PORTUGAL NO TABULEIRO DA GUERRA OU NO PALCO DA LUSOFONIA?

No grande teatro da geopolítica europeia, Portugal descobriu uma vocação helénica que se concretiza no sacrifício em nome dos deuses do Norte. Com um orgulho que quase faz esquecer as listas de espera das urgências hospitalares, o Estado anunciou que atingimos finalmente a meta sagrada da NATO que é destinar 2% do nosso Produto Interno Bruto (PIB) para as despesas militares. Na atual cimeira da NATO em Ancara Portugal afirmou que o ano passado e de acordo com os padrões NATO, os 2,01 por cento do PIB, o equivalente a 6 mil milhões de euros foram atingidos (1). É um feito extraordinário para um país onde o maior perigo costeiro costuma ser a erosão das praias ou o preço do peixe fresco.

Enquanto os cofres públicos se abrem com uma fluidez invejável para enviar milhões em assistência militar para o leste europeu, o cidadão comum assiste a um espetáculo de ilusionismo orçamental. Para a Defesa e para os blindados que alimentam a forte e próspera indústria metalúrgica de Berlim ou Paris, há sempre linhas de crédito sem burocracia. Já para o Serviço Nacional de Saúde, para os reformados que tentam esticar pensões de miséria até ao final do mês, ou para os sem-abrigo que multiplicam as suas tendas pelas capitais lusas, a resposta estatal é a clássica melodia da austeridade e da “escassez de recursos”.

A engrenagem de Berlim e a nossa “austeridade atlântica”

Há uma ironia profunda na forma como o dinheiro dos impostos portugueses é canalizado para esta cruzada moderna. Sob o pretexto de proteger os valores democráticos, o erário público financia indiretamente um complexo industrial-militar que serve, prioritariamente, os grandes interesses do E3 (Portugal serve mais as agendas da França, Alemanha e Reino Unido e do complexo industrial-militar do que a proteção real do cidadão comum). É reconfortante saber que, enquanto um idoso em Portugal escolhe entre comprar medicamentos ou pagar o aquecimento, algures num escritório em Frankfurt se celebram os dividendos da indústria pesada!

Filosoficamente, a paz ocidental foi reduzida a um paradoxo romano: si vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara a guerra). O Estado português adoptou esta máxima com o fervor dos convertidos, esquecendo-se de que a verdadeira paz não se constrói empilhando munições, mas sim edificando dignidade social. Uma sociedade que investe mais voluntariamente na engenharia da destruição externa do que na saúde e no bem-estar interno padece de uma inversão crónica de valores. A segurança de uma nação mede-se pela robustez do seu tecido social e não pelo calibre dos seus obuses.

Da trincheira europeia ao abraço lusófono

Se o destino dos nossos impostos é expandir a nossa influência e garantir a estabilidade, por que motivo o Estado insiste em olhar para o mundo através da mira de uma espingarda apontada ao leste, em vez de olhar através da luneta da nossa própria história? Portugal possui uma plataforma diplomática, cultural e económica única que não necessita de tanques para se impor e que é a Lusofonia.

Em vez de subsidiar os interesses geoestratégicos da Europa Central, os recursos nacionais colheriam muito melhor proveito se fossem direcionados para empreendimentos de cooperação cultural, científica e económica dentro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Financiar infraestruturas de saúde partilhadas, investir na transição energética em parceria com Moçambique ou Angola, ou criar fundos de apoio social e de habitação que dignifiquem os povos que partilham a nossa língua seriam verdadeiros investimentos numa cultura de paz. Faz muito mais sentido construir pontes com quem partilha o nosso idioma do que cavar trincheiras para agradar a Berlim e a Bruxelas.

Trocar o fardamento cinzento da NATO pela diplomacia cultural do mar não é apenas uma escolha moral pois corresponde a uma urgência prática. Afinal, para um país plantado à beira-mar, faz muito mais sentido construir pontes de desenvolvimento com quem partilha o nosso idioma do que cavar trincheiras para sustentar o grande capital europeu. Resta saber se o Terreiro do Paço prefere continuar a ser o bom aluno de Berlim ou voltar a ser o coração do seu próprio mundo.

António da Cunha Duarte Just
Pegadas do tempo

(1) https://www.rtp.pt/noticias/mundo/cimeira-para-reafirmar-o-pilar-europeu-da-nato-aliados-reunem-se-em-ancara_n1751772

https://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/portugal-alcancou-2-do-pib-em-defesa-em-2025-diz-nuno-melo

O CATAVENTO DO MIRANTE + NA DANÇA DO SIM E DO NÃO

O CATAVENTO DO MIRANTE

Grita o mundo em altos brados,
Com certezas de metal,
Vão os egos inflamados
Em desfile triunfal.

Toda a gente tem razão,
Ninguém quer olhar para dentro;
Faz-se do moral brasão,
Quando a alma é só vento.

Gritam “paz” e batem palmas,
P’ra bancada ver e ouvir,
Mas esquecem que nas almas
É que o mundo vai sorrir.

Não suspires pelo ruído
Desta mesa de bilhar,
Onde o humano é perdido
Só p’ra a bola desviar.

Vem, abraça a imperfeição,
Que a verdade não tem dono;
Quem tem toda a razão,
Não tem direito ao sono!

A vida quer-se vivida,
Com sabor e com bom som,
Que a rir se cura a ferida
E o discernimento é bom.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

 

NA DANÇA DO SIM E DO NÃO

Vem o doutor da praça pública,
Com a cartilha bem guardada,
Cospe uma frase mui jurídica,
Mas a verdade está trancada.

Uns vão p’ra a esquerda, outros p’ra a direita,
Como bonecos num cordão,
Nesta cegueira tão estreita,
Cada um se julga com razão.

Guerra e fronteiras no tabuleiro,
Eles discutem em poltronas,
Mas fogem todos do nevoeiro,
Nas suas redomas madonas.

Ai, que cansaço ver o mundo
Dividido em “sim” ou “não”,
Quando o mistério mais profundo
Mora no fundo do coração!

Deixa o alarido no seu canto,
Que a vida é curta p’ra chorar,
Muda o suspiro num encanto,
Pois fomos feitos para amar.

Se a limitação nos define,
Seja o erro o nosso espelho;
Quem no bom humor não atine,
Vive choraminga e já velho!

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

 

A ENCENAÇÃO DO ESPÍRITO MASCULINO NA NOSSA MATRIZ ANTROPOLÓGICA

O rosto masculino da agressão: 94% da população reclusa

O rosto masculino da agressão revela-se de forma gritante nas estatísticas: os homens dominam as tabelas do abismo, representando 94% da população reclusa e concentrando os mais alarmantes índices de violência. Perante este cenário, impõe-se uma conclusão inadiável: precisamos de uma mudança de paradigma. Não se trata de substituir o masculino pelo feminino, mas de transcender a lógica vigente, rumo a um novo modelo, feminino-masculino, que reconheça a complementaridade como alicerce do desenvolvimento humano e social.

A coexistência harmoniosa entre a feminilidade e a masculinidade, tanto nos homens como nas mulheres e na própria organização da sociedade, é hoje inviabilizada por uma matriz profundamente enraizada que molda o nosso pensamento e a nossa existência. Esta matriz, de feição exclusivamente masculina, confinou o elemento feminino aos domínios do natural e do religioso, despojando-o do seu legítimo lugar na esfera pública e intelectual. Paralelamente, ao impor uma mentalidade materialista e práticas orientadas unicamente para o progresso funcional, a eficiência e o lucro, esta estrutura reprime a dimensão espiritual e emocional do ser humano (vive-se no âmbito das teorias – masculinidade – sem encarnação em virtudes). As mulheres, para ocuparem espaços de decisão, são muitas vezes coagidas a atuar contra o seu próprio princípio feminino, integrando-se apenas ao nível do funcionamento mecânico da sociedade, um mecanismo cujo leme permanece firmemente nas mãos do masculino. O homem age, assim, quase exclusivamente sobre os sintomas da desumanização, mas nunca sobre as causas profundas que alimentam a brutalidade, a beligerância e a indiferença perante o sofrimento.

Observa-se, por todo o lado, uma escalada preocupante da agressão, quer nas instituições quer nas relações interpessoais. Numa era em que o princípio masculino é exacerbado por belicistas, por potentados sedentos de poder e por personalidades controladoras, a teimosia unilateral é não apenas tolerada, mas ativamente incentivada. Os números, particularmente os que emergem das estatísticas alemãs, são inequívocos: a agressão tem rosto masculino. Como documenta Boris von Hessen na sua obra “O que os homens custam”, os homens são responsáveis pelo dobro dos acidentes rodoviários, pela maioria esmagadora dos crimes e por 94% da população prisional. São eles os protagonistas de 75% das mortes relacionadas com o álcool e de mais de 80% dos casos de violência doméstica. Para além do sofrimento humano incalculável, estes dados traduzem-se em custos sociais astronómicos, que ascendem a mais de 60 mil milhões de euros anuais. Estamos perante uma realidade que clama por uma reflexão radical.

Face a esta realidade sombria e à aptidão bélica de uma sociedade que privilegia uma cultura de guerra em detrimento de uma cultura de paz, impõe-se uma pergunta incómoda e urgente: o que é que correu mal connosco, homens? Porque razão nos agarramos, com tamanha obstinação, a esta matriz masculina, sem a questionar, e nos apegamos a papéis que sistematicamente recompensam a dureza, a dominância e a exagerada propensão para o risco? Se não rompermos com este padrão arcaico, todas as estratégias de prevenção e as reformas institucionais se tornarão letra morta, servindo apenas para paliar os estragos ou, pior ainda, para consolidar e perpetuar a própria matriz que gera o problema.

Urge, por conseguinte, forjar uma nova compreensão, uma consciência renovada no âmbito da sociologia e da antropologia. Necessitamos de um modelo que integre, em plena igualdade, os princípios da feminilidade e da masculinidade na ordem do indivíduo e da sociedade, sem que um se sobreponha ao outro. A crise civilizacional que assola a Europa é, no fundo, a crise de uma ênfase tradicional excessiva no masculino, herdeira de um patriarcado que nos conduz, irremediavelmente, para o precipício. Para superar este atavismo, é imperativo reformar profundamente a antropologia vigente. Proponho, assim, uma nova abordagem, a que chamo antropoginelogia (ou antropoginaikologia), um modelo em que o masculino (Antropos) e o feminino (Gyne) sejam representados em pé de igualdade, como energias vivas, complementares e indissociáveis, que habitam e se expressam em cada homem e em cada mulher. Desta simbiose, emergirá um novo padrão de orientação ética e existencial, uma verdadeira logia do ser humano completo, capaz de reequilibrar o nosso destino coletivo e de devolver à vida a sua plenitude reflexiva e compassiva.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

Alguns artigos relativos ao tema:

Para além da matriz masculina: https://www.gentedeopiniao.com.br/opiniao/para-alem-da-matriz-masculina

Outros artigos: https://bomdia.lu/dia-da-mulher-vale-a-pena-lutar/

A necessária transição : https://antonio-justo.eu/?p=10828

Mulheres em sociedade: https://www.gentedeopiniao.com.br/opiniao/artigo/das-mulheres-na-sociedade-e-na-igreja-e-dos-usos-e-costumes-que-as-oprimem

O poder normativo: https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/actividade-politica-e-consciencia-1412458

Humanismo e ética: https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/humanismo-e-etica-para-a-construcao-de-uma-cultura-de-paz-global/

O dia internacional da mulher: https://antonio-justo.eu/?p=2206

Burca uma acusação ao patriarcado e ao homem: https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/a-burca-1227532

Was Männer Kosten: https://www.amazon.de/dp/3453606248?ref=cm_sw_r_ffobk_cso_wa_apan_dp_VVVAQ71QM0K2SSDPCZ1Z&social_share=cm_sw_r_ffobk_cso_wa_apan_dp_VVVAQ71QM0K2SSDPCZ1Z&bestFormat=true

 

O ECLIPSE DAS COISAS NUMA LINGUAGEM ALHEADORA DA EXPERIÊNCIA

Quem muda o vocabulário muda a própria forma de ser e de estar no mundo

Ao observarmos a evolução da linguagem nas sociedades europeias, sobretudo a partir das últimas décadas do século XX, torna-se evidente que muitas palavras perderam parte da sua densidade semântica e da sua capacidade de remeter diretamente para a experiência concreta da realidade. Não se trata apenas da natural evolução das línguas, um fenómeno inevitável e estudado pela Linguística, mas também da crescente tendência para simplificar, uniformizar e abstrair o vocabulário utilizado no ensino, na comunicação pública e nos meios digitais. Este fenómeno além de plurifacetado revela-se atrevido ao querer reduzir a gramática a uma questão de discussão de emancipação, de género ou de wokismo cego.

Um exemplo que parece inocente e foi efetivado em Portugal  é a alteração da terminologia gramatical que levou à substituição da designação tradicional “substantivo” pela categoria mais genérica de “nome” em diversos documentos pedagógicos. A alteração começou com a introdução da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), aprovada pela Portaria n.º 1488/2004, de 24 de dezembro, consolidada depois no Dicionário Terminológico. Embora esta mudança tenha sido justificada por razões de simplificação didática e para aproximar a terminologia escolar aos modelos linguísticos contemporâneos, ela revela-se como demasiadamente “inocente” ao seguir agendas globais sem ter em consideração a preocupação expressa por George Orwell!  Contudo ela suscita uma questão mais ampla: até que ponto a simplificação da linguagem pode contribuir para um enfraquecimento da relação entre as palavras e a realidade que elas designam? E até que ponto com a linguagem se muda o substrato do humano, ao termos em conta a preocupação expressa por George Orwell?

As palavras não são meros sinais convencionais. Desde Aristóteles, para quem o ser humano é um animal dotado de logos, até Martin Heidegger, que afirmava que “a linguagem é a casa do Ser”, numerosos pensadores entenderam que é através da linguagem que vivemos e habitamos o mundo. Quando uma palavra conserva a sua ligação à experiência concreta, ela transporta memória, cultura e formas de perceber a realidade. Quando essa ligação se enfraquece, corre-se o risco de substituir a riqueza da experiência por categorias cada vez mais abstratas.

É precisamente este perigo que George Orwell denunciou no célebre ensaio Politics and the English Language. A degradação da linguagem não é apenas um sintoma porque pode ser usado como instrumento de empobrecimento do pensamento. Como escreveu: “Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento.” A simplificação excessiva ou a manipulação das palavras acaba por limitar a própria capacidade de pensar criticamente.

Este processo favorece um progressivo desenraizamento da pessoa. Simone Weil também adverte para a perda da ligação às coisas concretas ao falar de enraizamento (L’Enracinement, 1949), ao escrever que “o enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana”.  O indivíduo deixa de encontrar na linguagem uma mediação entre si e o mundo vivido para se mover predominantemente no universo das ideias abstratas, dos conceitos funcionais e das classificações convencionais. A realidade ou objeto torna-se menos algo que se experimenta e mais algo que se interpreta através de sistemas previamente construídos.

Esta tendência é reforçada pela crescente mediação tecnológica. As crianças que descobrem o mundo sobretudo através dos ecrãs adquirem vastas competências digitais, mas veem reduzidas as oportunidades de contacto direto com a realidade física: tocar, cheirar, explorar, subir, cair, observar lentamente os ritmos da natureza. Diversos estudos em Psicologia do Desenvolvimento confirmam que a experiência sensório-motora constitui uma base essencial da aprendizagem.

Já nos anos 80, Neil Postman advertia que toda a tecnologia altera a ecologia da cultura. Em Amusing Ourselves to Death mostrou como uma sociedade dominada pelos meios audiovisuais tende a privilegiar o entretenimento sobre a reflexão, fazendo com que a imagem substitua progressivamente a experiência e a argumentação. O problema não reside na tecnologia em si, mas na forma como esta redefine silenciosamente os nossos hábitos de pensar.

Por seu lado, Marshall McLuhan sintetizou esta transformação na célebre fórmula: “O meio é a mensagem.” O meio através do qual conhecemos o mundo não é neutro porque modifica a própria estrutura da perceção e da consciência. Quando a experiência passa a ser predominantemente mediada pelos ecrãs, também o modo de compreender a realidade acaba por se transformar.

Poder-se-ia dizer, metaforicamente, que os antigos caminhos vivos, ladeados pela diversidade da vegetação e pela imprevisibilidade da natureza, vão sendo substituídos pelo asfalto das vias cuidadosamente projetadas. Nestas estradas prevalecem sinais convencionais definidos por arquitetos dos sistemas sociais, económicos e tecnológicos. Pouco a pouco, habituamo-nos mais a interpretar símbolos do que a observar diretamente as coisas. Deste modo o acesso à vida “real” decai ao construir a máscara da realidade já não a partir da experiência e da observação do objecto para se tornar na máscara da máscara.

Forma-se assim aquilo que poderíamos designar por um “eclipse das coisas”. As realidades concretas cedem lugar às suas representações; a experiência é substituída pela mediação; o objeto pela imagem; a presença pelo fluxo contínuo de informação. Ora, quando as coisas desaparecem do horizonte da experiência, também a memória tende a enfraquecer-se, pois a memória humana alimenta-se da vivência concreta, dos lugares, dos gestos e dos encontros.

Esta preocupação que aqui apresento aproxima-se da reflexão de Hannah Arendt sobre a perda do “mundo comum” e que muito me impressionou aquando de estudante. Em The Human Condition, Arendt lembra que a realidade humana nasce de um mundo partilhado de coisas, obras e experiências concretas. Quando esse mundo é substituído por construções abstratas ou por realidades inteiramente mediadas, enfraquecem-se igualmente os vínculos que sustentam a vida política, a memória histórica e a responsabilidade comum.

As consequências deste fenómeno ultrapassam, por isso, o domínio da linguagem. Afetam a própria compreensão do ser humano e da sociedade. Uma transformação profunda da relação entre linguagem, experiência e memória conduz inevitavelmente ao aparecimento de uma nova antropologia e de uma nova sociologia, nas quais a identidade pessoal se constrói cada vez mais através das redes simbólicas, dos algoritmos e das mediações digitais, e cada vez menos através da experiência direta da realidade vivida e deste modo devasta certamente o humanismo.

O que observamos no mundo que nos circunda é preocupante contudo, importa evitar leituras simplistas. A abstração constitui igualmente uma das grandes conquistas da inteligência humana e permitiu o extraordinário desenvolvimento das ciências, da filosofia e da técnica. O desafio consiste em preservar o equilíbrio entre a capacidade de abstrair e a permanência da ligação às coisas concretas. Uma linguagem que perde completamente as suas raízes na experiência empobrece o pensamento e uma experiência sem linguagem perde a possibilidade de ser compreendida e transmitida.

Talvez uma das tarefas culturais mais importantes do nosso tempo seja precisamente restaurar esse equilíbrio: devolver às palavras a sua espessura humana e reencontrar, através delas, a presença das coisas, da memória e da realidade que lhes dá sentido. Porque, em última análise, não é apenas o vocabulário que muda, o que muda é a própria forma de existir e de estar no mundo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

LABORATÓRIO DO CAOS

Na oficina da loucura, se sei o que sei,
é porque o chão me dói nos pés.

Fabricam-se as febres em série,
com prazos e gráficos de venda;
a dor vem em cápsula, a miséria
tem selo de marca e contenda.
“Toma esta vacina, que é nova!
Esquece o que o velho sabia:
que o suor é que cura, que a prova
da vida é sujar-se de dia.”

Trocaram o nome das coisas:
à coragem chamaram “risco”,
à virtude, “cheiro de rosas”,
mas rosas de um cesto turístico.
A criança, de olhar na trama,
já não sabe o que o vento sussurra;
perdeu a palavra que a chama
e a imagem que aterra e segura.

A nuvem é loja de engodos;
a chuva, produto embalado.
E andamos, sisudos e lixados,
de guarda-chuva ao lado,
sem ver que o Sol, esse é real,
queima a pele, a mentira, o sinal.

Mas a indústria do medo prefere
que o vírus venha primeiro,
para que a cura que oferece
nos torne um rebanho inteiro
de almas sem norte, sem tino,
cretinos de rosto limpo,
que ignoram que o seu destino
é mais que todo o guião impresso.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo