POLÍTICA-MORAL-JUTIÇA

Não se iluda quem olha a polis: ali, a moral e a justiça são servas subalternas do Grande Irmão Estado, que as elites determinam. É uma verdade de aspeto duro, como pedra fria; mas para que essa dureza se amacie e o mundo respire ar puro, devem os homens de têmpera nobre subir, um a um, aos lugares de chefia.
António CD Justo

O DEUS QUE HABITA EM SILÊNCIO EM MIM

Dedico estes versos aos meus amigos ateus ou agnósticos,
espíritos que buscam firmar o discurso da própria mente
com o nome profundo e silencioso que a terra lhes gravou no ser
.

Não creio. Mas a Sua crença em mim
é uma charrua de lâmina suspensa
que sulca o campo onde a dúvida germina
não para ajoelhar, mas para erguer a leiva.

Sou cristão de sombras que a ciência atravessa
como um vento que quer nomear-se inteiro
e esquece que a verdade se atravessa
no corpo que a vive, nu e verdadeiro.

Deus cala. E nesse calar uma presença
me chama sem palavras nem proveitos.
Não estou só, estou em espera mansa,
feito de ressonâncias não resolvidas.

O possível e o impossível dentro de mim
ressoam como dois sinos que se ignoram.
O bem que chamo mal, o mal que fiz assim
de tanto que as mãos tacteiam e decoram.

Vou com a luz e a escuridão de igual modo:
sou o lugar onde a noite não é inimiga
mas a pausa que o sonho leva a todo
o mundo que a natureza ainda abriga.

A dúvida é meu arado mais certeiro.
Assino-a curva aberta, não trincheira.
E Deus, que crê em mim porque é primeiro
a calar-se, sorri de dia e à noite sonha
uma terra sem muros, onde o encoberto
é apenas a outra face do que é certo,
e o nu que caminha já não tem vergonha.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

À MÃE SEMENTE E ALFOBRE

Mãe, graças te dou por teres semeado
no ventre da terra que nunca julgou
o grão mais perfectível e delicado
que em mim germinou e depois frutificou.

Teu colo foi ninho de aurora primeira,
tão cedo partido, que falta me faz!
os beijos que agora são névoa passageira
guardei nos poros, do toque veraz.

Sem competição, teu sucesso foi pleno:
abraçaste o silêncio, a humilde razão,
tempera de dores, trabalho e aceno
de mãos que afagaram a minha estação.

Na frágil matéria do existir que vergaste
com ânimo seguro e divina fronte,
despiste a noite onde reslumbraste
no limiar que une a terra ao horizonte.

Teus sonhos, que em nós se fizeram criança,
agora nos filhos alegres são voo,
reconhecimento que em dança se lança
no ar que teu sopro primeiro abençoou.

Mãe, tu não envelheces: és múltipla, inteira,
por ti floriram da mulher as estações,
menina, donzela, anciã, companheira,
trazendo no colo as humanas nações.

O mundo em teus braços repousa e floresce
sem vento que o areje, mas dá melhor fruto:
és côncava lua que nutre e aquece,
és mesa que congrega e converte o absoluto.

Em tua casa estou na minha, és o centro,
o tempo que passa te vestes de amor;
homens e mulheres transitam, enquanto
tu ficas, farol, na espiral da flor.

Sei bem que há mães feridas, sombra e ciência
que passam ao fruto o veneno a expiar,
mas hoje é teu dia, de plena clemência:
o sol do teu riso faz tudo esquecer.

Mãe, dança connosco na seiva que dobra
a espinha do mundo de tanto acolher.
És infinito, natura, que se desdobra:
cantar-te é nascer, sempre mais, a crescer.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

1.º DE MAIO: O DIA EM QUE AS MÁQUINAS CHORAM POR NÓS

Era uma vez um mundo que trocou as mãos calejadas por dedos de aço, os suspiros dos cansados pelo zumbido infalível das máquinas. Hoje, no primeiro dia de maio, os sinos dobram, mas não celebram porque o seu tocar parece de lamento. Soam por aqueles que ainda se chamam trabalhadores, embora o trabalho já não os reconheça como seus.
Os homens outrora conquistaram este dia como um refúgio no calendário do suor, um instante de respiro entre a servidão dos séculos. Mas que ironia: ganharam um dia e perderam os outros. Os salários, mínimos como esmolas, compram pão, mas não compram horizonte. Sustentam o corpo, mas deixam a alma em jejum. E enquanto os relógios de ponto viram algoritmos, os direitos desmancham-se no ar, como fumo de chaminés abandonadas.
A automação chegou sem piedade, vestida de progresso, e onde pisou, deixou pegadas de desalento. O operário, antes explorado, agora é ignorado. Suas mãos, que moviam o mundo, são peças sobressalentes num mecanismo que se autorepara. O capital desalmado, esfinge insaciável, devora até seus próprios filhos—e os que sobram, assistem, esfaimados de futuro, à decomposição da própria dignidade.
Onde estão os sindicatos? Onde estão os gritos que furaram o céu como fachos? Mudos, encurralados pela engrenagem que não tem ouvidos, apenas rodas dentadas. Resta ao Homem a escolha de se render como peça solta ou erguer-se como brasa. A precarização é cada vez mais abrangente pois não é só do ofíciomas sobretudos da alma. O trabalho sem rosto cria homens sem nome.
Os governantes, feiticeiros de números, falam em produtividade, em flexibilidade, em revoluções digitais, que no final se revelam como palavras vazias que rolam como moedas falsas. Suas leis são escritas em código binário, sem espaço para lágrimas ou suor. Enquanto isso, a vida torna-se líquida, escorre por entre os dedos como areia de horas extras não pagas. O Ocidente, outrora farol, agora é um navio à deriva, com velas rasgadas pelo mesmo vento que soprou sobre os colonizados. A roda da história gira, e os de baixo começam a exigir o que lhes foi negado, enquanto os de cima já nem sabem o que é humanidade.
Na sombra deste dia, São José Operário estende suas mãos marcadas pela plaina. Carpinteiro, pai, homem mas não algoritmo, não função nem estatística. Se queremos resistir ao dilúvio de cifras, não basta lembrar Chicago; é preciso invocar o milagre do trabalho que não humilha, que não reduz, que não descarta.
E Portugal, pequeno barco neste oceano de ferrugem e silício? Entre o centralismo que esmaga e o globalismo que desfigura, só nos resta a rebeldia das raízes. A Europa será federal ou não será, pois só um mundo feito de pátrias humanas, não de impérios digitais, merece ser chamado de civilização.
A tarefa que nos cabe é antiga como Caim e Abel: lutar contra a exploração que mata o corpo e a alienação que aniquila a alma. Enquanto houver um só homem que levante a cabeça e pergunte “por quê?”, a chama não se apagará. Não por um mundo de máquinas perfeitas, mas por um mundo de homens imperfeitos, livres, iguais em dignidade, donos de seu suor e de seu sonho.
Tanto trabalhador na carência numa sociedade que se quer fina e rica. Ele constrói a casa que não habita e habita a falta que não construiu. A reforma é um eco do salário, a carência a parede que lhe cai em cima. E a a pátria, que lhe chama ‘cota’, esquece que foi ele quem a ergueu.
António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A MAIA À PORTA

Diz a memória enterrada nas raízes do mundo
que uma criança (1) já foi escondida na noite
sob o disfarce das flores,
e que desde então
a luz aprendeu a fingir-se de campo.

Mas antes disso, muito antes,
já a terra celebrava o seu próprio regresso,
já o sangue verde subia pelos troncos
como um cântico sem língua,
já o sol era invocado em pétalas
para que o inverno esquecesse o caminho de volta.

Lembro-me da noite
como quem lembra um segredo
dito em voz baixa pela terra.

Em Várzea, naquela Arouca,
abril acabava devagar,
como se tivesse medo de partir,
e as mãos já sabiam o caminho
antes de o corpo chegar ao campo.

Íamos ao monte buscar a giesta,
amarela como o sol que ainda não era,
leve como se o mundo coubesse nela.

Havia qualquer coisa no ar,
não sei se era medo
ou respeito pelo que não se via.

A freguesia dizia:
“é noite de coisas más a passar”
e eu olhava a estrada vazia
como quem espera
que o invisível tenha forma.

Mas depois vinha o gesto,
simples, certo, antigo,
de colocar a maia à porta.
e então tudo mudava.

A casa ficava mais casa,
como se tivesse aprendido a defender-se,
como se alguém, muito antes de nós,
tivesse deixado ali um aviso de luz.

A minha mãe ajustava os ramos
com um cuidado quase sagrado,
e o silêncio era diferente,
não era vazio,
era cheio de proteção.

Eu não entendia tudo,
mas sentia.

Sentia que aquela flor
não era só flor,
que aquela noite
não era só noite,
que havia uma história
a acontecer dentro de nós
sem precisar de palavras.

E depois, vinha a manhã.
E nada tinha acontecido,
ou possivelmente tudo.

Porque a porta continuava inteira,
o mundo ainda estava no lugar,
e a maia, depois já mais murcha,
guardava o segredo de ter vencido.

Hoje, longe desse tempo
que ainda vive em mim,
sei que não era só (uma) tradição.

Era a forma que tínhamos
de pedir à vida que fique.
De novo, a terra assim,
reaprende a nascer.

António da Cunha Duarte JustoFormularbeginn

Pegadas do Tempo

(1) A lenda das Maias, profundamente enraizada no norte de Portugal, narra que, durante a fuga da Sagrada Família para o Egito, um delator assinalou a porta da casa onde o Menino Jesus dormia com um ramo de giesta florida. A intenção era guiar os soldados de Herodes até ao local, para que pudessem matá-Lo, pois o rei temia o surgimento de um novo monarca, conforme anunciado nas escrituras. Contudo, por intervenção divina, na manhã seguinte todas as portas da aldeia amanheceram adornadas com giestas amarelas, tornando impossível aos soldados identificar a morada de Jesus.