CONSCIENCIALIZAÇÃO ENTRE ORDEM DA NATUREZA E ORDEM CULTURAL

Da Convivência cultural e ecológica num Mundo multipolar

Num mundo contemporâneo que se afirma, cada vez mais, pela rigidez dos opostos, a humanidade enfrenta o desafio urgente de redescobrir o diálogo. Vivemos divididos por fronteiras invisíveis, onde o “nós” e o “eles” sufocam a riqueza da convivência.

Para superar este impasse e cultivar um humanismo autêntico entre os nossos biótopos culturais, precisamos também de olhar para a maior das mestras que nos se depara de modo imediato e se revela na própria natureza. Longe de se contradizerem, a ordem natural e a ordem cultural são duas formas de vida em evolução contínua que se podem e devem ajudar a melhorar.

A Ordem humana e o Fluxo da Natureza

A nossa noção tradicional de ordem é, por essência, uma redução histórica. Associamos o conceito de ordem à simetria perfeita, à linha reta e ao controlo absoluto. Trata-se de um mecanismo de defesa porque diminuímos a realidade para nos conseguirmos definir a nós próprios. Tentamos estabelecer limites rígidos para que a nossa visão e o nosso entendimento limitado possam processar a complexidade do mundo.

A natureza, contudo, ignora as nossas réguas. Ela não apresenta linhas claras nem limites exatos. No seu seio, o grande convive harmoniosamente com o pequeno, sem qualquer preocupação com classificações ou gavetas conceituais. O veneno e o remédio coexistem lado a lado, na mesma floresta. Na ordem orgânica da Terra, nada é direito, mas nada está desalinhado; tudo cumpre uma função no ecossistema global.

A Ambivalência do Ser humano e o Medo do Ilimitado

O equívoco da nossa civilização não está em criar instrumentos de medida, mas em confundir a riqueza da vida com as próprias ferramentas que usamos para a medir. Na nossa necessidade incessante de definir, torna-se visível a profunda ambivalência do ser. Etimologicamente, a palavra “definir” tem a sua raiz no latim finire, que significa delimitar, erguer muros, estabelecer o fim de algo. Sendo criaturas biologicamente limitadas, sentimo-nos instintivamente mais confortáveis dentro de cercas mentais; mas a natureza, essa, serve-se também da osmose como possibilidade, dissolvendo as fronteiras que teimamos em traçar.

A ideia abstrata precisa de cálculo e de um ordenador para existir enquanto a vida real apenas precisa de espaço para pulsar. A ideia limita e estagna, enquanto a vida cresce, passa, muda e evolui livremente. Contudo, esta oposição aparente esconde uma complementaridade essencial: a régua dá forma ao ilimitado, assim como o ilimitado dá perspetiva à régua. O acto de finire não é, por si só, um erro porque é a resposta humana à nossa condição finita, um refúgio que nos orienta no caos.

A ordem Humana está focada na redução e na uniformidade, na simetria rigorosa e nas ideias fixas. A ordem da Natureza está focada na expansão e na integração, na diversidade aberta, na coexistência de opostos e no sentido prático da vida. Mas estas duas ordens não se anulam nem se repelem, completam-se. O limite que o Homem impõe com o definir (o finire) oferece contorno e identidade à imensidão natural, evitando que esta se dissipe em vazio. E a osmose natural que é a permeabilidade entre opostos, numa troca constante que ignora muros, oferece movimento e renovação à rigidez humana, avisando que as nossas definições não se devem cristalizar em dogmas que asfixiem. Se a definição dá segurança a osmose dá vitalidade e uma não sobrevive sem a outra. Isto transportado para a sociologia, ensina que o verdadeiro desenvolvimento é a interculturalidade e não a multiculturalidade.

O verdadeiro medo do ilimitado não é, portanto, o receio do que é vasto, mas sim o pânico de reconhecer que a nossa própria finitude só ganha sentido quando abraça a infinitude que a rodeia. Civilizar-se não é domesticar a natureza nem render-se a ela, mas sim aprender a viver com ambas as forças, usando a medida como bússola, a liberdade como motor e a consciência humana como regulador. Definir é necessário para não nos perdermos, mas viver exige, acima de tudo, a coragem de deixar que os muros que erguemos sejam, de vez em quando, atravessados pela seiva do que não cabe em nenhuma lei, porque é exatamente nesse atravessar que o finito e o infinito, o humano e o natural, se reconciliam e se completam.

Os Biótopos culturais precisam da Diversidade como Elã vital

A ordem da natureza nunca foi caótica, mas a sua estabilidade não nasce da uniformidade, mas sim da diversidade aberta. Na ecologia, existem biótopos, comunidades de seres vivos que partilham o mesmo teto ambiental. Da mesma forma, as culturas humanas funcionam como biótopos sociais. São famílias de pessoas, de pensamento, tradições e linguagens que coabitam no globo humano.

Mais ainda: cada flor, tal como cada ser humano, é em si mesma um habitat diversificado e único. Os recentes e devastadores incêndios florestais funcionaram como um aviso severo gravado diante dos nossos olhos: tentar planear a natureza de acordo com o nosso entendimento estrito traz sempre consigo a tragédia da exceção. Na relva, diferentes seres vivos encontram abrigo sob a mesma folha; cada flor atrai insetos distintos, gerando uma interação harmoniosa onde a diferença é o motor da sobrevivência; na cultura o espírito dá perspetiva transcendente  ao elã da diversidade, muito embora forças das ideologias petrificadas embora fomentem um desenvolvimento quantitativo contrariam porem o desenvolvimento qualitativo.

O Óbvio do Humanismo e da Interligação

O óbvio reside em formar consciências permeáveis e abertas, que nem formatam nem se deixam formatar. A criação, no seu conjunto, é a maior metáfora da existência: não se orienta por ideologias secas, mas pelo sentido intrínseco da vida. Ela revela uma força criadora que ama a diversidade e viabiliza a comunhão. Mesmo o que rotulamos de “desordenado” encontra espaço nessa comunhão, não para justificar a destruição das regras sociais, mas para nos lembrar que a vida flui secretamente dentro de cada manifestação cultural.

Não fomos criados para viver em trincheiras ideológicas, como observamos na resposta que os partidos e governantes, muitas vezes, não dão, ao apostarem na desconstrução do adversário ou na guerra contra biótopos culturais distintos. Somos chamados a respeitar diferentes ordens e a aprender também com a ecologia que a cultura não se edifica pela desmontagem, pelo cancelamento ou pela destruição do outro, mas sim pela interligação, pelo diálogo e pela humildade de reconhecer que nenhum biótopo humano é absoluto. Ao abdicarmos da ilusão do controlo total, podemos finalmente florescer juntos no grande jardim da humanidade e possibilitar uma cultura da paz.

Como lembra Edgar Morin: “O tesouro da humanidade está na diversidade criadora, mas a fonte da sua criatividade está na sua unidade geradora.” Contudo, temos cabeças tão repletas de saberes compartimentados que a necessária interligação entre eles fica comprometida, cerceando a expansão do pensamento. Precisamos de um pensamento menos binário, que se liberte do molde redutor de tese e antítese e mais aberto à lógica trinitária, que aplica a parte no todo e o todo na parte. Relegada para o domínio do mistério, essa lógica é, no entanto, profundamente real, pois ajuda a superar moralismos e erros de pensamento. Além disso, num tempo de multipolaridade e interdependência planetária, ela transcende a linearidade da causa e efeito, possibilitando uma visão contextual, global e estrategicamente inteligente.

Por fim, uma ontologia coisificada gerou um racionalismo reduzido, que se esgota em sistemas lógicos fechados, sistemas que se desconhecem a si mesmos, não se tocam e excluem o mistério e o sagrado, por não os comportarem. Superar essa limitação é o passo decisivo para que o humanismo e a interligação deixem de ser meras abstrações e se tornem práticas concretas de coexistência.

Essa coexistência cultural e ecológica exige uma ética da espécie humana alicerçada na virtude. Os direitos humanos e a igualdade universal do indivíduo permanecem, ainda hoje, subjugados às lógicas culturais dominantes, que tendem a impor uma uniformidade redutora em vez de acolher diferenças. Falta-lhes, precisamente, o processo de osmose, a interferência fecunda entre culturas, que possibilite uma verdadeira reforma do pensamento, condição indispensável para transformar a educação e responder aos desafios da atual era multipolar.

Hoje, seguindo o conselho de Edgar Morin, o caminho passa por assumir o compromisso de ampliar a nossa consciência, isto é, praticar uma ciência com consciência e promover uma educação que não formate, mas que capacite cada ser humano a realizar a sua vocação de homo complexus num mundo permanentemente complexo.

Contudo, basta olhar para as nossas elites e para o cidadão comum para constatar como nos encontramos focados no quantitativo mensurável da física antiga (base da ontologia, antropologia e sociologia vigentes) sem se ter em conta o desenvolvimento humano qualitativo. Assim estamos a afundar-nos em novas formas de extremismo, em guerras fratricidas, na artificialização do pensamento e na naturalização da barbárie. Urge, por isso, que a ética e a osmose deixem o plano teórico e se imponham como práticas do quotidiano, sob pena de a complexidade humana se dissolver na simplificação brutal das ideologias fixas e doutrinas e de perdermos, definitivamente, a oportunidade de florescer juntos no jardim comum que teimosamente recusamos cultivar.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11263
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

DAZWISCHEN (ALI MESMO NO MEIO (1)

Entre o teu nome e o meu, entre a ave e a árvore,
entre a fenda da terra e a abóbada do céu,
ouve-se a música, não a que os astros tecem,
mas a de Afrodite que afina o espaço do intervalo,
esse vão suspenso onde dois seres se respiram
sem ainda se tocarem, na ânsia de se acharem.

Nesse dazwischen, o fósforo da ideia
desce, risco breve e lúcido, ao centro do peito:
não queima, ilumina e no rosto incendeia
um sorriso que desfolha, pétala a pétala,
o inverno do silêncio. As mãos erguem-se,
cálice de vazio e suspiram por mais,
mais carne onde o feminino se faz onda
e o masculino, penhasco que a recebe,
mais céu onde a terra aprende a sua queda
para, ao cair, se saber feita de estrela.

Mas olha a surpresa, num ápice, o golpe de asa:
o dazwischen solveu-se. Nem sopro, nem fósforo.
Um mero beijo e o entre-dois ruiu
como um castelo de sal ao primeiro orvalho.
O que era ponte é agora travessia consumada;
o que era música, pausa que o lábio preencheu.

Que esse beijo, porém, se prolongue, amigos,
que caia, lento e cego, como pólen que o acaso
confia à asa da abelha sem bússola nem destino,
não para as flores que o caminho guarda
no seu livro de herbário, mas para as outras,
as que a própria senda desconhece e evita,
as que germinam onde o passo hesita,
no limite agreste onde o feminino é seiva
e o masculino, a luz que a verticaliza,
e a terra, ao subir, não fere o céu, abraça-o.

E nesse pólen, o fósforo reacende-se,
já não como ideia, mas como corpo mundano.
E o beijo, sendo um, é todo o voo e toda a raiz,
porque o que cai em flor não finda em chão,
ascende em fruto e no fruto, a semente,
e na semente, o gérmen do novo intervalo,
o recomeço do sopro que, incansável,
afina outra vez o arco entre o teu nome e o meu,
entre o voo e o ramo, entre o céu e a terra,
porque o encontro nunca é um fim, mas a fenda
onde a ânsia escondida, enfim, se sabe eterna
a repetir-se, fértil, no pólen do instante.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

(1) “Dazwischen” é um palavra alemã que significa literalmente, “ali entre”, “pelo meio”, “no meio” ou “entre as coisas” é precisamente esse espaço invisível. É aquilo que não se vê à superfície, mas que une tudo e revela o que está oculto, sem precisar de tocar no que é material ou superficial (como a “roupa”). É a perceção pura, a intuição ou a ligação profunda que vai direto ao ponto essencial.

O QUE UNE O ISLÃO E DIVIDE A EUROPA: LÍNGUA, RITUAL E ANTROPOLOGIA

Um dos fatores mais negligenciados no debate sobre a coesão social é o elemento linguístico e ritual. Enquanto a Igreja Católica, com o Concílio Vaticano II, optou por abandonar o latim na liturgia, o islão manteve o árabe como língua litúrgica comum, da Índia ao Egito. A repetição diária das suras do Alcorão, em escolas e mesquitas, cria uma universalidade intrínseca e uma pertença transnacional que a Igreja Católica perdeu ao democratizar excessivamente o rito. A defesa do latim na parte mística da missa é hoje questionada, mas não constitui mero saudosismo; seria antes um elemento estratégico de unidade doutrinal, um sinal externo capaz de gerar um sentimento de pertença forte numa época de fragmentação, visibilidade que, de resto, o Papa tem procurado recuperar.

No plano antropológico, a resiliência do islão radica, sobretudo, na afirmação inequívoca do princípio masculino sobre o feminino na dinâmica social. O Ocidente, mantendo um patriarcalismo mental por vezes inconsciente, mas contestado por ideologias concorrentes, acaba por acomodar internamente formas de machismo que reduzem a feminilidade a uma função reprodutora ao serviço do crescimento do grupo. Neste sentido, a Europa necessitaria de repensar a sua antropologia numa direção que integrasse verdadeiramente o princípio feminino, pacífico e agregado,  com o princípio masculino, estruturador e assertivo, em vez de os colocar em conflito, como sucede quando estes modelos coexistem sem mediação e, com esta prática fortalece ainda mais a masculinização da matriz ocidental sem que se contribua para uma maior valorização da feminilidade no islão .

A ambivalência europeia perante este fenómeno decorre, em parte, de uma confiança excessiva numa certa fadiga de pensamento, ou seja, a crença de que a história avança pela verdade, quando com frequência avança, quantitativamente, pela persistência e até pela distorção. Nesta leitura, o islão, oriundo de regiões áridas, chegaria ao “vale” fértil da Europa com uma energia sustentada pela consciência de grupo, forjada em contextos históricos de escassez; a Europa, por sua vez, instalada na abundância, tenderia a subestimar a intensidade dessa mesma consciência de grupo enquanto fator de sobrevivência e afirmação civilizacional. A construção de um diálogo genuíno exigiria, nesta ótica, que a Europa recuperasse a ligação às suas próprias raízes e princípios, superando a acomodação intelectual.

Note-se, aliás, que a ambivalência bastante característica do Islão não lhe é exclusiva porque instituições, religiosas, políticas, ideológicas, podem também, de forma mais ou menos deliberada, usar a ambiguidade doutrinal, social ou comportamental como estratégia de sobrevivência. O uso da ambivalência permite apresentar, consoante a audiência e o contexto, a face mais aceitável da doutrina, para efeitos de legitimação externa, diálogo inter-religioso ou relações diplomáticas, mantendo em reserva, para uso interno, interpretações mais rígidas ou instrumentais.

No islão é consensual o udo da distinção entre suras mecanas (reveladas antes da Hégira, geralmente mais breves, de tom espiritual, escatológico e conciliador) e a de suras medinenses (reveladas depois, quando Maomé passou a liderar uma comunidade política e militar em Medina, com conteúdo legislativo e também, relacionado com conflito armado). O uso de umas ou outras suras permite a ambivalência no uso estratégico que permite expressar a face mais bela da doutrina em argumentações ad extra, quando a nível interno se usa a interpretação mais dura. Daqui a razão de quando radicais islâmicos praticam atentados, o povo e as autoridades do islão geralmente se absterem de tomar partido e de fazer declarações inequívocas. Também os assassinos se sentem com razão porque encontram a sua ação coberta pelo Corão e como este foi ditado a Maomé deixa de ser de mão humana.

A presente reflexão dirige-se, pois, ao islão institucional, às suas estruturas hierárquicas e de poder e não aos muçulmanos enquanto tal. Esta distinção decorre do próprio enquadramento analítico adotado, centrado na analogia da dinâmica entre civilizações (e relações entre instituições onde se deveria pressupor bilateralidade política e cultural) e não em juízos sobre indivíduos ou comunidades religiosas.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A NATUREZA DO DESAFIO – POLÍTICA CAMUFLADA DE RELIGIÃO

O debate sobre a diversidade nas sociedades europeias tem sido dominado por um discurso predominantemente emocional, onde qualquer análise estrutural sobre as diferentes matrizes culturais é rapidamente rotulada de intolerância. Ora, a defesa de um ecumenismo genuíno e da rica diversidade humana é um bem inestimável; contudo, a abertura desmedida, quando desprovida de consciência histórica, pode transformar-se numa perigosa abdicação do biótopo civilizacional europeu.

É imperativo reconhecer uma diferença ontológica: o Islão não é apenas uma religião no sentido ocidental do termo, ou seja, como um espaço privado de crença separado da esfera política. O Islão é, sobretudo, um projeto político e jurídico completo, camuflado de religiosidade, cujo grande mérito histórico foi unificar tribos árabes díspares sob uma identidade cultural coesa. Esse feito notável, no entanto, constitui uma provocação silenciosa para culturas mais abertas e individualistas, como a europeia.

A fragilidade do Ocidente reside na sua tendência para enfraquecer as suas próprias bases identitárias em nome de uma diversidade abstrata. Esta postura ingénua favorece a afirmação hegemónica de um Islão que define a dignidade da pessoa não pela sua individualidade, mas exclusivamente pela pertença ao grupo. Esta é uma antropologia de gueto, que cria laços de solidariedade interna fortíssimos, mas que se revela impermeável à sociedade civil envolvente.

Há ainda uma convergência trágica: o socialismo ideológico abre-lhe as portas porque vê no indivíduo uma função abstrata, o proletariado, uma visão que coincide com a redução da pessoa a mero membro da umma (comunidade islâmica). Esta aliança tácita entre o internacionalismo progressista e a estratégia identitária islâmica serve uma agenda comum fatal. A finalidade dessa agenda comum é decompor as comunidades tradicionais europeias para as substituir por estruturas de poder maleáveis. A civilização islâmica não é, por si só, um “inimigo”, mas torna-se um perigo real para a civilização ocidental e para o catolicismo quando encontra no socialismo um aliado mais interessado em corroer do que em edificar.

A ilusão de que o Islão é “domesticável” ou de que se adequará, passivamente, ao secularismo europeu é uma crença frágil, que não tem em conta a sua origem desértica. Uma cultura treinada ao longo de séculos a afirmar as forças de sobrevivência, onde a geografia árida apenas permitia miragens, desenvolveu uma esperteza adaptativa que as culturas dos vales férteis, habituadas à abundância, raramente conseguem igualar. A Europa, que se debate internamente com o verme da decadência, exalta a diversidade pela diversidade, abrindo assim as gretas por onde a cunha identitária alheia se introduz. (continua em “Os Sinais de Unidade).

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

BALADAS SATÍRICAS

NO BERÇO DO DESENCNTO

Ansiando, pairando, baloiçando
no fio que a História teceu,
fugimos do jugo tirano,
mas de nós mesmos, também,
fugimos na dança do leme
que a mão quer, mas a alma não quer.

Batem leve, levemente,
as asas do pássaro incerto,
que a minhoca tem no bico,
mas a deixa cair, liberto,
só pra sentir, no voo,
o gosto de nunca ter.
Batem leve… e o desengano
é a herança de Camões,
a ilha dos amores findos
é o cais dos corações.

Queremos o remédio urgente,
mas a cura, mas, essa, não!
A presença é um fardo pesado,
a ausência é a nossa paixão.
Vivemos no dazwischen estreito,
trincheira de anarquia e razão,
onde a hesitação é a liberdade
que escolhemos por condição.

Pairando, pairando, pairando,
sem rumo, mas cheios de espanto,
preferimos a escassez à fartura,
pois o espanto é pesado demais.
Assim, atados ao fio da queixa
que nos serve de estranho disfarce,
boiamos em águas mortas,
sem nunca no leme tocar
porque a vida, se ativa, é escolha,
e escolher é começar a naufragar.

António da Cunha Duarte Justo

 

BALADA DO ENCANTO

De olhos no ar e bater
no peito, em uníssono, a clamar:
“Queremos o leme! Queremos o rumo!
Mas o rumo, esse, vamos negar!”
Pois a queixa é o nosso ouro,
o alibi de fino brasão:
pra ficarmos de boca na relva,
sem ter que mover um botão.

Gritamos, de olhos no ar,
contra o leme e contra o piloto,
mas se a cura nos bate à porta,
corremos, coitados, contrafeitos!
“Não, não, que a cura é careta,
o remédio é que sabe bem;
preferimos a febre contada
a ter saúde e ninguém.”

Lá na praça, os nossos doutores,
de toga ou de fato-riscado,
esgoelam-se em ataques ferozes,
num jogo de espelho trocado.
Falam, falam do adversário,
mas da solução, nem um pio;
enquanto o povo, exausto e letrado,
só quer seu quinhão no vazio,
que é melhor reclamar do remo
do que usar os braços, com tédio,
pois remar dá cãibras e sono,
e o sofá é o nosso remédio!

Cantamos, choramos, batemos…
Mas o leme? Deixamos cair.
Prefere-se a água morta e a queixa
a ter que, afinal, decidir.
A anarquia é muito trepidante,
a tirania é um tédio total;
o dazwischen é a nossa morada,
onde o “nunca” é o nosso “afinal”!

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

BALADA DO DIA-A-DIA

Lusitanos somos, dando o corpo
ao trabalho, ao suor, ao labor;
mas o leme, esse, está noutras mãos,
e a vida é um sonho menor.
Perdemos, perdemos, perdemos
o espanto da abundância nua;
preferimos a escassez magra
que nos dá a desculpa crua.

Indignamo-nos, sim, mas à tarde,
no café, no serão, no jantar;
a indignação é o barco,
e a vontade é o seu boiar.
Não queremos pegar no ferro
do leme, que é duro e cortante;
queremos a brisa suave
de um sonho de navegante.

Os romanos, outrora, diziam
que éramos povo sem lei;
hoje, a lei é a hesitação
que a própria alma nos deu.
Gastamos a vida a pairar
entre o querer e o não-ser,
e a saudade do que não fizemos
é o que nos faz viver.

Damos, damos, damos as horas,
mas o tempo, esse, escorre no chão;
e o pássaro deixa a minhoca,
porque o voo é a sua refeição.
Ah, batem leve, levemente…
mas o nosso desejo é, no fundo,
ficarmos, ficarmos, ficarmos
no conforto do meio-mundo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do tempo