CONTO DA CABRA-CEGA E DO ARCO-ÍRIS NO DIA DOS NAMORADOS

No dia em que o calendário se enfeita com corações de papel e as montras das ourivesarias parecem altares pagãos, Valentim acordou com a sensação de que lhe haviam trocado a alma durante a noite. Não era qualquer alma, era a dele, aquela que trazia desde miúdo, com ferrugem nos cantos e uma rachadela por onde às vezes entrava o vento. Mas naquela manhã de 14 de fevereiro (dia dos namorados), a coisa lá dentro parecia outra! Sentia-se mais leve, mais arejada, como se tivesse mudado de casa sem dar cavaco.

“É o amor que paira no ar”, suspirou a vizinha do terceiro, varrendo as folhas secas para cima do tapete de entrada. “Cheira a primavera antecipada, cheira a beijo na boca, cheira a prenda com laço.”

Valentim, que não era tolo nem cego, mas apenas um homem com o coração ao pé da boca, meteu a mão ao peito e sentiu que o órgão batia descompassado, como um tambor em dia de festa na aldeia. E pensou: “O amor é mesmo um ser sem lar. Anda aí, de mochila às costas, à procura de um sítio onde pendurar o chapéu.”

E foi assim que decidiu sair para a rua, na condição de candidato a anfitrião.

A Praça da Ribeira, naquele dia, parecia um jogo de cabra-cega em ponto grande. Pelas esquinas, pares andavam às tontas, de olhos vendados pela ilusão, braços esticados à procura da metade que lhes faltava. Uns esbarravam em postes, outros em paixões antigas, e a maioria agarrava-se a quem lhes passava ao lado, convencidos de que aquele era o pedaço de alma que andavam a reclamar desde sempre.

Valentim parou no largo da feira e viu: um rapaz magro, com ar de quem acabou de sair de um poema do Pessoa, andava às voltas atrás de uma miúda de tranças. Ela esquivava-se, ele lançava-se, e aquela coreografia de aproximação e fuga era coisa tão bonita de se ver! (Aquela cena fazia-o lembrar uma tarde de festa na aldeia – S. Pedro em Várzea – de outros tempos onde a rapaziada em bando atrás das moças, também elas em magote, dando voltas à capela com risos que eram setas e olhares que eram redes. Elas escarneciam deles, sim senhor, mas era só para afugentar a própria timidez, que a vergonha, quando aperta, disfarça-se de remoque. E no fundo, bem no fundo daquele alarido todo, o que elas faziam era lançar o desejo, mas um desejo de ponta de pé, camuflado em sorrisos, para não assustar o sonho e para que ele, o rapaz, tivesse ainda de merecer a aproximação. Era o jogo antigo, o de sempre, na caça que se faz de presa, e a presa que se faz de caça, numa dança em que ninguém queria cair, mas todos queriam ser apanhados). Chamam-lhe flirt, que é uma palavra importada com menos espinhas do que “namoro”. É uma dança que dura o tempo de um arco-íris pois nasce da sombra, mostra as cores todas e ameaça desaparecer mal a chuva pare.

“É a procura”, murmurou Valentim, que tinha queda para filosofias de feira. “Andamos todos de mão estendida, à procura do arco-íris. Uns encontram a panela de ouro, outros encontram um caldeirão vazio.”

Então Valentim, como ser que também anda à procura, lembrou-se do velho imperador romano, aquele tipo de toga e coroa de louros, que um dia se fartou de ver tanto amor à solta e mandou prender um tal Valentim (seu homónimo, coitado) só porque ele teimava em casar os jovens às escondidas. O amor sempre foi coisa subversiva e sempre andou à margem da lei, a fazer das suas.

Ao fim da tarde, quando o sol já se despedia e a noite ensaiava os primeiros passos, Valentim encontrou-a. Estava sentada num banco de jardim, a ler um livro com a capa virada para cima, como quem não quer nada. Era morena, tinha um sorriso de cantos duvidosos e olhos que pareciam dois faróis na neblina a marcar presença.

“Posso?” perguntou ele, apontando para o banco.

Ela encolheu os ombros, que é como quem diz “se quiser, mas não se admire se eu não falar”.

Houve um silêncio comprido, daqueles que ou se cortam à faca ou se transformam em conversa. Valentim, que era homem de iniciativa, atirou:

“Sabia que beijar faz bem à saúde? É remédio para o corpo e para a alma. Um beijo mobiliza trinta músculos da cara, acelera a circulação, e ainda manda um recado ao sistema imunitário a dizer que está tudo em ordem.”

Ela ergueu uma sobrancelha, desconfiada.

“E o senhor é médico?”

“Sou jardineiro do espírito” respondeu ele, sem pestanejar. “Trato da terra para que ela dê flores. E acredito que a lealdade à terra e o respeito pelas suas energias são o princípio de tudo. Até para se ter um vislumbre do céu, é preciso ter os pés assentes no chão.”

Ela riu-se. É verdade que foi um riso pequeno, mas chegou para iluminar a paisagem.

“O senhor é doido e convencido!”

“Sou. Doido por amor. Esta é a única loucura que vale a pena.”

E foi assim que a conversa pegou. Falaram de tudo e de nada. Do imperador romano, da Bíblia (que diz que o amor não é roupa que se vista e se despe ao sabor da moda), da falta que o beijo faz nos casamentos antigos, quando a rotina se senta no sofá e já ninguém se lembra de alongar os lábios.

“É uma pena”, suspirou ela. “O amor devia ser como o arco-íris, devia mostrar todas as cores, sem vergonha.”

“Mas é”, respondeu Valentim. “O amor tem muitas tonalidades. Umas são mais escuras, outras mais claras, mas todas elas fazem parte do mesmo feixe de luz. Amar é isso mesmo! É ser arte ferida, é ser espelho partido que mesmo assim reflecte calor.

Quando deram por ela, a noite tinha caído de vez. E a noite, no amor, é sempre traiçoeira. Porque há quem pense que o amor é um dia soalheiro sem fim, e não conta com o breu que vem depois. Há quem espere que o arco-íris fique para sempre no céu, e não percebe que ele precisa da chuva para existir.

Naquela noite, Valentim aprendeu a lição. Porque ela, a morena dos olhos de farol, levantou-se de repente, fechou o livro e disse:

“Tenho de ir. O meu marido espera-me para o jantar.”

E desapareceu no nevoeiro, como se nunca tivesse existido.

Valentim ficou ali, no banco, a olhar para o sítio vazio e pensou: “O amor é mesmo um jogo da cabra-cega. Umas vezes encontramos a parte que nos falta, outras vezes encontramos a parte que falta aos outros. E o pior é que a vendagem nunca nos deixa ver a diferença.”

Mas depois lembrou-se do beijo. Porque, sim, tinham-se beijado. Ali mesmo, no banco do jardim, ao cair da noite. Foi um beijo breve, sem grandes sofisticações, mas que mobilizou o corpo inteiro e até a alma, que na altura já tinha voltado à sua casa de origem, mas o deixara impreparado para aterrar…

Depois Valentim sorriu. Porque o beijo, mesmo quando é de despedida, vale sempre a pena. É comunicação, é apreço, é a prova de que, por um instante, fomos menos sós.

No dia seguinte, o calendário já não tinha corações de papel. As montras voltaram ao normal. Mas Valentim, esse, trazia no peito o mesmo fogo na certeza de que o amor, apesar de imperfeito, atrai. Sabia e sentia que o amor, mesmo sem ter casa, anda por aí, de mochila às costas, à procura de quem lhe abra a porta.

Mesmo que seja só para um café!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

DIA DE S. VALENTM – DIA DOS NAMORADOS

Beijar é o melhor e mais divertido Remédio para o Corpo e para a Alma

O dia em que o comércio local esfrega as mãos de contentamento, os restaurantes duplicam os preços do menu e os corações (mesmo os mais empedernidos) fazem um esforço extra para se lembrarem de que, afinal, ainda batem dentro do peito. Hoje é Dia dos Namorados, mas preferia chamar, o Dia Internacional do beijo na boca e da troca de embrulhos com laço.

Há quem diga, e com toda a razão, que beijar é o melhor remédio. Mais barato que Ibuprofeno ou Ben-u-ron e infinitamente mais agradável. É o santo comprimido efervescente que dissolve na boca e vai direto à alma. Os apaixonados lá andam, de nariz colado, a trocar carícias e pequenas lembranças, tudo na nostalgia do chamado Valentim (1), que era um padre com veia poética e espírito de insubordinação que, em pleno império romano, teimou em casar os jovens apaixonados às escondidas. Como resultado teve a prisão. E isto compreende-se porque o amor sempre foi um assunto perigoso e subversivo!

Na minha modesta opinião de observador do mundo, a verdade é que para se ter um vislumbre de paraíso, é preciso não andar em bicos de pés, mas ter os pés bem assentes na terra e não impedir sistematicamente que as suas energias subam mais além! Os verdadeiros jardineiros do espírito, aqueles que tratam da horta da alma com carinho, sentem-no logo de manhã: há amor no ar. Um simples sorriso, sem segundas intenções nem expectativas, é capaz de iluminar a paisagem mais cinzenta mesmo em manhãs de nevoeiro! A Bíblia, que não é propriamente um livro de autoajuda barata, já o dizia: o amor não é uma roupa que se veste e despe ao sabor da moda. Não há que mudar de casaco conforme o tempo. O amor aplica-se à vida, mesmo quando ela resolve desabar numa tempestade de granizo. É um laço invisível, uma daquelas colas superpoderosas que unem o que parecia partido e que teimam em agarrar quando o mais fácil seria largar tudo e ir à vida. (Para pessoas religiosas e não religiosas interessadas recomendo o Cântico dos Cânticos com os poemas líricos que o rei Salomão terá destilado).

Claro está que o amor não tem manual de instruções. Não vem com garantia de peças. É imperfeito, matreiro, cheio de falhas de fabrico. Mas atrai. Tem um íman qualquer. Talvez porque, no fundo, o amor seja um sem-abrigo de luxo! Como não tem morada fixa neste mundo, vive eternamente à procura de um lar onde possa pousar a cabeça. E é por isso que, quando encontra um, vale a pena festejar.

E como se festeja? Com um beijo, claro! Vale sempre a pena, porque um beijo é um fator de felicidade, um estimulante cardíaco sem efeitos secundários (salvo, por vezes, uma certa tontura, perfeitamente desculpável). É um grande ginásio para a alma. Precisa, sim, de ar fresco, de espaço para respirar, mas é a mais pura das comunicações. Beijar é dizer “gosto de ti” sem gastar sequer uma letra! É a demonstração máxima de que, naquele momento, não há sítio melhor no mundo, porque esse é o momento em que céu e terra se unem!

Do ponto de vista médico, então, o beijo é um espetáculo. Mobiliza 30 músculos faciais, acelera o pulso, põe o sistema imunitário em sentido e manda um fax ao cérebro a dizer que está tudo bem. É um verdadeiro “check-up” com sabor a framboesa. Pena é que, nos casamentos, com o passar dos anos, este remédio tão milagrosa tenda a ser receitado com menos frequência. A rotina instala-se, o sofá chama, e o beijo matinal passa a ser um gesto mecânico, um “bom-dia” seco dado de raspão, enquanto  se olha para o relógio!.

É uma lástima. Porque se há coisa que o Dia dos Namorados nos devia lembrar, para além da correria às floristas, é que o amor é um verbo e não um arquivo morto. E que um beijo, mesmo fora de época, é sempre a melhor forma de o conjugar. E agora que se conhece a gramática o melhor é passar à prática!

António da Cunha Duarte Justo

Nota em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10770

(1) São Valentim foi decapitado no dia 14 de fevereiro no século III. Na época do imperador Cláudio II Gothicus, os casamentos entre jovens soldados teriam sido proibidos, pois acreditava-se que homens solteiros eram melhores guerreiros.

O DIA DOS NAMORADOS : Pegadas do tempo: https://antonio-justo.eu/?p=9867

 

O DIABO ANDA À SOLTA

A Altitude da Corrupção: As Elites, Epstein e a Derrocada Moral do Ocidente

Vivemos numa era de desnivelamento ético. Enquanto a maioria luta com as realidades terrenas, uma elite global habita uma estratosfera de impunidade, um espaço “acima das nuvens” onde as regras que governam o povo não têm validade. Este distanciamento não é geográfico, mas moral. A condição sine qua non para esta existência etérea é a cogovernação com os oligarcas do poder, do capital, dos media e da cultura, uma simbiose que corrói os alicerces da civilização ocidental e que insista em continuar assim. O caso Epstein não é um desvio; é o sintoma terminal desta derrocada. Ele testemunha o fracasso abissal de uma casta que, sem um povo vigilante que a incomode, se permite tudo, investindo vorazmente na manipulação de consciências e Estados.

Deus é Povo e o Povo está adormecido

Há uma divindade secular negligenciada que se chama povo. Não apenas a sua representação política, falível e frequentemente incorporada, mas também a sua essência coletiva, crítica e moral. Enquanto ações humanas depravadas bradam aos céus, parece que Deus continua a dormir no povo, uma força potencial, mas anestesiada. A moralidade vigente “lá em baixo” não se aplica “lá em cima”, onde a depravação é normalizada sob o verniz do privilégio e um povo despido de si mesmo sempre a olhar para o céu à procura de estrelas. A dimensão do escândalo Epstein é tal que reduz as teorias da conspiração mais audazes a meros eufemismos. As suspeitas são a fumarada inegável de um incêndio moral de proporções civilizacionais.

O Furacão Epstein varre os Telhados e deixa ver o Círculo vicioso do Poder e do Brilho

A partir do momento em que figuras como Donald Trump ascenderam ao poder, uma tempestade de transparência forçada e de reação começou a varrer os altos escalões. O caso Epstein é o tsunami resultante. O seu mundo era o santuário da nata global: ex-presidentes (Clinton, Trump), magnatas (Gates, Musk), estrelas de Hollywood (Woody Allen) e membros da realeza (o Príncipe Andrew, Mette-Marit) e muitos outros da classe. Esta não era uma rede de promiscuidade banal, mas uma economia sombria que fundia altas finanças, política de alto nível e abuso institucionalizado. O mais revelador não é a mera associação, mas a continuidade dos laços mesmo após a condenação de Epstein em 2008. A luz cintilante do glamour servia de cortina de fumo para a mais profunda escuridão. São referidas acusações de pedofilia e tráfico de mulheres mas as evidências são fracas…

A Guerra das Narrativas entre Satânicos e Conspiradores

Neste vácuo ético, proliferam narrativas convenientes. A Rússia, sentindo-se visada pelas origens de algumas vítimas (muitas delas vinham também da Ucrânia!), aponta o dedo às “elites liberais satânicas”, retratando o complexo de Epstein como a falência moral das democracias ocidentais. Do outro lado, a grande imprensa europeia frequentemente minimiza o escândalo, enquadrando-o como uma mera “armadilha” conspiratória para semear desconfiança nas democracias liberais. Ambas as narrativas são úteis: desviam o foco da perversidade sistémica e da responsabilidade individual. Os papéis invertem-se, e os deuses mensageiros da nossa era, os media, como Hermes (o deus Mercúrio), guiam as almas do público num vaivém entre o Olimpo do poder e o submundo do escândalo, sem nunca permitir um julgamento final.

A Psicopatologia do Poder revela a Ponta do Iceberg

Está documentado: uma pequena elite global detém riqueza descomunal, e esse poder molda a psique, corroendo a compreensão das regras comuns. O caso Epstein é apenas a ponta visível de um icebergue de impunidade. Numa época de hiperinformarão e desinformação, cada um escolhe a parte da lógica que lhe convém, e o escândalo arrisca-se a ser soterrado no ruído. As elites protegem os seus interesses; sectores do povo agarram-se a moralidades selectivas; e o mecanismo perverso de entretenimento com escândalos distrai-nos a todos de olhar para o chão que pisamos.

A Guerra de Valores e a Porta para uma nova Era

Esta revelação é também uma arma na guerra de valores entre globalismo e patriotismo. A visão que a apresenta como foco em Trump não é inocente. Vivemos um conflito entre hemisférios cerebrais civilizacionais: um supostamente racionalista e global (esquerdo) e outro identitário e nacional (direito), em vez de uma perspetiva integrada. A pandemia e a guerra na Ucrânia funcionaram como portais para esta nova era de transformação mental e geopolítica. Em Bruxelas, Berlim, Londres ou outras capitais, os detentores do poder comportam-se com uma distância olímpica similar à dos associados de Epstein. Há que esconder a nova vertente do imperialismo que é a vertente do colonialismo mental.

Para onde vais, Humanidade?

A pergunta final é inevitável. Estamos a construir uma sociedade irrefletida, onde a perversidade se torna normalidade na ausência de ética. É o triunfo do ego desvinculado do “nós”. Curiosamente, as elites globalistas conseguem o feito perverso de reunir, nas suas fileiras, o pior do socialismo clientelar e do turbo-capitalismo predatório. Quando a imbecilidade anónima e a gestão técnica substituem a governação ética, os governantes transformam-se em meros administradores da decadência. Nada parece estranho, nada dá que pensar.

O Silêncio Português

E em Portugal? O silêncio da grande Media tradicional é ensurdecedor (1). A discussão vive nas redes sociais, enquanto a imprensa institucional parece adormecida. O caso Casa Pia, mencionado de passagem, nunca foi verdadeiramente esgotado. Este mutismo só pode significar uma coisa: o assunto interessa ou incomoda pessoas com poder também no ecossistema mediático português (o facto de o ser também no regimento de Bruxelas não desculpa!). Neste microcosmo, impera a mesma lei do silêncio que protege os deuses do Olimpo global. Entretanto, Deus continua a dormir no povo embora, de vez em quando, apareça algum anjo com insónias a querer acordá-lo. A questão que não se poderá colocar será “quando despertará”?!!!

António da Cunha Duarte

Pegadas do Tempo

(1) Quando o jornalismo (o Público) em ambiente de eleições tem o despropósito de fazer reclame com o “Não há volta a dar. O jornalismo é essencial nas escolhas” constata-se a atitude descarada que ele mesmo reconhece ao reconhecer o poder da manipulação que tem.

Para documentação detalhada sobre EPSTEIN, ver: https://contra-cultura.com/2026/02/03/horror-repulsa-e-revolta-parte-2-o-que-dizem-os-ficheiros-epstein-sobre-a-civilizacao-em-que-vivemos/

BUROCRACIA DA EXISTÊNCIA

Há quem só veja números, prazos vencidos,
E chame “achaques” aos anos vividos.
Querem as ruas limpas de folhas e de história,
A velhice enclausurada, cinzenta, sem glória.
Sonham com botões de silêncio programado,
No corpo do outro, já por eles assinado.

O Homem, não é coisa, não é número, nem é prazo
Não é processo em pasta de arquivo.
Nem o Incómodo, o Frágil, a Moléstia
Podem ser anexos que atrasam o sistema,
Como quer a branda política da peste
Que higieniza o humano à força de dilema.

Mas a Vida, essa árvore de raiz profunda,
Não cabe nos seus gráficos de segunda.
Arde em febre, em paixão, em ira contida,
Luta corpo e alma, numa última guarida.
E mesmo o tronco fendido, de casca gretada,
Guarda mais humanidade que a sua jornada.

Por isso, escritores, levantem o punho e a pena,
Uma defende a alma, a outra sustém a arena.
Contra a lógica gelada do descarte humano,
Seja o verso um murro, seja o murro um desengano.
Lançai estrofes com fervor e espanto:
Aqui jaz a vossa frieza, oh, gente!
Sobre o calor do nosso sacro canto!”
António CD Justo

Pegadas do Tempo

CARTAZES FORA DAS ÁRVORES

Na minha cidade é caso pensado,
Não cobre a folhagem o papel colado.
Não por respeito à Democracia,
Nem à vontade que à urna guia.

É só respeito, singular razão!
À vertical, silente declaração
Da árvore antiga, de raiz segura,
Mais pura que qualquer candidatura.

Prendem os rostos, as promessas feitas,
Às lanternas, aos postes das avenidas,
Onde a luz pública, fria, dá respostas
Às frases gastas, às propostas batidas.

E assim a cidade, no seu jeito rude,
Mostra um decoro de estranha virtude:
As árvores livres, intactas nos troncos,
Os homens, presos em seus próprios concursos.

E vemos, nós, nesta opção bizarra,
Que a política é questão de casca (sem moral),
E o respeito, quando à árvore se vota,
É porque a outra raiz já está rota.

Assim caminha a urbe, nesta dança:
A política busca a semelhança
Do poste liso, da coluna vazia…
Pois a árvore tem outra genealogia.

E no outono, quando caem as folhas,
Não arrastam votos nem siglas enroscadas.
Caem em silêncio, leves, naturais,
Enquanto os cartazes, nos ferros metálicos,
Gritam ao vento seus mundos esquecidos.

António CD Justo

Pegadas do Tempo