os outros.

Na impossibilidade de se refrear o conflicto actual (2),  o mais racional seria tentar uma maneira de lidar com o antagonismo de modo inteligente não desperdiçando as nossas energias com reacções emocionais que mais lembram tubos de escape ou, pior ainda, servem para afirmar a sustentabilidade da guerra, pelo facto de cada parte se sentir do lado certo! (Tenho naturalmente o direito individual de estar do lado certo desde que numa atitude humilde de serviço, de empatia com o todo e de complementaridade!) Não há que forçar a natureza, importa andar com ela e tentar melhorar nela o que se pode. Martin Luther King lembra:” Ou vivemos todos juntos como irmãos ou morremos todos juntos como idiotas!” Tudo leva a crer que continuaremos, por muito tempo, no estado de idiotia, porque nos preocupamos mais com o ter do que com o ser!

Um efeito colateral da guerra mediática será criar-se socialmente uma atmosfera propícia a que se acolha de braços abertos os refugiados ucranianos (o que será um grande gesto humano e um grande enriquecimento para o país de acolhimento); por outro lado, justificará as medidas que governos e a economia tomarão provocando um encarecimento quase insuportável da vida, o que não seria justificável sem a guerra! A sociedade europeia não será mais o que era!…

A guerra põe ao leu o que se passa nas guerrilhas! Enquanto a guerra gera pessoas sinistras, as guerrilhas possibilitam aos dominadores andarem de cara levantada, porque o fomento de guerrilhas é considerado permitido (veja-se o estado anterior na Ucrânia, a Primavera Árabe, a invasão no Iraque, Síria, Afeganistão, etc…

Porque não iniciar uma política no sentido de evitar a guerra e as guerrilhas? A questão é que as guerrilhas não violam direito internacional por serem consideradas lutas intestinas e o sangue correr sem que o mundo note. Encontramo-nos numa época em que as emoções determinam as decisões e não a razão; essa é uma das razões que nos leva também a não estarmos atentos ao que se passa em África!

Pelo que vemos, não existe um caminho seguro entre a paz e a guerra!…

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) Outros preveem até 7 milhões. A Alemanha conta albergar, para já um milhão de ucranianos! Kassel, uma cidade alemã de 200.000 habitantes, está a preparar-se para acolher 3.500 pessoas; os refugiados são distribuídos segundo o número de habitantes das cidades. Em 2015/16 Kassel recebeu 4.000. Os refugiados da Ucrânia, não são abrigados pelo estatuto de outros refugiados, pelo que se a UE não alterar a regra, permanecerão por 90 dias.

(2)  Ditadores como na Bielorrússia, Turquia, Rússia, etc. não se deixam intimidar. O facto de a EU ter falado da possibilidade da Ucrânia entrar na EU torna-se numa verdadeira provocação a Putin. O surgir de novos candidatos para entrar na EU mais acirrará Putin! Quanto mais se olha e vê mais se sofre e, por isso, muitos retiram-se na zona privada de conforto. Ditadores como na Bielorrússia, Turquia, Rússia não se deixam intimidar. Na guerra, a verdade morre primeiro e depois a vontade de difamar aumenta. Os políticos de direito próprio não morrem; eles enviam os soldados para a frente. Já havia uma guerra civil e uma brutal “operação antiterrorista” dirigida contra o próprio povo em Donetsk e Lugansk. AS mais de 14.000 vítimas foram negligenciadas pelo público mundial e agora as forças do destino vingam-se.

 

AS CINCO TENTAÇÕES DO “CAMINHO SINODAL” ALEMÃO

Entre os Sinais dos Tempos e o Espírito do Tempo

O Presidente do Episcopado da Polónia, dirigiu uma carta ao Presidente da Conferência Episcopal Alemã, mostrando o seu desconforto aos seus irmãos no episcopado, pelo rumo que está a tomar o “caminho sinodal” alemão (1).

Nos subtítulos da carta estão resumidos os perigos a que está exposto o caminho sinodal e bispos alemães:  a “tentação de procurar a plenitude da pessoa (da Verdade) fora do Evangelho”, a “tentação de acreditar na infalibilidade das Ciências Sociais”, a “tentação de Viver com um complexo de inferioridade”, a “tentação do Pensamento Empresarial” e  a “ tentação de sucumbir à pressão” de uma sociedade  onde quem não a segue fica só.

“Permita-me, caro irmão no episcopado, partilhar a minha ansiedade sobre a validade das reivindicações feitas por alguns círculos da Igreja Católica na Alemanha, especialmente no contexto do “caminho sinodal. A Igreja Católica na Alemanha é importante no mapa da Europa, e estou ciente de que ou irradiará a sua fé ou a sua incredulidade para todo o continente. Por isso, olho com desconforto para as acções do “caminho sinodal” alemão até agora. Observando os seus frutos, pode-se ter a impressão de que o Evangelho nem sempre é a base para a reflexão”.

A Tentação de Acreditar na Infalibilidade das Ciências Sociaisexpressa-se especialmente em querer „modernizar” a esfera da identidade sexual. O Arcebispo Metropolitano de Poznan adverte para “o facto da mutabilidade inerente à própria natureza da ciência, que tem apenas um fragmento de todo o conhecimento possível”. Refere as teorias científicas do racismo (nos EUA) e a eugenia (no nazismo). “A descoberta de erros e a sua análise é a força motriz do progresso da ciência.  Na sequência da eugenia e do racismo “o Congresso dos EUA em 1924 aprovou a Lei de Origem Nacional, impondo quotas de migração restritivas a pessoas da Europa do Sul e Central e proibindo quase inteiramente a imigração asiática.  Por outro lado, com base no conhecimento da eugenia, cerca de 70.000 mulheres pertencentes a minorias étnicas foram esterilizadas à força nos Estados Unidos no século XX (2). “Além dos “erros científicos” existem também “falácias ideológicas “na psicologia ou nas ciências sociais, que hoje em dia são consideradas infalíveis”. “Estas estão subjacentes, por exemplo, à mudança de atitudes em relação à sexualidade que agora se observa “(3). “Como deverá então a Igreja responder ao estado actual do conhecimento científico para não repetir o erro que cometeu com Galileu? Este é um desafio intelectual sério que temos de enfrentar, com base no Apocalipse e nas sólidas conquistas da ciência”.

E avisa: “Observando os seus frutos, pode-se ter a impressão de que o Evangelho nem sempre é a base para a reflexão”. Também admoesta “não devemos ceder às pressões do mundo ou aos padrões da cultura dominante, uma vez que isto pode levar à corrupção moral e espiritual”.

Apela também ao seguimento da tradição: “Evitemos a repetição de slogans desgastados, e exigências padrão como a abolição do celibato, o sacerdócio das mulheres, a comunhão para os divorciados, e a bênção das uniões do mesmo sexo“, insistindo: “Apesar do clamor, ostracismo e impopularidade, a Igreja Católica – fiel à verdade do Evangelho e ao mesmo tempo motivada pelo amor a todo o ser humano – não pode permanecer em silêncio e tolerar esta falsa visão do homem, muito menos abençoá-la ou promovê-la”!

O Presidente do Episcopado acrescentou que a crise contemporânea da Igreja na Europa é, acima de tudo, uma crise de fé. “A crise de fé é uma das razões pelas quais a Igreja experimenta dificuldades quando se trata de proclamar uma doutrina teológica e moral clara”. “A autoridade do papa e dos bispos é mais necessária quando a Igreja está a atravessar um tempo desafiador e quando está sob pressão para se afastar dos ensinamentos de Jesus”.

A Tentação de Viver com um Complexo de Inferioridade” ameaça hoje muitos cristãos dado viverem sob uma enorme pressão da opinião pública. “Os discípulos de Cristo em geral, escreveu o Papa Francisco, estão hoje ameaçados por “uma espécie de complexo de inferioridade que os leva a relativizar ou esconder a sua identidade e convicções cristãs”. (…). Acabam por sufocar a alegria da missão com uma espécie de obsessão por serem como todos os outros e possuírem o que todos possuem” (4).

A fé “já não é um pressuposto evidente da vida social; a fé é frequentemente rejeitada, marginalizada e ridicularizada”. Daí a validade do aviso aos Romanos: “Não vos conformeis a esta época, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12,2). Evitemos a repetição de slogans desgastados, e exigências padrão como a abolição do celibato, o sacerdócio das mulheres, a comunhão para os divorciados, e a bênção das uniões entre pessoas do mesmo sexo. A “actualização” da definição de casamento na Carta dos Direitos Fundamentais da UE não é motivo para adulterar o Evangelho”.

Adverte também para o risco do pensamento corporativo (Empresarial): “não há empregados suficientes, por isso vamos baixar os critérios de recrutamento”. São Paulo VI: “Não somos facilmente levados a crer que a abolição do celibato eclesiástico aumentaria consideravelmente o número de vocações sacerdotais: a experiência contemporânea das Igrejas e comunidades eclesiais que permitem aos seus ministros casar parece provar o contrário” (5). O que atrai as pessoas para a Igreja e para o sacerdócio não é outra oferta de uma vida fácil, mas o exemplo de uma vida totalmente consagrada a Deus”. Em relação ao sacerdócio da mulher cita João Paulo II: … “declaro que a Igreja não tem qualquer autoridade para conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que este juízo deve ser definitivamente realizado por todos os fiéis da Igreja” (6). O Papa Francisco também disse que este tema estava arrumado pelo seu antecessor, mas que “já o disse, mas repito-o: Nossa Senhora, Maria, era mais importante do que os Apóstolos, do que os bispos, diáconos e padres. As mulheres, na Igreja, são mais importantes do que os bispos e sacerdotes” (7). “… cada diferença é tratada como um sinal de discriminação. Contudo, isto não impediu que as mulheres desempenhassem na Igreja papéis que são tão importantes, e por vezes talvez mais importantes, do que os dos homens. O Catecismo distingue claramente entre as inclinações homossexuais e os actos homossexuais. Ensina respeito por cada ser humano independentemente da sua inclinação, mas condena inequivocamente os actos homossexuais como actos contra a natureza” (8 )cf. Rom 1,24-27; 1 Cor 6,9-10. (Congregação para a Doutrina da Fé, Responum a um dúbio sobre a bênção das uniões de pessoas do mesmo sexo).

O Arcebispo, presidente da Conferência polaca sublinha ainda: A crise da Igreja na Europa de hoje é, antes de mais, uma crise de fé. “Mas não há outro Evangelho: há apenas algumas pessoas que semeiam confusão entre vós e que gostariam de distorcer o Evangelho de Cristo” (Gl 1,7). Paulo VI: Nunca os profetas de Israel ou os apóstolos da Igreja concordaram em diminuir o ideal, nunca suavizaram o conceito de perfeição, nunca tentaram reduzir a distância entre o ideal e a natureza. Nunca estreitaram o conceito de pecado – pelo contrário” (9). Cada período da história pode achar este ou aquele ponto de fé mais fácil ou mais difícil de aceitar: daí a necessidade de vigilância para assegurar que o depósito da fé seja transmitido na sua totalidade (cf. 1 Tim 6:20) e que todos os aspectos da profissão de fé sejam devidamente enfatizados”.

A Conferência Episcopal Alemã decidiu não responder à carta do bispo Gadecki. O seu gabinete de imprensa alegou que não reagem publicamente a cartas abertas, mas que apesar disso procuram contacto pessoal com o arcebispo Gadecki., mesmo que este tenha escolhido a via de comunicação social.

O Bispo Ipolt de Görlitz reagiu positivamente à carta, ao dizer que a carta da Igreja na Polónia é uma voz da Igreja universal. O vigário geral da diocese de Essen critica a carta do Bispo Gadecki pelo seu “anti-modernismo raso e muito clerical” dizendo que “soa como se fosse de um passado católico distante, e é precisamente isto que choca e mostra até que ponto em algumas partes da Igreja universal o legado de João Paulo II continua a determinar o clima de pensamento e acção – e recusa uma percepção honesta da realidade”.

As posições do Caminho Sinodal alemão e as do episcopado da Polónia resumem os problemas e as discrepâncias com que se depara a Igreja hoje! Não será fácil uma resposta comum ao problema, dado a Igreja universal ser composta por muitas culturas e mentalidades, encontrando-se, todas elas, a caminho, mas socialmente com diferentes velocidades e possíveis desvios.

Das diferentes posições em discussão (cf. “Caminho Sinodal na Alemanha:  https://antonio-justo.eu/?p=7078 ) exige-se mais espírito de discernimento para podermos distinguir os “Sinais dos Tempos” e o “Espírito do Tempo”!

A caminhada ainda oferece oportunidade de discussão e de união até ao seu remate em outubro de 2023 em Roma.  Em termos de igreja global, só um seguimento de Jesus Cristo e uma orientação articulada no Papa poderão proporcionar um caminhar sereno sem precipitações, mas também sem emperramentos.

Em termos de globalismo, a carta da Polónia poderia servir de alerta para se repensar a nossa caminhada num mundo que corre o perigo de seguir uma mundivisão mais adequada ao espírito anglo-saxónico (demasiadamente orientado por um utilitarismo e racionalismo individualista e consumista) e como tal demasiadamente unilateral. O mundo anglo-saxónico que actualmente quer dirigir o mundo e os destinos da humanidade e que incorpora demasiadamente a masculinidade, precisa de voltar a descobrir a sua alma feminina tão bem expressa no idealismo romântico alemão. A carta pouco conseguirá na Alemanha atendendo a uma certa característica alemã que se expressa já no protestantismo do cismo do século XVI e que desde então se tem distanciado do espírito romano (católico)!

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo

(1) O Caminho Sinodal Alemão: https://antonio-justo.eu/?p=7078

(2) (cf. G. Consolmagno, “Covid, fede e fallibilità della scienza”, La Civiltà Cattolica 4118, pp. 105-119)”

(3) (J. A. Reisman, E. W. Eichel, Kinsey, Sexo e Fraude: The Indoctrination of a People, Huntington House Publication, Lafayette 1990; J. Colapinto, As Nature Made Him. The Boy Who Was Raised as a Girl, Harper Perennial, New York-London-Toronto-Sydney 2006).

(4) (Evangelii gaudium, 79).

(5) Sacerdotalis celibatus, 49.

(6) João Paulo II, Ordinatio Sacerdotalis, 4

(7) Francisco, Conferência de Imprensa durante o voo de regresso do Rio de Janeiro para Roma, 28.07.2013.

(8 ) cf. Rom 1,24-27; 1 Cor 6,9-10. (Congregação para a Doutrina da Fé, Responum a um dúbio sobre a bênção das uniões de pessoas do mesmo sexo.

(9) Paulo VI, in: J. Guitton, Diálogos com Paulo VI, Poznań 1969, p. 296.