ESPECTADOR DE SOMBRAS

O Professor Amadeu desligou a televisão com um suspiro que mais parecia o ar a escapar de um pneu velho. No écran, a imagem de um agente da ICE, com cara de bulldog, arrastava uma mulher que chorava por um filho que ficara para trás, num cenário de chuva e néon. Era uma imagem violenta, comovente e demasiado real. Foi por isso que o Professor, um homem que passara a vida a ler entrelinhas, sentiu a picadela da dúvida. Aquela chuva batia num ângulo demasiado perfeito nos rostos e o desespero tinha uma coreografia estudada.

No dia seguinte, a notícia do escândalo rebentou como uma pequena bomba nos jornais sérios. O heute journal alemão admitia, sob pressão política, ter exibido imagens geradas por inteligência artificial. Um líder regional, um tal de Rena Palatino, exigia “máxima transparência”, como quem pede a um mágico que revele o truque depois de o espetáculo acabar. Amadeu sorriu com amargura. A ponta do icebergue, pensara ele. O monstro verdadeiro navegava nas águas escuras por baixo.

Na tertúlia semanal da livraria “A Central”, o assunto pegou fogo. A D. Emília, uma reformada da educação que devorava romances históricos como se fossem pão quente, estava indignada.

“Mas como é possível? A ZDF é uma instituição pública! Pagamos para que nos mintam com bonecos de computador? E depois falam da China, da Rússia… A hipocrisia é o motor do mundo!”

Joaquim, um designer gráfico de olhar cansado que vivia de campanhas publicitárias, encolheu os ombros.

“Hipocrisia, D. Emília? É negócio e isso é a política. É a versão deles, a mais útil. A senhora ainda acredita no Pai Natal da objetividade? A imagem já não prova nada. Prova o que se quer que prove. Nós vendemos sonhos em pílulas e eles vendem medos em pixels. Tudo sai da mesma fábrica.”

Amadeu ouvia, absorto. Lembrou-se do seu aluno mais brilhante, um miúdo de óculos fundo de garrafa chamado Tomás, que um dia lhe dissera: “Professor, a realidade está sobrelotada. Por isso a maioria prefere viver nos subúrbios da imaginação dos outros.” Tomás tinha razão. Estavam todos a ser realojados à força nesses subúrbios.

Foi nessa noite que Amadeu sonhou com o Icebergue. Não um icebergue de gelo, mas um enorme bloco de dados translúcidos, a flutuar num mar de tinta preta. No cimo, a ponta luzidia mostrava as imagens falsas da ZDF, o escândalo momentâneo. Mas por baixo da linha de água, a massa gigantesca, pulsante e fria, era feita de narrativas sobrepostas: a condenação europeia do colonialismo enquanto as marcas de roupa exploravam o suor asiático; os discursos de diversidade enquanto se erguiam muros invisíveis dentro das próprias cidades; o elogio da liberdade de expressão enquanto se cancelavam vozes desconformes. E no núcleo duro do icebergue, uma máquina a cuspir ideias pré-fabricadas, o imperialismo mental que era uma confeção em série do pensamento que justificava a concentração das energias nas fábricas de guerra. Ao acordar Amadeu ficou com a sensação de ter visto o motor do mundo.

Os dias seguintes confirmaram-lhe a visão. Viu as mesmas técnicas, mais suaves, mais insidiosas, a funcionar na cobertura dos conflitos. Nos relatos sobre os extremismos, fosse ele de esquerda ou direita, a mão invisível do politicamente correto, o vento das forças gerentes, soprava sempre para o mesmo lado, ajustando a vela da narrativa para que o barco não virasse. A verdade factual, essa mercadoria incómoda e pesada, era atirada ao mar para aligeirar a carga. Sim, até porque a navegação na sociedade é por vezes como navegar em mar alto!

Amadeu pensou que a sociedade, se estava a tornar num enorme ecrã de televisão e o que não passava no ecrã, não existia. As pessoas, cada vez mais, criavam a sua própria imagem da realidade a partir dos fragmentos que o ecrã lhes atirava, ignorando ou distorcendo o que não encaixava. A tentação individual tornara-se dogma coletivo. O relativismo, esse parasita, tinha roído as colunas culturais, os alicerces da identidade. Já não se pertencia a um lugar, a uma história; pertencia-se a uma narrativa. A Europa, julgando-se o umbigo do mundo, o farol da razão, descobria-se agora apenas mais uma fábrica de mitos, competindo com todas as outras. Já não conquistava terras, conquistava cérebros com os seus produtos supervisionados: a democracia de fachada, os direitos humanos seletivos e a moral de cartilha.

Uma tarde, ao passear pelos jardins da Fundação, viu um grupo de jovens. Falavam alto, com a convicção dos que sabem. Falavam de política, de justiça. Amadeu aproximou-se, atraído pela energia. Um deles, de cabelo rapado e olhos vivos, gesticulava:

“Não, tu não estás a ver! O que interessa não é se aquilo aconteceu, é o que aquilo significa. As imagens da IA podem ser falsas, mas a mensagem é verdadeira! A brutalidade existe, e a imagem serve para a denunciar! O real é um detalhe, o importante é a intenção!

Amadeu sentiu um frio a subir-lhe na espinha. O mundo estava virado do avesso. A mentira técnica justificava-se pela verdade moral que se lhe queria atribuir. O fim santificava os meios, e os meios eram agora de uma plasticidade infinita. A moral e as atitudes vinham depois, sim, como a D. Emília dissera. Vinham depois da imagem, depois da comoção, depois do voto. A vontade humana, servida pela máquina, criava realidades mais perfeitas, mais eficazes, mais digeríveis do que a própria realidade, que é sempre confusa, contraditória, aborrecida.

Naquela noite, fechado no seu escritório forrado de livros em que cada um deles era uma tentativa, talvez falhada, de agarrar um pedaço do real, o Professor Amadeu sentiu o peso de uma guerra. Não uma guerra de exércitos, mas uma guerra total dos elementos e das estruturas, dos cidadãos e das instituições. Uma guerra entre o que se vê e o que é, entre a vontade de moldar o mundo à nossa imagem e a imaginação necessária para o compreender. Faltava o realismo, a consciência da nossa pequenez e do nosso lugar no espanto da existência. Faltava a humilde procura de sentido, essa viagem que não se faz com programas fabricados.

Olhou para a televisão desligada. O écran negro devolvia-lhe o seu próprio reflexo, um velho cansado, um espectador de sombras. Mas no fundo daquelas pupilas, espreitava ainda uma chama teimosa: a certeza de que, mesmo que todos os espelhos estejam partidos, a busca por um reflexo inteiro é a única coisa que nos impede de sermos, nós também, fantoches de silício e tinta.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

O ESPELHO DE LUZ PÁLIDA

A verdade tornou-se um espelho partido; cada fragmento reflete a vontade de quem o segura, e a imagem do todo é apenas a soma das nossas solidões.

Na cidade de Babel Online, onde os rios de dados corriam mais fundo que o antigo Reno, havia um homem chamado Tony que ganhava a vida a limpar vidros. Não os vidros comuns das janelas, mas os écrans. Os grandes, os pequenos, os que revestiam as paredes das praças e os que dormiam no bolso das pessoas. A sua profissão, que muitos julgavam obsoleta, era na verdade essencial porque as superfícies por onde o mundo se via estavam sempre embaciadas pela transpiração das imagens.

Numa tarde de nevoeiro digital, a filha de Tony, uma jovem estudante de artes chamada Mina, entrou em casa com o rosto mais pálido que o ecrã do seu tablet. “Pai”, disse ela, “acabei de ver no programa Jornal do Horizonte um vídeo da América. Agentes com capacetes negros arrancavam crianças dos braços das mães, numa rua de tijolos vermelhos. As lágrimas das mães congelavam no ar. Era… horrível. Perfeito demais.”

Tony, que polia meticulosamente a superfície negra da sua velha televisão (desligada há meses), não respondeu. Apenas soprou dela uma partícula invisível.

No dia seguinte, o Presidente da Província das Vinhas, um homem de fato escuro e sorriso público, apareceu nos mesmos écrans. A sua voz, grave como um violoncelo desafinado, exigia “máxima transparência” sobre a origem daquelas imagens. Mas Tony, ao limpar o mármore do átrio da estação pública, viu os produtores a rirem-se, enquanto um deles dizia: “Transparência? Nós damos-lhe é brilho. E o brilho, meu caro, é a mais opaca das superfícies.”

Foi então que Mina descobriu a verdade. O vídeo das deportações brutais não tinha sido filmado, mas tecido por uma inteligência artificial, um tear digital que fiava realidades a partir de palavras-chave: “agressividade”, “ICE”, “injustiça”. As imagens eram uma ideia feita carne de pixel, uma vontade humana concretizada por uma máquina. A notícia falsa não era um erro, era uma arma de confeção fina, um prato servido à população para que ela mastigasse a indignação correta, com o talher adequado à política do dia.

“Estás a ver, Mina?”, murmurou Tony nessa noite, apontando para o écran da cidade lá fora. “A Europa olha-se ao espelho e julga ver o mundo inteiro refletido. Mas esse espelho foi forjado nas nossas próprias fundições de pensamento. Chamamos-lhe ‘informação’, mas é um espelho deformado, um artefacto que nos mostra mais bonitos, mais éticos, mais certos do que os outros. E depois apontamos o dedo ao espelho do outro, ao dragão de porcelana do Oriente, ao urso siberiano, chamando-lhe falso. Isso é hipocrisia, minha filha, é o perfume do nosso império.”

Mina compreendeu então o conceito do pai quando falava de “imperialismo mental”. Já não eram navios ou canhões que partiam para conquistar, mas ideias pré-confecionadas, embaladas em celofane emocional, enviadas por satélite. A Europa, esse velho umbigo do mundo, já não vendia gráficos nem mapas; vendia a lente através da qual os mapas deviam ser lidos. E quem controla a lente, controla a paisagem.

A partir daquele dia, Mina começou a observar. Viu como os mesmos canais que mostravam a brutalidade fabricada na América e na Rússia, mas tratavam os incidentes locais com uma esponja suave. Viu como a violência de extremistas de direita era mostrada com uma lente bipartida, enquanto a dos extremistas de esquerda era filtrada por um nevoeiro poético que a tornava quase uma “expressão artística”. A verdade, percebeu, não era uma questão de facto, mas de ajustamento ao vento político correto. Era um facto feito à medida da região e da estação do ano.

Numa feira de arte digital, Mina encontrou uma instalação chamada “O Confeitor”. Era uma cozinha high-tech onde qualquer pessoa podia soprar um sentimento e receber, num prato, uma imagem pronta a consumir. Mina admirada, soprou então o sentimento „medo da imigração” e a máquina devolveu-lhe uma fotografia de um homem moreno a assaltar uma velhinha. Soprou “amor pela Europa” e a máquina gerou um pôr-do-sol sobre campos de trigo dourado, sem migrantes, sem fios elétricos, sem fábricas. A realidade era um menu, mas as pessoas preferiam o prato do dia.

Entretanto, uma velha filósofa chamada Sofia, que vivia num bairro esquecido pelas câmaras, dizia aos poucos que a ouviam: “Estamos numa guerra total, numa guerra mais que de exércitos. É uma guerra entre a vontade e a imaginação. A vontade quer dominar, criar uma realidade que lhe obedeça. A imaginação, essa, é livre, mas foi capturada e posta a trabalhar nas fábricas de ilusões. O resultado é que já não sabemos quem somos. As colunas que sustentavam a nossa identidade, como a geografia, a religião, a história, a comunidade e a família, foram dinamitadas por esta explosão de imagens contraditórias. Somos consumidores de sombras numa caverna digital, mais artificial que a caverna de Platão, e aplaudimos as correntes porque estão na moda.”

Mina sentiu um frio na alma a invadir-lhe todo o corpo. Percebeu que a grande narrativa da Europa, a de ser o farol da razão e da verdade, estava a ser corroída por dentro. A confiança, esse cimento social, dissolvia-se como açúcar na água. E em seu lugar, subia uma maré de relativismo absoluto. Se tudo pode ser fabricado, nada é verdadeiro. E se nada é verdadeiro, então a única verdade é o poder de quem fabrica.

Uma noite, Tony, o pai de Mina, levou-a ao topo da torre mais alta da cidade. Dali, viam-se os milhares de écrans das casas, todos a brilhar no escuro, como pirilampos enjaulados. “Vês?”, disse o pai. “Cada uma daquelas luzes é uma alma a ser alimentada por imagens que não escolheu. Mas olha e repara ali, naquela janela sem écran.”

Mina olhou. Numa única janela, a luz era diferente. Não era o azul frio de um monitor, mas o amarelo quente de uma vela. Dentro, uma família estava sentada à volta de uma mesa, a conversar.

“Esses”, disse Tony, “são os últimos resistentes. Os que ainda acreditam que a realidade não precisa de ser fabricada, mas apenas vivida. Aqueles que sabem que a verdade não é uma imagem, mas um rosto que se olha, uma mão que se toca. Eles estão conscientes que a procura de sentido não se faz com algoritmos, mas com a limitação bendita de ser humano; de ser um corpo que sente fome, cansaço, amor. Um ser que, por mais que tente, não pode estar em todo o lado nem ver tudo. E é nessa limitação que habita a autenticidade.”

Mina desceu da torre e, no dia seguinte, recusou-se a ver o Jornal do Horizonte. Saiu para a rua e caminhou até ao bairro da velha Sofia. Sentou-se num banco de jardim, ao lado de uma mulher que lia um livro de papel, ao som de pássaros verdadeiros. Mina olhou para as nuvens, que não obedeciam a nenhum guião, e para a erva, que crescia sem licença de transmissão.

E ali, entre a vontade do mundo que queria impor-lhe uma visão e a sua própria imaginação, que começava a libertar-se das imagens feitas, Mina sentiu, pela primeira vez, o peso leve de ser apenas uma pessoa. Um ponto minúsculo no mapa, mas um ponto real. Não um consumidor de cultura, mas um ser humilde atento e aprendiz, que se sabe orientado por uma voz espiritual que habita o seu coração.

O imperialismo das ideias, percebeu, só vence se não houver ninguém do lado de fora a olhar para o céu.

No reino da imagem fabricada, o maior acto de rebeldia é ainda procurar a porta da realidade, mesmo sabendo que, para a abrir, talvez seja preciso derrubar a nossa própria imagem refletida.

António a Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10789

Nota:

Ao escrever estas linhas, fica em mim um cansaço que não é do corpo, mas da alma. É a vertigem de ver o mundo dissolver-se em narrativas concorrentes, onde o facto é apenas o ponto de partida para um campeonato de versões que nos torna consumidores de sombras sem o notarmos. Sinto a solidão de quem, no meio do mercado, continua a preferir o sabor genuíno do fruto, por mais imperfeito que seja, ao invés da perfeição plástica e doce do fruto fabricado. Mas sinto também uma clareza paradoxal. A mesma tecnologia que nos afoga em ilusões, ilumina, pelo seu abuso, a nossa fome de verdade. A mesma hipocrisia que denunciamos nos outros, ensina-nos a vigiar a nossa própria tendência para moldar o mundo à medida da nossa vontade. No fundo, talvez o observador não esteja condenado à mera constatação da miséria. Talvez a sua teimosia em distinguir a imagem da coisa seja o primeiro, pequeno e frágil passo para reconstruir, com as mãos vazias, mas a consciência desperta, um pedaço de chão firme onde valha a pena viver. A mim o que emocional e existencialmente me acompanha é o protótipo Jesus Cristo.

 

O TEMPO DE DESINTOXICAÇÃO DE CORPO-MENTE E ALMA

A caminho de nós mesmos

Somos feitos da mistura de céu e terra. Caminhamos sobre o solo instável do tempo e do espaço, levando connosco aquilo que fomos e aquilo que ainda não somos, na saudade de algo já experimentado.

Chamamos futuro à direção que nos atrai. Mas o futuro não existe senão como perspetiva. O tempo é um fio invisível que não corre fora da vida. O tempo é uma propriedade do existir, e só se manifesta onde há corpo, relação, presença. O tempo acontece no espaço da experiência.

A Quaresma surge, assim, como um tempo de dádiva. Um tempo oferecido. Um intervalo sagrado no calendário da pressa, não como coisa a gerir, mas como dádiva a habitar.

Vivemos entre o amanhecer e o pôr do sol. Entre o nascer e o declinar da luz. E, ao longo desse ciclo quotidiano, acendemos pequenas claridades no caminho, não para brilhar, mas para ver melhor o caminho. A verdadeira grandeza raramente faz ruído porque é discreta e orienta por dentro.

No entanto, o mundo em que vivemos parece dominado pelo estrondo. Em público, o tom é de combate permanente. As palavras tornaram-se armas, e a autodefesa verbal ocupa o lugar do diálogo. A comunicação social move-se muitas vezes ao ritmo da catástrofe e da indignação, como um coração acelerado que já não sabe repousar; faz lembrar ondas rítmicas que se repetem e nos arrastam..

Certamente por isso será urgente reaprender o silêncio. Talvez seja tempo de um desarmamento verbal consciente a nível individual e público. Doutro modo muitos fecham-se porque por haver coisas que ultrapassam o seu raciocínio e experiência e já terem demasiados quebra-cabeças têm de se fechar para não sofrer, cientes de que o que não se sabe não existe. A abstinência de notícias e de Telejornal durante um certo tempo certamente daria oportunidade a ter sensações salutares.

Durante quarenta dias, poderíamos exercitar um jejum da agressividade, da opinião imediata, da reação instintiva. Um jejum da linguagem inflamada, não como fuga do mundo, mas como resistência à barbárie próxima e distante, na política como nas relações quotidianas.

A necessidade humana de fazer pausa

Há tantos caminhos para a abstinência como são os das pessoas. Desde sempre, as culturas e as religiões inscreveram no calendário pausas obrigatórias. Interrupções no fluxo da vida produtiva (o conhecido sabat). Esses tempos de renúncia não empobrecem, pelo contrário, abrem a mente e ajudam-nos a reaprender o essencial e atingirmos a autoconsciência.

O ser humano precisa de rituais e festas para se aventurar, para sair de si e regressar transformado. Sem esses marcos, a vida torna-se um movimento repetitivo, como alguém que tenta nadar sozinho numa piscina vazia fazendo um esforço sem horizonte. O Carnaval, paradoxalmente, também anuncia isso: depois do excesso, nasce a necessidade de recolhimento.

Os cristãos conhecem quarenta dias de jejum. Os muçulmanos vivem quatro semanas de Ramadão. Outros seguem apenas o ritmo imposto pelo calendário civil e muitos outros criam as suas próprias pausas: jejuns pessoais, silêncios escolhidos, retiradas breves do excesso para auto-desintoxicação .

Para uns, trata-se de bem-estar físico e para outros, do cuidado integral, corpo, mente e alma no seguimento da velha fórmula de Junius Juvenal que no século I d.C.  recomendava “mente sã em corpo são”, um aviso sempre atual, pois não há nada mais importante do que ter uma mente equilibrada e um corpo saudável.

Há quem abdique de álcool ou de café e há quem abdique do ruído, e crie um tempo de silêncio no seu dia.

De facto, a vida não se reduz à sucessão de tendências, estímulos e notícias de última hora. Viver exige prática. Exige também espaço para errar, para experimentar ideias improváveis, para finalmente reconhecermos que ainda temos muito a aprender com a própria vida.

O corpo também precisa de rejeitar

O corpo não está apenas cansado, encontra-se por vezes saturado porque demasiadamente ocupado na digestão do consumo diário.

Saturado de consumo, de estímulos, de digestões contínuas, não só alimentares, mas emocionais e simbólicas. Também o corpo precisa de rejeição, de limpeza, de intervalo.

Jejuar é permitir que algo saia, é criar espaço. Trata-se de uma desintoxicação que não é apenas física, mas existencial. Um gesto de disciplina e autocontrolo que não visa a perfeição, mas o reequilíbrio.

Na tradição cristã, a Quaresma é sobretudo um tempo de autorreflexão. O ritual, quando vivido conscientemente, transforma-se em prática interior. E aquilo que parecia apenas repetição torna-se caminho.

Antes da Páscoa, experimenta-se o quotidiano de outra forma. A atenção torna-se mais fina. O olhar mais sensível. A consciência social mais desperta.

As comunidades religiosas recordam-nos que a rudeza não é inevitável, nem na linguagem, nem na política, nem nas relações humanas.

Quem se atreve a descer ao interior, a mergulhar no seu interior e a confrontar o próprio comportamento, experimenta o Todo, o que chamamos Deus, sentido ou mistério. E dessa experiência nasce algo que se expressa e transmite em abertura, bondade, atenção plena, compaixão.

A mudança deixa então de ser abstrata e entra na vida de forma a sentirmo-nos reaalizados.

Entre o limite e a liberdade

Durante este tempo, vive-se entre a intenção e a abstinência. E é precisamente o limite que torna tudo mais concreto.

Caminhar pelo Jardim do Getsémani é aprender a olhar o fracasso sem desespero e a reconhecer a vulnerabilidade como parte da condição humana, pois também a derrota faz parte da travessia humana. Na realidade há que aceitar que nem toda a fidelidade é triunfante.

Então pode viver-se com mais consciência e aprender-se a lidar melhor consigo próprio e com os outros.

O jejum revela-se, assim, uma prática de responsabilidade por si e pelo mundo. É uma verdadeira pedagogia da liberdade.

O que inspira profundamente no cristianismo é o reconhecimento da soberania do indivíduo, não isolado, mas em tensão criadora com a comunidade. A fé não anula a singularidade; pelo contrário apenas a chama à maturidade.

Jejuar é, por isso, um gesto pessoal e comunitário. Um tempo de reflexão partilhada. Um espaço onde o “eu” e o “tu” não se fecham sobre si mesmos, mas se abrem a uma terceira realidade que se expressa naquilo que liga, cria horizonte e dá sentido à vida em comum.

Um tempo para regressar

A Quaresma, no fundo, não é fuga nem moralismo, mas sim um tempo para regressar a si mesmo, ao todo integral, pois é tempo de regresso ao essencial, ao corpo que sente, à mente que pensa e à alma que escuta.

Durante ela desintoxica-se o corpo, desanuvia-se a mente e purifica-se a alma, para caminhar, mais levemente, na senda de nós mesmos e do nós, possivelmente na sombra de Deus.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

CAMINHO

Não busco a verdade como quem prende,
mas como quem caminha sem chegar.
A luz não é um prémio que se entende:
é companhia ao longo do olhar.

Há um silêncio acima do pensamento,
um céu interior sem explicação;
às vezes sinto, leve, o firmamento
descer inteiro ao centro do coração.

Não é milagre, nem é fantasia,
é só o real abrindo outra dimensão.
Um instante basta e a alma se alia
ao que não cabe em forma ou definição.

Sou feito de razão, mas não me fecho:
a mente é porta, não é o lugar.
O mistério respira no entremeio
do que eu consigo e não sei nomear.

Procuro sem vontade de possuir,
porque a resposta é sempre movimento.
A vida é mais do que o simples existir:
é ser pergunta dentro do momento.

E quando a dor me corta e me desfaz,
descubro uma presença que não cai,
não é certeza, é uma funda paz,
um chão invisível que me atrai.

Assim caminho: não para alcançar,
mas para ser, em busca, revelado.
A verdade não é algo a conquistar:
é o próprio passo, lúcido e amado.

António da Cunha Duarte Justo

©  Pegadas do tempo

 

CONTO DA CABRA-CEGA E DO ARCO-ÍRIS NO DIA DOS NAMORADOS

No dia em que o calendário se enfeita com corações de papel e as montras das ourivesarias parecem altares pagãos, Valentim acordou com a sensação de que lhe haviam trocado a alma durante a noite. Não era qualquer alma, era a dele, aquela que trazia desde miúdo, com ferrugem nos cantos e uma rachadela por onde às vezes entrava o vento. Mas naquela manhã de 14 de fevereiro (dia dos namorados), a coisa lá dentro parecia outra! Sentia-se mais leve, mais arejada, como se tivesse mudado de casa sem dar cavaco.

“É o amor que paira no ar”, suspirou a vizinha do terceiro, varrendo as folhas secas para cima do tapete de entrada. “Cheira a primavera antecipada, cheira a beijo na boca, cheira a prenda com laço.”

Valentim, que não era tolo nem cego, mas apenas um homem com o coração ao pé da boca, meteu a mão ao peito e sentiu que o órgão batia descompassado, como um tambor em dia de festa na aldeia. E pensou: “O amor é mesmo um ser sem lar. Anda aí, de mochila às costas, à procura de um sítio onde pendurar o chapéu.”

E foi assim que decidiu sair para a rua, na condição de candidato a anfitrião.

A Praça da Ribeira, naquele dia, parecia um jogo de cabra-cega em ponto grande. Pelas esquinas, pares andavam às tontas, de olhos vendados pela ilusão, braços esticados à procura da metade que lhes faltava. Uns esbarravam em postes, outros em paixões antigas, e a maioria agarrava-se a quem lhes passava ao lado, convencidos de que aquele era o pedaço de alma que andavam a reclamar desde sempre.

Valentim parou no largo da feira e viu: um rapaz magro, com ar de quem acabou de sair de um poema do Pessoa, andava às voltas atrás de uma miúda de tranças. Ela esquivava-se, ele lançava-se, e aquela coreografia de aproximação e fuga era coisa tão bonita de se ver! (Aquela cena fazia-o lembrar uma tarde de festa na aldeia – S. Pedro em Várzea – de outros tempos onde a rapaziada em bando atrás das moças, também elas em magote, dando voltas à capela com risos que eram setas e olhares que eram redes. Elas escarneciam deles, sim senhor, mas era só para afugentar a própria timidez, que a vergonha, quando aperta, disfarça-se de remoque. E no fundo, bem no fundo daquele alarido todo, o que elas faziam era lançar o desejo, mas um desejo de ponta de pé, camuflado em sorrisos, para não assustar o sonho e para que ele, o rapaz, tivesse ainda de merecer a aproximação. Era o jogo antigo, o de sempre, na caça que se faz de presa, e a presa que se faz de caça, numa dança em que ninguém queria cair, mas todos queriam ser apanhados). Chamam-lhe flirt, que é uma palavra importada com menos espinhas do que “namoro”. É uma dança que dura o tempo de um arco-íris pois nasce da sombra, mostra as cores todas e ameaça desaparecer mal a chuva pare.

“É a procura”, murmurou Valentim, que tinha queda para filosofias de feira. “Andamos todos de mão estendida, à procura do arco-íris. Uns encontram a panela de ouro, outros encontram um caldeirão vazio.”

Então Valentim, como ser que também anda à procura, lembrou-se do velho imperador romano, aquele tipo de toga e coroa de louros, que um dia se fartou de ver tanto amor à solta e mandou prender um tal Valentim (seu homónimo, coitado) só porque ele teimava em casar os jovens às escondidas. O amor sempre foi coisa subversiva e sempre andou à margem da lei, a fazer das suas.

Ao fim da tarde, quando o sol já se despedia e a noite ensaiava os primeiros passos, Valentim encontrou-a. Estava sentada num banco de jardim, a ler um livro com a capa virada para cima, como quem não quer nada. Era morena, tinha um sorriso de cantos duvidosos e olhos que pareciam dois faróis na neblina a marcar presença.

“Posso?” perguntou ele, apontando para o banco.

Ela encolheu os ombros, que é como quem diz “se quiser, mas não se admire se eu não falar”.

Houve um silêncio comprido, daqueles que ou se cortam à faca ou se transformam em conversa. Valentim, que era homem de iniciativa, atirou:

“Sabia que beijar faz bem à saúde? É remédio para o corpo e para a alma. Um beijo mobiliza trinta músculos da cara, acelera a circulação, e ainda manda um recado ao sistema imunitário a dizer que está tudo em ordem.”

Ela ergueu uma sobrancelha, desconfiada.

“E o senhor é médico?”

“Sou jardineiro do espírito” respondeu ele, sem pestanejar. “Trato da terra para que ela dê flores. E acredito que a lealdade à terra e o respeito pelas suas energias são o princípio de tudo. Até para se ter um vislumbre do céu, é preciso ter os pés assentes no chão.”

Ela riu-se. É verdade que foi um riso pequeno, mas chegou para iluminar a paisagem.

“O senhor é doido e convencido!”

“Sou. Doido por amor. Esta é a única loucura que vale a pena.”

E foi assim que a conversa pegou. Falaram de tudo e de nada. Do imperador romano, da Bíblia (que diz que o amor não é roupa que se vista e se despe ao sabor da moda), da falta que o beijo faz nos casamentos antigos, quando a rotina se senta no sofá e já ninguém se lembra de alongar os lábios.

“É uma pena”, suspirou ela. “O amor devia ser como o arco-íris, devia mostrar todas as cores, sem vergonha.”

“Mas é”, respondeu Valentim. “O amor tem muitas tonalidades. Umas são mais escuras, outras mais claras, mas todas elas fazem parte do mesmo feixe de luz. Amar é isso mesmo! É ser arte ferida, é ser espelho partido que mesmo assim reflecte calor.

Quando deram por ela, a noite tinha caído de vez. E a noite, no amor, é sempre traiçoeira. Porque há quem pense que o amor é um dia soalheiro sem fim, e não conta com o breu que vem depois. Há quem espere que o arco-íris fique para sempre no céu, e não percebe que ele precisa da chuva para existir.

Naquela noite, Valentim aprendeu a lição. Porque ela, a morena dos olhos de farol, levantou-se de repente, fechou o livro e disse:

“Tenho de ir. O meu marido espera-me para o jantar.”

E desapareceu no nevoeiro, como se nunca tivesse existido.

Valentim ficou ali, no banco, a olhar para o sítio vazio e pensou: “O amor é mesmo um jogo da cabra-cega. Umas vezes encontramos a parte que nos falta, outras vezes encontramos a parte que falta aos outros. E o pior é que a vendagem nunca nos deixa ver a diferença.”

Mas depois lembrou-se do beijo. Porque, sim, tinham-se beijado. Ali mesmo, no banco do jardim, ao cair da noite. Foi um beijo breve, sem grandes sofisticações, mas que mobilizou o corpo inteiro e até a alma, que na altura já tinha voltado à sua casa de origem, mas o deixara impreparado para aterrar…

Depois Valentim sorriu. Porque o beijo, mesmo quando é de despedida, vale sempre a pena. É comunicação, é apreço, é a prova de que, por um instante, fomos menos sós.

No dia seguinte, o calendário já não tinha corações de papel. As montras voltaram ao normal. Mas Valentim, esse, trazia no peito o mesmo fogo na certeza de que o amor, apesar de imperfeito, atrai. Sabia e sentia que o amor, mesmo sem ter casa, anda por aí, de mochila às costas, à procura de quem lhe abra a porta.

Mesmo que seja só para um café!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo