SEM A GRÃ-BRETANHA A UNIÃO EUROPEIA FICARIA ENTREGUE AOS NACIONALISMOS

 

A Influência de Organizações não-governamentais ganharia mais força

Por António Justo

Quinta-feira os britânicos decidem, através de referendo, sobre a saída ou permanência da Grã-Bretanha na União Europeia.

A Alemanha tem sido a grande aliada do Reino Unido no palco da EU. Em conjunto forçavam a economia livre e da concorrência remando contra o nacionalismo francês. Por vezes seguiam ao sabor de uma “política real” segundo o princípio os fins justificam os meios!

O Reino Unido movido por intenções nacionalistas pretende defender os rostos nacionais na EU; como grande potência tem conseguido para si regalias especiais perante a EU mas mesmo assim os britânicos estão descontentes. Por fim prevalecerá o pragmatismo próprio dos povos nórdicos e de que a Inglaterra é especial exponente. O Reino Unido prevalecerá na EU porque embora as ideologias sejam atraentes, sabem que estas não alimentam povo. Uma potência tem sempre possibilidade de condicionar os outros parceiros. Mas se a Grã-Bretanha saísse da EU o nacionalismo francês de Estado  teria mais facilidade de se impor à Europa porque a Alemanha ficaria mais isolada na defesa de interesses e estratégias nórdicas. Dar-se-ia um deslocamento de influências em direcção do sul.

No que respeita ao desenvolvimento da filosofia de Estado na Europa penso que se daria um atraso. A Crença de Estado francesa afirmar-se-ia então, sem grande concorrência, e influenciaria mais ainda os Estados periféricos latinos. O eixo da influência Alemanha-França acentuar-se-ia. A Europa tem-se encontrado, até agora, a ser influenciada pelos estados nórdicos na sua maneira de fazer economia e política.

Com o Brexit as crises aumentariam e a fúria legislativa da oligarquia de Bruxelas que era limitada pela Inglaterra e Alemanha passaria então a interferir mais na sociedade e na cultura. A nível de legislação na EU, a Influência da economia nórdica arrefeceria um pouco e aumentaria a influência de organizações não-governamentais que querem ver tudo mais regulamentado. A influência dos Verdes e a ideologia do género ganhariam mais força.

O Euro desvalorizaria e as economias dos restantes estados europeus sofreriam arrombamentos. A economia alemã não sofreria grande coisa porque a desvalorização do Euro seria compensada com as suas exportações; talvez sofresse um pouco na indústria automóvel.

Há uma certa insegurança nas empresas porque não se sabe que regras de cooperação surgiram até 2020, data de conclusão do Brexit. As empresas teriam de negociar de novo os contratos. A Alemanha e os britânicos arranjar-se-iam. O resfriamento da economia europeia enfraqueceria, mais os outros estados que a Alemanha. Esta, ordenada e disciplinada é demasiado forte pelo que não sofreria muito com qualquer eventualidade. O mundo das finanças tem andado apavorado, mas depois do atentado na Grã-Bretanha o grupo favorito em favor do Exit sofreu uma diminuição significativa passando para apenas 35%; isto provocou euforia no DAX. O Brexit provocaria muito desemprego especialmente com a saída de empresas dos países parceiros.

Um perigo grande para a EU seria se Bruxelas, para compensar os 56 milhões de consumidores britânicos, abrisse as portas à Turquia na qualidade de seu membro. As regiões periféricas iriam sentir ainda mais a concorrência da nova nação que passaria a ser mais populosa no grupo da EU.

Os britânicos estão fartos da demasiada regulamentação e não conformes com  uma política de portas abertas para refugiados e queriam, neste referendo, mostrar o seu descontentamento. As relações entre a Inglaterra e os Estados Unidos ainda se estreitariam mais.

David Cameron jogou com a democracia indo à pesca de eleitores quando fez a promessa do referendo. Agora sente-se em maus lençóis temendo o resultado do Brexit. O assassínio da deputada trabalhista Jo Cox, defensora da permanência do Reino Unido na União Europeia, provocou uma mudança radical nas perspectivas de voto vindo ajudar os defensores da continuidade na EU movendo também parte do eleitorado britânico que doutro modo ficaria em casa.

O Reino Unido só entrou em 1973 para o projecto da EU começado em 1958 como a Comunidade Económica do comércio livre e da livre circulação de pessoas.

A EU tem razão para temer a saída, por isso se empenha tanto em convencer os britânicos da derrocada que também significaria para eles uma tal decisão.

O crescente nacionalismo europeu, caso a Grã-Bretanha saísse receberia um grande impulso devido às forças anti EU que vêem os interesses nacionais mais bem defendidos fora da EU.

 

António da Cunha Duarte Justo

SEM A GRÃ-BRETANHA A UNIÃO EUROPEIA FICARIA ENTREGUE AOS NACIONALISMOS

A DIFERENÇA É UMA COMPONENTE DE VIDA E A CONSCIÊNCIA TAMBÉM

A propósito do Ataque ao Grupo gay

Por António Justo

O massacre do Estado Islâmico (Daesh) na discoteca gay em Orlando mata 50 pessoas e deixa 53 feridas; neste acto barbárico revela-se o ódio das cavernas contra a civilização. Pessoas inocentes morrem pelo facto de fanáticos não suportarem o direito à diferença na sociedade. Falta o respeito pela vida e a consciência de que a vida tem em cada pessoa o seu rosto. A vida é o sorriso de Deus na natureza a florescer em cada pessoa e em cada planta. Cada pessoa só tem uma vida disponível que, embora integrada numa sociedade, é única e dela. Porquê tanto ódio contra o sorriso de Deus?

Tolerância?

Na folhagem da imprensa e nos meios virtuais, vêem-se muitos comentários que, embora condenando o morticínio de Orlando, também permanecem prisioneiros do espírito dualista que o motivou. Muitas opiniões são equacionadas a partir do posicionamento de dois extremos de uma mentalidade que parte do princípio de que, para se ser por alguém, tem de se ser contra outros. Por vezes as partes contraentes na criticada só se diferenciam por terem uma imagem de inimigo diferente. Na falta de capacidade integrativa permanecendo-se no demonizar ou no idolatrar; e isto acontece porque só se aceita o perfeito ideal e neste caso os gays são os maus e a religião são os bons ou para outros a religião é a má e os homossexuais são os bons.

Porque não interessa a capacidade de discernimento fica-se pela vaga tolerância que não chega a atingir os foros do respeito, numa atitude de opinião tipo salpicão onde tudo cabe devido à elasticidade da tripa da indiferença elevada ao grau de consciência de posição superior.

O respeito por cada pessoa pressupõe a aceitação de ela ser como é, comportando também o respeito pela pessoa ainda não nascida; a aceitação da pessoa também contempla o respeito pela decisão tomada por cada um, o que não implica a renúncia a uma ética fundamental do respeito pela vida em toda a sua forma de expressão.

Na realidade factual e virtual, as pessoas tratam o partido oposto com os mesmos critérios que usam para condenar aqueles que injustamente são agressivos contra os homossexuais. O que falta é o bom senso numa cultura diferenciada mas inclusiva.

Tanto as opiniões como os afectos e as relações das pessoas devem ser respeitados desde que não se expressem de forma violenta. Por outro lado cada pessoa tem o direito a sustentar a sua posição sem ter de deixar ver tudo reduzido à papa da tolerância que tem mais a ver com o direito e a justiça do que com o respeito e a convicção. Para encontrarmos respostas de sustentabilidade para o futuro será necessário observar melhor o princípio da diferenciação na natura e o princípio da consciencialização na cultura.

Maneira de estar de cunho católico

Observei que adversários anticatólicos por conveniência se aproveitam deste acontecimento para atacarem de forma destrutiva também o catolicismo esquecendo-se que o que atacam é a sua imagem de catolicismo. Na sociedade actual é moda a afirmação de uma dogmática orgulhosa “superior” baseada num relativismo que se afirma contra todas as doutrinas ou instituições que tenham um ponto de vista próprio. (Reservam para si o direito de opinião própria que negam à instituição!)

No cristianismo, seja ele católico ou protestante a última instância da moral é a consciência individual. Só a pessoa é soberana independentemente do que uma instituição pense, recomende ou regule. Esta atitude garante perenidade ao cristianismo, porque nela se manifesta a consciência cristã de que tudo o que não é pela pessoa humana está condenado a desaparecer, além da douta sentença de que quem anda com Deus nunca se encontra sozinho. Esta liberdade e soberania da pessoa não a ilibam de responsabilidade em relação à comunidade nem da comunidade em relação a ela.

O problema de todas as instituições grupos ou agrupamentos é deixar-se levar pela enxurrada da rotina do dia-a-dia, que geralmente serve o poder e o domínio do mais oportuno e violento, fixando-se em medidas mais pedagógicas e didácticas, deixando na sombra a profundidade da própria doutrina e filosofia que é mais abrangente mas que, também, numa sociedade massificada e de massas, geralmente, não é contemplada. A ética católica não se deixa reduzir a uma expressão ou contexto histórico nem tão-pouco ao espírito do tempo; ela é de cunho pessoal tendo em conta também a comunidade como lugar da realização da individualidade.

Por isso a ética de cunho cristão é processual orgânica e dinâmica não se podendo reduzir a uma formulação intelectual nem a um discurso do sim-não; ela é viva e a sua expressão é resumida no JC, o protótipo do Homem como passado, presente e futuro; com ele caminha toda a criação e todo o discurso no sentido do Alfa para o Omega.

A maior dificuldade vem do facto das diferentes posições e opiniões se expressarem de forma provocadora e violenta.

Incoerência no proselitismo e na provocação

Os contraentes das opiniões não são simples ao lidar uns com os outros fazendo uso, por vezes, do proselitismo e da provocação na arena pública ou publicada. Em vez de aproximação ou de argumentação recorre-se à repulsa do outro (para cada um o diferente é o outro) e à opinião formatada sem espaço para a argumentação. Não é saudável a atmosfera em que se vive dado minorias em sociedade tentarem humilhar a sociedade que lhes deu o ser e se comportarem como senhores da melhor verdade e como tendo o rei na barriga. Mas também a sociedade maioritária deveria reagir à provocações com maior serenidade como reagem os pais perante o filho adolescente que se revolta para se encontrar e definir a si mesmo.

O cúmulo da ingenuidade seria querer impor a própria forma de vida através da provocação e da violência. A parte mais fraca quando tenta impor a sua forma de vida através da provocação e da violência deveria ser consequente e pensar que se a razão se impõe pela violência então a razão estará do lado de quem tem mais força, legitimando deste modo a ditadura das maiorias.

Cada comunidade de interesses deveria naturalmente procurar ser reconhecida num convívio das comunidades cujo fim é, na complementaridade, o alcance da felicidade; nem o trunfo da força nem o do moralismo relativista são meios adequados como argumento. Uma sociedade relativista, da moral do politicamente correcto, tem-se afirmado à custa de uma estratégia de confusão dos argumentos e deste modo tem reduzido a capacidade crítica das massas. A decadência vive da ambivalência e do deita abaixo, por isso são consequentes na sua luta contra o monoteísmo e o organigrama estrutural de formas de vida tradicional. É chegada a hora em que não se deve tratar de combater um totalitarismo da exactidão abstracta com um totalitarismo dos relativismos ou vice-versa mas de personificar o dia integrando o passado e o presente num futuro que embora manque à esquerda e à direita não se torne torto.

Vivemos tropeçando em nós e no tempo

 Vivemos num tempo narcisista que procura adquirir trunfos e viver da confusão e, como tal, grandes grupos da sociedade já não distinguem entre o público e o privado, entre o caótico e o ordenado, nem sequer o que é fundamental e o que é secundário: cada um quer fazer da sociedade o seu espelho e formatar a sociedade e as instituições à medida da sua opinião. Para isso exigem uma sociedade tão aberta que identifique a linha da sua demarcação com a fronteira do indivíduo.

O princípio da discriminação é inerente à capacidade do discernimento; o problema surge quando se fixa numa só anuência contra uma realidade que é processual e flui. Ao afirmarmos indiscriminadamente que uma geração é mais madura que a outra, que este ou aquele é que tem a culpa, já decidimos pela forma de discriminação negativa ou positiva, colocando-nos assim no tapete dos discriminadores (caso um momento processual do conceito se fixe em “preconceito” provocando uma sentença irreversível). O problema do jogo do empurra e a questionação da culpabilidade já foi mestralmente resolvido na resposta dada por Jesus aos espertos da sociedade que queriam ver uma mulher condenada por ter sido apanhada em falta flagrante contra a opinião dos doutores do saber e da lei: “Aquele que de entre vós está sem culpa seja o primeiro que atire a pedra contra ela” (Jo, 8, /), escreve no pó da realidade, o mestre.

O respeito pela vida leva a proteger as crianças da pedofilia e os não nascidos da morte prematura por aborto. É uma questão de atitude e de filosofia: o respeito e a admiração pela vida que compreende os excessos sem os aprovar. A ética não pode ser reduzida a valores limitados ao pragmatismo utilitário nem apenas à circunstância. Para lá de valores éticos de caracter racionalista e mecanicista há uma ética de responsabilidade criativa e orgânica. Não se trata aqui de estar de acordo ou em desacordo mas de nos encontrarmos todos no meio da vida com as suas inclinações e opções.

As inclinações e predisposições podem ser mórbidas (Freud) mas estas não devem ser aquelas que servem de orientação para a sociedade ou em nome da banheira da tolerância legitimar um relativismo superficial que igualiza todos os valores e deste modo não leve nenhum a sério, como se fosse possível em nome do intelecto negar o corpo e a massa cerebral ou como se se tivesse a impressão de ser tão intelectual ou espiritual e tão perfeito que pudesse afirmar-se sem o corpo, numa dimensão sem espaço nem tempo.

As pessoas confundem muitas vezes uma orientação sexual ou pessoal com uma opção. A opção é de caracter intelectual, de caracter mecanicista e artificial, geralmente estranha à vida que é orgânica. Uma sociedade demasiadamente demarcada pelo conceito de liberdade, que fomenta o individualismo absoluto, incorre na tentação de reduzir tudo a uma mera decisão de escolha como se a realidade fosse feita de sim ou não, ou de um momento só (visão momentânea) e não tivesse um caracter orgânico processual. A vida privada tem naturalmente uma outra abertura que não é possível viver totalmente no enquadramento social. Não é fácil manter a equilíbrio para se na ser vítima de uma ditadura da maioria nem da ditadura de minorias.

Tentativa de solução

É necessário um estado contínuo de presença, reflexão e análise das próprias ideias e opiniões, dado cada pessoa, cada geração, cada grupo precisar de um contexto ideário e de uma definição para poder dar expressão à própria existência e motivação (manifesta-se aqui a interferência ideal e orgânica da relação de identidade pessoal e da identidade comunitária ou social em que uma deve servir a outra). Geralmente o que se considera como normalidade não passa de uma visão rotineira e de aceitação do domínio do dia-a-dia e da vista curta e generalizadora de algo que é mais profundo e abrangente. O problema vem da implicação da relação entre indivíduo e grupo e da identificação da própria definição com a definição do grupo; muita agressividade vem dessa confusão que se expressa tanto no orgulho gay como no orgulho nacional. Entre o homo e o hétero está a objectividade da pluralidade e heterogeneidade da natureza. Na natureza porém coexiste pacificamente a regra e a excepção. O carvalho não se sente superior ao arbusto pelo facto de ter mais luz nem a faia se sente superior à floresta pelo facto de se sentir mais individuada em relação a ela.

O proselitismo e o exibicionismo, em voga, contra os valores da família, da nação e de Deus, embora não abdicando de se definir e identificar, rebela-se contra qualquer definição e identificação de forças de uma sociedade que consideram burguesa e querem ver destruídas. O problema das forças centrífugas de uma sociedade torna-se fatal quando estas, em vez de quererem corrigir exageros de uma moral, cultura ou religião demasiado centrípetas, optam pela sua destruição. Então a maioria sente-se provocada e reage também ela de maneira inadequada em vez de reconhecer que nela são necessárias tanto as forças centrípetas como as centrífugas. As energias centrífugas (progressistas) têm exagerado contra as forças centrípetas do passado. Por isso as energias centrípetas (conservadoras) reagem e se revelam de momento um pouco mais fortes. Sofre de contradição e de lógica quem quer, em nome do biótopo ideológico, destruir a ecologia cultural. O meio ambiente (população cultural) precisa da coexistência de diferentes biótopos humanos. Que seria da frase sem a palavra e que seria da frase sem o texto? Em nome da igualdade da palavra, da frase e do texto não podemos acabar com estes para reconhecermos só valor da letra!

As forças de resolução no caos são contra as forças ordenadoras na criação. Daí a necessidade de afirmadores e negadores se consciencializarem das forças que representam e que redemoinham no lago da própria existência e na realidade maior que é a Terra. Daí o problema de as forças primeiramente mencionadas se expressarem no budismo e no niilismo em voga e as forças ordenadoras se expressarem mais no cristianismo. A decadência é de inspiração relativista e como tal tenta conduzir uma cultura fértil ao Tohu-va-bohu (Jer 4,23) confundindo a realidade com a própria guerra, a verdade com o horizonte da sua vista (estado da confusão sem esperança em estado após uma guerra!). A tendência actual extremista que se expressa no islão na defesa do grupo contra o indivíduo nota-se o contrário no ocidente na luta do indivíduo por se definir contra o grupo; deste modo cai-se no vazio espiritual, como forma de liderança, na esperança de que a liberdade se identifique com a largura do deserto. Que cada um, no ocidente, lute pela própria definição e afirmação é totalmente legítimo e natural, mas obrigar a colectividade a ter de igualar a regra à excepção seria abdicar do pensamento honesto de desenvolvimento ordenado! A comunidade heterossexual deve viver em paz com os grupos homossexuais e estes com a heterossexual na aceitação da naturalidade de vida sem discriminar nem negar o direito natural à diferença mas estar consciente de que a diferença só tem expressão no grande bosque que é a sociedade e a cultura.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e pedagogo

“Meditações Irreverentes” http://antonio-justo.eu/?p=3678

GOVERNO APELA À EMIGRAÇÃO DE PROFESSORES PORTUGUESES

Emigrantes usados como programa de ajuda ao desenvolvimento do país

António Justo 

 

António Costa, nas celebrações do dia de Camões, incitou os professores portugueses desempregados a emigrar. Repete assim em Paris o convite que Passos Coelho tinha feito em 2011 aos professores sem emprego. Deste modo tenta evacuar também os professores obrigados a sair do Ensino Privado.

Em nome da difusão da língua,  faz-se passar como nobre um apelo que não passa de um testemunho de incompetência do Estado português que tradicionalmente não consegue dar resposta às necessidades dos seus cidadãos dentro do próprio país.

Torna-se ainda mais doloroso para a alma portuguesa ver que são convidadas a sair pessoas que, em Portugal,  tanto investiram na formação e que contribuiriam para a elevação social portuguesa.

O mesmo Estado que não investe no fomento e rejuvenescimento da demografia nacional tem a falsidade de justificar a saída de portugueses jovens com o argumento do défice demográfico português (falta de crianças). Por outro lado devem os nossos jovens ir rejuvenescer e enriquecer outros países que para isso recorrem da imigração, preferencialmente, de pessoas formadas. Os países ricos compensam o défice demográfico com o fomento de imigração qualificada e países da periferia como Portugal envia os seus formados e sujeita-se a receber imigrantes que tem de formar! Quando estará Portugal disposto a acordar?

Outrora tudo se levantou em coro contra a atitude reprovável do antigo primeiro-ministro. Hoje que o primeiro-ministro pertence ao outro quadrante político e faz o mesmo apelo já a imprensa portuguesa se mantem moderada e até ousada ao querer considerar não oportunas as opiniões críticas independentes. A diferença: António Costa tem razão pelo facto de ser do outro quadrante político.

O cinismo é de tal modo exuberado que querem passar a impressão de fomentarem assim o ensino de Português no estrangeiro, quando a política desde 1989 tem sido no sentido contrário. Já nos anos 80 eu lutava para que as associações portuguesas no estrangeiro fossem incrementadas através do Estado no sentido de estas criarem cursos de português em regiões não centrais criando assim a possibilidade de emprego para professores e outros implementadores de negócios e cultura nas associações, mas tudo isto era visto como abstruso.

Conversa, muita conversa é o que o Estado tem oferecido aos emigrantes e a muitos dos seus representantes que se contentam e alegram  com o calor da proximidade de políticos nos encontros com eles.

Agora, a política parece esfregar as mãos por cada português que sai: é mais um a enviar remessas para a administração portuguesa poder gastar e é menos uma pessoa crítica em Portugal a protestar.

Deste modo as nossas elites continuam a adiar refinadamente Portugal, abusando dos emigrantes como programa de ajuda ao desenvolvimento do país enquanto o Estado continua sem emenda transformado em rampa de lançamento para os boys que o povo tem de alimentar.

O grande problema a resolver é o de uma visão meramente ideológica que parte de um Estado considerado intrinsecamente bom e de interesses corporativos fundamentados em tal ideário.

Enquanto o nosso estado se considerar como naturalmente bom e os interesses corporativos aninhados em torno dele continuarem a ter uma consciência de iluminados, Portugal continuará dividido e a marcar passo.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo http://antonio-justo.eu/?p=3671

 

Outro texto relativo ao tema:

Antigamente a escravidão, hoje a emigração

http://antonio-justo.eu/?p=1541

 

A PROPÓSITO DA VERDADE E DAS VERDADES NA IRREALIDADE DA POLIS

A Verdade é paciente não ataca nem difama

Por António Justo

A verdade ou é revelada ou é vivida, o resto é crença nalguma forma ou numa perspectiva de vida que, para cada qual, pode ser a sua. Seria auto-engano acreditar num poder todo-poderoso da razão, por muito nobre e prático que ele possa ser.

Todo o saber, seja ele político ou científico é apenas uma forma de discurso. A doutrina é limitada ao intelecto e a Verdade não se deixa reduzir a ele nem à experiência que se tenha dela. Consequentemente a atitude intelectual e prática mais adequada que possamos ter em relação à verdade será de humildade e de respeito e em relação às verdades e opiniões dos outros a melhor postura será de tolerância.

 O intelecto e a experiência são os instrumentos de acesso à verdade/realidade não podendo o instrumento nunca ser identificado com ela. A existência humana tem os seus quês e precisa de crenças e mitos tal como a planta precisa da luz, do calor e da atmosfera que lhe possibilita a sua forma de vida.

A planta não se questiona sobre a existência do Sol, porque o que ela precisa é de luz e de calor; pretender que ela reconheça para lá da luz e do calor também o Sol ultrapassaria as suas necessidades naturais primárias! Deus está para lá da experiência objectiva e ultrapassa a experiência que se possa ter dele, contudo aquilo que nos torna Homem é a referência (relação com) a Ele. Negá-lo seria meter-se num beco sem saída. De facto o beco também tem a sua serventia e quem quiser ir mais além volta para trás, talvez mais enriquecido com a experiência dele.

 Na polis a verdade encontra-se encarcerada na ciência, no partido, na opinião, na lógica, nas promessas e até na devoção. Acontece à verdade o mesmo que sucede à ideia livre ao ser metida na linguagem. A verdade absoluta sem ser categórica só pode ser Deus, aquele “lugar vivo” onde cada ser pode ser ele sem se justificar e assentar os pés para poder caminhar ao sol da vida, e saborear também a sombra da Verdade na opinião. Nesse lugar não precisa de se subordinar sequer a grupos de influência que ditam leis para outros cumprir.

Que seria da diversidade dos biótopos e das plantas se não houvesse para cada qual o seu raio de verdade! Que seria da cultura e da individuação se não houvesse a verdade do procurar a forma numa maneira própria de estar a caminho de Ser.

Verdade? Tenho a impressão que a Verdade é como o Sol: à medida que nos aproximamos dela mais queimamos as asas do nosso ego; se nos for dado, então sentiremos a dor do abismo entre as alturas do intelecto e a profundeza do coração. No descampado da polis tudo luta por ela, mas antes de chegarmos lá, a cada um a sua, desde que não a use como cacete! Verdadeiro é certamente o caminho no desejo dela! Sim, porque verdade é a liberdade a voar nas alturas do céu mas agradecida e consciente de que o que lhe possibilita a satisfação da vivência das alturas vem da profundidade do coração.

No contexto político, também a veracidade é dinâmica e como tal improvável porque depende do que se torna confiável e o fiável depende também da capacidade de ver, estar e ser; mesmo em relação ao dado factual surge o problema da interpretação que leva ao engano. Cada lógia (cada maneira de olhar) é apenas uma perspectiva necessária mas limitada da verdade/realidade, uma passada na grande caminhada sob os holofotes da Razão e do Coração.

Também penso que a questão está nos olhos e do olhar é que depende, em grande parte, a perspectiva e, dado a verdade (resumida em Deus) ser a-perspectiva, seria questionável querer mandar alguém para o oculista por causa dela! Sim, até porque há pessoas mais inclinadas a ver na perspectiva dos factos e outros na perspectiva do miradouro em que se albergam para observar a paisagem. A partir daí, cada qual se torna num pintor a elaborar a realidade na sua tela, ou um escritor a fazer a sua composição na intenção de a acrescentar ao grande painel da Realidade…

Muitos de nós encontramo-nos, por vezes, perdidos na própria imagem ou absorvidos na composição de imagens sem atendermos às linhas de fuga que dariam maior perspectiva ao panorama da nossa pintura na tela da vida. Os nossos olhos e intenções interferem e delimitam a paisagem e a verdade, não notando por vezes que ao dar-lhes forma as plastificam, confundindo o detalhe com elas, identificando a forma com o conteúdo que não cabe nela.

Se uns têm um olhar mais curvilíneo (emocional subjectivo), outros têm-no mais rectilíneo (racional objectivante) e aí surge o busílis de querer reduzir a realidade à própria linha (não contando ainda com o problema das cores!). Por um lado temos o problema dos instrumentos (razão e experiência) utilizados para definirmos a realidade na finitude e por outro temos o problema de pretendermos com uma visão finita querer identifica-la com o infinito. Querer possuir a verdade é como querer resolver o problema da quadratura do círculo, é como querer meter a transcendência (o círculo) na forma (quadrado) apenas com o instrumento da razão. (1)

A Verdade é inteira mas para ser apreendida pela condição humana, tem de ser repartida em partes (o infinito dividido em partes finitas é transformado em finito através da razão que depois abstrai da parte para o infinito). O escalpelo da razão como instrumento de explicação da realidade/verdade tem um pequeno senão ao arrogar-se poder resolver o problema da quadratura do círculo querendo identificar o quadrado com o círculo, o que é ilegítimo. Querer resolver assim o problema da quadratura do círculo é como recorrer à decomposição de um ser vivo em partes e depois concluir que a soma das partes é o tal ser vivo, não notando que o acto de apresentar a soma das partes, deixa de fora a vida.

Na impossibilidade de possuirmos a Verdade seria lógico juntarmo-nos todos com esquinas e arestas num círculo abraço para darmos mais espaço à forma onde caberá mais verdade.

A perspectiva polar exclusivista do verdadeiro e do falso, da direita e da esquerda, do espírito e da matéria reduz a realidade complexa, a um ponto de vista bidimensional, fazendo dele um caminho para andar mas que peca por não contemplar a verdade da vida. Não notamos ainda que andamos todos a tentar fazer da vida uma linha direita alérgica à vida porque a natureza é toda ela curvilínea

Seria pena querer-se reduzir a realidade multidimensional a uma superfície material bidimensional, ou a uma só perspectiva na linha vertical (mais identitária), na linha horizontal (mais social), ou na linha diagonal (menos monótona). Cada um tem o seu plano de imagem com mais ou menos perspectiva com mais ou menos profundidade… O decisivo é saber-se na convergência e na consciência de que a verdade não se tem, só se vive e experimenta, mas cientes também de que sem contraste não há profundidade. O apelo de Deus, o apelo da Verdade, é tentar descobrir sempre novas maneiras de enxergar o mundo e deste modo contribuir para a sua contínua criação, para a realidade que se encobre no mistério da sua poesia! A verdade é como o amor (2) embora manifesta em cada um ela é inteira.

Para mim a Verdade é Jesus Cristo porque nele se realiza e resume de forma inclusiva a matéria e o espírito. “No princípio era a palavra, a in-formação”, constatava já o evangelista João. “E o Verbo tornou-se carne” sem se deixar reduzir à incarnação!

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo

Meditações Irreverentes  in Pegadas do Espírito http://antonio-justo.eu/?p=3667

  • (1) A razão por mais que se esforce nunca poderá meter o infinito no finito, nem o todo na parte (o que demonstra que até a geometria não sobrevive sem o princípio infinito (Deus). Na minha opinião a teologia conseguiu a resolução desse problema através da fórmula trinitária; para tal não chega a razão, necessita-se também da espiritualidade e do coração; esta possibilita a integração da parte no todo e do todo na parte – serve-se porém do mistério de JC.
  • (2) “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” 1 Coríntios 13:4-7.

DIREITOS DE IMIGRANTES DA UE REDUZIDOS PELO TRIBUNAL EUROPEU + CETA

Abono de Família encurtado ou eliminado na Sequência das Exigências britânicas

Por António Justo

No conflito entre a legislação social britânica e a Comissão Europeia, o Supremo Tribunal Europeu de Justiça deu razão à Grã-Bretanha. Estrangeiros da UE que não vivem ou não vivam sempre na Grã-Bretanha não tinham direito, segundo a legislação britânica, ao abono de família britânico, embora a Comissão Europeia em Bruxelas fosse de opinião contrária.

O Processo com o número de arquivo C-308/14 relativo ao abono de família para estrangeiros da União Europeia veio criar clareza através da decisão do tribunal que dá razão à Grã-Bretanha.

A decisão, ao dar razão à Grã-Bretanha, vem fortalecer a posição dos Estados membros em relação à política da Comissão Europeia. Esta medida do tribunal é vento contrário nos moinhos dos britânicos defensores da saída da Grã-Bretanha da EU (Brexit). Este vento não será porém suficiente para a manter na EU.

Os juízes fundamentaram a decisão com o argumento de que as directivas relevantes da UE não criam um regime comum de segurança social europeia, permitem diferentes regulações nacionais e um governo não deve perder de vista o seu próprio orçamento. Deste modo, mesmo que o pai de uma criança viva na Grã-Bretanha e o filho na Roménia, este só passará a receber o abono de família correspondente ao da Roménia e não ao da Inglaterra. Mobilidade livre na Europa não significa direito de acesso a todos os apoios do Estado.

Países como a Alemanha, que pagavam imensas quantias de abono de família a crianças a viver na Roménia e em outros países da União Europeia, esfregam as mãos de contentes com tal medida do tribunal. Também se torna muito diferente se a quantia do abono de família pode ser feita em referência ao país de residência ou ao país de origem. Assim uma criança que até aqui era abonada em 180€ na Alemanha independentemente do local de residência, logo que a legislação alemã seja aferida à decisão do tribunal europeu, passará, a receber apenas 10 € de abono num país que só abone a criança com essa quantia. A prática anterior que se revelava numa medida de ajuda ao desenvolvimento e uma medida compensatória para países da periferia com a correcção do tribunal favorece o espirito nacional em relação ao europeu

Com esta medida Bruxelas vem de encontro aos países mais ricos que se viam prejudicados ao terem de tratar os seus imigrantes e familiares independentemente da sua residência.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo http://antonio-justo.eu/?p=3661

 

CETA  – AVISO DE BERLIM A BRUXELAS

O Governo alemão acaba de avisar Bruxelas que o acordo comercial CETA com o Canadá não poderá ser aplicado na Alemanha sem a aprovação do Parlamento alemão e do Conselho Federal.

Este é um aviso às instituições da EU e aos lóbis de Bruxelas de que a democracia também tem uma palavra a dizer num negócio que não deveria ser feito à margem dos parlamentos de países europeus em que os governantes respeitam o parlamento e o cidadão. O Governo alemão vê-se obrigado a intervir porque o povo tem feito muita pressão.

António Justo