A DIFERENÇA É UMA COMPONENTE DE VIDA E A CONSCIÊNCIA TAMBÉM

A propósito do Ataque ao Grupo gay

Por António Justo

O massacre do Estado Islâmico (Daesh) na discoteca gay em Orlando mata 50 pessoas e deixa 53 feridas; neste acto barbárico revela-se o ódio das cavernas contra a civilização. Pessoas inocentes morrem pelo facto de fanáticos não suportarem o direito à diferença na sociedade. Falta o respeito pela vida e a consciência de que a vida tem em cada pessoa o seu rosto. A vida é o sorriso de Deus na natureza a florescer em cada pessoa e em cada planta. Cada pessoa só tem uma vida disponível que, embora integrada numa sociedade, é única e dela. Porquê tanto ódio contra o sorriso de Deus?

Tolerância?

Na folhagem da imprensa e nos meios virtuais, vêem-se muitos comentários que, embora condenando o morticínio de Orlando, também permanecem prisioneiros do espírito dualista que o motivou. Muitas opiniões são equacionadas a partir do posicionamento de dois extremos de uma mentalidade que parte do princípio de que, para se ser por alguém, tem de se ser contra outros. Por vezes as partes contraentes na criticada só se diferenciam por terem uma imagem de inimigo diferente. Na falta de capacidade integrativa permanecendo-se no demonizar ou no idolatrar; e isto acontece porque só se aceita o perfeito ideal e neste caso os gays são os maus e a religião são os bons ou para outros a religião é a má e os homossexuais são os bons.

Porque não interessa a capacidade de discernimento fica-se pela vaga tolerância que não chega a atingir os foros do respeito, numa atitude de opinião tipo salpicão onde tudo cabe devido à elasticidade da tripa da indiferença elevada ao grau de consciência de posição superior.

O respeito por cada pessoa pressupõe a aceitação de ela ser como é, comportando também o respeito pela pessoa ainda não nascida; a aceitação da pessoa também contempla o respeito pela decisão tomada por cada um, o que não implica a renúncia a uma ética fundamental do respeito pela vida em toda a sua forma de expressão.

Na realidade factual e virtual, as pessoas tratam o partido oposto com os mesmos critérios que usam para condenar aqueles que injustamente são agressivos contra os homossexuais. O que falta é o bom senso numa cultura diferenciada mas inclusiva.

Tanto as opiniões como os afectos e as relações das pessoas devem ser respeitados desde que não se expressem de forma violenta. Por outro lado cada pessoa tem o direito a sustentar a sua posição sem ter de deixar ver tudo reduzido à papa da tolerância que tem mais a ver com o direito e a justiça do que com o respeito e a convicção. Para encontrarmos respostas de sustentabilidade para o futuro será necessário observar melhor o princípio da diferenciação na natura e o princípio da consciencialização na cultura.

Maneira de estar de cunho católico

Observei que adversários anticatólicos por conveniência se aproveitam deste acontecimento para atacarem de forma destrutiva também o catolicismo esquecendo-se que o que atacam é a sua imagem de catolicismo. Na sociedade actual é moda a afirmação de uma dogmática orgulhosa “superior” baseada num relativismo que se afirma contra todas as doutrinas ou instituições que tenham um ponto de vista próprio. (Reservam para si o direito de opinião própria que negam à instituição!)

No cristianismo, seja ele católico ou protestante a última instância da moral é a consciência individual. Só a pessoa é soberana independentemente do que uma instituição pense, recomende ou regule. Esta atitude garante perenidade ao cristianismo, porque nela se manifesta a consciência cristã de que tudo o que não é pela pessoa humana está condenado a desaparecer, além da douta sentença de que quem anda com Deus nunca se encontra sozinho. Esta liberdade e soberania da pessoa não a ilibam de responsabilidade em relação à comunidade nem da comunidade em relação a ela.

O problema de todas as instituições grupos ou agrupamentos é deixar-se levar pela enxurrada da rotina do dia-a-dia, que geralmente serve o poder e o domínio do mais oportuno e violento, fixando-se em medidas mais pedagógicas e didácticas, deixando na sombra a profundidade da própria doutrina e filosofia que é mais abrangente mas que, também, numa sociedade massificada e de massas, geralmente, não é contemplada. A ética católica não se deixa reduzir a uma expressão ou contexto histórico nem tão-pouco ao espírito do tempo; ela é de cunho pessoal tendo em conta também a comunidade como lugar da realização da individualidade.

Por isso a ética de cunho cristão é processual orgânica e dinâmica não se podendo reduzir a uma formulação intelectual nem a um discurso do sim-não; ela é viva e a sua expressão é resumida no JC, o protótipo do Homem como passado, presente e futuro; com ele caminha toda a criação e todo o discurso no sentido do Alfa para o Omega.

A maior dificuldade vem do facto das diferentes posições e opiniões se expressarem de forma provocadora e violenta.

Incoerência no proselitismo e na provocação

Os contraentes das opiniões não são simples ao lidar uns com os outros fazendo uso, por vezes, do proselitismo e da provocação na arena pública ou publicada. Em vez de aproximação ou de argumentação recorre-se à repulsa do outro (para cada um o diferente é o outro) e à opinião formatada sem espaço para a argumentação. Não é saudável a atmosfera em que se vive dado minorias em sociedade tentarem humilhar a sociedade que lhes deu o ser e se comportarem como senhores da melhor verdade e como tendo o rei na barriga. Mas também a sociedade maioritária deveria reagir à provocações com maior serenidade como reagem os pais perante o filho adolescente que se revolta para se encontrar e definir a si mesmo.

O cúmulo da ingenuidade seria querer impor a própria forma de vida através da provocação e da violência. A parte mais fraca quando tenta impor a sua forma de vida através da provocação e da violência deveria ser consequente e pensar que se a razão se impõe pela violência então a razão estará do lado de quem tem mais força, legitimando deste modo a ditadura das maiorias.

Cada comunidade de interesses deveria naturalmente procurar ser reconhecida num convívio das comunidades cujo fim é, na complementaridade, o alcance da felicidade; nem o trunfo da força nem o do moralismo relativista são meios adequados como argumento. Uma sociedade relativista, da moral do politicamente correcto, tem-se afirmado à custa de uma estratégia de confusão dos argumentos e deste modo tem reduzido a capacidade crítica das massas. A decadência vive da ambivalência e do deita abaixo, por isso são consequentes na sua luta contra o monoteísmo e o organigrama estrutural de formas de vida tradicional. É chegada a hora em que não se deve tratar de combater um totalitarismo da exactidão abstracta com um totalitarismo dos relativismos ou vice-versa mas de personificar o dia integrando o passado e o presente num futuro que embora manque à esquerda e à direita não se torne torto.

Vivemos tropeçando em nós e no tempo

 Vivemos num tempo narcisista que procura adquirir trunfos e viver da confusão e, como tal, grandes grupos da sociedade já não distinguem entre o público e o privado, entre o caótico e o ordenado, nem sequer o que é fundamental e o que é secundário: cada um quer fazer da sociedade o seu espelho e formatar a sociedade e as instituições à medida da sua opinião. Para isso exigem uma sociedade tão aberta que identifique a linha da sua demarcação com a fronteira do indivíduo.

O princípio da discriminação é inerente à capacidade do discernimento; o problema surge quando se fixa numa só anuência contra uma realidade que é processual e flui. Ao afirmarmos indiscriminadamente que uma geração é mais madura que a outra, que este ou aquele é que tem a culpa, já decidimos pela forma de discriminação negativa ou positiva, colocando-nos assim no tapete dos discriminadores (caso um momento processual do conceito se fixe em “preconceito” provocando uma sentença irreversível). O problema do jogo do empurra e a questionação da culpabilidade já foi mestralmente resolvido na resposta dada por Jesus aos espertos da sociedade que queriam ver uma mulher condenada por ter sido apanhada em falta flagrante contra a opinião dos doutores do saber e da lei: “Aquele que de entre vós está sem culpa seja o primeiro que atire a pedra contra ela” (Jo, 8, /), escreve no pó da realidade, o mestre.

O respeito pela vida leva a proteger as crianças da pedofilia e os não nascidos da morte prematura por aborto. É uma questão de atitude e de filosofia: o respeito e a admiração pela vida que compreende os excessos sem os aprovar. A ética não pode ser reduzida a valores limitados ao pragmatismo utilitário nem apenas à circunstância. Para lá de valores éticos de caracter racionalista e mecanicista há uma ética de responsabilidade criativa e orgânica. Não se trata aqui de estar de acordo ou em desacordo mas de nos encontrarmos todos no meio da vida com as suas inclinações e opções.

As inclinações e predisposições podem ser mórbidas (Freud) mas estas não devem ser aquelas que servem de orientação para a sociedade ou em nome da banheira da tolerância legitimar um relativismo superficial que igualiza todos os valores e deste modo não leve nenhum a sério, como se fosse possível em nome do intelecto negar o corpo e a massa cerebral ou como se se tivesse a impressão de ser tão intelectual ou espiritual e tão perfeito que pudesse afirmar-se sem o corpo, numa dimensão sem espaço nem tempo.

As pessoas confundem muitas vezes uma orientação sexual ou pessoal com uma opção. A opção é de caracter intelectual, de caracter mecanicista e artificial, geralmente estranha à vida que é orgânica. Uma sociedade demasiadamente demarcada pelo conceito de liberdade, que fomenta o individualismo absoluto, incorre na tentação de reduzir tudo a uma mera decisão de escolha como se a realidade fosse feita de sim ou não, ou de um momento só (visão momentânea) e não tivesse um caracter orgânico processual. A vida privada tem naturalmente uma outra abertura que não é possível viver totalmente no enquadramento social. Não é fácil manter a equilíbrio para se na ser vítima de uma ditadura da maioria nem da ditadura de minorias.

Tentativa de solução

É necessário um estado contínuo de presença, reflexão e análise das próprias ideias e opiniões, dado cada pessoa, cada geração, cada grupo precisar de um contexto ideário e de uma definição para poder dar expressão à própria existência e motivação (manifesta-se aqui a interferência ideal e orgânica da relação de identidade pessoal e da identidade comunitária ou social em que uma deve servir a outra). Geralmente o que se considera como normalidade não passa de uma visão rotineira e de aceitação do domínio do dia-a-dia e da vista curta e generalizadora de algo que é mais profundo e abrangente. O problema vem da implicação da relação entre indivíduo e grupo e da identificação da própria definição com a definição do grupo; muita agressividade vem dessa confusão que se expressa tanto no orgulho gay como no orgulho nacional. Entre o homo e o hétero está a objectividade da pluralidade e heterogeneidade da natureza. Na natureza porém coexiste pacificamente a regra e a excepção. O carvalho não se sente superior ao arbusto pelo facto de ter mais luz nem a faia se sente superior à floresta pelo facto de se sentir mais individuada em relação a ela.

O proselitismo e o exibicionismo, em voga, contra os valores da família, da nação e de Deus, embora não abdicando de se definir e identificar, rebela-se contra qualquer definição e identificação de forças de uma sociedade que consideram burguesa e querem ver destruídas. O problema das forças centrífugas de uma sociedade torna-se fatal quando estas, em vez de quererem corrigir exageros de uma moral, cultura ou religião demasiado centrípetas, optam pela sua destruição. Então a maioria sente-se provocada e reage também ela de maneira inadequada em vez de reconhecer que nela são necessárias tanto as forças centrípetas como as centrífugas. As energias centrífugas (progressistas) têm exagerado contra as forças centrípetas do passado. Por isso as energias centrípetas (conservadoras) reagem e se revelam de momento um pouco mais fortes. Sofre de contradição e de lógica quem quer, em nome do biótopo ideológico, destruir a ecologia cultural. O meio ambiente (população cultural) precisa da coexistência de diferentes biótopos humanos. Que seria da frase sem a palavra e que seria da frase sem o texto? Em nome da igualdade da palavra, da frase e do texto não podemos acabar com estes para reconhecermos só valor da letra!

As forças de resolução no caos são contra as forças ordenadoras na criação. Daí a necessidade de afirmadores e negadores se consciencializarem das forças que representam e que redemoinham no lago da própria existência e na realidade maior que é a Terra. Daí o problema de as forças primeiramente mencionadas se expressarem no budismo e no niilismo em voga e as forças ordenadoras se expressarem mais no cristianismo. A decadência é de inspiração relativista e como tal tenta conduzir uma cultura fértil ao Tohu-va-bohu (Jer 4,23) confundindo a realidade com a própria guerra, a verdade com o horizonte da sua vista (estado da confusão sem esperança em estado após uma guerra!). A tendência actual extremista que se expressa no islão na defesa do grupo contra o indivíduo nota-se o contrário no ocidente na luta do indivíduo por se definir contra o grupo; deste modo cai-se no vazio espiritual, como forma de liderança, na esperança de que a liberdade se identifique com a largura do deserto. Que cada um, no ocidente, lute pela própria definição e afirmação é totalmente legítimo e natural, mas obrigar a colectividade a ter de igualar a regra à excepção seria abdicar do pensamento honesto de desenvolvimento ordenado! A comunidade heterossexual deve viver em paz com os grupos homossexuais e estes com a heterossexual na aceitação da naturalidade de vida sem discriminar nem negar o direito natural à diferença mas estar consciente de que a diferença só tem expressão no grande bosque que é a sociedade e a cultura.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e pedagogo

“Meditações Irreverentes” https://antonio-justo.eu/?p=3678

A PROPÓSITO DA VERDADE E DAS VERDADES NA IRREALIDADE DA POLIS

A Verdade é paciente não ataca nem difama

Por António Justo

A verdade ou é revelada ou é vivida, o resto é crença nalguma forma ou numa perspectiva de vida que, para cada qual, pode ser a sua. Seria auto-engano acreditar num poder todo-poderoso da razão, por muito nobre e prático que ele possa ser.

Todo o saber, seja ele político ou científico é apenas uma forma de discurso. A doutrina é limitada ao intelecto e a Verdade não se deixa reduzir a ele nem à experiência que se tenha dela. Consequentemente a atitude intelectual e prática mais adequada que possamos ter em relação à verdade será de humildade e de respeito e em relação às verdades e opiniões dos outros a melhor postura será de tolerância.

 O intelecto e a experiência são os instrumentos de acesso à verdade/realidade não podendo o instrumento nunca ser identificado com ela. A existência humana tem os seus quês e precisa de crenças e mitos tal como a planta precisa da luz, do calor e da atmosfera que lhe possibilita a sua forma de vida.

A planta não se questiona sobre a existência do Sol, porque o que ela precisa é de luz e de calor; pretender que ela reconheça para lá da luz e do calor também o Sol ultrapassaria as suas necessidades naturais primárias! Deus está para lá da experiência objectiva e ultrapassa a experiência que se possa ter dele, contudo aquilo que nos torna Homem é a referência (relação com) a Ele. Negá-lo seria meter-se num beco sem saída. De facto o beco também tem a sua serventia e quem quiser ir mais além volta para trás, talvez mais enriquecido com a experiência dele.

 Na polis a verdade encontra-se encarcerada na ciência, no partido, na opinião, na lógica, nas promessas e até na devoção. Acontece à verdade o mesmo que sucede à ideia livre ao ser metida na linguagem. A verdade absoluta sem ser categórica só pode ser Deus, aquele “lugar vivo” onde cada ser pode ser ele sem se justificar e assentar os pés para poder caminhar ao sol da vida, e saborear também a sombra da Verdade na opinião. Nesse lugar não precisa de se subordinar sequer a grupos de influência que ditam leis para outros cumprir.

Que seria da diversidade dos biótopos e das plantas se não houvesse para cada qual o seu raio de verdade! Que seria da cultura e da individuação se não houvesse a verdade do procurar a forma numa maneira própria de estar a caminho de Ser.

Verdade? Tenho a impressão que a Verdade é como o Sol: à medida que nos aproximamos dela mais queimamos as asas do nosso ego; se nos for dado, então sentiremos a dor do abismo entre as alturas do intelecto e a profundeza do coração. No descampado da polis tudo luta por ela, mas antes de chegarmos lá, a cada um a sua, desde que não a use como cacete! Verdadeiro é certamente o caminho no desejo dela! Sim, porque verdade é a liberdade a voar nas alturas do céu mas agradecida e consciente de que o que lhe possibilita a satisfação da vivência das alturas vem da profundidade do coração.

No contexto político, também a veracidade é dinâmica e como tal improvável porque depende do que se torna confiável e o fiável depende também da capacidade de ver, estar e ser; mesmo em relação ao dado factual surge o problema da interpretação que leva ao engano. Cada lógia (cada maneira de olhar) é apenas uma perspectiva necessária mas limitada da verdade/realidade, uma passada na grande caminhada sob os holofotes da Razão e do Coração.

Também penso que a questão está nos olhos e do olhar é que depende, em grande parte, a perspectiva e, dado a verdade (resumida em Deus) ser a-perspectiva, seria questionável querer mandar alguém para o oculista por causa dela! Sim, até porque há pessoas mais inclinadas a ver na perspectiva dos factos e outros na perspectiva do miradouro em que se albergam para observar a paisagem. A partir daí, cada qual se torna num pintor a elaborar a realidade na sua tela, ou um escritor a fazer a sua composição na intenção de a acrescentar ao grande painel da Realidade…

Muitos de nós encontramo-nos, por vezes, perdidos na própria imagem ou absorvidos na composição de imagens sem atendermos às linhas de fuga que dariam maior perspectiva ao panorama da nossa pintura na tela da vida. Os nossos olhos e intenções interferem e delimitam a paisagem e a verdade, não notando por vezes que ao dar-lhes forma as plastificam, confundindo o detalhe com elas, identificando a forma com o conteúdo que não cabe nela.

Se uns têm um olhar mais curvilíneo (emocional subjectivo), outros têm-no mais rectilíneo (racional objectivante) e aí surge o busílis de querer reduzir a realidade à própria linha (não contando ainda com o problema das cores!). Por um lado temos o problema dos instrumentos (razão e experiência) utilizados para definirmos a realidade na finitude e por outro temos o problema de pretendermos com uma visão finita querer identifica-la com o infinito. Querer possuir a verdade é como querer resolver o problema da quadratura do círculo, é como querer meter a transcendência (o círculo) na forma (quadrado) apenas com o instrumento da razão. (1)

A Verdade é inteira mas para ser apreendida pela condição humana, tem de ser repartida em partes (o infinito dividido em partes finitas é transformado em finito através da razão que depois abstrai da parte para o infinito). O escalpelo da razão como instrumento de explicação da realidade/verdade tem um pequeno senão ao arrogar-se poder resolver o problema da quadratura do círculo querendo identificar o quadrado com o círculo, o que é ilegítimo. Querer resolver assim o problema da quadratura do círculo é como recorrer à decomposição de um ser vivo em partes e depois concluir que a soma das partes é o tal ser vivo, não notando que o acto de apresentar a soma das partes, deixa de fora a vida.

Na impossibilidade de possuirmos a Verdade seria lógico juntarmo-nos todos com esquinas e arestas num círculo abraço para darmos mais espaço à forma onde caberá mais verdade.

A perspectiva polar exclusivista do verdadeiro e do falso, da direita e da esquerda, do espírito e da matéria reduz a realidade complexa, a um ponto de vista bidimensional, fazendo dele um caminho para andar mas que peca por não contemplar a verdade da vida. Não notamos ainda que andamos todos a tentar fazer da vida uma linha direita alérgica à vida porque a natureza é toda ela curvilínea

Seria pena querer-se reduzir a realidade multidimensional a uma superfície material bidimensional, ou a uma só perspectiva na linha vertical (mais identitária), na linha horizontal (mais social), ou na linha diagonal (menos monótona). Cada um tem o seu plano de imagem com mais ou menos perspectiva com mais ou menos profundidade… O decisivo é saber-se na convergência e na consciência de que a verdade não se tem, só se vive e experimenta, mas cientes também de que sem contraste não há profundidade. O apelo de Deus, o apelo da Verdade, é tentar descobrir sempre novas maneiras de enxergar o mundo e deste modo contribuir para a sua contínua criação, para a realidade que se encobre no mistério da sua poesia! A verdade é como o amor (2) embora manifesta em cada um ela é inteira.

Para mim a Verdade é Jesus Cristo porque nele se realiza e resume de forma inclusiva a matéria e o espírito. “No princípio era a palavra, a in-formação”, constatava já o evangelista João. “E o Verbo tornou-se carne” sem se deixar reduzir à incarnação!

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo

Meditações Irreverentes  in Pegadas do Espírito https://antonio-justo.eu/?p=3667

  • (1) A razão por mais que se esforce nunca poderá meter o infinito no finito, nem o todo na parte (o que demonstra que até a geometria não sobrevive sem o princípio infinito (Deus). Na minha opinião a teologia conseguiu a resolução desse problema através da fórmula trinitária; para tal não chega a razão, necessita-se também da espiritualidade e do coração; esta possibilita a integração da parte no todo e do todo na parte – serve-se porém do mistério de JC.
  • (2) “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” 1 Coríntios 13:4-7.

A CRISE CULTURAL EUROPEIA E A NOVA AGENDA DOS PARTIDOS DE ESQUERDA

 

Numa Europa à Procura de si mesma?

Por António Justo

Ponto de partida

Vivemos numa Europa que não sabe o que a Europa quer! A sociedade europeia parece ter chegado aos seus limites. De facto, a sua abertura é tanta que já não se sabe onde é dentro e onde é fora. Toda a sociedade que não se preocupa com a sua definição, com a sua identidade, perde a razão do seu existir. Uma sociedade não se pode definir apenas pelas suas demarcações territoriais, ela precisa também de um tecto cultural espiritual, no caso, precisa de se reencontrar no cristianismo. A moral baseada nos dez mandamentos foi substituída pelo moralismo do pensamento politicamente correcto, da falsa tolerância, do “não deves…” e de um insidioso desenraizamento que se agarra à rotina de uma desgraçada filosofia niilista que reduz o ideário do cidadão à mera satisfação das suas necessidades primárias.

A consequência natural da ausência de um tecto metafísico torna-se visível nas crises de identidade individual, de identidade nacional e de identidade civilizacional. Isto leva socialmente à formação de uma economia dominada por um capitalismo predatório e de uma cultura submetida a um socialismo predatório. No vácuo cultural formam-se bolhas islâmicas e mundivisões mecanicistas que conduzem à arrogância, à insatisfação e à frustração de pessoas humanistas adultas, mais conscientes e sensíveis.

A Insatisfação social e a Situação partidária

Grande parte do povo europeu tem a sensação de que não é senhor na própria casa e tem a impressão de ter uma classe dominante composta de lobos vestidos de cordeiros. Assim, o povo, cada vez mais se afasta da classe política estabelecida e reinante. Em todas as nações alastra o descontentamento social e a desilusão observando-se, na sequência disso um amplo movimento social para o centro- direita e um radicalismo nos extremos.

Os ventos neoliberais que assediam a social-democracia europeia desestabilizam o centro social-democrático de esquerda e de direita, o que leva os partidos andarem agora à procura de noivas nos partidos radicais.

Os grandes partidos do consenso perdem as penas, correndo perigo de se tornarem ultrapassados; por outro lado os partidos das bordas têm-se encontrado demasiado centrados em si mesmos, e, como rastejo acompanhante, assiste-se a protuberâncias sociais no activismo político da extrema-esquerda e da extrema-direita. (A sociedade portuguesa é pacífica e moderada; politicamente é de inclinação republicana esquerda não possuindo extrema-direita).

Reacção apressada à situação

Atendendo à insatisfação generalizada do povo europeu os partidos que antes giravam em torno do centro esquerda reagem querendo perfilar-se com posições ainda mais radicais à esquerda como forma de responderem à acentuação do crescente nacionalismo provocado pelo vácuo cultural criado principalmente por ideologias prepotentes que fizeram das leis as rédeas do povo; essa elite reage agora assustada quando este parece querer beneficiador os partidos do centro direita e favorecer as bordas da sociedade, o que implica maior fragmentação política e social.

Tanto a esquerda radical (comunista) como a esquerda socialista, em vez de agirem reagem, chegando apressadamente à conclusão de que o povo precisa de assédio e de mais estímulo emocional. Para isso as famílias partidárias da esquerda europeia pretendem seguir uma agenda ainda mais virada para um “populismo de esquerda, empático e iluminado”. A agenda de radicalização foi anunciada na Alemanha pelo partido Die Linke (A Esquerda), seguindo-se-lhe o moderado SPD alemão (desgastado pela governação) e por último o Congresso do PS em Portugal. O PS já se encontra demasiado à esquerda (se tivermos em conta o SPD). A experiência do governo de Aléxis Tsípras na Grécia e de António Costa em Portugal parecem encorajar a esquerda a tornar-se mais radical.

Armam-se em escudo protector de uma classe que também exploram e para melhor se perfilarem usam uma posição ambígua em relação aos governos e de alas dentro do próprio partido. Numa época em que as questões sociais não se resolvem só a nível nacional nem partidário, a esquerda parece abdicar da responsabilidade ao acentuar uma estratégia baseada no ressentimento e na inveja e na luta entre os de cima e os de baixo; por outro lado um capitalismo liberal desenfreado dá-lhes razão.

Perante o Zeitgeist (espírito da época) europeu, que de momento expressa a necessidade de corrigir um movimento político progressista a perder cada vez mais as referências da cultura europeia, a esquerda europeia, em vez de reflectir sobre erros e exageros na imposição da sua ideologia, quer reagir mais agressivamente nos debates da sociedade, para assim poder ganhar para si a razão da emoção.

Portugal derrapa à esquerda enquanto a Europa se corrige reorganizando-se um pouco mais à direita. O povo português teria muito a dizer à EU mas a sua elite, enquanto não se descobrir como povo, será levada a viver da ideologia importada, impingindo ao povo gato por lebre, quando no país há tanta lebre!

Como Portugal não tem nenhum partido de extrema-direita, a nova estratégia da esquerda significará para Portugal uma escorregadela ainda mais à esquerda; em relação aos países do centro nórdico europeu, a sociedade portuguesa continua a nível ideológico político um passo à esquerda da Europa.

Quem manda pode e quem pode manda; só manda vir quem não pode ou quem não está consciente de que também pode poder organizando-se!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

HOMOSSEXUAIS REABILITADOS E COMPENSADOS

Homens homossexuais que na Alemanha tinham sido condenados segundo o parágrafo 175 (“parágrafo da vergonha”) devem ser reabilitados e compensados, reconhece agora o governo federal. Até 1994, actos sexuais entre homens, eram puníveis.

Até então terão sido condenados cerca de 50.000 homens. Lésbicas não eram objecto da lei porque  a sociedade não era tão rigorosa no que toca às amizades e relações entre mulheres.

Esta intenção de reabilitação manifestada pelo governo, revela-se um passo em frente no sentido da reconciliação social e um aviso para que o Estado não se intrometa na vida privada das pessoas.

Em nome de uma moral (ad hoc) a política imiscuía-se no foro privado ofendendo a ética e responsabilidade pessoal (universal) e baseava-se na lei para invalidar a liberdade. A política falhou fazendo, da obediência à lei, um valor superior. Uma política generalizada habituada a transformar moral restrita em política refugiar-se-á  sempre num direito que derrapará. O bem individual sofre, muitas vezes, mas mais cedo ou mais tarde é reconhecido. Tudo o que não serve a pessoa é transitório!

António da Cunha Duarte Justo

 

 

SANTO ANTÓNIO DE LISBOA – DECLARADO DOUTOR DA IGREJA HÁ 70 ANOS

Hoje 4 de Julho celebram-se 70 anos da proclamação de Santo António de Lisboa como Doutor da Igreja (“Doutor Evangélico”) pela Bula do Papa Pio XII “Exulta Lusitania Felix”. António nasceu em Lisboa a 15 de agosto de 1196 e em 1221 aportou na Itália tendo morrido em Pádua no dia 13 de Junho de 1231.
Este nosso Doutor da Igreja é tão brilhante, humilde e amado que toda a gente o quer para si e os italianos o queriam ver de Pádua. 


Ele é tão querido que minha mãezinha me deu o seu nome, talvez nalgum dia mais curto em que andava à procura de coisas perdidas.


O nosso santo era já democrata e dignificava a natureza quando dizia: “Deus é Pai de todas as coisas. Suas criaturas são irmãos e irmãs.” Também dizia: “É viva a Palavra quando são as obras que falam.”
É um santo também milagreiro feito de povo a quem assiste e ajuda.


Já agora coloco aqui uma oração que a devoção popular criou no desejo de se sentir mais confiante na companhia de alguém, mais próximo de si e de Deus, que se torne num pêndulo ampliador de afectos e energias. 


Para alcançar uma graça é  bastante conhecida a seguinte oração:

 

“Eu te saúdo, meu protetor Santo António!
Intercede por mim junto a Nosso Senhor Jesus Cristo
a fim de que ele me conceda a graça que desejo (mencionar a graça).

Eu te peço, amado Santo António,
pela firme confiança que tenho em Deus, a quem serviste fielmente.
Eu te peço pelo amor do menino Jesus que carregastes em teu braço.
Eu te peço por todos os favores que Deus te concedeu neste mundo,
pelos inúmeros prodígios que Ele operou
e continua operando diariamente por tua intercessão.”

 

António da Cunha Duarte Justo