PROFECIA DO HORIZONTE PERDIDO

Uma Introdução ao Estado da nossa Sociedade

Como observador dos fluxos temporais e dos arquétipos que moldam o destino coletivo, cada vez constato mais que vivemos a era do “Profeta Ninguém”.

Sob o brilho artificioso dos nossos foguetes, esses monumentos tecnológicos que riscam o céu noturno com promessas de fuga, descobrimos, não a claridade, mas a amplificação da escuridão que nos pesa. O próprio céu, outrora roteiro dos sonhos, tornou-se um espelho opaco que devolve o nosso próprio vazio e nos deixa atordoados por barulhos fúteis.

Uma Europa que já teve momentos brilhantes com contributos para o desenvolvimento humano e da humanidade, encontra-se num momento de apagara as próprias luzes. Temos assim uma tripulação humana à deriva, aprisionada num barco que avança sem bússola, sem cartas náuticas, sem horizonte visível. Navegamos em círculos no alto mar de dados infinitos e sentido finito. No convés, uma figura solitária, o Profeta Ninguém, ergue a voz, mas o seu discurso perde-se no ruído dos motores e no silêncio aturdido dos que deveriam ouvir.

Ao mesmo tempo, no porão do navio, essas profundezas sombrias da nossa existência coletiva, o povo, tomado por um medo primordial, recusa-se a subir. O medo do mar sem fim, do céu sem estrelas-guia, do futuro sem contornos, é mais forte que a vontade de tomar o leme. Preferem a trepidação conhecida do subterrâneo à vertigem incerta do convés.

Esta é a nossa condição: uma humanidade com instrumentos de deuses e a coragem de amebas. Capaz de iluminar a noite com foguetes, mas incapaz de iluminar a própria alma. Capaz de cruzar oceanos digitais, mas paralítica diante do abismo existencial.

O que o Profeta Ninguém vê, e o que seu discurso não consegue transmitir, é que o horizonte não desapareceu, apenas deixamos de saber como olhar. Reparámos o mundo à nossa imagem: um mar infinito, sem margens, onde cada rota é possível e, portanto, nenhuma é necessária.

Esta introdução ao ano serve, pois, como um espelho sonoro para o discurso não proferido. Um apelo, não para sairmos do barco, porque esse é nosso único lar, mas para ousarmos sair do porão. Para aprendermos a navegar, não em direção a um porto inexistente, mas na própria aceitação do mar aberto, recriando, juntos, a coragem do horizonte e tendo para isso a hombridade de pegar na bússola feita do material que deu origem à cultura europeia.

Assim começa a análise do nosso estado social: na tensão entre o brilho pirotécnico do nosso progresso e a escuridão orgânica do nosso medo e das instituições presas a uma matriz patriarcal fomentadora de uma cultura de guerra. Uma existência pautada entre o convés vazio do potencial e o porão cheio da resignação.

O futuro não está escrito, mas o presente revela-nos, através da voz do Profeta Ninguém: ou cuidamos da energia de subir ao convés guiados pela própria luz sem atender à ventania das ideologias do tempo, ou nos condenamos a afundar na segurança ilusória do porão.

Sem medo juntemo-nos para que a luz própria (o funk divino que em nós espera, como o profeta Ninguém) se torne a janela aberta para o convés.

António da Cunha Duarte Justo

Pegidist do Tempo

NO CIMO DO MONTE SÃO SILVESTRE

Finalmente, ao entardecer, chegaram ao cume do monte São Silvestre. A subida fora íngreme, e cada um trazia na mochila o peso de todo um ano que findara. Diante deles erguia-se a crista da montanha, um véu de granito e névoa que lhes ocultava o vale do porvir, o ano seguinte. Não buscavam uma vista qualquer; buscavam a paisagem do amanhã.

O primeiro a falar foi a Queixosa, esfregando os ombros doloridos. “Que penar! Cada passo deste caminho foi uma pedra de desânimo. A Europa lá em baixo é um salão de dança deserto, onde os pares giram, sim, mas em círculos vazios, cada qual em torno do seu próprio umbigo. Carregamos uma espada de crise no peito, e falta-nos o fôlego para dançar.” Desanimada, sentou-se numa pedra, vencida pelo próprio fardo.

A seu lado, o Pessimista acendeu um cigarro, e a brasa tremulou na penumbra como um farol mórbido. “O que esperas ver do outro lado? Mais do mesmo, ou pior. O otimismo é uma incurável doença da vista. O mundo tornou-se um espelho partido: cada fragmento reflete uma ‘verdade’ absoluta, barulhenta e morta. Possuímos todo o conhecimento, mas perdemos o tambor da reflexão. O barulho das notícias e dos dançarinos do poder abafa o silêncio da sabedoria. É o fim da ressonância. A alma já morreu; o que vês é o corpo a sofrer e a espantar-se.”

Uma risada clara cortou o ar, vinda da Otimista, que estendia os braços como se abraçasse o vento. “Mas olhem para trás! Subimos! Cada passo, por mais ínfimo, foi uma boa ação contra a impotência. A luz não se apagou; apenas mudou de lugar. Agora vem de dentro, da conexão divina, como a das estrelas. Não precisamos de projetores, nem de espectadores, a escuridão lá fora é grande como num planeta morto dependente da luz alheia. Precisamos é de acender a nossa própria chama e dançar, não em círculos egoístas, mas num grande concerto, onde o ritmo seja o pulsar de boas vontades!”

Um homem idoso, a quem todos chamavam o Sábio, ouvira em silêncio. Os seus olhos pareciam ver para lá da névoa. “Nos três manifesta-se a razão “, começou, calmamente. “A subida foi penosa para Queixosa. O vale que deixámos está intoxicado de informação vazia e de medo para o Pessimista. E só a energia do espírito, essa dança interior, nos trouxe até aqui como disse o Optimista. O erro é pensarmos que a paisagem que buscamos é algo totalmente novo. Ela é a mesma de sempre, apenas esquecida. Os pilares estão nela: a colina da Razão, que vem da Grécia; o caminho da Lei e a estrutura que vem de Roma; e o rio da Espiritualidade, que vem do deserto e da Galileia que deu sentido, não como museu, mas como fonte viva. Desconectamo-nos da nossa própria cultura. Recuperá-la não é voltar atrás; é procurar a bússola.”

Foi então que se ergueu o Profeta. Não falava com frequência, e as suas palavras carregavam um peso quieto. “O imperador Constantino, em desespero por um império que ameaçava afundar-se, convocou um concílio para salvar um império que já sangrava por dentro. Nós convocamo-nos a nós mesmos, no encontro da nossa ipseidade. A máquina da guerra não se desarma com gritos de guerra. A paz ‘gratuita’ constrói-se com pequenos passos pessoais, tornando-nos estrelas que brilham com luz própria. Não esperemos pelos governantes, condicionados à quantidade e ao efêmero. O desfasamento entre a montanha e a planície permanecerá.”

Fixou o véu de névoa. “O outro lado do monte não nos será revelado por um clarão. A neblina dissipar-se-á devagar, conforme nós, um a um, começarmos a dançar a dança sensorial da vida, não para impedir a queda de um império, mas para celebrar a ascensão de uma humanidade que se recorda de si mesma e não esquece a sua história. O otimismo não é uma crença cega em soluções escondidas. É a coragem de actuar, mesmo na escuridão, confiando que a nossa luz interior é farol e semente.”

O grupo ficou em silêncio. A noite caíra, e as primeiras estrelas, verdadeiras, furaram o manto do céu. Já não ansiavam por ver o vale escondido de imediato. Compreenderam que a paisagem do ano que se aproxima se desenharia com a qualidade dos seus próximos passos na descida. A Queixosa enxugou uma lágrima, não de pena, mas de alívio. O Pessimista apagou o cigarro e contemplou as estrelas. A Optimista sorriu, sentindo o concerto a formar-se. O Sábio fez um gesto de concordância. O Profeta indicou o caminho de volta, para baixo, para o mundo.

Ao iniciarem a descida pelo flanco oculto do monte, o caminho revelou-se mais escuro e incerto do que a subida. Um silêncio pensativo pairava sobre o grupo, até que a Queixosa, tropeçando numa raiz, exclamou: “E agora? Tanta conversa lá no cume, e o caminho é só pedra e sombra!”

O Sábio, caminhando à frente com passo firme, sorriu e não se voltou, mas a sua voz ecoou suave como um rio subterrâneo:

“Isso lembra-me uma parábola antiga de três viajantes a quem foi dada, a cada um, uma pequena semente de luz. O primeiro guardou-a num relicário, com medo de a perder. O segundo passou a vida a admirá-la, a louvar o seu potencial e a descrever a árvore gloriosa que dela nasceria. O terceiro, sem cerimónia, curvou-se e plantou-a na terra dura do caminho. Regou-a com o pouco que tinha: paciência e ação diária.

O Pessimista interrompeu, cinicamente: “Deixem-me adivinhar. Só a do terceiro cresceu.”

“Mais do que isso”, continuou o Sábio. “A do primeiro apodreceu na perfeição estática. A do segundo tornou-se um mito bonito, mas estéril. A do terceiro, por se haver confiado à terra crua, brotou. E quando a noite mais cerrada chegou, a pequena planta começou a emitir uma claridade própria, não para se exibir, mas para iluminar o caminho para os que vinham atrás.

O Profeta, atento, completou, com a sua voz que parecia vir de longe:

“Ite, missa est. A assembleia no cume terminou. A semente da reflexão foi recebida. Agora, descemos. A descida é o plantar. Cada passo firme neste troço difícil é regar. A boa ação, por mais pequena, é o sol que a faz brotar. Não levarão a árvore consigo; plantarão, no caminhar, uma floresta de estrelas ao longo do caminho.”

A Optimista foi o primeiro a entender. Os seus olhos brilharam com uma luz que não era reflexo da lua. “A paisagem que buscávamos”, disse ela, “não estava para lá do monte. Está no sulco que abrimos ao descer. Na semente do espírito dançante que decidirmos plantar hoje, agora, em cada momento.”

O grupo seguiu em silêncio, mas um silêncio diferente. Já não era de expectativa, mas de pacto. Cada um levava no bolso a sua semente única: a memória da cultura esquecida, a crítica que não se resigna, a esperança que não desiste e a sabedoria que liga. E naquela descida para o vale do ano iniciante, começaram todos, simplesmente, a plantar.

A obra começara. Não como um projeto grandioso, mas como uma série de gestos pequenos e luminosos, sulcando a terra dura do tempo, à espera do amanhecer. E enquanto houver almas desperta, a história ainda pode mudar de rumo.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

VIOLÊNCIA RELIGIOSA CONTRA CRISTÃOS NA NIGÉRIA

Mais de 200 padres sequestrados desde 2015

Relatório da organização papal revela dimensão dramática da perseguição a católicos no país africano. Doze sacerdotes foram assassinados e milhares de fiéis vivem sob ameaça constante

A Nigéria enfrenta uma crise humanitária silenciosa que atinge diretamente a comunidade católica do país. Segundo dados divulgados pela organização papal “A Igreja em Necessidade”, mais de 200 padres católicos foram sequestrados em 41 das 59 dioceses nigerianas desde 2015, num padrão de violência que se intensifica ano após ano.

Do total de 212 sacerdotes raptados, 183 conseguiram ser libertados ou fugir dos seus captores. Contudo, o saldo trágico desta vaga de sequestros inclui doze padres assassinados e três que morreram posteriormente devido às sequências físicas e psicológicas do cativeiro. A organização alerta que os números reais podem ser “significativamente maiores”, uma vez que faltam dados completos de 18 dioceses.

Há Dioceses fechadas e comunidades abandonadas

A insegurança atingiu níveis tão alarmantes que transformou a geografia religiosa de regiões inteiras. Na diocese de Minna, localizada no estado do Níger, mais de 90 igrejas foram encerradas devido ao terrorismo persistente. Milhares de fiéis viram-se forçados a abandonar as suas práticas religiosas ou a fazê-lo clandestinamente.

“Os cristãos são ameaçados especificamente por causa da sua fé”, destaca o relatório. No norte do país, grupos jihadistas coordenam ataques sistemáticos contra comunidades cristãs, enquanto no centro da Nigéria, milícias armadas promovem uma violência que mistura motivações religiosas, étnicas e económicas.

Alvos fáceis, resgates lucrativos

Os padres tornaram-se alvos preferenciais desta violência por razões que vão além do simbolismo religioso. Facilmente identificáveis pelas vestes clericais e geralmente desprotegidos, os sacerdotes representam simultaneamente um alvo vulnerável e uma fonte de financiamento lucrativa. As comunidades católicas, na sua solidariedade com os líderes espirituais, mobilizam-se intensamente para reunir os valores exigidos como resgate, alimentando assim um círculo vicioso que financia tanto grupos jihadistas como gangues criminosos.

Este fenómeno de sequestros, descrito como “em crescimento”, tornou-se um modelo de negócio para organizações terroristas e redes criminosas que operam num contexto de vazio estatal. O relatório denuncia uma “discriminação estrutural contra as comunidades cristãs”, sublinhando que estas recebem “quase nenhuma proteção eficaz do Estado” em muitas regiões.

Crianças também na mira

A violência não poupa nem os mais jovens. Em 2025, homens armados raptaram pelo menos 227 alunos e professores de uma escola católica, demonstrando que as instituições educativas religiosas se tornaram igualmente alvos desta estratégia de terror e extorsão…

A comunidade internacional tem sido repetidamente alertada para a situação dos cristãos na Nigéria, mas as respostas concretas permanecem limitadas ou nulas porque, certamente, não é do interesse da política de informação da EU dar relevo a tais informações. Organizações de direitos humanos classificam o país como um dos lugares mais perigosos do mundo para se professar a fé cristã, numa crise que combina perseguição religiosa, falência estatal e criminalidade organizada.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A VOZ QUE NÃO SE APAGA (1)

Lisboa, dezembro de 2024. No Parque das Nações, onde a Expo outrora prometeu um mundo sem fronteiras, ergue-se agora um cubo de vidro fumado. Dentro, cinco pessoas sentam-se à volta de uma mesa redonda; não há cabeceira, mas o poder sabe sempre onde se sentar.

No centro, um ecrã projecta uma fotografia a preto e branco: homens de uniformes diferentes, chapéus de aço postos de lado, trocam cigarros num terreno de ninguém coberto de geada. O som de Stille Nacht, em alemão e inglês, preenche o espaço, numa gravação memória de 1914. A voz arranha-se na gravação antiga, mas ainda se ouve o impossível: inimigos a tornarem-se homens.

Catarina é a primeira a falar. Tem sessenta e tal anos, cabelo grisalho preso num coque frouxo, mãos que já lavaram demasiadas feridas. Trabalha numa IPSS no Martim Moniz. A cruz que traz ao peito é de madeira barata.
“Eles ouviram qualquer coisa naquela noite. Uma coisa que não estava nas ordens, que não vinha dos generais. Vinha de dentro, da gruta do coração. Cantaram e lembraram-se de que, antes de serem soldados, eram homens, filhos, pais, irmãos.” Catarina faz uma pausa. “Hoje, o Natal é o Continente a bombar músicas em Dezembro. A paz é um anúncio da EDP. A voz do poder aprendeu a falar mais alto do que o coração. E nós? Continuamos a mandar os nossos miúdos morrer longe de casa, agora em missões em defesa da guerra dos outros.”

Tomás Almeida, general reformado, agora é consultor de segurança (que é como quem diz: vende medo por medida), acende um cigarro eletrónico. Sopra vapor para o ar, nem o fumo é sério.
“Bonito, Catarina. Muito bonito, esta de sentimentos. Mas aqueles soldados podiam ter perdido a guerra naquela noite. A paz verdadeira não se canta, constrói-se. Com força, com fronteiras, com quem está disposto a defendê-las.” Com decisão, aponta o cigarro para o ecrã. “São os fortes que determinam os períodos de paz. Aquilo foi indisciplina. Hoje temos drones, vigilância, psicólogos militares. Garantimos que os soldados não fraternizam com quem deve ser abatido.”

Elias é metalúrgico da Lisnave. Tem mãos grandes, nós nos dedos, olhos pequenos, mas atentos. Representa o sindicato na comissão europeia dos trabalhadores do aço.
“O senhor general vê indisciplina. Eu vejo outra coisa: homens que perceberam que estavam a ser enganados. A ganância é sempre a mesma; os ricos mandam, os pobres sangram. Ontem foi na Jugoslávia, no Afeganistão, hoje é na Ucrânia, amanhã é em África, mas o patrão é o mesmo: o lucro. Os mesmos que hoje usam o PIB, suado pelo povo, para comprar morte, em vez de semear vida. E se pegássemos nesse dinheiro todo das armas e o metêssemos em hospitais? Em escolas? Em salários que dessem para viver?”

Ao lado dele, Leonor, de trinta e poucos, jornalista livre que já não acredita em redações, mexe no tablet. A cena de 1914 ganha vida, os soldados movem-se em câmara lenta, partilham chocolate, sorriem.
“Sim, eles foram enganados. O ódio foi a ferramenta; disseram-lhes: ‘Nós somos os bons; eles, os maus’. A mesma narrativa corre hoje, General, nas suas narrativas estratégicas. E se, em vez de instrumentalizar o povo para a guerra, o instrumentalizássemos para a paz? Em vez do serviço militar obrigatório, houvesse um serviço social obrigatório em que cada uma podia exercer o seu serviço onde a necessidade o chamasse. Um ano a construir casas, a ensinar crianças, a plantar árvores. Um ano a conhecer o ‘inimigo’ antes de o matar. Aprender a construir pontes, não trincheiras, a cuidar da terra e não arrasá-la. A voz do povo, quando livre do veneno da propaganda, é a voz de Deus. E Deus, naquele campo gelado, cantou, Noite feliz…”

Tomás riu-se, com um som seco.
“Deus? A voz do povo é volúvel, emocional. Precisa de direção. Sem divisão, sem o “nós contra eles”, não há coesão nacional, não há identidade a defender. O diabo, como dizem, é aquele que divide. Mas às vezes, a divisão é necessária para afirmar quem somos.”

Catarina ergue-se e a sua sombra projetava-se sobre os soldados holográficos.
“Não! O diabo é exatamente aquele que divide para se afirmar! Deus une no canto, no reconhecimento do outro como irmão. Aquele momento de 1914 foi uma brecha no projeto diabólico da guerra. Os comandantes, sim, esses instrumentos do poder distante, apagaram-na. Proibiram a paz. Porque a paz verdadeira desarma os poderosos.”

A quinta pessoa não falou ainda. Rui é historiador, apenas observa. De cabelo desgrenhado, óculos tortos, silêncio de arquivo, representa a memória. Rui toca no tablet e o ecrã muda.
Agora vêem-se telegramas: “Esta fraternização é traição.” “Qualquer oficial que permita contacto será julgado.” E depois, imagens de 1915: a lama, os mortos, o gás mostarda a devorar pulmões.

Ninguém fala, um silêncio pesado cai sobre a sala!

Elias rompe o silêncio, com a voz rouca de tabaco e fábricas:
” Alemães, ingleses, franceses enterraram os mortos juntos, com as próprias mãos. Reconheceram-se ao aceitarem a humanidade comum que os motivava a agir assim. É esse o caminho: Nivelar as trincheiras da Ucrânia, da Rússia, da Europa inteira, e sobre elas erguer torres de paz. Fábricas de esperança.”

Leonor inclina-se para a frente:
“Mas porquê a guerra, afinal? O espírito de 1914 não morreu. “A guerra destrói a esperança antes mesmo de destruir os corpos. Mata o futuro antes de matar as crianças.”

Rui mexe de novo no tablet. Aparecem imagens de agora: manifestações a favor da paz, voluntários de nações inimigas ajudando civis, jovens de ambos os lados de uma fronteira imaginária a plantar árvores juntos. São fragmentos, pequenas tréguas natalícias invisíveis para os grandes noticiários empenhados em justificar a cultura bélica.

Catarina fecha os olhos e começa a cantar, baixinho:

“Noite feliz, noite de paz…”

A voz é frágil, cansada, mas não quebra.

Tomás olha para ela. Quer dizer qualquer coisa, mas não diz. Elias murmura a melodia. Leonor sorri, com os olhos marejados. E Rui, sempre calado, move os lábios.

O Historiador aumenta o volume do canto original de 1914. As duas canções, a do passado e a do presente, entrelaçam-se, criando uma harmonia estranha e comovente. Por um instante, as divisões ideológicas parecem trincheiras a serem aterradas.

A reunião não chega a lado nenhum. As decisões de guerra seguirão o seu curso nos corredores do poder, enquanto o povo não conseguir ter Voz. As armas continuarão a ser vendidas. As guerras terão financiamento. Os discursos inflamados justificando a guerra continuarão a correr nos meios de comunicação e nas redes sociais como veneno doce.

Mas naquela sala, durante três minutos e quarenta segundos, uma verdade ressuscitou: a paz não é um tratado. É um canto: Noite feliz, Adeste Fideles!

É um canto que nasce onde as ordens não chegam e que reconhece no rosto do inimigo o mesmo medo, a mesma saudade de casa, a mesma fome de sentido.

O ecrã apaga-se. A sala fica vazia.

Mas lá fora, no Martim Moniz, um grupo de jovens, portugueses, brasileiros, guineenses, angolanos, ucranianos, russos e iranianos, acende velas. Cantam “Noite Feliz” em quatro línguas ao mesmo tempo. Era um “Noite Feliz” um pouco desafinado, imperfeito, mas sinal de uma imperfeição redentora. É pouco, mas é começo.

A paz é o acto de resistência através da voz humana que se recusa a calar. Resistência pressupõe hombridade e preparação para não se deixar arrastar pelo vento ciclónico militarista que parece até arrancar e arrastar os “cedros do Líbano”.

Dedico este conto:

Ao meu país, que já foi império e hoje mal é casa.
Aos que cantam quando mandam calar.
Ao Natal que ainda pode vir.

António da Cunha Duarte Justo
Lisboa, Inverno de 2024

Pegadas do Tempo:

(1) A Trégua de Natal de 1914 foi um episódio verídico e espontâneo da Primeira Guerra Mundial, onde soldados inimigos (alemães e britânicos/aliados) cessaram hostilidades em partes da Frente Ocidental.
O evento começou na véspera de Natal, quando soldados alemães decoraram suas trincheiras com velas e cantaram “Stille Nacht”. Os aliados responderam cantando “Silent Night” em inglês. Encorajados, ambos os lados saíram desarmados para a “terra de ninguém”, onde confraternizaram, trocaram presentes (como cigarros e comida), enterraram seus mortos e até jogaram futebol improvisado.
Apesar de ser um poderoso símbolo de humanidade, a trégua foi isolada e única daquele primeiro Natal de guerra, não se repetindo nos anos seguintes devido à proibição dos altos comandos. Seu registro histórico é sólido, baseado em cartas, diários e relatos dos próprios soldados.
Em outubro de 2024, após milhares de mortos, a guerra na Ucrânia entrou numa nova fase e no que os analistas descrevem como o momento mais perigoso até agora. Esta preocupação que angustia o meu espírito e espíritos atentos motivou-me a fazer este conto.

QUANDO O CANTO VENCEU O CANHÃO (1)

Naquela noite de consoada, a neve não escolheu lado.

Caiu sobre capacetes alemães, sobre botas inglesas, sobre o medo francês e sobre o silêncio russo que ainda não chegara ali. A neve não conhecia fronteiras, nem mapas, nem ordens superiores.

Era a noite de 24 de dezembro de 1914.

Nas trincheiras alemãs, um soldado jovem, de nome Friedrich, começou a cantar. Não cantava por coragem, nem por desafio. Cantava porque já não suportava o ruído da guerra dentro do peito. Cantava porque por baixo da sua farda ainda ecoavam no seu coração os ecos das cancões de natal e na retina a imagem do Anjo que anunciava “Paz na Terra aos homens de boa vontade”:

Stille Nacht, heilige Nacht… (Noite feliz, noite santa…)

A canção atravessou o ar gelado do campo de batalha como uma vela acesa no meio do inferno. Do outro lado, um inglês, o Thomas, reconheceu a melodia antes mesmo de reconhecer o inimigo e também ele entoou.

Silent night, holy night…

As armas hesitaram. O ódio, treinado e ensinado, não sabia o que fazer com aquela língua comum que nenhuma propaganda conseguira destruir.

Os soldados saíram lentamente das trincheiras, como crianças que aprenderam a andar de novo. No terreno neutro, coberto de geada que naquela noite se tornou terreno humano, trocaram pão, cigarros, nomes, fotografias de filhos que ainda não sabiam o que era uma guerra.

Enterraram juntos os mortos.

Foi então que, cem anos depois, Teófilo, um professor desejoso de uma cultura da paz, fechou a página do jornal alemão HNA onde se fazia referência ao acontecimento e suspirou:

“Se eles conseguiram cantar na guerra, por que nós não conseguimos cantar na paz?”

Na sala estavam outros.

Miguel, o sindicalista, apoiou os cotovelos na mesa e protestou:

“Hoje gastamos o PIB em armas que não criam pão. Se distribuíssemos fábricas como se distribuem batalhões, criaríamos riqueza onde hoje só há desespero e nos povos que designamos de subdesenvolvidos.”

“Utopia”, interrompeu Germano, defensor da guerra. “A guerra sempre fez avançar a história. Tecnologia, indústria, poder. Sem conflito, não há progresso.”

A diaconisa Clara, com um lenço simples sobre os ombros, falou baixinho, mas a sua voz atravessou a sala e o olhar de todos:

“O Natal não é progresso. É encarnação. Deus não veio em exércitos, veio na fragilidade. A guerra promete futuro matando o presente.”

Germano riu-se:

“Palavras não detêm tanques.”

Teófilo respondeu:

“Mas canções já detiveram canhões.”

Houve silêncio. Um silêncio frio semelhante ao de 1914.

Clara levantou-se e começou a cantar, com voz trémula:

“Noite feliz…”

Ninguém a acompanhou de imediato. Estavam desacostumados. O mundo moderno ensinara-lhes a gritar, não a cantar juntos.

Mas Miguel, de voz mais forte acompanhou-a. Seguiu-se Teófilo e até Germano, desconcertado, murmurou a melodia que aprendera na infância.

Naquele instante, compreenderam:

a voz do povo não instrumentalizado não divide, une.

E aquilo que divide, mesmo quando se chama progresso, carrega o nome antigo do diabo.

As trincheiras não desapareceram naquela noite.

Mas algo começou a ruir.

Talvez um dia, pensou Teófilo, as trincheiras da Europa, da Rússia, da Ucrânia e do mundo

sejam niveladas não por bombas, mas por vozes.

E talvez, então, a humanidade volte a cantar, não porque venceu, mas porque finalmente aprendeu a viver sem inimigos.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Natal de 2025

(1) A Trégua de Natal de 1914 foi um episódio verídico e espontâneo da Primeira Guerra Mundial, onde soldados inimigos (alemães e britânicos/aliados) cessaram hostilidades em partes da Frente Ocidental.

O evento começou na véspera de Natal, quando soldados alemães decoraram suas trincheiras com velas e cantaram “Stille Nacht”. Os aliados responderam cantando “Silent Night” em inglês. Encorajados, ambos os lados saíram desarmados para a “terra de ninguém”, onde confraternizaram, trocaram presentes (como cigarros e comida), enterraram seus mortos e até jogaram futebol improvisado.

Apesar de ser um poderoso símbolo de humanidade, a trégua foi isolada e única daquele primeiro Natal de guerra, não se repetindo nos anos seguintes devido à proibição dos altos comandos. Seu registro histórico é sólido, baseado em cartas, diários e relatos dos próprios soldados.