SERÁ QUE O SUL GLOBAL VIRÁ AJUDAR A REEDIFICAR A EUROPA?

Rivalidade entre sistemas que favorecem a individualidade e sistemas que favorecem a Comunidade

No momento crítico da História em que nos encontramos estamos a repetir, no âmbito geopolítico, a luta que se deu na Europa na passagem da Idade Antiga /Idade Média para a Idade Moderna/Idade Contemporânea. Duas mundivisões encontram-se hoje, como outrora, em luta rival: a mundivisão de caracter individualista e a mundivisão de caracter comunitário.

Em vez de se tentar uma relação equilibrada das forças da individualidade e das forças da comunidade as duas lutam bestialmente uma contra a outra (sociedades com estruturas sociais individualistas contraestruturas sociais medievais comunitárias, fazendo-se passar a ideia no povo de que a luta é entre liberdade e comunismo/autoritarismo quando se trata de dois polos de uma só realidade.

Os governantes europeus têm assumido no contencioso geopolítico uma posição irresponsável de ignorância cultural e da sua autonegação! Há um factor de erro e de crise comum nos dois tipos de sociedade em luta: a sociedade ocidental destruindo em si mesma a necessidade comunitária em favor do individualismo caótico e as sociedades orientais subjugando toda a exigência legítima de emancipação de um sistema comunitário abafador do indivíduo. No meio de tudo isto afirmam-se as arrogâncias e rivalidade dos poderes contra os povos e suas populações.

A partir do renascimento a Europa começou paulatinamente a abandonar o seu caracter comunitário latino (greco-romano) como reacção emancipatória adequada expressa no individualismo; essa tendência humanista aliada aos interesses dos senhores seculares  conduziram à discórdia (espírito nórdico contra o espírito latino); a Europa em vez de se desenvolver de forma inclusiva em relação à ética individualista protestante optou por seguir um só polo (individualismo) vendo-se absorvida e dominada pela cultura  e filosofia anglo-saxónica, atingindo o seu auge no iluminismo.

Hoje a cultura anglo-saxónica encontra-se em crise e na iminência de perder a sua hegemonia mundial para dar lugar a uma realidade global multipolar; apesar dos males e crises que as divisões criam talvez a actual crise se manifeste como a grande oportunidade para a Europa se reconsiderar e se reencontrar culturalmente de maneira integral deixando o caminho desintegrador iniciado pelos países protestantes no século XVI e levado ao extremo no iluminismo (modernismo) motivado hegemonicamente pela cultura anglo-saxónica que viu surgir o comunismo como tentativa de dar resposta à necessidade comunitária. O desenvolvimento e a cura deixaram de se dar na comunidade para iniciar a sua profanação e consequente fragmentação. O progressismo individualista oprimiu o desenvolvimento conservador de maneira a ser instalado um progressismo de bandeirantes como se observa hoje no agir de muitos grupos activistas!  

A Europa, vista na sua integralidade operou uma divisão cultural nela mesma ao optar pela cultura e filosofia anglo-saxónica. Hoje seria a oportunidade de se reconverterem as vertentes anglo-saxónica e latina de modo a poder-se criar na Europa o encontro do sul global com o nórdico. O Brexit foi um passo desastrado e quase de rutura com a Europa em favor da hegemonia anglo-americana e a União Europeia viu-se reduzida e à condição de ter de seguir, de cabeça baixa, os Estados Unidos. 

A cultura e a filosofia anglo-saxónica enfatizam a importância da liberdade e autonomia individual descurando o desenvolvimento comunitário (o estado social funciona mais como tapa buracos de um sistema por si polarizador). O direito à afirmação do indivíduo, à liberdade de expressão e o direito à autodefesa tornaram-se de tal maneira tensos que ameaçam tirar os últimos fundamentos à comunidade para os destruir em grupos individualistas sem consciência de comunidade e de bem-comum (constrói-se um humano sem características numa sociedade descaracterizada!). Assistimos na Europa à imposição do ideário protestante de caracter individualista ao ideário católico de caracter comunitário; na guerra da Ucrânia dá-se a luta entre a mundivisão emancipatória anglo-saxónica e a mundivisão comunitária oriental, faltando aqui a Europa com a função de papel moderador entre a afirmação do individualismo e do comunitarismo. Assiste-se hoje à crise inversa à que se deu no surgir da idade moderna com a sua expressão no protestantismo (emancipação da comunidade medieval). Se, na Europa, no renascimento e com o protestantismo a concepção de comunidade entrou em crise por sufocar o indivíduo, hoje a afirmação do indivíduo é tal que ameaça sufocar a comunidade de maneira a conduzi-la ao caos! A filosofia individualista encontra a sua melhor expressão na cultura anglo-americana. Na falta de uma complementaridade e inclusão dos factores individualismo e comunidade fomentam-se as guerras entre mundivisões de caracter mais individualista ou mais comunitárias. Desta falta de inteligência e compreensão humana assistimos a nível geopolítico como exemplarmente se combatem as duas mundivisões (individualista e comunitária) de maneira catastrófica quando a tarefa seria de se aproximarem uma da outra. No meio disto quem se aproveita da situação é o socialismo/comunismo (China) porque assume assim um caracter religioso dando a falsa ilusão de fazer uma síntese entre a necessidade humana de comunidade e de individualidade e a hegemonia americana ainda se oferece como vantajosa para países ou regiões da periferia económico-política.

A filosofia e a ciência anglo-saxônicas puseram em destaque o Empirismo e a metodologia científica e sobrepuseram na Europa o ideário e a ética protestante à católica (no próximo artigo reflectirei sobre as consequências da matriz católica e da matriz protestantes a nível geopolítico). O pragmatismo anglo-saxónico faz uma abordagem pragmática da realidade (político-económica) para encontrar soluções práticas. Esta posição unilateral favorece a decomposição cultural europeia.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

 

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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

9 comentários em “SERÁ QUE O SUL GLOBAL VIRÁ AJUDAR A REEDIFICAR A EUROPA?”

  1. No conflito Rússia-Ucránia a China é o único membro do conselho de segurança da ONU que poderá evitar a 3 guerra Mundial, já que os outros quatros estão em discórdia.atravez da China a Europa encontrará inúmeras soluções pra as actuais questões.

  2. Muendangula Mutindi, no meu entender, a China ao contrário dos EUA tem apostado na economia e não na força militar como cuidam os EUA; por isso a China que se transformou em primeira potência económica mundial tem a melhor posição para se tornar numa verdadeira medianeira da paz! Na Ucrânia os sinos já tocam a finados para a despedida do século americano no mundo! A má informação europeia relativamente à guerra da OTAN e da Rússia na Ucrânia não tem em consideração o desenvolvimento das nações a nível de blocos no mundo nem a geopolítica a jogar-se na Ucrânia que não considera os interesses vitais da Rússia na passagem para o Mar negro, contencioso semelhante ao que se está a preparar no estreito de Taiwan (Formosa) devido aos interesses do Ocidente, como estrada comercial importantíssima. Só uma política de paz poderá resolver de modo a respeitar os interesses russos numa região e os interesses ocidentais na outra. Doutro modo a seguir à guerra na Ucrânia teremos a guerra na Formosa.

  3. Seria muito de esperar a mediação da China. Isso poderia ter até um certa vantagem para os mais arredios como os EUA porque nessa mediação a China também poderia ser levada a compreender os interesses do ocidente na passagem marítima de Taiwan como grande via de tráfego comercial. Tudo leva a crer que a OTAN não está iteressada na paz porque os países da União Europeia não fizeram referência digna à iniciativa chinesa nem à proposta brasileira no sentido de se criar uma plataforma para a paz, com peopostas chinesas.

  4. António Cunha Duarte Justo, é isso…
    Dá a ideia que a Europa e os Estados Unidos estão mais interessados na guerra do que negociar a paz ..

  5. Vejo de facto hoje mais que nunca, a Europa a ficar para trás nas áreas mais importantes, para poder manter este bem (menos mau) estar social. Os poderes autocráticos afirmam se infelizmente…

  6. Manuel Carneiro da Silva , estamos a ser ofuscados pelos rescaldos de um iluminismo tornado fosco e de políticos superficiais a actuar sobretudo na arena alemã que se deixou deslumbrar pelo ideário anglo-americano e deste modo atraiçoou o espírito integral humanista europeu que neste momento histórico poderia aproveitar para se purificar do seu extremismo imperialista do passado e não o faz contribuindo ainda mais para que a Europa elimine um lugar digno no mundo..

  7. Entregue somente a si mesmo e achando-se senhor de suas leis, o homem cai e destrói precisamente aquilo que lhe dá significado, o outro e como tal acaba por se aniquilar a si mesmo. Assim, tal como o todo não pode e não deve sufocar a parte, a parte não deve e não pode se achar um superior dominante desse todo. O individual ao extremo é tão somente o nada.

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