ENTRE SIMBOLOGIA E REALIDADE NA VERDADE DO ENTREMEIO

Toda a linguagem é símbolo. Por ser puramente simbólica, há um abismo interpretativo entre o emitir e o receber da mensagem. O conceito mental gerado prova que o significado não reflete o real, mas reconstrói a realidade de forma subjetiva.
Abre-se assim espaço para debates que, por vezes, se perdem na emoção, fruto do desconhecimento da própria essência da linguagem.
Para que as palavras não se tornem trincheiras, há que ler e ouvir o outro sob múltiplas perspetivas. O humor é o antídoto que evita que o ego leve a sua interpretação tão a sério a ponto de se querer definir contra o outro.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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ORAÇÃO

Orar é agradecer, apesar de tudo.
Nos tempos difíceis que vivemos, marcados por ameaças de guerras, a nossa linguagem corre o risco de se brutalizar, servindo de prenúncio para ações violentas.
No discurso social e no trato diário, a palavra muitas vezes fere e a ação arrasa. Contudo, enquanto na guerra a linguagem se contrai num grito, na oração ela dilata-se num silêncio profundo, onde o ser humano e o divino se encontram sem as prisões dos conceitos. Este silêncio não significa ausência de som, mas sim a plenitude da escuta que bate ao ritmo do coração e nos serve de base firme contra os ventos das circunstâncias e de pomada que cura as feridas da alma.
Inspirados por São Domingos, que se comemora hoje, aprendemos a transição vital de “falar sobre Deus” para “falar com Deus”. Esse passo exige desistir da posse mental e das ideologias para entrar na verdadeira relação do encontro. Falar com Deus é uma entrega que envolve todo o nosso ser, inclusive o corpo, seja ao estender os braços em cruz, ao erguê-los ao céu, ao juntarmos as mãos… Ao libertar os músculos e alongar a respiração, desocupamos a mente e sentimos o calor do simples acto de estar na presença divina. O divino revela-se, assim, como o nosso verdadeiro lar, um ponto de apoio íntimo onde estamos sempre em casa, protegidos das modas e das emoções passageiras.
A oração não nos isola da realidade; faz-nos sintonizar com o pulsar do mundo através de uma compaixão fraterna, onde o silêncio que nos une se converte em compromisso e inclusão.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
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MERCENÁRIOS NA UCRÂNIA E NA RÚSSIA E SEUS SALÁRIOS, ILUSÃO E A REALIDADE DA CARNE DE CANHÃO

Taxa 15% a 20% de Óbitos e Desaparecidos, 45% a 50% de Baixas médicas e  30% a 35% de Abandono

Os números mais recentes, divulgados pelas autoridades ucranianas em julho de 2026, pintam um retrato eloquente da dimensão internacional do conflito: 16 mil mercenários, oriundos de 72 países, combatem atualmente ao lado dos soldados de Kiev. Deste contingente heterogéneo, cerca de 40% têm origem na América Latina, num fluxo alimentado pela promessa de ganhos fáceis e pela precariedade económica dos seus países de origem. Do outro lado da linha da frente, fontes ucranianas estimam que mais de 18 mil combatentes estrangeiros engrossem as fileiras russas, com um recrutamento que se foca fortemente em cidadãos asiáticos, cubanos e africanos.

No que toca à remuneração, as disparidades salariais entre os dois exércitos são notórias, mas não isentas de armadilhas. Na Ucrânia, o salário base militar ronda os 700 dólares mensais, um valor que sofre um incremento exponencial para os soldados de infantaria destacados na linha da frente, onde a média mensal atinge os 7.000 dólares. Na Rússia, o vencimento base para quem combate pelo Ministério da Defesa é mais elevado à partida, situando-se entre os 2.100 e os 2.500 dólares mensais. Para efeito de comparação, enquanto um operário da construção civil aufere, em média, entre 670 a 810 euros brutos na Rússia, na Ucrânia esse valor ronda os modestos 460 a 480 euros brutos.

A ilusão de obter independência financeira rápida e escapar à crise laboral nos países de origem esbarra, porém, numa taxa de desgaste humano brutal, alimentada pelas táticas modernas de guerra de atrição. De uma forma geral, estes mercenários são tratados como mera carne de canhão, sendo maioritariamente integrados em unidades de assalto de vanguarda, onde a esperança de vida operacional se mede em semanas. As estatísticas internacionais, baseadas em dados oficiais, são aterradoras e revelam a verdadeira natureza do negócio: regista-se uma taxa de 45% a 50% de baixas médicas por ferimentos graves, com amputações ou traumas severos que inviabilizam a conclusão do contrato já antes do terceiro mês de destacamento.

A par disso, a taxa de abandono voluntário atinge os 30% a 35%, ao contrário dos soldados nativos, os estrangeiros beneficiam de cláusulas contratuais que permitem a rescisão unilateral. Cerca de um terço dos recrutas opta por quebrar o vínculo e regressar ao país de origem nas primeiras semanas, vencido pelo choque psicológico da guerra de desgaste e pela quebra de expetativas face à brutalidade da fronte. Por fim, a taxa de óbitos, desaparecidos ou capturados (estes últimos sem direito ao estatuto de prisioneiro de guerra) fixa-se nos 15% a 20%. Uma parte expressiva desta percentagem entra na categoria jurídica de “desaparecido em combate” devido à impossibilidade física de recuperar os corpos em zonas sob intenso fogo ou sob controlo russo.

O resultado deste caldeirão humano é uma Ucrânia cada vez mais dizimada, uma sociedade que se afoga num mar de soldados mutilados e psicologicamente devastados. Este cenário transforma-se num verdadeiro pesadelo para a Europa, que não hesitou em utilizar o território ucraniano como cavalo de Troia para a prossecução dos seus fins estratégicos, servindo de palco para as ambições geopolíticas das grandes potências, designadamente dos EUA e da União Europeia, enquanto a população nativa paga o preço mais alto em sangue e destruição.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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DO EMPENHO QUE NOS FALTA

Europa muralha quando foi chamada a ser mar

O mar não tem muros, mas os homens constroem-nos dentro de si para não descobrirem o rosto por trás da onda.

Há uma imagem que a imprensa europeia repete, como um disco eliminado que lembra a de um mapa, com setas vermelhas a atravessarem o Estreito de Gibraltar, uma mancha densa de corpos anónimos a escalar a cerca de Ceuta. Fala-se em números de pelo menos 50 000, 80 afogados, fala-se em «pressão migratória», em «defesa das fronteiras», mas raramente se fala no que esses braços que nadam procuram, para além da linha imaginária que separa a África da Europa.

Ninguém nada contra as correntes do Mediterrâneo por desporto ou espírito de aventura. A água salgada não é um convite; é um desespero líquido, um último recurso e aqueles jovens carregam nas costas uma história inteira de injustiças, séculos de extração de riqueza, mapas de países traçados por outrem onde os seus recursos naturais e o seu trabalho foram sempre o combustível para o progresso alheio.

Quando Bruxelas ergue o tom e fala em «invasão», comete dois erros fatais porque troca a causa pelo efeito, e a pessoa pela estatística. Mas não se invade aquilo a que se pertence, ainda que por direito de humanidade partilhada. O que vemos não é uma mancha militar, mas o movimento tectónico da pobreza a chocar contra a muralha rica da indiferença.

Por trás da Onda há uma Economia de Exploração e a Atração pelo Abismo

Há uma verdade incómoda que os discursos oficiais evitam: a Europa e os Estados Unidos são os grandes beneficiários de um sistema que mantém o Sul global numa dependência perene. Extraem-se minerais, explora-se a mão de obra, transferem-se lucros e depois, de maneira surpreendente e hipócrita, erguem-se barreiras para impedir que os corpos desses mesmos trabalhadores sigam o caminho do capital.

A solução proposta é quase sempre a mesma: contenção, devolução, dissuasão. Raramente se pergunta: porque é que a Europa é tão atrativa? E a resposta é cruelmente óbvia, porque concentra a riqueza que foi, em boa parte, construída sobre os ombros daqueles que agora batem à porta.

Mas há um caminho alternativo, um caminho de empenho, não de luta. A palavra lutar traz já em si a mecha masculina guerreira. Por isso é melhor falarmos de empenho. Empenho em criar filiais industriais nos países de origem. Empenho em transferir tecnologia e em pagar preços justos pelas matérias-primas. Empenho em reduzir a atratividade da Europa, não a tornando pior, mas tornando o mundo melhor.

Não se trata de uma caridade paternalista nas de inteligência estratégica com rosto humano. Se os jovens da margem sul tiverem escolas, empregos dignos, hospitais e esperança, a travessia mortal deixa de fazer sentido. A pressão migratória não se resolve com arames farpados; resolve-se com estradas, fábricas e universidades. E isto fica mais barato e é mais justo e sobretudo mais eficaz.

O Palco da Guerra é o Sorvedouro que tudo justifica

Enquanto nos debatemos com os 80 afogados de Ceuta, os orçamentos europeus incham com verbas para a defesa. Ouvimos ministros, como o alemão Pistorius, pregar a «preparação para a guerra» com a mesma naturalidade com que outros falam do tempo. O comediante Dieter Hallervorden, com a verdade crua que só a sátira permite, chamou-lhe «ministro da Guerra» e mandou para o inferno quem exige que nos tornemos belicosos. O que disse parece exagerado, mas tem razão e até justifica que é melhor ser covarde durante dois minutos do que estar morto para o resto da vida.

A história, essa velha professora que nunca repetimos, ensina-nos que o rearmamento não é segurança, mas sim uma profecia que se auto-cumpre. Cada euro gasto em tanques é um euro roubado ao bom entendimento, à educação, à saúde, às pensões, ao ambiente e provoca uma espiral de escalada que, como sabemos, desemboca sempre no mesmo lugar o campo de batalha, onde a lógica falha e os factos brutos prevalecem.

E quem paga o preço? Certamente não a pequena elite que, numa eventual crise, emigra para paraísos fiscais ou países neutros. Quem paga são os que ficam, os que não têm para onde fugir, os que dependem do sistema público que se desmorona para financiar a indústria bélica. Os mesmos que, ironicamente, são convocados para odiar o estrangeiro, quando o verdadeiro inimigo, tantas vezes, está dentro de portas e veste fato e gravata.

Uma Elite governante doente contamina a Democracia e o seu Povo

A democracia europeia está doente e não por falta de eleições, mas por falta de escuta. Os governantes, reféns de grandes grupos económicos globais, privilegiam o lucro máximo e imediato em detrimento da justiça social duradoura. Mas se a política se virasse para a solidariedade efetiva, com planos concretos de cooperação, com perdão da dívida, com investimento real nos países mais pobres, o apoio popular seria esmagador. As pessoas comuns não são estúpidas e sabem que a exploração do ser humano e da natureza tem um custo que, mais cedo ou mais tarde, todos pagamos. Observam que gerir a miséria é um negócio cruel e sabem que resolvê-la seria um investimento em paz.

Se os governantes percebessem que o seu poder não está em controlar a orientação mental dos cidadãos através do engano e do medo, mas em alinhar os interesses da nação com os interesses da humanidade, não precisariam de manipular, de dividir ou de guerrear. Um povo que se sente ouvido não precisa de ser vigiado. A guerra, aliás, é o último recurso dos que já não têm argumentos de esperança.

A Modus de Conclusão

O rearmamento é, além do mais, uma catástrofe ecológica. As indústrias bélicas são das mais poluentes do globo. Mas o debate público insiste em separar o ambiente dos mísseis, como se o ar que respirarmos pudesse escolher entre a paz e a guerra.

A verdadeira segurança dos povos não está nas ogivas nucleares, mas na capacidade partilhada de cultivar, de curar, de construir. Não há muro alto que proteja uma ilha de prosperidade rodeada por um oceano de miséria. Esse mar não respeita fronteiras, porque leva corpos, leva sementes, leva poluição e leva histórias.

Por vezes o que parece desordem não é desordem, é apenas a única ordem possível para quem olha o mundo com os olhos abertos e onde a indignação é o princípio da lucidez.

No fundo, o que Ceuta nos mostra não é uma invasão, mas um espelho que reflete um mundo que escolheu a defesa em vez do abraço e o lucro em vez da vida.

O verdadeiro empenho político deveria consagrar-se à paz com a mesma veemência com que se consagra à guerra. Consagrar-se-ia, pois, à educação, não à doutrinação, à produção local contra o dumping global. E então, em vez de se perder a contar os afogados, ouviria, finalmente, o que dizem os que nadam.

A verdadeira vitória não é impedir que cheguem, mas fazer com que não precisem de partir. Que o mar, um dia, sirva apenas para nos unir, nunca para nos sepultar.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

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O ROSTO PROSÉLITO

(A farsa política moderna dá-se na substituição do rosto pela sigla,
do abraço pelo manifesto, da dúvida pela doutrina
onde mentes brilhantes se imolam numa guerra de ecos,
acreditando que repetir o credo partidário é servir a humanidade,
quando na verdade estão a servir uma caricatura de si mesmos. )

 

Eles levantam-se cedo, de afecto engomado,

e as palavras já vêm no papel timbrado,

ninguém as pariu, ninguém as provou.

São versos de outrem, bordados na pressa,

que a boca repete, mas a alma não tece,

e o rosto, coitado, da fala se esvai.

 

Reúnem-se em salas de luz fluorescente,

erguem-se braços, discursos veementes,

mas cada argumento é um punho fechado

que nunca tocou no suor do operário,

nem viu a criança com fome no lar,

nem sentiu o frio do velho da praça.

 

E o pior, não é a ignorância, não!

é ver o inteligente, o douto, o sagaz,

gastar a ciência a polir a razão

de um credo que sabe, no fundo, falaz.

Amar o próximo? Sim, mas só se o próximo

assinar o papel, jurar a bandeira,

alinhar-se todo ao verso metódico

que a comissão aprova na sexta-feira.

 

E que tristeza ver a inteligência

servir de escudo a uma máscara oca,

quando podia, na simples demência

de ser humano, sentar-se à tua mesa,

olhar-te nos olhos, beber da tua falta,

e esquecer, por um instante, a tese

que a sua própria boca já ensaia e exalta.

 

Porque a luta que diz defender o Homem

esquece-se dele no primeiro minuto:

troca-lhe a face por um nome comum,

troca-lhe a dúvida pelo estatuto,

troca-lhe a carne viva, que sangra e ama,

pelo arquivo morto de um programa.

E a ciência, outrora chama pura,

vira ferramenta de propaganda obscura

ao serviço da casa que a si mesma se inclina.

 

Mas não, meu amigo, não te conformes.

A máscara pesa, mas o rosto persiste.

Por baixo do slogan, do voto, das normas,

há sempre um homem que nunca desiste

de olhar outro homem, sem partido, sem causa,

e lhe estender a mão, não para o converter,

mas para, com ele, na sua pausa,

se lembrar que o político há-de ser

aquele que serve e não o que oprime,

que a sigla se dobre e o humano redima,

que a assembleia se faça onde alguém se estima,

e a verdade comece onde o medo e cálculo não prime.

 

Por isso, ergo este verso contra o esquecimento:

não há revolução que valha um tormento

se o homem que a faz se desfaz em contento

de ser só a sombra do seu partido.

O génio divino que em ti foi nascido

não quer a legenda, quer o corpo inteiro,

quer o “nós” que se faz sem manual ou dinheiro,

quer a política que chora e que sente,

e, em vez de discurso, oferece presente

o simples encontro de dois que se olham,

e sabem que os mundos, por mais que se escolham,

só valem se neles couber o outro

o outro, o teu, o nosso, o humano,

esse inclassificável, eterno, andarilho,

que não cabe em sigla, nem em plano,

e só se revela quando o deixamos ser,

não combatente, mas irmão.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © : https://antonio-justo.eu/?p=11268
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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