A AMBIGUIDADE ENTRE SOCIEDADE ABERTA E IDENTIDADE

 

Sobre a irresponsabilidade de políticas que não se pautam pela reciprocidade cultural entre Estados

Numa Europa contraditória, há palavras que, de tanto serem repetidas, começam a dispensar a realidade. “Sociedade aberta” é uma delas. “Diversidade”, “identidade”, “integração” e “tolerância” entram no mesmo rol. Foram transformadas em vocabulário obrigatório do discurso público, deixaram de servir para interrogar a realidade e passar simplesmente a tranquilizar quem governa sobre a bondade das suas intenções que se satisfazem ao constatar que o povo e os media se deixam embrulhar no enredo delas. A política migratória é praticamente da competência de Bruxelas.

O problema é real e lança perguntas mais que incómodas, pois, como pode uma sociedade permanecer aberta sem perder a consciência daquilo que é? Como pode acolher o outro sem considerar suspeito o desejo dos que já nela vivem de preservarem uma continuidade histórica, cultural e espiritual? E até onde pode ir a tolerância quando em política a reciprocidade deixa de fazer parte da equação?

Este é o calcanhar de Aquiles europeu e um dos grandes dilemas do nosso tempo.

Atendendo às realidades criadas por uma política europeia diletante a nível de imigração uma resposta fácil consistiria em escolher um dos extremos. De um lado, a nostalgia de uma Europa culturalmente homogénea que o curso da História já transformou e do outro, a fantasia de uma sociedade pós-histórica, composta por indivíduos intercambiáveis, sem raízes, sem memória colectiva e sem necessidade de pertença. Esta seria própria de uma sociedade robótica e nenhuma delas corresponde ao ser humano real.

O homem não vive apenas de direitos. Vive também de memória e não habita somente num território administrativo porque vive numa língua, em símbolos, costumes, narrativas, lugares e recordações transmitidas entre gerações. Uma sociedade que despreze essa dimensão vivencial da existência pode continuar juridicamente organizada, mas começará a sentir-se culturalmente órfã. É aqui que a Europa enfrenta a sua contradição.

O que não pode ser negociado

Uma democracia digna desse nome tem de saber aquilo que não está disposta a negociar, ou seja, Estado de direito, igualdade perante a lei, dignidade humana, liberdade de expressão, liberdade de consciência, igualdade entre homem e mulher e liberdade religiosa, incluindo a liberdade de mudar ou abandonar uma religião.

Estes princípios não podem ser relativizados em nome da diversidade cultural nem podem ser sacrificados em nome da defesa de uma identidade nacional.

A dificuldade começa quando a Europa exige de si própria uma tolerância que parece não se atrever a exigir aos outros.

O problema torna-se particularmente visível na relação com sociedades de maioria islâmica (Recordo a altura em que era o porta-voz dos estrangeiros em Kassel e prisoneiros islâmicos da prisão de Kassel exigiam um cozinheiro muçulmano para que o seu alimento não se tornasse impuro!).

Não se trata de declarar o Islão incompatível com a Europa. Tal generalização seria intelectualmente preguiçosa e politicamente perigosa porque existem muçulmanos secularizados, liberais, conservadores, tradicionalistas, reformistas e inúmeras formas culturais de viver a mesma religião.

Seria também ingenuidade fingir que não existem correntes político-religiosas islâmicas  com base   religiosa constitucional, para as quais religião, direito, sociedade e poder político formam uma unidade extremamente diferente daquela que a Europa construiu, dolorosamente, através da separação progressiva entre autoridade religiosa e autoridade civil.

A verdadeira pergunta não é, portanto, se o muçulmano pode viver na Europa, porque evidentemente que pode.

A pergunta mais exigente consiste em saber que princípios devem reger a casa comum quando diferentes concepções de sociedade nela passam a coexistir?

A resposta deveria ser inequívoca: os princípios constitucionais democráticos, porém o busílis da questão vem da concorrência entre a constituição secular e a constitucionalidade do islão e do Corão que como palavra ditada por Deus não consente propriamente teologia reduzindo-se a uma  jurisprudência.

E os sinos de Constantinopla?

É neste ponto que a palavra reciprocidade deixa de ser uma abstração diplomática e se transforma numa questão de memória histórica. (O silêncio dos políticos europeus perante as coordenadas islâmicas e até quando o presidente turco, Erdogan, transformou a Agia Sofia em mesquita, e esta ação berra mais alto do que os sinos da velha catedral nos seus tempos gloriosos mas foi apagada pelo silêncio oportunista).

A Europa considera, justamente, intolerável que um cidadão seja discriminado por ser muçulmano. Constrói mesquitas, protege a liberdade de culto, combate a discriminação religiosa e reconhece às comunidades islâmicas o direito de participarem plenamente na sociedade. Mas uma civilização segura dos seus princípios deveria ser igualmente capaz de perguntar o que acontece aos cristãos que vivem nos países de proveniência migratória islâmica?

A Turquia oferece um exemplo particularmente simbólico. A catual República turca nasceu num território onde, durante séculos, viveram importantes comunidades cristãs, gregos ortodoxos, arménios, siríacos e outras comunidades que participaram profundamente na história da Anatólia e de Constantinopla. No início do século XX, os cristãos constituíam ainda uma parcela muito significativa da população do território (25%) que viria a formar a Turquia moderna. Hoje representam apenas uma fracção diminuta da população (0,25).

Esta transformação não aconteceu num único momento nem pode ser reduzida a uma única causa. Guerras, massacres e perseguições, deslocações populacionais, (a troca de populações entre a Grécia e a Turquia) e políticas discriminatórias ao longo de diferentes períodos contribuíram para alterar profundamente a composição religiosa do país.

A própria história administrativa turca com o registo da filiação religiosa nos documentos e registos de identidade, prática para discriminação das minorias, ilustra como religião e cidadania ao não serem esferas separadas provocam hegemonias. A história documenta igualmente que a população muçulmana, ao alcançar uma proporção significativa na sociedade, tende a gerar movimentos de autoafirmação e, em alguns casos, de reivindicação independentista.

E então surge uma pergunta que Bruxelas raramente formula com a mesma intensidade com que proclama a diversidade dentro das suas próprias fronteiras:

se a liberdade religiosa é universal, por que razão a reciprocidade na sua defesa não faz parte da política activa europeia?

Por que deveria a defesa dos direitos dos cristãos na Turquia, no Médio Oriente ou noutras sociedades ser considerada uma preocupação identitária menor, enquanto a defesa dos direitos das minorias religiosas na Europa é apresentada como uma obrigação moral?

Os direitos humanos ou são universais ou reduzem-se a uma preferência geográfica.

Reciprocidade, porém, não significa: “se eles não permitem, nós também não permitimos”. Essa seria a lógica infantil da retaliação e significaria abandonar precisamente os valores que pretendemos defender. A Europa deve oferecer liberdade porque acredita na liberdade, mas deve também exigir liberdade aos seus parceiros porque afirma que essa liberdade pertence a todos.

Uma mesquita livre em Berlim não deve implicar uma igreja proibida, condicionada ou socialmente marginalizada noutro lugar. A dignidade humana não pode mudar de definição quando atravessa uma fronteira.

O estranho complexo europeu perante o cristianismo

Há ainda uma questão mais profunda e talvez mais incómoda. A Europa contemporânea parece sentir-se muito mais confortável a proteger o cristianismo enquanto património artístico do que a reconhecê-lo como uma das matrizes vivas da sua civilização.

Conservam-se catedrais, restauram-se mosteiros, financiam-se monumentos e promovem-se caminhos de peregrinação enquanto património cultural. Mas, quando se passa da pedra para a memória, da arquitectura para a identidade, instala-se frequentemente um estranho pudor.

Uma elite política atual de cunho capitalista e socialista parece preferir ter pais anónimos, como se reconhecer a influência do cristianismo na formação europeia significasse automaticamente diminuir quem não é cristão.

A História não é uma profissão de fé, mas implica reconhecer que Atenas, Roma, Jerusalém e o cristianismo participaram decisivamente na formação da Europa.  Uma sociedade pode ser secular sem sofrer de uma amnésia provocada por ideologias.

Cidadãos sentem essa amnésia quando observam instituições extremamente cuidadosas na proteção das identidades minoritárias, mas reticentes perante qualquer afirmação positiva da tradição cultural maioritária.

Tem-se a sensação de que todas as identidades merecem reconhecimento excepto a nossa. (Ou será porque a espiritualidade cristã se identifica mais com o povo e o carente e legitima a soberania moral ao indivíduo?) Politicamente as percepções também produzem realidade.

Integração é um contrato não um serviço de hotelaria

Um outro equívoco que domina a política europeia e até mesmo legislações vindas da ONU  e que urge ser abandonado é imaginar a integração como obrigação exclusiva da sociedade que recebe.

Uma sociedade democrática deve proporcionar ao recém-chegado aprendizagem da língua, educação, acesso ao mercado de trabalho, protecção jurídica e possibilidade real de ascensão social, tal como proporciona ao cidadão nativo. Deve protegê-lo contra a humilhação e contra a discriminação. Porém, o imigrado também tem de assumir deveres.

Integração é hospedagem e quem chega também assume responsabilidades e por isso implica aprender a língua, conhecer as instituições, respeitar a ordem constitucional e aceitar que a lei democrática está acima das prescrições comunitárias ou religiosas das regiões donde provêm.

Implica igualmente aceitar a liberdade do outro, inclusive daquele que abandona a comunidade, muda de religião, critica uma crença ou escolhe uma forma de vida que essa comunidade desaprova.

A prova mais difícil da tolerância não consiste em defender a liberdade de quem pensa como nós. Consiste em defender a liberdade daquele cuja escolha nos desagrada.

Quem vigia os guardiões da democracia?

A União Europeia está preocupada com a manipulação do espaço público e por isso criou o Escudo Europeu da Democracia e outras estruturas destinadas a aumentar a resiliência democrática como resposta a crescentes ameaças. Estados estrangeiros, redes coordenadas e novas tecnologias possuem hoje instrumentos de influência que nenhuma democracia responsável pode simplesmente ignorar.

O problema é que todo o mecanismo criado para proteger a democracia contém uma tentação que leva a confundir a protecção da democracia com a protecção das narrativas de quem temporariamente administra as suas instituições.

É uma fronteira perigosamente estreita, até porque facilmente se pode demonizar o vizinho por meros interesses próprios. Combater uma operação estrangeira de manipulação é uma obrigação do Estado democrático, mas classificar sistematicamente como “desinformação” aquilo que contradiz anuências institucionais seria outra coisa.

A democracia necessita de factos, mas é também da sua natureza necessitar também de conflito, dissidência, irreverência e do direito de dizer às instituições que elas podem estar erradas. Caso contrário, acabaremos perante o paradoxo de proteger a sociedade aberta tornando-a progressivamente mais fechada.

Também aqui a reciprocidade e a transparência deveriam prevalecer. Financiamentos estrangeiros de organizações políticas, culturais ou religiosas, sejam mesquitas, associações, ou outras estruturas, devem poder ser escrutinados quando exista o risco de funcionarem como instrumentos de influência de governos externos, como é especialmente notável na Alemanha e no Reino Unido.

Nota-se grande incúria no que toda a bilateralidade contratual de direitos religioso-culturais entre os Estados europeus e os estados de matriz muçulmana. Essa incúria causa desequilíbrio sistémicos injustos entre estados e povos favorecendo a posição de quem forma guetos e criando problemas sociais com o povo originário. Não por causa da religião que representam, mas por causa do poder inerente que transportam, especialmente pelo facto de a sua definição cívica ser determinado pela Suma (Islão).

Bruxelas não pode governar do Olimpo

O maior erro de Bruxelas é certamente pensar determinar e condicionar os povos através da concessão ou negação de verbas e de imaginar que estas batalhas serão decididas nos grandes documentos estratégicos europeus. Não serão porque a coesão não nasce de uma directiva nem de meras medidas economicistas.

As batalhas serão decididas numa escola de periferia; num bairro onde uma mulher regressa sozinha a casa à noite; numa família que procura habitação; num jovem que não encontra trabalho; numa sala de aula onde crianças de cinco origens diferentes descobrem, ou não descobrem, que pertencem à mesma sociedade.

A coesão nasce da experiência quotidiana de uma ordem que funciona.

Uma sociedade aberta é relativamente fácil de defender num bairro seguro e próspero (ou numa zona alta e exposta ao sol onde habitam as famílias bem como na Alemanha). É muito mais difícil explicá-la a quem sente que a escola dos filhos piorou, que a habitação se tornou inacessível, que o espaço público se degradou ou que ninguém lhe perguntou se estava preparado para transformações sociais extraordinariamente rápidas.

É aqui que uma parte das elites europeias comete um erro de linguagem e outro de percepção.

Bruxelas aparece demasiadas vezes como um Olimpo tecnocrático, distante, convencido da racionalidade das suas decisões e surpreendido quando os habitantes da planície não agradecem aos deuses.

O busílis é que as populações não vivem em documentos estratégicos nem em lugares privilegiados, vivem nas ruas.

Entre o medo e a ingenuidade

A Europa encontra-se presa entre dois perigos.  O perigo do medo de transformar cada estrangeiro num suspeito, cada muçulmano numa ameaça e cada mudança numa decadência e o perigo da “ingenuidade” que consiste em imaginar que todas as culturas possuem a mesma relação com liberdade individual, religião, autoridade, mulher, família e Estado e que mencionar diferenças constitui, por si só, intolerância.

Uma democracia adulta deveria ser capaz de rejeitar simultaneamente ambos os erros e poder dizer ao imigrado: “És bem-vindo e os teus direitos são os meus e precisamente porque os teus direitos são os meus, os teus deveres também o são.”

Os responsáveis políticos activos na União Europeia não se preocupam com  reciprocidade de respeito por costumes religiosos e culturais e menos ainda do  antagonismo cuidado pelo islão  e por isso os governantes ocidentais mais empenhados no secularismo como substituição da própria religião, dão a impressão ao cidadão nativo de desinteresse pelo destino da própria cultura e daquilo que lhe possibilitou identidade própria. Neste sentido deveria ser objecto de política activa negociar a integração como reciprocidades entre estados eculturas.

Assim como o Estado protege uma mesquita ou uma sinagoga contra o vandalismo deveria ao mesmo tempo, exigir a Ancara liberdade plena para uma igreja cristã.

O Estado pode defender diversidade sem converter a sociedade numa soma de tribos.

Urge uma Europa que saiba quem é

O problema fundamental da Europa é conseguir saber quem é. Só uma sociedade que sabe quem é consegue verdadeiramente abrir a porta sem recear desaparecer.

A identidade insegura transforma o estrangeiro em inimigo e a sociedade que renuncia à própria identidade acaba por interpretar qualquer afirmação de continuidade cultural como uma ameaça.  Daí a necessidade de uma Europa consciente da sua história, constitucionalmente firme, culturalmente confiante e humanamente aberta. A abertura cultural europeia deve pressupor uma abertura humana e cultural do imigrante. Antes de tudo o governante terá que saber discernir entre o que é, o sentido do ser da sua cultura e saber  o que o islão é o que quer que a outra cultura seja. Uma Europa descomplexada não pede desculpa por ter raízes cristãs-gregas e romanas, nem transforma essas raízes em armas.

A política terá de defender o cristão na Turquia não porque o cristão valha mais, mas porque a liberdade que só defendemos para alguns deixaria de ser liberdade universal. O político terá, finalmente, de compreender que reciprocidade não é o contrário de tolerância.

Reciprocidade é aquilo que impede a tolerância de se transformar em submissão de uns, privilégio de outros ou indiferença de todos.

A disputa entre sociedade aberta e identidade não será resolvida nos tratados de filosofia política. Será resolvida quando o cidadão olhar para a sua rua, para a escola dos filhos, para os tribunais, para as fronteiras e para aqueles que chegaram depois dele e puder dizer: a lei é a mesma para todos, a liberdade é a mesma para todos e esta sociedade continua a ser também a minha casa sem que haja atitude hegemónica de um lado ou do outro.

A Europa não pode continuar a viver da ambivalência e auto desleixo para que abertura e identidade deixem de ser adversárias. Se o não conseguir, os extremos encarregar-se-ão de convencer cada tribo de que só poderá sobreviver contra as outras. Doutro modo a tribalização da sociedade torna-se num fatalidade histórica.

É preciso que o que tantos anunciam como profecia seja impedido de se cumprir.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

CÍCLO DE POESIAS QUE TINHAM SIDO ALINHAVADAS QUANDO  SUBSTITUI O Pe RAMIRO EM KAISERSLAUTEN

ANDAR COM A VIDA

Não vás à frente da vida,
na pressa de chegar primeiro;
nem fiques atrás,
como quem perdeu o próprio rasto.

Vai ao lado dela, ombro a ombro,
no ritmo do vento e do rio.

A vida não é coroa nem cinza,
é companheira de estrada
que só revela o sentido
quando contigo caminha.

Vale a pena a travessia
se o viajante e o caminho
aprendem a mesma canção.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

DE TRONCO AO VENTO

A verdade é vento que passa
por todos os rostos do mundo,
às vezes lâmina de inverno,
às vezes brisa de verão.
Não importa se ela grita ou canta,
importa é teres raiz no chão.

Que a árvore não tombe
ao primeiro sopro da dor,
nem se deixe dobrar
ao canto mole da mentira.

Comunicar é abrir janelas,
esperar é deixar o fruto amadurecer.
Mas não tropeces na espera,
transforma a paciência em chão,
mas nunca em prisão.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

ENTRE AS GOTAS DO MILAGRE
SEM NOTAR O ORVALHO

A bênção divina é chuva
caindo em gotas sobre a vida.
Muitos gastam os dias
a negar Deus entre as gotas,
e perdem o orvalho no intervalo.

Mas mais que a gota e o silêncio,
importa admirar o milagre:
a anémona abrindo-se ao sol,
o pulso do ser mais pequeno,
o rosto humano que espera.

Somos guardiões do jardim,
abençoar é a missão,
regar, cuidar, agradecer,
do lodo à estrela,
da flor ao irmão.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

A SINGELEZA

Sabedoria sem holofotes.
Basta-lhe a candeia de barro,
o fio de azeite,
a chama pequena do que é verdadeiro.

Bálsamo sobre a ideia ferida,
a humildade cura o pensamento.
desata os nós do ego.
Deixa a porta aberta
e o outro entra sem medo.

Não é fraqueza, mas água mansa
que esculpe a pedra, com o tempo.
Não é silêncio vazio, mas raiz

que sustenta a árvore
quando o vento das opiniões
quer desabar o mundo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

UMA FRESTA NO DIA-A-DIA

Uma fresta de verdade,
a claridade rasga a sombra.
Escusa-se o incêndio no horizonte,
bastam a réstia, o gesto, a palavra,
e o escuro recua.

Humildade no leito,
a relação flui como o rio.
Vida livre de peixes
que nadam
sem precisar de vencer.

Assim, o curso dos dias,
é luz sem cegueira,
bálsamo sem gravidade,
água que fecunda.
Do sol à estrela,
da lua ao chão,
do rio ao coração.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

EM CONTEMPLAÇÃO

De dia, olho a natureza,
agradeço ao sol
que em cada coisa me acena.
Na cor da flor, no voo do pássaro,
no mistério da pedra,
na variedade inteira do criado.

De noite, o céu estrelado.
Pequenos olhos de fogo a piscar,
abertos sobre o meu silêncio.

É a lua quem me embala o sentimento.
No seu luar me vejo,
entre a terra e o firmamento,
a divagar.

Sou poeira e abrigo,
caminho e luar.
Na órbita da lua
aprendo a não ser centro,
a ser companhia
da noite e do mar.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

O EIXO CIVILIZACIONAL EM RUTURA

Ensaio sobre a mudança axial e o nascimento da política relacional
(Sahra Wagenknecht como sintoma e prenúncio)

Há momentos na história em que o solo treme sob o fundamento das instituições e o cidadão se sente desprotegido e indefeso. Não se trata de sismos eleitorais, de alternâncias de poder, de crises cíclicas que o sistema digere e recicla. Trata-se de algo mais fundo e que implica a erosão das próprias categorias com que pensamos o político. Vivemos um desses momentos em que se torna urgente uma política relacional para além da esquerda, da direita e do formalismo partidário

O arrazoamento político-partidário que domina a governação em toda a União Europeia e, por extensão, no Ocidente, arrasta-se numa linguagem gasta, numa gramática de interesses que já não traduz a experiência vivida das pessoas hodiernas. Os partidos falam, mas não dizem; propõem, mas não escutam; governam, mas não vivem o presente e, no entanto, a exigência de mudança não vem de fora, pois brota do próprio interior da crise, como uma força axial que reclama nova forma.

A rutura dos eixos

Desde a Revolução Francesa, a política de massas organizou-se em torno de dois conflitos fundamentais: a disputa sobre a desigualdade económica e a tensão entre valores conservadores-autoritários e liberais. A esquerda e a direita nasceram dessa topologia. Durante dois séculos, essa bússola funcionou, imperfeitamente, mas funcionou.

O busílis da questão é que hoje e na nova era que se aproxima essa bússola perdeu o norte.

A globalização económica, a imigração, os refugiados, a afirmação de identidades religiosas e culturais reconfiguraram o campo de forças. O velho eixo esquerda-direita foi atravessado por um novo eixo, aberto versus fechado, que não se deixa reduzir ao primeiro. As pessoas já não se reconhecem nas coordenadas tradicionais. Sentem que tudo o que lhes era familiar está ameaçado e buscam segurança na exclusão do que percebem como estranho. Outras, pelo contrário, veem na globalização e no multiculturalismo uma promessa de vida mais rica. Este é a nova clivagem e nenhum dos partidos tradicionais o enfrenta com honestidade.

Os partidos liberal-democratas, em particular, declinam por toda a Europa. O Ciudadanos espanhol desapareceu do parlamento. O FDP alemão, que em 2009 atingiu 14,6% dos votos, foi eliminado nas eleições de 2025. A razão não é apenas conjuntural porque provém da falta de clareza das convicções e do afastamento das expectativas do eleitorado natural. Os partidos que outrora representavam a terceira via, o centro reformista, o liberalismo social, perderam a capacidade de encarar o real.

E, no entanto, a Comissão dos Assuntos Políticos e da Democracia do Conselho da Europa alerta: os partidos políticos têm uma responsabilidade particular na salvaguarda da coesão e da estabilidade democráticas. Sem partidos, o pluralismo não pode ser representado de forma significativa e os parlamentos não podem funcionar eficazmente. O problema não é a existência dos partidos, mas a sua fossilização. A diminuição do número de militantes, a ascensão do sentimento antipartidário, a queda das taxas de participação, a volatilidade eleitoral e a perceção persistente de elitismo, corrupção e interesse próprio minam a legitimidade do sistema.

A mudança axial

O que está em curso não é uma simples crise política, é uma mudança axial.

Karl Jaspers, Lewis Mumford e Eric Voegelin cunharam a noção de “época axial” para descrever momentos em que a humanidade reconfigura as suas categorias fundamentais de sentido. Uma mudança axial introduz uma nova weltanschauung que enfatiza a subsidiariedade em vez das estruturas centralizadas de poder, e um imperativo moral em que a mudança evolutiva é impulsionada mais pela cooperação do que pela competição. A descrição “axial” refere-se à emergência de um eixo transformador que permite uma correção de escala através de alternativas às estruturas de poder existentes.

Vito Mancuso, numa conferência recente, descreve a nossa condição como uma “perda de eixo do mundo”, a ausência de um axis mundi, de um critério maior do que o simples ego ganancioso. Sem essa dimensão maior, temos muitos egos autocentrados e a impossibilidade de formar sociedade. A palavra sociedade, vem do latim societas, de sócios e só existe quando há um interesse superior ao interesse estritamente individual. O que vale na economia, vale na política.

A mudança axial não é um conceito académico. É a experiência vivida de milhões de pessoas que já não se reconhecem nas coordenadas políticas herdadas. É a intuição de que algo mais profundo está a acontecer que não se limita apenas a uma troca de governos, mas uma transformação da própria consciência política.

O sintoma Wagenknecht na Alemanha

Sahra Wagenknecht é, simultaneamente, sintoma e anúncio.

O Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW), fundado em janeiro de 2024, combina políticas económicas supostamente de esquerda com uma abordagem ultraconservadora da imigração e uma política externa pró-russa. No seu programa de seis pontos, aprovado em junho de 2025, o BSW apresenta-se como “a força política do despertar”, contra o militarismo, a divisão social e a tutela autoritária”, defendendo uma “política da razão e do equilíbrio social, da renovação democrática e da paz”.

Wagenknecht define o partido como “a encarnação do que muitos partidos já não defendem: um conservadorismo esclarecido no sentido de que preserva tradições e segurança nas ruas e espaços públicos, mas ao mesmo tempo empregos, saúde e pensões”.

Isto não é nem esquerda nem direita no sentido tradicional. É uma tentativa, ainda titubeante, ainda contaminada pelas maleitas do individualismo da nossa sociedade de transição, de criar   o novo eixo. O BSW aponta para uma política que ultrapassa a dicotomia herdada, mas ainda não encontrou a linguagem plena dessa ultrapassagem.

Um filósofo e crítico político observaria que o BSW tem razão em denunciar o formalismo partidário e a governação daninha que se esconde atrás da retórica democrática. Mas erra ao não assumir plenamente a responsabilidade individual que a nova época exige. A mudança axial não se faz com novos partidos que repetem velhos vícios. Faz-se com pessoas que assumem a sua quota de responsabilidade pelo mundo que habitam.

Urge uma Racionalidade relacional

O que emerge como exigência já não será emoção política, porque já temos excesso dela, à direita e à esquerda. O que está a emergir é racionalidade relacional.

A lógica da relacionalidade, desenvolvida por teóricos como Qin Yaqing, argumenta que a relacionalidade precede a racionalidade. Um ato “racional” em relação a um inimigo pode ser arracional e até irracional se dirigido a um amigo. A política relacional não nega a racionalidade porque a redefine em termos de relações e não de interesses isolados. Os processos de política seguem uma lógica de relacionamento, ou seja, atores que agem de forma a sustentar e refletir a teia de relações na rede política. O relacional e o racional não são alternativas porque cada sistema político reflete ambos.

Esta é a mudança de mentalidade que a época axial exige define-se por  uma política orientada não pela emocionalidade das identificações tribais, equacionadas no tribalismo da revolução francesa que a qualificou de direita ou esquerda, nós ou eles, mas pela razão que reconhece a primazia das relações. Uma razão que não é fria calculadora de interesses, mas que compreende que o eu se constitui na relação com o outro e no seu melhor social parte do nós.

Individualismo responsável

A transição para a nova época axial não se fará sem uma reconfiguração do individualismo.

Lipovetsky distingue o individualismo responsável do individualismo irresponsável: o primeiro está circunscrito ao plano daquilo que se espera das reformas políticas; o segundo é a deriva hedonista que dissolve o laço social. Na sociedade de transição em que vivemos, ambos coexistem. O BSW, como todos os movimentos emergentes, padece desta ambiguidade: aponta para o assumir individual de responsabilidades, mas ainda se debate com as maleitas do individualismo irresponsável.

O que a nova política exige é um individualismo que não seja egoísmo, mas responsabilidade. Protagoniza uma autonomia que não se feche sobre si mesma, mas que se abra à relação e advoga uma liberdade que não seja indiferença, mas compromisso.

Este é o paradoxo da época axial: quanto mais o indivíduo se assume como singular, mais se descobrirá relacional. Quanto mais se responsabiliza, mais se compreende parte de algo maior. O axis mundi não é uma transcendência que anula o eu, mas uma dimensão maior de si mesmo que o constitui.

O imprevisível

E daqui surge o imprevisível. Nenhuma análise, por rigorosa que seja, pode prever o que emerge quando a consciência muda de eixo. A mudança axial não é um programa político que se implementa, mas sim uma transformação que acontece e à qual os partidos, se quiserem sobreviver, terão de se adaptar ou morrer.

O que se pode afirmar com exigência é isto: a política que vier não será nem de esquerda nem de direita, nem sequer de uma “terceira via” no sentido blairiano que se esgotou na aceitação acrítica da globalização. Será uma política relacional, que reconhece que os problemas da nossa época, ou seja, a crise ecológica, a solidão urbana, a desintegração comunitária, a perda de sentido, não se resolvem com mais Estado ou mais mercado, mas com novas formas de relação.

Será uma política que ultrapasse o formalismo partidário e a governação daninha que hoje se pratica em Bruxelas, Berlim, Londres, Paris ou Lisboa. Uma política que assuma a responsabilidade individual como fundamento da responsabilidade coletiva. Uma política que não tema o profetismo, não o profetismo messiânico que promete paraísos, mas o profetismo que ousa nomear o que está a nascer quando todos ainda olham para o que está a morrer.

Exigência e criatividade

O ensaio que aqui esboço não pretende ser um programa, pretende apenas ser um gesto, um gesto de exigência e de criatividade.

Exigência, porque a época não tolera mais a mediocridade do arrazoamento partidário que se contenta com a gestão do existente. Criatividade, porque o novo não nasce do velho por dedução lógica. Nasce por rutura, por invenção, por abertura ao que ainda não é.

Os partidos, na sua forma atual, encontram-se num estado de consciência subdesenvolvida. Equacionam interesses, argumentam num grau rudimentar e arcaico, como se a política fosse ainda uma negociação entre grupos de pressão. O BSW, embora inicie uma nova maneira de estar político, ainda padece das maleitas dessa herança. Mas aponta — e isso é o essencial. Aponta para uma política que não se esgota na gestão dos interesses, mas que se abre à responsabilidade pelo todo.

O aspeto profético

O que está em curso não é uma crise, é um nascimento e nas dores do parto, é natural que se confundam os gritos da morte com os primeiros vagidos da vida. Mas quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir reconhece os sinais que indicam que a mudança axial está a acontecer. A política ocidental, mais cedo ou mais tarde, terá de se reconfigurar. Os partidos que sobreviverem serão aqueles que compreenderem que a racionalidade relacional não é uma concessão ao sentimentalismo, mas a forma mais alta de razão. Que o individualismo responsável não é uma ameaça à comunidade, mas o seu fundamento. Que a mudança de mentalidade não é uma opção, mas uma urgência.

Urge mudança necessária no arrazoamento político-partidário. Não por decreto, não por programa, não por revolução, mas por axialidade. Porque o eixo do mundo está a deslocar-se, e quem não se mover com ele será deixado para trás, não pela força dos adversários, mas pelo peso da própria inércia.

Resumindo: a crise em que nos encontramos anuncia a mudança axial e o profético nascimento da política relacional. Filosoficamente seria de dizer que o momento axial em que nos encontramos aponta  para uma crise das categorias com que formulamos as perguntas. E o BSW pode estar a antecipar uma das formas da recomposição política futura.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

OS DESABRIGADOS DA POLÍTICA

O escândalo da democracia, quando o povo se atreve a querer algo diferente dos seus defensores!

Em tempos de humor negro e de fé vermelha, as eleições europeias revelam-se o cúmulo do humor: uns apresentam-se em defesa do povo, outros em defesa do seu povo e alguns, mais modestos, em defesa do seu povinho. No fim, todos procuram abrigo debaixo da mesma palavra mágica “democracia”, mas o busílis da questão é que  cada qual parece trazer a escritura de propriedade no bolso.

Curiosamente, o tão censurado discurso do «nós e dos outros» não é exclusivo daqueles que dividem o mundo entre nacionais e estrangeiros. Também os autoproclamados guardiões da democracia gostam do seu “nós”, do “ nós, os democratas”, “nós, os esclarecidos”, “nós, os europeus de bem” e consideram do outro lado, “eles, os populistas”, “os enganados”, “os atrasados”, “os perigosos”, etc… Enfim, muda a fronteira, conserva-se a alfândega moral.
Assim, enquanto uns proclamam «nós, os nacionais, contra os estrangeiros», outros respondem «nós, os democratas, contra eles». A gramática é assustadoramente parecida e o que muda é apenas o dicionário. E cada campo, naturalmente, garante possuir a verdade, porque a dúvida, em período eleitoral, dá poucos votos e ainda menos lugares no Parlamento.
Assiste-se então ao espetáculo dos que se consideram do lado bom da democracia contra os habitantes do lado mau, como se a democracia tivesse bancada VIP e porteiro à entrada. A argumentação cede lugar à narrativa, a análise à indignação e o ódio, devidamente penteado e perfumado, apresenta-se em público com o respeitável nome de “consciência democrática” que em dicionário adverso significa “oportunista”.
De um lado estão os que vivem da perda; do outro, os que vivem do proveito. Uns prometem mundos e fundos; outros, mais pragmáticos, vivem dos fundos. E todos juram representar o cidadão, sobretudo aquele cidadão abstrato que nunca telefona, nunca protesta e convenientemente, cabe inteiro num comunicado de imprensa.
Entretanto, os senhores da realidade erguem-se contra ela. Espantam-se com o crescimento dos partidos a que chamam populistas, mas raramente perguntam quanto desse crescimento foi adubado pelas políticas que eles próprios defenderam. Bruxelas transforma-se, assim, numa curiosa fábrica política: produz decisões, distribui virtudes e nas horas vagas, fabrica os adversários que depois denuncia.

Talvez o problema seja mais simples e por isso mesmo, mais incómodo: durante demasiado tempo governou-se para uma clientela política que, entretanto, foi ultrapassada pela realidade. O velho pieguismo partidário já não comove como antes. E quando a realidade deixa de votar como previsto, há sempre quem conclua que o defeito está na realidade.

Em muitos governantes e funcionários da liturgia europeia, mais do que competência, começa a notar-se atrevimento, que se expressa naquele admirável talento de explicar aos eleitores por que razão estes votaram mal.

A democracia, porém, conserva um sentido de humor particularmente negro: de tempos a tempos entrega o boletim de voto precisamente àqueles de quem os seus autoproclamados proprietários menos gostam.

E aí começa o verdadeiro escândalo democrático: o povo atreve-se a não obedecer aos seus defensores.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

A PRIMAZIA DO ACONTECIMENTO E A NECESSIDADE DA FORMA

Memória, instituição e promessa na existência histórica do cristianismo

António da Cunha Duarte Justo

Resumo
O cristianismo não se funda num sistema cultual, mas num acontecimento, na vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. Esse acontecimento, porém, para perdurar na história, transforma‑se em memória e esta, para ser comunicada e vivida, encarna‑se em ritos, instituições e tradições. Este ensaio percorre a tensão entre a irrepetibilidade do evento fundador e a repetibilidade necessária das formas litúrgicas, mostrando que o rito não é um acréscimo acidental nem o fundamento último, mas mediação indispensável. A partir de autores como Halbwachs, Guardini, Ratzinger, de Lubac, Congar, Newman, Chauvet e Schillebeeckx, defende‑se que a existência histórica do cristianismo se sustenta numa tríplice dimensão, memória, presença e promessa, que impede tanto a absolutização ritualista como a dissolução numa subjectividade sem forma. A liturgia é, assim, lugar de constituição eclesial e de abertura escatológica, onde a Palavra e o sacramento se exigem reciprocamente.

  1. A precedência do acontecimento
    O cristianismo não começou com um sistema de ritos, mas com Jesus de Nazaré, com a sua pregação, a comunidade dos discípulos, a morte e o testemunho da ressurreição. Antes da doutrina sistematizada e da liturgia plenamente configurada, há um acontecimento reconhecido como portador de um sentido que o ultrapassa.

Esta afirmação exige um cuidado: Jesus participava na tradição ritual de Israel e os primeiros cristãos celebraram desde cedo o baptismo, a fracção do pão e a reunião semanal. A precedência do acontecimento sobre o rito não é cronológica, mas teológica pois o rito não é a razão de ser do acontecimento, porque o acontecimento é que dá origem ao rito e lhe confere sentido. Se esta precedência for esquecida, o cristianismo arrisca‑se a fechar‑se num sistema autorreferencial. Mas também seria erro concluir que o rito é mero revestimento dispensável, a história mostra que sem ritualidade a fé dificilmente se transmite.

  1. O acontecimento que se torna memória
    Todo o acontecimento histórico passa; as testemunhas desaparecem e as circunstâncias mudam. O evento cristão também está sujeito a esta condição. Se dependesse apenas da experiência imediata dos primeiros discípulos, ter‑se‑ia extinguido com a primeira geração. É aqui que a memória se torna constitutiva.

A memória não é uma reprodução fotográfica do passado, é uma recepção interpretativa a partir do presente, integrada na identidade de uma comunidade. Maurice Halbwachs mostrou que a memória tem dimensão colectiva, o indivíduo recorda dentro de quadros sociais que lhe fornecem linguagem, lugares e formas de interpretação. Uma comunidade que deseja conservar uma memória precisa de narrativas, calendários, símbolos e práticas. O cristianismo oferece um exemplo denso: a memória de Cristo não atravessou dois milénios apenas por esforço individual, mas graças a textos, fórmulas de fé, ministérios, festas e ritos que presencializam a ação salvífica.

Contudo, para a consciência cristã, a comunidade não produz soberanamente a memória que decide conservar; considera‑se, antes, constituída por uma memória que recebeu. Não é apenas a Igreja que conserva a memória de Cristo, porque é também a memória de Cristo que continuamente constitui a Igreja.

  1. «Fazei isto em memória de mim» como a memória encarnada

O mandato da Última Ceia, «fazei isto em memória de mim», é extraordinário porque associa memória e acção. Cristo não diz apenas «recordai‑vos», porque deixa um gesto a realizar. A memória cristã não fica confinada à interioridade; torna‑se palavra pronunciada, pão partido, vinho partilhado, comunidade reunida. O homem recorda não só intelectualmente, mas também corporalmente.

Esta corporeidade da memória corresponde à estrutura encarnacional do cristianismo: se o Verbo se fez carne, a matéria e o corpo não são exteriores à comunicação religiosa. Água, pão, vinho, óleo, mãos, voz, entram na linguagem da fé. Louis‑Marie Chauvet recorda‑nos que a mediação não é uma imperfeição inevitável porque o homem encontra e exprime sentido através da linguagem, do corpo e do símbolo. A própria fé, para existir historicamente, necessita de mediações. Por isso, dizer que o cristianismo precisa de ritos apenas porque a memória humana é frágil seria insuficiente; a necessidade do rito tem raiz antropológica e coerência encarnacional.

  1. A repetibilidade do rito e a irrepetibilidade do acontecimento
    Encontramo-nos aqui num paradoxo: o acontecimento fundador é irrepetível, a vida de Jesus, a Última Ceia, a Cruz, a Ressurreição não se repetem. O rito, porém, repete‑se. A Eucaristia celebra‑se ontem, hoje e amanhã.

A chave está em que o rito é repetível precisamente porque o acontecimento que celebra é irrepetível. A repetição ritual não multiplica o evento; permite que sucessivas gerações se relacionem com o que aconteceu uma vez. Na compreensão católica, o sacrifício de Cristo não se repete; repete‑se a celebração sacramental mediante a qual a comunidade participa na memória desse acontecimento único. A categoria de anamnesis é decisiva: não se trata de mera evocação psicológica de uma ausência, mas de actualização sacramental, em que o Ressuscitado está presente. A memória eucarística ultrapassa a sociologia da memória porque pretende ser presença real, embora não repetição histórica (engloba o processual).

  1. A liturgia como forma recebida (Guardini e Ratzinger)
    Romano Guardini ajuda a compreender que a liturgia introduz o indivíduo numa forma que ele não inventou. Numa cultura que associa autenticidade à espontaneidade, esta objectividade pode parecer limitadora, mas Guardini inverte a questão ao constatar que a forma recebida liberta o indivíduo da prisão da subjectividade. Não é necessário inventar continuamente a expressão da fé nem sentir intensamente para que o gesto tenha sentido; a liturgia retira a fé da dependência do estado psicológico momentâneo. Tal como ninguém inventa a língua em que fala, recebê‑la é condição para exprimir algo verdadeiramente seu. A liturgia tem também uma gratuidade própria porque é culto, louvor e acção de graças, que impede uma interpretação meramente funcionalista.

Joseph Ratzinger retoma esta intuição e insiste que a liturgia não pode ser entendida como produto da comunidade. Se o grupo se reúne apenas para expressar a sua identidade, a celebração torna‑se autorrepresentação colectiva. A liturgia rompe esse círculo porque remete para algo que a comunidade não produziu; ela recebe antes de criar, responde antes de dispor. A instituição litúrgica resiste à soberania do presente, recordando a cada geração que o cristianismo não começa com ela.

 

  1. Da memória à instituição e à tradição
    Uma memória que pretende atravessar gerações precisa de alguma forma de institucionalização: textos fixados, ministérios, calendários, critérios de pertença. Sem isso, a memória colectiva fragmenta‑se. Mas a instituição encerra um paradoxo semelhante ao do rito, sendo necessária para conservar o acontecimento, mas pode correr o risco de ocupar o seu lugar. A forma destinada a transmitir pode tornar‑se autorreferencial.

A relação entre acontecimento e instituição não se resolve eliminando um dos polos: sem instituição, o evento dificilmente atravessa a história; sem referência contínua ao acontecimento, a instituição conserva a forma após ter perdido a força que lhe deu origem. Henri de Lubac aprofunda esta reciprocidade ao mostrar que a Igreja não é uma organização que, entre outras actividades, celebra a Eucaristia; antes, «a Igreja faz a Eucaristia e a Eucaristia faz a Igreja». A comunidade é constituída pelo mistério que celebra.

A instituição, porém, existe no tempo, as suas formas desenvolvem‑se e acumulam história. Surge a questão da tradição. Yves Congar distingue a Tradição das suas múltiplas expressões históricas: nem tudo o que é antigo é essencial, nem toda a forma histórica é contingente e livremente disponível para reconstrução. A tradição viva situa‑se entre estas simplificações. John Henry Newman, por seu lado, mostra que o desenvolvimento doutrinal não é reinvenção arbitrária, mas explicitação e aprofundamento de uma realidade recebida. As novas questões obrigam a tradição a responder sem simplesmente repetir o passado nem transformar o presente em critério absoluto.

  1. Continuidade e reforma
    A reforma autêntica não é ruptura, mas recondução das formas históricas à realidade que lhes dá sentido. Isso aplica‑se particularmente à liturgia porque reconhecer a historicidade das formas não significa que a geração presente tenha soberania absoluta sobre elas. A pergunta central não é apenas “devemos conservar ou mudar?”, mas “o que deve permanecer para que a identidade não se perca”, e o que pode ou deve mudar para que essa identidade continue viva, inteligível e transmissível? Bento XVI, ao falar de uma «hermenêutica da reforma», mostrou que a autêntica reforma contém continuidade nos princípios e transformação em configurações históricas, a tradição permanece viva através dessa tensão.
  2. Palavra e sacramento: reciprocidade fundamental
    A estrutura da Eucaristia, Liturgia da Palavra e Liturgia Eucarística, oferece uma expressão clara desta reciprocidade. A Palavra proclama e interpreta; o sacramento corporiza e actualiza. Sem Palavra, o gesto pode tornar‑se opaco e cair no formalismo ou na magia; sem a dimensão sacramental, a Palavra reduz‑se a mera doutrina ou recordação intelectual. O cristianismo recusa ambas as reduções: a Palavra precisa de corpo, o corpo precisa de Palavra.

O sacramento é profundamente simbólico, mas não no sentido débil de um sinal convencional que apenas recorda uma realidade ausente; é sinal eficaz, aquilo que significa não permanece exterior ao acto sacramental. Distingue‑se, assim, da magia: nesta, o rito pretende colocar forças à disposição de quem o executa correctamente; na lógica sacramental, o que é recebido não é produzido pela comunidade nem submetido ao seu domínio, é dom antes de ser posse. Edward Schillebeeckx reforça esta visão ao pensar o sacramento a partir do encontro: Cristo é o sacramento primordial do encontro com Deus e a Igreja é sacramento derivado. A materialidade do sacramento não é obstáculo, mas lugar de mediação.

  1. O perigo do ritualismo e a persistência do rito
    Reconhecer a necessidade do rito exige reconhecer também a possibilidade da sua degeneração. O cristianismo contém uma crítica profunda ao ritualismo, os profetas de Israel denunciaram o culto separado da justiça e Jesus inscreve‑se nessa tradição. Mas a crítica do ritualismo não é crítica do rito; é defesa da sua verdade. O ritualismo começa quando o meio se transforma em fim, quando o sinal deixa de remeter para o significado. O rito é necessário, enquanto o ritualismo absolutiza o necessário e transforma‑o desse modo em suficiente.

A modernidade secularizou grande parte da vida pública, mas não eliminou o rito, cerimónias políticas, comemorações, funerais, rituais académicos mostram que o homem continua a ritualizar o que lhe é importante. Isto sugere que o rito não é invenção religiosa, mas dimensão profunda da existência humana. A questão cristã não é escolher entre rito e ausência de rito, mas perguntar que relação existe entre o rito e aquilo que ele pretende significar.

  1. Memória, presença e promessa
    O cristianismo não vive apenas do passado e do presente, transcende-o no kairós e vive também do futuro. A Eucaristia recorda um acontecimento passado e celebra uma presença, mas permanece orientada para uma promessa: «até que Ele venha». A liturgia tem, pois, uma estrutura escatológica porque é memória, presença e promessa. Esta tríade impede que a memória cristã seja nostalgia porque o passado não é procurado para regressar, mas porque contém uma promessa ainda não consumada. Também a presença não significa posse; o sacramento não encerra o mistério. A promessa preserva a transcendência: nenhuma forma histórica é o Reino, nenhuma liturgia esgota o mistério. A escatologia exerce uma função crítica sobre a instituição, lembrando que o cristianismo é maior do que os seus ritos.

Conclusão
O cristianismo não nasceu de um sistema ritual, mas de um acontecimento. Esse acontecimento, porque entrou na história, gerou memória e a memória, para ser humana, comunitária e transmissível, adquiriu palavra, gesto, corpo e instituição. O rito não é um acréscimo acidental nem o fundamento último, o acontecimento precede‑o. Sem acontecimento, o rito esvazia‑se; sem memória, o acontecimento perde‑se; sem rito, a memória torna‑se abstracta; sem instituição, a transmissão fragmenta‑se; sem tradição, cada geração recomeçaria do zero e sem discernimento e reforma, a continuidade degenera em imobilidade ou reinvenção. A Palavra e o sacramento exigem‑se mutuamente e a esperança impede que memória e presença se fechem sobre si mesmas.

A liturgia é, assim, o lugar em que uma comunidade histórica se deixa constituir por uma memória que não inventou, recebe no presente o que confessa como dom e se orienta para um futuro que não pode produzir. Memória, presença e promessa são as três dimensões que explicam por que o cristianismo não se reduz ao rito, mas também não pode existir historicamente sem ele.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

Notas bibliográficas

  1. Maurice Halbwachs, On Collective Memory (1992) – sobre os quadros sociais da memória.
  2. Romano Guardini, Vom Geist der Liturgie (1918) – a liturgia como forma objectiva e lúdica.
  3. Joseph Ratzinger, The Spirit of the Liturgy – continuidade com Guardini; liturgia como recebida, não como autorrepresentação.
  4. Louis‑Marie Chauvet, Symbol and Sacrament (1995) – mediação simbólica e corporeidade.
  5. Henri de Lubac, Corpus Mysticum (2006) – reciprocidade entre Eucaristia e Igreja.
  6. Edward Schillebeeckx, Christ, the Sacrament of the Encounter with God (1963) – sacramento como encontro.
  7. Yves Congar, Vraie et fausse réforme dans l’Église – tradição e reforma autêntica.
  8. John Henry Newman, An Essay on the Development of Christian Doctrine (1845/1878) – desenvolvimento doutrinal.
  9. Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, n.º 56 – unidade entre Palavra e Eucaristia.

Bibliografia essencial
CHAUVET, L.‑M. Symbol and Sacrament. Collegeville: Liturgical Press, 1995.
CONGAR, Y. Vraie et fausse réforme dans l’Église. Paris: Cerf.
DE LUBAC, H. Corpus Mysticum. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 2006.
GUARDINI, R. Vom Geist der Liturgie. 1918.
HALBWACHS, M. On Collective Memory. Chicago: University of Chicago Press, 1992.
NEWMAN, J. H. An Essay on the Development of Christian Doctrine. 1845/1878.
RATZINGER, J. The Spirit of the Liturgy. San Francisco: Ignatius Press.
RATZINGER, J. The Feast of Faith. San Francisco: Ignatius Press, 1986.
SCHILLEBEECKX, E. Christ, the Sacrament of the Encounter with God. New York: Sheed and Ward, 1963.
CONCÍLIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium, 1963.