Categoria: Arte
O DEUS QUE HABITA EM SILÊNCIO EM MIM
Dedico estes versos aos meus amigos ateus ou agnósticos,
espíritos que buscam firmar o discurso da própria mente
com o nome profundo e silencioso que a terra lhes gravou no ser.
Não creio. Mas a Sua crença em mim
é uma charrua de lâmina suspensa
que sulca o campo onde a dúvida germina
não para ajoelhar, mas para erguer a leiva.
Sou cristão de sombras que a ciência atravessa
como um vento que quer nomear-se inteiro
e esquece que a verdade se atravessa
no corpo que a vive, nu e verdadeiro.
Deus cala. E nesse calar uma presença
me chama sem palavras nem proveitos.
Não estou só, estou em espera mansa,
feito de ressonâncias não resolvidas.
O possível e o impossível dentro de mim
ressoam como dois sinos que se ignoram.
O bem que chamo mal, o mal que fiz assim
de tanto que as mãos tacteiam e decoram.
Vou com a luz e a escuridão de igual modo:
sou o lugar onde a noite não é inimiga
mas a pausa que o sonho leva a todo
o mundo que a natureza ainda abriga.
A dúvida é meu arado mais certeiro.
Assino-a curva aberta, não trincheira.
E Deus, que crê em mim porque é primeiro
a calar-se, sorri de dia e à noite sonha
uma terra sem muros, onde o encoberto
é apenas a outra face do que é certo,
e o nu que caminha já não tem vergonha.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
À MÃE SEMENTE E ALFOBRE
Mãe, graças te dou por teres semeado
no ventre da terra que nunca julgou
o grão mais perfectível e delicado
que em mim germinou e depois frutificou.
Teu colo foi ninho de aurora primeira,
tão cedo partido, que falta me faz!
os beijos que agora são névoa passageira
guardei nos poros, do toque veraz.
Sem competição, teu sucesso foi pleno:
abraçaste o silêncio, a humilde razão,
tempera de dores, trabalho e aceno
de mãos que afagaram a minha estação.
Na frágil matéria do existir que vergaste
com ânimo seguro e divina fronte,
despiste a noite onde reslumbraste
no limiar que une a terra ao horizonte.
Teus sonhos, que em nós se fizeram criança,
agora nos filhos alegres são voo,
reconhecimento que em dança se lança
no ar que teu sopro primeiro abençoou.
Mãe, tu não envelheces: és múltipla, inteira,
por ti floriram da mulher as estações,
menina, donzela, anciã, companheira,
trazendo no colo as humanas nações.
O mundo em teus braços repousa e floresce
sem vento que o areje, mas dá melhor fruto:
és côncava lua que nutre e aquece,
és mesa que congrega e converte o absoluto.
Em tua casa estou na minha, és o centro,
o tempo que passa te vestes de amor;
homens e mulheres transitam, enquanto
tu ficas, farol, na espiral da flor.
Sei bem que há mães feridas, sombra e ciência
que passam ao fruto o veneno a expiar,
mas hoje é teu dia, de plena clemência:
o sol do teu riso faz tudo esquecer.
Mãe, dança connosco na seiva que dobra
a espinha do mundo de tanto acolher.
És infinito, natura, que se desdobra:
cantar-te é nascer, sempre mais, a crescer.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
1.º DE MAIO: O DIA EM QUE AS MÁQUINAS CHORAM POR NÓS
Pegadas do Tempo
A MAIA À PORTA
Diz a memória enterrada nas raízes do mundo
que uma criança (1) já foi escondida na noite
sob o disfarce das flores,
e que desde então
a luz aprendeu a fingir-se de campo.
Mas antes disso, muito antes,
já a terra celebrava o seu próprio regresso,
já o sangue verde subia pelos troncos
como um cântico sem língua,
já o sol era invocado em pétalas
para que o inverno esquecesse o caminho de volta.
Lembro-me da noite
como quem lembra um segredo
dito em voz baixa pela terra.
Em Várzea, naquela Arouca,
abril acabava devagar,
como se tivesse medo de partir,
e as mãos já sabiam o caminho
antes de o corpo chegar ao campo.
Íamos ao monte buscar a giesta,
amarela como o sol que ainda não era,
leve como se o mundo coubesse nela.
Havia qualquer coisa no ar,
não sei se era medo
ou respeito pelo que não se via.
A freguesia dizia:
“é noite de coisas más a passar”
e eu olhava a estrada vazia
como quem espera
que o invisível tenha forma.
Mas depois vinha o gesto,
simples, certo, antigo,
de colocar a maia à porta.
e então tudo mudava.
A casa ficava mais casa,
como se tivesse aprendido a defender-se,
como se alguém, muito antes de nós,
tivesse deixado ali um aviso de luz.
A minha mãe ajustava os ramos
com um cuidado quase sagrado,
e o silêncio era diferente,
não era vazio,
era cheio de proteção.
Eu não entendia tudo,
mas sentia.
Sentia que aquela flor
não era só flor,
que aquela noite
não era só noite,
que havia uma história
a acontecer dentro de nós
sem precisar de palavras.
E depois, vinha a manhã.
E nada tinha acontecido,
ou possivelmente tudo.
Porque a porta continuava inteira,
o mundo ainda estava no lugar,
e a maia, depois já mais murcha,
guardava o segredo de ter vencido.
Hoje, longe desse tempo
que ainda vive em mim,
sei que não era só (uma) tradição.
Era a forma que tínhamos
de pedir à vida que fique.
De novo, a terra assim,
reaprende a nascer.
António da Cunha Duarte JustoFormularbeginn
Pegadas do Tempo
(1) A lenda das Maias, profundamente enraizada no norte de Portugal, narra que, durante a fuga da Sagrada Família para o Egito, um delator assinalou a porta da casa onde o Menino Jesus dormia com um ramo de giesta florida. A intenção era guiar os soldados de Herodes até ao local, para que pudessem matá-Lo, pois o rei temia o surgimento de um novo monarca, conforme anunciado nas escrituras. Contudo, por intervenção divina, na manhã seguinte todas as portas da aldeia amanheceram adornadas com giestas amarelas, tornando impossível aos soldados identificar a morada de Jesus.