Interesses marxistas comunistas contra Interesses liberais conservadores na Arena da Educação

O Aluno é a Vítima da Farsa entre o Ensino privado e o público

Por António Justo

O Facto e a Premissa

O marxismo que se servia da politização da economia para se autoafirmar, ao perder a guerra contra o capitalismo, mudou de estratégia, optando por um neo-marxismo de luta anti-cultural; o estratagema é mudar a cultua, a moral popular e a tradição, acabar com a influência da família e da religião. Por isso o neo-marxismo declara guerra à cultura e às aquisições culturais da colectividade (no sentido da sua ideologia revela-se anticristão e pró islão).

A Luta e suas Contrapartes

Estamos a assistir, na sociedade portuguesa, às consequências de uma luta de forças entre duas visões de sociedade de interesses antagónicos – marxismo e capitalismo – que se debatem de maneira vingativa e irreparável sem consciência de Estado nem de Povo. Isto acontece numa sociedade depauperada que precisaria de uns e de outros e, como tal, em vez de se obstinar em soluções exclusivas, precisaria de se entender num compromisso de deliberações inclusivas. O resto é conversa fiada que faz lembrar os leões e as hienas em torno do cadáver do cordeiro (o aluno) e ao largo um público que assiste e se contenta com o cheiro a sangue e a satisfação de ter uma opinião.

Por trás da iniciativa contra o ensino privado encontra-se a luta ferrenha da esquerda radical e da maçonaria pela aplicação da soberania do dirigismo ideológico marxista a nível de Estado e povo; a esquerda radical e a maçonaria sentem-se donos da república e os guardiões dos interesses só de alguns. A esquerda radical é contra o princípio civilizacional da cultura cristã segundo o qual o soberano não é a instituição, o Estado ou a ideologia mas sim a pessoa, a pessoa em comunidade; a pessoa é o outorgante!

O professor Vital Moreira afirma no “Público” que “o direito público ao ensino é realizado por meio da escola pública” e conclui que “o Estado só pode recorrer a escolas privadas em caso de falha da rede pública”. O professor confunde “alhos com bugalhos” ao pretender condicionar o direito do aluno ao ensino gratuito a uma só via de concretização. Naturalmente tem todo o direito de defender o projecto político de esquerda radical a que é inerente uma filosofia de vida de caracter socioeconómico marxista. De notar que esta posição marxista não é partilhada pela parte da esquerda portuguesa não radical. O que o senhor professor diz é lógico mas a Razão não se reduz à lógica. A lógica socialista marxista tal como a lógica liberal capitalista são duas pistas no terreno mas não devem ter a pretensão de serem o terreno; este pressupõe a superintendência da razão e não o seguimento de uma só lógica.De facto a natureza consta de terra e céu e não só de terra como pretende o materialismo ateu marxista nem só de céu como pretendem os crentes idealistas.

A posição, referida pelo professor universitário, refugia-se numa ideologia reducionista que confunde o ensino público (do particular e do Estado) com a escola pública. Ao condicionar a acção do Estado à ideologia marxista desrespeita a liberdade e a dignidade da pessoa, além de discriminar o contribuinte que, no caso de optar pelo ensino público particular não subsidiado, teria de subsidiar duplamente o ensino, o que contraria o espírito democrático plural de uma sociedade civil aberta e adulta numa sociedade moderna justa. O ensino é pago pelo contribuinte independentemente de se realizar no “Privado” ou no “Público”. O subsídio é devido e dado com base nos alunos e não nas instituições de ensino. O critério de avaliação e de apoio deveria basear-se no serviço prestado.

A identidade e a vontade da nação não são identificáveis nem reduzíveis a  uma ideologia monocolor de ditadura. A política e o MEC, em vez de tentarem impedir a fuga de alunos do ensino estatal para os colégios, deveriam preocupar-se com a qualidade de ensino e oferta de actividades paraescolares nas escolas estatais para que os pais não se sintam tanto obrigados a colocar os filhos no ensino particular. A qualidade do ensino e a pluralidade de ofertas é que deveriam determinar a escolha e a discussão. O Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo de 2013 poupa gastos ao Estado (contribuinte).

O Artigo 75° CRP, ao determinar a obrigação de criação de uma “rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubram as necessidades de toda a população”, vem dar resposta ao direito constitucional de todo o aluno ao ensino gratuito. Público é todo o ensino, seja ele efectuado em escolas particulares ou em escolas estatais. (Há sociedades que concedem o direito ao ensino privado também na família!)

A referida frase constitucional pode ser interpretada no sentido de o Estado ter de cobrir as necessidades de toda a população e que não haja nenhum vácuo nesse assunto. Grupos com uma visão de estado marxista pretendem o monopólio do Estado especialmente no controlo da ideologia educacional e dos órgãos estatais que lhe dão continuidade. Se bem que a ideologia que produziu o Artigo 75° CRP fosse marxista, a sua leitura é passível de outras interpretações como mostram outras leis em vigor, até ao ponto de não serem cobertas pela constituição (por ex. a lei do aborto é um exemplo de inconstitucionalidade!). Já agora porque não se atreve a argumentar também com o direito do cidadão a abrigo (direito a casa) quando o Estado deixa isso a cargo do privado?

À liberdade individual de escolha do ensino não deve implicar a cobrança de um imposto ou contribuição de forma dupla: o contribuinte deverá pagar o imposto ou contribuição para o mesmo serviço uma só vez e não duplamente, efectue-se ele no ensino privado ou no estatal (1).

A liberdade de ensino (educação) e de escolha de escolas não implica o alegado “propósito de liquidar o direito ao ensino público”, as escolas privadas possibilitam apenas mais qualidade, mais liberdade, mais competição e comparação em termos de avaliação escolar entre os estabelecimentos de ensino sejam eles particulares ou estatais.

A história constitucional portuguesa reflecte o projecto político marxista que esteve na base da sua criação ainda orientada para a ditadura do proletariado, que via na democracia apenas uma oportunidade para, depois de uma educação ideológica consequente e de que enferma ainda hoje o MEC, atingir os seus objectivos: impor, através da lavagem ao cérebro, o comunismo materialista e ateu.

O actual Governo dependente do PCP e do Bloco de Esquerda fomenta legislações no sentido de servir os radicais da revolução de Abril. Sabem que através do Ensino oficial também conseguem promover os seus multiplicadores ideológicos de sindicatos num valor de 9 milhões de euros por ano e perpetuar na mentalidade do povo os interesses da extrema-esquerda e da maçonaria (2).

Iniciativas de mudanças da constituição não são “tentativa de subversão constitucional” como pretende o professor e alguns dos seus pretensos donos e radicais abrilistas que, entre outros, fizeram da revolução dos cravos a revolução dos cravas, que nos levou ao ponto de abdicação em que nos encontramos! As iniciativas de revisão revelam a expressão de interesses e de vontades livres e a subjacente intenção de não encostar a Constituição à vontade de uma só ideologia ou de um só grupo de interesses, seja ele de esquerda ou de direita. A Constituição portuguesa tem, em vários sectores, uma conotação marcadamente marxista que carece de modernização e adaptação ao desenvolvimento do povo e dos novos tempos.

Das Ovelhas ranhosas do Ensino estatal e particular

Tanto no particular como no estatal há escolas melhores e piores. Diria ainda que também há colégios com contratos de associação que terão como objectivo principal o lucro e não o bem dos alunos e da comunidade escolar. Dizia-me um director de uma escola: “Nesse grupo estará, por exemplo, o grupo GPS. Parece que conseguem sempre trabalhar com professores no início de carreira. Não sei como conseguem controlar as leis do trabalho e ter sempre professores “baratos”. Foi coisa que nunca investiguei. Haverá colégios subsidiados, que não terão qualidade educativa. Mas, para eliminar a não-qualidade, o Ministério tem à sua disposição a IGE (Inspecção geral do Ensino). Esse deveria ser o seu trabalho: enviar a IGE às escolas estatais e às escolas privadas e inspeccionar; uma medida importante seria também submeter os professores à avaliação de desempenho para poderem obter resultados semelhantes ao do privado. Quem persistisse em prevaricar sofreria as consequências até de fechar portas, desde que esta medida fosse válida para o ensino estatal e privado. Agora, fechar, sem mais, os privados simplesmente porque são privados para encherem as escolas estatais que estão vazias, independentemente de serem boas ou más escolas, isso é que é ser ladrão da liberdade que é constitutiva do ser humano e, no caso português também consagrada na Constituição”. O Estado deveria ser ideologicamente neutro no seu agir, para respeitar a diversidade de interesses dos diferentes grupos e corresponder à democracia e poder orientar-se pelo bem comum. Um estado democrático deve dar resposta à diversidade e à multiplicidade.

Ataque marxista também ao Ensino das Escolas da Igreja

Há ensino privado e ensino privado; o ensino administrado nas instituições da Igreja é geralmente de alta qualidade. Parte do princípio superior da dignidade humana e da soberania da pessoa em relação a ideologias e instituições. As escolas privadas da Igreja são altamente apreciadas, em todo o mundo civilizado, entre outras escolas  temos o exemplo, dos alunos formados nas escolas dos jesuítas e das doroteias. O ensino privado nas instituições da Igreja é social e solidário e de alta competência e integra nele também muitos alunos das camadas desfavorecidas que, de outro modo, não teriam a possibilidade de subir às elites (https://antonio-justo.eu/?p=1305).

O ensino nas escolas da Igreja envolve uma formação integral orientada para os talentos pessoais com valores comportamentais positivos morais e intelectuais, pressupostos para o crescimento pessoal de maturação humana para melhor servir o outro (mais em https://antonio-justo.eu/?p=3336).

Um Estado com instituições produtoras de boa formação e de boas elites é como um carro puxado a motores de alta cilindrada; naturalmente muitos peões inocentes consideram a bicicleta como suficiente para andar, só que depois passam o tempo a queixar-se do vento dos carros que os ultrapassam (destes inocentes e dos descontentes se aproveitam as ideologias)! Também esta seria uma razão muito oportuna para o Estado subsidiar o ensino e a qualidade no ensino privado também porque grande parte deste é cooperativo e solidário e, de uma maneira geral, produz melhores motores para puxar o carro. A maior parte da conversa com que se ocupa a nação é gasolina para encher os depósitos de oportunistas e do partido (3). Muito boa gente socialista tem as suas boas razões para colocar os seus meninos em colégios privados. A esquerda radical do actual governo geringonça faz tudo por tudo por defraudar o ensino da Igreja.

Solução: não ideologizar integrar e descentralizar

A democracia precisa das posições da direita e da esquerda a actuar em compromisso com um ideário base de consciência integral e de subsidiariedade recíproca numa sociedade plural.

Uma e outra, para estarem à altura de um Estado democrático humano e plural, deveriam tornar-se complementares e não contraditórias nem exclusivas. Os pais deveriam ter a possibilidade de escolha entre o ensino estatal e o ensino particular (ambos gratuitos, em princípio). A escolha da escola deveria basear-se no que ela oferece, comunidade escolar, conceito pedagógico, qualidade, empenho, formação complementar, música, teatro, arte, actividades paraescolares, cursos inovadores, etc.

As escolas estatais deveriam deixar o dirigismo centralista de Lisboa e fomentar mais a criatividade e a qualidade de ensino, a autonomia, a inserção e promoção regional; o sistema centralista de colocação dos professores deveria ser abolido para ser descentralizado e humano; contradiz o espírito democrático tratar os professores como soldados, obrigados a viver longe da terra, devido a uma política do MEC anti-familiar e desrespeitadora das necessidades elementares dos seus funcionários. Deputados e servidores do Estado, que baseiam o seu poder para desestabilizar o cidadão e as instituições orgânicas de base, não são factualmente sérios, porque usam e abusam demagogicamente do pouco saber que têm de avanço em relação a um povo que propositadamente tornaram espectador e especialista do aplauso.

O que está em jogo e em perigo?

O povo deve ser induzido em erro! Na legítima discussão estão em jogo duas filosofias de vida: a visão do mundo socialista marxista contra a visão liberal conservadora. A esquerda radical procura impor-se à nação em nome de uma revolução apresentada à sua imagem e semelhança e não criticamente discutida como seria natural numa sociedade com uma direita e uma esquerda responsáveis e sérias!

A concepção socialista marxista aposta no valor do Estado e na manipulação cultural do indivíduo, concebe o Estado como patrão monopolista com direito a cimentar a sua máquina do poder e decidir sobre os conteúdos, os métodos, o pensar, a moral e os costumes, e até a religião; considera o Estado como um absoluto e a pessoa como meio para atingir os seus fins, vendo a pessoa e a educação como tarefa do estado; esta mundividência é a razão pela qual a esquerda procura, como estratégia inteligente, ocupar os lugares do Estado e da administração pública e de maneira especial o sector do ensino e da cultura; deste modo influencia com sustentabilidade as gerações novas e estudantis: Pretende, a longo prazo, uma escola de pensar único à maneira do dirigismo da troica soviética; consequentemente é contra a liberdade de ensinar e contra a liberdade de escolha dos pais; considera-se dona do orçamento do Estado (contribuintes) penalizando os pais que optem pelo ensino particular. Encontramos esta filosofia já plenamente aplicada e concretizada na antiga União Soviética, na China e na Coreia do Norte.

A concepção liberal conservadora aposta no valor da pessoa, na liberdade de escolha, na personalidade e nas capacidades do indivíduo, defendendo a multiplicidade de visões, a concorrência das instituições no sentido de optimação do nível do ensino (considera o Estado em função da pessoa); esta visão é liberal e vê na iniciativa privada o factor impulsionador da sociedade e na família o direito de determinar a instrução e educação e não o Estado; este apenas deve manter uma função de regulador e controlador do cumprimento da Constituição e dos programas de ensino. Encontramos esta filosofia aplicada nos USA, na Alemanha e muitos outros países democráticos.

Cada qual tem o direito de puxar a brasa à sua sardinha na grelha do estado democrático que é subsidiado pelos impostos e pelas vontades de todos os cidadãos (4). A irresponsabilidade governativa torna-se culturalmente prejudicial para a sociedade, significando a um empobrecimento educacional e cultural nacional, além de esbanjar os recursos do Estado. A AEEP (Associação de Estabelecimentos do Ensino Particular) refere que os cortes previstos pelo governo originam o “desemprego de mais de mil professores” e, de imediato, 9811 alunos que serão arrancados à comunidade educativa a que pertenciam. A medida governativa provocará “31 milhões de euros em indemnizações” e professores com “20, 25 anos de casa, que, se nada for feito, vão para o desemprego”.

A ideia original cristã da soberania da pessoa humana, sobre as instituições e as ideologias, poderia ser o princípio de uma discussão equilibrada baseada nas relações livres e complementares, como a política nórdica tentou com a economia social de mercado (ao tentar tornar compatíveis as leis da economia com a doutrina social da igreja), uma economia mista que responda de maneira inclusiva aos direitos e interesses do indivíduo e do grupo. 

De resto a nação é mais rica com o ensino público privado e com o ensino público estatal numa aposta de cada um tentar servir melhor os alunos, as famílias e a nação. Vamos todos colocar o poder dos factos sobre o poder das ideologias! O cinismo do poder não teme conduzir e fortificar a ideologia até à destruição do país. Ousemos colocar o futuro ao serviço de Portugal e dos portugueses numa inter-relação de grupos e interesses orientados pela inclusão e pelo bem da pessoa, a única soberana!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

  • 1 A propósito: a ADSE é segurança social privada ou pública? Não chegaria também um SNS comum? Porque não assume o estado português também a incumbência de construir casernas para toda a população em vez de delegar isso no privado?
  • 2 https://antonio-justo.eu/?p=3569) e https://antonio-justo.eu/?p=3444
  • 3 Como produto que sou do ensino particular dos salesianos e com os exames feitos no estatal, ensinei 7 anos no ensino particular e mais de 30 no ensino estatal; como andei sempre empenhado em representações de professores e sindicais, sei bem do que falo. Muitas vezes tive a impressão de que aqueles que mais se expõem em nome do proletariado são os que mais abusam dele, servindo ele apenas de escada para eles, do alto das suas posições, se servirem e deitarem as suas sentenças em nome de quem se distanciam.
  • 4 Em termos muito simplificados temos a lóbi marxista comunista beneficiada pelas infraestruturas criadas pela ideologia de Abril que pretende tornar-se na razão do Estado e temos a lóbi liberal capitalista que aposta no privado (no indivíduo e nas empresas, no mercado livre e nos contratos livres com o Estado a regulá-los) e nas relações livres. O capitalismo liberal explora a pessoa como força de trabalho reduzindo a pessoa a um instrumento ou mercadoria; o socialismo marxista explora a pessoa como mera força proletária reduzindo a pessoa a um instrumento em função do Estado.

 

 

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

6 comentários em “Interesses marxistas comunistas contra Interesses liberais conservadores na Arena da Educação”

  1. Professor Antônio e demais participantes da lista, bom dia.
    Em tempos de dúvidas e incertezas, gostaria de perguntar como se insere várias questões que já tenho comigo há tempos e ainda não havia encontrado interlocutores. Como nem sempre têm relação entre si, vou numerar as perguntas, sem com isso fazer um julgamento de mérito pela ordem crescente ou decrescente.
    1) Independente de ser uma escola pública ou privada, como está sendo feita a adaptação de professores que, como eu, nasceram antes de existir computadores e internet e têm em sala de aula a tarefa de concatenar esses “tentáculos digitais”, que têm no celular/telemóvel sua expressão máxima? Como saber se colocar com a geração “milênio”, dos nascidos depois dos anos 2000, que em suas casas costumam ensinar aos pais e avós a usar os equipamentos eletrônicos e a tendência (a ser evitada?) que isto ocorra em sala de aula.
    2) complementando o primeiro item, independente do ensino ser público ou particular, como estão inseridas as “vídeo-aulas” e a educação a distância (EaD) tanto para jovens quanto no meio universitário? Aqui no Brasil os alunos universitários simplesmente *odeiam* (gostaria muito de não escrever essa palavra; mas é fato conhecido de todas as gestoras de universidades públicas e particulares) ter que fazer algumas matérias “online” e geralmente esse “estilo” é considerado mais fraco do que o ensino presencial. No entanto há ofertas de ensino público e particular para graduações e pós graduações online, ou não-presencial como chamam, pela vastidão desse continente Brasil e nem sempre ter opções físicas de locais de tijolo e telhas para se encontrar para estudar.
    3) sobre seu texto e o ensino laico, só tenho conhecimento aqui no Brasil de escolas cristãs – católicas ou adventistas, batistas e linhas do cristianismo. Com fatos no continente europeu como a proibição do uso de véu na França, essa imposição ao estudo laico não seria uma maneira de, por isonomia, impedir a instalação do ensino islâmico, por exemplo? O ensino budista e taoísta está mais para uma academia filosófica do que um ensino com preceitos ameaçadores a nossa sociedade ocidental.
    4) Não poderia de forma nenhuma concluir minha lista de temas para debate sem incluir os (novos?) conceitos de desescolarização e “direito ao homeschooling”, que aqui no Brasil é proibido por lei mas praticado por pais com alto índice de escolaridade, e geralmente com preceitos religiosos ou de estilo de vida. O mote desse tema nem sempre é tirar o aluno da escola e sim “tirar a escola de dentro do aluno”?!?!?
    Esse assunto se tornou mais famoso quando um aluno do interior da Bahia que nunca estudou em colégios passou no ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio com nota alta o suficiente para cursar medicina.
    Sua frase “há sociedades que concedem o direito ao ensino privado também na família” refere-se a este tema?
    5) Apenas uma curiosidade, não tem professor de pedagogia que não fale da bem sucedida experiência da Escola da Ponte, que o sonho de vários alunos brasileiros de licenciatura é conhecer o projeto ao vivo, qual a opinião de vocês sobre esse projeto?
    6) relendo seu texto, hei de concordar que o ensino religioso traz bons resultados em termos de notas e aprovações nos vestibulares e no ENEM. Entretanto, ao menos no Rio de Janeiro não reflete a população; sua disciplina e excelentes professores não estão disponíveis às mulheres, independentes de serem brancas, negras ou asiáticas; as escolas brasileiras tradicionais militares já aceitam mulheres na graduação e mestrado: Escola Naval e de Guerra Naval; Instituto Militar de Engenharia; no tradicional colégio São Bento, um dos mais caros do estado, mulheres só entram como professoras.
    Com isto quero dizer que o respeito e a disciplina imposta pela hierarquia funciona; sem bagunça em sala de aula consegue-se passar a matéria em sua totalidade, contra a média de 30 a 60% tanto em colégios públicos e privados. Eu mesma já sai de dois cursos de pós graduação privados onde as conversas na turma imperavam sobre a voz dos professores.
    O ensino de qualidade deve ser acessível às mulheres, inclusive o ensino religioso não segregador (somente homens ou somente mulheres – convivemos em casa, na rua e em outras situações sociais; qual o motivo para preterir na hora do ensino? )
    Sem falar que 95% dos alunos são brancos. Além disso, como é feita a integração de alunos com deficiência física ou mental, como o autismo? Depois de muita luta das famílias contra todos os colégios que rejeitavam essas crianças, agora temos uma lei que obriga a matricula em escolas “de gente normal”, providenciando as adaptações necessárias (rampas para cadeira de rodas, professoras mediadoras para os autistas).
    Me extendi nos temas muito mais que pretendia ou planejava; mas fiquei tão animada de debater o assunto, tirar dúvidas, saber como funciona em outros lugares. Tive muitos alunos e alunas de Cabo Verde e aprendi com eles.
    Abraços cordiais, Ana Marta
    in Diálogos Lusófonos 20.05

  2. Cara Professora Ana Marta Vazconcellos, caros dialogantes,
    A riqueza de temas apresentados revela muito saber e empenho. É assunto que dá para todos falarem e não se esgotaria o tema. Quanto a mim respondo ao sabor da pena! Quanto às experiências e papéis acho que o mais importante é cada pessoa encontrar-se a si mesma e aceitar-se sem se deixar perder nas técnicas, que embora importantes não substituem o mais importante que é a relação e a experiência pessoal vivenciada e comunicada. Cada vez corremos mais atrás da tecnologia e as pessoas cada vez se tornam mais doentes porque lhes falta carinho e dedicação; correm com tanta velocidade que não encontram espaço onde possam aterrar.
    2)No que toca a ensino online, só me ocupei disso numa altura em que escrevi o artigo https://antonio-justo.eu/?p=2166; Na cidade de Kassel devido à grande quantidade de alunos que frequentam a Universidade e à falta de espaços e talvez para aquisição de experiência há estudantes registados com acesso “online” que assistem às aulas em casa podendo fazer perguntas ao professor e depois apresentar-se às provas. De resto a Universidade Aberta de Lisboa tinha programas semelhantes aos que refere. O Estudante seguia as orientações escritas relativas às disciplinas dos cursos e assistia a programas televisivos; enviava as respostas por correio e fazia os exames semestrais controlados por professores que assistiam às provas escritas, feitas no mesmo dia e à mesma hora em todo o Portugal e fora de Portugal (nos consulados). De resto há vários modelos e experimentações que vao sendo feitas de Estado para Estado para responder às necessidades locais. Eu mesmo, nos anos sessenta, quando estudante de Filosofia, cheguei a ser monitor de um curso de Telescola para o ciclo preparatório (5° e 6° anos. Os alunos encontravam-se todos presentes em aula (cerca de 25 alunos por turma) assistiam no televisor à aula dada centralmente pelo MEC e o monitor, que tinha livros recomendados e cadernos de exploração para a aula dada, continuava a lição. Este sistema de ensino era de muito rigor e de muita qualidade. Interessante, que esse posto de telescola em Manique do Estoril (creio que n° 1111) que ajudei então a fundar e a dirigir transformou-se numa grande escola com mais de 1500 alunos!
    3) Não se podem comparar as escolas arabi ou madrass com as escolas privadas na Europa porque aquelas são de ideologia religiosa. Falo da Alemanha e de Portugal onde as escolas privadas na têm de seguir os planos de enquadramento e as orientações-quadro determinadas pelo Ministério com indicação de disciplinas obrigatórias, a que os alunos se submetem através de exames estatais. Naturalmente as escolas privadas oferecem actividades e disciplinas complementares mas com obrigação de corresponderem aos princípios da democracia e da Constituição. Também fui professor do ensino particular numa escola salesiana em Lisboa onde havia alunos cristãos, judeus e certamente até ateus e não havia problemas nem conflitos, implica um projecto educativo integral e de ranking humano – muito importante a inclusão e a formação cívica num espírito de espontaneidade e alegria. Apenas os alunos que desejassem podiam, antes do começo das aulas participar na Missa.
    Quanto às escolas confessionais islâmicas não estou a ver que consigam formar de maneira aberta e na integridade nem tão-pouco corresponder aos princípios humanistas e democráticos europeus.
    4)Sim, fiz referência à escola caseira “homeschooling”. De facto aqui na Alemanha conheci um caso de uma família que ensinava os filhos em casa e depois os mandava prestar exames oficiais. O Estado sentiu-se incomodado e começou a mandar coimas para casa. Sobre o assunto cf: https://antonio-justo.eu/?p=1468
    5)tenho um colega amigo meu envolvido no Projecto da Escola Sofia (http://fazermais.blogspot.de/2010/01/insucesso-escolar-vem-de-longe-4.html ) com quem muitas vezes sonhamos em conjunto! Os modelos pedagógicos Projecto Escola Sofia, Movimento da Escola Moderna e a Escola da Ponte são muito interessantes e despertam curiosidade. O problema porém, no meu entender é encontrar docentes que sejam verdadeiras personalidades que alinhem todos no espírito dos modelos e com muita liberdade de iniciativa sem o Ministério sempre a travá-los. Uma questão de vivência e convivência na consciência que se aprende errando! Doutro modo a nossa sociedade cada vez é mais levada a encasernar as crianças em escolas em que a anonimidade e a falta de relação individual e comunitária dominam. A sociedade que temos, com as doenças e incompatibilidades que gera nas crianças, não deveria ter salas de aula com mais de 15 crianças; quanto mais heterogéneas as crianças são mais a necessidade de diversificação .
    Modelos pedagógico sejam eles Movimento da Escola Moderna ou Escola da Ponte ou Projecto Sofia, pressupõem que se deixe o laxismo e o facilitismo fora da escola e todos se consciencializem que sem disciplina vontade e empenho não há sucesso; isto pressupõe uma consciência adulta de pais e professores nessas escolas e alunos num ambiente de confiança e alegria que os consciencialize que são eles que têm de tomar a vida nas mãos e que a vida é uma contínua aprendizagem, aprendizagem em comunidade para a comunidade.
    A cultura da disciplina perdeu-se porque não pode ser dada de graça nem se pode comprar com dinheiro como quer uma mentalidade proletária de um aqui e agora sem esforço.

    6)No ponto 6 a prezada Ana Marta Vazconcellos fala de pressupostos essenciais. Entre outros, gostei muito quando disse “Tive muitos alunos e alunas de Cabo Verde e aprendi com eles”. De facto, centrar as atenções no processo de aprendizagem e na pessoa no sentido de se criar Relação é o essencial; uma pessoa estimada e reconhecida motiva-se a si mesma não precisando esperar fora o que tem dentro. A experiência do eu torna-se então criativa e gratificante porque experimenta o calor da comunidade, o indivíduo deixa de ser papel ou função em função de um funcionalismo anónimo para se tornar ipseidade. Não pode haver escola boa nem aprendizagem capaz onde não se cultivem as virtudes trabalho, disciplina, vontade e empenho responsável. Infelizmente estas são virtudes burguesas que os nossos superficiais políticos consideram combatíveis e deste modo enganam os descautelosos e os inocentes que pensam que a vida é um jardim infantil.
    De facto, um professor não pode ser um político nem tão-pouco ter a pretensão de corrigir os défices da política que quer iludir as pessoas na crença do facilitismo e do gozar a vida presente; o professor hoje é muitas vezes o bode expiatório de uma sociedade irresponsável orientada por uma política que desresponsabiliza e faz crer no laxismo e no facilitismo. O professor é culpabilizado pelas irresponsabilidades sociais e insucesso do aluno. Muitas vezes na sala de aula é obrigado a trabalhar à velocidade de 20Km hora quando poderia trabalhar à velocidade de 200Km. Por isso, por muito que um professor queira, não pode em nome da justiça conseguir na sala de aula harmonizar as injustiças e diferenças sociais que o estado suporta.
    Cada modelo de escola terá a sua filosofia, o seu conceito pedagógico, o seu método e estratégias de educação. Os modelos sejam eles tradicionais ou inovadores, todos eles terão o seu valor e justificação. Cada pessoa, cada grupo, cada estado tem a realidade que elabora e, portanto, o que merece e o ensino nas escolas reflecte o estado de desenvolvimento da sociedade. É difícil ensinar quando a sociedade desensina e desresponsabiliza não levando nada a sério? Os poucos que nos damos conta do que acontece na sociedade e na política e dos produtos que ela nos traz à escola temos um grande encargo: procurar fazer deles homens e mulheres responsáveis que sejam respeitados para poderem respeitar e ser honrados. A política quer obter muita eficiência com um mínimo de custos e por vezes, em nome da igualdade, sacrifica muitos desiguais.
    Cordialmente
    António Justo

  3. Muito bem visto e fundamentado com argumentos que eu não havia considerado.
    Fui aluna das Irmãs Doroteias desde a infantil ao antigo 7.º ano dos Liceus e ainda me hospedei num lar universitário
    das Doroteias no primeiro ano em Lisboa. Grandes mestras e grandes formadoras de personalidades solidárias!
    Melhores saudações

    MM

  4. Professor Antônio e demais participantes da lista, bom dia.
    Em tempos de dúvidas e incertezas, gostaria de perguntar como se insere várias questões que já tenho comigo há tempos e ainda não havia encontrado interlocutores. Como nem sempre têm relação entre si, vou numerar as perguntas, sem com isso fazer um julgamento de mérito pela ordem crescente ou decrescente.
    1) Independente de ser uma escola pública ou privada, como está sendo feita a adaptação de professores que, como eu, nasceram antes de existir computadores e internet e têm em sala de aula a tarefa de concatenar esses “tentáculos digitais”, que têm no celular/telemóvel sua expressão máxima? Como saber se colocar com a geração “milênio”, dos nascidos depois dos anos 2000, que em suas casas costumam ensinar aos pais e avós a usar os equipamentos eletrônicos e a tendência (a ser evitada?) que isto ocorra em sala de aula.
    2) complementando o primeiro item, independente do ensino ser público ou particular, como estão inseridas as “vídeo-aulas” e a educação a distância (EaD) tanto para jovens quanto no meio universitário? Aqui no Brasil os alunos universitários simplesmente *odeiam* (gostaria muito de não escrever essa palavra; mas é fato conhecido de todas as gestoras de universidades públicas e particulares) ter que fazer algumas matérias “online” e geralmente esse “estilo” é considerado mais fraco do que o ensino presencial. No entanto há ofertas de ensino público e particular para graduações e pós graduações online, ou não-presencial como chamam, pela vastidão desse continente Brasil e nem sempre ter opções físicas de locais de tijolo e telhas para se encontrar para estudar.
    3) sobre seu texto e o ensino laico, só tenho conhecimento aqui no Brasil de escolas cristãs – católicas ou adventistas, batistas e linhas do cristianismo. Com fatos no continente europeu como a proibição do uso de véu na França, essa imposição ao estudo laico não seria uma maneira de, por isonomia, impedir a instalação do ensino islâmico, por exemplo? O ensino budista e taoísta está mais para uma academia filosófica do que um ensino com preceitos ameaçadores a nossa sociedade ocidental.
    4) Não poderia de forma nenhuma concluir minha lista de temas para debate sem incluir os (novos?) conceitos de desescolarização e “direito ao homeschooling”, que aqui no Brasil é proibido por lei mas praticado por pais com alto índice de escolaridade, e geralmente com preceitos religiosos ou de estilo de vida. O mote desse tema nem sempre é tirar o aluno da escola e sim “tirar a escola de dentro do aluno”?!?!?
    Esse assunto se tornou mais famoso quando um aluno do interior da Bahia que nunca estudou em colégios passou no ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio com nota alta o suficiente para cursar medicina.
    Sua frase “há sociedades que concedem o direito ao ensino privado também na família” refere-se a este tema?
    5) Apenas uma curiosidade, não tem professor de pedagogia que não fale da bem sucedida experiência da Escola da Ponte, que o sonho de vários alunos brasileiros de licenciatura é conhecer o projeto ao vivo, qual a opinião de vocês sobre esse projeto?
    6) relendo seu texto, hei de concordar que o ensino religioso traz bons resultados em termos de notas e aprovações nos vestibulares e no ENEM. Entretanto, ao menos no Rio de Janeiro não reflete a população; sua disciplina e excelentes professores não estão disponíveis às mulheres, independentes de serem brancas, negras ou asiáticas; as escolas brasileiras tradicionais militares já aceitam mulheres na graduação e mestrado: Escola Naval e de Guerra Naval; Instituto Militar de Engenharia; no tradicional colégio São Bento, um dos mais caros do estado, mulheres só entram como professoras.
    Com isto quero dizer que o respeito e a disciplina imposta pela hierarquia funciona; sem bagunça em sala de aula consegue-se passar a matéria em sua totalidade, contra a média de 30 a 60% tanto em colégios públicos e privados. Eu mesma já sai de dois cursos de pós graduação privados onde as conversas na turma imperavam sobre a voz dos professores.
    O ensino de qualidade deve ser acessível às mulheres, inclusive o ensino religioso não segregador (somente homens ou somente mulheres – convivemos em casa, na rua e em outras situações sociais; qual o motivo para preterir na hora do ensino? )
    Sem falar que 95% dos alunos são brancos. Além disso, como é feita a integração de alunos com deficiência física ou mental, como o autismo? Depois de muita luta das famílias contra todos os colégios que rejeitavam essas crianças, agora temos uma lei que obriga a matricula em escolas “de gente normal”, providenciando as adaptações necessárias (rampas para cadeira de rodas, professoras mediadoras para os autistas).
    Me extendi nos temas muito mais que pretendia ou planejava; mas fiquei tão animada de debater o assunto, tirar dúvidas, saber como funciona em outros lugares. Tive muitos alunos e alunas de Cabo Verde e aprendi com eles.
    Abraços cordiais, Ana Marta
    in Diálogos Lusófonos

  5. Prezada Ana Marta Vasconcellos
    Como da outra vez escrevo rapidamente de forma assistemática e ao jeito do sentimento.
    1)A minha experiência tanto no serviço público como privado, tanto em Portugal como na Alemanha, no que respeita a computadores e outros meios auxiliares de ensino, é semelhante. O elemento mais importante, no que toca aos docentes, além do espírito de amizade entre os professores, são as formações específicas e contínuas tanto no privado como no público.
    O professor tem direito a uma formação de uma semana por ano para fazer as formações contínuas tanto em Portugal como na Alemanha. (Há a questão de alguns professores rotineiros sem vocação só estarem interessado em despachar o serviço e não frequenta as formações embora elas sejam gratuitas e façam parte do tempo de serviço) (a nível de ensino universitário também ainda chega a haver aquele professor interessado em vender o seu livro aos estudantes e passar o tempo lectivo lendo um ou outro texto em vez de se preocupar com uma aula interactiva).
    Nas muitas formações que tive portuguesas, notava por vezes, ao lado da preocupação científica também uma intenção ideológica de conotação revolucionária na apresentação de metodologias e de conteúdos mas a competência técnica dominava. Notava uma diferença nas intenções ideológicas subjacentes à mudança de governos. Devo porém dizer que quase a totalidade dos professores participantes dos cursos não se dá conta das finezas ideológicas empacotadas (por uns ou por outros) porque os docentes estão muito interessados em receber receitas, papelada e material de apoio (ou em fazê-lo in loco) para o ensino concreto porque a profissão de professor é muito exigente).Na Alemanha frequentava também as formações anuais oferecidas pelas entidades alemãs que duravam também uma semana ou optava por duas de três dias (aqui o professor tem mais alternativas de escolha dos seminários a frequentar e daí a possibilidade de escolha mais aferida às suas necessidades pessoais de formação contínua). Na Alemanha o professor podia requerer, além das formações regulares, outras formações específicas. Tanto na Alemanha como em Portugal há muita possibilidade de acesso à formação em novas tecnologias digitais. Na escola há salas de computadores com aulas de aprendizagem e nas salas de aulas o ensino é apoiado por computadores. Hoje o ensino a partir da quinta classe não pode prescindir do uso do computador, também no aspecto da intercomunicação de ajuda entre professores e alunos e entre alunos e alunos a internet tornou-se num instrumento imprescindível. Antigamente, nós estudantes juntávamo-nos para entreajuda nos trabalhos de casa e muitas vezes até nos revezávamos para elaborarmos sebentas de tudo o que os professores diziam; hoje os alunos e os estudantes intercomunicam sem sair da escrivaninha do computador (esta opção não é óptima porque nada chega à troca de experiências e de perguntas à frente de mapas ou na biblioteca).
    Naturalmente que pressupostos e competências dependem também do ambiente familiar e correspondente desenvolvimento cultural. Por isso o ensino deveria ter uma componente de responsabilidade das autarquias: estas podem ajudar a criar ofertas e meios de apoio às famílias em colaboração com a escola. No ensino universitário (tenho menos experiência porque apenas era delegado da disciplina de português) há imensas alternativas vivendo-se também de muita experimentação. Os institutos técnicos, que muitas vezes não exigem númerus clausus para entrar revelam-se mais exigentes no princípio dos estudos exigindo listas de presenças e trabalhos de casa obrigatórios tendo de ter feito com sucesso 65% dos trabalhos de casa (entrega online ou na caixa de correio) como pressuposto para se poder submeter aos exames escritos. As universidades são porém entidades autónomas e como tal há imensa variedade.

    (No ensino privado, no caso dos salesianos as formações de professores eram muito mais aferidas porque experimentadas internacionalmente noutras escolas salesianas e dado haver uma universidade central virada para o assunto com professores provindos de todo o mundo, os peritos orientadores eram mais práticos e concretos porque tinham permuta proporcionando já nos anos 60 meios audiovisuais e técnicas muito avançadas e professores especialistas em pedagogias e didáticas a nível internacional, vinham monitores do estrangeiro para orientar formações de professores).
    2)No ensino privado católico há o apoio pedagógico e técnico de universidades católicas e de institutos internacionais superiores em Roma e as diferentes congregações religiosas com intercâmbio e interajuda. No ensino público em Portugal a Universidade Aberta, pela experiência que tive é uma boa referência.
    No ensino a distância além dos livros de apoio, dos testes controlo da disciplina e da possibilidade de se contactar o professor universitário havia aulas visuais e os exames em presença.
    A nível universitário os professores têm hoje mais problemas em controlar a autenticidade dos trabalhos apresentados pelos alunos. O bom no assunto é que já há programas muito bons para detectar se a farinha é do próprio saco ou de saco alheio. Conheço um caso em que os professores em reunião deram uma boa nota de licenciatura a uma aluna e um professor depois de dada a nota provou através do computador que grande parte do trabalho era copiado. Para não prejudicarem a estudante exigiram que ela refizesse o trabalho! Exames não presenciais tornam-se muito problemáticos. Já na preparação de trabalhos ou teses há estudantes que pagam a outros estudantes para lhe fazerem o trabalho ou para fazer 50% dele, precisamente algum capítulo em que se sintam fracos e que um estudante colega como cadeira específica pode fazer sem grande esforço.

    3)Quanto ao ensino laico e confessional ou ideológico já me referi a isso no email anterior. Sou do parecer que o Estado (numa sociedade adulta) não tem a função primeira de educar porque não possibilita uma verdadeiro relacionamento entre sujeitos e não consegue dar resposta às diferenciadas necessidades-interesses e às vontades dos cidadãos. Isto mais que função da sociedade, é função da comunidade, é função dos pais e da comunidade. Uma formação integral só se pode dar numa comunidade educativa. O Estado, numa visão liberal, tem é que determinar o enquadramento curricular e as diretrizes do ensino, tem que inspeccionar e estar atento a que se cumpram os princípios democráticos. O Estado deveria impor exames estatais públicos a que todo o aluno/estudante deveria concorrer. Infelizmente o resto é a concorrência na vida.
    O ensino obrigatório efectuado a nível familiar desde que submetido a exame do Estado não me parece despropositado precisamente numa sociedade e num Estado com características cada vez mais ideológicas sem espírito inclusivo (inclusivo mais nas exterioridades). Isto traz consigo outros problemas também eles graves porque o indivíduo é também um animal social que precisa de modelos e experiência directa no sentido da sociabilidade. A isolação em que a rapaziada hoje vive, também com o smartphon, estreita o ângulo de visão e fomenta um certo autismo.
    A certeza e a incerteza dos tempos depende de cada um de nós desde que sejamos coerentes connosco no pensar, sentir e agir; então somos como o monte que saboreia o andar dos ventos mas não se deixa levar por eles. Todo o ensino deveria levar a formar inter-relacionamentos pessoais numa visão integral do Homem. Um estudante ou aluno motivado faz milagres; ao sentir-se reconhecido e tocado por um outro sujeito desenvolve em si forças especiais que o levam à responsabilidade e ao gosto de estudar. Os centros de ensino cada vez se assemelham mais a fábricas produtoras de objectos que funcionem e não de comunidades de sujeitos. O grande problema de toda a nossa sociedade está no facto de criar relações objecto-objecto e não começar uma verdadeira inovação revolucionária que seria o encontro não tanto de professor-aluno mas de pessoa-pessoa, sujeito-sujeito. Ninguém tem culpa, os problemas a resolver são tantos que somos levados na enxurrada. A Escola, em principio tenta formar produtos; formar pessoas torar-se-ia mais complicado e por vezes incómodo. Dizem estudos que hoje muitos jovens estudantes chegam aos estudos com uma amplitude de concentração de apenas 12 segundos. Não é fácil dar resposta a tais problemas numa sociedade cada vez mais conflituosa e que vive mais de reacções do que de acções conscientes e responsáveis; observa-se na sociedade e na cultura cadeias de reacções mais semelhantes às leis ferozes da natureza e os alunos chegam à escola cada vez com menos competências em humanidade e a escola não dá muito espaço à humanidade: trata os professores como objectos e não como sujeitos e estes reagem nesse contexto. A função do professor será encontrar-se a si para poder encontrar-se com os outros e passar a desescalar, responder ao mal não com iguais meios, sejam os conflitos de que ordem forem, doutro modo tornamo-nos prisioneiros das leis da natureza numa simples engrenagem em cadeia de reacções. Creio que o maior problema pedagógico estará em poder-nos encontrar a nós mesmos a nível de sujeitos para então nos podermos relacionar e interrelacionar ao nível de sujeitos, como a Ana Marta creio que fez no processo de encontro com alunos de Cabo Verde; encontro porque não a nível de objectos mas de sujeitos.
    Enfim, poderíamos conversar muito mas o tempo, a paciência e o cansaço condiciona-nos.
    Saudações
    António Justo

  6. Caro António e Ana , e demais correspondentes, incluindo os que tem experiência no ensino público ou no privado ,

    Julgo que o testemunho do António é bastante elucidativo a respeito das metodologias e das formações frequentadas regularmente pelos professores em atividade na Europa.

    Acredito que ainda vamos conseguir mais testemunhos de professores, mas depois do encerramento do ano letivo, lá para agosto.

    E talvez consiga, a intermediação de uma professora que exerceu no Brasil e depois em Portugal. Mas a comparação corre sempre o risco de estarmos a considerar épocas diferentes. Por exemplo, no Brasil,o ensino tem sofrido grandes alterações nas últimas décadas e até na tarefa de concatenar os “tentáculos digitais”.

    Mas peço à Ana, para aguardar mais um tempo, porque talvez surjam mais contribuições.

    Abraços Cordiais,

    Margarida
    in Diálogos Lusófonos

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