QUANDO O CANTO VENCEU O CANHÃO (1)

Naquela noite de consoada, a neve não escolheu lado.

Caiu sobre capacetes alemães, sobre botas inglesas, sobre o medo francês e sobre o silêncio russo que ainda não chegara ali. A neve não conhecia fronteiras, nem mapas, nem ordens superiores.

Era a noite de 24 de dezembro de 1914.

Nas trincheiras alemãs, um soldado jovem, de nome Friedrich, começou a cantar. Não cantava por coragem, nem por desafio. Cantava porque já não suportava o ruído da guerra dentro do peito. Cantava porque por baixo da sua farda ainda ecoavam no seu coração os ecos das cancões de natal e na retina a imagem do Anjo que anunciava “Paz na Terra aos homens de boa vontade”:

Stille Nacht, heilige Nacht… (Noite feliz, noite santa…)

A canção atravessou o ar gelado do campo de batalha como uma vela acesa no meio do inferno. Do outro lado, um inglês, o Thomas, reconheceu a melodia antes mesmo de reconhecer o inimigo e também ele entoou.

Silent night, holy night…

As armas hesitaram. O ódio, treinado e ensinado, não sabia o que fazer com aquela língua comum que nenhuma propaganda conseguira destruir.

Os soldados saíram lentamente das trincheiras, como crianças que aprenderam a andar de novo. No terreno neutro, coberto de geada que naquela noite se tornou terreno humano, trocaram pão, cigarros, nomes, fotografias de filhos que ainda não sabiam o que era uma guerra.

Enterraram juntos os mortos.

Foi então que, cem anos depois, Teófilo, um professor desejoso de uma cultura da paz, fechou a página do jornal alemão HNA onde se fazia referência ao acontecimento e suspirou:

“Se eles conseguiram cantar na guerra, por que nós não conseguimos cantar na paz?”

Na sala estavam outros.

Miguel, o sindicalista, apoiou os cotovelos na mesa e protestou:

“Hoje gastamos o PIB em armas que não criam pão. Se distribuíssemos fábricas como se distribuem batalhões, criaríamos riqueza onde hoje só há desespero e nos povos que designamos de subdesenvolvidos.”

“Utopia”, interrompeu Germano, defensor da guerra. “A guerra sempre fez avançar a história. Tecnologia, indústria, poder. Sem conflito, não há progresso.”

A diaconisa Clara, com um lenço simples sobre os ombros, falou baixinho, mas a sua voz atravessou a sala e o olhar de todos:

“O Natal não é progresso. É encarnação. Deus não veio em exércitos, veio na fragilidade. A guerra promete futuro matando o presente.”

Germano riu-se:

“Palavras não detêm tanques.”

Teófilo respondeu:

“Mas canções já detiveram canhões.”

Houve silêncio. Um silêncio frio semelhante ao de 1914.

Clara levantou-se e começou a cantar, com voz trémula:

“Noite feliz…”

Ninguém a acompanhou de imediato. Estavam desacostumados. O mundo moderno ensinara-lhes a gritar, não a cantar juntos.

Mas Miguel, de voz mais forte acompanhou-a. Seguiu-se Teófilo e até Germano, desconcertado, murmurou a melodia que aprendera na infância.

Naquele instante, compreenderam:

a voz do povo não instrumentalizado não divide, une.

E aquilo que divide, mesmo quando se chama progresso, carrega o nome antigo do diabo.

As trincheiras não desapareceram naquela noite.

Mas algo começou a ruir.

Talvez um dia, pensou Teófilo, as trincheiras da Europa, da Rússia, da Ucrânia e do mundo

sejam niveladas não por bombas, mas por vozes.

E talvez, então, a humanidade volte a cantar, não porque venceu, mas porque finalmente aprendeu a viver sem inimigos.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Natal de 2025

(1) A Trégua de Natal de 1914 foi um episódio verídico e espontâneo da Primeira Guerra Mundial, onde soldados inimigos (alemães e britânicos/aliados) cessaram hostilidades em partes da Frente Ocidental.

O evento começou na véspera de Natal, quando soldados alemães decoraram suas trincheiras com velas e cantaram “Stille Nacht”. Os aliados responderam cantando “Silent Night” em inglês. Encorajados, ambos os lados saíram desarmados para a “terra de ninguém”, onde confraternizaram, trocaram presentes (como cigarros e comida), enterraram seus mortos e até jogaram futebol improvisado.

Apesar de ser um poderoso símbolo de humanidade, a trégua foi isolada e única daquele primeiro Natal de guerra, não se repetindo nos anos seguintes devido à proibição dos altos comandos. Seu registro histórico é sólido, baseado em cartas, diários e relatos dos próprios soldados.

SANÇÕES DE OPINIÃO E LIBERDADE EM BRUXELAS: UM ALERTA

Não estará a UE a preparar os Estados membros para uma Democradura?

A recente decisão (1) do Conselho da União Europeia de sancionar doze cidadãos europeus no âmbito da Política Externa e de Segurança Comum, incluindo analistas, autores e comentadores públicos, levanta questões sérias que não podem ser ignoradas numa Europa que se pretende humanista, democrática e fundada no Estado de Direito.

As medidas agora aplicadas, congelamento de bens, proibição de disponibilização de recursos económicos e interdição de entrada ou trânsito no território da União, não são meramente simbólicas. Na prática, configuram uma forma de exclusão civil e económica que afeta profundamente a vida pessoal e profissional dos visados. Embora juridicamente qualificadas como “medidas restritivas” e não como penas criminais, o seu impacto real aproxima-se de uma morte civil parcial, decretada sem julgamento penal, sem contraditório prévio e sem decisão de um tribunal independente.

O contexto político não é neutro

A guerra na Ucrânia não surgiu num vazio histórico nem político. Diversos analistas, académicos e responsáveis políticos, incluindo vozes ocidentais, reconheceram ao longo dos anos que o alargamento da NATO para Leste, a instrumentalização política de divisões internas na Ucrânia e a transformação do país num palco de confronto geoestratégico contribuíram para a escalada de tensões que desembocou no conflito armado.

Reconhecer esta complexidade não equivale a justificar a invasão russa, mas sim a rejeitar leituras simplistas que reduzem a guerra a uma narrativa maniqueísta entre o bem absoluto e o mal absoluto. É precisamente este espaço de análise crítica que parece hoje cada vez mais estreito na União Europeia.

Sanções da opinião: uma fronteira perigosa

O elemento mais inquietante da decisão europeia reside no facto de várias das pessoas sancionadas o terem sido não por actos materiais comprovados, mas essencialmente por discursos, análises e interpretações consideradas “alinhadas” com narrativas russas ou classificadas como “manipulação de informação”.

Aqui surge um problema central: quem define, em última instância, a fronteira entre análise dissidente, opinião crítica e propaganda hostil? Quem manipula quem?

Quando essa definição é feita por um órgão político, sem controlo judicial prévio, abre-se um precedente perigoso. A liberdade de expressão, consagrada na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, deixa de ser um direito fundamental e passa a ser um direito condicionado à conformidade com a narrativa oficial do momento.

Uma comparação desconfortável, mas instrutiva

A comparação com a Inquisição medieval é frequentemente rejeitada como exagerada. Contudo, do ponto de vista histórico-jurídico, ela merece reflexão. A Inquisição, apesar da violência, intolerância e abusos que a caracterizaram, acabou por introduzir, paradoxalmente, elementos processuais como a necessidade de formular acusações, ouvir o acusado e permitir alguma forma de defesa.

No caso das sanções europeias atuais, assistimos a uma regressão inquietante: não há acusação penal formal, não há julgamento, não há defesa prévia. O visado toma conhecimento da sua “condenação” apenas após a sua publicação no Jornal Oficial. A possibilidade posterior de recurso aos tribunais europeus existe, mas ocorre a posteriori, quando o dano pessoal, reputacional e económico já está consumado.

Lições recentes que não deviam ser esquecidas

A experiência das medidas excecionais durante a pandemia da Covid-19 mostrou como, em situações de medo e urgência, direitos fundamentais podem ser suspensos ou relativizados com surpreendente facilidade. O autoritarismo que então foi justificado em nome da saúde pública surge agora sob o pretexto da segurança, da guerra e da luta contra a desinformação.

O denominador comum é claro: a normalização do estado de excepção.

O risco para a Europa

Uma Europa que pune opiniões dissidentes com sanções administrativas de efeito devastador decompõe os valores que proclama defender. A força moral da União Europeia sempre residiu na sua adesão ao pluralismo, ao debate livre e à primazia do direito sobre a conveniência política.

Transformar a divergência intelectual em ameaça à segurança equivale a empobrecer o espaço público e a fragilizar a própria democracia europeia, que, entretanto, se transforma numa democradura. Podemos interpretar a atuação recente das instituições europeias como um passo no sentido de um ‘hiperpresidencialismo’ a nível da UE, em detrimento do poder dos parlamentos nacionais? Seria de questionar a razão porque os Media europeus não tematizam este facto.

Conclusão

Este não é um apelo à defesa de qualquer potência estrangeira, nem à legitimação da guerra. É um apelo à lucidez.
A União Europeia deve combater a desinformação com argumentos, transparência e debate, não com listas negras políticas. Caso contrário, arrisca-se a trocar a sua herança humanista por uma lógica de exclusão que a história europeia conhece bem e que deveria ter definitivamente superado.

A resposta a crises sucessivas (financeira, migratória, sanitária) tem consistido numa transferência permanente de poderes para Bruxelas. Não estaremos a caminho de uma ‘democracia sem escolha’ a nível europeu?

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) Council Decision (CFSP) 2025/2572 of 15 December 2025 amending Decision (CFSP) 2024/2643 concerning restrictive measures in view of Russia’s destabilising activities

https://eur-lex.europa.eu/eli/dec/2025/2572/oj

QUANDO A CONFIANÇA ACENDE A NOITE

Medo, confiança e o sagrado da infância

O medo acompanha o humano desde sempre. Antes de ser emoção psicológica ou instrumento político, é experiência elementar; é a reação do corpo e da imaginação perante o desconhecido. No escuro, o medo intensifica-se porque a realidade perde contornos. O invisível expande-se e, com ele, a sensação de ameaça. No entanto, não é o escuro em si que paralisa, mas a ausência de confiança.

A confiança não elimina a noite da vida! Ela acende uma luz interior que permite caminhar nela.

O medo como experiência originária

Há um medo saudável, inato, ligado à sobrevivência. Ele protege, alerta e prepara o corpo para reagir. Mas há também um medo que nasce quando o mundo deixa de ser percebido como habitável. Este medo não reage a um perigo concreto; reage à incerteza radical.

Na criança, essa experiência é total. O escuro não é apenas falta de luz: é espaço onde a fantasia e a realidade caminham juntas. O medo não é irracional; é proporcional à intensidade do mistério. A criança ainda não separou o visível do invisível, o simbólico do real. Por isso, o medo é também abertura, abertura mal protegida.

A infância como lugar do sagrado

A infância é o lugar onde o mundo ainda se apresenta como presença antes de conceito. O sagrado não é uma ideia, mas sim uma atmosfera. A criança não pergunta se algo é verdadeiro; pergunta se é confiável.

Por isso, a confiança é a primeira forma de fé. Antes de qualquer doutrina, há a experiência de se ser acompanhado. O sagrado manifesta-se como proximidade, como guarda silenciosa, como certeza difusa de que o mundo, apesar do escuro, não é hostil.

Quando essa confiança existe, o medo não desaparece, mas perde o poder de fechar o horizonte.

Uma memória: rezar no escuro

Entre os nove e os doze anos, quando regressava sozinho de casa da minha avó, em Santa Marinha de Tropeço, situada atrás de um monte, a cerca de um quilómetro da casa dos meus pais, em Várzea, eu atravessava a noite envolto no escuro e nas sombras. O caminho era o mesmo, mas à noite tornava-se outro, devido às sombras, aos ruídos, à imaginação desperta. Para uma criança, a noite não é apenas ausência de luz: é espaço povoado de presenças, de figuras indefinidas e de receios que não são ainda distinguidos entre o imaginado e o real.

Não combatia o medo com explicações, mas com uma prática simples aprendida de minha mãe. Rezava todo o percurso uma oração popular. Ao rezar, algo se mudava: o espaço deixava de ser vazio e o caminho tornava-se habitado. O medo continuava presente, mas eu já não estava sozinho. A oração não afastava perigos reais nem imaginários; reinscrevia o medo numa relação. O escuro continuava escuro, mas já não era absoluto. (Talvez seja isso que mais nos falta hoje: não a ausência de medo, mas palavras, rituais e vínculos que nos permitam atravessá-lo sem nos deixarmos governar por ele.) Apresento aqui a oração, uma memória da minha infância, tempo em que o mundo ainda se apresentava como imagem habitada de sentido e onde fantasia e realidade percorriam a mesma estrada.

São Bartolomeu me disse
que não tivesse medo de nada,
nem da noite nem da sombra
nem do que tem a mão furada.

Quatro cantos tem a casa,
quatro velinhas a arder.
Quatro anjos me acompanhem,
se esta noite eu morrer.

Hoje compreendo: aquela oração era um interruptor de luz. Não iluminava o caminho exterior, mas acendia uma confiança interior que permitia avançar; funcionava como teologia elementar. Como criança não precisava de explicações; precisava de saber-me acompanhado. A fé, antes de ser conceito, era companhia no escuro.

Confiança: não é negação do medo, mas abertura à vida

A confiança não é ingenuidade nem fuga da realidade. É uma decisão existencial: aceitar que a vida não é totalmente transparente, mas também não é absurda. Onde há confiança, o medo deixa de ser centro organizador da experiência.

Teologicamente, a confiança é relação. Não se confia no vazio, mas numa presença, nomeada ou não, algo que nos acompanha. A confiança cria ressonância: com o mundo, com os outros, consigo mesmo. Ela abre em vez de fechar, acolhe em vez de excluir.

Por isso, um ser humano confiante não precisa de controlar tudo. Pode caminhar no escuro sem se deixar dominar por ele.

Quando a confiança desaparece, o medo governa

Uma sociedade que perde a confiança fundamental torna-se vulnerável à manipulação. O medo ocupa o lugar do sentido. Fecha-se ao outro, ao futuro, à complexidade. O escuro deixa de ser mistério e torna-se ameaça absoluta.

Por isso, quem governa pelo medo desconfia profundamente da confiança e despreza o humano. Um povo confiante pensa, discerne, dialoga. Um povo dominado pelo medo aceita quase tudo.

Acender a luz sem destruir a noite

A confiança não destrói a noite; ela humaniza-a. Não elimina o medo; coloca-o numa relação maior. Talvez seja esta a tarefa espiritual do nosso tempo: reaprender a acender pequenas luzes interiores que nos permitam caminhar juntos no escuro.

A criança que reza no caminho ensina ao adulto que pensa: a vida não precisa de ser totalmente compreendida para ser vivida. Basta que seja confiável. E quando a confiança se acende, o mundo, mesmo na sombra, volta a ressoar como lar.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo

O FÓSFORO DA IDEIA

A Natureza do Conhecimento

O entendimento não começa com a certeza, mas com uma faísca.
Antes de qualquer verdade se estabelecer, antes de qualquer opinião se formar, há um instante quase imperceptível: o momento em que algo raspa na mente e provoca inquietação. É aí que o conhecimento começa, não como chama plena, mas como fósforo por acender.

Podemos imaginar o processo de compreensão como o acender de um fósforo dentro da cabeça. O gesto inicial é simples, humilde e exige intenção: raspar a cabeça do fósforo contra a caixa. Este raspar é o pensamento, o questionamento, a atenção dirigida. Sem ele, nada acontece. Não há luz, nem calor, nem caminho iluminado.

Pensar, mesmo sem compreender tudo, é um acto precioso. Vivemos frequentemente sob a ilusão de que só vale a pena pensar quando já se alcança a clareza total. No entanto, o “não entender completamente” não é um fracasso: é, muitas vezes, o início do verdadeiro entendimento. Essa primeira ardência, humilde, discreta e até incerta, é o começo da iluminação. A simplicidade do gesto contém já a possibilidade da profundidade.

Da Verdade Exterior à Experiência Interior

Uma ideia pode existir durante anos fora de nós, como um objecto distante, sem que nos transforme. O conhecimento verdadeiro nasce quando uma verdade deixa de ser apenas um conceito exterior e passa a tornar-se experiência interior. Esse momento é de fricção. Algo toca a mente, raspa, incomoda, provoca tensão e daí surge a faísca. Por isso pensar faz doer!

Sem fricção não há ignição. Ideias circulam à nossa volta como pólen ao vento. Muitas nunca encontram um cérebro-gineceu onde possam pousar, germinar e frutificar. Passamos por elas como borboletas de flor em flor, sem consciência de que poderíamos ser abelhas portadoras de vida, responsáveis por prolongar o sentido e não apenas por tocar superfícies.

Ficar “pelo menos a pensar” é já um gesto decisivo. A cabeça que raspa contra o mistério cumpre o primeiro acto essencial do conhecimento. O pensamento não precisa, nesse momento, de resolver tudo. Precisa apenas de estar acordado.

As Etapas do Entendimento

O processo do entendimento segue uma ordem quase orgânica:

Primeiro pensamos; aqui a mente questiona, hesita, procura.

Depois somos tocados; este é o momento em que o coração começa a reconhecer o sentido.

Por fim somos transformados; aqui chega o momento em que o corpo inteiro se orienta para a ação.

A compreensão plena não é apenas intelectual; é existencial. Quando a chama desce da cabeça ao coração, o conhecimento deixa de ser informação e torna-se orientação. Passa a aquecer, a mover, a comprometer.

Para que isso aconteça, é necessário um estado interior particular: abertura, acolhimento e vigilância serena. Uma atenção que observa sem se deixar enredar, que regista sem se perder, que permanece desperta ao novo, ao inesperado que chega para nos transformar.

Essa vigilância não é passividade, mas preparação activa. É uma atitude espiritual e psicológica profunda: a capacidade de esperar no escuro, de escutar sinais interiores, de não se deixar adormecer pela distração constante nem pelo ruído do mundo. Tornar-se sentinela de si mesmo é talvez uma das tarefas mais urgentes da consciência contemporânea e da consciência individual no momento em que o Zeitgeist quer fazer das pessoas meros egos, meras peças de uma máquina anónima.

Parábola do Conhecimento inspirada na Caverna de Platão: A Sala das Sombras

Conta-se que um grupo de pessoas nasceu e viveu toda a vida numa grande sala circular, iluminada apenas por uma fogueira no centro. À volta da fogueira passavam, invisíveis, objectos e figuras que projectavam sombras nas paredes. As pessoas aprenderam a nomear essas sombras, a discuti-las, a discordar sobre elas e até a lutar por saber qual sombra era a verdadeira.

Um dia, uma das pessoas começou a sentir desconforto. As sombras já não lhe bastavam. Algo lhe raspava a mente. Sem saber porquê, aproximou-se da fogueira e sentiu o calor directo pela primeira vez. Doeu. A luz cegou-a. Durante algum tempo pensou que tinha cometido um erro. Apesar disso persistiu.

Ao sair da sala, descobriu o mundo exterior. Percebeu então que as sombras eram apenas reflexos imperfeitos de algo maior. Quando voltou para contar aos outros, muitos não acreditaram. As sombras continuavam claras demais para serem postas em causa.

Aquele que saiu não trouxe certezas absolutas, trouxe consciência. E compreendeu que o conhecimento não nasce da comodidade da sombra, mas da coragem de raspar o fósforo, suportar a luz incerta e permitir que a chama transforme não apenas o pensamento, mas todo o ser.

António da Cunha Duarte Justo

Nota do Autor

O mundo não se transforma quando nos oferecem a luz, mas quando aceitamos o desconforto de a procurar.

As sombras não são o problema; o perigo está em nunca as questionar. Toda a verdade começa como inquietação, como um fósforo ainda por acender que pede apenas atenção e coragem.

Pensar, mesmo sem compreender tudo é já sair da caverna.
A faísca nasce na cabeça, arde no coração e só se torna verdadeira quando aquece o corpo inteiro e o move à ação.

Por isso, ninguém ilumina o caminho de outro por completo. Cada ser humano tem de raspar o seu próprio fósforo contra a caixa da realidade e aceitar que, no início, a luz fere antes de esclarecer. Mas é essa breve dor que nos salva da longa noite da ilusão. Processo igual dá-se no acto da mãe que dá à luz!

Pegadas do Tempo

ENTRE A NOITE DAS SOMBRAS E O DIA DA LUZ

Na aldeia de São Martinho das Fontes, o tempo tinha a respiração lenta do sino. O povo, embalado por essa cadência e embebido pela maresia, guardava na pele uma languidez dourada e, nas veias, o vigor salgado do mar.

O vento, mensageiro de memórias antigas, corria os becos e punha as janelas a falar: umas, em sussurros de receio; outras, em murmúrios de prece.
Era a véspera de Todos os Santos.
E como vai acontecendo com o andar dos tempos, a aldeia já não sabia bem o que celebrava.

Nas vitrines do centro comercial da vila vizinha, abóboras ocas e bruxas sinuosas entretinham um diálogo mudo de piscares luminosos, atraindo tanto os olhos curiosos das crianças como o sorriso contido de adultos.
O riso metálico das promoções fundia-se com o alvoroço infantil, enquanto as mães, rendidas ao cansaço e à pressão da quadra, se deixavam levar entre prateleiras que sussurravam promessas de alegria instantânea.
Uma delas, Dona Amélia, segurava a mão do filho, o Tiago, de sete anos.
O menino queria uma máscara.
Ela hesitou.
Sabia que o dinheiro mal dava para o pão e o gás. Mas, ao olhar em volta, viu as outras mães comprando máscaras para os filhos. Sob o peso invisível daquela comparação, soltou um sorriso resignado e disse:
“Vá lá, Tiago, escolhe uma…”

A criança agarrou uma caveira luminosa.
E Amélia pensou, sem o dizer:

“Será que é isto que o mundo quer que eu ensine ao meu filho? Que o riso vem do medo e a alegria do disfarce?”

No regresso, o vento pareceu escutar-lhe o pensamento e murmurou-lhe ao ouvido:

“Nem tudo o que brilha é luz, minha filha. Há brilhos que apenas escondem o escuro.”

À noite (véspera de Todos os Santos), a aldeia parecia ferida ao encher-se de sombras. As crianças, enfeitadas de demónios e fantasmas, percorriam as travessas com risos que não pertenciam à infância, e batiam às portas com vozes de ameaça disfarçada:                                                                                                                                                                  “Doçura ou travessura!”

E o medo, vestido de brincadeira, passeava-se livremente.
Os risos pareciam leves, mas deixavam no ar um sabor vazio, como o de um pão sem miolo, e uma frieza reminiscente das tardes escuras de novembro.

Sentia-se uma tristeza nas casas meio adormecidas na sua caiada solidão, a contemplar as faces de abóbora que, em papel, consumiam de uma vez só o seu fogo efémero.
As velhas oliveiras da encosta, que guardavam na seiva o sal das lágrimas e da oração, estremeciam e uma delas, muito velha, sussurrou à lua:

“Tantas gerações de mãos que rezaram sob mim… e agora vejo crianças mascaradas de fantasmas, brincando com o que nunca deviam temer.”

A Lua, de rosto magro e saudoso, perguntava-se se os homens ainda se lembravam que ela também iluminava os caminhos dos anjos, mas respondeu:

“Não é o medo o problema, minha amiga, é o esquecimento. O homem esqueceu que a morte é caminho, não destino.”

Mas o tempo, que tudo transforma, caminhou sobre a noite, e quando os galos cantaram, na manhã seguinte, o sino da igreja ergueu-se sobre a aldeia como um coração que desperta.

Era Dia de Todos os Santos.
E as mesmas ruas que na véspera ecoavam gargalhadas, agora acolhiam passos lentos e vozes baixas.
As pessoas subiam ao cemitério com flores e velas, como quem sobe um monte de esperança. E as campas, antes frias, sorriram sob o toque das mãos humanas que as   vestiam de flores e velas. Ali até as almas dos finados pareciam espreitar entre as pétalas e o incenso, e as campas, que tantas vezes guardaram lágrimas, murmuraram uma melodia suave:

“Não temais a noite, que ela é apenas o véu da aurora.”

Tiago, o menino da máscara, foi com a mãe ao cemitério.
Levava na mão um raminho de crisântemos e no bolso, ainda o resto do doce da noite anterior.
Ao chegar junto da campa do avô, Dona Amélia ajoelhou-se.
Acendeu uma vela.
O lume tremia como uma oração viva.

Tiago perguntou:
“Mãe, o avô ouve-nos?”
E ela respondeu, num murmúrio que parecia também falar consigo própria:
“O avô vive noutro tempo, filho. Num tempo que não passa.”

O menino ficou a olhar o lume e, de repente, retirou do bolso o doce que tinha guardado e colocou-o junto da vela.
“É para o avô.”
E sorriu já com um sorriso leve, sem medo.

A chama comovida dançou mais alta, e o vento soprou suavemente.
Parecia aprovar o gesto.

No dia de Todos os Santos, as crianças da aldeia, já sem máscaras, saíram outra vez às ruas, mas agora, com os bolsos vazios e o coração cheio, dizendo:
Pão por Deus!”

E cada porta que se abria era uma bênção partilhada, não um negócio programado.
Quem dava, dava por amor, pelas almas dos seus.
Quem recebia, levava o pão como símbolo de amor e memória.

A aldeia parecia renascer nesse gesto simples: um gesto que a indústria não podia vender, porque não cabia em embalagem.

À tardinha, o sol desceu como um sacerdote sobre o vale e o velho padre da paróquia, sentado ao pé do cruzeiro, falava para quem quisesse ouvir:

“As sombras só assustam quem esquece o sol.
O Halloween celebra o medo da morte.
O Dia de Todos os Santos celebra a vida que não morre.
Um vende máscaras, o outro revela rostos.
Um alimenta o vazio, o outro sacia a alma.”

E acrescentou, olhando para as estrelas:

“Aqueles que brincam com a morte como se fosse um brinquedo, acabam por esquecer o valor da vida.
Mas quem contempla a morte à luz de Deus, encontra nela a porta da eternidade e vive sem medos.”

Naquela noite, Dona Amélia adormeceu em paz.
Sonhou com o avô de Tiago, sentado sob uma grande oliveira.
Ele sorria e dizia:

“Ensina o menino a escolher a luz, mesmo quando o mundo vende trevas em promoção.”

E quando o sino tocou de novo ao amanhecer, o vento levou consigo a voz do tempo:

“Entre a Noite das Sombras e o Dia da Luz, o homem escolhe o que servir: o medo ou o amor.”

Na aldeia de São Martinho das Fontes, nunca mais o Halloween teve o mesmo sabor.

As crianças continuaram a brincar, mas agora sabiam que o medo só é senhor enquanto esquecemos o Amor.

E quando chegava o “Pão por Deus”, cada pedaço de pão era uma semente de eternidade partilhada entre o céu e a terra, entre os vivos e os que já vivem noutra forma de luz.

 

António da Cunha Duarte Justo

© Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10399

 

Nota do Autor

A sociedade veste o medo de festa e chama-lhe cultura.
Mas há uma diferença profunda entre celebrar a morte e celebrar os mortos.
A primeira afasta-nos do sentido; a segunda reconcilia-nos com o mistério.
O Halloween (noite de 31 de Outubro) alimenta o comércio das sombras; o Dia de Todos os Santos (1 de Novembro) alimenta a memória da luz. . O Advento do Estranho e a Memória do Sagrado.

Num tempo em que se poderia celebrar a autenticidade dos costumes locais, assiste-se à estranha ascensão do Halloween. Esta festividade importada, com o seu fascínio pelo macabro e pelo efémero, vai gradualmente ofuscando o significado profundo de uma tradição enraizada: a comemoração do Dia de Todos os Santos.

Esta, independentemente da base que a motiva, é um momento de recolhimento e de raiz. Materializa-se em reuniões familiares e nas visitas serenas aos cemitérios, gestos simples que têm por fim primordial recordar os que partiram e, assim, honrar a herança que nos define. É uma celebração que valoriza a memória afetiva e a continuidade cultural.

No entanto, o significado cristão deste feriado vê-se agora ameaçado por uma cortina de névoa e fantasia. Enquanto a fé cristã celebra a vida eterna e a santidade, que é um olhar de esperança voltado para a transcendência, o Halloween oferece um culto ao medo e a uma certa fealdade vazia. Para aqueles que anseiam por esta estética do tenebroso e do desprovido de sentido, ele representa a celebração de um feriado profundamente deprimente, um espetáculo vazio que esquece a serenidade da eternidade em favor do susto passageiro.

Ao longo do tempo, tradições e costumes diversos sobrepõem-se. A Igreja Católica, num processo de inculturação, adaptou vários costumes bárbaros à nova cultura vigente, criando rituais substitutos. Um exemplo notável é a substituição dos rituais pagãos destinados a afugentar o medo da morte pela celebração do Dia de Todos os Santos. Atualmente, contudo, são os interesses comerciais que mais proveito tiram destas tradições, ao promoverem e acentuarem os antigos ritos, como se vê na popularização do Halloween.

Talvez o desafio de cada um de nós hoje seja devolver às nossas crianças o sentido do sagrado, para que saibam que, na eternidade, a morte não é um fim, é apenas um novo começo de amor.

António da Cunha Duarte Justo