NUM MUNDO ONDE A VONTADE FABRICA E A IMAGINAÇÃO GOVERNA

Entre a simulação da realidade e a erosão da verdade

Recentemente, o programa televisivo público ZDF-heute journal alemão, custeado pelos cidadãos, exibiu vídeos gerados por inteligência artificial, retratando operações brutais da agência ICE nos Estados Unidos contra migrantes. O detalhe mais inquietante não foi a existência dessas imagens, mas o facto de terem sido transmitidas sem serem identificadas como artificiais, como se a própria ilusão pudesse vestir a máscara do acontecimento.

O presidente regional da Renânia-Palatinado exigiu “máxima transparência”. Mas este episódio não é um acidente isolado, porque usado tanto nos media tradicionais como nas redes sociais. É antes de tudo um sintoma, uma rachadura visível na estrutura do nosso tempo que mostra apenas a ponta visível de um icebergue muito mais vasto e que atravessa a Europa considerada séria.

Havia um tempo em que as imagens apenas mostravam, hoje, porém as imagens muitas vezes já não mostram mas substituem e encobrem.

O mundo moderno entrou num território estranho, onde o real se dissolve lentamente na espuma de uma fantasia tecnicamente produzida. Vivemos entre dois pólos, ou seja, o da realidade vivida e o da realidade criada, como quem caminha sobre uma ponte suspensa entre a experiência e a invenção.

A simulação como novo mundo
O que foi mostrado não foi o que aconteceu. Foi uma simulação. Uma fantasia gerada por uma máquina ao serviço de interesses movidos pela vontade humana.

A técnica, que deveria ser instrumento, torna-se demiurgo: cria realidades paralelas, molda emoções, orienta indignações. Já não se trata de informar, mas de fabricar percepções.

A imagem deixa de ser janela e torna-se espelho deformante. E o espectador, sem o saber, começa a habitar um mundo de sombras cuidadosamente desenhadas.

O pós-factual e a moral tardia
Chegámos ao tempo em que a pergunta decisiva já não é se é verdade, mas se serve.

Num mundo pós-factual, a moral surge depois da utilidade. O que conta é que a história transmitida seja “adequada”, que se ajuste ao clima ideológico e aos interesses dominantes, económicos, políticos ou institucionais.  O verdadeiro e o falso perdem peso porque a mensagem se torna mais importante do que a realidade. A moral vem depois. A realidade torna-se secundária diante da mensagem. E o ser humano, privado do chão firme dos factos, flutua num relativismo onde tudo pode ser ajustado, recortado, encenado no sentido de servir a narrativa, o interesse e a vontade institucional.

Critica-se a manipulação em regimes distantes, mas tolera-se uma manipulação subtil em casa, normalizando-se assim uma forma de fabricação da realidade em democracias mediáticas que se apresentam com um rosto civilizado e uma linguagem correcta.

A tentação universal de distorcer o real
É certo que cada indivíduo carrega dentro de si a tentação de construir um mundo à medida das suas convicções. O que não se encaixa é ignorado e o que incomoda é distorcido.

Quando essa tentação se instala nos meios que deveriam servir a verdade pública, o perigo torna-se estrutural.

As estações públicas, os grandes canais da informação, parecem por vezes ajustar as velas ao vento das forças gerentes, para que o barco da narrativa não vire. A verdade factual, incómoda, é lançada ao mar para aligeirar a viagem e assim ajustar o relato ao “politicamente correto” dominante evitando assim o peso incómodo da verdade factual.

A destruição da confiança e o vazio interior
Assim se destrói lentamente a confiança e com ela, destrói-se a comunidade.

Quando já nada é seguro, quando tudo pode ser simulação, a pessoa perde orientação. E uma sociedade sem verdade partilhada torna-se um conjunto de ilhas desconfiadas, presas entre rebeldia e desespero.

Paradoxalmente, enquanto se afirma o globalismo económico, dissolve-se a identidade cultural, desfazem-se colunas antigas, desintegram-se estruturas interiores transmissoras da identidade necessária. O ser humano fica suspenso num mundo sem raízes, sem realismo, sem consciência da sua própria limitação e a consequência é uma sensação de guerra difusa entre cidadãos e instituições.

O que não aparece no ecrã não existe
A nova metafísica do nosso tempo é simples e brutal e resume-se nisto: o que não passa no ecrã, nem no enquadramento mediático, não existe e o que passa no ecrã, existe, mesmo que nunca tenha acontecido.

A realidade torna-se aquilo que é exibido e o invisível desaparece, é lançado ao mar como se nunca tivesse sido para que a narrativa criada navegue sem turbulência.

Entre lucidez e abismo
A tarefa do cidadão moderno não é cair na revolta cega, nem no desespero estéril. A sua tarefa é outra, muito mais difícil. Para tal é preciso empregar o crivo mais fino da inteligência, distinguir entre realidade vivida e realidade criada e reconhecer que realidade vivida e realidade criada coexistem e que a liberdade interior depende dessa distinção.

Pelo que se observa depois das guerras mundiais e em especial depois da queda da União Soviética, o mundo futuro poderá não ser dominado por quem controla as armas, mas por quem controla as imagens.

Quando a imaginação técnica substitui a verdade, resta ao homem a coragem silenciosa de mesmo assim procurar o real.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

O TEMPO DE DESINTOXICAÇÃO DE CORPO-MENTE E ALMA

A caminho de nós mesmos

Somos feitos da mistura de céu e terra. Caminhamos sobre o solo instável do tempo e do espaço, levando connosco aquilo que fomos e aquilo que ainda não somos, na saudade de algo já experimentado.

Chamamos futuro à direção que nos atrai. Mas o futuro não existe senão como perspetiva. O tempo é um fio invisível que não corre fora da vida. O tempo é uma propriedade do existir, e só se manifesta onde há corpo, relação, presença. O tempo acontece no espaço da experiência.

A Quaresma surge, assim, como um tempo de dádiva. Um tempo oferecido. Um intervalo sagrado no calendário da pressa, não como coisa a gerir, mas como dádiva a habitar.

Vivemos entre o amanhecer e o pôr do sol. Entre o nascer e o declinar da luz. E, ao longo desse ciclo quotidiano, acendemos pequenas claridades no caminho, não para brilhar, mas para ver melhor o caminho. A verdadeira grandeza raramente faz ruído porque é discreta e orienta por dentro.

No entanto, o mundo em que vivemos parece dominado pelo estrondo. Em público, o tom é de combate permanente. As palavras tornaram-se armas, e a autodefesa verbal ocupa o lugar do diálogo. A comunicação social move-se muitas vezes ao ritmo da catástrofe e da indignação, como um coração acelerado que já não sabe repousar; faz lembrar ondas rítmicas que se repetem e nos arrastam..

Certamente por isso será urgente reaprender o silêncio. Talvez seja tempo de um desarmamento verbal consciente a nível individual e público. Doutro modo muitos fecham-se porque por haver coisas que ultrapassam o seu raciocínio e experiência e já terem demasiados quebra-cabeças têm de se fechar para não sofrer, cientes de que o que não se sabe não existe. A abstinência de notícias e de Telejornal durante um certo tempo certamente daria oportunidade a ter sensações salutares.

Durante quarenta dias, poderíamos exercitar um jejum da agressividade, da opinião imediata, da reação instintiva. Um jejum da linguagem inflamada, não como fuga do mundo, mas como resistência à barbárie próxima e distante, na política como nas relações quotidianas.

A necessidade humana de fazer pausa

Há tantos caminhos para a abstinência como são os das pessoas. Desde sempre, as culturas e as religiões inscreveram no calendário pausas obrigatórias. Interrupções no fluxo da vida produtiva (o conhecido sabat). Esses tempos de renúncia não empobrecem, pelo contrário, abrem a mente e ajudam-nos a reaprender o essencial e atingirmos a autoconsciência.

O ser humano precisa de rituais e festas para se aventurar, para sair de si e regressar transformado. Sem esses marcos, a vida torna-se um movimento repetitivo, como alguém que tenta nadar sozinho numa piscina vazia fazendo um esforço sem horizonte. O Carnaval, paradoxalmente, também anuncia isso: depois do excesso, nasce a necessidade de recolhimento.

Os cristãos conhecem quarenta dias de jejum. Os muçulmanos vivem quatro semanas de Ramadão. Outros seguem apenas o ritmo imposto pelo calendário civil e muitos outros criam as suas próprias pausas: jejuns pessoais, silêncios escolhidos, retiradas breves do excesso para auto-desintoxicação .

Para uns, trata-se de bem-estar físico e para outros, do cuidado integral, corpo, mente e alma no seguimento da velha fórmula de Junius Juvenal que no século I d.C.  recomendava “mente sã em corpo são”, um aviso sempre atual, pois não há nada mais importante do que ter uma mente equilibrada e um corpo saudável.

Há quem abdique de álcool ou de café e há quem abdique do ruído, e crie um tempo de silêncio no seu dia.

De facto, a vida não se reduz à sucessão de tendências, estímulos e notícias de última hora. Viver exige prática. Exige também espaço para errar, para experimentar ideias improváveis, para finalmente reconhecermos que ainda temos muito a aprender com a própria vida.

O corpo também precisa de rejeitar

O corpo não está apenas cansado, encontra-se por vezes saturado porque demasiadamente ocupado na digestão do consumo diário.

Saturado de consumo, de estímulos, de digestões contínuas, não só alimentares, mas emocionais e simbólicas. Também o corpo precisa de rejeição, de limpeza, de intervalo.

Jejuar é permitir que algo saia, é criar espaço. Trata-se de uma desintoxicação que não é apenas física, mas existencial. Um gesto de disciplina e autocontrolo que não visa a perfeição, mas o reequilíbrio.

Na tradição cristã, a Quaresma é sobretudo um tempo de autorreflexão. O ritual, quando vivido conscientemente, transforma-se em prática interior. E aquilo que parecia apenas repetição torna-se caminho.

Antes da Páscoa, experimenta-se o quotidiano de outra forma. A atenção torna-se mais fina. O olhar mais sensível. A consciência social mais desperta.

As comunidades religiosas recordam-nos que a rudeza não é inevitável, nem na linguagem, nem na política, nem nas relações humanas.

Quem se atreve a descer ao interior, a mergulhar no seu interior e a confrontar o próprio comportamento, experimenta o Todo, o que chamamos Deus, sentido ou mistério. E dessa experiência nasce algo que se expressa e transmite em abertura, bondade, atenção plena, compaixão.

A mudança deixa então de ser abstrata e entra na vida de forma a sentirmo-nos reaalizados.

Entre o limite e a liberdade

Durante este tempo, vive-se entre a intenção e a abstinência. E é precisamente o limite que torna tudo mais concreto.

Caminhar pelo Jardim do Getsémani é aprender a olhar o fracasso sem desespero e a reconhecer a vulnerabilidade como parte da condição humana, pois também a derrota faz parte da travessia humana. Na realidade há que aceitar que nem toda a fidelidade é triunfante.

Então pode viver-se com mais consciência e aprender-se a lidar melhor consigo próprio e com os outros.

O jejum revela-se, assim, uma prática de responsabilidade por si e pelo mundo. É uma verdadeira pedagogia da liberdade.

O que inspira profundamente no cristianismo é o reconhecimento da soberania do indivíduo, não isolado, mas em tensão criadora com a comunidade. A fé não anula a singularidade; pelo contrário apenas a chama à maturidade.

Jejuar é, por isso, um gesto pessoal e comunitário. Um tempo de reflexão partilhada. Um espaço onde o “eu” e o “tu” não se fecham sobre si mesmos, mas se abrem a uma terceira realidade que se expressa naquilo que liga, cria horizonte e dá sentido à vida em comum.

Um tempo para regressar

A Quaresma, no fundo, não é fuga nem moralismo, mas sim um tempo para regressar a si mesmo, ao todo integral, pois é tempo de regresso ao essencial, ao corpo que sente, à mente que pensa e à alma que escuta.

Durante ela desintoxica-se o corpo, desanuvia-se a mente e purifica-se a alma, para caminhar, mais levemente, na senda de nós mesmos e do nós, possivelmente na sombra de Deus.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

REFLEXÃO SOBRE INFORMAÇÃO-GUERRA E HIPOCRISIA

A guerra é suja e suja quem se envolve nela seja directamete seja a nível de discurso! É com profunda tristeza que verifico como os média oficiais na Europa estão mais virados para a formatação da opinião pública do que para a criação de espíritos livres e críticos. A informação é confecionada de maneira a que o público desenvolva uma mente preconceituosa, incapaz de ver a realidade para além dos rótulos pré-estabelecidos, fixando-a apenas em categorias emocionais como se os povos não fossem capazes de mais.

A Estratégia da “Trégua Limitada”

Observemos o momento atual: fala-se agora em conversações para uma “trégua limitada” de paz, em vez de se procurar um verdadeiro acordo de paz duradouro. Quando Putin recusa, a narrativa dominante é simples afirmar que “o mau do Putin não quer”. Mas será esta a leitura correta? Não. Ele não quer porque percebe que uma trégua limitada, neste contexto, apenas serviria para dar à UE e ao Reino Unido tempo e espaço para se rearmarem e se prepararem para uma guerra mais efetiva no período pós trégua.

Bruxelas e Londres mantêm o mesmo espírito de autojustificação moral: a crença inabalável de que são os “bons e honestos” e o outro lado é invariavelmente o agressor. Esta tática e postura impedem qualquer progresso real e tem sido fundamentada sistematicamente numa narrativa pós-fática.

O Interesse Camuflado da UE na Ucrânia

A verdade, que raramente é contada, é que a União Europeia sempre teve interesse em apossar-se da Ucrânia, seja economicamente, seja geopoliticamente. E tem feito tudo para que não se chegue a acordos sérios que possam estabilizar a região sem a sua hegemonia. O mais lamentável de tudo é que, devido a uma estratégia contínua de informação pós-fática, onde os factos são moldados para servir narrativas, o povo europeu foi de tal maneira emocionalizado que em geral perdeu a capacidade de discernimento.

Hoje, o cidadão comum pensa, de forma simplista, que o mal está do lado da Rússia e o bem do lado da Europa. No entanto, se formos ver as coisas com isenção, a Europa tem vivido melhor do que outros povos não apenas pelo seu trabalho e engenho, mas também e em grande medida, devido à sua hipocrisia nas relações internacionais.

A Hipocrisia e a Miopia coletiva

Há uma máxima que se aplica bem a esta realidade que assenta na lógica de certas ideologias dominantes, mesmo a mentira, se servir os propósitos do poder, passa a ser tratada como verdade (islão). A Europa, que tantas vezes critica o outro, adota esta prática de forma sistemática nas suas relações externas.

Sei que, ao expor esta visão, serei apelidado de ingénuo ou de “putinista” por aqueles que estão formatados numa única versão dos factos. Quanto a mim estou consciente da brutalidade russa, ocidental e ucraniana não podendo uma justificar a outra. Mas sinto que é um dever de consciência chamar a atenção para a necessidade de maior independência e dignidade de opinião. Não se trata de defender um lado contra o outro, mas sim de recusar a manipulação para que cada cidadão baseado em factos e não em interpretação unilateral deles possa formar uma opinião qualificada e não reduzida a uma gota da enxurrada.

A Necessidade de Memória Histórica

Para percebermos os interesses camuflados do Ocidente, bastaria recordar a guerra na antiga Jugoslávia. Ali, países da NATO intervieram com bombardeamentos que violaram tratados internacionais e o direito internacional, tudo em nome de uma intervenção “humanitária” que, na prática, serviu para reconfigurar a região de acordo com os interesses geopolíticos de quem bombardeava.

Acompanhei atentamente o desenvolvimento das relações internacionais antes da Reunificação da Alemanha. Cheguei a visitar a região como integrante de uma delegação de cidades-gémeas da RDA e da RFA, verificando o interesse acautelado de ambos os lados, numa altura em que a relação era entre o comunismo e o capitalismo.

Lembro-me bem da conferência de Putin  no Bundestag, que ilustra essa complexidade omitida e da vontade russa de ser integrada no bloco ocidental.

Com a queda da União Soviética, a União Europeia e os Estados Unidos agiram de forma a sabotar a Ucrânia.

Em vez de buscarem acordos diplomáticos, os EUA e a EU tinham como objetivo a expansão da NATO para Leste (através da “incardinação” da Ucrânia).

O comportamento foi sempre arrogante, a ponto de o Reino Unido e a UE terem sabotado os Acordos de Minsk e as tentativas de negociação na Turquia.

Sei que, numa lógica dominada por interesses ferozes e por defensores acérrimos desses mesmos interesses, tudo o que observei e aqui descrevo é imediatamente rotulado como “apologia da Rússia” mas respeito porque estou consciente de que cada um de nós, na sua opinião se encontra refém da informação que tem. Não defendo a Rússia nem a NATO porque sei que todos jogam com a miséria e a brutalidade na defesa de interesses. É um apelo ao pensamento crítico, à recusa da manipulação e à redescoberta de uma informação que sirva a verdade e não os interesses mesquinhos de quem nos governa e de oligarquias globais.

Após observar tudo isto, sou forçado a concluir que já não existe verdade nem interesse genuíno por ela. O que impera é a baixeza e os interesses mesquinhos, independentemente das barbaridades cometidas por todos os lados envolvidos: Rússia, EUA, União Europeia e NATO. No meio dos interesses envolvidos não há hipótese de se sair da situação de maneira honrada. Estamos todos enlameados e salpicados com sangue alheio!

Manipulação Pós-Fática e a Morte do Pensamento Crítico

A informação pós-fática é hoje tão contínua e envolvente que os espectadores ficam sujeitos a um condicionamento permanente. O resultado é o reinado absoluto do preconceito: a certeza de que “o nosso lado” tem sempre razão, sem que reste qualquer espaço para a análise ou a reflexão.

Quando ouvimos a opinião da grande maioria, não estamos perante pareceres próprios, mas sim opiniões meramente apropriadas, interiorizadas sem consciência do real. As pessoas reagem emocionalmente, como que a vomitar aquilo que engoliram sem digerir, repetindo slogans e narrativas pré-fabricadas como se fossem convicções profundas.

Já não há pensamento, há apenas regurgitação. Já não há debate, há apenas afirmação automática de verdades inconscientemente impostas. Esta é a tragédia da nossa era: uma sociedade que se julga informada, mas que apenas repete, como um eco, aquilo que lhe foi soprado.

Quem quer proteger a Europa tem de pôr fim a esta política de escalada e apostar finalmente na diplomacia bem-intencionada, na proteção das fronteiras e na responsabilidade nacional.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo

 

AVALIAÇÃO DO RESULTADO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS EM PORTUGAL 2026  

António Seguro vence Presidenciais e PS recupera Fôlego – Ventura cresce e fragmenta o Bipartidarismo

A segunda volta das eleições presidenciais de 2026, realizada no passado domingo, confirmou a vitória de António Seguro com uma expressiva maioria de 66,81% dos votos expressos. O candidato apoiado pelas principais forças políticas e pela esmagadora maioria dos media alcançou 3.482.481 votos, contra 1.729.371 do adversário André Ventura (33,18%).

Apesar do resultado folgado, os dados da participação eleitoral trazem sinais inquietantes para o sistema partidário português. A abstenção fixou-se nos 49,91% e revelou-se como o valor mais elevado de sempre numa segunda volta de presidenciais. Dos 10.951.081 eleitores inscritos, 5.466.212 não compareceram às urnas.

O “Silêncio ruidoso” de quem votou contra ambos

Entre os 5.484.869 votantes, 271.520 eleitores (4,95% do total) optaram por não escolher nenhum dos dois finalistas. Foram registados 97.724 votos nulos (1,78%) e 173.823 votos em branco (3,17%). Os números traduzem aquilo a que se poderia chamar de “terceira via do silêncio ruidoso”, ou seja, um protesto activo de quem foi às urnas para rejeitar ambas as candidaturas.

Ventura rompe o Sistema bipolar partidário e consolida Espaço próprio

Candidato único na segunda volta, André Ventura conseguiu mobilizar mais de 1,7 milhões de eleitores, o que representa um crescimento significativo face aos resultados do CHEGA nas últimas legislativas. O feito repõe a geometria do sistema partidário português: PS, CHEGA e PSD que se posicionam agora como as três forças com maior expressão eleitoral no país.

Para Ventura, o resultado representa a rutura definitiva com o tradicional duo-partidarismo. Apesar da derrota, a sua votação expressiva valida a estratégia de afirmação autónoma e consolida-o como líder de um polo político com capacidade de influenciar o equilíbrio de forças nos próximos ciclos eleitorais.

O “Balão de Oxigénio” de Seguro e a Armadilha da Governação

A vitória de António Seguro é lida internamente como “o balão de oxigénio de que o PS precisava”, num momento de desgaste partidário e de indefinição estratégica. No entanto, o novo Presidente da República encontra-se numa posição delicada. Eleito com o apoio de todo o arco da governação e dos grandes grupos de comunicação social, Seguro enfrenta agora a difícil equação entre dar continuidade ao status quo e responder à evidente necessidade de renovação política.

A ambivalência promete marcar o seu mandato. Se a vitória expressiva lhe confere legitimidade, o contexto que a rodeia, abstenção recorde, divisionismo partidário e uma fatia significativa de eleitores a recusar os dois campos, mostra que o descontentamento não foi desarmado, sendo apenas transferido.

A Ausência de Metade do País é um Pesadelo que não passa

O dado mais estrutural da noite eleitoral é, porém, a abstenção. Cinco milhões e meio de portugueses ficaram em casa. É o maior acto de questionamento silencioso ao regime democrático português desde 1974. O resultado deveria causar pesadelo ao sistema partidário e à forma como as elites, especialmente os Media, conduzem o povo.

Mais do que a vitória de um ou de outro, foi a ausência coletiva que deu a verdadeira dimensão do descontentamento. E o problema não promete ficar por estas duas voltas porque é sistémico.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

VIOLÊNCIA CONTRA PROFISSIONAIS DE SAÚDE ATINGE NÍVEIS ALARMANTES NA ALEMANHA

A violência física e verbal contra médicos e enfermeiros está a aumentar de forma preocupante na Alemanha. De acordo com um recente inquérito do Jornal Médico Alemão, dois terços dos médicos inquiridos reportaram já ter sido vítimas ou assistido a violência física ou verbal, no local de trabalho. Os episódios são particularmente frequentes em serviços de urgência e consultórios, tornando-se um risco ocupacional crescente. A crise no sistema de saúde e degradação do tecido social são apontadas como causas.

Especialistas vinculam este surto de agressividade a frustrações profundas no sistema de saúde. Pacientes enfrentam dificuldades para marcar consultas, seja com médicos gerais ou especialistas como ortopedistas e cardiologistas, sendo a situação mais crítica nas urgências. A percepção de que utentes particulares têm acesso facilitado agrava a sensação de desigualdade e desamparo entre a população geral.

O problema, no entanto, parece refletir uma erosão mais ampla do respeito na sociedade. Num país que faz propaganda da guerra, procurando tornar pessoas ‘aptas para a guerra’, o aumento significativo da disponibilidade para usar violência é uma consequência visível. O clima de agressão aumenta especialmente em relação a empregados do serviço público. O assassinato de um revisor de comboios perto de Kaiserslautern é um exemplo extremo desta tendência.

A mentalidade do “é meu direito”, aliada a uma crescente impaciência e a uma resistência diminuída em procurar ajuda de forma civilizada, está a colocar em risco os profissionais na linha da frente. Numa sociedade em que as pessoas são vistas mais como objetos funcionais, o respeito diminui e a violência aumenta, também como efeitos negativos de certas políticas se fazem sentir na base da sociedade.

A combinação fatal de um sistema de saúde sob pressão, com longas esperas e escassez de profissionais e um clima social onde a coesão se degrada, está a criar um ambiente perigoso para quem trabalha no setor e em outros sectores públicos. As associações médicas alertam para a necessidade urgente de medidas que protejam os seus profissionais e que ataquem as causas de fundo desta crise, que é tanto de saúde pública como social.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo