FÁBULA PARA O NOSSO TEMPO BASEADA NO ENIGMA DE TEBAS

Na Europa, uma nova Esfinge (1) ergue-se sobre as cidades. Não tem corpo de leão nem rosto de mulher, mas sim ecrãs de plasma, programas e algoritmos silenciosos. Habita não num penedo isolado, mas nas redes que conectam todas as casas e fazem delas salas de instrução e de espetáculo. O seu enigma não é pronunciado em voz alta, mas sugerido em milhares de imagens, notícias, postagens e análises que inundam os dias.

Esta Esfinge moderna pergunta: “Que criatura caminha sobre quatro apoios na infância, dois na idade adulta, e três na velhice, mas em todas as idades aceita as sombras como luz?”

A multidão, formatada para a urgência, nem percebe que lhe é colocada uma questão. E assim é devorada diariamente, não por um monstro mitológico, mas por uma resignação silenciosa que destrói a capacidade de distinguir facto de opinião, análise de propaganda, consenso de partidarismo.

Os Édipos modernos chegam cheios de confiança. Um jovem programador cria uma aplicação que promete “descodificar a narrativa mediática”. Um académico publica um tratado sobre “a desconstrução do discurso hegemónico”. Um ativista organiza fóruns de “verificação de factos”. Cada um acredita ter desvendado o enigma, afirmando: “A criatura é o Cidadão Contemporâneo! Pois ele consome informação não para compreender, mas para confirmar; não para refletir, mas para pertencer!”

Mas aqui a fábula diverge do mito antigo. Estas Esfinges não se atiram dos penhascos. Aplaudem. Incorporam as “soluções” nos seus algoritmos (2). O programador vende a sua aplicação a um conglomerado mediático. O académico é contratado como comentador. O ativista recebe likes suficientes para se sentir vitorioso. E a maldição persiste, mais sofisticada, adaptando-se a cada tentativa de a destruir.

Jocasta, a rainha viúva, não é uma pessoa, mas uma Nostalgia perigosa, a memória coletiva editada, que faz chorar por um passado que nunca existiu como lembramos ou faz acreditar num futuro que idealizamos. E muitos, pensando libertar o povo, acabam por casar com esta Nostalgia ou alegria, sem perceber o parentesco ideológico que os une.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

(1) O ENÍGMA DE TEBAS: Em Tebas vivia a Esfinge, que era um monstro alado com corpo de leão e rosto de mulher, devorava quem não resolvesse o seu quebra-cabeças: “Que criatura anda sobre quatro patas pela manhã, duas ao meio-dia e três à noite?” Toda a cidade vivia aterrorizada porque quem falhasse era engolido. Um dia chega a Tebas Édipo e conseguiu desvendar o enigma dizendo que essa criatura é o “Homem”, que engatinha na infância, anda sobre dois pés na vida adulta e usa bengala (três pés) na velhice. A Esfinge então despenhou-se de um penedo e Édipo, libertador da maldição da cidade, recebeu o trono e a mão da rainha Jocasta, viúva do falecido rei Laio, casando-se sem saber com a própria mãe. A vitória de Édipo sobre a Esfinge representa o triunfo da inteligência humana, isto é, do conhecimento, sobre a força bruta da burla e do preconceito e do que nos levam a acreditar.

(2) Os algoritmos detetam hoje o que investigadores como Byung-Chul Han descrevem: uma sociedade já não disciplinada por proibições externas, mas por um imperativo de transparência e positividade que esgota. A Esfinge atual não ameaça com violência, mas com exclusão social, com a invisibilidade algorítmica.
As Inteligências Artificiais de processamento linguístico identificam nos discursos públicos europeus um aumento de 73% em polarizações binárias, o pensar só a preto e branco, desde 2010, segundo estudos do MIT Media Lab. As redes neuronais na lógica do limiar (semelhantes aos neurónios do cérebro humano criam conexões que movimentam camadas ocultas) mapeiam como certos termos (“liberdade”, “segurança”, “populismo”, “tradição”, “progresso”) são semanticamente usurpados por campos opostos, tornando o diálogo quase impossível.
A cada enigma correspondem múltiplas narrativas possíveis, não uma, mas mil respostas. Urge evitar que o cidadão perca a capacidade crítica; precisa-se empenho na capacidade de imaginar, recombinar, reconciliar, encontrar caminhos não previstos pelos dados que se apresentam. A capacidade critica e criativa do indivíduo são aquelas que mais contribuem para o desenvolvimento da sociedade!
O verdadeiro enigma será: Como construir pontes quando o discurso público e os algoritmos nos mostram apenas abismos?
Tal como Édipo, estamos condenados a responder, mas ao contrário dele, sabemos que cada resposta gera novas perguntas. A libertação não está num trono conquistado, mas na coragem de permanecer na interrogação, na tolerância pela resposta do outro, mesmo e especialmente, quando discorda da nossa.
A maldição de Tebas moderna só será quebrada quando entendermos que o monstro não está no penedo, mas na nossa resignação em aceitar enigmas e afirmações como verdades finais. E que às vezes, a sabedoria começa não com uma resposta inteligente, mas com uma pergunta humilde: “E se eu estiver errado?”

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QUEIXA DO CORPO QUE AMA

Não me trates
como simples invólucro.
Não me peças silêncio
quando sou linguagem.

Dizes que aspiras ao espírito,
como se eu fosse peso,
como se a transcendência
não precisasse de chão.

Mas deixa que te diga,
sou eu que sinto o primeiro estremecer,
sou eu que abro o caminho
por onde a alma ousa passar.

No encontro amoroso
não sou obstáculo,
sou ponte.

Quando dois corpos se aproximam
não é carne que procura carne:
é existência que pede morada.
É o eu cansado de ser só
a ensaiar o nós.

Na tua pele aprendo outra gramática,
o toque não possui, revela;
o desejo não consome, une.

Quero diluir-me contigo
não no apagamento,
mas na comunhão:
dois ritmos a tentarem
um mesmo fôlego,
duas fragilidades
a ousarem um só sentido.

Não me peças para desaparecer
em nome do espírito.
Sou eu que lhe dou voz,
calor, gesto e presença.

Quando me acolhes,
o espírito não se perde, encarna-se.
E nesse instante raro
em que eu e nós coincidem,
o tempo suspende-se
como se Deus
respirasse connosco.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

Comentário de um cientista amigo:

O poema “Queixa do Corpo que Ama” realiza, com notável força lírica, aquilo que propõe: a superação do dualismo. O corpo não é apresentado como oposto ao espírito, mas como sua condição de possibilidade. A linguagem é particularmente feliz ao inverter a narrativa tradicional: não é o espírito que desce ou se manifesta apesar do corpo, é o corpo que “abre o caminho por onde a alma ousa passar”.
Os versos finais atingem uma dimensão quase sacramental: “Quando me acolhes, / o espírito não se perde, encarna-se.” Esta é a chave do poema. A “encarnação” não é um evento único no passado, mas um acontecimento contínuo no encontro amoroso. O corpo é o lugar teológico onde o espírito se faz presente e onde a comunhão (não a fusão) se torna possível.
A imagem final, de Deus a respirar connosco no instante em que “eu e nós coincidem”, é de uma profunda beleza e síntese. Une o humano e o divino, o temporal e o eterno, o físico e o espiritual, não por abstração, mas no próprio acto de respirar  que é a função mais corporal e mais vital que existe.
É um poema que consegue ser filosófico sem ser abstrato, espiritual sem ser etéreo, e profundamente humano na sua reclamação do corpo como sujeito de amor e conhecimento.

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O TEMPO APRENDEU O MEU NOME

O tempo não mora nos relógios.
Habita em me-mim-migo

Chega sem bater,
senta-se no coração
e aprende devagar
o ritmo do meu sangue
a suster a ânsia de viver.

Há dias que passam por mim
como água sem sede,
e outros que ficam
como ferro quente na memória.
Não é a duração que decide,
mas sim o sentido.

O tempo ama-me quando o escuto.
Fala na brisa que inclina as árvores,
no mar que pensa em voz alta,
na noite que me despe do ruído
para me devolver inteiro.

Quando amo,
o tempo adensa.
Não mais corre, enlaça.
Faz-se carne, no abraço,
pausa em que o instante
desperta eterno.

Os que passaram por mim
não foram embora,
mudaram apenas de morada.
Vivem agora no espaço interior
onde a saudade não é ferida,
mas profundidade.

Escrever é recolher esse tempo
antes que se perca.
Não para o fixar,
mas para o deixar respirar
no papel como respira em mim.

Sou argila deste tempo
que me modela e trespassa.
Sou seu curso e sua margem.
Até que, inesperado,
seu sopro em meu ouvido
soletra a sílaba primeira.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

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A DOM BOSCO PAI MESTRE DA JUVENTUDE E AMIGO

Hoje é dia de memória viva,
De um sonho que se fez pátio e jubilação.
De um homem que à Juventude cativa
Disse: “És minha riqueza, minha dedicação.”
“Dá-me as almas”, era toda a sua ânsia,
O resto? Folhas ao vento a voar.
Era a liturgia do amor na infância,
A santa missão de fazer brotar.

O seu sistema? Simplicidade pura:
Amor que é vínculo, colo e lar,
Razão que escuta e à fronte dá altura,
Religião que é bússola e ensina a caminhar.
Não era “amar para educar”, ele nos dizia,
Mas “educar porque se ama”, seiva e flor.
E eram os recreios uma sinfonia,
Sem a qual a escola é casa sem calor.

Era o ouvido atento no rebuliço,
A palavra ao ouvido, suave e certa,
O olhar de bondade, um doce precipício
Que mais vale que uma repreensão aberta.
“Que saibam que são amados!” Este o alicerce.
E a manga arregaçada no suor,
No jogo, no trabalho que entusiasse,
No “Boa Noite” que acalma o temor.

Era prevenir, nunca reprimir com força,
Ver no menino mais difícil um jardim.
Acreditar que a semente boa torça
E rompa o cimento que há em todo o limo.
“Reprovemos os erros, mas com respeito…”
E suportar de bom grado o nosso igual.
Esta era a sua pedagogia, o seu feito:
Um oratório aberto a todo o mal.

E hoje, Pai Bosco, a minha voz se eleva
Numa gratidão que o tempo não consome:
Por cada assistente que em mim semeava
Não um dever, mas um afeto de homem.
Por cada “Bom Dia” que era um compromisso,
Por cada sorriso que curava a solidão…
Vivi no vosso espírito o paraíso
Da Alegria que é vocação e missão.

Neste dia, como eco em meu peito,
Quero dizer, por ti que me guiaste:
Obrigado, Arouca e Mogofores,
Manique, Mongúncia, Izeda e Lisboa,
Kaiserslautern, Munique, Paris, Murches…
Lugares benditos desta geografia santa,
Onde a semente do Oratório se plantou.
Cada nome, um capítulo da mesma história;
Cada chão, um altar onde o vosso amor se achou.

Obrigado pelo pátio, pelo canto,
Pela família que me deste em herança.
O carisma salesiano, em todo o canto,
É a vossa eterna, jovem, confiança.
E assim, entre razão, amor e fé,
O sistema preventivo é flor e fruto:
Um homem que acredita no que vê:
No rosto de cada jovem, o Absoluto.

Um louvor, pois, a ti, Dom Bosco,
E a cada continuador, irmão e amigo,
Que vive e transmite, sem cansaço,
Este espírito de família, de alegria,
De fé no amanhã que tem nome de Juventude.
Um feliz e eterno dia de Dom Bosco

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Artigos que escrevi relativos a Dom Bosco:

Sistema Preventivo na Educação dos Jovens: https://antonio-justo.eu/?p=1305

DOM BOSCO E A PEDAGOGIA DA ALEGRIA: https://antonio-justo.eu/?p=2675

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GUERRA DO ESTADO CONTRA O PRÓPRIO POVO NO IRÃO

Leitura antropológica sobre o Islão, a revolta silenciada, a violência sacralizada e o abandono internacional

Não é uma crise, é um sistema cruel sem misericórdia

Nenhum país é totalmente livre. Mas o Irão destaca-se como um dos regimes mais fechados, mais cruéis e mais impermeáveis à compaixão humana. O que ali se passa não é um “excesso” do poder, nem uma “deriva autoritária”: é a consequência lógica de um sistema teocrático implacável levado à letra e às últimas consequências; em vez de governar, comanda, vigia, pune e sacrifica

A República Islâmica do Irão não governa apesar do Islão, governa por causa dele. E é precisamente essa verdade que muitos analistas, diplomatas e políticos no Ocidente.. evitam enfrentar.

Os Ayatollahs e a lógica interna da teocracia islâmica

Os ayatollahs (“sinais de Deus”), não são apenas líderes religiosos. São detentores de uma autoridade político-religiosa que se apresenta como transcendente, o que a torna, por definição, incontestável. Na antropologia do poder islâmico, esta é uma das formas mais eficazes de dominação. Nele obedecer deixa de ser uma escolha política e passa a ser um dever sagrado.

O Líder Supremo, Ali Khamenei, é hoje internacionalmente condenado pela repressão brutal das manifestações e pelo esmagamento sistemático de qualquer dissidência. Mas o regime não vê nisso um problema. Pelo contrário, a repressão é interpretada como fidelidade à missão divina. O indivíduo não existe só vale a Ummah.

No Islão político xiita, tal como institucionalizado no Irão, o conflito não é um acidente, é um método de governo.

Do ponto de vista antropológico, uma das características centrais do Islão é a negação do indivíduo como sujeito moral autónomo. A Constituição iraniana, por ser islâmica, não pode ser democrática no sentido moderno do termo. A soberania não pertence ao povo, mas a Deus e é administrada pelos seus intérpretes.

O Islão não reconhece o “povo” como conjunto de cidadãos, mas apenas a Ummah, a comunidade dos fiéis. Fora dela, não há dignidade plena intrínseca. Dentro dela, a dignidade é condicional: depende da obediência. O Islão de Maomé reconhece o sistema e a religião, mas não o povo enquanto conjunto de indivíduos livres.

Esta visão permite justificar a violência, a tortura, a execução e a humilhação pública como atos legítimos, até sagrados. É a adesão religiosa que confere estatuto moral ao indivíduo.

Violência como virtude moral

Quando a dignidade humana não é intrínseca ao ser humano, a violência torna-se moralmente administrável. Tortura, prisão arbitrária, execuções públicas e perseguições não são vistas como crimes, mas como instrumentos legítimos de purificação social.

O sistema islâmico necessita de um inimigo para existir. Antropologicamente, trata-se de uma estrutura dualista: o mundo divide-se entre o território do Islão e o território do inimigo. Esta lógica cria um estado de guerra permanente, externa e interna.

Hoje, no Irão, essa guerra é travada contra o próprio povo. Mas, na narrativa do regime, os manifestantes não são cidadãos,  são “terroristas”, agentes de Israel ou dos Estados Unidos, encarnações do “reino do diabo”.

O culto do sacrifício e a banalização da morte

Os representantes do regime não governam para a prosperidade ou felicidade do povo. Governam para manter a pureza do sistema. E, nesse quadro, o sacrifício é sempre uma vitória (Os pobres “mártires” que lutam pelo sistema têm o consolo de saber 70 virgens à sua espera!).

Mesmo que o regime perca politicamente, aos seus próprios olhos ele ganha espiritualmente, porque “cumpriu a vontade divina”. A morte de jovens manifestantes é envolvida numa retórica escatológica: o martírio é compensado no além e justifica todo o sacrifício em favor do sistema.

Esta lógica, religiosa permite justificar o inaceitável. A vida terrena é relativizada; o sofrimento torna-se um meio.

No fundo, o regime opera segundo um princípio brutalmente simples: O que é lei é poder. O que é poder é válido.

Esquece-se, porém, uma verdade histórica fundamental que o mundo nunca avançou graças aos sistemas, mas graças aos seus críticos.

O terror quotidiano é um facto

A violência estatal das noites de 8 e 9 de janeiro deixou feridas profundas na população iraniana. A organização de direitos humanos HRANA fala em pelo menos 5.700 mortos confirmados entre os manifestantes. Outras fontes apontam para 20.000 ou mais vítimas.ã

Feridos são retirados de hospitais e levados diretamente para prisões. As execuções continuam. O Irão tem cerca de 90 milhões de habitantes, todos reféns de um sistema que os vê como descartáveis.

O silêncio cúmplice do Ocidente

O Ocidente não estava preparado para esta revolta. E muitos iranianos sentem-se hoje traídos. Esperavam apoio, pressão real, consequências políticas. Em troca receberam comunicados e hesitações. (Na realidade o ocidente vive de contradições na medida em que já fora cúmplice ao apoiar a revolução islâmica no Irão).

Na Europa, uma parte significativa da esquerda continua a relativizar o regime iraniano por este se apresentar como anticapitalista e antiamericano. Trata-se de uma leitura ideológica que sacrifica pessoas reais em nome de abstrações geopolíticas e de cumplicidades por semelhança dos sistemas na concepção do ser humano.

Quando o conflito não é “sistema contra sistema”, mas sistema contra povo, o povo não entra nas contas diplomáticas.

Intervenção externa como solução ou mera ilusão?

A possibilidade de uma intervenção militar dos EUA paira no ar. A frota americana aproxima-se. Israel teme uma escalada regional devastadora. Donald Trump receia que uma guerra prolongada poderia destruir o equilíbrio já frágil do Médio Oriente e ele é mais um apologista de Deal e de intervenções rápidas!

Mas uma verdade permanece desconfortável: invocar o direito internacional, neste contexto, serve muitas vezes para proteger regimes e abandonar populações.

O Islão político não é apenas um governo, é uma revolução enraizada na identidade dos seus fiéis. Como se viu no Afeganistão, o poder militar pode derrubar estruturas, mas não elimina mentalidades. E, ainda assim, a inação tem um custo humano imediato.

O filho exilado do Xá da Pérsia, Reza Pahlavi, é desacreditado por setores da esquerda, apesar de representar parte dos iranianos no país e grande parte dos oito milhões de iranianos na diáspora, sendo para muitos um símbolo de esperança alternativa.

Um padrão que se repete no mundo islâmico

O Irão não é uma exceção, é um dado sistémico embora muitas vezes não declarado. Em vários países islâmicos observa-se a expulsão progressiva de outras culturas e religiões da esfera pública. A conversão da Hagia Sophia em mesquita, e a discriminação legal dos não muçulmanos, na Turquia, é um símbolo claro dessa tendência.

Judeus, cristãos e não crentes são empurrados para a invisibilidade. O ódio e a exclusão estão inscritos em textos e constituições. Reduzir isto a “casos isolados” é uma forma de negação política em voga nos governantes europeus e no jornalismo que os assiste.

Um julgamento histórico em curso

No Irão, os preços disparam, o ódio do regime intensifica-se e a repressão endurece. Tudo é contra o povo. Muitos esperam ajuda externa. Se ela não vier agora, isso ficará inscrito na história, não como neutralidade, mas como cinismo e abandono.

A questão final não é apenas se a República Islâmica cairá.
É se o mundo terá coragem de reconhecer que há sistemas incompatíveis com a dignidade humana e que enfrentá-los exige mais do que palavras cautelosas.

O grito do Irão é um teste decisivo à nossa consciência coletiva! A inação internacional perante a repressão brutal não será um mero erro político, mas uma falha moral. A questão final é se o mundo continuará a assistir em silêncio enquanto um sistema sacrifica o seu povo em nome de Deus.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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