A PESSOA COMO MÁSCARA E VULCÃO

Cada pessoa é um mistério insondável, uma gruta que recua sempre um passo mais fundo do que a luz da nossa vela consegue alcançar. E porque o poço não tem fundo visível, cada um se apressa a construir, sobre a boca do abismo, uma máscara, não para mentir, mas para não cair. A máscara é o primeiro gesto de sobrevivência do mistério perante o mundo.

Chamamos “real” àquilo que se vê, e, no entanto, o que se vê é apenas o facete que a luz do momento escolheu iluminar num caleidoscópio que gira sem parar. Somos feitos de mil cacos coloridos, mágoas, ternuras, ambições, silêncios e a cada volta da roda um desenho novo se compõe, sempre parcial, sempre provisório. Confundir esse desenho fugaz com a totalidade de quem somos é confundir a sombra projectada na parede com o corpo que a projecta, como sugestionava Platão na imagem projectada nas paredes da caverna.

E ainda assim é preciso descrever a máscara. Só que a máscara que se debruça sobre si mesma, tentando conhecer-se, não pode fazê-lo senão a partir de outra máscara, a do próprio autoconhecimento. É o espelho colocado diante do espelho: as imagens multiplicam-se em corredores infinitos, cada vez mais pequenas, cada vez mais fiéis à ideia de fundo e cada vez mais longe de o tocar. Conhecemo-nos, sim, mas conhecemos o rosto pintado, nunca a argila anterior à pintura.

Resta a intenção. É ela quem lança sobre o gesto o manto pesado e luminoso da verdade, como quem cobre com um pano de altar uma mesa qualquer e a transfigura. Mas o manto não muda a madeira por baixo: a acção, vestida de boa intenção, continua presa aos limites estreitos da consciência que a gerou, e raramente coincide com a Acção maior, aquela que seria plena, livre, sem sombra de cálculo ou de medo. Entre o que queremos fazer e o que verdadeiramente fazemos corre sempre um fio de água que se perde entre pedras.

E isto porque somos amassados, ao mesmo tempo, com barro de Deus e com barro do Diabo, o que fica à superfície, o que os outros, também mascarados, conseguem ler em nós, é sempre uma liga das duas argilas, nunca uma só. Há quem, ao olhar-nos, veja sobretudo o brilho: chamemos-lhe os que descobrem mais Deus. Há quem repare primeiro na fenda escura: os que descobrem mais o Diabo. E há ainda os mafarricos, os olhos treinados apenas para a fuligem, que por mais luz que uma alma ofereça, insistem em não enxergar senão o fumo. O espelho que cada um nos estende devolve sempre a sua própria cegueira, tanto quanto a nossa verdade.

No fundo, todos andamos, mafarricos incluídos, à procura de nós mesmos, tacteando no escuro de um corredor de espelhos. Mas a máscara tecida de Deus e de Diabo, a máscara que somos e que os outros veem, é precisamente aquilo que nos impede de tocar o fundo de nós próprios. Falamos com orgulho de autoconhecimento, como quem fala de uma terra já conhecida e, no entanto, o que conhecemos, quando muito, são as máscaras e as suas funções, o rosto que usamos no trabalho, o que usamos em casa, o que usamos sozinhos diante do espelho, que também é máscara, só que mais íntima.

Isto explica-se porque no mais interior de nós mesmos não há sala iluminada, há vulcão. Há um magma de amor que não conhece lei nem moral, um fogo anterior a qualquer código, que a crosta, a máscara e a pele endurecida da nossa história, tanto precisa de conter, de nomear, de vestir com regras, precisamente para poder existir à superfície do mundo sem se dissolver nele. E tal como o magma da terra só ganha forma no próprio acto de irromper, arrefecendo em contacto com o ar até se tornar rocha, pedra, paisagem, também o nosso amor mais fundo só se torna forma, gesto, rosto reconhecível, no instante em que sobe até à crosta e se exterioriza. Antes disso é apenas potência incandescente, sem nome, sem contorno, informe de tão vasta.

Eis o paradoxo em que vivemos: buscar a face nua sob a máscara é um projecto tão impossível como pedir ao magma que se mostre magma, e não rocha, sem deixar de correr. O que resta, então, não é a queixa de nunca chegarmos ao fundo, mas o assombro de que exista fundo, existia um vulcão de amor a arder em cada um de nós, mesmo quando tudo o que os outros e nós próprios conseguimos ver é a crosta que ele, generosamente, criou para se dar a ver.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

Balada das Ondas da Vida

Nas ondas da vida nas ondas do mar,
a vida movimenta-se novas ondas a formar.
Crista e vale, subida e descida,
dança eterna da força contida.

O que parece contrário é par,
o que julgas adverso vem-te sustentar.
Como o barco no alto mar navega,
sem a onda que o ergue, afunda e se entrega.

Na família, no clã, na sociedade inteira,
agem forças antigas de maneira certeira.
Não são inimigas, não são contradição,
são faces diversas da mesma criação.

Cada ser que respira busca individuação,
definir-se, afirmar-se na sua condição.
E neste afirmar-se, no atrito que há,
não reside a guerra, reside o estar cá.

Se cada um soubesse, se cada um notasse
que as mesmas leis da vida, em todos palpitasse,
o conflito seria visto com outro olhar:
não inimigo a temer, mas irmão a abraçar.

Pois a energia que te move a ser quem és,
move também o outro, move tantos a seus pés.
A mesma força cósmica que ondula o oceano
ondula em ti, em mim, no próximo, no humano.

Compreender-se é compreender o alheio,
reconhecer em si o universal enleio.
A onda não combate a onda que vem depois,
juntas formam o mar, juntas são as leis.

Se te vires como parte, não como separado,
se sentires a vida como um todo entrelaçado,
verás que o atrito é só a pele da união,
o preço da existência, a marca da individuação.

Somos barcos ao vento, somos ondas também,
somos força e repouso, somos onda e vaivém.
E se não fosse o empurrar de cada onda a formar,
não haveria sustento, não haveria mar.

Então navega consciente, com olhos de aceitar:
o que te parece adverso veio-te ajudar.
As leis da natureza não conhecem traição,
só conhecem o pulsar da eterna criação.

Que esta balada seja espelho e lição,
que cada verso acorde a tua supervisão:
Não há inimigos onde há compreensão,
há só o ondular da vida em constante expansão.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo 2024

CUIDAR DE QUEM CUIDA

Padres com Satisfação vocacional que convivem com o Risco de burnout

Inquéritos feitos a padres nos EUA em 2025 (e na Europa) revelam níveis elevados de sacerdotes que vivem a sua vocação com satisfação e sentido, mas enfrentam desafios estruturais graves: sobrecarga, solidão, risco de exaustão, falta de apoio institucional. Ao mesmo tempo, os padres revelam uma clara visão de futuro: priorizar juventude, famílias, evangelização e serviço social, uma Igreja mais “de rosto humano”, comprometida com o mundo real (1).

As percepções sobre liderança, bem-estar comunitário, confiança etc. podem variar muito de diocese para diocese; os resultados gerais não dizem tudo sobre contextos particulares.

Uma realidade que pede atenção e misericórdia

A Igreja é uma família. E como em qualquer família, quando alguém se sente cansado, sobrecarregado ou só, todos somos chamados a reparar, escutar e ajudar.

Em muitas comunidades portuguesas e europeias, os padres vivem hoje com grande dedicação, mas também com um peso crescente de responsabilidades: várias paróquias a cargo da mesma pessoa, exigências administrativas, deslocações constantes e expectativas que nem sempre são humanas.

Muitos continuam a servir com alegria e fidelidade. Outros vivem momentos de cansaço profundo, solidão ou stress, nem sempre visíveis, nem sempre partilhados.

Reconhecer esta realidade não é criticar a Igreja, mas amá‑la com verdade porque somos todos humanos.

Alguns dados simples para compreender melhor

– Em várias regiões da Europa, incluindo Portugal, a proporção aproxima‑se hoje de 1 padre para 3.000 a 4.000 fiéis.

– Estudos europeus e internacionais indicam que cerca de 30% a 40% dos padres apresentam sinais de cansaço emocional prolongado (burnout) em algum grau.

– Padres mais jovens ordenados após 2000 ou com múltiplas paróquias tendem a sentir maior pressão e solidão.

– Em Portugal, uma investigação recente em que foi aplicada a ferramenta psicológica Francis Burnout Inventory (FBI) que mede a saúde mental no trabalho (exaustão emocional e satisfação no ministério) aplicada a padres portugueses (amostra de 266) confirma que também entre nós existem sinais de exaustão associados à falta de descanso, de apoio regular e de partilha fraterna e também pensamentos sobre deixar o ministério.

Estes dados não descrevem pessoas concretas, mas ajudam‑nos a perceber melhor o contexto em que muitos sacerdotes vivem hoje.

Quando o cansaço se prolonga

Quando a sobrecarga se prolonga e não se é escutado nem cuidado, o desgaste pode levar a:

– Ansiedade, depressão e doenças psicossomáticas;

– Solidão profunda e perda de alegria ministerial;

– Distanciamento afetivo das comunidades;

– Risco de abandono do ministério;

– Empobrecimento da vida pastoral das paróquias e da vida comunitária.

Cuidar dos padres é cuidar da qualidade da vida cristã de todos.

Uma palavra de gratidão aos padres

A entrega do sacerdote é preciosa e a sua humanidade também.

Jesus não chamou servidores incansáveis, mas amigos. Descansar, pedir ajuda, partilhar o peso com irmãos e comunidades não diminui a vocação, pelo contrário, protege‑a.

A fraternidade entre padres, vivida com amizade, oração e partilha sincera e com a oração partilhada é uma das maiores fontes de cura e perseverança.

A paróquia é uma comunidade de vida

A paróquia não é apenas o lugar onde o padre trabalha, é uma comunidade de corresponsáveis, uma comunidade de vida.

Cada comunidade pode ser mais leve e mais fraterna quando: partilha tarefas e responsabilidades; respeita limites e tempos de descanso; valoriza a presença humana do padre, não apenas o que ele faz; cria equipas e ministérios activos e valoriza momentos simples de convivência.

Uma comunidade viva não sobrecarrega o padre, caminha com ele anunciando o Evangelho com gestos concretos.

Caminhar juntos com esperança

A Igreja precisa de bispos que sejam pais e pastores, não apenas gestores.

Estas palavras não nascem de críticas, mas de um desejo simples: uma Igreja mais atenta, mais humana e mais evangélica.

Cuidar de quem cuida é uma missão de todos.

“Vinde repousar um pouco comigo.” (Mc 6,31)

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) O relatório do inquérito de 2025 feito nos EUA a padres sobre a sua situação pode ser consultado em  https://catholicproject.catholic.edu/wp-content/uploads/2025/10/NSCPWave2FINAL.pdf    entre outras coisas identificou que ~ 40% dos padres ordenados após 2000 manifestaram sentimentos de solidão em algum grau. Cerca de 39% dos padres relataram ao menos um sintoma de “burnout” (cansaço emocional, esgotamento, visão negativa) e 5% relataram ter todos os sintomas. Há diferença entre padres diocesanos (mais em risco 7% apresentam “alto burnout”) e padres religiosos (2%).

Os padres que responderam à pesquisa mantêm níveis elevados de “florescente” pessoal: pontuação média de 8,2/10 (igual à de 2022)  ou seja, saúde mental, propósito, relações sociais etc., em bom nível.

Estudos empíricos recentes em Itália mostram que, além da sobrecarga objetiva, fatores pessoais (traços de personalidade) e a falta de atividades de lazer/proteção profissional influenciam a propensão ao burnout.

PANENTEISMO NO DENTRO E FORA DO OCEANO EM NÓS + A DANÇA DA TRINDADE , Agosto 2025

 

PANENTEISMO NO DENTRO E FORA DO OCEANO

Escuta, não sou mais que uma breve gota,
Mas trago o mar no sangue e na medida.
Não sou o Todo e, no entanto, ele em mim habita,
Pois Deus é mais que a soma da existência.

Que outro oceano me diria: “és minha espuma,
Mas nunca perderás a tua forma breve”?
Que vento me traria, sem me destruir,
O gosto do eterno, o sal do que não finda?

Eu não me perco em Ti, nem me anulas;
Em Ti me encontro, inteiro, singular.
Danço contigo a dança da Presença,
Onde o Teu e o meu, juntos, podem cantar.

Pois se crio em Ti, Teu hálito é meu chão;
Mas Tu és mais que o gesto e a canção.

António da Cunha Duarte Justo

 

A DANÇA DA TRINDADE QUE NOS CHAMA


O Pai é fonte, o Verbo é o espelho,
E o Amor que os une é o Espírito que tudo inundou.

E Tu, ser humano, não és rotina;
És palavra única no meio da poesia.
A criação não é tela que se gasta,
Mas o próprio olhar de Deus, em pleno dia.

Por isso o mundo é templo, e não se esgota;
O mal não é divino, mas batalha que se trava.
E o Tempo caminha para a festa onde o Cristo é a nota,
Onde se escuta enfim a música mais clara.

Oceano em nós, que nada afoga,
Trindade que nos salva e nos convoca.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo 2025