BALADA DO CAMINHO NEVADO

Batem leve, levemente (1),
flocos do eterno natal.
Como memória da gente
que vem do fundo invernal.
São iguais e são diferentes,
em espiral atemporal.

A neve cai sobre o trilho
que o limpa-neve traçou.
E o tempo é um longo respiro,
que o vento em nós segredou.
E o meu rosto, tem marca de exílio,
o Norte que ali ficou.

Nele a estrada branca se alonga,
de Belém até ao umbral.
Em cada mãe há uma longa
espera de luz eternal.
Maria é a gruta e a esponja
do amor que é mãe universal.

Acendem-se quatro velas
contra a escuridão do ser.
São as semanas que selas
no advento do teu viver.
Não nasce em templos, nem em celas,
mas no chão que é teu dever.

Abrem-se as portas do dia,
calendário do porvir.
A esperança que guia
o passo do teu seguir.
Na noite que desfia,
teu caminho é persistir.

Oh, viajante que passas
e vês na neve o rumor:
as pegadas são as pausas
que lavram o teu interior.
A mesma estrada que arrasas
te leva ao mesmo amor.

Batem leve, levemente,
como quem chama por ti.
É o advento da semente
no ventre que a trouxe aqui.
Na gruta do peito, dormente,
a neve cai sobre mim.

E assim seguimos na dança
dos flocos, iguais e mil,
na sagrada semelhança
do que é eterno e febril.
A neve é a nossa herança
e o caminho, o seu redil.

António da Cunha Duarte Justo

(1) Nota do Autor

Este poema é, antes de tudo, uma homenagem a Augusto Gil e à sua “Balada da Neve”, que desde a infância se me gravou no espírito como um legado de assombro e nostalgia. O verso “Batem leve, levemente, / como quem chama por mim…” tornou-se para mim um acompanhante fiel, um eco que transcende o cenário invernal para ressoar na solidão e na expectativa humana.

No meu texto, procurei manter esse eco rítmico, transpondo-o para o contexto do Advento. Aqui, a caminhada da criança sob a neve transforma-se numa caminhada ativa da alma humana  em espera. A repetição das estações, do ritual, do próprio verso, não é estagnação, mas um aprofundamento em espiral: cada volta aproxima-nos do essencial. O destino final não é apenas o presépio de Belém, mas o Belém Celestial, arquétipo da Esperança que nos permite abrandar os andares dolorosos da existência.

Assim, este poema busca acentuar a dimensão espiritual e existencial da peregrinação que cada um de nós e o mundo consigo e connosco, está sempre a empreender.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A PROFUNDIDADE DO ADVENTO

Espera que arde e Esperança que encarna

A Arte de esperar acordado

O Advento não é simplesmente um tempo de preparação para o Natal. É, antes de tudo, uma escola da existência, um ritmo espiritual que nos confronta com a condição humana mais fundamental: a de seres em espera. Como escreveu Simone Weil, “a espera é a mais alta forma de atenção” e o Advento é justamente o exercício dessa atenção radical. O mundo, na sua brutalidade e beleza, escapa ao nosso controlo. De facto, não podemos salvar o mundo, nem proteger as pessoas do mal e do erro.

Esta impotência, porém, nunca pode justificar uma resignação bovina, uma vida reduzida à erva rasteira ao nível do chão. Tal atitude seria uma traição à nossa própria natureza. A vida, com toda a sua majestade e mistério, é muito maior e mais expansiva do que os estreitos limites da nossa compreensão. Santo Agostinho recorda-nos: “Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”

É precisamente esta consciência da nossa finitude e falibilidade que nos torna dependentes da graça e da misericórdia. Contudo, paradoxalmente, essa dependência não anula a vontade; pelo contrário, ilumina-a. Não apaga a vontade de sermos esperançosos buscadores. Pelo contrário, é a partir deste reconhecimento humilde que a busca verdadeiramente pode começar. O Advento é o apelo solene a essa busca esperançosa a esta inquietação luminosa que nos empurra para o alto.

Deus dispõe… através das nossas Mãos

Já Séneca dizia: “Não é porque as coisas são difíceis que não ousamos; é porque não ousamos que elas são difíceis.”

O homem propõe e Deus dispõe. Este antigo adágio não nos condena à passividade, mas revela a colaboração sagrada da história. Deus dispõe, mas fá-lo através das mãos humanas que aceitam realizar a Sua mensagem. Nós somos, de facto, as mãos de Deus. Como escreveu Teresa de Ávila: “Cristo não tem agora outro corpo senão o teu.” O Advento ou se realiza em nós ou não se realiza.

Este é o cerne da responsabilidade espiritual: mesmo quando o mundo parece destinado à decadência, à ruína ou à repetição horrível de ciclos de violência, a nós é deixada a iniciativa de, no nosso pequeno espaço, germinar o novo. O Verbo fez-se carne, mas continua a precisar de corpos que O encarnem no tempo. O nosso “devir” é este contínuo processo de gestação, que só termina com o último suspiro.

E nesse respirar há uma saudade da paz que é o sopro divino dentro de nós. Contudo, essa paz não é fuga; não pode esconder-se em recantos interiores, recusando-se a encarar a fealdade que a ameaça de fora e de dentro. “A paz não é a ausência de conflito, mas a presença de justiça,” recordava Martin Luther King Jr.

A fealdade é vasta e a vida aponta muitas vezes para os infernos da impotência, da insegurança e da barbárie que tantos são forçados a habitar. Aponta para o purgatório da indiferença sarcástica que nos permite viver ao lado desses sofrimentos, anestesiados pela enxurrada de notícias que nos informam sem nos transformar.

O Incenso e o Fogo interior

Como manter a esperança diante deste abismo?

A esperança é como o incenso da nossa vida. Procuramos nele resiliência, coragem e paz. Mas esquecemo-nos: para respirarmos o seu aroma, algo tem de arder. A verdadeira esperança adventícia não é um sentimento confortável; é um fogo que purifica. Exige que algo em nós seja consumido: a indiferença, o comodismo, as ilusões de autossuficiência.

Vivemos no entremeio, no território tenso entre a contemplação e a ação, entre a paz interior e a luta contra a fealdade exterior. Só nesse entremeio nasce o discernimento. Para isto aponta Bonhoeffer quando dizia: “A ação nasce do pensamento responsável; mas só quem espera pode realmente agir.”

A Luz que já veio e ainda espera por nós

É nesta tensão que o paradoxo central do Advento resplandece: esperar pelo que já chegou e se encontra soterrado nas cinzas de cada um de nós. A Luz já veio ao mundo; o Reino já irrompeu em Cristo. Mas, como uma semente ou uma brasa sob cinzas, aguarda a nossa cooperação para se reacender e crescer.

A esperança, portanto, não é a expectativa vaga de um futuro melhor. É a expectativa de que algo aconteça em nós. É a força ativa de quem, sabendo que a vitória final é certa, luta no presente para que ela se manifeste. É a força da onda que avança contra a que a envolve e faz retroceder.

Neste caminho surgem aqueles que mantêm uma atenção especial: os profetas do nosso tempo. São os que percebem a inquietação antes dos outros, os que expressam a perturbação silenciosa que nos sacode do torpor. Neles, algo da orientação divina pode revelar-se. Eles são os arautos do Advento, lembrando-nos que a espera não é vazia, mas grávida de Deus.

O Advento convida-nos a uma espera ativa. É um tempo para deixar arder, como o incenso, os nossos medos e egoísmos. Um tempo para escavar as cinzas do nosso cansaço e cinismo e reencontrar a brasa da promessa divina. Um tempo para, com as mãos de Deus que somos, trabalhar para aliviar os infernos e purgatórios à nossa volta, por pequena que seja a nossa ação.

E é, sobretudo, um tempo para reafirmar, com uma fé que é confiança radical no que virá, que enquanto houver um coração humano em espera, a Luz não se apagou. A onda do Espírito continuará a avançar, até que a espera se dissolva no encontro e a esperança dê lugar à visão preanunciada no presépio.

A Título de Conclusão

Conta-se que, numa aldeia perdida entre montanhas, havia uma sentinela que todas as noites subia ao alto da colina para vigiar. Muitos riam dela, pois o horizonte estava sempre escuro e nada acontecia.
Uma noite de inverno, um jovem da aldeia perguntou-lhe: “Porque sobes tu, se nunca vês nada?”
A sentinela respondeu: “Eu não subo para ver. Subo para que, quando a luz vier, não a encontre sozinho a dormir.

O jovem ficou silencioso, e a sentinela acrescentou: “E quando o frio me vence, faço o que posso: sopro a minha pequena brasa. Se ela se apagar, como aquecerei quem vier pedir-me calor?”

Na primavera seguinte, uma tempestade devastou a aldeia. Muitos procuraram abrigo na colina. Lá encontraram a sentinela, e ao seu lado, humilde, mas viva, a pequena brasa que aquecia as mãos de todos.

E foi então que compreenderam: a sentinela não esperava porque via a luz, esperava para que a luz tivesse quem a visse.
E a brasa, pequena como era, não salvou o mundo; mas salvou aqueles que lhe ficaram próximos.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A IGREJA NÃO PODE TORNAR-SE UM SUPERPARTIDO

A missão da Igreja é transumana transcendente e não pode ser reduzida a mais uma voz no debate partidário

A presença pública de responsáveis eclesiásticos tem vindo a adquirir um tom crescentemente politizado nos últimos anos. Entre a pandemia, a guerra na Ucrânia e a ascensão de partidos da direita na Europa, setores da Igreja parecem inclinados a alinhar-se com posições partidárias, muitas vezes repetindo o discurso dominante.
Esse caminho, porém, é um erro que prejudica a própria Igreja e os cristãos que, na sua liberdade e soberania, participam na vida política. Na comunidade cristã, “não há estrangeiros”, mas também não há partidos.

Em alguns países, como a Alemanha, chegaram mesmo a existir instituições ligadas à Igreja que evitavam contratar pessoas com filiação partidária “desconforme” ou desalinhada com o poder instituído. Hoje, como ontem, assiste-se à tentativa de afastar certos grupos, ontem comunistas, hoje membros de partidos populistas da função pública. Este tipo de práticas, para além de dúbias do ponto de vista democrático, torna a Igreja cúmplice de exclusões que não lhe competem. Na prática, este tipo de comportamento político-punitivo fragiliza o próprio sistema democrático e a dignidade humana.

A missão transcendente da Igreja

A Igreja não é um poder temporal, deve ser o sal da terra. A sua missão é espiritual, moral e universal. Não lhe cabe indicar “o partido certo”, nem avaliar programas de governo. O espaço específico da sua ação é outro: formar consciências à luz do Evangelho.

Os leigos, esses sim, são chamados a participar ativamente na vida política.
A eles cabe filiar-se, debater, negociar e propor soluções.
Aos clérigos cabe iluminar com princípios, não “dar o voto” nem deixar-se utilizar por interesses partidários.

Quando sacerdotes ou bispos criticam publicamente partidos específicos, mesmo quando movidos por boa intenção, arriscam-se a:

            – partidarizar a fé,

–  alienar fiéis que pensam de forma diferente,

– transformar a Igreja num ator político previsível e parcial.

E isso contradiz a própria natureza da Igreja, que é casa para todos.

“A Igreja não se confunde de modo algum com a comunidade política e não está vinculada a nenhum sistema político.” (Concílio Vaticano II, GS 76)

“A Igreja respeita a legítima autonomia da ordem democrática.” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 571)

O Papa Francisco lembra repetidamente que a Igreja deve evitar “colonizações ideológicas”, seja de direita, de esquerda ou de qualquer tipo.

Princípios são uma coisa; programas partidários são outra

A Doutrina Social da Igreja não propõe soluções técnicas, mas sim princípios: dignidade da pessoa humana, bem comum, fraternidade, solidariedade, subsidiariedade.
Estes princípios não se traduzem automaticamente numa única proposta política. Muito menos num único partido.

Dois cristãos igualmente sérios podem, a partir dos mesmos princípios, chegar a opções partidárias diferentes sem perder fidelidade à fé.
E isso é saudável.
O que não é saudável é a Igreja tratar como erro doutrinal aquilo que, na realidade, é apenas uma opção política legítima.

Confundir o Evangelho ou princípios universais com aplicações políticas contingentes (com um programa partidário) é reduzi-lo e instrumentalizá-lo, pois, torna-se fonte de conflitos.

O risco do reducionismo moral

Quando a Igreja entra demasiado no debate político, tende a reduzir a moral a dois ou três temas, esquecendo o conjunto mais amplo da sua mensagem: justiça económica, paz, cuidados dos mais frágeis, ecologia integral, liberdade religiosa, dignidade da pessoa em todas as etapas da vida.

O Evangelho exige uma visão integral.
Não existe um partido que encarne todos os valores cristãos e não compete à Igreja escolher um.

Profetismo, sim. Partidarização, não.

A Igreja tem, sem dúvida, o dever de denunciar tudo o que fere gravemente a lei de Deus: aborto, eutanásia, xenofobia, violência, corrupção, injustiças estruturais.
Mas deve fazê-lo partindo dos princípios, não dos partidos.

Há uma enorme diferença entre afirmar “O partido X está errado”
e afirmar “Toda política que viola a dignidade humana está errada”.

Na primeira formulação, a Igreja torna-se um ator político.
Na segunda, cumpre a sua missão e deixa aos fiéis a tarefa de discernir.

O papel central dos leigos

A transformação política da sociedade não é missão dos padres.
É missão dos leigos. A própria  Igreja ensina que o sujeito principal da ação política são os leigos.

A eles pertence o debate político; à Igreja pertence a formação das consciências.
Quando esta ordem se inverte, ambos perdem:
a Igreja perde a sua universalidade; os fiéis perdem a sua autonomia. Os fiéis, bem formados, julgarão por si mesmos os programas partidários e evitarão entrar na polémica divisionista própria de estratégias partidárias.

Uma Igreja livre para todos

A Igreja deve ser uma consciência crítica da sociedade, e não um lobby disfarçado. Deve ser incómoda para todos os partidos quando necessário e dependente de nenhum.

Se cair na tentação de se transformar num “superpartido”, perderá a força profética e a capacidade de unir todos os que procuram Deus.

A política passa. Os partidos mudam e o Evangelho permanece.
E é a partir dele e não das lógicas partidárias que a Igreja deve continuar a iluminar a vida pública.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo

Pegadas do Tempo

 

O VALE DAS LUZES CEGAS

Parábola contemporânea sobre o Conflito entre Oriente e Ocidente refletido em Bruxelas

Era uma vez duas grandes casas, separadas por um vale outrora florescente, agora um campo de cinzas. De um lado, no ocidente, erguia-se a Cidadela de Espelhos, Bruxelusa, um palácio de cristal e aço, governado pelo Arquitecto Ancião. A cidadela era um prodígio de conhecimento acumulado, os seus salões ecoavam com as sinfonias de filósofos e artistas de outrora. No entanto, o Arquitecto, outrora um visionário, agora era um homem decrépito, preso à sua própria imagem refletida em cada parede polida. Acreditava que a luz da sua cidadela era a única luz verdadeira, e que todos os cantos do vale deveriam ser remodelados à sua semelhança. A sua riqueza era imensa, mas o seu propósito era uma sombra do que foi. Sofria de uma demência senil, que chamava de “Progresso Universal”: a ilusão de que todas as almas e terras eram argila para o seu torno de oleiro, destinadas a tornar-se cópias da sua própria e cansada efígie.

Do outro lado do vale, estendia-se a Grande Estepe, uma terra de invernos rigorosos e verões ferozes, guardada pelo Guardião das Profundezas, a Rússia. Este não era um homem de cristais, mas de terra e granito. Conhecia o peso da história e o sabor da neve ensopada em sangue alheio e próprio. Depois de um colapso interno que quase o consumiu, ergueu-se, mais magro, mais cauteloso, mas com o olhar fixo no horizonte. O Guardião não desejava espalhar a sua sombra pelo vale, mas exigia que ninguém espezinhasse o limiar da sua casa. Ele via as diferentes civilizações ao redor como irmãos crescidos, cada um com o seu próprio fogo, e não como servos para iluminar os corredores da Cidadela de Espelhos.

No centro do vale, entre os dois, ficava a Casa-Ponte, a Ucrânia, uma habitação de teto de colmo e alicerces antigos, onde se falavam duas línguas e se cantavam canções tanto do oriente como do ocidente. Era um lugar que poderia ter sido o elo, o mediador, a síntese.

Mas o Arquitecto Ancião, na sua demência, não suportava a independência do Guardião. A ideia de que a Estepe não se curvava à sua luz era uma afronta à sua própria existência. Movido por uma ganância que disfarçava de missão civilizacional, decidiu que a Casa-Ponte seria o seu Cavalo de Troia. Começou a enviar para lá os seus Aprendizes de Feiticeiro, diplomatas com contratos envenenados, mercadores com moedas falsas e trovadores que cantavam apenas as glórias da Cidadela de Espelhos. Prometiam o éden do bem-estar, mas o preço era a alma: a renúncia à sua própria história, à sua própria ponte interior.

O Guardião das Profundezas assistia, com um rosto de tempestade contida. Ele via os Aprendizes a instalarem-se na Casa-Ponte, a apontar as suas ferramentas para a sua própria casa. “Não queremos que a vossa luz se apague,” gritou para a Cidadela, “mas não nos peçam para viver na escuridão, nem permitam que a vossa luz cegue os nossos olhos à nossa própria herança.”

A resposta do Arquitecto Ancião foi um eco vazio de seus salões: “A nossa luz é a única luz. Quem não está connosco, está contra nós.”

Foi então que a loucura se tornou ação. O Arquitecto, através da sua aliança de castelos menores, a OTAN, começou a enviar armas para a Casa-Ponte. Transformou-a numa fortaleza improvisada, prometendo aos seus habitantes que seriam os heróis de uma nova narrativa. No entanto, os líderes da Casa-Ponte, oligarcas de almas venais, venderam as chaves da casa por um lugar à mesa do Arquitecto. O povo da Ucrânia, um povo orgulhoso e multicultural, foi arrastado para um poço de morte, acreditando lutar por um futuro que já lhes estava a ser negado nos gabinetes de Bruxelusa.

O Guardião das Profundezas, encurralado e vendo o cerco mental e material a fechar-se, finalmente reagiu. Com um rugido que fez tremer a terra, avançou sobre a Casa-Ponte. Não para a conquistar no sentido antigo, mas para a desmantelar, para quebrar o Cavalo de Troia antes que este arrebentasse os seus portões. A sua força não era a de um conquistador juvenil, mas a de um animal ferido e acossado, muito mais perigoso.

A máquina de guerra da Cidadela de Espelhos era formidável. As suas armas cintilavam, o seu dinheiro fluía como um rio, arrancado dos bolsos dos seus contribuintes ingénuos, que acreditavam estar a financiar a liberdade, não a vaidade de um ancião. A sua propaganda ecoava por todo o vale, pintando o Guardião como um monstro que queria devolver o mundo à idade das trevas. Era uma auto-hipnose coletiva, uma dança sobre um vulcão.

Mas essa máquina, tão coesa na sua superfície, falhava nas suas fundações. A sua estratégia era um castelo de cartas construído sobre a mesa da arrogância. Acreditavam que o dinheiro e o poderio técnico poderiam comprar a vitória, subornar a própria realidade. Entretanto, nas ruas da Cidadela, o povo comum, aquele que ainda estimava a honra e o andar de pé, começava a sentir a dor. Sentia o custo da vida a subir, o futuro a escurecer. Baixavam a cabeça, desconfiados dos relatos triunfais que saíam dos lábios dos seus governantes. A credibilidade da Cidadela, outrora seu sustento, revelava-se oca, apenas peito inchado à custa da carência do povo.

A Casa-Ponte, entretanto, estava em ruínas. O seu povo, outrora ponte, era agora trincheira. O seu destino de berço cultural foi traído, transformado num campo de batalha para uma guerra de procurações, uma guerra pela vaidade de um velho arquiteto e pela sobrevivência de um guardião ferido.

O preço da vã glória, como o poeta luso Camões cantou, preparava o desastre. A Cidadela de Espelhos, embriagada na sua dança de poder, não via o abismo que cavava a seus pés. A sua tentativa de impor um colonialismo mental, um globalismo que esmagava as almas numa só forma, estava a criar o seu próprio coveiro: a descrença dos seus filhos e a feroz resistência daqueles que se recusavam a ser apagados.

Afinal, o conto não tem um desfecho, pois ainda está a ser escrito. Mas a moral já é clara para os de boa vontade: nenhuma paz nascerá da demência de quem vê o outro não como um igual, mas como um projeto não levado a cabo. O bem comum da humanidade só florescerá quando todas as instituições se lembrarem que o seu único propósito sagrado é servir o Homem soberano, cada pessoa vista como algo divino, portadora de uma centelha intocável. Só uma cultura que venera esta soberania individual, como o cristianismo ensinou, e não o poder das cidadelas, pode construir pontes verdadeiras sobre os vales da desconfiança e do orgulho. E essa cultura, essa paz, exige que se quebrem os espelhos que mostram apenas uma face, e se olhe, finalmente, nos olhos do outro.

A ponte entre Oriente e Ocidente erguer-se-á no dia em que o homem deixar de escolher lados e começar a escolher a verdade.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

POEMA DA CONSCIÊNCIA CÓSMICA NA LITURGIA DO MAR

Sentado à beira do abismo líquido,

vejo-me dissolver no ventre das ondas

corpo que se entrega ao ciclo perpétuo,

espuma ascendente em génesis de nuvens.

 

 

Cada crista que rompe é umbral do mundo,

alimentando o céu num esforço titânico

de evadir o círculo que nos aprisiona,

respondendo ao chamamento do além-mar.

 

No rugido ancestral das águas primordiais

a eternidade desvela seu íntimo sentimento:

aplauso e lamento tecidos num mesmo canto,

dança dialética entre ser e não-ser.

 

 

Entrelaçam-se na voragem existencial

estes dois fios do mesmo cordão umbilical

aspiração ao eterno, âncora no efémero,

paradoxo que nos mantém suspensos no tempo.

 

Sofro em carne as intempéries do devir,

no embate rítmico das vagas sobre vagas

cada impacto uma afirmação da vida,

cada recuo uma preparação do assalto seguinte.

 

 

Meu corpo que és mar onde tudo se move,

arquivo vivo onde a memória inscreve,

escreves e reescreves a história cósmica,

translação perpétua do alfa ao ómega.

 

 

És alegoria, corpo meu, dos ciclos vitais:

maré que avança e reflui no compasso do ser,

enquanto a alma, esta testemunha vigilante

toma consciência de si mesma em ti.

 

Corpo-templo, sacrário do gene criativo,

onde a Palavra, logos primordial, atravessa

a espuma efervescente do pensamento,

buscando a consciência de si no mundo.

 

Em ti procura o espírito optimizar-se,

caminhando rumo ao estado supremo

onde tudo é consciência translúcida,

relação amorosa tecida no divino.

 

Em mim, na sociedade, na meteorologia celeste,

no movimento perene das marés,

celebra-se a liturgia infinita de Deus

um Deus pessoal que se revela na relação.

 

 

Trindade que se expressa no encontro,

personalização que no fundamento do divino

tudo move em dança de amor eterno,

conduzindo cada ser à sua plenitude pessoal.

 

Na espuma que ascende ao céu,

no sal que arde na pele,

no horizonte que nunca alcançamos,

celebra-se o mistério:

Somos o mar que se conhece a si mesmo,

a onda que busca transcender seu próprio círculo,

o corpo onde o cosmos se faz consciência,

o templo onde Deus se personaliza em amor.

 

 

Da contemplação à beira-mar nasce a sabedoria:
somos simultaneamente a água, a onda, a espuma e o céu,
eternidade expressa no tempo,
consciência a emergir do abismo (1).

 

 

António da Cunha Duarte Justo

© Pegadas do Tempo

 

(1) A Gênese do Poema

Do Chamamento inicial, um sussurro no éter,
Surge a Voz da Eternidade, ecoando no ser.
Ela flui por este Corpo-Mar, veículo de dor e ventura,
E mergulha no Arquivo do Tempo, à procura.

Lá, decifra a Alegoria dos Ciclos, a dança sem fim,
No Templo da Palavra, onde o verbo se faz carne e em mim.
A sua respiração é uma Meteorologia do Sagrado clarão e nevoeiro,
Até desaguar no silêncio, na Síntese Ómega do mundo inteiro